Alguns livros estrangeiros do ano

29/12/2006

Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), do qual publiquei um trecho em Primeira Mão aqui, não teve na imprensa literária brasileira a acolhida que merecia. Houve quem o condenasse a nota de colunão, depois se arrependesse. Isso talvez se explique em parte pela força impressionante de uma narrativa que vai para duzentos lados ao mesmo tempo, confundindo o leitor apegado a eixos mais fixos. Romance complexo e excessivo, estilhaçado mas coeso, trágico mas engraçadíssimo, a obra-prima desse chileno que morreu precocemente na Espanha em 2003 é povoada de dezenas de personagens, quase todos, curiosamente, poetas – e menos curiosamente, considerando que Bolaño viveu no país, mexicanos. Engajam-se em disputas às vezes surdas, às vezes escancaradas sobre qual seria a voz capaz de redimir, com seu canto, todo um continente desgraçado – o nosso. Ou estarão apenas atrás do ouro-de-tolo da glória?

A ingenuidade dessa fé juvenil no poder da literatura é contrabalançada com folga por um desencanto de gelar a espinha, os dois pólos entre os quais vagam os “detetives” do título. Sua busca de romance metapolicial os leva a errar pelo mundo, arrastando, sempre um ou dois passos atrás, o leitor boquiaberto. Para mim, o livro estrangeiro do ano no Brasil.

O seguinte vem de mais um país hermano: O cavalo perdido e outras histórias, do uruguaio Felisberto Hernández (Cosac Naify), que também teve um trecho adiantado aqui em Primeira Mão. É a primeira edição brasileira desse escritor e pianista que morreu em 1964. E eu, que, confesso, não sabia nada do homem, ao terminar de ler o primeiro conto já estava aos soluços pelo tempo perdido. Quem gosta da inclinação pela magia que têm Julio Cortázar e Italo Calvino, os dois fãs mais famosos de Hernández, vai adorá-lo: não são poucos os pontos de contato entre seus estilos. Só que a voz do uruguaio é inconfundível, a voz de um escritor gigantesco, espantoso. O segundo destaque estrangeiro do ano no Brasil.

Que fique sempre entendido, falo daquilo que li. Não li tudo. Mas li um bocado. E eu avisei que seríamos subjetivos.

O terceiro não é um livro, mas uma penca deles: a estréia do excelente selo espanhol Alfaguara (tendo por trás a Objetiva-Santillana) foi o acontecimento editorial de 2006 no país. Como símbolo desse pacote, embora o livro esteja longe do melhor que o autor pode fazer, a capinha reproduzida aqui ao lado é a de Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, que estava na primeira leva de lançamentos e virou o grande best-seller da turma – para o trecho publicado neste blog na época, clique aqui.

Percebo de repente, com um certo susto, que o escritor peruano acaba de tornar o pódio internacional do Todoprosa totalmente latino-americano. Tudo bem, não há nada de programático nisso: aconteceu. Mas convém não esquecer que o selo Alfaguara entrou aqui pelo jogo coletivo e que ele inclui nomes de outras paragens como Lobo Antunes, Cormac McCarthy, Amitav Ghosh, James Joyce, Will Self…


Um ano muito bom, me pareceu. Teve a edição em capa dura de O Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel (Cosac Naify), a primeira com tradução direta do russo, e o milagre de Suíte francesa, de Irène Némirovsky (Companhia das Letras), romance-evento que, publicado seis décadas após a morte de sua autora, uma judia russa, em Auschwitz, consegue ser um documento do avanço nazista na França escrito no calor da hora e, ao mesmo tempo, literatura de qualidade. Não convém esquecer o surpreendente A história do amor, da americana Nicole Krauss (Companhia das Letras), mais conhecida como mulher de Jonathan Safran Foer, que também disse presente com Extremamente alto & incrivelmente perto (Rocco). E, para fechar com mais um sul-americano, o ótimo argentino César Aira, que merece ser muito mais lido do que é, teve logo dois títulos lançados pela Nova Fronteira, Um acontecimento na vida do pintor-viajante e As noites de flores.

25 Comments

  • Fabio Negro 29/12/2006 at 00:42

    Sérgio jamais não fará menção, aqui, mas em breve ele vai ler uma história em quadrinhos pela primeira vez em sua vida adulta.

    Quem estiver perto e com uma câmera, tire a foto.

    Revista Time fazendo as cabeças brasileiras, mais uma vez…

  • alvaro 29/12/2006 at 00:44

    Destaco o livro de contos do espanhol Javier Marías, Quando fui mortal (Companhia das Letras). Mais conhecido como romancista, é excelente também no relato curto. Um das histórias, No tempo indeciso, é sobre um jogador de futebol.

