A origem da tragédia em 17 tweets

08/04/2013

1. Ga era seu amigo. Matavam bichos, dividiam a carne, raramente trocavam socos.

2. Deixou Ga sozinho na mata no dia em que foi tomar banho no rio e lá conheceu Fia.

3. Fia foi morar em sua loca e ele passou a caçar sozinho. Teve que bater um pouco em Ga para ele ir embora.

4. O mundo ganhava nomes com Fia. Espuma da água. Cangote cheiroso. Fenda apertada.

5. Começou a prestar mais atenção no poente. Ensaiou batizar as cores em prisma na imensidão do céu.

6. A barriga de Fia cresceu. Muitos poentes depois, nasceu Uh. Uh era como Fia: mulher. Pensou em matá-la, mas desistiu.

7. Um dia, Uh já era mais alta que um cabrito, a caçada o levou longe. Passou três sóis e duas luas afastado de sua toca.

8. Voltou um início de noite com dois cabritos mortos e encontrou Ga e Fia se lambendo junto do fogo. A pequena Uh olhava.

9. Matou Ga com o bom facão de pedra lascada, rasgou sua barriga, depois cortou seus bagos e espremeu-os entre os dedos.

10. Fia aproveitou o tempo que essas ações tomaram para sair correndo mata adentro, Uh em seu encalço.

11. Estava escuro. Esperou. Começou a assar um cabrito. O cheiro de carne queimada se espalhou. Grilos cantavam.

12. “Comida”, gritou para a mata. Um tempo depois, Fia veio e ele lhe deu de comer. Ela quis falar, ele tapou sua boca.

13. Sacudiu a cabeça: “Não! Comida”. Assim que Fia acabou, fez um talho fundo em seu pescoço e a deixou gorgolejar até morrer.

14. A pequena Uh, não. Amanheceu e ela não veio. Foi encontrá-la, dia claro, no alto de uma árvore. “Melhor: assim só empurro”, pensou.

15. Foi em frente às cegas, mas um rudimento de moral raiava, esmagando-o. Seu ato era enorme: não cabia testemunha.

16. Ao chegar ao alto da árvore, Uh o atacou com unhadas nos olhos. Teve que apagá-la com um soco na cara.

17. Desceu da árvore com Uh nos ombros. Jogou água em seu rosto. Fez ela comer. Naquela mesma noite tinha outra mulher.

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