Ana Maria explode o Paiol

19/04/2007

A mídia tem dois soluços anuais. Hic! Abril. Hic! Outubro. Em abril, tem o Dia Internacional do Livro Infantil. Em outubro, o Dia da Criança. Nessas duas ocasiões, publica-se a mesma reportagem. Todo ano. Você pode só trocar o nome dos lançamentos. Eles telefonam e fazem as mesmas perguntas aos mesmos escritores. É um rito sazonal. Perguntam se a televisão atrapalha, se as crianças de hoje estão lendo menos. Aí a gente mostra, com números, que as crianças de hoje lêem muito mais. Lêem mais que os adultos até. E eles não acreditam. Seis meses depois, aquilo se repete outra vez. E os jornalistas não acreditam, não lêem, não vêem o que um livro do Pedro Bandeira ou do João Carlos Marinho pode ter de fascinante. Não lêem, não sabem. Mas quando ouvem falar de Harry Potter se arreganham e dão a ele uma capa colorida. A mídia é um caso perdido.

Procuro escrever todo dia. Isso não significa que eu aproveite aquilo que escrevo todo dia. Escrever não quer dizer publicar, não quer dizer aproveitar. (…) O importante é escrever. Uma hora amadurece. Posso estar enganada, mas acho que tem muito mais bobagem publicada do que genialidade não publicada. O que é bom mesmo acaba saindo.

Em toda parte, as livrarias estão mudando. Algumas estão encontrando nichos, se especializando. Mas, de qualquer modo, a produção hoje é tão grande que não dá para um livreiro ter um estoque de tudo. A livraria começa a funcionar como um show room. Você pergunta pelo livro, eles não têm. Mas encomendam. É assim. Aonde isso vai parar, eu não sei. Agora, isso é uma situação dos livros, não da literatura. A literatura já existiu em suportes diferentes. Já foi cantada com liras e alaúdes, já esteve em papiros e pergaminhos. Enfim, a literatura continua.

Está imperdível o Paiol Literário com Ana Maria Machado no “Rascunho”. O site do jornal, com link aqui à direita, ainda não traz a edição de abril, mas vale marcar em cima. Acréscimo em 20/4: o texto do Paiol já está no ar, aqui.

21 Comments

  • Valéria 19/04/2007 at 18:04

    muito bom… Uma dúvida que tenho, até que ponto Harry Potter gera futuro leitores? Ou até que ponto gera apenas consumidores de páginas (avidos pelo próximo golpe da autora), de jogos, de filmes e brinquedos? Não tenho resposta. Voces tem?

  • Cezar Santos 19/04/2007 at 18:52

    Valéria,
    Resposta na certeza absoluta do termo ninguém tem. Mas a leitura estimula leitura, me parece que isso chega a ser um axioma. Harry Poters e Paulos Coelhos podem levar a Cortázares e Éricos Veríssimos, sei lá, embora isso não seja garantido.
    Dias atrás li uma entrevista num jornal local, em que o dono de um grande sebo na minha cidade dizia que é um leitor compulsivo (palavra dele) e que já tinha lido todos os livros do Paulo Coelho e de um tal de Gasparetto…
    De qualquer forma, acho que esse homem é uma pessoa melhor do que seria se não tivesse lido todos os livros do PC….não sei se me faço entender.

  • Ana Z. 19/04/2007 at 18:54

    Olha, Valéria, se Harry Potter não vale como experiência literária de inquestionável qualidade, tem o mérito de ser leitura divertida e cativante. Isso me parece ótimo para a formação de leitores. O caso é que nem todo leitor precisa gostar de literatura. Se o País tiver gente que saiba ler já é uma grande coisa. Se gostar de ler melhorar ainda. Se gostar de literatura, sensacional. No mais, depois que se é fisgado pelo prazer da leitura – seja ela literária ou não – o consumo de páginas é inevitável… e é bom que seja!

  • Daniel Brazil 19/04/2007 at 18:54

    “Acho que tem muito mais bobagem publicada do que genialidade não publicada”. Matou a pau!

  • Daniel Brazil 19/04/2007 at 18:57

    Quando era menino ganhei (e li) a coleção completa do Tarzan. Era um dos Harry Potter da época.
    Só me fez gostar mais e mais de ler. E procurar outras leituras.

  • nadia 19/04/2007 at 19:16

    Acho que há tanto pré-conceito, sabe… não leio mais Paulo Coelho, mas o li por volta dos 15 anos. Passou. Já li Zibia Gaspareto – a entendi que todos os seus livros psicografados são iguaizinhos. Ja parei no meio de um Saramago. Mas não me impede de esperar com expectativa pelo próximo livro dele. Não sou muito acostumada a ler poesia, prefiro prosa. Gosto de dar livros de presente. Gosto de biografas. Leio alguns “best sellers” como quem procura algo com o controle remoto depois da meia-noite, despretenciosamente. Entretenimento. Não precisa ser um clássico. Não necessariamente tenho que tirar uma lição ou fazer grandes reflexões.
    Acho que as pessoas tendem a reclamar demais. Se as crianças (ou adultos) não lêem, reclamam. Se lêem HPotter (ou o autor “da moda”), reclamam também. Estão perdendo tempo e dinheiro com literatura sem valor.
    Só acho que quando cria-se um hábito, existe a possibilidade de um leitor ir apurando seu gosto, na medida que pode comparar estilos, autores, tipos de livros.