  • Sérgio Rodrigues 29/12/2006 at 01:12

    Fábio Negro, eu gosto de quadrinhos. Sempre li. Não leio a Time. Mas que papo é esse de quadrinhos, rapaz? Quer retrospectiva de quadrinhos, tem várias em blogs de quadrinhos. Este aqui é sobre prosa de ficção. Nem Valêncio Xavier eu incluí, com seus híbridos brilhantes, e você quer quadrinhos? Ah, e se você não leu Bolaño, leia. Não é certo que goste, mas vale a pena tentar: a aposta é mínima e o prêmio, supimpa. Feliz 2007.

  • Fabio Negro 29/12/2006 at 04:05

    entra no site da Times e veja a lista de melhores livros de 2006. Botaram um gibi como melhor livro do ano.

    Além de demagógico e tentativa de fugir das espectativas (e das pedras dos leitores cínicos), é bobeira: gibi não é literatura, é outra liguagem, outra arte.

    Publicamente: peço desculpas a você, Sérgio, pela minha chatice e pretensão. É que de modo geral os blogs do NoMínimo me fazem ficar de pedras na mão.

  • Saint-Clair Stockler 29/12/2006 at 08:34

    Desses quatro, só li “Suíte francesa”, que é das melhores coisas já publicadas nos últimos anos (tanto aqui quanto na França). Detalhe: o livro foi escrito há mais de 60 anos. Tristes trópicos, triste Oropa.

  • João Viana 29/12/2006 at 11:04

    Dos livros que apontou aqui e li, gostei bastante.
    Boa seleção.

  • Clarice 29/12/2006 at 13:51

    Mas que bom. Duas mulheres: Nicole Krauss, Elvira Vigna. Não li nenhuma das duas. E também não li, mas me de urgência pela descrição do Sérgio: Roberto Bolaño, Felisberto Hernández.
    Quando é que vão fazer um seguro livro? Tem muita coisa prá comprar. Agora já sei como vou fazer. Sempre lerei os livros do ano passado. Próximo dezembro venho aqui, e junto às minhas compras para 2008.
    Um Feliz Ano Novo para todos.
    Quando é que sai o livro de figurinhas do ano?
    Agora é adesivo. Perdeu o charme. E não existe mais decalque… Para quem não sabe: um desenho que você tinha de botar na água para descolar ele soltava do papel e você colava onde quiser. Era tão bom!
    Se lançassem agora a garotada ia adorar. Mas os temas de hoje são de amargar.

  • Saint-Clair Stockler 29/12/2006 at 14:29

    Clarice, não ter lido a Elvira Vigna é imperdoável. Moramos na mesma cidade, se você prometer que vai me devolver, te empresto os livros dela. Mas não vai começar pelo último. Vai começar pelo “Coisas que os homens não entendem”, hahaha.

  • Saint-Clair Stockler 29/12/2006 at 14:35

    Aliás, o título é tão bom que podia surgir livros assim: “Coisas que os heteros não entendem” ou “Coisas que os gays não entendem”. O chato é que não ia vender, claro.

    Se eu escrever um livro e botar um subtítulo “contos gays” que homem vai ter coragem de comprar? Que homem vai ter a coragem de entrar na fila da Saraiva Mega Store ou da Fnac com um livro desses na mão, arriscando-se a ser visto?

    Aliás, o buraco é mais embaixo: que editora vai topar editar um livro que se chame, digamos, “Histórias gays” assim como temos o “Histórias fantásticas” do Bioy Casares?

    ALIÁS… como foi que eu cheguei aqui? E olha que eu nem bebo!

  • adriana rocha 29/12/2006 at 17:09

    Sérgio, por que será que não publicam o poeta turco Hikmet no Brasil? Um espanto, na minha opinião.

  • Clarice 29/12/2006 at 18:15

    Saint-Clair, claro que vou devolver! Eu não empresto livro nem peço emprestado. Só faço este tipo de transação com gente da área por que sabem que uma hora ou outra vai ter de consultar até um autor que não gosta para poder dar um exemplo ou para poder falar mal mesmo que é o que todos gostamos de fazer.
    Na minha casa ou na sua casa?
    Sedex para livro deve ser caro:))

  • Clarice 29/12/2006 at 18:28

    Eu sei como cheguei aqui.
    Tava lá no Orkut e as “comunidades”. Com 6.946 membros a gente entra achando que vai estar rolando um papo. A pergunta é sempre: “Qual o conto que você mais gosta?” Eu não entendo. Se fosse para um autor qualquer vá lá. Mas é de Flaubert para cima. Ninguém tem nada a dizer? Não precisa dissertar mas, por favor, não sabem nem falar sobre um personagem?
    De A Hora da Estrela perguntam: “Você leu A H. da E.”?
    6 respostas: Por que a Macabéa tinha que morrer no final; Quando a Macabéa morreu eu fiquei arrasado.
    Sérgio desculpe por isto aqui mas são estes os leitores de obras deste porte que se propõe a conversar sobre estes autores numa comunidade que reúne elite…
    Preocupante.

