As razões

05/01/2009

Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, e ele ficou em dúvida e ela, eu achei que você tinha perguntado por que eu escrevo e não como eu faço para escrever o que eu escrevo, aí ele ficou um tempo em silêncio e depois riu e disse tá certo, touché, então ela olhou para baixo e notou que ele estava se assanhando outra vez, ah, a juventude, tocou nele e disse, como se fosse um eco na caverna, touché, e pronto, começaram tudo de novo, e só bem mais tarde, de madrugada, o apartamento já quase sem provisões, quando estavam bebendo o vinho velho que ela tinha separado para cozinhar e sorvendo por um buraco na lata o leite condensado encontrado por milagre no fundo da despensa, aquela mistura sensacional de caldo ultradoce e vinho avinagrado, mas um bom vinho avinagrado, chileno, só então ela disse, com os olhos bem encaixados nos dele, eu escrevo porque isso faz homens bonitos e gostosos que nem você gostarem de mim, quererem me comer, aí cruzou os olhos, língua roxa, e falou me come, e ele até que tentou, tentou bastante, mas tinha acabado a pilha.

*

O repórter, um garoto espigado, um Clark Kent mais moreno, quase mulato, óculos redondos, beiços fartos, perguntou de gravador estendido por que ele escrevia. Era a mais tolinha das perguntas do manual, mas o velho escritor famoso olhou para o garoto em silêncio, e continuou olhando até ele desviar os olhos e começar a suar no buço. Então pegou o gravador da mão dele, desligou-o e, após devolvê-lo, disse:

– Eu escrevo porque tenho um monstro dentro de mim que, se eu não escrever, vai pular em cima de todos os meninos tesudos feito você que cruzarem o meu caminho, e aí já viu… Para acalmar a fera só tem duas coisas: escribir y joder, ou melhor, ser jodido.

E o jovem repórter ficou respirando forte e olhando para o escritor um tempão. Aí guardou o gravador na bolsa e disse:

– Vamos?

*

Em Parati:

– Escrevo porque sou testemunha. Escrevo para dar voz a quem não tem voz. Escrevo porque meu país está aprendendo a ler – respondeu um baixinho grisalho, provavelmente comunista.

– Escrevo porque não sei tocar saxofone – disse o quarentão barrigudo que estava ficando careca, mas ainda tentava disfarçar. Provavelmente brocha.

– Não tenho the slightest fucking idea ! – gritou a jovem paulistana de roupa fashion e cabelos picotados. Provavelmente idiota.

– Engraçado, nunca ninguém me fez essa pergunta – rosnou o gringo entediado. – Acho que escrevo porque sou muito bom nisso. – Certamente babaca.

– Escrevo porque escrevo porque escrevo porque escrevo – mas isso ela já nem lembra quem falou, porque a essa altura desistiu de impressionar seu novo namorado intelectual e partiu sozinha para Trindade numa traineira que tinha o seu nome, Anna O., até a inicial era a mesma, e por dois ou três meses não teve vontade de escrever nem bilhetinho para colar na geladeira.

8 Comments

  • Milton Ribeiro 05/01/2009 at 09:54

    “…bom vinho avinagrado…”: isso existe? Não seria melhor beber logo o Pinho Sol?

    Engraçado, poucos confessam que escrevem por VAIDADE…

    Abraço e grande 2009.

  • Milton Ribeiro 05/01/2009 at 10:37

    Não sei te interessa, mas eu achei admirável a coragem do do meu xará Hatoum em posicionar-se com clareza e equilíbrio.

    http://miltonribeiro.opensadorselvagem.org/a-paz-nao-passa-pelo-massacre-por-milton-hatoum/

  • Claudio Soares 05/01/2009 at 15:26

    Milton: apesar de Hatoum não ter acrescentado nada mais do que o bom senso pediria, concordo, é importante um escritor apresente sua opinião seja a respeito dos pequenos ou grandes [e infelizes, como neste caso] acontecimentos de sua época [a propósito, penso ser ainda mais importante que apresente sua posição a respeito dos problemas relacionados ao seu país].

    Juntando esse assunto com a pergunta que inicia o belo texto do Sérgio, “ora, senhor[a] escritor[a], afinal de contas, por que tu escreves?”, lembro [e indico] um belo texto do George Orwell intitulado “Why I Write”, onde pode ser lido:

    “And looking back through my work, I see that it is invariably where I lacked a political purpose that I wrote lifeless books and was betrayed into purple passages, sentences without meaning, decorative adjectives and humbug generally.”

    O escritor “engajado” tem sido apontado como coisa do passado. Talvez, porque o próprio posicionamento de idéias [ou ideias, como preferirem] seja já coisa do passado. Em um mundo global, me parece, o problema de todos, também torna-se [como nos acostumamos a este deplorável teorema…] problema de ninguém.

    O mundo passa por uma grave crise de ingerência. Procrastinação daqueles que se dizem “governantes” é o que permite que esse absurdo genocídio aconteça em Gaza [até ontem 500 mortos, sendo que 80 crianças].

    A História, infelizmente, parece não servir para que se aprenda com os erros do passado.

    Há quem já não ache tão absurda a sugestão inicial de Klaatu [personagem de Keanu Reeves em “The Day the Earth Stood Still”]…

  • Bruno M. Oliveira 05/01/2009 at 16:31

    A maioria dos escritores costuma responder a essa pergunta de maneira nada concreta. Muitos escrevem porque senão morreriam; outros porque a realidade não lhes basta; há ainda os que se julgam predestinados, possuidores de um dever.

    Eu, apesar de simpatizar com algumas dessas repostas algo edificantes, mas bem formuladas, prefiro os que confessam escrever por motivos claros, objetivos, não raro de cunho material. Paulo Francis, por exemplo, dizia escrever para ganhar fama e dinheiro.
    Embora não tenha triunfado como romancista, Francis conseguiu prestígio (sobretudo por aquela personagem cômica e irascível que criou para a tevê) e uns tantos tostões como jornalista / cronista e crítico de cultura.

    Me pergunto se os escritores que escrevem por motivos supraterrenos também logram satisfação. Quero crer que os que por assim dizer se doam à arte alcancem alguma.

    Abraços!.

  • Bia 06/01/2009 at 05:05

    Escrevo para parar de sofrer. Me livro exagerando, transfiro para o leitor.

  • Dina Zagreb 06/01/2009 at 09:01

    off-topic:

    Dúvida sobre a nova ortografia: Sérgio, “papéis” perdeu o acento ou não?

    abs

  • Sérgio Rodrigues 06/01/2009 at 10:45

    Não, Dina. Esses ditongos conservam o acento em palavras oxítonas.

  • Mariana 07/01/2009 at 15:21

    Lindinho!

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