A blogueira e o estruturalista

20/08/2007

O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você.

Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranqüila de viúvo sem ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser.

Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estóico diante do que, embora parecesse de uma crueldade diabólica com quem dedicara a vida à literatura, provavelmente não passava de mais um engodo simples no quadro de um logro muito maior.

A blogueira tinha, além de um fotolog estudadamente sexy, um blog supercool de autoridade 237 no Technorati onde publicava quase todos os dias poemas trocadilhescos de três versos e minicontos mais ou menos confessionais. Em conjunto, os dois empreendimentos virtuais a situavam no topo da pirâmide formada pelas poucas centenas de pessoas que, desdobrando-se em milhares de nicks para confundir (com sucesso) a velha imprensa de papel, faziam a glória da chamada blogosfera literária nacional, um meio em que a blogueira era ridiculamente famosa.

O estruturalista não saberia dizer por que aceitou o convite da blogueira, de quem jamais ouvira falar, para tomar um café no mezanino da livraria. Ela sabia por que o tinha convidado, ou acreditava saber, mas no início era vago o plano concebido de estalo na fila do caixa. Depois de reconhecer o estruturalista como alguém que um dia tinha sido importante na literatura brasileira, pelo menos assim dizia o programa sobre Grandes Críticos que vira algum tempo atrás na TV educativa, achou que na pior das hipóteses descolaria um post tragidoce ou agricômico sobre o tempo, os tempos. Como se o homem pertencesse à Rússia tsarista e ela fosse uma improvável bolchevique compreensiva.

A blogueira e o estruturalista eram nada parecidos, ela era um tesão e ele tinha setenta e três, mas do expresso passaram pro scotch, da megalivraria pro barzinho penumbroso, do engov pro viagra, e na manhã seguinte ele abriu os olhos primeiro em sua cama de casal e teve vontade de chorar com a visão daquela barriguinha morena espetada com alfinete entre os lençóis. A blogueira acordou sem graça pensando no que diriam seus amigos se soubessem, fetiche, doença, seventy-plus.com, e com essa zoeira na cabeça foi talvez até um pouco rude ao se despedir. Mas aquela tarde, quando o estruturalista ligou, seu coração bateu mais forte e ela disse que sim, sim, sins, tô indo.

O estruturalista leu os poemas trocadilhescos de três versos e os minicontos mais ou menos confessionais da blogueira e achou tudo uma merda, mas disfarçou e disse, sorriso amarelo, que a culpa era dele mesmo, dinossauro chato. A blogueira folheou os livros de páginas manchadas do estruturalista e quase morreu de tédio, pensando, se literatura é isso, tô fora. Diante dele, porém, preferiu bancar a burrinha dizendo que parecia tudo muito bonito e complexo e importante, mas além da sua compreensão.

Um ano depois, enquanto o estruturalista definhava numa cama de hospital, linfoma não-Hodgkin, a blogueira ficou ao seu lado dia e noite, num convívio íntimo com a morte que durou cinco semanas e a levou a repensar a vida inteira com um misto de vergonha do passado e ânsia de futuro. Na madrugada em que o estruturalista morreu e ela se acabou de chorar, estava madura a decisão de trocar o blog pela faculdade de enfermagem.

81 Comments

  • Noga Lubicz Sklar 20/08/2007 at 20:42

    Tá certo. O amor é mais importante (e bem mais inexplicável) que a literatura, apesar da flagrante dificuldade de lidar com ele, com o amor, digo. O amor amadurece, e a maturidade leva mesmo os aventureiros para longe da literatura. Só os bravos ficam. Como vc, Sérgio. Gostei do texto.

  • dona de casa gorda 20/08/2007 at 22:25

    bom texto, serginho.

  • Sérgio Rodrigues 20/08/2007 at 22:30

    Valeu, Noga. E fique longe dos estruturalistas.

  • Rafael Rodrigues 20/08/2007 at 22:52

    Gostei do conto, Sérgio. Só poderia ser ficção mesmo. Se fosse realidade, o estruturalista detonaria os escritos da blogueira, que escreveria um post muito embirradinho, xingando o estruturalista e dizendo que ele é o porta-voz de alguém ou algo do tipo.

  • alfredo mascarenhas 21/08/2007 at 02:20

    Sergio, sempre gostei do blog, mas achei esse texto mais raso que “O Homem-Aranha 3”. Até para texto de blog. Pena. Só espero que ninguém o leve a sério…

  • Bemveja 21/08/2007 at 07:53

    Pelo menos eles não procriaram. O resultado da união entre uma blogueira e um estruturalista seria com toda a certeza a criatura mais chata da história da humanidade. O primeiro choro na maternidade já colocaria médicos e enfermeiras p/ dormir.

    Começar um história com quem/quando é arriscado (vide a lição do Paul Valéry contra narrativas com inícios do tipo “A Marquesa saiu às cinco horas” etc). A segunda frase, “mais tarde, ao se lembrar” é um empréstimo, claro, da saga de GGM sobre o clã Buendía.

    Essa ironia melancólica/machadiana do conto, com as descrições meio maledicentes dos personagens e sua psicologia e os finais invariavelmente funéreos, é um recurso que não me serve de atrativo e que me parece um clichê recorrente em autores entre 30 e 50 anos. Não é por acaso que carpideiras feito J.M. Coetzee e Ian McEwan, com suas cantilenas pomposas e sombrias, são tão comentadas hoje em dia.

    O título é muito bom. Em tempos em que as pessoas intitulam suas obras com nomes burocráticos e insípidos tipo “O Paraíso é Bem Bacana” ou “Saneamento Básico”, o trocadilho intergeracional do título do conto é excelente, já seria um atrativo especial numa pilha de leitura ou no índice de uma publicação literária.

    p.s.: espresso meu caro Sérgio, expresso é ou o que se expressa ou um trem.

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 08:55

    Nada disso, Bemveja: “expresso” mesmo. Leia aí embaixo o texto d”A palavra é…’ em que explico por quê.

    Expresso

    05.01.2006 | Não estou entre os que lamentam a progressiva ocupação de espaços que o café italiano espumante e forte, espremido na hora em máquinas fumegantes, vem promovendo há anos nas esquinas brasileiras. Pelo contrário: se um cafezinho coado à nossa moda tem o seu valor, raramente se pode dizer o mesmo da beberagem perpetuamente requentada que se encontra – cada vez menos, ainda bem – nos bares e restaurantes da cidade.

    Para quem gosta de metáforas, talvez seja até possível ver um paralelo entre essa declaração de amor ao expresso e uma postura diante do mundo, segundo a qual, pensando bem, talvez não seja verdade que tudo no Brasil – costumes, língua, esperança, enfim, tudo mesmo – está indo ladeira abaixo. Quem sabe o expresso não é a prova mais eloqüente de que todo esse pessimismo é furado?

    Fiz o preâmbulo para comentar a mensagem que me enviou há poucos dias o leitor que se identifica só como Luiz Otávio: “O café é expresso ou espresso? Por favor, resolva essa dúvida atroz para que eu possa voltar a apreciá-lo novamente!” A dúvida é procedente e agravada por uma vergonhosa omissão de nossos principais dicionários: Aurélio e Houaiss ignoram solenemente esse tipo de café, é como se ele não existisse.

    Apesar deles, o Brasil tem adotado a grafia “expresso”. O “Dicionário de Usos” de Francisco S. Borba a registra, com uma abonação já bem antiguinha, de 1987, tirada do livro “Olga”, do jornalista Fernando Morais: “Levantavam o indicador e diziam apenas: um expresso!, que passavam horas bebericando enquanto apreciavam o movimento”.

    Isso não quer dizer que a questão seja café pequeno. Há quem defenda o uso da palavra em italiano mesmo, espresso, sem adaptação de grafia, alegando que, embora soe mais “natural” em português, “expresso” induz o leitor a acreditar que o particípio irregular de “exprimir” tem algo a ver com a mecânica do café espresso.

    Acontece que expresso, no papel de adjetivo e substantivo, significa também aquilo que vai direto ao ponto, sem escalas, como um trem; ou aquilo que é feito na hora – e assim chegamos finalmente ao ponto que interessa aqui, no caso do café.

    Expresso é simplesmente, sem tirar nem pôr, a tradução de espresso. Se mergulharmos fundo na história das palavras, vamos descobrir que têm o mesmo antepassado, o latim exprimere, o que acaba dando ao tal café umas fumaças de sabedoria etimológica.

    Ah, e o meu curto, por favor.

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 09:06

    Quanto à sua mensagem, Alfredo Mascarenhas, tudo neste blog deve ser levado a sério. Até – ou especialmente – quando não.

  • velhaco 21/08/2007 at 09:14

    Difícil é achar um estruturalista mesmo aos 73.

  • Bemveja 21/08/2007 at 09:18

    Uma única abonação, que nada mais é do que a exceção que justifica a regra, calcada num livro de Fernando Morais de 1987 chega a ser surreal, por se tratar, ao mesmo tempo, de um neologismo e de anacronismo: ele usa uma grafia que posivelmente não seria usada à época dos fatos narrados no livros e que, naturalmente, não é usada dessa forma em seu contexto nativo italiano nem nas demais línguas que adotaram a bebida.

    Conforme vc menciona, a palavra não está abonada nem no Houaiss nem no Aurélio, os dicionários que contam, e não foi consagrada pelo uso. Trata-se de um termo de formulação, tal como tiramisú, caipirinha etc. O aportuguesamento me parece meio canhestro nesso caso.

  • Bemveja 21/08/2007 at 09:18

    posSivelmente

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 09:35

    Bemveja, faz tempo que a decisão por “expresso” foi tomada nas ruas, cafés, shoppings (eta, brasileirismo!), jornais, revistas, livros, enquanto nossos lexicógrafos cochilam. Surpresa nenhuma. Dicionários às vezes cochilam por séculos: até hoje o Aurélio não aceita o consagrado galicismo brasileiro “vitrine”, insistindo na forma lusitana “vitrina”, para você ter uma idéia do que é, aí sim, canhestro. Como canhestro, em minha opinião, é insistir em “espresso” a esta altura. Você chama de anacronismo uma abonação de 1987, o que é engraçado. Rapaz, eu tomava “expresso” em Ipanema em 1981. Venha dar uma volta no Brasil um dia desses.

  • Bemveja 21/08/2007 at 09:44

    Não frequento estabelecimentos que usem a grafia “expresso” a menos que se trate de uma estação ferroviária.

    Esse provincianismo restritivo no tratamento do idioma me lembra a declaração do Borges criticando a transcrição de nomes e denominações em geral. Perguntado sobre o que achava de se usar o termo “vikingo” ao invés de viking em espanhol, ele respondeu que tudo bem, deveríamos até começar a chamar Kipling de Kiplingo e por aí vai.

    Mas o que esperar de um país em que determinados setores acadêmicos ainda levam a sério, por exemplo, as idéias de Carlos Marques?

  • joao gomes 21/08/2007 at 09:51

    … entao, depois de trinta e seis luas nascia Macunaíma Silva na Unidade Neonatal de Santa Maria do Perpétuo Socorro. em 2050 foi presidente da república. E a língua oficial tornou-se Latim.

