Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o plausível

22/10/2009

Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não soe falso, para que o leitor acredite naquilo, para que tudo fique, digamos, plausível. (Não sei se o autor da pergunta tinha lido algum dos autores à sua frente e o considerava especialmente plausível. Gosto de imaginar que estivesse externando uma angústia antiga, nascida talvez da insatisfação com seus próprios escritos – mas isso não vem ao caso.)

Depois de alguns segundos de constrangimento, não suportando mais o silêncio, peguei o microfone e comecei a falar a primeira coisa que me veio à cabeça: algo sobre a importância de rasgar, reescrever, enxugar, experimentar outro caminho. Mas a verdade é que, como meus companheiros de mesa, passei longe de captar o alcance da pergunta. Via nela apenas o lado ingênuo, óbvio, infantil, diante do qual o primeiro impulso é sacudir os ombros: “Ora, escrever é isso aí mesmo, o que mais posso dizer?” Só agora, meses depois, começo a entender as sutilezas da plausibilidade.

Convém explicar esse negócio. Quando se fala em plausível, aqui, não se quer dizer realista. Mesmo porque, no limite, o espelho da realidade é profundamente implausível – já sabia Mark Twain ao dizer que a literatura, ao contrário da vida, tem que fazer sentido. Cortázar é inteiramente plausível ao mover seu protagonista entre Buenos Aires e Paris no tempo de uma vírgula. A plausibilidade em questão se instaura dentro do próprio texto, e não na relação deste com o mundo exterior. Está nas palavras, na escolha delas e na relação que estabelecem umas com as outras. Tem menos a ver com a idéia de verossimilhança e mais com a de reverberação. Os críticos que falam em suspensão de incredulidade não fazem nada além de pagar tributo ao plausível.

Pode parecer banal, mas há algo de misterioso nessa idéia. Autran Dourado fala de livros insatisfatórios salvos pela simples troca de um tempo verbal – do passado para o presente, por exemplo. Sei, por experiência própria, que personagens irremediavelmente falsos podem se fazer verdadeiros num segundo, bastando para tanto trocar seu nome – tarefa que nos processadores de texto não dá trabalho nenhum, mesmo que executada ao longo de mil páginas. Tudo isso sugere algo de alquímico no texto literário, um elemento que está além da técnica e até da inspiração. Um elemento cujo melhor símbolo talvez seja a vírgula que faz desabar um romance, na famosa hipérbole de Luiz Vilela. Volátil, difícil de controlar, esse poder que têm (mas terão mesmo?) as palavras de soar verdadeiras ou falsas em si mesmas, bastando para tanto uma troca de sonoridade ou ritmo, tem sua manifestação mais inexplicável numa idéia que li certa vez numa entrevista de Jeffrey Eugenides.

A tese do autor de “As virgens suicidas” é simples: as cenas narradas por um escritor podem ser sempre melhoradas pela introdução de um elemento qualquer, ainda que secundário, que lhe seja caro ao coração. Assim, ao apresentar um personagem em tudo diferente de si, um sujeito detestável cujas circunstâncias e personalidade não lhe poderiam ser mais alienígenas – terreno fértil para a insinceridade e o esteótipo, como se pode imaginar – o escritor deve usar o truque de incluir entre seus traços distintivos algo tirado de sua própria experiência. Digamos, um gosto infantil por bolinha de gude. E pronto: os maiores canastrões da literatura se tornam imediatamente críveis. A gota de verdade num caldeirão de mentiras deflagra uma espécie de reação química que faz tudo parecer verdadeiro.

A se aceitar como razoável o conselho de Eugenides, vemo-nos diante de uma questão um tanto esotérica: se a “verdade” do texto para o escritor se funda num elemento tão secreto, de que forma essa verdade se comunica ao leitor ignaro? Do ponto de vista deste, que diferença pode fazer, numa descrição, que um dos itens mencionados de passagem diga respeito a uma memória emocional do autor, se este não o declara? Mas faz toda a diferença, sustenta Eugenides.

Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva sobre isso, mas devo dizer que minha experiência parece comprovar a tese. Lembro-me de usar o truque, por exemplo, ao descrever o quarto de Camila, personagem de “Elza, a garota”. O troço não soava lá muito bem até eu meter no quadro o aquário onde mora um beta azul chamado Zeb. Zeb, o peixe de verdade, pertencia aos meus filhos e tinha morrido pouco tempo antes. O trecho sem dúvida melhorou com a chegada dele, e acho que não apenas para mim. Só não vou dizer que entendo, às vezes sobram uns mistérios.

O texto de hoje, ao contrário dos dois primeiros da série, é inédito.

24 Comments

  • Thiago Maia 22/10/2009 at 18:09

    SR, e uma outra teoria, de Ernest Hemingway, de que as lacunas de um texto, se ao menos imaginadas ou projetadas, tornam-se factíveis para o leitor e até são percebidas, ou sentidas, por ele?

    Ah, arrisquei neste texto, mesmo não sendo ficcional, usar o que você cita: antes eu escrevi o parágrafo acima apenas com “Hemingway”, sem “Ernest”, e realmente acho que agora está mais plausível. Ou seria só gosto?

  • Izabel 22/10/2009 at 18:34

    Não acho que tem que convencer o leitor a não ser que já saiba quem é o leitor.

  • gilvas 22/10/2009 at 18:40

    wilde dizia que o o impossível é mais crível do que o improvável, mas creio que não se referisse especificamente ao ato de escrever romances. de qualquer forma, deu-me o que pensar a tua reflexão. obrigado.

  • John Coltrane 22/10/2009 at 18:55

    Muito bom isso.

  • joão sebastião bastos 22/10/2009 at 20:47

    Não é a toa que Drumond considerava o ato de escrever ‘ a luta mais vã ” .È negócio pra doido, mesmo.Explicar algo tão orgânico, como a verdade individual, é negócio pra doido, dar um sentido e tentar dar um rótulo (legível) a algo tão subjetivo.

  • Tibor Moricz 22/10/2009 at 21:57

    Qualquer texto ficcional precisa ser plausível (mesmo que inserido em cenários fantásticos), sob o risco do leitor abandonar a leitura. Trata-se mesmo da suspensão da descrença.

  • Thaís Sprovieri 22/10/2009 at 23:30

    Se durante a composição literária essa “memória emocional” for inserida, acho que até pode conduzir o autor a um resultado que seja plausível. Mas acrescentá-la a algo que já criou uma forma própria no intuito de acrescentar a plausibilidade, como “um toque de plausibilidade”, não a torna menos superficial.

  • carlos 23/10/2009 at 00:35

    eikos?

  • Elton 23/10/2009 at 00:38

    Hindle sempre dizia que todo livro começa sua vida como um ato de liberdade e termina como um ato de autoridade. Consequentemente, ler começa sempre como um ato de afinidade e termina como ato de submissão.

    Na verdade, acabei de inventar isso e se um dia existiu um Hindle, deveria ser um babaca.

    Já eu, acho que a plausibilidade pode ser um elemento ao mesmo tempo textual e extratextual. Textual pelo que o Sérgio disse. Extratextual por se construir também na relação escritor-leitor. Num livro intitulado “o garanhão alado”, lido por um público específico, de repente é plausível um personagem com 28 cm de virilidade, barba cerrada e cheirando a suor. Se lido por outra gente essa será uma caricatura inverossímil. Vai ver que é isso: a plausibilidade não está lá até que alguém a encontre. (Tem muita gente que não a encontrou no Cortázar, uai!).

  • Eric Novello 23/10/2009 at 11:23

    Bom texto, Sérgio. Gosto muito dessa questão da lógica interna da ficção, seja no cinema ou na literatura, cada qual com seus artifícios. Recomenda a leitura do ‘Virgens Suicídas’? Abs! Eric

  • Sérgio Rodrigues 23/10/2009 at 13:39

    Thiago: também acho que as lacunas são percebidas (preenchidas) pelo leitor. Mesmo quando não são usadas com tanta consciência e tenacidade como em Hemingway.

    Gilvas: as frases do Wilde sabiam mais do que ele.

    Thaís: “acrescentar a algo que já criou uma forma própria” também não me parece nada bom.

    Carlos: o primeiro sentido de eikos, na linguagem de hoje, não é provável? (posso estar enganado). Nesse caso não seria bem o mesmo que plausível, embora seja parente.

    Eric: recomendo muito. Virgens suicidas é um livro belamente escrito, do tipo que costuma ser muito melhor ler (se possível) no original. Mas a tradução da Marina Colasanti é uma maravilha, então tudo bem também.

    Elton: todos sabem que Hindle foi feito em pedacinhos por Svensenson na famosa (entre os filósofos da linguagem) “polêmica de 56” em Viena. Hmm. Acho que não ficou muito plausível.

    Abraços a todos.

    • carlos 28/10/2009 at 01:03

      Olá Sérgio, deixe-me encher um pouco o teu saco com palavras velhas, mas não ligue.
      Eikos não é de origem um substantivo, como aparece na Poética de Aristóteles, é um particípio perfeito transformado em substantivo. O verbo corresponde (também no perfeito) é eoika, que significa ser semelhante. A tradução, imperfeita, é claro, seria aquilo que mediante um processo já terminado mostrou-se ou é semelhante. Bom, você se referiu ao sentido de hoje, provável, que não deixa de ser interessante. Ora, provar é tanto experimentar quanto convencer, ter a experiência sensível quanto estabelecer uma confiança que nos leva a ver o semelhante. Bem aparentado desse sentido de eikos (com o tempo a palavra foi se transformando, é claro). Eu me referi à palavra justamente porque é nesse processo entre ouvir (ou ler) e crer que ela age, o que chamamos hoje de plausível. Plausível, se não estou enganado (latim não é a minha seara ), é prima-irmã de aplauso, e está ligada ao elogio em situação pública (já ouço os velhos manuais de retórica assobiando da estante).
      Bom, antes de te impor palavras poeirentas (longe disso), queria apenas te oferecer monalisas para que você coloque o bigode, como quiser. Abraços

  • Ernani Ssó 23/10/2009 at 14:15

    Sérgio, você sabe, há muitas coisas que podem tornar uma ficção mais ou menos plausível, às vezes coisas bem pequenas como o famoso lençol que patrocina a ascensão de Remédios, a Bela. Mas eu apostaria em duas, em primeiro lugar (que por sinal estão na cena do García): a humanidade dos personagens e a lógica interna da história, quase sempre com uma lenta preparação para os milagres, pistas visíveis e invisíveis espalhadas ao longo do texto. Agora, não me peça pra definir humanidade e lógica interna. É quase que esgrimir com uma sombra. De qualquer forma, os bons escritores e os bons leitores “sabem” quando topam com elas. As aspas estão aí porque em ficção se lida mais com o faro. Basta ver quantos livros implausíveis escreveu o inteligentíssimo Huxley.

  • Tatiana Levy 23/10/2009 at 20:04

    Pois é, Sérgio, as respostas, normalmente, só aparecem depois. E sempre cheias de outras perguntas…
    Passei o semestre tentando responder sobre verossimilhança, tanto na aula de Literatura Comparada quanto na Oficina de escrita.
    O Barthes tem um texto ótimo: O efeito de real, no Rumor da língua. Conhece?
    E Melville, no Vigarista, diz coisas ótimas:
    “É não é fato que na vida real um personagem coerente é uma avis rara? Assim sendo, o desagrado dos leitores para com o personagem incoerente não pode ser oriundo do fato de que ele pareça falso; pode, isso sim, nascer da perplexidade que o leitor experimenta ao tentar compreendê-lo.”
    “Julgando à luz da razão, nenhum escritor produziu personagens tão incoerentes quanto os que a própria natureza produziu.”

    beijinhos e até

  • isaac 24/10/2009 at 15:01

    grande texto, sérgio.

