‘A trama do casamento’: Eugenides em queda livre

25/04/2012

O escritor americano Jeffrey Eugenides estreou em 1993 com uma obra-prima tão madura e original, o romance-novela “Virgens suicidas”, que a consagração de público e crítica atingida dez anos depois por seu segundo romance, “Middlesex”, ganhador do Pulitzer, pareceu apenas natural. Da geração de David Foster Wallace e Jonathan Franzen, Eugenides parecia destinado a figurar em posição de destaque no primeiro time da “nova geração” americana. Parecia. Mais uma década se passou e seu terceiro romance, “A trama do casamento” (que a Companhia das Letras lança mês que vem, com tradução de Caetano Galindo), é tão fraco que obriga seus admiradores, entre os quais me incluo, a repensar algumas das certezas expostas acima.

Mais (ou menos) que uma resenha, este texto vai procurar elementos para começar a lidar com essa questão triste: a queda livre qualitativa de um escritor que lançou um dos melhores livros de estreia que já cruzaram meu caminho. Primeiro convém falar um pouco de The marriage plot – que li no original, razão pela qual nada direi sobre a tradução.

Desde o título, trata-se de uma tentativa explícita de atualizar (para os anos 1980) os romances românticos que terminavam com o casamento da heroína, à moda de Jane Austen. A heroína neste caso, Madeleine Hanna, é uma jovem meio insossa que se forma em letras na Brown University e que tem como interesse justamente o estudo dos tais romances, enquanto seu coração se divide entre dois colegas.

O primeiro, de ascendência grega como o autor, é o místico e gente-boa Mitchell Grammaticus, que está à procura de Deus e que Madeleine transforma num amigo mais ou menos assexuado. O outro, com quem ela acaba por se casar, é o brilhante mas maluco Leonard Bankhead, escancaradamente moldado – com bandana, tabaco de mascar, genialidade, depressão e impulsos suicidas – em David Foster Wallace.

Haveria uma ou duas coisas a dizer, até em termos éticos, sobre essa exploração da imagem do escritor que se matou em 2008 e cuja mística, impulsionada tanto pela morbidez da cultura de massa quanto por seu brilho literário, não para de crescer. Basta observar que uma óbvia chave de leitura de “A trama do casamento” aponta para rivalidades geracionais – o alter ego do autor disputando com o avatar do colega mais talentoso os favores da fugidia glória literária encarnada pela mocinha rica e bonita – que evidenciam ainda mais o acanhamento do romance. Ah, se fosse DFW a escrevê-lo…

Esse acanhamento se manifesta em diversas frentes: personagens rasos e desinteressantes (com exceção de Bankhead, mas já vimos de onde vem seu charme), prosa realista estilisticamente banal, desenvolvimento arrastado da trama, intrigas secundárias irrelevantes e, no fim das contas, um aproveitamento superficial e sapecado do motivo literário exposto no título e sua suposta dimensão metalinguística. Na primeira parte do livro, passada no campus, a sátira da esterilidade e do ridículo reinantes nos círculos acadêmicos de teoria literária ainda faz menção de decolar, mas acaba soando meio batida – quem ainda defende tais coisas? – e, de todo modo, não demora a ser abandonada.

Em retrospecto, a luz que “A trama do casamento” joga sobre a carreira de Eugenides não poderia ser lisonjeira: até o mais vibrante “Middlesex”, um livro irregular, mas com trechos de grande dramaticidade, exige ser reavaliado com menos condescendência. Afinal, foi ali, naquele ambicioso caldeirão de estilos – fusão da saga de imigrantes gregos com uma investigação científica em tom de pesadelo sobre o hermafroditismo que ela terminou por gerar em um de seus descendentes – que Eugenides trocou o caminho literário que havia dado na magia de “Virgens suicidas” pelo que veio desembocar em “A trama do casamento”.

O estilista nabokoviano do livro de estreia era um surpreendente neo-simbolista, capaz de dizer num volume magro, com seu lirismo mórbido, coisas que nunca haviam sido ditas sobre os aspectos mais cruentos da adolescência. Por alguma razão que pode ter a ver com esgotamento artístico, mas que provavelmente se relaciona também com as expectativas de um mercado editorial marcado pelo sucesso de Jonathan Franzen, essa voz intrigante e ímpar desapareceu para dar lugar a mais um realista de carregação interessado na montagem de “painéis” espalhados por centenas de páginas. Nada contra o realismo em si, mas ele não parece ser o forte de Eugenides, que em “A trama do casamento” faz papel de sub-Franzen. Levando-se em conta que o próprio Franzen não está com essa bola toda, é bem grave.

2 Comments

  • Hugo Crema 25/04/2012 at 13:05

    o quanto do talento de franzen está calcado em visão curta e preconceito me preocupa. e me preocupa ainda mais pelo modelo que viabiliza, de oposição a dfw. dfw esse que, mesmo na prosa com menos invencionice, consegue iluminar um espectro mais amplo e mais particular, mais denso do que o desse pessoal que opera num realismo padrão muitas vezes deficiente, rarefeito.

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