A espera

07/05/2008

Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá com a carinha do Proust, um pequeno gravador digital para registrar inspirações súbitas e uma caneta-tinteiro de luxo. Maria Cândida gastou nessa brincadeira quase todas as suas economias, mas valeu a espera. Hoje me ligou, eufórica: acaba de escrever seu primeiro conto. Mal posso esperar para lê-lo.

17 Comments

  • Fernando Molica 07/05/2008 at 09:56

    Eu também, eu também…

  • Tomás 07/05/2008 at 10:42

    Eu não.

  • Mr. WRITER 07/05/2008 at 16:28

    HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA

    Cômico, muito cômico…

  • Jonas 07/05/2008 at 17:06

    O trecho do Sabino é o melhor do texto.

  • Tamara 07/05/2008 at 18:29

    eu quero um pôster comemorativo de O encontro marcado.

  • Bruno M. Oliveira 07/05/2008 at 19:03

    Ela também deve ter-se inscrito em pelo menos três oficinas literárias, além de passar a acompanhar meia dúzia de blogs e segundos cadernos.

    Poucos fogem às regras.

  • Tibor Moricz 07/05/2008 at 20:10

    Oficina literária? O que ser isso?

    Acho que estão todos esperando o Todoprosa sair pelo IG pra participar mais ativamente… ah, já sei! Festa surpresa! Sérgio, na sexta-feira entre de olhos fechados. Vai ter multidão, bexigas, línguas de sogra, brigadeiro e quindim. Os indefectíveis tapinhas nas costas também, fazer o quê, né?

  • Saint-Clair Stockler 07/05/2008 at 20:58

    Sérgio,

    Você poderia ter a bondade de me dizer qual é a frase genial da minha querida – Big Loira! – Dorothy Parker sobre a arte de escrever? Se algum dia eu a li, devo ter me esquecido…

    P.s.: burrice da Maria Cândida comprar o livro do Gardner em inglês. Certamente gastou dinheiro desnecessariamente: há anos temos uma tradução nacional… :-( Além do mais, o livro do Raimundo Carrero sobre o mesmo assunto é infinitamente superior…

    P.s.2: Estou hoje tão cheio de reticências…

  • Sérgio Rodrigues 07/05/2008 at 21:07

    Saint-Clair, a Dorothy Parker não tem uma grande frase sobre a arte de escrever. A Maria Cândida estava mal informada, a frase é da Virginia Woolf.

  • Saint-Clair Stockler 07/05/2008 at 21:22

    Tá, Sérgio, desculpa a ignorância do macaco aqui: qual é a frase da Woolf? A única coisa dela que conheço – e adoro – é Passeio ao farol. Tentei uma vez ler Orlando mas o achei mortalmente chato: preferi o filme, que tem a maravilhosa Tilda Swinton.

    Meu ex (que chique: tenho um “ex”! Te mete!) me deu de presente o Mrs. Dollaway mas ainda não tive a chance de lê-lo. Preferi ler um romance do Stephen King no lugar. Romance, aliás, que o Tibor DETESTA. Pronto, falei! Morra assado nos Infernos, seu húngaro made in Sampa! rsrsrsrs

  • Tibor Moricz 07/05/2008 at 21:26

    Ah, tá… leu Saco de ossos, né seu suino made in minas Gerais?

  • Saint-Clair Stockler 07/05/2008 at 21:28

    Há muito tempo… Inclusive te contei. Esqueceu? Problemas de idade, Tibor?

    Nós tivemos inclusive uma discussão sobre se o livro é bom ou não. Eu gostei (mesmo concordando que não tem um pingo de terror nele), você detestou.

    Lembrou agora?

  • Tibor Moricz 07/05/2008 at 21:29

    Lembrei desde o início, mas foi uma ótima oportunidade pra te chamar de suino…rsrsrs

  • Saint-Clair Stockler 07/05/2008 at 21:34

    Pior pra você: eu gosto de porquinhos…

  • Alberto Martinet 08/05/2008 at 05:43

    Muito bom, como sempre. É café-da-manhã.

  • joao gomes 08/05/2008 at 09:39

    Maria Cândida, coitadinha.

    Seu dia vai chegar, como chegou o dia do Lula, …do Fidel… e de Maria de Jesus de Quarto de Despejo.

    isso me lembra os filmes O deserto dos Tártaros e Fitzcarraldo que são tão chatos que doi.

  • Sérgio Rodrigues 08/05/2008 at 10:23

    Verdade, Alberto, obrigado.

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