  • Osório 24/10/2009 at 16:30

    Penso que a plausibilidade deve estar no personagem, no ambiente em que ele transita e em como o faz. O inserção de algo “real”, como o gosto por bolinhas de gude, o humanizam, ajudando, portanto, a torná-lo crível. Mas quanto ao ambiente e a forma como ele se move, qual o truque? Não resta ao escritor senão a condescendência do leitor?

  • Fátima Campilho 25/10/2009 at 01:26

    Recomendo leitura de “Seis Passeios pelos Bosques da Ficção” de Umberto Eco, se é que você ainda não leu.
    Abraços

  • Pérola 25/10/2009 at 16:11

    Te conheci aqui através do verbo solto. Amei seu jeito de escrever. Claro que me é “inalcansável.”… mas uma coisa lá dentro dizia… “prosa boa esta aqui”… e assim, fui aprendendo…

    Não fica prosa, tá?
    J:)

    • Pérola 25/10/2009 at 16:13

      Até onde sei, os textos de Umberto Eco não são “Ficção”. Aí que mora o perigo…

  • Fátima Campilho 26/10/2009 at 00:34

    Mesmo tendo recomendado o livro ao Sérgio, peço licença para responder. Pérola, eu não disse que era ficção. Mas você pode pesquisar para saber do que se trata. http://www.companhiadasletras.com.br/20anos/titulos_especificos.php3?cd=10476
    É essencial para todo estudante de literatura, escritor ou para quem tem interesse em se aprofundar na arte narrativa.
    😉

  • pedro david 27/10/2009 at 00:13

    Essa idéia sempre flutuou em minha mente sem que eu pudesse aprisioná-la… O que era esse elemento de
    “plausibilidade” num livro ? Lembro, por exemplo, de largar muito livros quando criança e adolescente nas primeiras páginas. Anos depois, descobri que eram autores considerados ruins, como Agatha Christie ou Paulo Coelho… Talvez, interpelando uma criança, que de certo não vai te responder nada que inclua expressões como ” arco narrativo” , possamos achar ainda alguma outra conclusão…

    Tive uma experiência interessante fazendo analogias a partir de outras linguagens…( somos seres analógicos disse algum professor certa vez)… Pois bem, quando comecei a trabalhar com audivisual, ouvi de uma pessoa muito antiga e genial, sobre um programa que havia feito:
    ” não gostei da sintaxe do corte”… no começo achei doidera, afetação… mas aos poucos entendi o que era tal sintaxe do corte… e comecei a achar erros de sintaxe do corte em alguns livros que lia… Uma tradução de Crime e Vastigo, por exemplo, em incomodou demais nesse sentido… a todo momento havia algo que na minha cabeça se assemelhava a uma ” quebra de eixo” … e isso para mim parece ter a ver com a tal plausibilidade… ou não… srrssr

    Enfim, me alonguei e talvez tenha falado um punhado de besteiras, mas esse texto do Sergio toca num ponto que é muito caro a mim. Logo, quis entrar na conversa…

  • Wagner 27/10/2009 at 22:57

    Well, se vc nao entedeu oq a leitora havia lido antes de formular tal pergunta eu posso lhe dizer, eh bem provavel que a “coitada” seja leitora do seu blog, pq aqui eh dificil de encontrar alguma coisa que seja plausivel e nao futil ou inutil…. Talvez na sua enorme vontade de ser um “Machado de Assis, um Camilo Castelo Branco, um Jose de Alencar, ou mesmo um fraco como Jorge Amado” vc tem metido os pes pelas maos, e nao seja nenhum pouco plausivel nos seus textos… Mas convenhamos, se vc fosse bom nao estaria no IG, e sim no UOL ou GLOBO.COM…

  • Hefestus 28/10/2009 at 19:17

    Tá faltando louça para lavar em casa para você estar assim tão nervosinho, Wagner? Quem sabe você faz um curso de português, outro de etiqueta e volta quando concluir? Ou não volta nunca mais, também.

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