O romance cura? Da autoajuda à autoatrapalhação

21/09/2013

Em entrevista à seção de livros do “New York Times” (aqui, em inglês), o cantor e compositor Sting se sai com uma boa tirada quando lhe perguntam se é leitor de livros de autoajuda: “Livros de autoajuda? Isso não é um oxímoro?”. Gostei dessa ideia de que livros de autoajuda podem ser, mais que um gênero besta, um gênero cujo próprio nome exprime uma contradição em termos, proposição absurda em que um elemento nega o outro. Como, para citar o clássico exemplo sacado por Groucho Marx, “inteligência militar”. Ora, se é livro, não pode ser de autoajuda – e vice-versa. Na melhor das hipóteses será de autoatrapalhação.

É claro que há nisso um tanto de exagero ditado pelo gosto: se alguém acredita que se autoajuda lendo autoajuda, é provável que se autoajude mesmo, e não há nada que Sting possa fazer para mudar isso. Nem eu. O que eu posso fazer é me lembrar vividamente, tendo a frase do ex-líder do Police como madeleine, de um tempo remoto em que o trio inglês ainda nem existia e Clarice Lispector era para mim o exato oposto da autoajuda. Caramba, como eu tinha medo daquela mulher.

Estou falando da minha adolescência. Uma adolescência que não foi especialmente difícil ou atribulada, mas foi adolescência mesmo assim: aquele tempo de confusão, paixão, violência e medo que todo mundo que já esteve lá conhece. Na maior parte dos dias eu conseguia me sair razoavelmente bem, olhando o caos desesperador do mundo sem vê-lo, fingindo que tudo estava no seu devido lugar e nada tinha como dar errado. Aí calhava de ler duas páginas de Clarice e pronto: o caos desesperador do mundo me acertava em cheio no nariz e eu levava mais algumas semanas até ser capaz de fingir outra vez que tudo estava no seu devido lugar.

Porque, claro, não estava. Nada nunca está no seu devido lugar. Mais tarde nos acostumamos a isso, mas há um momento na vida em que a ideia é nova e aterradora, e naquele momento o grande arauto do meu desespero se chamava Clarice Lispector. Adulto, nunca fui capaz de reconstituir inteiramente aquele desassossego. Reconheço os atos de vandalismo que a autora de “Laços de família” promove nas fundações da linguagem, compreendo seu poder desestabilizador de uma forma que nem em sonho estava ao meu alcance na época, mas nada disso me afeta tão fundo agora. Aquele paroxismo de autoatrapalhação pertence ao passado.

Mesmo assim, ficou como um marco, um lembrete eterno de duas verdades pessoais. A primeira é que a literatura é perigosa e pode, como talvez nenhuma outra linguagem, bagunçar consideravelmente nossa paisagem interior, como uma ventania que entra pela janela e põe todos os papéis para dançar. A segunda é que isso, ainda que doloroso, pode ser também desejável – eu morria de medo de Clarice, mas sempre voltava a ela. Deve ser a tal atração do abismo.

Talvez se possa acrescentar ainda uma terceira verdade: apesar de todo esse burburinho, reduzir a ele o gesto estético, que é necessariamente gratuito, seria abastardar a arte. Seja lá o que for a literatura, ela é com certeza muito mais do que o efeito – calmante ou perturbador – que pode provocar na alma do leitor.

Curiosamente, poucos minutos depois dessa viagem ao passado motivada pela declaração de Sting, meu navegador me leva a desembarcar num artigo (aqui, em inglês) do “Guardian” sobre um livro chamado The Novel Cure: An A to Z of Literary Remedies (“A cura pelo romance: remédios literários de A a Z”), de Susan Elderkin e Ella Berthoud. Intensamente elogioso, o artigo é escrito por um médico e me obriga a reler algumas de suas passagens para me certificar de que não é irônico. Não é.

O livro, conforme descrito na resenha, é uma lista alfabética de doenças e aflições, males de corpo e alma, cada um deles seguido da recomendação de uma ou mais obras de ficção cuja leitura seria capaz de curá-lo. Sério. Exemplos? Perda de libido – “Elogio da madrasta”, de Mario Vargas Llosa. Angústia existencial – “Sidarta”, de Hermann Hesse. Amor não correspondido – “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe (porque, como se sabe, não há remédio mais eficaz para a dor do amor não correspondido do que o suicídio). Ah, e o meu preferido: dentes sensíveis – “Henderson, o rei da chuva”, de Saul Bellow.

A ideia seria excelente para um livro de humor, mas não temos tanta sorte. Ainda que o tom seja bem-humorado, já se vê que a intenção é produzir uma obra de autoajuda mesmo. Uma autoajuda “biblioterápica”, com verniz intelectual, como a que fez a fama de Alain de Botton – e tudo fica mais claro quando se sabe que as autoras de The Novel Cure são colegas dele na School of Life, uma escola londrina especializada em cursos desse tipo. O oxímoro de Sting faz cada vez mais sentido.

23 Comments

  • Adriana 25/09/2013 at 23:45

    depois deste post só posso rir.

  • jumentinha 26/09/2013 at 18:55

    Rir, muito mais, elucubrar…
    Não foi à toa que Jesus falou para todos os que iam as Escrituras mas não iam a Ele:
    Vocês vão às Escrituras, porque sabem ter nela, Vida Eterna, e são elas que testificam de mim, porém, não vem a Mim, para terem Vida.
    Povim, na verdade, quer ter vida, mas… se pseudam auto seajudam…
    Amei este texto…
    Quanto à Clarice, na minha juventude, Paixão Segundo GH foi de um início tudo e um fim nada.

  • jumentinha 26/09/2013 at 19:06

    Oximorizando diria, fim tudonada. É nisso que dá buscar nos romances autoajuda do outro… Por isso que temos de deixar Deus fazer, assim dizem os teólogos, afinal, nós mesmos não somos capazes e muito menos a “auto” do outro, sejam romances, ou qualquer outra literatura. Ou Deus vem e “pow!”… ou… ( complete como quizer…

  • jumentinha 26/09/2013 at 19:07

    Enquanto isso vou colocando roupas engraçadas. Um dia chego lá.rsrs

  • jumentinha 26/09/2013 at 20:17

    Estão pensando que é fácil para mim compreender os textos aqui? Não tenho leitura à altura, e por isso só comento quando o assunto me pertence de alguma forma rsrs. A coisa aqui é alto nível, e peço desculpas pelas roupas engraçadas e, às vezes, escalafobéticas mesmo…=)

  • Paulo Araújo 28/09/2013 at 15:40

    Oximoro é palavra paroxítona, e não proparoxítona, como se fez grafar no texto. Por outra, está mal empregado; basta ver seu correto significado no Houaiss: “Figura em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão (p.ex.: obscura claridade, música silenciosa); paradoxismo”.

    • sergiorodrigues 29/09/2013 at 22:47

      Paulo: o Houaiss o induziu ao erro. Oxímoro é uma palavra maciçamente proparoxítona (e minoritariamente paroxítona) nos bons autores e na língua portuguesa que as pessoas de fato falam e escrevem. Além de mais eufônica e consagrada pelo uso dos dois lados do oceano, essa forma é reconhecida por diversos dicionários de prestígio, sobretudo portugueses, mas não, lamentavelmente, por Houaiss ou Aurélio. Espera-se que eles consertem logo esse lapso. Quanto ao sentido em que a palavra foi empregada por Sting, sem um mínimo de senso de humor é difícil mesmo alcançá-lo.

  • jumentinha 30/09/2013 at 15:51

    Que autoatrapalhação! “Oximóro”e feio demais!!!

  • jumentinha 30/09/2013 at 15:53

    Ok, qui si moro em outro país… kkk

  • jumentinha 30/09/2013 at 15:54

    Corrigindo: oh, qui si moro em outro país…

  • jumentinha 30/09/2013 at 15:55

    Sim, romance cura.

  • Alex R.F. 04/10/2013 at 10:48

    E se fosse indicar UM livro da Clarice, qual seria??

    • sergiorodrigues 04/10/2013 at 11:11

      Alex, meu preferido é “A hora da estrela”.

  • jumentinha 06/10/2013 at 18:43

    Queria dizer, não cura! ( olha a atrapalhação ai…)

  • Paulo Araújo 08/10/2013 at 21:54

    “Oximoro” (paroxítona, portanto sem acento) é forma abonada pelo Volp, editado pela ABL. Bem humorado, consinta-me indagar-lhe quais os dicionários que registram dita palavra como proparoxítona. Já sabemos que, entre eles, não estão o Aurélio e o Houaiss. Quanto ao emprego inadequado desse verbete no texto, conto com sua gentil explicação sobre o bom humor que atesta o contrário.

    • sergiorodrigues 10/10/2013 at 17:44

      Consentido, Paulo. Experimente começar pelo conservadorismo dos portugueses. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa registra apenas oxímoro.
      Isso poderia apontar para um abismo entre Brasil e Portugal, mas aí descobrimos que o moderníssimo Dicionário de Usos do Português do Brasil, de Francisco Borba (que busca suas abonações na imprensa e na literatura brasileira das últimas décadas), também vai de oxímoro. Parece ser como os brasileiros preferem mesmo falar e escrever, apesar dos nossos principais lexicógrafos.
      Talvez porque, como se trata de um termo literário, os poucos de nós que o empregam prefiram se basear no influente Dicionário de Termos Literários de Massaud Moisés, que também só registra oxímoro.
      Indo um pouco mais longe na questão, tentando enxergar além desse entediante Fla x Flu de certo x errado, descobrimos que existe aí uma batalha de fundo etimológico entre a sonoridade do grego do qual a palavra veio (oxymoron, proparoxítona) e a da escala latina que ela fez (oxymorum, paroxítona). Tudo, convenhamos, bem chato.
      Acho difícil negar que o mais correto para um dicionarista, diante de todas essas evidências, seria registrar as duas formas. Faz anos que ponderei a questão e decidi ficar com a forma oxímoro. O desempate foi na base do ouvido, algo que respeito muito.
      Quanto à sua implicância com a tirada espirituosa de Sting, bom, aventei a hipótese da falta de humor por ser ela a mais benevolente.

  • Paulo Araújo 13/10/2013 at 11:04

    Sua preferência auditiva, como reconhece, não está abonada pelo Volp, lei entre nós. Que pena que o mestre benevolente não explica o que a apontada falta de senso de humor não supera! Sem birra, acusação que repugno, despeço-me com educação.

    • sergiorodrigues 13/10/2013 at 12:01

      Paulo, os argumentos que reuni ali embaixo deixam claro que tratar o Volp como “lei” é, digamos, ingenuidade sua. A língua é feita pelos falantes, imortalizada pelos escritores, embalsamada pelos lexicógrafos. Nessa ordem. O que a falta de senso de humor (ou outra falta) o impediu de alcançar é simples: a pequena margem de licença poética envolvida no tal uso de oxímoro, com intenções cômicas. Pôr reparo nisso é como dizer que a expressão “banho de loja” está errada porque ninguém sai molhado do shopping. Um abraço.

  • jumentinha 15/10/2013 at 00:10

    É isso? Os brasileiros preferem falar? É isso? O desempate é na base do ouvido? É isso? Batalha entre sonoridade grega e escala latina? É isso? Bem, eu não sabia de nada disso, mas ao ler esta palavra a sílaba forte foi na ante penúltima. Logo, no “quissí”. Portanto, sem mais delongas, como a língua é viva, o latim é morto, o ouvido fala mais alto, e isso é uma questão nada sine qua non, opto, (não disse opito, hein…) pelo lindo, sonoro, belo, gostoso de dizer, inegualável, oXÍmetro.

  • alan kevedo 24/10/2013 at 23:32

    Bíblias. Cânones da autoatrapalhação :

    VAMOS fazer um breve apanhado de passagens e versículos bíblicos? Mas para não ferir susceptibilidades, trilhemos os conciliadores caminhos do mais sarcástico eufemismo possível, não sem antes agradecer nosso santo predileto, são Maquiavel. A Bíblia foi escrita em hebraico, ressalvando-se os Livros de Daniel e Esdras, escritos em aramaico. Jesus jamais foi visto de posse desse livros, pregando para ganhar dinheiro. Quem ganhou dinheiro com religião foi um tal de Judas. JÓ 1:16, aí Satanás aparece na Bíblia, pela primeira vez, dizendo que podia entrar, no céu, a hora que quisesse e falar com Deus. Já vi gente falando isso. A Bíblia que chegou até nós, ocidentais, foi escrita por quarenta redatores, ao longo de 1.600 anos. Comunidade escrevia e “assinava” um nome de um profeta, ou, ao depois, de um apóstolo. Vejam estes nomes : Bereshit, Shemôt, Vaicrá, Bamidbar, Devarim. São os antigos nomes de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Contamos só aí , 5.845 versículos, em nosso idioma. Traduzidos de língua semítica, para o grego e depois para o latim, passando por copistas, pouco confiáveis, por gramáticas heterogêneas, por tradutores como são Jerônimo que deu de inventar o Lúcifer e tradutores como João Ferreira de Almeida que se baseou num texto do Erasmo que era uma merda. Há coisas feitas pelo império romano que nos remete, ou melhor remete vocês, ao nível mental de ” debilóides”, como em MATEUS 16: 13-20, porque Jesus jamais fundou religião alguma. E em LUCAS 23: 42 e 43, Jesus nunca convidaria um ladrão, um político corrupto, ou um pastor que já foi preso, para o paraíso. Antes de Bíblias “mastigadas”, para que o imperador tivesse como controlar o povo, com mais facilidades e cunharem frases do tipo “Em nome de Jesus”, o cristianismo era uma coisa, religião, outra. Dai pra frente mentes e corações foram endurecendo cada vez mais Se tu duvidas, olha em volta de ti. Vê religiosos nadando no vil metal, ou sendo presos, por coisas muito piores do que as de Adão.

  • jumentinha 30/10/2013 at 20:28

    ki kooooisa! Quis dizer oxímoro, e não oxímetro. De onde tirei esse oxímetro?

  • Iracema 26/11/2013 at 00:57

    Adorei o texto. Genial!

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