    Prefiro me despir de certos preconceitos e recordar o mestre Ranganathan:
    “Para cada leitor o seu livro e para cada livro o seu leitor.”

  • Mr. Ghost(WRITER) 19/04/2007 at 21:15

    Realmente a mulher está ateando fogo…
    Bom, não vou atear fogo na discussão dos méritos desméritos de Potter e Paulo Coelho, particularmente não gosto de nenhum dos dois, mas é opinião minha… agora o que ela falou sobre a mídia é sem sombra de dúvidas absoluta verdade… ô povinho para se arreganhar hein…
    Só para não ser o chato da história, comecei a ler há muito tempo atrás histórias em quadrinhos, depois fui passando para os livros… os primeiros foram “Ovelho e o mar”, “A paixão Segundo GH” e “A metamorfose”… isso aos 19 anos… a mulecada está lendo Potter desde sei lá que idade, só espero que possam chegar aos livros ótimos livros dos autores destes que acima citei e ir, claro, muito além…

  • Mr. Ghost(WRITER) 19/04/2007 at 21:17

    Digo, dos méritos E desméritos de…

  • mariana 19/04/2007 at 22:37

    harry potter funcionou comigo. eu lia bastante quando pequena, mas dei uma parada na pré-adolescência, era só sherlock holmes ou algum presente de natal. lá pelos 13 anos me diverti bastante com harry potter e lembrei que ler era legal. passei a dar mais importância à coisa toda, migrei de harry potter pra senhor dos anéis, depois pra edgar allan poe etc. talvez eu não fizesse faculdade de letras se não tivesse lido potter, vai saber.

    (vergonhinha aqui do comentário no estilo ENCONTREI JEZUZ)

  • marco 19/04/2007 at 22:42

    Ana Maria está enganada.
    Não é a mídia que se arreganha diante de Potter e sim o público. O maldito público, aquele que não dá bola para quem deveria – na opinião de certos autores – e dá bola demais para quem não merece – na opinião de certos autores.

    Chega desse papo de artista coitadinho, dono de um talento de Shakesperae, mas infelicitado por duas entidades más: O Sistema e a Mídia.

    A criadora de Harry dava aulas de inglês na lusitana cidade do Porto e apanhava feio do marido português. A Mídia não a socorreu. Tampouco o Sistema.

    A moça, ainda de olho roxo, e ainda sem ajuda da Mídia, olhou pela janela do trem que percorria os campos ingleses, e ali, no reflexo da janela, começou a sonhar-criar Harry Potter.

    Poupo os detalhes da batalha para convencer alguém a publicar o livro, sempre sem ajuda da Mídia Má ou do Pérfido Sistema.

    Finalmente o livro é lançado e o público, o maldito público, se encanta com ele.

    Então, só então, a Mídia espalha o encantamento dos malditos ingratos para o mundo globalizado até a medula.
    Com página à cores e tudo mais.
    Aliás, por falar em cores, a inveja é verde.

    Alguma dúvida?

    abs a todos,
    ma

  • marco 19/04/2007 at 22:43

    Shakespeare.

  • 20/04/2007 at 00:01

    Ficou devendo dizer o que pode ter de fascinante na obra do Pedro Bandeira além da obscenidade de livros que ele vende pro MEC, com produções chapa-branca, sob encomenda (tal e qual a entrevistada), em processos de escolha muito esfumados pelo lobby e “poder de persuasão” das editoras… Enfim, ela tenta ganhar público, com a velha e vazia metralhadora giratória da polêmica, para a literatura de quinta produzida, hoje, por ela e o sujeito que ela escolheu para citar.

  • joao gomes 20/04/2007 at 09:59

    Aviso as criancinhas do mundo: nao leiam Richard McBeef e Mr. Brownstone. Avisa-se que contêm linguagem eventualmente chocante.

  • Tibor Moricz 20/04/2007 at 10:04

    Aviso aos navegantes: Ovelho é marido da Ovelha.

  • Valéria 20/04/2007 at 11:56

    Parafrasendo o colunista:“Os livros ruins também são necessários. São os mais excitantes: eles nos dão gana de recomeçá-los, nos convidam a intervir.” JEAN PAULHAN …
    de qualquer maneira, não consigo entender o embevecimento de leitores maduros com o bruxinho Potter. Para mim, continua um mistério porque leiores profissionais, como jornalistas, façam fila para ler os livrinhos intrigantes. É apenas uma constatação…Para mimtem algo a ver com a imaturidade, com o reino eterno do peter pan entre alguns de nossos intelectuais…

  • Tibor Moricz 20/04/2007 at 12:16

    Harry Potter é leitura de entretenimento. E como tal, passível de ser lido tanto pelos pequeruchos quanto pelos adultos. Não há outro comprometimento nos livros de JK. E a tese da imaturidade vai por terra.

  • joao gomes 20/04/2007 at 12:36

    São o resultados das práticas das ciências ocultas. Pactos são feitos em prol da Fortuna. O Gênio da Lampada de Lampião vive! Saramago por exemplo, (alguns alunos me diziam, nos tempos idos, SalAmargo) atesto nunca fez tal pacto. Nem tão pouco o Nareba. Tenho certeza absoluto que este não se alinhou a qualquer movimento político, literário, científico ou mesmo filosófico.
    Nem eu mesmo. Existe uma Legião de escritores que não se vendem, não se rendem aos pseudodeuses impostores: Mercado, Mídia.

  • Ana Z. 20/04/2007 at 12:59

    Zé, interessante suas observações. O MEC é o maior (de longe, muito longe) comprador de livros do País. Quando a Câmara do Livro informa que x livros foram vendidos no Brasil, no ano tal, pode saber que o responsável pela maior fatia dessa compra foi o Governo Federal. Isso indica o quanto aquelas informações sobre a quantidade média de livros comprados pelos brasileiros por ano são furadas. O Governo compra muito (livros didáticos, na maioria), alguns cidadãos compram pouco e a maioria não compra nada, o que dá uma média quase razoável, mas ilusória. Fazer parte da panela de autores que têm seus livros escolhidos pelos programas de leitura do MEC é uma maravilha – é a única forma de ser lido por muitos numa sociedade em livro é luxo. A Ana Maria tem razão ao dizer que as crianças lêem e lêem mais que os adultos. A maior razão para isso é que os pequenos têm (bons e diversos) livros disponíveis para leitura, gratuitamente, em suas escolas. Os critérios de escolha desses livros é meio nebuloso, sim, mas o resultado não tem ferido a razoabilidade. Considerando o volume estratosférico das compras públicas e os muitos interesses em conflito, qualquer critério seria questionável. Você tem absoluta razão quanto ao Pedro Bandeira – os livros dele são fraquíssimos, sofríveis. A Ana Maria Machado, no entanto, é ótima! Ainda bem que ela (e a Ruth Rocha, e a Tatiana Belinski, só para citar alguns) estão entre os escolhidos pelo MEC.

  • Lorena Suppa 20/04/2007 at 13:11

    Mariana, migrar para o Edgar Allan Poe foi dez! Aliás, Sérgio, você poderia falar dele em algum post? Fica minha sugestão :)

  • aiaiai 20/04/2007 at 18:21

    Nem vou entrar na discussão…só queria comentar que sempre que leio sobre as pessoas serem motivadas a ler pelo ambiente (como a Ana Maria Machado diz em seu texto) me considero um “ET”, no sentido de diferente. Ninguém na minha família jamais leu nada, meu pai lia o jornal mais como vício do que como fonte de conhecimento (alias, bom para ele porque jornal não é mesmo fonte de conhecimento), mas, voltando, já eu …parece que nasci com vontade de ler. Não tinha livro na minha casa, a não ser a Bíblia, e era sagrada não era para criança mexer…então, eu lia tudo que parava na minha mão: o jornal do meu pai, os folhetos da igreja, livros na casa dos meus primos. Um dia, belo dia esse, minha irmã mais velha precisava ler, para a escola um conto do Monteiro Lobato. Meu pai foi comprar, mas não achou só o livro…achou um cara (acho que era num sebo) que só venderia o livro se meu pai comprasse a coleção toda. Eu tinha 9 anos, e a coleção era para adultos. Meu pai chegou com a coleção, colocou numa estante da sala e nem falou nada, mostrou para minha irmã o livro que tinha o conto que ela tinha que ler. Bendito professor aquele, bendito vendedor de livro, bendito meu pai que não economizou…eu li a coleção inteira, tinha coisa como “O petroleo é nosso”, “história do negrinho pastoreiro” (que me deu um medo danado), histórias de amor, várias. Só muito mais tarde fiquei sabendo que existia uma coleção infantil do monteiro lobato. E o melhor: não eram livros novos, eles tinham aquele jeito de livro que já foi lido por outras pessoas e essas pessoas gostaram, não sei se me entendem…
    Bom, quando eu tinha uns 11 anos descobri uma biblioteca pública perto de casa e ai nunca mais parei de ler, li e leio tudo que me vem parar na mão.
    Sei que não tem nada a ver essa minha história, mas queria só dividir com vocês. Acho que existe leitor que nasce leitor, acho não, tenho certeza.

  • Cláudio Soares 20/04/2007 at 19:19

    A mídia não é de todo um caso perdido. Existem sim profissionais bem preparados e outros não tão bem preparados. Os últimos precisam (concordo) se informar mais, inclusive sobre Literatura nacional (não apenas sobre o que sai no NYT). Hoje, por exemplo, li em um grande jornal aqui do Rio que o evento de ontem na ABL (inauguração da escultura de Manuel Bandeira e da exposição Bandeira o tempo inteiro) comemorava o centenário do autor. Errado. O certo é homenagem aos 121 anos do poeta e 110 anos da ABL. O jornal (que pena!) sequer comentou sobre a ótima exposição (curadoria de Alexei Bueno) aberta ao público a partir de hoje até 29/07.

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