A Batalha da Praça da Sé

24/03/2009

Atendendo a pedidos, segue um trecho do capítulo 5 de “Elza, a garota”. Quem conta esta história é Xerxes, um velho comunista de 94 anos que conheceu (biblicamente, será?) a moça do título:

Na noite de sábado, peguei o trem para São Paulo com mais três camaradas, dois que eu nem me lembro e o Guarani. Descemos na Estação da Luz na manhã do domingo, o domingo em que seria a passeata, junto com gente que vinha de tudo quanto era lado, de Santos, do Sul, do Rio, de Minas, estivadores do tamanho daquelas estátuas realistas-socialistas ao lado de funcionários públicos com óculos fundo-de-garrafa e musculatura de louva-deus – tinha de tudo. Na estação, já começamos a sentir o clima. Estava um dia bonito, e como tínhamos algumas horas para matar antes da passeata propus um passeio pela cidade, que eu não conhecia, mas o Guarani disse que o combinado era irmos direto para a casa de um camarada nosso, um gráfico chamado Enzo, que morava no Brás. Lá seria a concentração de alguns companheiros, almoçaríamos de graça antes de seguir num grupo maior para a Praça da Sé. Chegamos antes das dez e a casa já estava cheia. Era uma casa modesta, branca de janelas amarelas, mas tinha um quintal espaçoso com algumas árvores, uns bancos compridos de madeira debaixo de videiras, gaiolas de passarinho. Enzo, um italiano de fisionomia severa, bigodão, nos recebeu meio seco, mas a hospitalidade foi mais que garantida pela mulher dele, que era uma dona muito simpática, muito sorridente. Veio da cozinha de avental sujo avisar que o cardápio era macarronada com polpetone, me lembro disso como se fosse o almoço de ontem. No quintal, nos juntamos a um grupo que já devia ter vinte pessoas ou mais, todo mundo bebendo vinho. O Enzo tinha duas filhas, Francesca e Gina, que eles chamavam bem à italiana, Frantchesca e Djina. Duas deusas, uma Sophia Loren e uma Gina Lollobrigida, que ficavam zanzando lépidas de pés descalços, indo de grupinho em grupinho com os garrafões, enchendo copos, fazendo piadas, rindo para todo mundo. Mas este lugar é o paraíso, eu me lembro de ter pensado, enquanto o Guarani me cutucava para ir com calma na bebida. Isso não é festa, ele disse, deixa a festa para depois do trabalho. O trabalho era a porradaria contra os integralistas. Confesso que não segui à risca o conselho de Guarani e estava zonzo quando saímos da casa de Enzo rumo à guerra. Gina e Francesca também foram. Isso me deixou preocupado quando nos aproximamos do nosso ponto de encontro, que seria no Largo de São Bento, observados à distância por batalhões de policiais a cavalo, e eu comecei a ver gente com soco-inglês, porrete na mão, outros levando livros do Lênin, A Classe Operária, A Plebe ou A Manha enrolados em canudos, como se fossem para matar moscas. Mas a maioria de mãos abanando mesmo, olhos brilhantes de confiança e só. E precisava mais? Entendi então que ninguém estava preocupado com detalhes como força física ou experiência em escaramuças de rua, tinha muita mulher no meio, tinha até criança. Aquilo era uma festa cívica. Perdi Gina e Francesca de vista, mas relaxei. Um frisson absolutamente irresponsável, delicioso, percorria as fileiras antifascistas: era chegada a hora de acertar contas com aquela escória. Tínhamos gosto de sangue na boca, minha cabeça girava e eu acho que não era mais só por causa do vinho. Se Hitler e Mussolini estavam fora do alcance de nossos paus e pedras, os camisas-verdes de Plínio Salgado não estavam.

Eu seguia os comandos de companheiros que não conhecia, tudo uma confusão de gente e palavras de ordem, e já não via nem o Guarani nem conhecido nenhum. Mas sabia que o caos era apenas aparente. A estratégia militar tinha sido traçada pelo João Cabanas e pelo Roberto Sisson, caras que entendiam do riscado. Tinha pontos de concentração no Largo João Meneses, no pátio do Convento do Carmo, na Praça Ramos de Azevedo… Você conhece o centro de São Paulo? Dizem que a passeata dos galinhas-verdes chegou a tomar dois quilômetros da Brigadeiro Luiz Antônio, coisa de oito mil pessoas, não sei se é verdade. Só sei que, chegando na Praça, com mulheres e crianças fazendo o papel de abre-alas, bandeiras do Sigma tremulando, aquele rio verde começou a ser comprimido nas duas margens pelos rochedos vermelhos. Se eles eram oito mil, quantos seríamos nós? E a troca de insultos começou. Foi um tal de morra! pra cá, viva! pra lá, alguns mais esquentadinhos já começaram a sair no tapa ali mesmo. De repente, ouvimos tiros, mas era impossível saber de onde tinham vindo. Sentindo-se seguros com a proteção policial, que era de centenas de homens, uma fartura que eu nunca tinha visto de bombeiros, cavalarianos e policiais civis armados, os oradores integralistas começaram a discursar na escadaria da catedral debaixo de uma vaia de ensurdecer. Plínio Salgado, que não era besta, não apareceu, ficou com o rabo entre as pernas na sede do partido. Era impossível ouvir qualquer coisa. Eu comecei a suar em bicas no meio daquela panela de pressão, o sal me entrava nos olhos deformando tudo. De repente, bem claro, como se viesse do céu, um som picotado e inconfundível que até então eu só conhecia dos filmes de guerra: uma rajada de metralhadora. Por instinto, dei meia-volta e ia sair correndo, mas fui salvo do vexame por uma velhota de xale preto nos ombros, cara soturna de siciliana, que naquele momento me pareceu a própria Morte. Ela me agarrou o braço e disse: Coragem, homem. Sem graça, murmurei: É que eu preciso ir ao banheiro. Sei, respondeu a velha, já está se cagando. Tentei salvar a honra com um riso de desdém, mas tratei de sair rapidamente de perto da bruxa. De todo modo não fugi, tinha passado o impulso de covardia. Fui caminhando com lentidão estudada para a direita, na direção de um grupo mais denso onde naquele momento, em cima de um caixote, começava a improvisar um pequeno comício paralelo um sujeito que eu reconheci das fotos dos jornais que lia na casa do meu tio João Mateus: era Edgard Leuenroth, o grande líder anarquista. Fiquei por ali, aplaudindo cada palavra dele como se aplaudisse meu próprio passado. Percebi que pequenos comícios como aquele iam pipocando em outros pontos da praça. E de repente o tiroteio rebentou de vez.

Nunca se soube quem começou. As balas zuniam, corria gente para todo lado, e tome pop-pop-pop. Fui procurar proteção atrás de uma árvore e no caminho vi que a velha com cara de siciliana continuava impassível em seu lugar, plantada lá com seus sapatos pretos: era a única pessoa parada no meio daquele redemoinho de gente, como se fosse o próprio eixo da roda de insanidade em que se transformara a Praça da Sé. Vi pessoas caindo, não sei se porque tinham sido alvejadas ou porque tropeçavam mesmo, mas de uma forma ou de outra eram pisadas por quem vinha atrás, e ouvi gritos de dor, uivos de pânico, ordens contraditórias, por aqui, calma, para cima, é agora, socorro! De repente, um garoto camisa-verde mais desorientado cruzou na minha frente e sem pensar eu lhe mandei um murro bem no meio do nariz. Ele caiu de joelhos e começou a chorar feito um bebê, o sangue jorrando. Muito bem, companheiro, senti tapinhas nas costas quando finalmente alcancei a árvore que mantinha na mira. A dor em minha mão era aguda.

Os tiros tinham ficado mais esparsos, o frenesi começou a baixar. Alguém gritou que os galinhas estavam batendo em retirada, e era verdade: a Praça da Sé excretava jatos verdes por todos os poros, uma cena linda. Alguns arrancavam as camisas enquanto corriam, tentando se livrar da cor que os denunciava, e essas peças infames eram coletadas por companheiros eufóricos, que as erguiam como troféus, berrando: Vitória! Vitória!

18 Comments

  • Bruno M. Oliveira 24/03/2009 at 20:00

    Parabéns, Sérgio.

    A julgar por esse tira-gosto, o romance deve ser uma beleza.

    Abraço!

  • ricardo 24/03/2009 at 20:21

    Sérgio, precisamos de mais livros como o seu na literatura brasileira. Livros voltados para fora, digamos, que discutem o país, e bem escritos. Li alguns trechos do romance numa livraria e vou comprá-lo em breve.

    boa sorte.

  • isaac 24/03/2009 at 21:06

    sérgio, obrigado.
    grande abraço.

  • Sérgio Rodrigues 24/03/2009 at 23:01

    Bruno e Ricardo, obrigado. Espero que o livro fique à altura de sua impressão inicial.

    Outro abraço, Isaac.

  • Rafael 25/03/2009 at 10:01

    Sérgio,

    Trecho bem escrito, que entretém e instiga a curiosidade. Dou-lhe os parabéns.

    Uma observação: um bando de marmanjos, divido em dois grupos, um, o dos camisas vermelhas e outro, os dos camisas verdes, se engafinhando numa praça pública, há um quê de ridículo em tudo isso que faz lembrar as disputas dos liliputianos e dos blefuscudianos em torno do lado correto para se quebrar um ovo.

    Não lembro quem disse que a História é o repertório da tolice humana. Assino embaixo.

  • Cezar Santos 25/03/2009 at 10:22

    Sérgio, tu tá afiado na narração. Vou comprar o Elza em breve. Parabéns pelo que parece ser um bom livro, o que tá em falta na literatura brasileira atual, de muita espuma e pouca substância.

  • kylderi 25/03/2009 at 12:47

    Ô Sérgio, não poderia ter colocado um trecho sobre a própria Elvira/Elza? E a moral sexual dos comunistas? O PCdoB não aceitava homossexuais na militância e Fernado Morais revela em Olga que Prestes era virgem aos 38 anos e que com Olga foi sua primeira vez. Como um dirigente comunista adota como amante uma adolescente, já que os comunas eram puritanos?

  • raimundo carrero 25/03/2009 at 15:13

    Ô, Sérgio, seu romance é realmente muito bom e me alegra que seja assim. Este episódio, rápido e seguro, mostra o que chamo de pulsação narrativa – ou seja, cena e personagem se ajustam no tempo e no espaço para seduzir o leitor. A narrativa caminha sozinha, sem a intervenção nem mesmo do narrador e, sobretudo, do autor. O que estraga muitos romances é, justamente, a presença do autor na pele do narrador. O texto avança sozinho.
    Gosto demais desta cena e vou levá-la sempre comigo para mostrar aos meus alunos, tanto nas oficinas quanto no programa de rádio que tenho aqui na CBN. Além disso, a velocidade é resultado de outra técnica que chamo de cena sobre cena, sem cenários ou digressões. Perfeitamente equilibrada, oferecendo visões de personagens e de situações sem perder o pulso. Basta observar essa figura de velha que concede densidade dramática ao homem que oscila entre a covardia e a coragem. Parabéns. Sinceramente, Raimundo Carrero

  • Tibor Moricz 25/03/2009 at 15:17

    Cara, me senti no meio do furacão. Saindo de fininho também, me borrando todo que não tenho nada de herói. Parabéns, Sérgio.

  • José Cassarotti 25/03/2009 at 15:56

    Excelente: a narrativa de seu livro;gostaria de saber onde encontra-lo.

  • Sérgio Rodrigues 25/03/2009 at 21:17

    Carrero, meu caro: obrigado pela generosidade das suas palavras. Sua reação ao Elza é um grande prazer.

    Rafael, Cezar, Tibor, obrigado. Espero que o trecho os anime a ler o livro inteiro.

    Kildery: não me consta que os comunistas fossem puritanos. A discriminação a homossexuais era bem disseminada na época na sociedade como um todo, e a longa virgindade do Prestes (àquela altura comunista há pouco tempo) era uma coisa dele mesmo.

    José: o livro, pelo que sei, está com boa distribuição nacional e exposto com destaque em muitas livrarias. Deve ser fácil encontrá-lo.

    Abraços a todos.

  • josé rubens 26/03/2009 at 10:54

    Sérgio, essa “isca” que voce jogou me fisgou em cheio. Além da narrativa ser interessante, não há nada mais chato do que ler um livro pela internet, prefiro mil vezes sentir aquele cheiro de papel, o lento folhear das páginas, isso é mágico, é insubstituível.

  • Eric Novello 26/03/2009 at 11:59

    Bom lançamento, Sérgio!
    E bom trecho destacado. Tinha ficado com uma idéia Truman Capote na cabeça, deu para situar bem melhor o contexto literário.
    Abss!

  • rique 26/03/2009 at 17:09

    Lembra roteiro da GLOBO.Semântica de “posto 6”,cenário de PROJAC,mesmo.Paulo Coelho,versão “romance político”. Tente ,outra.

  • Rafael 26/03/2009 at 18:47

    O indivíduo aí em cima escreveu uma crítica construtiva muito inteligente e refinada. Fico imaginando a operação complexa que foi para ele mobilizar os neurônios cerebrais na redação desse texto brilhante!

  • Daniel Brazil 26/03/2009 at 21:42

    Bom tira-gosto, Sérgio! (tiraram o trema do tira-gosto?)
    Aliás, tira-gosto devia se chamar bota-gosto, não?
    Aguardo lançamento em Sampa.

  • Pedro 29/03/2009 at 15:09

    Elza é a garota que foi enforcada por vários companheiros, acusada de delatar um cumpanheiru,……….más logo depois do serviço feito e o seu corpo enterrado no quintal, descobriu-se que não tinha sido ela?????? É o espurgo!!!!!!!!!!!!!!!

  • Djabal 30/03/2009 at 08:20

    Desejo ao livro toda a sorte do mundo. E ao autor fica um grande abraço, aliado aos parabéns pela coragem e iniciativa.

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