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 10:03

    Whatever, cosmopolita Bemveja. Vejo que sua sabedoria lingüística é inamovível. Permita-me apenas lhe sugerir humildemente que, quando vier ao Brasil, dê uma olhada em meu livro “What língua is esta?”. Embora aqui eu corra o risco de soar pretensioso, talvez ele consiga plantar em sua cabeça concretada de certezas a semente de uma dúvida sobre o que é obscurantista (provinciano?) e o que é esclarecido em embates desse tipo. Mas não se esqueça que eu disse ali em cima, antes de mais nada: whatever. O que significa propor o fim desse desvio lingüístico de escassa significação para o tema do post.

  • Cezar Santos 21/08/2007 at 10:15

    Essa Vejabem é um pé no saco mesmo, ô, coisa!!!!

  • vinicius jatobá 21/08/2007 at 10:32

    Bemveja, você é o cara mais mala da internet brasileira. Você entrou na fila para ser chato três ou quatro vezes. Sinceramente, sua erudição de almanaque é soporífera.

  • Mr. WRITER 21/08/2007 at 10:35

    A grande dúvida que assola minhas passagens por aqui é: Quanto tempo mais haverá gente querendo aparecer mais do pode, escrever mais do que deve e ainda por cima se achar a questão fundamental para a vida, o universo e tudo mais…
    Não se pode mais ler os posts e nem as ciaxas de comentários em paz…

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 10:59

    Mr Writer, compreendo seu desconforto e reconheço que esta caixa de comentários já teve épocas mais inteligentes e francas, mas acredito que isso possa se repetir. Em ambientes sem censura como este, o único antídoto contra a entropia internética é dar força às discussões mais férteis, mais desarmadas, ignorando o que parecer puro exibicionismo. Nem sempre é fácil, eu sei.

  • Mr. WRITER 21/08/2007 at 11:25

    Grato pela atenção Sérgio… meu coment foi mais um desabafo porque tem horas que o clima fica intragável… e tem ficado assim insitentemente. A censura realmente é algo a ser evitado, nisso todos nós concordamos, mas bem que os leitores poderiam ter um pouco mais de sensibilidade e de foco na hora de comentar, sei que isso está fora de qualquer controle, entretanto bom senso e atenção para o tema do post estão se tornando algo raríssimo enquanto reclamações, críticas vazia e coments extremamente verborrágico e intelectulóides estão sobressaindo ao que o blog Todoprosa se propõe, ou seja, falar de literatura, livros, escritos e afins. A egocentria de alguns acaba distorcendo o espaço da caixa de comentários dada a elevada densidade desses egos.
    Certas vezes chei a supor que essas coisas e atitudes desagradáveis tem mantido você (Sérgio) meio afastado do site, dái ocorrendo um intervalo grande entre um post e outro, algo que raríssimas vezes ocorria na época do Nomínimo.

    Mais uma vez obrigado pela atenção e pelo espaço, este é apenas um coment em tom de desabafo de um leitor sempre assíduo dos posts e hoje nem tanto da caixa de comentários.

  • Mr. WRITER 21/08/2007 at 11:28

    Desculpem os erros de digitação…

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 11:33

    Mr Writer, como eu disse, compreendo o desconforto, mas não tenho me afastado do blog. As notas continuam sendo renovadas cinco vezes por semana, com poucas exceções.

  • Uma T 21/08/2007 at 11:43

    expresso! e curto. baci a tutti.

  • Uma T 21/08/2007 at 12:00

    Sergio a sua paciência é infinita. Bravo, carino, bravissimo!

  • Kleber 21/08/2007 at 13:16

    um dia ainda vamos sentir saudades da era dos “ismos” e povoada por vários “istas”.

  • Bemveja 21/08/2007 at 13:18

    Caro Sérgio, não posso prometer, você tem fortes concorrentes nas estantes, mas um dia quem sabe lerei seu livro sobre o idioma, o tema é interessante e requer uma abordagem rigorosa e profissional. Espero que o livro esteja à altura do tema.

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 13:25

    E eu espero que você esteja à altura do livro, Bemveja.

  • Bemveja 21/08/2007 at 13:32

    Talvez eu esteja, se não hoje quem sabe um dia. Sou um leitor dos mais esforçados e não hesito em recorrer ao auxílio externo quando é o caso.

  • Mindingo 21/08/2007 at 13:41

    Bacana, este conto. Fácil escangalhar o estruturalista e a bloqueira, e fácil “tolerá-los”. Mas o conto os critica de maneira bastante sensível, pelo simples fluxo da narrativa. Que a estória (sim, estória) os critique, e não o autor.

  • clara lopez 21/08/2007 at 13:51

    Se os dois rapazes me permitem, gostei do post, Sérgio, está engraçado e coloca em questão esses dois universos tão díspares de forma bem-humorada, universos que terão, forçosamente, de se encontrar em algum momento, de alguma forma, pode ser na cama também, como você sugere, mas não apenas. Acho que você vai encontrar outros espaços para eles no futuro. Um abraço. Clara

  • Pedro Correia - CE 21/08/2007 at 14:37

    Caro Bemveja, o que faz um erudito de seu jaez dedicar seu tempo conosco, em caixas de comentários de blogs? Este clube aqui, ao receber sua inscrição, autamaticamente caça a outra, com a qual você se credencia. É um paradoxo. Conhecemos o de Zenão, conhecemos o dos biscoitos Tostines. E agora, continuando ladeira abaixo, conhecemos o de Bemveja.
    Tsk, tsk, tsk.
    Volta pra Cambridge, professor (tônica no E, por favor)

  • velhaco 21/08/2007 at 14:53

    O blog já teve comentaristas muito bons. Principalmente quando se dedicava à literatura e não ao que está à periferia da literatura.

  • Bemveja 21/08/2007 at 14:55

    Caro Pedro, não é a você que me dirijo, não sou tão otimista assim; do Ceará eu só faço uso das castanhas de caju, das piadas e dos serviços de guarda e vigilância prestados pelos porteiros nesse Brasil afora; a contribuição cearense à literatura me parece ínfima, e não vejo perspectivas de um novo James Joyce nascido e educado em Quixeramobim ou de um Erich Auerbach oriundo de Crateús.

    Eu me dirijo aos que tem condições formativas e talento suficiente para avaliar a produção literária e, quem sabe, produzir algo que esteja imune aos inúmeros defeitos que enxergo e aponto na literatura brasileira atual.

    Não se preocupe, você é apenas um dos eavesdroppers desse debate e, a rigor, não precisa ler o que escrevo (acho que meu estilo já fica evidente logo no início de qualquer comentário que faço, de modo que basta ler os seguintes); se algo lhe servir, tanto melhor, mas desconfio que você está irremediavelmente fora dessa liga.

  • Rafael 21/08/2007 at 15:50

    Ô Bemveja, como é que o Pedro pode ser um eavesdropper, se o debate se desenrola num ambiente de acesso público?

    Já que você se abalança à nobre tarefa de imunizar a literatura brasileira contemporânea dos inúmeros defeitos que a acometem, que pelo menos você se empenhe flaubertianamente em empregar as palavras com rigor semântico.

    Dê o exemplo, ó homem.

  • Claudio Soares 21/08/2007 at 15:52

    observo como os comentários do bemveja instigam a participação da galera. sérgio não deveria ficar tão chateado…

  • Bemveja 21/08/2007 at 16:05

    Engraçado Rafael, eu não tenho nenhuma dificuldade em passar batido por cima de diversas discussões bilaterais que se passam aqui (inclusive, ironicamente, algumas protagonizadas por você), nem tampouco de neutralizar conversas à minha volta que não me digam respeito. Se eu não entendo do assunto, não é comigo, não é porque duas pessoas estão conversando a meu lado num vagão de metrô sobre enegenharia aeroespacial que eu vou 1) intrometer-me na conversa 2)reclamar delas por saberem algo que desconheço 3)aguçar minha atenção ao que elas dizem, ao invés de me concentrar em algo que esteja na esfera de meus interesses e capacidades. Atenção é um procedimento seletivo.

  • Roger 21/08/2007 at 16:22

    Senhor Bemveja, você usa exatamente as mesmas referências, os mesmos nomes (Joyce, Valéry, Auerbach, etc.), exemplos (“A Marquesa saiu às cinco horas” hiiii!), expressões (“é um empréstimo, claro, da saga de GGM”; “me parece um clichê recorrente”), bla bla que usava um patético professor de literatura para impressionar aos jovens estudantes de primeiro ano de faculdade que nos éramos então. Demoramos pouco em perceber o pouco que o homem sabia e em achar ele ridículo (ainda bem que as leituras eram boas). Acredito que continua dando aulas. Escreve também as vezes no Babelia, e ainda hoje, nas criticas de autores norteamericanos (a “especialidade” dele) continua se exibindo com seu velho e repetitivo papo, novo para os sofridos leitores.

    Eu sou espanhol, moro em Porto Alegre, gosto de Ceará e de todos os lugares do Brasil que já conheci, e acabei de descobrir este blog. Estou achando ele muito interessante, mas seria bom estar discutindo sobre o conto, em vez de sobre vaidades e chatices.

  • Bemveja 21/08/2007 at 16:30

    Roger, pela contradição de sua msg (criticar o desvio de foco no tema e concorrer p/ a ampliação do desvio), a presença de professores medíocres na sua formação talvez não seja de todo surpreendente, mas o que você quer que eu faça? Garanto que não sou seu mestre que tantas marcas traumáticas lhe deixou. Aguardo, ansioso, seus insights sobre o conto.

  • Roger 21/08/2007 at 16:44

    Você não sabe nada do que eu sei. Só queria adicionar que resolvi escrever e dizer alto como você é ridículo simplesmente porque achei desrespeitoso e grosso o comentário que você dirigiu ao Pedro. Quanto à formação e traumas, as pessoas podem julgar o tom de seus comentários.

  • Pedro Correia - CE 21/08/2007 at 16:46

    Bemveja,

    Primeiro agradeço o recibo que me passou tão prontamente. Embora eu precise reconhecer a tentativa, ainda que frustrada, de escamoteá-lo. Responder ao cearense afirmando que não responde a ele foi algo pedestre. Mas, por outra visada, condiz com seu pendor ao paradoxo.

    Quanto aos inúmeros elogios ao povo do meu Ceará, agradeço assombrado. A tese do determinismo já me parecia gasta e, hoje em dia, seria apenas uma das muitas mantas do preconceito. Mas, em se tratando de alma tão fina, não posso interpretar como tal. Donde, deve mesmo ser fruto da leitura de manuais antigos, decorrente do longo processo bemvejano de depuração da caudalosa erudição.
    O recurso retórico de desqualificar o interlocutor, antigo desde os tempos de Schopenhauer, seria algo demasiado raso para figurar entre os punhais afiados do wit bemejano.
    Poranto, resta-me mesmo agradecer o alto conceito que tem de minha gente, sempre farta de empregos (portarias), comida (castanha) e espírito (piadas).

