A chave do tamanho

30/11/2013

Borges“Ouviram dizer que a concisão é uma virtude e consideram conciso quem se demora em dez frases breves e não quem domina uma longa”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges (foto), ele mesmo um mestre da concisão, cultor privilegiado da brevidade do conto.

Leio isso e imagino um romance de 800 páginas em que se descreve à exaustão, por exemplo, uma única noite na vida de um personagem. As frases são todas curtas, soluçadas, mas ninguém seria louco de chamar o livro de conciso. Digamos que esse personagem principal não seja desinteressante, pelo contrário: é um médico, um plantonista de pronto-socorro numa grande metrópole latino-americana, de cujas decisões instantâneas – tomadas em meio à mais desoladora precariedade de condições de trabalho – depende muitas vezes a vida das pessoas estropiadas que lhe entram pela porta ao longo da comprida, interminável noite em que o vemos exercer seu desesperado ofício.

Nosso romance não se contenta em descrever em detalhes – sempre com frases breves – o estado dos pacientes e o que faz o médico para tentar salvá-los ou aliviar sua dor. O homem sangrava copiosamente. Tinha perdido um olho, que pendia sobre a bochecha. O que houve?, perguntou o médico. Acabou a anestesia. As pernas da mulher retirada das ferragens estavam quebradas em dezoito pedaços. O menino foi trazido inconsciente numa maca. Ficou no corredor. A enfermaria estava lotada. Tem que esperar alguém morrer, disse a enfermeira-chefe. Só assim.

Mas isso ainda seria simples demais. Nosso romance também entra nos pensamentos do médico, que descobrimos tão fraturados quanto as pernas da tal vítima de acidente automobilístico. Ele quer largar tudo, sumir. Não sabe mais por que escolheu a medicina. Tem brigado diariamente com a mulher. Desconfia que ela tenha um amante. Seu filho chegou à adolescência e anda arredio. Suspeita que o moleque esteja transando drogas. Até outro dia mesmo eram tão próximos, amicíssimos. O menino desmaiado no corredor lhe lembra o filho. Gostaria de ter vontade de chorar, assim saberia que ainda é humano. Não consegue. Qual foi a última vez?

Desconfio que o genial Borges ficasse apenas com o segundo parágrafo ali de cima, a frase longa, modulada, na qual o plano geral da obra se estende nítido diante dos olhos do leitor. Argumentaria – o que é difícil de refutar – que a concisão está com ele e não com o romance de oitocentas páginas e suas incontáveis frases curtas: por que gastar tantas palavras truncadas, gaguejadas, com o que pode ser dito ou apenas indicado em oitocentos toques sintaticamente perfeitos, ou até menos? Uma resposta possível, tateante, que Borges encararia com desdém: porque assim é a vida?

*

Na Salon.com, a boa ensaísta Laura Miller fez há alguns dias uma defesa curiosa do romance longo (aqui, em inglês). O artigo não entra no mérito do tamanho das frases empregadas pelo autor, está interessado apenas na extensão final da narrativa, e bota extensão nisso: refere-se a romances de mais de 600, frequentemente de 800 páginas, aquilo que se chama pejorativamente de tijolo, quando não de cartapácio ou escora de porta.

O centro da argumentação de Miller é que existe um tipo de prazer na leitura de ficção – não o único, mas certamente um deles – que só as narrativas longas proporcionam e apenas as muito longas conseguem, bem, prolongar ao máximo, com perdão da redundância.

Estamos falando do abandono, pelo leitor, de todo distanciamento crítico. Daquele estado de pura fruição da obra em que, nas palavras da articulista, “você não quer pensar sobre a pessoa que a criou ou quais técnicas ela está usando ou como aquele romance específico se encaixa numa tradição histórica mais ampla. O que você quer é que seu distanciamento crítico fique pelo caminho e que a realidade imaginada pelo autor suplante a sua”.

Ou seja, tudo aquilo que os leitores ditos comuns amam e que os críticos literários desdenham, como Miller anota, encontrando para essa implicância dos “especialistas” uma explicação entre séria e brincalhona: é que os leitores profissionais não podem se dar ao luxo de abandonar um romanção pelo meio, como fazem os mortais comuns sem dor na consciência quando suas expectativas de prazer não são atendidas. Têm a obrigação de se arrastar até o fim – e, por razões óbvias, “quando um romance longo é ruim, é normalmente hediondo”.

*

Não, não creio que Borges condenasse o artigo de Miller. Como admirador fervoroso de tijolos como “As mil e uma noites” e “D. Quixote”, o argentino sempre soube valorizar a dimensão de puro prazer envolvida no jogo literário – e de resto nunca ausente de suas engenhosas ficções curtas, por mais cerebral que pudesse ser sua concepção.

Acredito que, para Borges, a ficção – concisa ou prolixa – tivesse antes de mais nada de se entender com esferas mais elevadas em que esse tipo de conceituação esmaecia. “Sempre que folheava livros de estética”, escreveu ele, “tinha a desconfortável sensação de estar lendo as obras de astrônomos que nunca contemplavam as estrelas.”

5 Comments

  • Silvio 30/11/2013 at 10:38

    Muito bom, Sérgio. Os seguidores da concisão às vezes são de uma ingenuidade estranha, tem até uma frase muito comum entre eles: “O cara gastou dez páginas em algo que poderia ser dito em duas.” Quer dizer, estão priorizando alguma informação a ser passada por aquele texto. E aí não tem como não lembrar uma postagem sua que dizia que “literatura é o contrário de informação”. Muito da riqueza da escrita literária está nos detalhes, nas “firulas”, nas longas descrições, no encadeamento de frases, nos exercícios de estilo. Praticar isso sem se tornar maçante é com certeza um talento. Acho que quem já leu Flaubert (principalmente as obras-primas ‘Madame Bovary’ e ‘Educação Sentimental’) vai entender o que estou querendo dizer.

  • carlos cezar 30/11/2013 at 12:10

    Por que escrever 500 páginas se bastam cinco?
    Essa também é do genial Borges, autor de obras-primas como “O jardim das veredas que se bifurcam”, “Funes, o memorioso” e “O Aleph”.

  • carlos cezar 30/11/2013 at 12:16

    Caro Sérgio, realmente, há “tijolaços” que valem a pena, tais como Ulisses, D.Quixote, A montanha mágica, Os irmãos Karamázov, Crime e Castigo, Moby Dick, Em busca do tempo perdido, Viagem ao fim da noite… sem esquecer os “tijolinhos” da Jane Austen e do Kafka, como Persuasão e O processo, por exemplo.

  • Rafael 02/12/2013 at 10:04

    Sérgio,
    Lendo o seu texto, minha conclusão – exemplarmente sintética, acrescento – é simples: “tamanho não é documento”.
    Vale

  • jumentinha 16/12/2013 at 22:39

    A chave do tamanho não é do Monteiro Lobato, Sítio do Picapau? Ou tô delirando?

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