A recusa de um manuscrito em 99 versões

17/02/2009

O livro mais engraçado que leio em um bom tempo é o recém-lançado “A arte de recusar um original” (Rocco, tradução de Pedro Karp Vasquez, 144 páginas, R$ 24), do escritor canadense de língua francesa Camilien Roy. A idéia é simples: Roy enfileira 99 cartas de recusa de originais, nos mais variados estilos, todas enviadas ao autor por editores a quem ele submeteu pelo correio o manuscrito de seu primeiro romance. Algumas dessas peças, supõe-se, devem ser baseadas nas que o autor de verdade recebeu um dia – como se diz no prólogo, ninguém, nem Proust, escapou disso –, mas o caráter furiosamente ficcional da brincadeira não demora a ficar claro. A vida real pode ser tão cruel quanto aquilo, sem dúvida. Mas não é tão divertida.

Em meio a uma variedade quase inimaginável de tocos editoriais, do mais rebuscadamente insultuoso (“O pântano pestilento que lhe serve de cérebro, e do qual o senhor extraiu a inspiração para essa nauseabunda aberração, me paralisa de desgosto”) ao mais cinicamente modesto (“Nossos recursos são insuficientes para enfrentar as responsabilidades decorrentes do estrondoso sucesso que lhe é predestinado”), passando por cartas em verso e em forma de peça teatral, aparecem de repente umas linhas que enchem de esperança o pobre escritor inédito:

Meu caro senhor,

Antes de tudo, permita-me dizer: Bravo! Seu manuscrito é perfeito sob todos os pontos de vista. Eu o adorei e não fui o único. Minha esposa, Viviane, e nossa contadora, Gisele, também ficaram fascinadas. Ambas o leram com lágrimas nos olhos. Sim, devo confessar que, por julgar seu livro tão excepcional, tomei a liberdade de fazer circular seu manuscrito para que outros pudessem sentir o mesmo prazer que tive ao lê-lo. Espero que o senhor não se aborreça com isso.

No começo, senti-me um pouco perdido. Sou um entusiasta dos policiais de Simenon e devo admitir que seu estilo me deixou um tanto exasperado. Mas, ao cabo de trinta páginas, eu estava completamente fisgado: impossível largar o livro sem terminá-lo. Não resta a menor dúvida de que seu livro será publicado. Contudo, devo dizer que houve um pequeno problema de endereçamento. Seu manuscrito chegou bem ao número 20 aqui da rua Vaugirard, mas acontece que nós não somos editores. Minha esposa e eu somos comerciantes, temos uma pequena loja de utilidades domésticas. Aqui o senhor pode encontrar verdadeiramente de tudo para o seu lar, mas, no que diz respeito à publicação de livros, nós não podemos ajudá-lo. O que lamentamos muito, diga-se de passagem.

No fim do pequeno volume, o comerciante de utilidades domésticas volta a dar as caras para um involuntário golpe de misericórdia no já quase comatoso escritor, mas não vou estragar a surpresa. A essa altura, de qualquer modo, faz pouca diferença: a mensagem está captada desde que o cara recebeu aquela outra cartinha:

Senhor,

A resposta é NÃO! NÃO! NÃO! Creio que fui claro.

E talvez o livro fosse até bom, quem sabe? Nós nunca saberemos.

10 Comments

  • Fernando Torres 17/02/2009 at 17:13

    Definitivamente saberei que um livro meu será publicado se alguem perder seu tempo e vocablário para dizer “O pântano pestilento que lhe serve de cérebro, e do qual o senhor extraiu a inspiração para essa nauseabunda aberração, me paralisa de desgosto”. Nada tão revoltoso para alguem merece como destino uma gaveta.

  • Mr. WRITER 17/02/2009 at 17:37

    Esse é daqueles que é divertidamente cruel… Vale a pena com certeza.

    Deveria se tornar, desde já, livro recomendadíssimo aos tantos “novos” escritores da internet.

    Mais uma dica certeira Sérgio.
    Valeu. Abraços.

    Agora falta só o Sobrescritos virar livro. É pra quando mesmo?

  • kylderi 17/02/2009 at 17:42

    OI, Sérgio,

    Rapaz, o livro (o do canadense) foi bem vendido (não me entenda mal) por você, já que pinçou o (um dos) melhor (es) pedaço da obra.
    Já li O minstério do leão rampante devido à canja; daquele irei atrás também.

  • Tibor Moricz 17/02/2009 at 17:55

    Tenho umas 15 cartinhas dessas. Todas no estilo clássico… sem nenhuma ironia visível. Nem sei porque as guardo. Acho que esse é o tipo do livro pra pegar emprestado.

  • Sérgio Rodrigues 17/02/2009 at 23:50

    Peço desculpas a todos os que comentaram aqui hoje e viram seus comentários represados até agora. A ferramenta de moderação enlouqueceu, mas espero que tudo esteja resolvido. Abraços.

  • Mr. WRITER 17/02/2009 at 23:53

    Outra coisa que me chamou a atenção é o fato de ser um daqueles livros divertidamente cruel e cruelmente divertido… Sei lá, algo de Vonnengut no ar…

  • Irineu Santos Filho 18/02/2009 at 10:42

    interessantge. vou começar a escrever algum livro e enviar a algum suposto editor (mesmo que va para endereço errado) só para saber a resposta. rs

  • olney 18/02/2009 at 16:45

    Muito interessante; gostei da criativa idéia do escritor, que só pode ter nascido a partir de dados da vida real.
    A maioria dos escritores (e candidatos a) passam por situações como essas.

  • Lya Tapajós 18/02/2009 at 17:09

    Folheei esse livro na Travessa ontem. Tive vontade de rir quando li o título e agora entendo bem por quê. Obrigada, Sérgio.

  • Roberto Denser 25/04/2009 at 10:24

    Passei quase uma hora folheando esse livro na livraria ontem e confesso que quase tive um ataque histérico de tanto rir… pena que não pude comprá-lo, mas fica para a próxima.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial