A literatura e o sonho

13/01/2009

Você já sonhou que estava dentro de um livro, vivendo aquela história? Ou fora do livro, mas convivendo com seu autor? Chas Newkey-Burden, que escreve no blog de livros do “Guardian”, jura que já, e os comentaristas que reagiram à sua provocação sugerem que o fenômeno é menos raro do que eu imaginaria. O sujeito conta que foi a julgamento em “O sol é para todos”, tomou porrancas épicas com os personagens de Kingsley Amis e até esquiou em companhia de Shakespeare.

Confesso que isso me deixou bem desconcertado. Que eu me lembre, e apesar de tudo o que já li, os sonhos nunca me levaram para dentro de livro nenhum. Será uma falha de caráter? De imaginação?

Nesse departamento onírico-literário, mas em chave bem diferente, o máximo que eu posso relatar é o fato de ter escrito um romance inteiro num sonho especialmente realista e detalhado em que a felicidade que se seguiu ao ponto final (o livro era muito bom) foi proporcional à infelicidade de acordar e me descobrir incapaz de recordar uma única frase da obra-prima. Nada mais.

O que é uma pena. Deve ser uma experiência e tanto perambular por Paris à procura da Maga. Ou, quem sabe, de carruagem fechada, ao lado de Emma Bovary. Mas estaria mentindo se dissesse que já vivi alguma dessas experiências.

E você, caro leitor? Já jogou biriba com Machado? Ou será que eu não sou um caso tão aberrante assim?

(Sim, eu sei, tudo isso é uma bobagem. Os graves que me perdoem, mas é verão, o ano novo ainda nem engrenou, e eu não gostaria de ser acusado de começar 2009 aqui no Todoprosa com o pé supostamente direito da seriedade.)

24 Comments

  • Outro Paulo 13/01/2009 at 14:15

    A única vez que algo semelhante me ocorreu foi quando estava lendo “On the road”, do Jack Kerouac. Sonhei que viajava em um conversível, ia a bares de jazz, conversava com uns desajustados e coisa e tal. Foi estranho!

    Abs.

  • Bernardo Brayner 13/01/2009 at 15:39

    O meu sonho deve ser comum. Vulgar, até. Eu em um sebo achando uma raridade escrita por um escritor obscuro mas muito, muito bom.

  • Lucas 13/01/2009 at 16:47

    Semana passada mesmo. Sonhei que me encontrava com Hilda Hilst e a levava para um clube (!). No caminho, eu tentava segurar a mão dela para ajudá-la a subir a escada e ouvia um categórico: “não me toque, sua mão tem micróbios”. Eu hein…

  • Patrícia 13/01/2009 at 17:27

    Adorei seu comentário! E vc tem toda razão em não começar o ano com toda a seriedade. Respondendo sua pergunta…nunca sonhei com nenhum deles,mas já tive sonhos em que toda noite eu escrevia páginas inteiras e acordava super cansada e não me lembrava de nada. Se eu sonhasse com o Paulo Coelho teria uma síncope e morreria de tédio. Abraços mineiros,Patrícia

  • Fernando Torres 13/01/2009 at 17:36

    Você não está só. Eu nunca sonhei com nada disso (será que eu deveria?) e acho que seria uma ótima idéia (com acento sim!) sentar em uma mesa na calçada em Copacabana com Tcheckov. Ou mesmo levar uma conversa um pouco mais demorada com o Visconde Partido ao Meio, o Barão nas Árvores e o Cavaleiro Inexistente, em um passeio por um bosque italiano.

    Posso pensar em um milhão de exemplos. Mas o melhor de todos seria assistir uma montagem de Otelo com Bentinho.

  • Danúbia 13/01/2009 at 20:05

    Eu já sonhei com o Padre Antonio Vieira! Mas é totalmente compreensível, já que o meu professor de literatura portuguesa passou um trabalho enorme sobre um dos famosos sermões do padre. Fiquei durante semanas consumida pelo sermão e nada mais natural do que sonhar com o padre ,não é?!

  • Renata 13/01/2009 at 22:20

    Já sonhei várias vezes com livros ou autores. Em geral sonho com o livro que estou lendo no momento.

    Um dos mais comuns, e um dos meus favoritos também, é sonhar que estou em “Orgulho e Preconceito”. Às vezes sonho que sou Lizzie, às vezes Elizabeth e outras vezes que sou um personagem que não existe no livro.

    Também já sonhei várias vezes que estava conversando e bebendo com Hemingway. Algumas vezes tínhamos a companhia de Orwell e/ou do Wolverine dos X-Men.

    Outro recorrente, mas não tão agradável, é de estar presa em “A Moreninha”.

    Mas pesadelo mesmo só tive com “O Fim da Infância”, de Arthur C. Clarke.

  • Fernando Torres 13/01/2009 at 22:42

    Para muitos o fim da infância é mesmo um pesadelo. Para outros é só a adolescência, para poucos é a vida adulta.

    Desculpe Renata, não resisti à piada.

  • Claudio Soares 13/01/2009 at 23:56

    Não acho bobagem não, Sérgio. E vou te dizer mais: não só sonhei, como escrevi um livro inteiro sobre isso. E se sonho é deslocamento e condensação [diria Freud] não vejo como ser diferente a literatura.

    Engana-se quem acha que o “SD8” será um romance sobre Santos-Dumont. É mais sobre leitores que sonham [ou realizam] as histórias que lêem.

    Melhor, que ao lerem, os leitores alteram a realidade, fazendo com que essas histórias se materializem [ lembro que comecei o capítulo 10 com uma frase interessante de Havelock ellis: “Sonhos são reais tanto quanto durem. Podemos dizer mais sobre a vida?”]

    E são diversos os sonhos que “sonhei” novamente durante o “SD8” [Zuanghzi, Coleridge, Irma etc]. Alguns capítulos nasceram de sonhos que certamente já haviam sido sonhados por outros, antes de mim.

    Chamo esses sonhos [lembrando Frederik van Eeden] de lúcidos. Em certo capítulo, chego a relatar o passo a passo de como experimentar esse tipo estranho de sonho, mais ou menos desse modo…

    1. Escreva o problema-alvo em uma sentença breve e a coloque bem próximo a sua cama.

    2. Reveja este problema imediatamente antes de ir dormir.

    3. Quando na cama, visualize-se sonhando sobre esse problema e anotando seu sonho.

    4. Lembre a você mesmo que deseja sonhar sobre esse problema quando adormecer.

    5. Mantenha uma caneta e um bloco na mesa de cabeceira.

    6. Arranje todos os objetos associados com este problema em sua mesa de cabeceira onde você possa facilmente vê-los.

    7. Ao acordar escreva abaixo todos os sonhos que ocorreram. Se nenhum sonho estiver presente na memória, deite-se calmamente na cama e convide um sonho a retornar logo que possível.

    O que mais seriam esses sonhos lúcidos? E como aquele romance foi escrito como se estivesse sendo sonhado, não havia como concluir a história [nada mais justo que deixar a escolha para o leitor].

    Uma outra coisa engraçada em relação à escritura do SD8 [e eu fiz questão de trazer isso para o livro] foi um sonho [será?] em que discutia com um dos personagens [o Abayomi] o que ele deveria fazer na história e, acreditem, ele queria me convencer que deveria agir diferente.

    Depois, li em algum lugar, que não são poucos os autores que sonham e conversam durante o sonho com seus personagens].

    É quase certo que um dia escreverei um tratado sobre este assunto. Ou talvez, quem sabe, eu até já o tenha escrito [em sonho, claro] :)

  • Rafael B. Dourado 14/01/2009 at 10:16

    O constrangedor é puxar pela memória e só conseguir lembrar de sonhos com personagens de novela… Pior, novelas que nem estava assistindo…

  • Roberto Almeida 14/01/2009 at 10:40

    Acontece comigo, tipo always. Quase toda noite durmo com um livro nas mãos… Em algumas ocasiões acontece de eu ficar naquele meio termo, meio dormindo meio acordado, com os personagens rondando minha cabeça….

    Lembro-me um dia ter ficado muito tempo de papo com a Bola de Sebo, do Maupassant…

  • Eric Novello 14/01/2009 at 11:21

    E eu, lendo livros de fantasia e ficção, criaturas fantásticas e vampirescas, só tenho sonho com livros policiais, geralmente nas cenas mais pesadas. Queria tanto sonhar com os simpáticos monstrinhos, mas acabo é preso num hospício dominado pelo Hannibal O.o Abs!

