A espera

07/04/2009

Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá com a carinha do Proust, um pequeno gravador digital para registrar inspirações súbitas e uma caneta-tinteiro de luxo. Maria Cândida gastou nessa brincadeira quase todas as suas economias, mas valeu a espera. Hoje me ligou, eufórica: acaba de escrever seu primeiro conto. Mal posso esperar para lê-lo.

Publicado em 7/5/2008. Republicado a pedidos.

12 Comments

  • Rafael 07/04/2009 at 13:41

    Lembrei-me, não sei por quê, do nosso amigo Hiago. O fluxo do pensamento tem mesmo algo de engraçado. Fica aqui o registro.

    Vale

  • isaac 07/04/2009 at 13:47

    eu também. o conto dessa gênia há de ser massa.

  • Bruno M. Oliveira 07/04/2009 at 17:05

    Com toda essa frescura para debutar no ofício de escritora, não me parece crível que Maria Cândida seja alguém desapegada de bens materiais. Mas está claro que nessa incoerência consiste a graça do conto.

    Abraço.

  • Fernando Torres 07/04/2009 at 17:25

    Eu li “olho cínico” e não “olho clínico”. No fim fez bastante sentido.

  • Rafael Rodrigues 07/04/2009 at 18:50

    Existe mesmo esse poster de “O Encontro Marcado”?

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2009 at 09:12

    Rafael, confesso que não faço a menor idéia.

  • josé rubens 08/04/2009 at 09:48

    Caro Sérgio,

    Acho interessantíssima a idéia de trabalhar os limites entre ficção e realidade. Aliás, de brincar com esses limites. E voce tem sempre a noção exata de onde começa um e termina o outro, só que é de uma sutileza que sempre confunde os mais afoitos. Sua verve estilística só perde para o seu bom humor, como quando voce comprou aquele Fusca a prestação e foi à casa da namorada (hoje esposa), convidá-la a um passeio. Lá pelas tantas, o Fusca “quebrou” num local ermo, tendo voce sugerido que passassem a noite ali. Bem, na manhã seguinte o Fusca milagrosamente pegou na primeira tentativa, e o casal seguiu feliz, apreciando a bela paisagem rural de uma manhã ensolarada.

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2009 at 09:53

    Valeu, José Rubens. E só para que os outros não se confundam com a sua sutileza: essa história do Fusca é ficção! Abraços.

  • Lya Tapajós 08/04/2009 at 10:32

    Fiquei imaginando a parede de cortiça de Maria Cândida. Não lembro onde li isto, que poderia estar espetado lá: “Todos os gêneros são bons, exceto o enfadonho”.
    Tenho aqui um marcador de livro com foto da Virginia Woolf e a frase: “A woman must have money and a room of her own if she is to write fiction”.
    Bem, o continho é delícia!

  • kylderi 08/04/2009 at 12:06

    Qual é frase da Dorothy Parker; acho que você já a pôs numa epígrafe. O Sobreescrito está irretocável e cruel.

  • Davi 08/04/2009 at 17:36

    Fazia tempos que não entrava no site do Geneton e hoje por conta de uma breve passada acabei conhecendo o seu blog…….uma coisa boa neste triste dia. Li não sei até quantos arquivos….o que mais gostei foi dos “Começos Inesquecíveis”(enviei a mim mesmo um e-mail com nome de três desses livros de inicios “grudentos”)…..vou lê-los, logo após comprar Elza, o qual estou praticamente convicto que vou apreciar.

    abraço!

  • Hiago Rodrigues Reis de Queirós 10/04/2009 at 17:56

    Pois é, Rafael… a minha diferença para esta Maria Cândida é que eu comecei com onze anos, escrevi já mais de cem contos, e neste mês completo vinte livros publicados, com um livro de poesia lançado lá em Portugal. Além disso, sou o administrador do site do literatura: O Literático, onde nossa querida Maria Cândida vai procurar algumas dicas para melhor escrever e se guiar na literatura, e se acaso ela também quiser ser poeta, pode enviar um poema para mim, que eu avaliarei, e junto com os membros da comunidade, direi se ela pode entrar no Poesistas.

    Não quero ser mas do que ninguém, além do Hiago que já fui. Não pense que brinco de literatura, meu irônico companheiro, pois sou escritor sim, com sua aprovação ou não. E saiba que como você, conheço muitos e rio de todos, pois criticam sem fazer melhor.

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