A vergonha do rei

27/06/2012

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos.

O rei tinha vergonha de sentir vergonha de escrever versos. A vergonha, sentimento de escravo, não ficava bem num rei. Este nada deve temer, nada falsear de sua natureza, pois esta cria a própria lei que rege o reino. Não se envergonhe o rei de nada do que sente, pois o que sente é justo e bom, ainda que mau na cartilha corrupta de bispos e filósofos. Nada o coage: imagine-se, por absurdo, o monarca de uma ilha do Pacífico que pratique o canibalismo ritual, alimentando-se exclusivamente, em quatro refeições diárias, de súditos e súditas assados lentamente em espeto giratório no pátio do palácio. Pois nem este monstro terá nada de que se envergonhar se for legítima sua coroa, bordada fibra a fibra na história de sua gente a grandeza augusta de sua casa, suas armas, seu sangue. O rei acreditava mesmo nisso. Não sabia por que, então, se envergonhava de ser poeta. Envergonhava-se de se envergonhar, o que, naturalmente, não o fazia se envergonhar menos, mas em dobro. Escrevia escondido.

Embora o rei seja por definição o mais solitário dos homens, porque ímpar, não são muitos os momentos de solidão literal em sua vida. A borboletear à sua volta há sempre uma nuvem de camareiros, conselheiros, pajens, lacaios, adulões, louvaminheiros. Querem vesti-lo, distraí-lo, dar-lhe de comer, banhá-lo em óleos aromáticos, manipular-lhe os divinos bagos. A solidão para rabiscar versos tinha que ser conquistada às cotoveladas, idiossincrasias de soberano: o rei fazendo questão de caçar absolutamente só na floresta, ele e a mata, deixando nobres e guardas a centenas de passos de distância por três horas, quatro horas, enquanto escrevinhava entre grunhidos, rubores de euforia e puxadas agônicas de cabelo um épico sangrento ou uma balada clássica de amor. Aqui e ali, descia dos andaimes da obra para disparar um tiro a esmo. Depois fazia uma fogueira e voltava sempre de mãos vazias, caçar não estava entre os talentos reais.

Também escrevia em seus aposentos, mas eram sessões mais nervosas, intermitentes. Os pajens e a rainha não ofereciam risco: o rei tomava graves apontamentos administrativos, era o que talvez imaginassem, o pajem comum e a rainha extraordinária, analfabetos ambos, se ao menos tivessem imaginação. Na cama ou no banho o rei pegava então uma folha, arriscava um verso ou uma estrofe, mas tinha que estar alerta para a irrupção inopinada de um ministro, um conselheiro, um arquiduque qualquer que, pousando os olhos na lâmina de papel em que seus dedos se crispavam, decifrassem num instante a imensidão do seu opróbrio. Era o papel que o condenava, a materialidade porosa daquela pasta vegetal seca, com seu condão de existir para além do ato, futuro adentro, posteridade afora, multiplicando por milhões as oportunidades de flagrante. Eis por que, tanto em casa como na floresta, e ainda mal nascidos, as chamas consumiam todos os poemas do rei.

Naquela tarde, absorto sobre sua escrivaninha, o rei buscava a chave de ouro de um soneto quando ouviu a voz atrás de si: “Que bonito! Vossa majestade é um grande poeta!”. Voltou-se lívido, o sangue empedrado nas veias: reconheceu um fidalgote chamado Robledo, que vinha a ser contraparente da rainha por intermédio de um tio-avô empobrecido. Recém-chegado de uma temporada boêmia em Veneza, o que fazia o jovem em seus aposentos? Lembrou-se vagamente: por instâncias de sua caridosa mulher, o chefe de cerimonial do palácio tinha acabado de empregá-lo como camareiro, lambe-botas ou coisa parecida. Estendeu-lhe a folha de papel:

“Me ajuda com o fecho, Robledinho? Empaquei.” O fidalgote pareceu radiante. Murmurou um quem-sou-eu, mas tomou do poema com a mão direita, enquanto a esquerda se punha imediatamente a contar sílabas. O rei se ergueu da cadeira e caminhou até o quarto ao lado, de onde voltou com a espingarda carregada. Dessa vez não havia como errar.

3 Comments

  • Pedro David 29/06/2012 at 12:16

    Bem maneiro, Sergio. O engraçado é que me pareceu o tempo todo que funcionaria pra crianças também. As histórias de rei tem disso. Por outro lado, não lembro de nenhum escrito infantil que usasse de metalinguagem. Quando ela entra em cena, é meio que uma perda da inocência, não ?

    • sergiorodrigues 30/06/2012 at 12:14

      Valeu, Pedro. No caso desse conto a própria linguagem seria um obstáculo evidente, mas infantil não é incompatível com metalinguagem, pense em Lewis Carroll. Assim de improviso, não seria a perda da inocência justamente o tema da melhor literatura infantil? Um abraço.

  • Daniel Souza 04/07/2012 at 11:59

    Texto fantástico. O Rei nos seus afazeres políticos e pragmáticos achava um tano desprezível o brincar com as palavras, fazer e fazer-se poeta. A vergonha era tanta que enganava seus súditos e pessoas próximas, ao mesmo tempo em que se enganava também. Mais sempre temos um parente chato que “caga o pau” e faz o final ser trágico e desconfortável. Parabéns pelo texto.

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