Amazônia

29/05/2008

Assim como o estado da federação, a floresta que alguns gringos gostariam de internacionalizar deve seu nome ao rio. Tudo começou com um potamônimo, palavrão que quer dizer “nome de rio”. Coube ao explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a descer o Amazonas de ponta a ponta, rebatizar em 1542 aquele marzão doce – a princípio chamado pelos colonizadores, justamente, Rio Santa Maria de la Mar Dulce – de Rio (das) Amazonas, após enfrentar uma tribo de ferozes guerreiras armadas de arco e flecha às suas margens.

A preposição foi tragada pelo tempo, e as certezas também. Seriam tapuias? Segundo uma tese, as “guerreiras” de Orellana eram na verdade mancebos cabeludos. De uma forma ou de outra, a maioria dos estudiosos é firme ao sustentar que o mito grego das amazonas está por trás de tudo, tratando como mera curiosidade a tese alternativa de que a palavra teria vindo de amassunu, termo indígena para “águas ruidosas” (e não “águias”, erro reproduzido em muitos sites brasileiros).

Como a etimologia é um campo de batalha em que pululam versões e mal-entendidos, a palavra amazona também carrega um qüiproquó de origem. O vocábulo foi provavelmente importado do iraniano ha-mazan (“guerreiras”), mas, adotado no grego, ganhou o apoio da chamada etimologia popular, aquela que parte de uma idéia falsa ou de uma aproximação sonora para alterar o curso de uma palavra: amazona foi interpretada como ligada a a + mazos, isto é, “sem seios”. Espalhou-se então a crença de que tais guerreiras se mutilavam para melhor manejar o arco. Em todas as representações artísticas da Antiguidade, porém, as amazonas aparecem, digamos, inteiraças.

Fica faltando explicar o porquê de Amazônia, mas isso é o mais simples. Basta aplicar às amazonas o sufixo latino indicativo de lugar que é usado em Itália, Lusitânia, Brasília etc.

Publicado na “Revista da Semana”.

18 Comments

  • Eric Novello 29/05/2008 at 10:41

    Tirar um peito para facilitar o arco sempre me pareceu piada do tipo “sentar no banquinho e arrastar o piano”. :) Fora que morrer de infecção deve ser fácil fácil no meio da floresta.

  • Tibor Moricz 29/05/2008 at 11:26

    Hoje o Brasil grita: A amazônia é nossa! Logo vão gritar: O deserto é nosso! Tomara que invadam e preservem, juro.
    O Orellana não é aquele que descobriu a caveira de cristal? rsrs

  • Carlos Magno 29/05/2008 at 11:26

    Essa história do Orellana está mal contada.

    Se os índios foram confundidos com mulheres guerreiras, o cara devia estar muito míope, pois não viu que “elas” não tinham peitos e estavam de pintos de fora? Eu heim?

    A etimologia de Amazonas hoje até que cabe bem, pois nos oferece a idéia de “zona” amada. Pelos estrangeiros, claro.

    Aliás, quem quiser se tornar poliglota é só viajar pra lá por uns poucos meses. Como tem gringo! Uma Babel!

  • Sérgio Rodrigues 29/05/2008 at 11:36

    É esse Orellana mesmo, Tibor. Falar nisso, você viu que as liberdades tomadas pelo Spielberg com a história e a geografia estão provocando revolta no Peru?

  • Sérgio Rodrigues 29/05/2008 at 11:49

    Aliás, Tibor, imagino que você esteja brincando com esse “invadam e preservem”, certo?

  • Tibor Moricz 29/05/2008 at 12:28

    Sérgio, erros iguais aos que os peruanos reclamam são comuns lá na terra do Tio Sam quando se trata de representar (ficcionalmente ou não) a vida do lado de cá. Não que sejam aceitáveis, claro. São até pitorescos!
    Quanto ao “invadam e preservem”, fui exagerado. Mas a falta de cuidado com nosso patromônio e a falta de vontade política para resolver o problema são tão gritantes que começo a delirar em soluções menos heterodoxas.

  • Tibor Moricz 29/05/2008 at 12:56

    Er… eu quis dizer “mais” heterodoxas…rsrs

  • Doida de pedra 29/05/2008 at 13:34

    Espero que esse negócio de tirar o seio seja mero folclore porque só de pensar me dá calafrio… :-O

  • Harpia 29/05/2008 at 14:54

    Quer dizer que o filme do Spielberg provocou “revolta no Peru”? Isto é porque eles não tiveram o prazer de ser retratados como foi o Brasil em um filme do The Rock que eu (confesso) vi há alguns anos.
    Pois o The Rock foi ao Amazonas resgatar o desaparecido filho do patrão, que era prisioneiro de um fantástico grupo de guerrilheiros, que, no meio da selva amazônica, jogavam capoeira, andavam de cipó, e comemoravam as vitórias tocando tambores tribais que, de um modo fantástico, soavam exatamente como uma bateria de escola de samba, com apito e tudo!
    Ah, e todos falavam espanhol …:-)

  • Carlos Magno 29/05/2008 at 15:28

    Pois é, Harpia, quando se trata de filmes de ficção na Amazonia, vale tudo.

    Pior mesmo, foi ver os nazistas fazer um ritual hebreu em torno da arca da aliança no Indiana Jones antigo e já véinho, igual a cara do Harrison Ford de hoje.

    Óbvio que foi vingança semita do Spilberg!

  • Rafael 29/05/2008 at 22:37

    Sérgio, acho que você forçou a barra no uso da expressão “termo indígena”, como se todos os índios falassem um único “indianês”. A que dialeto você se refere? Tenho certeza de que não é o Tupi, no qual o conceito de água é expresso por “Y” (como em Ypiranga — água vermelha).

  • Sérgio Rodrigues 29/05/2008 at 22:44

    Forcei não, Rafael. Se cometi um pecado, foi o de passar velozmente pelo assunto, que é secundário dentro do artigo. Ocorre que o lingüista Karl Lokotsch, autor de “Etymologisches Wörterbuch der amerikanischen (indianischen) Wörter im Deutschen”, que vem a ser o pai dessa tese, nunca esclareceu sequer de que tronco lingüístico estava falando. Esse é justamente um dos motivos de seu descrédito.

  • Jotabê 30/05/2008 at 09:25

    Sérgio,
    o seu quiproquó não está mais para quiprocó não?
    (no primeiro caso “uma coisa por outra” e no segundo, como aprendi garoto, no sentido de confusão?

  • Jotabê 30/05/2008 at 09:26

    Desculpe a falta de trema no qüiproquó (rs)

  • Sérgio Rodrigues 30/05/2008 at 10:08

    Jotabê, desconheço a existência de dois qüiproquós (com trema, mas não por muito tempo). Acredito que isso não passe de um qüiproquó.

  • valdir antonio da mata 30/05/2008 at 12:09

    a amazonio ja nao e mais
    dos brasileiro o propio governo ja lotio ela para os estrangeiro. nossos governantes nao penssao no brasil e sim no seus intereses. nas suas ganancia de dinheiro e poder. nao vejo uma lus no fim do nunel.antes eu tinha esperança. hoje vejo que nao vai sobrar nada para a gerasao futura.

  • José Antonio 30/05/2008 at 12:18

    Sérgio! Me desculpe mas, dizer “a floresta que alguns gringos gostariam de internacionalizar” é mera figura de linguagem. Com 39 mil fazendas compradas por estrangeiros na amazônia, liderados por um certo ínseto Suíço, algumas centenas de “Ong’s” internacionais, ganhando dinheiro nosso “no caso, do governo brasileiro”, para se manter na região e mais toda a interferência internacional daqueles países que já destruíram suas reservas e biosferas naturais é bom esclarecer que a Amazônia já é internacional e não nos pertence mais. Como não temos comando e isto aqui é um desgoverno, acharia bom refazermos o mapa do “Brasil” retirando a região. É estranho pensar que não uma só “Ong” dessas atuando na região nordeste. Me parecer que “preservar” a região também não está no centro dos interesses internacionais apesar do discurso. Creio que não há dúvidas quanto a compra de madeira extraída ilegalmente da área por empresas européias, asiáticas e americanas então a palavra é “Explorar”.

  • Carlos Magno 30/05/2008 at 13:51

    Acho que cabe uma investigação em cima de todos os governos para saber quem loteou mais a Amazônia para os grandes monopólios internacionais “Explorar” em troca de uns poucos milhares de dólares utilizados em obras e campanhas políticas.

    Não é difícil saber quem são os invencíveis grupos oligárquicos mundiais, pois não têm mais do que dez, creio, a mandar no mundo, mas importante para nós é conhecer os vendilhões do Brasil.

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