A hora de Técio Ordoñez, alter ego

19/03/2012

Do vasto repertório de histórias acumulado pelas relações periclitantes entre autor e alter ego, não será uma das menos curiosas a de Técio Ordoñez, que acusou o escritor Sérvio Rodriguez de ser ele, o Sr. SR, alter ego de TO e não o contrário. O caso propiciou uma divertida troca de farpas entre os dois, com os comentaristas se dividindo no apoio a um e a outro, em blocos maciços cheios daquela ira mutuamente esculhambadora da internet.

As evidências estavam contra Ordoñez, de quem se ouvira falar pela primeira vez no conto Todas as amoras deste lado da cerca, de Sérvio Rodriguez, publicado na revista manauara Noitenorim em 6 de fevereiro daquele ano. Rodriguez estava em aparente vantagem, portanto – visto ser obviamente preferível a condição de autor à de alter ego. Pelo menos ele, SR, era de forma textualmente comprovada o criador de Ordoñez. No entanto, os argumentos de Ordoñez em defesa da não existência de Rodriguez eram tão argutos, além de sensatos – filosófica no primeiro caso, literariamente no outro – que obrigavam o leitor a concluir que nenhum dos dois existia de fato, como se “de fato” quisesse dizer alguma coisa àquela altura da marcha dos fatos.

Foi aí que, daquele blog lá dele, o outro SR entrou no meio e tudo virou chanchada, como sói acontecer neste país. Mas algo ficou fermentando dentro de Ordoñez, aquela sombra da sombra da sombra. Dentro do personagem incipiente, natimorto, já quase e nunca mais que inteiro, no peito daquele zumbi grotesco os sonhos de existência plena não iam desistir tão facilmente. Logo medravam em expansões fúngicas multicoloridas pelas gretas craqueladas do que sobrou da realidade, onde escorre a seiva da linguagem pura: Técio Ordoñez tramando em silêncio a sua revolução. E um dia publicou o livro Sérvio, o servo das palavras, que o tornava indiscutivelmente autor e SR, seu alter ego.

A vitória sobre o fraudulento Sérvio Rodriguez foi tão acachapante que transformou Ordoñez. Antes um sujeito pacato e até gentil, recolhido à escrivaninha por timidez e talento, tornou-se um recluso rancoroso, violento e imprevisível. Dizia-se que estava trabalhando em um novo livro – não se sabia ao certo, uma vez que ninguém queria se aproximar muito – mas a polícia alega que não encontrou livro algum depois que Ordoñez saltou da sua janela no décimo terceiro andar, espatifando-se no asfalto de Copacabana. O que é um fim de história frustrante e até banal, reconheço, mas o que você esperava? Técio Ordoñez foi mais longe do que a maioria, e aqui vai uma sincera lágrima por ele, mas era preciso detê-lo, e para tanto não encontrei ninguém mais à mão do que ele mesmo.

Na vertigem da queda livre ainda lhe permiti pensar que o mergulho na própria extinção, em paradoxo típico dos alter egos, dava-lhe enfim a vida ansiada por seu coração de minério. Sentindo-me ao mesmo tempo misericordioso e vil, saí assobiando aquela velha canção que diz: “O seguro morreu de velho, morreu do tempo que passa…”.

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