Maria Alice ou a política literária pelo método alfanumérico

30/05/2012

Quando conheci Maria Alice, era o auge da guerra poético-universitária dos anos 90, o que queria dizer que éramos todos grandes escritores, jovens o bastante para isso. Eu andava fascinado por e.e. cummings e escrevia coisas assim:

cooktop
scoop
;stop
entope
poo
pi(l)l
: há

pupila
pop

Era absolutamente imperdoável, mas Maria Alice lia tudo com suas sobrancelhas grossas, seu silêncio enigmático, e depois se entregava na cama com tal desespero que eu me sentia aprovado de forma plena como poeta, como homem e como semideus, o que naquele tempo dava no mesmo.

Foi Maria Alice quem me ensinou a catalogar aliados e desafetos com as letras A e D seguidas de um número, de forma que o primeiro professor que me elogiou em público fosse, por exemplo, A1, e o último poeta rival a me desancar para terceiros no botequim, D59.

Foi também Maria Alice quem me sugeriu um aprimoramento no sistema, a fim de dar conta das migrações de um campo ao outro. Estas foram ficando mais frequentes à medida que a guerra poético-universitária dos anos 90 amadurecia: o professor A1 virava, por exemplo, D60(A1), o código alfanumérico entre parênteses indicando sua função passada, e se por alguma razão acabasse por regressar ao grupo dos aliados, o que não era raro, transmutava-se em A1b(D60), com a letra minúscula indicando quantas vezes havia passado por aquela posição. Ao fim de alguns meses, podia tal professor ser conhecido por, digamos, D60n(A1n).

– Você é um gênio, Maria Alice – eu gostava de dizer quando estávamos transando, porque a ideia de ter um gênio em minha cama era afrodisíaca. Com alguma frequência, tentando demonstrar que brilho também não me faltava, eu podia acrescentar uma elaboração nesta linha: – Você criou o batismo cambiante como única linguagem capaz de dar conta de um mundo em eterno devir. Um cartório administrado pelo tabelião Heráclito!

Ou coisa parecida. Um dia, de A13, Maria Alice virou D88(A13). Nunca entendi direito como isso aconteceu, mas foi bem na época em que a guerra poético-universitária dos anos 90 chegou ao fim e ninguém trocou de nome nunca mais.

2 Comments

  • Caixa de Literatura 17/06/2012 at 22:23

    Muito bom. Quando os sobrescritos reunidos saem em livro?

    • sergiorodrigues 18/06/2012 at 12:38

      Obrigado, Caixa. O primeiro volume dos Sobrescritos, com textos de 2006 a 2009, saiu em 2010 pela Arquipélago Editorial. Acho inevitável que saia um segundo volume, mas ainda não há previsão. Um abraço.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial