Aula de inglês

05/07/2008

Vou resumir aqui, mais em espírito que literalmente, o que foi a aula dada pelo dramaturgo inglês Tom Stoppard na mesa mais nobre da Flip, a das 19h de sábado. Aula? Sim, foi nisso que consistiu a primeira metade do programa, quando, depois de apresentado por Luis Fernando Verissimo, Stoppard pediu licença para ficar em pé no palco e passou a se dirigir diretamente ao auditório lotado, expondo uma espécie de cartilha de princípios artísticos. O segundo ato da peça, se assim podemos chamá-lo, em que o autor de The Coast of Utopia respondeu perguntas do mediador e da platéia, foi irregular, como costumam ser essas coisas. Mas a aula foi ótima.

Stoppard dividiu o que entendemos por texto “bem escrito” em duas categorias: o que revela um poder magistral de manipulação da língua, no modo como as palavras se organizam, por assim dizer, arquitetonicamente, para expressar do modo mais eloqüente possível uma idéia forte; e aquele que, embora repleto de lugares-comuns e fórmulas convencionais, usa-os com tamanha precisão e em contextos tão perfeitos que tira deles o máximo de expressão artística.

A primeira categoria é, naturalmente, aquela que costuma ser compreendida pela maior parte das pessoas como a mais nobre e verdadeira, a linguagem da alta literatura; mas é à segunda que Stoppard declarou dedicar sua maior admiração.

O exemplo que deu de linha de diálogo que o faz morrer de inveja foi extraído – coisa surpreendente para um autor tão familiarizado com Shakespeare – do filme “O fugitivo”. Quando o personagem de Harrison Ford, injustamente acusado de matar sua mulher, é finalmente encurralado pelo policial incansável interpretado por Tommy Lee Jones e lhe diz, desesperado, que não cometeu o crime que lhe atribuem, ouve uma resposta desconcertante: I don’t care. Ou seja: “Não estou nem aí, não ligo, tanto faz”. E o que imaginávamos ser um filme sobre justiça e injustiça, uma das situações dramáticas imemoriais, se revela algo bem diferente, e terrível: a história de uma perseguição que se encerra em si.

Tudo por causa de um clichê: I don’t care. A linha de diálogo que Tom Stoppard mais inveja em toda a dramaturgia mundial. O que foi dito com espírito de humor, é claro. Mas com evidente sinceridade também.

O público em geral eu não sei, mas gostei muito da aula de Stoppard. Além de “O fugitivo”, ele a baseou em outros filmes americanos, como “Indiana Jones” e “O terceiro homem”, o que para mim foi um susto: esperava mais teatro, mais referências eruditas. Em vez disso, talvez estimulado pelo fato de ser um dramaturgo exótico para o público brasileiro, que o conhece como o roteirista de “Shakespeare apaixonado” e “A casa da Rússia”, declarou com todas as letras coisas como: “Prefiro assistir a um grande faroeste do que a um filme de arte medíocre”.

De alguma forma, é algo que a Flip precisava ouvir. Com sotaque britânico, talvez o pessoal preste atenção.

8 Comments

  • Thiago Maia 06/07/2008 at 04:09

    SR, isso conflui ao mesmo ponto que um comentario do Nelson Motta citado ha poucos dias por voce, nao? Alias, hoje aa tarde, com o post anterior na cabeca, me peguei lendo o prologo de um livro que normalmente eu consideraria quase-lixo (na verdade, ainda que esteja fazendo e apesar desta participacao, eu o considero), lembrando da sua opiniao sobre o que disse o Nelson, e dando a mao aa palmatoria, principalmente, claro, porque no tal prologo vi arte. Agora leio mais esse “ingrediente” e me convenco ainda mais da tolice reinante sobre o que eh considerado simples entretenimento (dificil algo mais comum e convencional que “tolice reinante”, hem?). Um abraco.

  • mauro rosso 06/07/2008 at 07:59

    Conto perdido de Machado de Assis é recuperado
    Pesquisador também resgata crônicas inéditas, algumas de política outras de economia

    Não fosse Machado de Assis, por definição e ‘tradição’, o mestre do mistério, do enigma – tantas são as manifestações dessas ‘artes’, assim como do subterfúgio, da dissimulação, em sua obra ficcional e não-ficcional. Por isso, nada de excessivamente surpreendente, em se tratando de Machado, a existência durante os últimos 129 anos de um conto que, publicado originalmente em seis folhetins – isto é capítulos – a 30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e 30 de setembro e 15 de outubro de 1879 na revista A Estação, tinha-se conhecimento de apenas três deles, os demais completamente desaparecidos e dados como “perdidos”, daí o conto jamais ser incluído em qualquer antologia,coletânea,seleta ou edição em volume, ignorado em todas as edições,volumes,ensaios,textos,teses,documentos em torno de Machado de Assis , e apenas referenciado por José Galante de Sousa, em sua monumental Bibliografia de Machado de Assis,de 1955 , e pelo pesquisador francês Jean-Michel Massa ,que publica seus únicos três capítulos até então conhecidos na obra Dispersos de Machado de Assis, de 1965 .

    Não surpreendente em excesso, mas digno das maiores significância e relevância o fato – histórico – de resgate dessa peça faltante na formidável galeria contística de Machado. O conto em apreço intitula-se “Um para o outro” e sua recuperação se deu graças a um incansável trabalho de investigação – com todas as tintas, matizes e nuances “sherloqueanas”, diz o pesquisador –pesquisa,coleta e recolha levada a cabo ao longo de seis anos por parte de Mauro Rosso, professor e pesquisador de literatura brasileira , ensaísta e escritor, e organizador da edição Contos de Machado de Assis:relicários e raisonnés .(editora PUC-Rio e Edições Loyola)

    mais detalhes em

    http://pandorawiki.blogspot.com

  • mauro rosso 06/07/2008 at 08:00

    Mauro Rosso com todas as probabilidades é um dos autores mais profícuos,individualmente, de produção textual referente a Machado de Assis : conclui a preparação , para o Senado Federal (Conselho Editorial da Casa), da antologia Machado de Assis e a política : crônicas, com 381 textos machadianos , e da coletânea A ficção política de Machado de Assis [com 26 contos,8 poemas e 3 peças teatrais] – s. ed. — ambas as obras a desmistificarem a equivocadissima pecha de ‘alheio a questões de seu tempo’ atribuída a Machado , que escreveu muito sobre política da época, inclusive com comentários e ilações absolutamente atuais, ou aplicáveis à atualidade brasileira – o mesmo se dando na seara da economia, em que Machado também ‘transitou’, cujas crônicas foram levantadas e recolhidas em extensa pesquisa e organizadas, juntamente com Gustavo Franco, na edição, lançada em dezembro 2007, de Machado de Assis e a economia:o olhar oblíquo do acionista; prepara a edição especial de Gazeta de Holanda: os ‘versiprosa’ de Machado de Assis [48 crônicas em forma de verso, nunca editadas em volume isolado,e emblemáticas da fase menipéica-lucânica de Machado, característica de seu processo de evolução e inflexão consubstanciado na década de 1880] ; tem pronta a edição de Queda que as mulheres têm para os tolos : Machado de Assis,o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária [o primeiro livro de Machado publicado,1861, pleno de elementos significativos e anunciadores,prenunciadores e antecipadores do ficcionista que viria depois]

    Além disso, é – desde 2007 e neste 2008 – palestrante ‘intensivo’ sobre Machado de Assis, abordando temas como “Machado de Assis,o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária”, “O conto machadiano”; “Machado de Assis cronista, o grande relator da vida brasileira”;“Interseções da ficção e da não-ficção em Machado de Assis”, “A evolução literária machadiana e o processo de inflexão”, “Narradores e narratários machadianos e os novos leitor-modelo e leitor-empírico criados” ”; “MA cronista, o grande relator da vida brasileira” ;“Interseções da ficção e da não-ficção em Machado de Assis”, “Machado de Assis e seu tempo: a História, a política, a economia, as questões sociais”, “A atualidade de Machado de Assis”, “Machado de Assis em chaves temáticas”;
    e colaborador para revistas acadêmicas e sites de literatura, com ensaios, artigos e textos –como “Apontamentos para um estudo de Casa velha” , “Em tempo de eleições, é bom ler Machado”, “Quem tem medo do ‘feminismo’ de Machado de Assis ?”, “Machado, eterno enigma” , “As mulheres preferem os tolos ?”,“Machado de Assis cronista : o grande relator da vida brasileira”, “Machado de Assis e a política : nada oblíquo, nada dissimulado”, “ Os narradores,os narratórios e os novos leitores criados por Machado”, “O conto em Machado de Assis”.

  • W?adyslaw Reymont 07/07/2008 at 03:04

    Uau! Então foi a apoteose dos filisteus! Orgástico, para quem é do time! Mas é bom que ninguém se engane: uma coisa é Tom Stoppard se fazendo passar por filisteu, outra bem diferente seria um filisteu querendo se passar por Tom Stoppard. Resumindo: é fácil “um autor tão familiarizado com Shakespeare” recorrer a “O fugitivo” e “Indiana Jones”. Quero ver é alguém acostumado a uma dieta rala de filmes de entretenimento discorrer sobre Cymbeline ou Titus Andronicus. Aí é que a porca torce o rabo.

  • Sérgio Rodrigues 07/07/2008 at 09:55

    Nickname Reymont: algumas pessoas não entendem mesmo – nem com sotaque britânico – mas não dá para deixar passar em branco a injustiça que você comete com Tom Stoppard. Atribuir o tema de sua aula a um mero dumbing down destinado a adular a platéia é duvidar da integridade intelectual do sujeito, e foi justamente ela a maior atração da Flip. Mesmo porque um cara daquela estatura está cansado de saber que é mais fácil adular platéias de festival literário com exibições de erudição, ainda que de almanaque. Ousar falar da técnica real subjacente a todos os gêneros, daquilo que faz um drama reverberar para além de sua pretensão, é garantia de desagradar ao pessoal da alta cultura cosmética – uma turma na qual, apesar das aparências, reconheço me faltarem informações para incluir você.

    Acredite: Stoppard deu uma aula para valer. Ele não diria que considera “Chinatown” a maior obra de arte americana do século 20 se não acreditasse nisso. A chave de tudo, caso você esteja realmente interessado em entender o que se passou na Tenda dos Autores aquela noite, está numa outra frase dele: “Nós (tradução: artistas de verdade) não damos prêmios para intenção, mas para realização”. Mais uma tradução: não importa muito de onde o cara parte, com que referências trabalha, Sófocles ou Ronald Golias. Importa o que ele faz com isso, aonde consegue chegar.

    É assim que deve ser entendida a oposição que ele estabelece entre o grande faroeste e o filme de arte medíocre. Obviamente, a ênfase não deve ser posta em faroeste x filme de arte, mas em grande x medíocre. Deu para entender? É claro que se pode optar por esperar 200 anos pelo momento em que, como ocorreu com o teatro popular de Shakespeare, o tal faroeste for endossado pela altíssima cultura. Mas Stoppard sugere que é melhor reconhecer essas coisas logo, a partir de uma análise desapaixonada da obra em seus mecanismos internos. “Tem que ser bem feito”, ele diz. “Não damos prêmios para intenção.”

    Eis porque eu disse que a Flip precisava ouvir a aula de Stoppard: no Brasil, ainda damos muitos, muitos prêmios para intenção. Herança de nossos séculos de pernosticismo, muito bem ilustrados por seu comentário, que agradeço. Mas um dia aprenderemos.

    Um abraço.

  • Rafael 07/07/2008 at 11:17

    Mas, Sérgio, se fóssemos premiar as grandes realizações da literatura brasileira, em vez das grandes intenções dos nossos literatos, haveria algo a ser premiado a cada ano?

  • Rafael 07/07/2008 at 11:19

    Numa coisa tenho de concordar: o sujeito que consegue produzir algo decente com base em Ronald Golias, ele sem sombra de dúvida merecerá o Nobel.

  • Sérgio Rodrigues 07/07/2008 at 11:35

    Rafael, eu diria que o espírito é o seguinte: se não houver “grandes realizações” (como “O filho eterno”, de Cristovão Tezza, ano passado), premiem-se as “pequenas realizações”. Essas sempre existem, pode ter certeza. O fundamental é não deixar o virtual se sobrepor ao real, a pose ao trabalho.

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