Aquela tarde em Lisboa

14/01/2011

Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na página de poesia d’O Berro dos Grotões, onde era sempre o convidado principal.

Foi quando apareceu o tal Medrado. Um forasteiro, cara do Sul – de origem incerta, portanto. Gerente comercial. Tinha um pente Flamengo no bolso e sabia assobiar inacreditavelmente alto com os dois indicadores nos cantos da boca. Viera trabalhar n’O Berro dos Grotões cercado de alguma fama angariada em revistinhas da metrópole. Foi o próprio Esperidião quem, desavisado, os apresentou num sarau: “Seu Medrado, minha Yolanda”. E a imediata faísca no olhar daqueles dois não lhe escapou, ou quase não lhe escapou, embora terminasse lhe escapando – por algum tempo, não quis acreditar. Como podia acreditar? Não quis, escolheu não.

Foi obrigado a acreditar quando Medrado estreou na página de poesia d’O Berro com “Meu ursinho panda”:

Ó Yolanda,
Você é meu ursinho panda.
Nosso casamento vai ser chique
Vai ter guirlanda
E empadinhas
E vamos gerar pandinhas!

Foi isso, sem dúvida, que o derrubou – o opróbio de ser preterido por um subliterato de quinta, de ver a joia de seus pentâmetros iâmbicos clássico-contemporâneos trocada por miçangas que um índio pré-colombiano recusaria. Sim, deve ter sido isso que tornou incurável sua maleita. Não era normal aquilo. Homem de recursos, artista consagrado num círculo certamente provinciano, mas nem por isso pouco influente, muitas mulheres já tinham entrado e saído de sua vida. Por que, então, não se curava de Yolanda?

Pandinhas gerou mesmo o impensável casal – um par de gêmeos nascido seis meses após as apressadas núpcias, o terceiro dois anos mais tarde. Enquanto isso, os amigos do poeta baiano cumulavam-no de receitas inúteis – religião, filatelia, política, outras mulheres, ioga, xadrez, pescaria – para a doença crônico-aguda que sequelara sua vida. Era um poeta incapaz de um único verso, um ex-poeta miserável a vagar de porre em porre, de bordel em bordel, buscando a sombra de Yolanda em tantas Madalenas de peitos tristes.

Estava ferrado, eis a verdade. Tinha dado àquela musa ruiva o que não se dá a ninguém: sua vida, a fonte mesma de sua energia vital. Sem Yolanda, nada jamais faria sentido. Esperidião Bastos contou então à puta de Lisboa ter levado anos para compreender isso. Viajou pela Europa, logo se entediou, esticou na Grécia, onde quem sabe conseguiria retomar na raiz o gosto por uma arte que já não lhe significava nada. Tudo em vão. Homero? Chato. Shakespeare? Engodo. Camões? Dava-lhe náuseas. Se a própria encarnação do Belo era capaz de, tendo escolha, se entregar inteira a um cantor tão primitivo e tão canhestro quanto Medrado, então todos os compêndios de estética eram excremento e a vida, uma piada sinistra.

– Vai daí que eis-me aqui – disse Esperidião, concluindo com um floreio seu relato. – Descrente da vida, despido de tudo, conversando com uma puta semi-analfabeta de Lisboa.

Então a mulher, que até aquele momento estivera calada, falou:

– Se Camões te dá náusea, consulta um médico ou toma uma pílula. Eu por mim não me canso de navegar naquele oceano de linguagem, aquilo para mim tem uma qualidade amniótica.

E começou a vestir o sutiã. O poeta, de queixo caído, reparou que seus peitos não eram tristes, eram até bem alegrinhos.

– Mas esta é outra história. No teu caso – a mulher prosseguiu – o erro é supor que arte e vida possam ser refundidas de alguma forma, o poema equivalendo à sedução, a sedução encarada como arte e esta vista como razão de ser, raison d’être. Não é mais possível isto, naturalmente. Tal saber ficou perdido no Jardim do Éden ou na cultura clássica, como diria o Goethe. O pensamento moderno não tem acesso a este quintal.

Já de blusa e minissaia, calçou as compridas botas pretas de pistoleira e fechou cada uma delas com um movimento brusco do zíper dourado:

– Como tampouco tem acesso, o pensamento moderno, à grande tragédia, que ele deu um jeito de transformar em drama. É isto então, meu infeliz amigo: crês que protagonizas uma tragédia e só consegues, mal e mal, galvanizar a lâmpada circense de um dramazinho cômico.

– Espera aí – ocorreu a Esperidião protestar – dramazinho cômico também não!

– Burlesco – disse a puta – patético. Achas mesmo que só porque és melhor poeta vais ganhar a mulher? Sabes nada de mulher, não é verdade?

– Não foi o que pareceu meia hora atrás – ele replicou, simulando uma expressão entre a indignação e a mágoa, mas na verdade não sentindo nem uma coisa nem outra. Estava inteiramente submetido ao sortilégio da puta com PhD, pensando, será de Coimbra? Não teve tempo de lhe perguntar, ela já tinha catado a bolsa e se punha de pé.

– Queres saber? Para mim, o que fez a diferença foi o assobio.

– O quê?

– O assobio incrivelmente alto do Medrado – e deu um sorriso triste. – Estou a ir-me.

O poeta Esperidião Bastos não sabia o que dizer. Improvisou:

– Não vai querer receber em sonetos, suponho.

Cash – disse a mulher, calma.

– Seriam belos sonetos – ele encolheu os ombros, alcançando a carteira sobre o criado-mudo.

3 Comments

  • J.Paulo 15/01/2011 at 18:57

    Muito bom, Sérgio.
    Apenas me incutiste agora um novo desejo: quero encontar uma puta literata. Tal mulher que me provesse o prazer primitivo e depois, para equilibrar as coisas e me surpreender, o prazer intelectual. É bonito isso, um ser mitológico que após a concessão do prazer primeiro e carnal, perturbaria a “vítima” com filosfia e retórica.

    abração.

    • sergiorodrigues 16/01/2011 at 00:01

      Obrigado, JP. Encontrar literariamente a puta literária é mais tranquilo. Lembro agora de um conto do Woody Allen, acho que no Sem Plumas, mas há outras putas cultas por aí. Um abraço.

  • FDR 17/01/2011 at 16:35

    Tem um conto do Rubem Fonseca, no Lucia McCartney, em que ele joga um balde de água fria nessa pretensão… os caras ficam usando referências, super refinados, e as moças nada… muito bacana.

    Escondido atrás do anonimato, aproveito pra comentar que, há muitos anos, quando frequentava esses lugares, encontrei uma moça, num lugar da Avenida Santo Amaro, próximo ao Borba Gato, que não existe mais, que me disse que estudava Letras na USP. Mulata fantástica e conversava bonitinho mesmo, fiquei maluco. Aí coloquei um monte de livros do Borges no porta-malas do carro (na época eu planejava comprar as obras completas, que estavam pra ser lançadas) e saí circulando com eles, planejando passar lá um dia. Não levei mais que uma semana… passei lá seguidas vezes. Nada, a moça deixou de aparecer. Os livros foram sendo, aos poucos, distribuídos pra amigos.

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