Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a TDN

25/01/2010

A chamada Técnica do Deputado Nordestino (denominação em que há inegavelmente uma dose de preconceito, visto que políticos de qualquer latitude dela lançam mão), ou apenas TDN, é a maior aliada do escritor que precisa preencher determinado espaço com suas letrinhas em prazo curto – o que a torna especialmente valiosa para cronistas.

Trata-se, em resumo, de uma longa reiteração, de um incansável repisar da mesma idéia, com variações vocabulares, sintáticas e imagísticas engenhosamente dispostas de modo a disfarçar o fato desolador de que o texto não vai a lugar nenhum, limitando-se a bater na mesma tecla e sovar uma única proposição até que ela amoleça, se liqüefaça, desmanche diante do leitor e possa ser sorvida com canudinho – mais ou menos, repare, como se faz aqui, agora.

Sabe-se que o movimento é importante para o sucesso de um texto, que deve sair de um ponto A e chegar a um ponto B – ou G, ou X, conforme a capacidade do autor – por meio de um desdobramento dialético em que, não raro, cada passo corresponde a um parágrafo. Infelizmente, sabe-se também que isso dá um trabalho danado. O número de sinapses necessário para ligar esses pontos pode ser de fato desanimador, dependendo do prazo e da remuneração. É aí que entra a TDN, que substitui o movimento por um rodopio neurótico no mesmo lugar. Por que dizer apenas “minha administração será marcada pela honestidade” quando o comício é longo e pode ser preenchido por algo como “minha administração, minha gestão, minha atuação à frente da coisa pública será pautada, será marcada, será fundada e balizada pela honestidade, pela retidão, pela transparência e, por que não dizer, pela absoluta priorização do bem geral da população contra qualquer interesse espúrio, qualquer negociata, qualquer dessas pragas que…” – e por aí vai, indefinidamente.

A TDN é um truque antigo, mas sempre eficaz. Vítor Martins, letrista de Ivan Lins, construiu toda uma carreira com ela (analise “Começar de novo”, por exemplo), e muitos cronistas de renome veriam sua vasta obra minguar a três ou quatro páginas sem o auxílio desse inestimável expediente. Que, para completar, ainda costuma valer ao autor comentários boquiabertos como este:

“Puxa, como ele sabe trabalhar a linguagem!”

24 Comments

  • gilvas 25/01/2010 at 12:17

    prosopopéias flácidas, e os bovinos as engolem dormindo.

  • Rafael 25/01/2010 at 12:37

    Então, Sérgio, já leu o Tristam Shandy?

    • Sérgio Rodrigues 25/01/2010 at 12:47

      Não, Rafael. Comecei há uns dois anos, em homenagem ao Machado, mas a coisa não prosperou. Vc recomenda?

    • Rafael 25/01/2010 at 15:38

      Sérgio,
      Recomendar, eu recomendo. Mas com um caveat: é necessário entrar no espírito de um texto cheio de idas e voltas, rico em digressões intermináveis e com um tipo de humor que nos soa um tanto quanto escorregadio. Quem gosta de ação jurará de morte o Sterne, mesmo tendo o coitado (ops, desculpe, Frederico!) falecido há muito tempo. A narrativa do Tristam Shandy é uma continua fuga de si mesma, o que leva a crer (eis por que fiz a pergunta) que Sterne havia antecipado a TDN séculos antes do seu tratado definitivo do tema. Há, nesse livro, trechos aborrecidíssimos, que pouco acrescentam à trama; nessa característica, entretanto, reside sua graça, especialmente depois do triundo arrasador da narrativa “essencialista” (acabei de cunhar o termo), aquela em que cada palavra, cada mínimo detalhe do texto exerce alguma função narrativa indispensável. A sombra de Flaubert é maior do que se imagina…
      Fica, pois, a dica.
      Vale

  • Tibor Moricz 25/01/2010 at 14:46

    Encher lingüiça é uma arte. Na tentativa de um amador, revela-se um desastre.

  • cely 25/01/2010 at 15:13

    Vamos combinar heim Sérgio, em se tratanto do texto,ÓTIMO!Gostei muito,como de “quase tudo” que voce escreve aqui.
    Se bem que no segundo parágrafo voce usou e abusou da técnica.Agora em matéria de siglas que dão nome a truques para enganar o préximo e fazer e acontecer sem culpas, que tal a atualíssima TPM?Os casados que o digam…

  • Cris 25/01/2010 at 16:35

    Sergio, a tal da TDN não seria tautologia?

  • Sérgio Rodrigues 25/01/2010 at 16:42

    Cris: a TDN é um sistema complexo. Tautológico, sem dúvida, mas também perifrástico, pernóstico e pseudopoético, para ficar no capítulo das proparoxítonas.

  • kylderi 25/01/2010 at 17:54

    Aqui na Uece, uma universiadede nordestina, foi utiizado domingo em seu vestibular um texto do Olavo Drummond (“Cidade sem luz”). Imagino que ele retratou o interior mineiro. Agora, e a tática de ser preconceituoso se desculpando em ser preconceituoso? Basta dizer isso que podemos ofender os outros? Nelson Jobim, Paulo Maluf e César Maia nasceram onde e fizeram carreira onde?

  • Sérgio Rodrigues 25/01/2010 at 18:20

    Kylderi, não vejo como você pode ter achado que eu “me desculpei” por ser “preconceituoso”, quando eu não tinha – e não tenho – por que pedir desculpas. Estava só explicando (e ampliando) essa ótima metonímia do cultor da prosopopéia pernóstica, prima daquela também perfeita do “político mineiro” (conciliador, vaselina). Você se ofendeu mesmo com o “deputado nordestino”? Que coisa.

    • Armin Koehler (Ibx Cor. de Seg. e Prev.) 26/01/2010 at 07:04

      E assim, são as criaturas, de um simples texto, levantam bandeiras, provas, transforma em crime e pedem medalhas, estamos falando do ser inquieto que na verdade não defende a honra da literatura ou do português e sim da sua própria vaidade…

  • Carlos Alberto 25/01/2010 at 21:54

    Então, muitos textos convertidos em discursos estão chegando.

  • jaime silva 25/01/2010 at 22:44

    Como baiano que sou e nordestino, por imposição da geografia, não me sentí ofendido. Pois todos nós,lorotistas juramentados, usamos essa técnica, que eu costumo chamar de “tertúlias plácidas pra bovinos ressonar” ou, para ser mais explícito, conversa mole pra boi dormir. No meu tempo de ginásio, os mestres nos castigavam com notas baixas quando percebiam que o que queríamos era “encher linguiça”. Eu gostei…parabéns !!!

  • Frederico 26/01/2010 at 04:12

    Fico Assim Sem Você – Claudinho e Buchecha
    Composição: Abdullah / Caca Moraes

    Avião sem asa,
    Fogueira sem brasa,
    Sou eu assim, sem você
    Futebol sem bola,
    Piu-piu sem Frajola,
    Sou eu assim, sem você…

    Acho que essa música cantada pela ex-dupla e pela Adriana Calcanhoto seria um exemplo de TDN, não?

  • João Carlos 26/01/2010 at 09:56

    No meu tempo de estudante, quando fazia redações, ficava frustrado porque meus textos eram sempre menores do que os da maioria dos colegas. Mesmo assim, minhas notas eram boas. Um dia, conversando com a professora sobre o assunto, ela me disse que o que importa não é o volume, mas a concisão.

  • raimundo carrero 26/01/2010 at 12:02

    Meu caro amigo Sérgio: Infelizmente não concordo com você. Sei que você é um intelectual sério e uma pessoa correta, e só lhe escrevo porque reconheço as suas qualidades. Compreenda, por favor: discordância não é inimizade. Apenas discordância, é claro. Creio que a digressão, mesmo aquela que pareça inútil, e só pareça, é uma técnica muito curiosa que precisa conduzir o leitor para linhas diferentes da narrativa, para a surpresa;dá a impressão de conversa mole, de enche linguiça, mas tem uma função literária importante. Veja o caso de Machado de Assis em “Dom Casmurro” que, afinal, é uma longa digressão. Tudo tão bem elaborado,que os capítulos seguintes à denúncia de José Dias parecem inúteis. É preciso, portanto, verificar os capítulos da procissão do Divino Espírito Santo e do sonho do Imperador, entre outros, para concluir que ali a digressão tem função e tem efeito: tira a dramaticidade de Bentinho e dá a impresão de uma crônica do Rio de Janeiro. Fernando Sabino viu isso e, ao reescrever “Dom Casmurro”, na terceira pessoa – “O amor de Capitu” , Editora Ática – retira esses capítulos. Por quê? Porque Sabino desconfiava que ali o narrador onisciente – que ele julga ser o próprio Casmurro – tentava levar o leitor para outros caminhos. É assim que surge a sedução do leitor. Narrativa de ação indireta. Com a validade de um clássico absoluto. Por favor, entenda que quero apenas contribuir com o debate e que reconheço, mais do que ninguém, a sua capacidade de análise. Abs de Raimundo Carrero

    • Sérgio Rodrigues 26/01/2010 at 17:20

      Meu caro Carrero,
      É um prazer vê-lo aqui. Obrigado pela gentileza de sempre, mas saiba que sua opinião é bem-vinda, discordante ou não, nem precisa pedir licença. Só fico com a impressão de termos um mal-entendido: eu falei de reiteração exaustiva, não de digressão!
      Fico imaginando que talvez o mal-entendido tenha sido provocado por mim mesmo ao usar a imagem dos pontos A, B, G etc. Isso pode ter dado a entender que vejo o texto como uma linha reta, a menor distância entre dois pontos, o que evidentemente não é o caso. O texto faz curva também, claro. Pode e talvez até deva até deixar pontas soltas, dar em becos sem saída, ir e voltar. O que procurei satirizar modestamente aqui é outra coisa, bem mais comezinha: a falta de movimento. E a digressão, bem analisada por você naqueles textos do “Rascunho”, é puro movimento, pois não? Vai-se do A ao B passando por, sei lá, W. Arriscado, mas pode ser genial.
      A falta de movimento a que me refiro no fundo é falta de idéias em movimento, uma deficiência que se procura maquiar com palavrório, paráfrase de paráfrase de paráfrase – um mal que, até onde percebo, se limita a atacar certos cronistas sem assunto.
      Mas sua mensagem me fez ficar pensando. Excluídas as utilidades óbvias da reiteração moderada – ênfase, diminuição da velocidade narrativa e tal – será possível fazer boa literatura com reiteração pura? O único exemplo que encontrei na memória (deve haver outros) foi aquele famoso conto do Sérgio Sant’Anna, “No último minuto”, em que o goleiro que tomou um frango humilhante revê à náusea o tape do seu fracasso. Ou seja, é possível. Mas também ali, por baixo do marasmo, existe um movimento sutil – o de um sujeito em direção ao fundo do poço.
      Apareça sempre.
      Um grande abraço.

    • Rafael 26/01/2010 at 17:46

      Poxa, Sérgio, você se esqueceu do Tristam Shandy, o livro em que a técnica digressiva atinge, por assim dizer, o ápice. Procurarei em casa (pois estou no escritório) aquele livro do Italo Calvino com suas propostas para o próximo milênio. Se não me falha a memória, lá é citado uma digressão (ops) muito interessante sobre o Sterne, que muito tem a ver com a discussão. Se encontrar o livro, prometo colocar aqui a citação.
      Antes que me esqueça: desculpem a intromissão numa conversa alheia.
      Vale

    • Sérgio Rodrigues 26/01/2010 at 17:59

      Rafael: como assim, me esqueci do Tristram Shandy? Eu não estava procurando exemplos de digressão! Será que o mal-entendido ainda não se desfez?

  • Eduardo Sabino 27/01/2010 at 13:17

    Sérgio, muito bom. Talvez a sequência dos pontos, apenas, gere certa confusão. Pois é perfeitamente possível (Machado que o diga) explorar um ponto A sem necessariamente chegar ao B, ou voltar ao ponto A depois de se chegar ao C, enfim, acho que sua argumentação não confronta esses labirintos da narrativa (tão belos). O problema talvez seja a redundância com que muitos exploram tais pontos, a falta de concisão que não colabora em nada para a amplitude de significado do texto. Abraço.

  • raimundo carrero 27/01/2010 at 15:52

    Maravilha, Sérgio. Também me equivoquei, mas o seu comentário é bastante esclarecedor. Sempre gosto de consultar o Todoprosa. É ótimo. Abs de Carrero

  • Luiz Cláudio 29/01/2010 at 12:51

    A Martha Medeiros é a mestra da TDN.

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