Algazarra

06/06/2009

“Eu tenho muitos filhos, e toda vez que o pai sai de casa, a meninada faz algazarra.” Foi o que Lula disse na Guatemala sobre os conflitos em seu ministério, centrados na insatisfação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, com alguns de seus colegas. Depois da declaração infeliz em que comparava a procura de uma caixa-preta no fundo do mar à prospecção de petróleo em águas profundas, a tirada da algazarra representou a volta do presidente à boa forma oratória, uma das chaves de sua popularidade – a capacidade de dar um tom íntimo e familiar às mais cabeludas questões de Estado.

Algazarra é uma antiga palavra portuguesa (sua certidão de nascimento traz a data do século 15) vinda do árabe, como tantas outras que compartilham com ela a sonoridade e a idade avançada: almofada, açúcar, armazém, alface, alcachofra, algoz, algodão. Vinda de al-gazara, “gritaria, ruído com ira”, era usada de início com um sentido bélico hoje em desuso: designava os gritos de guerra que os exércitos mouros lançavam no início das batalhas.

Não é a esse tipo de algazarra que Lula se refere – embora a imagem de aguerrimento possa agradar a Minc – e sim ao significado de bagunça, alarido, vozerio que se grudou a ela por extensão de sentido, depois que os mouros foram expulsos da Península Ibérica e o eco de sua algazarra se perdeu da memória. O tempo tornou o termo cada vez mais domesticado.

A palavra acabou se associando, de forma conotativa mas profunda, a um certo ar de inocência. Como neste poema de Olavo Bilac, chamado Meio-dia: “Há recreio nas escolas:/ Tira-se, numa algazarra,/ A merenda das sacolas”. A frase de Lula trata seus ministros como crianças e suas divergências como briguinhas pueris. O que, se não acaba com o problema real em casa, certamente ajuda a esvaziar a crise aos olhos do público.

Publicado na “Revista da Semana”.

2 Comments

  • Carlos Saraiva 07/06/2009 at 07:05

    è um comentário fora do tópico, mas gostaria que vocêcomentasse essa assunto do Sítio do Sergio Leo:
    http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/leticia-wierzchowski-e-a-defesa-do-indefensavel.html. Obrigado

  • Lya Tapajós 07/06/2009 at 10:08

    Gostei de saber do significado primeiro de algazarra, que eu só conhecia no sentido bilaquiano. É palavra de muitos dos textos infantis de quem hoje é sexagenário (a). Uma outra que jamais me soava como xingamento porque eu achava engraçadíssima era “abelhuda”.

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