Amanhã eu escrevo: da arte de procrastinar

15/02/2014

procrastinate“Por que escritores são os maiores procrastinadores” é o título de um artigo da revista The Atlantic (aqui, em inglês) em que a autora, Megan McArdle, não prova o que diz. Permanece uma questão aberta se os profissionais da palavra escrita são realmente mais afeitos a adiar o trabalho – e depois adiar mais um pouco, e ainda outro tanto e mais outro – do que os representantes de outras categorias profissionais. Superlativo à parte, suspeito que quase todo mundo que escreve ou gostaria de escrever já tenha se deparado com o problema. Eu certamente já, e foi isso que me levou a continuar lendo o tal artigo, apesar do título bombástico. Quem sabe a autora revelaria uma fórmula mágica para acabar com a procrastinação?

Acredito ser inegável: grande parte dos escritores canaliza pelo menos metade de seus poderes de fabulação para a manufatura de desculpas que expliquem para si e para os outros por que não está escrevendo naquele momento: “Agora não, daqui a pouco sem falta, mas agora não. Primeiro preciso limpar a mesa do escritório. Responder àqueles emails. Levar o cachorro pra passear. Deixar meu pitaco inestimável naquela polêmica facebookiana sobre os prós e contras de sediar a Copa do Mundo no Brasil. Procurar no YouTube aquele vídeo do bebê punk. Ih, chegaram mais emails. Hoje não dá mais, amanhã sem falta, hoje não. Puxa, amanhã tenho médico e depois vou cortar o cabelo, saco, também não vai dar. Semana que vem me aguardem, da semana que vem não passa”. Soa familiar?

Talvez um estudo rigoroso revelasse que escritores são jogadores de várzea da procrastinação perto, digamos, dos parlamentares brasileiros, para citar uma categoria profissional aleatória. Como o que está em jogo não é o troféu da modalidade, pouco importa. O relevante no artigo é a especulação de McArdle sobre as razões desse pendor dos escritores pelo adiamento crônico – um pendor que pode ser doentio, culpado e torturante, mas nem por isso costuma ser totalmente desprovido de um prazer perverso. Resumindo sua teoria: o que está por trás da procrastinação é o medo do fracasso.

A lógica da articulista é que, enquanto a página está em branco, a felicidade autoral é não apenas possível, mas barata. Habitando platonicamente a cabeça ou a alma do escritor, mesmo que na forma de um projeto vago, confuso, a obra sempre pode ser vista como um atestado em potencial de seu magnífico talento. No mínimo pode ser vista assim pelo próprio autor – e em alguns casos, se o marketing for bem feito, também por pessoas à sua volta. Escrever é trocar o potencial acachapante do poema, ensaio, conto ou trecho de romance por sua realidade inevitavelmente mais modesta. Adiar o máximo possível o momento dessa troca será sempre uma perspectiva sedutora.

Que existe um fundo de verdade na argumentação de McArdle é evidente. Mesmo assim fiquei pensando: será que o medo do fracasso explica tudo? Não creio. Parece haver também em tal raciocínio uma dose de menosprezo aos escritores, pintados como criaturas indefesas diante do próprio ego, incapazes de preservar sua autoestima sem o recurso à trapaça bartlebyana do não escrever. Está bem, talvez o medo do fracasso dê conta da procrastinação nos estágios mais verdes de uma carreira literária. Como explicar, porém, que a tentação do adiamento continue a acossar escritores experientes, testados?

Atenção: não estou dizendo que, no caso destes, o ato de escrever deixe de representar aquela troca desvantajosa ali de cima, do potencial magnífico da obra inexistente por sua realidade inevitavelmente mais modesta. De jeito nenhum. A diferença é que, depois de algum tempo, isso deixa de meter medo. Com um pouco de sorte, nosso autor outrora assustadiço chega então a um estágio mais sereno – ou não, mas com certeza menos medroso – em que compreende que só há um jeito de tentar se aproximar daquela promessa exuberante e frustrada: continuar escrevendo, escrever mais, escrever de novo, nunca desistir. Entender que o fracasso não é o fim da picada, mas parte necessária do caminho. A concretização de seu ideal platônico de autor não veio num golpe só? Paciência. Que venha pouco a pouco, à custa de muito trabalho.

É nesse momento que o cara vira escritor de verdade. E mesmo assim, embora tenha se livrado do medo, é bastante provável que nunca se livre por completo da procrastinação. Por quê? Acredito que a resposta, que não está no artigo de Megan McArdle, seja a mais banal das verdades: porque dá um trabalho danado, ora. Porque boa parte do tempo escrever é mais chato do que atender ligação de telemarketing. Porque há momentos de desespero em que o sujeito arranca literalmente os cabelos, quando os tem, desejando do fundo da alma que tivesse escolhido a profissão de catador de lixo enquanto era tempo. Ainda assim é um trabalho que precisa ser feito, claro.

Do mês que vem não passa.

9 Comments

  • Claudio Parreira 15/02/2014 at 13:06

    Estes dias tenho deixado de escrever por causa do… calor.

  • Aurélio Schommer 15/02/2014 at 14:22

    Um belo socorro, embora desalentador. A procrastinação me atormenta. Sou um grande preguiçoso. Bom saber que não estou sozinho na sensação. Quero 100 anos de férias, e mais 200 depois deles para finalmente escrever, não mais procrastinar. O mal todo está na vida curta. A vida para o escritor será sempre curta. Por mais sucesso que fez ou fará seu testamento literário, não será definitivo, terá faltado acrescentar que… Culpa de nossa tendência para a procrastinação. Concordo, não é medo, talvez seja desconsolo. Quanto aos emails e à vida real, repleta de compromissos inadiáveis, ah, o horror, o horror.

  • Ernani Ssó 15/02/2014 at 18:23

    Às vezes, ficar enrolando é apenas um modo de esperar pegar a coisa de guarda baixa. Eu escrevo sempre, mas tipo água mole em pedra dura. Olhando de fora, ninguém acredita que estou trabalhando duro. Outra coisa: se os escritores vivem não escrevendo, como se explicam os milhares de livros publicados todos os anos?

  • Carlos Cezar 15/02/2014 at 22:59

    Bem, um escritor até possui lá seu direito à alguma procrastinação, afinal, está tentando vender seu tempo e sua criatividade, não causa prejuízo a ninguém mais além dele mesmo. Mais difícil é suportar a procrastinação de funcionários públicos com seus salários pagos pelo contribuinte.

  • Carlos Cezar 15/02/2014 at 23:05

    Aurélio às 14h22, bom comentário.

  • gerson 16/02/2014 at 01:43

    As mulheres poderão ajudar a desprocrastinar seus maridos: “mamãe virá passar uns dias conosco, bem!”

  • Atapoã da Costa Feliz 16/02/2014 at 08:36

    Faz tempo que vinha procrastinando para limpar as gavetas abarrotadas de papéis inúteis. Hoje cedo resolvi e encontrei dois textos de sua autoria:”O público, o privado e a privada” e “Qual a pronúncia correta de Roraima?” Ri a bandeiras despregadas. Quanto à pronúncia de “Roraima”, será que aquelas mocinhas da televisão também pronunciam
    “POLÁINA”?
    Ah! É evidente que não joguei fora os textos…

  • Marcelo 19/02/2014 at 12:04

    Algumas vezes, numa procrastinada dessas, os pensamentos conversam e surge a ideia, a palavra, o trecho que faltava para completar aquele texto parado.
    Abç

  • Andrea Prima 10/11/2014 at 08:33

    Aproveitando o assunto, a quem interessar, um teste para identificar seu tipo de procrastinador:

    http://www.playbuzz.com/sidartal10/que-tipo-de-procrastinador-voc

    É baseado no livro de uma psicóloga chamada Linda Sapadin (“It’s About Time!: The Six Styles of Procrastination and How to Overcome Them”, Penguin Books, 1997).

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