A última fronteira literária ao alcance da mão

22/04/2010

Um post no blog de livros do “Guardian”, a propósito da recém-lançada edição temática da revista “Granta” sobre sexo, sustenta – meio a sério, meio brincando – que a masturbação é a última fronteira. Em outras palavras: que hoje, quando os leitores já não se chocam com quase nada, as imaginosas artes do amor-próprio sobrevivem como o último tabu literário.

Segundo o autor do post, Chris Cox, muito pouca boa literatura foi feita sobre o assunto. (Cecilio Giovenazzi ficou indignado, mas deixa pra lá.) Claro que Cox cita o óbvio “Complexo de Portnoy”, de Philip Roth, como uma das exceções que confirmam sua suposta regra. Pensei em escrever para acrescentar um conto de Martin Amis, “Let me count the times”, mas imaginei que, diante do número incontável de exceções nomeáveis, isso seria perda de tempo.

Por sorte, nem todo mundo pensou assim. Foi na caixa de comentários – um dos pontos altos do blog do “Guardian”, que, além de pré-cadastrar os comentaristas, faz uma boa triagem – que eu encontrei o tesouro do dia: um conto de Chuck Palahniuk chamado “Guts”, publicado na revista “Playboy” em 2004 e disponível na íntegra, em inglês, aqui. Uma pequena e crudelíssima obra-prima de humor negro, não recomendável a quem tiver estômago fraco. E muito, muito recomendável a todos os demais.

18 Comments

  • Manoel 22/04/2010 at 13:53

    Sérgio, esse conto já foi traduzido para o português. Não sei quem fez a tradução, mas eu achei bem boa.
    Aqui ó: http://lendasurbanas.wordpress.com/2007/03/13/guts-chuck-palahniuk/

    Abraços.

    • Sérgio Rodrigues 22/04/2010 at 14:00

      Boa, Manoel. A tradução também me pareceu boa, apesar de umas coisas esquisitas como “punhetar”. Pena não ter crédito. Obrigado pelo link: mais gente agora pode ler esse grande conto.
      Abraços.

  • Rogério Menezes de Moraes 22/04/2010 at 13:57

    Sérgio, Guts tem tradução brasileira, da Rocco. Tripas é um dos contos do Assombro, livro mais impactante do Palahniuk. É sobre um grupo de pessoas que se isolam em um local e numa versão reality show do Decameron ou até mesmo da Villa Diodati em que a Mary Shelley imaginou o seu Frankenstein. Dizem que durante as turnês de promoção do livro, quando o Palahniuk lia o Tripas, muitos passavam mal. Não cheguei a tanto, mas o livro tem contos muito pesados mesmo. Mas vale a pena para quem se interessa por narrativas desse tipo. Abraço.

  • Rogério Menezes de Moraes 22/04/2010 at 13:58

    Esqueci de dizer, a tradução do livro é do Paulo Reis.

    • Sérgio Rodrigues 22/04/2010 at 14:02

      Então está aí a resposta para a dúvida acima. Valeu, Rogério.

  • Gabriel Pimenta 22/04/2010 at 14:48

    “Guts” serve pra falar de qualquer possível fronteira temática final da literatura, por sinal…

  • Rosângela 22/04/2010 at 15:24

    Nem tenho estômago, passo.

  • Hugo Crema 22/04/2010 at 15:59

    Obrigado pelo texto, simplesmente, muito engraçado, isso é que é última fronteira.

  • Luis 22/04/2010 at 16:13

    Imagine, Sérgio, se vc adotar o mesmo procedimento por aqui (pré-cadastrar os comentaristas, e fazer uma boa triagem)? Benzadeus, será que sobra algo?

  • Marcelo ac 22/04/2010 at 22:47

    Um exercício e tanto de apnéia! Hilário. Mesmo assim, eu acho que ele deve muito a Bataille.

  • Samuel 23/04/2010 at 09:45

    Mariquinha é como a chuva,
    boa é, pra quem quer bem.
    Ela vem sempre de graça.
    Maricota é que não vem.

    Mariquinha, Maricota,
    com a direita e com a canhota,
    desce e sobe, desce e sobe,
    vai na ponta, vem no pé,
    faz de conta que é mulher !

    Musiquinha da minha infância.

  • Rafael 23/04/2010 at 11:59

    Não acho a masturbação algo assim tão chocante a ponto de merecer o epíteto de última fronteira literária. Aliás, penso como o Adolfo Pinho Rosa: discorrer sobre a masturbação é uma tremenda punheta cerebral. O chocante no conto do Chuck Palahniuk não é a punheta propriamente dita, nem o esforço do personagem (coisa de quem tem tempo livre) para estimular o ânus enquanto brinca de Onã submarino (devo lembrar que o pecado de Onã — a Rosângela esta aí para confirmar — não era a masturbação, mas o coitus interruptus). O chocante está no clímax narrativo, naquele momento em que o bravo herói exibe as entranhas.
    Aliás, vivemos numa época estranha. Toda essa liberdade sexual, toda essa pornografia fácil, toda essa libertinagem — e os escritores teimando em fazer do sexo um tema que precisa chocar. Moralismo inconfesso? Ou falta de vivência real com a coisa?

  • Rafael 23/04/2010 at 12:05

    Cito o Livro do Gênesis, 38, versículos 8-10:
    8. Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão.
    9. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão.
    10. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou.

  • luana 25/04/2010 at 13:14

    O Chuck é sádico e apelativo. Horrível!

  • Lídia 26/04/2010 at 12:41

    O Chuck Palahniuk precisa despejar sua raiva e ousadia em um Clube da Luta.

  • Lilian Aquino 29/04/2010 at 14:19

    Sérgio, olha o conto do Chuck Palahniuk em português aqui:

    http://lendasurbanas.wordpress.com/2007/03/13/guts-chuck-palahniuk/

  • Guina Ramos 04/05/2010 at 00:48

    Devo dizer que nunca imaginei viesse a masturbação ganhar tal importância, e justamente pela escassez…
    Há uma cena dessas no meu quase clandestino “O Jogo do Resta Um – romance sócio-antropológico quase histórico, pouco político, meio filosófico, muito econômico”, e, já que seriam assim tão raras, me animei a publicar no livri “Esses Sexos…”, em http://essessexos.blogspot.com/

  • Guina Ramos 04/05/2010 at 16:07

    Nunca imaginei que masturbação viesse a ganhar tal importância, e justamente pela escassez… Lembrei de um trecho do meu quase clandestino livro “O Jogo do Resta Um – romance sócio-antropológico quase histórico, pouco político, meio filosófico, muito econômico” e, daí, já que é tema meio raro, me animei a lançar um “Livri – o livro livre na Internet”, série que iniciei em 2006, chamado “Esses Sexos…”, http://essessexos.blogspot.com/.

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