    Mas, alma ingênua e pouco estudada que sou (vide Ceará), surge-me outra dúvida ao ler seu recibo: se assegura que tem o caminho das pedras, e dos espinhos, da nossa lieteratura, por que não o publica seja em forma de teoria, seja em forma depurada de obra de arte, para deleite e fruição do público leitor e docente? Porque desperdiçá-lo entre leitores de blog? Será o erudito Bemveja um generoso ou um ávaro?

    Agora, peço liença. A síndica aqui do prédio está chamando. Como se sabe, sou cearense (logo, porteiro). Acho que ela quer comprar mais um saquinho das minhas castanhas.

  • Bemveja 21/08/2007 at 16:53

    Verificar o que você *não* sabe já lhe qualifica de modo mais que suficiente, Roger. Estou há 40 minutos respondendo, com paciência didática, a tentativas de comentários ad hominem e eu que sou “desrepeitoso e grosso”? Será que não é você que talvez padeça de um excesso de sensibilidades almodovarianas?

  • Tom 21/08/2007 at 16:53

    Tenho acompanhado o Todoprosa desde a época do Nomínimo e sempre preferi me manter apenas leitor.
    Mas agora não aguentei. Ô casca de ferida, desocupado, cri-cri, lazarento, recalcado, xexelento e preconceituoso que é esse tal de Bemveja.

  • Rafael 21/08/2007 at 16:54

    Bemveja,

    Meu único ponto é a imprecisão vocabular. Você havia chamado a atenção do Sérgio sobre a grafia de expresso/espresso. Você mesmo se atribui o papel de remediador dos vícios literários nacionais. Nada mais justo, diante disso, que eu lhe meça segundo sua própria régua. Portanto, meu caro, esse seu estrangeirismo, eavesdropper, que, esclareço aos monolíngües, significa pessoa que viola uma conversa privada, é completamente fora de propósito no contexto de um debate que toma corpo num blog de internet.

    Um crítico atilado como você deveria saber que a verdadeira literatura se constrói sobre a exatidão vocabular. A palavra errada debilita o pensamento que se pretendia expressar.

    Uma conversa entre duas pessoas, mesmo versando sobre engenharia aeroespacial, mesmo que travada num metrô, é assunto privado dos interlocutores. Nenhuma besteira que eu ou você escreva aqui será assunto privado. A qualquer um será lícito intrometer-se.

    Lembre-se da velha advertência de Horácio: nescit vox missa reverti. A palavra expressa não pode voltar.

  • Uma T 21/08/2007 at 17:02

    Sergio, vc é muito, muitíssimo paciente e educado.

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 17:35

    Obrigado, bela Uma. Hoje estão abusando. Uma questão semântica e, por enquanto, teórica: aí na terra dos Thurman, blog sem área de comentários ainda é blog?

  • Claudio Soares 21/08/2007 at 17:45

    tecnicamente, Sérgio, até poderia ser considerado. mas assim não teria graça nenhuma, não é?

  • Bemveja 21/08/2007 at 17:48

    Hoje eu não saio daqui pelo visto.
    Muito bem: Pedro Correia CE, você é, antes de tudo, um forte. Sua perseverança em se enxergar na qualidade de meu interlocutor, circunstância que você mesmo provocou ao se dirigir a mim e à qual reagi com sinceridade é, na pior das hipóteses, evidência da tenacidade dos cidadãos da “Terra da Luz”.

    Não é que eu não responda a você. Eu só não escrevo sobre Thomas Pynchon pensando “que bom, agora é só esperar p/ saber qual é a visão da escola cearense sobre o tema”. Se você tem algo a dizer sobre o tópico, vamos ouvir, mas não se viu isso em seu primeiro post. Pelo contrário, você me chamou de “professor” e sugeriu que eu voltasse à “Cambridge”, tal qual um sulista preconceituoso que chama todos nordestinos genericamente de “baianos” e os incentiva a voltar à “Paraíba”.

    Para mim, a literatura produzida no Ceará é um purgatório tortuoso, assombrado por espectros do tipo José de Alencar, Rachel de Queiroz e Patativa do Assaré. Não chega a ser minha praia. Na minha formação, é forçoso repetir, os únicos mensageiros cearenses de cultura foram os vigias que subiam para entregar minhas encomendas da Amazon. Isso, junto à escassez de universidades e movimentos literários reconhecidos no Estado, justificam meu ceticismo quanto à eclosão de um talento superlativo por aí no futuro próximo.

    Para mim, seria uma satisfação mencionar a dinâmica tradição e a variedade literária de seu Estado, mas pelo que me consta no Ceará não tem disso não! Sinta-se, claro, à vontade para me desmentir e apresentar exemplos em contrário.

    Quanto a você, não posso evitar o sentimento de que você não pertence ao nível de discussão que tento imprimir, simplesmente porque você ainda não emitiu quaisquer juízos de natureza literária, o que me faz suspeitar de que você não os tenha.

    Por que não publico? Talvez eu publique, who knows?

    Lembranças ao meu Ceará, do Araripe a Jericoacoara.

    Raphael, o conceito de privacidade tb se aplica ao espaço público. Há dois códigos conotativos simples para qualquer comunicação; primeiro, é preciso que se fale a mesma língua, inclusive no sentido de se dominar o vocabulário técnico e as referências da discussão. Em segundo lugar, o debate é direcionado soberanamente pelos que o mantém, e se dirige aos que estão habilitados a participar dele ou pelo menos a acompanhá-lo. Se eu lhe digo “desculpe, não estou falando com você”, ditam a racionalidade e a cortesia comum que você deveria abdicar de assistir a esse debate. Do contrário, a pessoa vira um paparazzo verbal, abusa de uma circunstância que, ainda que pública, merece usufruir das benesses do mundo civilizado.

  • Pedro Correia - CE 21/08/2007 at 18:08

    Bemveja,

    Você começa assim: “Pedro Correia CE, você é, antes de tudo, um forte. Sua perseverança em se enxergar na qualidade de meu interlocutor,…”
    Ora, o vocativo voca. E vocou-me. Caso não saiba, chamo-me Pedro Correia. Portanto, não sou eu quem força a interlocução. É você quem me agracia com ela.

    Supreendo-me ao vê-lo insistir que defendo uma produção literária cearense. Não lembro de ter dito isto, nem mesmo relendo os posts. Mas, será uma falácia lógica que você pretende fazer passar incólume, qual seja, a de que cearenses só podem gostar de autores cearenses. Donde eu ter que amar Patativa do Assaré enquanto os Dublinenses podem gostar de Joyce. Você é dublinense? Como gosta de Joyce, então?

    Ser porteiro ou ser um gênio literário. Eis o dilema que você lega aos meus conterrâneos. Agradeço novamente o elogio. Mas há médicos cearenses, economistas cearenses e até professores.

    Obrigado. Sua humildade me comove. O que seria de sua cultura sem os porteiros que levam pizzas e livros da Amazon. Você é único.

    Meus conceitos sobre literatura não lhe trarão novidade alguma. Não sou mais entendido que você neste assunto. Mas isso não me faz um porteiro anafalbeto como quer você. Nem tampouco faz de você o gênio ezrapoundiano que imagina. Ou não estaria discutindo comigo, por exemplo. Por mais que insista que não me dirige a palavra, continua dirigindo. Ezra não perderia um segundo de seu tempo com um porteiro ignorante.

  • Kleber 21/08/2007 at 18:09

    eita… tudo isso é por causa do continho do Sérgio? rs. Aff…

  • Pedro Correia - CE 21/08/2007 at 18:11

    “Analfabeto”, antes que você diga, em mais um rompante de erudição.

  • Tom 21/08/2007 at 18:20

    Putz! Parem de dar corda pra esse maluco!
    Pedro, não gaste suas digitais e seu fígado, o guri não bate muito bem, daqui a pouco vai estar dizendo que é Napoleão.

  • Bemveja 21/08/2007 at 18:25

    Não Pedro, fui eu quem disse (em resposta, vale lembrar, a uma msg originalmente sua dirigida a mim) que não posso alimentar expectativas de dialogar sobre literatura com um interlocutor que admite certo grau de ignorância (“por que gastar sua erudição conosco etc etc”) e cujo único dado conhecido objetivo é vir do Ceará, Estado de produção cultural muito modesta e sem alta tradição literária ou acadêmica. Não tenho dúvida de que há cearenses capazes nas mais variadas profissões, mas tb não se pode ignorar que, para sermos realistas, a massa de cearenses empregados no Centro-sul do Brasil ainda ocupa, por motivos diversos, funções de baixa especialização.

    Tenho de ir, vamos ler um pouco agora, por aqui a noite já vai mais negra do que a asa da graúna.

  • Rafael 21/08/2007 at 18:32

    “o conceito de privacidade tb se aplica ao espaço público”

    Sinceramente, Bemveja, esse discurso de Daniella Cicarelli flagrada nas calientes olas españolas é ridículo até para alguém com o seu calibre intelectual. Se você acha que pode impunemente fazer sacanagem verbal nesse espaço público, sem que ninguém profane sua sacrossanta privacidade, ah, meu caro, sinto dizer que os paparazzi estamos pouco se importando com sua opinião.

  • Cezar Santos 21/08/2007 at 19:25

    Que coisa, a turma está expressando coisas que postei aqui há dias… que esse vejabem é um pernóstico, analfabeto funcional e “aparecido”….
    Até mesmo o desafio de indicar um livro de sua lavra eu já fiz… com tal sapiÊncia, esse cara deve ter escrito no mínimo meia dúzia de obras-primas (aquelas coisas disponíveis em downloads não valem, porque são umas porcarias…).
    Cara, pendure uma melancia aberta no pescoço e desfile pela city…

  • A enteada 21/08/2007 at 19:45

    Não acho o Benveja pernóstico, analfabeto funcional e “aparecido”….
    Ele começou comentando o que achava do conto do Sérgio. As reações dos outros comentaristas é que foram exageradas. O Ségio o respondeu com elegância.

  • Neo Carvalho 21/08/2007 at 21:50

    Olá Sergio, estou aqui tentando inferir quem seria o tal estruturalista…algum desiludido professor seu que um dia lhe causara admiração, ou apenas um desses chatos, rigorosamente chatos, do nosso dia a dia…um desafeto talvez? não, desafeto não, tem algo de doce-amargo no carinho com que você se refere a ele. Deve ser alguem que lhe foi querido um dia e que perdeu o encanto…pode ser, ou talvez um colega de profissão, desses que a gente encontra vez por outra, sujeitinho solitário e desagradável, mas que ainda tem seu charme…
    quanto a blogueira, não aceito outra hipótese: essa você comeu…e mais não digo pra não te complicar…
    enfim, essa coisa de texto de blog metalinguístico te pegou desprevenido ou você já havia percebido?
    texto bom para gostar de ler (tinha uma série com esse título, lembra-se?), enquanto se aprecia um cafézinho, whatever, expresso…

  • Neo Carvalho 21/08/2007 at 21:51

    o acento no cafezinho foi do corretor de texto…

  • Sérgio Rodrigues 21/08/2007 at 22:17

    Caro Neo, lamento desapontá-lo, mas o estruturalista, c’est moi. A blogueira também. Um abraço.

  • Simone 22/08/2007 at 02:13

    Este foi muito bom! Fez-me sorrir.

  • joao gomes 22/08/2007 at 09:16

    Refletindo um pouco mais sobre este conto, considero que é uma espécie de cantiga de mal-dizer…

    não há possibilidade de comunhão intelectual; espiritual entre ambos. Observem quando eles mentem entre si sobre as diferenças entre “Literatura”
    (daí parece que o autor inverteu o plano-piloto dos contos medievais, onde nunca havia conjunção carnal entre os cavaleiros e suas damas (Cf.Parsifal e outros)). O amor e a união permanecia tão somente na esfera da mente e pensamentos, sempre além do terrenal.

    Esta tragédia grega—julgando pelo desenlace final— apresenta no resultado uma crítica ao trabalho da blogueira. Quiçá uma reprimenda ao ofício e a forma de EVASÃO de PRIVACIDADE em que ela meticulosamente apresenta para a blogosfera e mundo.

    A nova escolha, a troca do blog pela faculdade de enfermagem é a rendição total (provavelmente oriunda de uma auto-reflexão; exame de consciência, etc.). O saldo da balança apresenta grande déficif. Daí o mundo perde uma blogueira e ganha uma profissional de saúde.

    Mas também o estruturalista —-que desestrutura a blogueira— por sim é desetruturado— seja nos seu último ano de vida (de certezas e sentimento de finitude–parece que só está esperando a morte chegar), bem como da vida.

  • joao gomes 22/08/2007 at 09:18

    digo por “fim é desestruturado”.

  • Cássio 22/08/2007 at 09:56

    Sérgio, não chego a ser um colecionador de frases, mas essa “…vida com misto de vergonha do passado e ânsia de futuro” valeu. Abraços

  • Rodrigo 22/08/2007 at 09:59

    Eu gostei mais da idéia do que da forma pela qual ela foi contada. Acho que a descrição ao mesmo tempo sucinta e “mauvaise” das personagens se sobrepôs ao encontro entre elas e o conto perdeu com isso. Mas a idéia é muito boa mesmo. De um outro seu que foi publicado anteriormente (não lembro o nome), eu gostei mais. Abraço.

  • paramo 22/08/2007 at 10:25

    coisa chata, sergio. prefiro teus textos de jornalista.

  • Rafael 22/08/2007 at 10:25

    João, descordo um pouco da sua interpretação.

    Para mim, o final foi um happy end redentor. A blogueira foi se humanizando durante o definhamento do estruturalista; o encontro com a morte alheia ensinou-a que, para além da falsa vida virtual, existe a vida real, humana, demasiada humana, em que o sofrimento é jugo irremovível e a indesejada das gentes, o desfecho inevitável. Observe que ela havia se aproximado do estruturalista por interesse, embora vago e inconfesso, e foi ficando com ele por um misto de comodismo e ostentação. A desvanecida só foi aprender a amar quando assumiu a responsabilidade de velar pelo moribundo; e o amou tão intensamente, tão ardorosamente que não se apartou do seu amor um instante sequer, apesar da natural repugnância que suscita o padecimento do outro.

    Suponho, mesmo carecendo de dados objetivos, que os poemas trocadilhescos (herança maldita dos concretistas) e os minicontos confessionais que ela publicava em seu blog eram a expressão artificial de uma alma vazia que fingia ao público e a si mesma ter algo a dizer urbi et orbi. A literatura, que muitos têm como o mais dignificante dos ofícios, era, para a blogueira, um capricho infantil, um artigo para ser exibido. O estruturalista, que decerto havia cultivado na juventude a mesma crença frívola na superioridade dos iniciados no beletrismo, foi, pela ação do implacável tempo, divisando o tamanho da tolice. Abdicar da crença longamente sustentada é empreitada aspérrima para um ancião; o estruralista já não tinha forças para abjurar da religião na qual se convertera no vicioso ambiente acadêmico; por isso, carregava dentro de si esse sentimento acre que o impedia de ler. A blogueira estava fadada a repetir a mesma tragédia: envelhecer, solteira e sozinha, desgostosa da literatura e morrer da forma mais banal possível.

    Quis o destino, talvez movido por um sopro divino, que os dois se encontrassem para um salvar o outro. O estruturalista teve quem compartilhasse seus momentos derradeiros; a blogueira, pela experiência vivificadora da morte, aprendeu a amar, livrando-se do trágico final que lhe estava assinalado.

    A blogueira resolvendo largar o blog e estudar enfermagem é a imagem da alma que alcança a madureza e enxerga um sentido na vida.

  • Rafael 22/08/2007 at 10:29

    Cuidado, blogueiros que por aqui passeiam: de vobis fabula narratur.

  • Pablo Fortes 22/08/2007 at 10:34

    “A ciência é grosseira. A vida é sutil. E é para corrigir essa distância que a literatura nos importa.”
    Roland Barhes

    “O que torna visível não é visível. Pode-se dizer de maneira bem clássica, platônica mesmo, pois se tem aí um velho filosofema”.
    Jacques Derrida

    É, no mínimo, bastante curioso que justo numa época de crepúsculo dos critérios – sobretudo aqueles que dizem respeito a uma lamentável distinção epistêmica (no fundo, um maniqueísmo recalcado por força daquilo que Nieztsche chamava tão bem de vontade de poder) entre o que é a boa ou não (literatura, ciência etc) – ainda circulem certas grosserias travestidas de uma suposta sutileza filosófica a pensar que sabe realmente qual a verdadeira essência do bom, do belo e do justo! Sei lá, mas deve haver alguma razão estrutural para isso também… E a distância, cada vez mais legível…

  • Ministro Temporão 22/08/2007 at 10:40

    A distância cada vez mais legível e os textos… cada vez mais ilegíveis.

    O Ministério da Saúde Adverte: o consumo excessivo de autores pós-modernistas franceses provoca dislexia sintática.

    A persistirem os sintomas, consulte o seu médico ou Quintiliano.

  • joao gomes 22/08/2007 at 10:47

    Mas Rafael, a morte do estruturalista soa sacrílega para mim no contexto do happy end. Acho dificultoso ver a morte do estruturalista como parte necessária para (o Quarup?) essa transição ou redenção da blogueira.

    O arquétipo de redenção em que a morte de um implica (…ou condiciona) a vida/salvação do outro. Muito embora a morte do outro é um tema cristão caro a religiao, mas um pouco deslocado da literatura contemporânea.

  • Pablo Fortes 22/08/2007 at 10:53

    Pós-modernistas? Quem lhe disse isso, algum manual de “A Filosofia Contemporânea em 90 minutos”?

    Sr. Ministro, acho que vc poderia dar uma passadinha também no Ministério da Cultura…

  • Ministro Temporão 22/08/2007 at 10:59

    Pablo, se eu já tive dificuldade de entender o seu texto, imagine então como sofrerei para perceber o sentido das frases proferidas pelo Gilberto Gil.

  • Pablo Fortes 22/08/2007 at 11:29

    Ok, Sr. Ministro, quanto ao meu texto tudo bem (mas lembre-se que talvez eu estivesse respondendo ironicamente a um outro comentário igualmente hermético!). E que por vezes um pouco de dislexia sintática pode ser o sintoma de uma saudável ironia semântica.

    Um grande abraço!

  • Rafael 22/08/2007 at 11:29

    João,

    A questão religiosa é para mim indiferente; analiso a história do ponto de vista puramente estético.

    Nem todo final exige a sobrevivência dos protogonistas para ser feliz. Isso é coisa de novela e folhetins, em que a receita da felicidade é sintentizada na fórmula “e eles viveram felizes para sempre”.

    O estruturalista estava destinado à morte, que seria triste e soturna não fosse a luminosa presença da blogueira. Esta, coitada, percorria o mesmo caminho; salvou-a, dignificando-a, a dedicação dada ao estruturalista.

    No final da Metamorfose, os pais percebem que a filha havia se tornado uma bela jovem, quando a contemplaram esbatida pelo sol do final da tarde do dia em que Gregor Samsa morrera. A experiência de cuidar do irmão que se transfigurara na mais asquerosa das criaturas embelezou-a, deu à sua juventude o verniz da maturidade.

    Da mesma forma, acredito que a blogueira tenha ficado mais bela após vivenciar a experiência do amor e do sofrimento. Ao decidir-se pela enfermagem, ela incumbe a si mesma de ser útil.

    Não é, reconheço, o final feliz dos românticos. Mas longe estamos da tragédia.

  • Roger 22/08/2007 at 15:06

    Lendo como a maioria de vocês escrevem (tanta ironia, tanto hermetismo, tanta filigrana, tanta referencia, tanta erudição, tanto exibicionismo…), podiam unir seus textos num belo volume intitulado: Para aprender a não gostar de literatura: Coletânea de comentários do blog do Sérgio Rodrigues.

    Gostei da interpretação do Rafael, mais do que do próprio conto.

  • Pablo Fortes 22/08/2007 at 15:42

    Prezado Roger,

    Entendo a sua manifestação e concordo com alguns “ismos” apontados por vc. Ocorre que não podemos nos esquecer também que foi o próprio autor da estória que batizou um dos seus personagens sob a rubrica de “estruturalista” – decerto referindo-se, ele mesmo, a um dos mais famosos “ismos” que predominou a cena intelectual francesa nos idos de 60/70. Por que será?

  • Roger 22/08/2007 at 16:14

    Então hei de esperar que em outras caixas de comentários não se encontrarão esse tipo de textos tão chatos de ler? Vamos ver, tomara!

  • Cezar Santos 22/08/2007 at 17:41

    Continho porreta, Sérgio, uma lição de como delinear personagens que são puro clichê. Mas o resultado é bom.

  • Silvia Chueire 24/08/2007 at 12:12

    Gosto do conto. Muito.Deu-me uma certa esperança no humano , mais ainda no humano amoroso.

    Grande abraço,
    Silvia

  • gunnar - pe - recife 26/08/2007 at 12:43

    that’s pure brazilian enlightment
    wish i had not passed by

  • shirlei horta 26/08/2007 at 18:10

    Adorei!!!! Enquanto lia, tinha a sensação de ovo, sinal de infinito, sinergia, o que vai e o que volta (era só uma sensação, não era uma explicação). Aí, quando você diz

    “Caro Neo, lamento desapontá-lo, mas o estruturalista, c’est moi. A blogueira também. Um abraço”.

    quase caí da cadeira!!!!

    Genial! Genial!

    Outro dia também participei de um post assim e depois, dias depois, ainda me lembrava dele e tinha vários comentários a fazer. Cheguei mesmo à conclusão de que o texto (um único parágrafo), não só era bem construído, mas sofisticado.

    Não sei se não seria uma boa idéia deixar um texto numa caixa à parte, durante toda a semana. As pessoas iriam comentando, elaborando, agregando, discordando…. Até o dia “x” da semana em que o post seria colocado na página principal do blog para discussão final. Aí, talvez, as opiniões fossem menos emocionais, mais abrangentes…

    Já estou com vontade de ler de novo – lerei – para ver se os personagens entram e saem ao mesmo tempo e outros detalhes que confirmem a primeira sensação e abram espaço para outras.

  • Prudente 28/08/2007 at 19:07

    Shirley,
    Eu também gostei do Sérgio Flaubert. rsrsrs

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