  • vinicius jatobá 29/12/2006 at 18:42

    Desejo a todos um maravilhoso 2007. Fiz a última atualização no meu blog e planejo curtir minhas férias e espero que todos também curtam e se divirtam. Muito boa a seleção dos livros de destaque de 2006, e como ela é subjetiva naturalmente não se podem fazer cobranças e nem reclamar omissões; no entanto, será que ‘Contos de Pedro’, do Rubens Figueiredo, não mereceria um lugar no pódio? Quanto ao ‘Detetives Selvagens’ realmente é um grande livro e por quase duas décadas um romance assim tão ambicioso não foi escrito na America Latina. Estou curioso para ler o romance ‘O Passado’, outro livro oceânico, do argentino Alan Pauls, que apontam como uma obra-prima e que a cosac irá editar em 2007. Seria importante voltar a editar os hermanos. De qualquer maneira, a mensagem é de felicidades para todos, e grande abraço.

  • Klink 29/12/2006 at 19:19

    Faz uma lista de não-ficção também.

  • Saint-Clair Stockler 29/12/2006 at 20:32

    Ah, Clarice, espero que você não esteja já pensando em pular fora do Orkut :-(

    Acho que você tá cobrando do leitor comum uma atitude que se espera apenas de gente envolvida com Letras. O leitor comum (esta assombrosa entidade) só fica no “gostei e chorei no final” ou no “não gostei e chorei no final”, hehehe. Eu acho que muita gente, sem auxílio, não conseguiria enxergar a maravilha de construção que é o “Madame Bovary”. Nem sei se eles têm de enxergar, assim como um imperativo, entende? Quer dizer, têm, mas não como um imperativo. Se esse fosse um país onde a leitura é uma atividade valorizada desde o jardim de infância, talvez pudéssemos e devêssemos cobrar do leitor comum essa postura. Mas não é, Clarice. Infelizmente, não é. A gente já tem de levantar a mão pro Céu de eles estarem na comunidade do Flaubert e não na do Paulo Coelho (que tem mais de 40.000 pessoas, acabo de ver). Um dia há de chegar em que o leitor comum brasileiro poderá conversar apropriadamente sobre Flaubert, Machado e os outros todos. Mas, sabe, nem na França o leitor comum (leia-se a maioria), que estuda, entre outras coisas, Filosofia desde pequenininho (estou aqui supondo que estudar Filosofia desde pequeno de alguma forma contribui para dotar melhor uma pessoa), é capaz de fazer uma razoável análise do Madame Bovary. Proust, então… ai. Eles ficam chocados quando eu digo que leio Proust na língua deles. “Muito chato”, exclamam. “Frases longuíiiiiiiiiiiiissimas”. Cansei de ouvir franceses bem-de-vida me dizendo: “Você conhece mais literatura francesa do que eu”. Acho que estamos sonhando com um mundo ideal que nunca saiu dos nossos sonhos e esperanças, que nunca houve de verdade. Eu já me resignei com o fato de que somos uma elite. E digo isso com a máxima humildade possível, porque só sou “elite” nesse sentido. Estou com R$25,00 na carteira pra passar o Ano-novo. Então, ainda franciscanamente, assumo: somos elite. E uma pequeníssima elite. Isso de querer que o populacho (expressão do Gaspari que eu adoro) leia Cortázar, discuta Proust, recite Goethe… ai, é uma coisa tão infantil. E não brigue comigo, não estou chamando VOCÊ de infantil. É à consciência coletiva burguesa, judaico-cristã, que quer dormir em paz sabendo que o entregador de gás leu “Grande Sertão: Veredas” que eu chamo “infantil”. Não você, por quem eu guardo imenso respeito. Não briguemos!

    Jatobá, feliz Ano-novo pra você também! Boas férias e bom descanso, tô indo lá no seu blog.

  • Priscila Fraiz 30/12/2006 at 01:11

    Sérgio,
    fico encantada ao ler suas crônicas ou comentários mas não sou muito preparada para a internet, onde há um espaço livre para quaisquer opiniões, ditadas pelo seu tema.
    Só gostaria de dar um exemplo sobre o que é “bostejar” sobre língua e literatura na internet e em outros canais livres.
    Minha amiga e comadre defendeu sua tese de doutorado em Educação de jovens e adultos (nota máxima) e, em uma das argumentações da banca examinadora, ela disse que era indigno a ausência do Estado na formação escolar, dando como exemplo sua filha , na época com 16 anos e presente na ocasião. Por ser de classe média e com condições de pagar com sacrifício um ensino de qualidade, ela argumentou e defendeu que todos deveriam ler Machado de Assis e que sua filha o lia com prazer, mas tamb’em depois de muita porrada.
    Oh, todos da banca e da plat’eia riram.
    Resultado: hoje, fazendo vestibular para Medicina, passou na primeira fase, em primeiro lugar, porque terminou sua reda’~ao com Machado de Assis? Nao, com GUIMARAES ROSA.
    Um feliz 2007 para todos.

    Priscila

  • Clarice 30/12/2006 at 05:56

    Saint-Clair,
    você tem razão. Eu fui privilegiada pois tive uma professora no ginásio que fez a turma gostar de literatura ao indicar livros que são apropriados à adolescentes. Machado para adolescentes é demais. Mas eu já gostava de ler. Interpretação de textos é coisa que ninguém sabe mais. É, infelizmente é elite. Não só no Brasil. Uma pesquisa veita pela Britannica fez ver que os ingleses atribuem quadros como a Monalisa à Munch por exemplo. Depois eu ponho esta pequisa aqui. Sair do Orkut? Eu não. Vou lá na “comunidade” do Todoprosa para reclamar do calor:o) Até eu fiquei de saco cheio de falar sobre metalinguagem. Sabe que hoje em dia leio sem analisar muito? Claro que resta o meu aprendizado pois fiz a tal da Faculdade. Mas acho uma praga ser da tal “elite”. Queria mesmo é ter um emprego, voltar para casa assistir à novela das 8, ler o Paulo Coelho antes de dormir e ficar satisfeita.
    Você tem Brida?

  • Saint-Clair Stockler 30/12/2006 at 07:49

    “Brida” continua sendo meu livro favorito do Paulo Coelho, Clarice. Mas não tenho mais o exemplar, dei pra alguém :-)

  • João Paulo 30/12/2006 at 08:19

    SAINT-CLAIR. Obrigado por seus esclarecimentos sobre a Arte Naïf. Bem explicadinho e tudo. Valeu mesmo! Abraços e feliz 2007.

  • Roberson 30/12/2006 at 09:43

    Escritores como os argentinos Ricardo Piglia e Juan Jose Saer, o espanhol Enrique Vila-Matas e o chileno Roberto Bolaño estão entre os que venceram o desafio de romper com a poderosa onda do boom latino-americano dos anos 60/70. São escritores bem distintos, mas os vincula uma reflexão comum sobre a memória e a experiência, realizada por todos eles em termos mais complexos e inteligentes que o pragmatismo e o conformismo dominantes costumam permitir.
    Bolaño em Detetives Selvagens consegue êxito com uma prosa polifônica, digressiva, visceral (não por acaso o livro trata dos “realvisceralistas), entrecruzada e labiríntica. O texto exige do leitor mais do que atenção. Talvez por isso e pelo tamanho do catatau (mais de 600 páginas) ande espantando a audiência. Sem medo de exagerar: uma obra-prima.

  • Saint-Clair Stockler 30/12/2006 at 13:23

    Um feliz 2007 pra você também, João Paulo!

  • Saint-Clair Stockler 30/12/2006 at 21:41

    Me lembrei que há um escritor árabe que teve mais um livro lançado este ano (“O último amigo”) por aqui, que é maravilhoso e ninguém fala dele no Brasil: Tahar Ben Jelloun. Ele escreve em francês, um francês ótimo, cristalino, mas ligeiramente diferente do francês de autores franceses. Temos alguns de seus livros publicados em português. Recomendo com veemência. Parece que ele é um dos cotados pra um futuro Nobel de literatura.

    De curiosidade: já ouviram falar em Tahar Ben Jelloun?

  • Roberson 01/01/2007 at 17:35

    Li sobre Tahar Ben Jelloun na Entrelivros. Uma entrevista se não me engano.

  • Kelby 01/01/2007 at 18:09

    Realmente Cesar Aira merece!

  • Éd Lascar 23/01/2007 at 17:49

    Saint-Clair, você está brincando quando diz que não há espaço para edições -e com sucesso de vendas!- de “Contos Gays”, não?!
    Claro que que há! Quem precisará de leitores heteros, mas ,fique certo, eles virão!

    Aguardo do lançamento!

    Abs.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial