A triste história da plagiária de Harvard

10/05/2006

A história de Kaavya Viswanathan, estudante de Harvard de 19 anos que foi do paraíso ao inferno editorial em poucos dias por conta de uma série de acusações – todas fundadas – de plágio, não comoveu a imprensa brasileira. Normal: Kaavya, que até poucas semanas atrás era festejada por seu primeiro romance chick lit (de literatura para moças, no estilo de Bridget Jones), não teve tempo de ser conhecida pelo leitor brasileiro. A autora que primeiro a acusou de copiar passagens de dois livros seus, Megan McCafferty, também não é ninguém por aqui.

Se é normal que o caso, fora uma notinha ou outra, tenha passado em branco no Brasil, não deixa de ser, ao mesmo tempo, uma pena. Primeiro porque a história é pungente em si: Kaavya, garota linda, tinha fechado com uma grande editora um contrato para dois livros no valor de meio milhão de dólares – nada menos. Depois de recolher o livro sob suspeita, How Opal Mehta got kissed, got wild, and got a life, a princípio para “revisá-lo”, a editora Little, Brown & Company anunciou na semana passada que não haveria uma nova edição. Anunciou também que o contrato estava cancelado. Supõe-se que o meio milhão será devolvido, mas sobre isso não se falou.

Além de ser um terrível conto de crime e castigo, o caso de Kaavya é interessante pelo debate que despertou sobre autoria e plágio na era do control+c, control+v. Continuam surgindo evidências de que a menina copiava compulsivamente – e não apenas as obras de Megan McCafferty. Meg Cabot e Sophie Kinsella também teriam sido chupadas por sua voracidade sem imaginação.

A questão que o caso da aluna de Harvard põe no centro da sala da literatura mundial é um bode fedorentíssimo. Kaavya disfarçava mal seus roubos, mas – e quando vier sua versão melhorada, menos ingênua, munida de programas de substituição de palavras por sinônimos, embaralhamento de frases de autores diversos e outros truques? E se essa versão já estiver por aí, abocanhando contratos de meio milhão de dólares?

E se for isso mesmo, e tudo bem?

19 Comments

  • Miss Kecy 10/05/2006 at 19:19

    Hmmmm… cê tá falando do Paulo Coelho???

  • Peter Blake 10/05/2006 at 19:19

    Mas Sérgio, me explique, qual é o mal disso? Usar tecnologia para copia e colar pedaçõs de uma obra artistica para produzir alguma coisa diferente me parece uma maneira bastante “kosher” de se fazer arte. Aliás, isso é extamente o que se faz em música, sampleando pedaços de músicas, com resultados variados mas, em alguns casos, melhorando o original.

  • Sérgio Rodrigues 10/05/2006 at 20:23

    Eis toda a discussão, Peter. Parece que na literatura a mania do sampling não pega tão bem. Talvez porque o sampleador – de modo geral? – entrega as suas fontes e o copiador, não. Se a menina fizesse “citações”, tenho certeza de que não teria caído em desgraça. No fundo, uma questão de boa ou má-fé.

  • JP 10/05/2006 at 20:44

    miss kecy…
    comentario sucinto, mas perfeito…

  • JP 10/05/2006 at 20:51

    concordo com blake que naum deveriam existir direitos de propriedade intelectual… assim a cultura teria possibilidades de se expandir mais… no entanto grande parte do mundo ve nessa forma de protecao um estimulo a producao… desta forma.. para naum correr o risco de ser preso… ou algo do tipo… eh melhor citar os autores…
    e se a mulher era de harvard.. deveria saber… pois na Academia este tipo de comportamento eh extremamente condenavel…
    abracos

  • Vinnie 10/05/2006 at 21:36

    Ora, e isso nao da trabalho? Pegou aqui, tirou dali e misturou, tah pronto. Eh outra obra.

  • Clara 10/05/2006 at 22:30

    Isso se chama desonestidade intelectual. O sujeito que não tem imaginação, verve que fazer um “empreendimento” editorial e faturar.

    O negócio é ler ou reler os clássicos, os inspirados escritores de obras inspiradoras, aqueles que gostavam de escrever e escreviam bem.

  • Amigo do Blergh! 10/05/2006 at 23:12

    Comentários:

    a) Harvard formou gente como Bush. É uma boa universidade, mas quem acha que é a melhor do mundo, está enganado. Lá, só entra quem tem dinheiro – e nao necessariamente as pessoas que pensam.

    b) Não ha nada de novo sobre a Terra, e na vida nada se cria- tudo se copia. É um cliché, mas não deixa de ser verdadeiro. Não sei se a menina foi ingênua, corajosa ou esperta – o fato é que ela fez publicamente o que todo mundo faz, mesmo inconscientemente: repetir a palavra e modo de pensar de outros.

    c) Sim, a propriedade intelectual se tornou uma amarra ao desenvolvimento humano – assim como os direitos de propriedade no fim da Idade Média. Não fosse a fotocópia, a produção intelectual brasileira estaria parada no tempo (perguntem a qualquer universitário da rede pública). Digo mais: os camelôs e a internet se tornaram os instrumentos da democratização da cultura no inicio deste seculo XXI, o pé na porta nos castelos do saber. Pobre tem vergonha de entrar em shopping, mas não se acanha em pagar 4 reais por um DVD pirata de um filme recém-lançado. Consumir cultura deveria ser considerado direito humano fundamental, e se a lei impede este consumo, mude-se a lei. Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de diversão.

  • Peter Blake 10/05/2006 at 23:54

    Eu até ia ler o comentário do Amigo do Blergh, mas o cara já começa falando sobr Harvard e o Bush. Aí a coisa desanda, porque você vê que o sujeito fai fazer um salto mortal lógico entre os defeitos reais ou percebidos do presidente e a Universidade. Lógica absurda. Mas o pior é que o Bush é de Yale.

  • Evelyne 11/05/2006 at 00:50

    A questão não é copiar e colar. É copiar , colar e ganhar meio milhão de dólares com isso.

  • Amigo do Blergh! 11/05/2006 at 00:50

    Acho bom voce nao ter lido o comentario, Peter. Minha platéia é selecionadíssima, pessoalmente não gosto de leitores que abandonam o texto no primeiro parágrafo – e o pior, sem interpretá-lo adequadamente.
    A proposito, Bush foi aluno da Harvard Business School.

  • Amigo do Blergh! 11/05/2006 at 00:51

    Olha o que um ex-professor do presidente dos EUA disse sobre o mesmo:
    “At Harvard Business School, thirty years ago, George Bush was a student of mine. I still vividly remember him. In my class, he declared that “people are poor because they are lazy.” He was opposed to labor unions, social security, environmental protection, Medicare, and public schools. To him, the antitrust watch dog, the Federal Trade Commission, and the Securities Exchange Commission were unnecessary hindrances to “free market competition.” To him, Franklin Roosevelt’s New Deal was “socialism.” Recently, President Bush’s Federal Appeals Court Nominee, California’s Supreme Court Justice Janice Brown, repeated the same broadside at her Senate hearing. She knew that her pronouncement would please President Bush and Karl Rove and their Senators. President Bush and his brain, Karl Rove, are leading a radical revolution of destroying all the democratic political, social, judiciary, and economic institutions that both Democrats and moderate Republicans had built together since Roosevelt’s New Deal.”

  • Raquel 11/05/2006 at 10:44

    Sérgio Rodrigues,
    quando vier a versão melhorada de um “liquificador literário” nem será percebido. Seria preciso muita leitura, e na maioria dos casos em áreas que leitores mais compulsivos nem se aproximam, para dar-se conta da cópia. Desconfio que o(a) editor(a) em questão não lia muito em sua área, “chick lit”, ou teria percebido o plágio no manuscrito.

  • Flavio Costa 11/05/2006 at 10:57

    Faço mestrado e claro, vou defender tese. Analiso artigos já escritos, revejo a literatura e todo o estado da arte, referente à publicação de pesquisadores do mundo todo. É assim que se faz pesquisa, que se criam novas teorias e como novos artigos são publicados.

    2 anos de dedicação, muita pesquisa, estudo, horas de sono “perdidas”, muito trabalho, neurônio queimado, discussões, stress, conciliação com o emprego, com horários de professores e vem um cara, como uma F.D.P. dessas para copiar o que eu escrevi, publicar e ganhar dinheiro em cima?

    Propriedade intelectual existe e plágio é crime. Não se trata de música, onde você PEDE ao autor autorização para samplear ou fazer uma nova versão. Isso é cópia pura e simples.

    Cuidado com o que se diz aqui sobre essa “liberdade artística”.

  • Sergio Simonato 11/05/2006 at 12:21

    Este fato me recordou um tema que quase escrevi sobre ficção: Já que literatura é, bem no fundo, um encadeamento de palavars, bastava programar um computador para processar todas as combinações possíveis das palavras do Aurelio, por exemplo. Depois algum programa para eliminar palavras repetidas mais de uma vezes, etc, etc. Teráimos todos os textos já escritos em língua portuguesa e os que virão a ser escritos. Vai ser um número grande mesmo assim? Não tem problema, grava tudo em cds e registra como propriedade intelectual. Doido você diria, mas é impossível?

  • Amigo do Blergh! 11/05/2006 at 13:44

    Acho que é, Sérgio. O número de combinações de palavras, de sentidos destas palavras, de frases entre si, de tamanhos de textos, de intenções destes textos, de enredos seriam infinitas.
    Uau, que tema prá pirar!

  • mdk 12/05/2006 at 03:25

    Foda-se Peter Gay e amiga do Blergh, bichonas vão dar a bund… para o Bush!!! AHAHAHAHAHAHAHA……

  • Amigo do Blergh! 12/05/2006 at 10:03

    Vamos rir todos juntos, mdk:
    AHAHAHAHAHA!

  • Peter Blake 12/05/2006 at 16:59

    Deixando o Bush de lado (de onde não deveria ter saido, alias), dizeró que é plágio e o que é inspiração, fora os casos muito patentes, é mais difícil na prática do que na teoria.

    Me lembrei de uma história de que, com um número suficiente de macacos teclando ao acaso é possível que um deles produza uma obra literária clássica qualquer. Se é assim, é possível imaginar que misturando palavras existentes em “Um defeito de cor”, por exemplo (pra pegar um número grande de palavras), o computador possa gerar, sei lá, “Os Sertões”. Mas isso não tem nada a ver com o caso “em tela”.

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