A insustentável leveza de um golaço

16/11/2015

1447524810233Um jornal de Belo Horizonte pisou na bola da linguagem e, em chamada de primeira página, classificou de “ontológico” o gol marcado por Neymar aos 39 minutos e meio do segundo tempo da partida entre Barcelona e Villareal pelo Campeonato Espanhol, domingo passado (8/11), no Camp Nou. Acertou sem querer, como aquele centroavante tosco que arma uma bomba e, errando o chute, roça na bola tão de leve que ela engana o goleiro e desliza para dentro da meta.

A confusão entre antologia (coletânea) e ontologia (o estudo do ser enquanto ser, para além de todas as contingências) traz para a conversa um viés filosófico inesperado. O erro do diário mineiro é bem-vindo. Um daqueles momentos que nascem condenados à imortalidade no YouTube, será que o gol de Neymar aguenta o peso de ser lido e relido como uma demonstração concisa do que é ser, para além de todas as contingências, um gênio da bola?

Sem a pretensão de substituir as imagens, obrigatórias para qualquer pessoa que não odeie futebol, vamos ao lance. A poucos minutos do fim, o Barcelona vence de 2 a 0 – o primeiro de Neymar, o segundo do centroavante uruguaio Luis Suárez – uma partida que tinha começado difícil. A jogada do terceiro gol tem início quando o brasileiro, antes da linha média, toca de cabeça para que Suárez arranque pela esquerda. O cruzamento que o companheiro lhe devolve chega com precisão à entrada da área, mas vem meio quadrado. A bola quica uma vez. Neymar a amortece com a barriga, que não é uma parte da anatomia muito propícia ao domínio de objetos redondos. A bola foge, ameaça quicar de novo.

Problema: se o camisa 11 do Barcelona tentar aquietar a bola na grama, dará ao adversário que bufa à sua direita a chance de desarmá-lo.

Solução: um daqueles momentos raros em que o futebol aspira à abstração, ao conceito, à ideia pura.

Neymar não deixa que bola e gramado voltem a se encontrar. Transformando o pé direito numa raquete de fliperama, faz a bola descrever um arco folgado sobre ele e o marcador, a quem dá as costas. O lençol tem certa fartura de pano, o que significa dizer que dura um segundo inteiro, mas mesmo assim o momento exige pensar depressa: invertido o sentido da jogada, dois homens começam então a descrever um giro de 180 graus para se adaptarem à nova realidade – Neymar em sentido anti-horário, o defensor em sentido horário, como engrenagens bem encaixadas.

Acontece que a máquina efêmera foi concebida pelo brasileiro. E é sem surpresa, ainda que com assombro diante do inevitável, que nós o vemos chegar pontualmente ao encontro marcado com a bola e, determinado a impedir que ela toque o chão, despachá-la com um chute forte para o fundo da rede.

No tsunami de palavras que “o gol do Neymar” provocou no mundo inteiro ao longo da semana, as comparações com outros gols antológicos deram a tônica. De imediato invocou-se aquele que Pelé marcou contra a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958. No dia seguinte, as preferências se concentravam no que Ronaldinho Gaúcho, no auge da carreira e jogando pelo mesmo Barcelona, tirou da cartola contra o Osasuna em 2004. Duas obras-primas de jogadores geniais, ambas envolvendo chapéus dentro da área. Não faltou quem observasse que o próprio Neymar já protagonizou lances de realização mais difícil – como a arrancada mortífera contra o Flamengo, em 2011, que valeu ao então menino do Santos o prêmio Puskas, dado pela Fifa ao autor do gol mais bonito do ano.

Pedir a um torcedor que não faça comparações desse tipo seria como pedir a um gato que se abstenha de ronronar. No entanto, o zunzum passou longe de apreender – ontologicamente, digamos – o que aconteceu no Camp Nou. É na pureza do conceito e na plasticidade irretocável que reside a essência do que torna único o “gol do Neymar”. O que Pelé fez em 1958 está furos acima na escala da importância: era uma final de Copa do Mundo, o sujeito tinha 17 anos e começou naquele momento a virar o “rei do futebol”. Mas tem desenho diferente e é bem menos bonito. O de Ronaldinho, espantoso pela velocidade de raciocínio e pelo contorcionismo em espaço exíguo, é o mais difícil dos três, mas não tem nem poderia ter a mesma limpeza de acabamento: o dentuço caiu de quatro após chutar.

Os paralelos mais interessantes da façanha de Neymar devem ser buscados em outras praias estéticas. Na graciosa dança de Charles Chaplin com o globo terrestre em “O grande ditador”, filme de 1940, vamos descobrir modos semelhantes de tratar uma esfera cheia de ar. No pas de deux de Fred Astaire com um cabide de pé em “Núpcias reais”, de 1951, encontraremos algo da leveza sobrenatural que é, entre as muitas qualidades de Neymar, sua assinatura inimitável. Como o maior dançarino da história do cinema, o último e solitário supercraque que nos restou parece fazer tudo sem esforço. Agora que um gol de placa coroou seu protagonismo num Barcelona órfão de Messi, relegando ao terreno da patologia os últimos bolsões de ceticismo sobre seu talento maior, chegou a hora de nos perguntarmos o que o decadente futebol brasileiro está fazendo para merecê-lo.

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Publicado no caderno Aliás, do Estadão, em 15/11/2015.

One Comment

  • SaM 18/11/2015 at 12:14

    Neymar é o Brasil: rouba mas faz.

    O Brasil é Neymar: tem um pai que o guia.

    A diferença é que a obra do Neymar é muito melhor que a obra da Odebrecht.

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