  • david leinad 14/01/2009 at 11:32

    acredite(m)…
    Veio a calhar o post carissímo Sérgio.
    li o último livro do Galera recentemente.
    e por essa semana, claramente na segunda, acordei meio detonado, devo dizer… é que tive uma trepa selvagem com Anita, personagem do livro Cordilheira, que entre outras coisas também entra numa onda de amizade com malucos que vivem os personagens dos livros que escrevem.
    eu bem poderia escrever uma história para viver, mas confesso que sonhar com uma história já escrita é bem legal! vide o meu caso. rs
    abraço, ótimo blog!

  • Engel 14/01/2009 at 12:38

    Eu tentei lembrar os meus devaneios ou sonhos, confesso que não consigo pensar nisso, estou preocupada com a morte do único padre católico autorizado pelo vaticano em fazer exorcismo no Brasil. Vai que posso precisar…

  • Sérgio Rodrigues 14/01/2009 at 19:11

    Pela amostragem dos comentários, acho que podemos concluir com alguma segurança que, se os sonhos literários são mais comuns do que eu imaginava, também não sou exatamente uma exceção. O que nos leva a (mais) uma daquelas formas curiosas e irrelevantes de dividir a humanidade: ver novela ou não, acreditar em horóscopo ou não, sonhar com livros ou não.

    Aqui, a competição ficou boa. No critério quantitativo a Renata é campeã disparada – cheguei a ficar com uma certa inveja, apesar do pé atrás de quem não sabe se ela está nos zoando e inventando aquilo. É tudo verdade, né Renata?

    Ainda assim, não sei se vocês concordam mas eu daria o troféu de melhor comentário para o Lucas, pelos micróbios da Hilda Hilst.

    Engraçado, David: a Anita do “Cordilheira” passou muito longe de despertar em mim esse tipo de instinto. Nada contra, só a constatação de que a variedade humana é inesgotável (ainda bem).

    Abraços a todos. E bons sonhos.

  • Adair 14/01/2009 at 22:35

    Faltou ver o BBB ou não. E é claro que não. Ou Não, Caetaneamente.

  • Leonardo Pastor 15/01/2009 at 03:01

    Nunca, ao menos que eu lembre, sonhei com autores histórias dos livros. Mas admito um medo de sonhar estar acordando e perceber que me transformei numa barata.

  • Daniel Brazil 15/01/2009 at 12:08

    Adolescente, sonhei algumas vezes estar inserido nas aventuras de Julio Verne. 20 Léguas Submarinas, especialmente, foi marcante. Depois de adulto, necas… Passei a criar minhas próprias ficções (em sonho, claro!).

  • Thiago Maia 15/01/2009 at 20:15

    SR, já sonhei que estava na casa (sonhada) do Guimarães Rosa (duas vezes) e na do João Ubaldo. Mas ‘me sonhar’ como inserido num livro publicado, nunca. Um abração a todos!

  • obispo 16/01/2009 at 13:24

    Quando criança lia tudo que tinha na banca de jornal, Pato Donald, Bolinha, Luluzinha, Pererê etc…
    Uma vez sonhei que estava no Clube do Bolinha, com a turma toda.
    Vale?

  • obispo 16/01/2009 at 13:27

    Li tudo do Monteiro Lobato infantil, uma vez comecei a chorar porque aquilo não podia ser real.

  • João 16/01/2009 at 20:59

    Sonhar com pessoas famosas normalmente indica que a auto-estima do sujeito anda meio abalada. Já sonhei com James Joyce, Jorge Amado e, dia desses, com Anatole France, o que achei meio estranho, pois jamais li uma linha do sujeito.

  • Renata 19/01/2009 at 22:19

    É tudo verdade sim. Pena que faz um tempinho que não tenho tido sonhos interessantes, literários ou não.

  • Leandro Damasio 22/01/2009 at 02:39

    Quando criança era comum eu acordar triste ou feliz por causa das aventuras (e dramas) que eu travava junto com os Cavaleiros do Zodíaco; nos sonhos, claro.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial