‘Todos os contos’: palmo a palmo, a medida de uma Clarice imensa

28/05/2016

46284675Todos os contos de Clarice Lispector (Rocco, 656 páginas) é o livro-monumento que o país devia àquela que foi, ao lado de Guimarães Rosa, a voz mais original da ficção brasileira no século 20. De forma embaraçosa, a dívida foi paga com dinheiro emprestado: até na bela sobrecapa premiada de Paul Sahre, o volume de capa dura que chega ao leitor brasileiro é o que foi organizado pelo biógrafo e pesquisador americano Benjamin Moser e publicado ano passado nos EUA, com tradução de Katrina Dodson e notável sucesso de crítica.

Até então a obra contística da autora estava dispersa em brochuras cheias de superposições, a maioria contendo – por decisão dela – histórias reaproveitadas de coletâneas anteriores. Limadas as redundâncias e incluídos os contos da juventude e do fim da vida que só postumamente saíram em livro, temos um total de 84 histórias e uma tentação irresistível: a de concluir que foi na narrativa curta, e não nos romances e novelas, que a arte de Clarice atingiu seu ponto mais alto. Não é dizer pouco.

O embaraço da “importação” escapa de ser vexame porque Clarice nunca foi uma escritora negligenciada que o olhar estrangeiro tivesse nos ensinado a descobrir. Meio incompreendida, talvez: é o que sugerem as recentes edições de seus livros pela Rocco, um desfile de capas suavemente piegas que, de modo anticlariciano, parecem vender “literatura para moças”. Negligenciada, não. Desde sua morte, em 9 de dezembro 1977, um dia antes de completar 57 anos, a fama da prosadora nascida na Ucrânia em tempo de pogrom – e emigrada com a família judia para o Recife aos dois anos incompletos – não parou de crescer.

Clarice foi se agigantando na estima dos leitores, no prestígio acadêmico, na influência sobre gerações de escritoras “intimistas” e até como oráculo de autoajuda nas redes sociais, onde frases suas – e outras que ela jamais sonharia escrever – são compartilhadas por multidões. O nome de Clarice “Linspector” (como muitas vezes é grafado erroneamente) conquistou uma popularidade quase inacessível a escritores num país maciçamente iletrado. O trabalho de Moser é um capítulo decisivo de sua projeção internacional, mas a reputação clariciana se funda sobretudo na universalidade intrínseca e na consagração doméstica. É tão difícil vender ao mundo um escritor que lide com questões excessivamente locais quanto um que não tenha sido abraçado por sua própria gente.

Escritos ao longo de quatro décadas, seria de esperar que a irregularidade fosse uma marca dos textos de Todos os contos. Ainda assim, a oscilação de qualidade chama a atenção. Há os que, em vez de contos, ficariam mais à vontade classificados como crônicas, exercícios incipientes de estilo e até artigos jornalísticos. Outros, como a maioria dos que Clarice escreveu em poucos dias para o volume A Via Crucis do corpo, de 1974, valem como curiosidades em que a autora tentou sem sucesso brincar de Nelson Rodrigues, arriscando-se num tom popularesco que acaba tendendo ao tolo. Quem quiser ficar apenas com as obras-primas pode ir diretamente a histórias consagradas como “Feliz aniversário”, “Amor”, “Uma galinha”, “A legião estrangeira”, “Viagem a Petrópolis”, “O ovo e a galinha” e “Felicidade clandestina” – pontos altos não só do conto brasileiro, mas universal.

No entanto, ficar apenas com os momentos de excelência seria desperdiçar as maiores contribuições deste livro para a compreensão de Clarice. A principal é a visão de conjunto que revela com nitidez sua opção inegociável pelo risco, pelo salto mortal que tenta uma conexão imediata e às vezes afoita com o indizível – a estratégia por trás do sucesso é a mesma que explica o malogro. “Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão”, escreveu. Mulher de classe média às voltas com banalidades domésticas, sua protagonista típica está sempre a um passo do abismo. A sensação de que “alguma coisa intranquila estava sucedendo” (“Amor”) é permanente e opressiva.

Mais do que pelo enredo, pouco mais que um fiapo a-histórico, a epifania é construída a golpes de linguagem. Ler este livro em ordem cronológica é acompanhar a viagem de uma jovem prodigiosamente dotada de recursos literários (como se vê no conto “O triunfo”) que vai aos poucos desaprendendo a escrever. Armada de uma gramática dissonante, fraturada e oral (“Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente”, lemos em “O ovo e a galinha”), ela tenta, com radicalidade comparável à de seu contemporâneo Samuel Beckett, nada menos que flagrar a linguagem no ato criminoso de inventar um sentido para o que não tem nenhum, ali onde “‘eu’ é apenas uma das palavras que se desenha enquanto se atende ao telefone”.

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Resenha publicada na edição da revista “Veja” que está nas bancas.

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