Barghouti ataca Amos Oz

12/08/2006

A mesa que o poeta palestino Mourid Barghouti dividiu com seu colega brasileiro Ferreira Gullar, hoje de manhã, não foi abafada por temas políticos – embora o traço de união mais evidente entre os dois autores seja o exílio, que Ferreira Gullar experimentou durante a ditadura militar nos anos 70 e Barghouti durante três décadas, ao fim das quais visitou sua cidade natal e escreveu sobre essa experiência em “Eu vi Ramallah” (Casa da Palavra).

Apesar da mediação confusa de Alberto Mussa, a leitura de trechos de poemas e o bom debate que se seguiu acabaram por revelar mais afinidades entre Barghouti e Gullar do que se suspeitava – inclusive, quem diria, estilísticas. O momento de maior voltagem da mesa, porém, ocorreu quando pediram a Barghouti que opinasse sobre uma frase de efeito do escritor israelense Amos Oz: que palestinos e israelenses precisam aprendem a conviver como cônjuges divorciados que continuam dividindo a mesma casa. A resposta do poeta deixou claro que a paciência dos palestinos com Oz – que há duas semanas defendeu a intervenção militar no Líbano – anda em baixa:

A situação na Palestina está muito além do alcance de declarações de escritores. Nós, palestinos, estamos desapontados com o movimento pacifista israelense. Reconhecemos a presença de bons indivíduos nesse movimento, admiramos sua coragem, mas nos decepcionamos quando, de repente, chegamos a um ponto do processo de paz em que era hora de discutir o direito dos refugiados de voltarem para casa. E todos eles, inclusive Amos Oz, mudaram de posição, vendo nessa volta uma ameaça ao Estado de Israel. Foi um ponto de virada. Quando se fala em refugiados, estamos falando de milhões de vidas, pequenas vidas, vidas idosas, gente espalhada pelo mundo sem passaporte, sem documentos, sem direitos. Se você é um escritor, você não deve olhar as estatísticas, e sim os olhos de cada uma dessas vidas individualmente. Se não o faz, alguma coisa está errada. Não pedimos aos escritores de Israel que se filiem à OLP, apenas que não pensem nos refugiados como estatísticas.

10 Comments

  • Antônio Augusto 12/08/2006 at 18:49

    Barghouti reflete a sensibilidade palestina e fala com a autoridade moral de um povo que sofre uma humilhante e cruel ocupação colonial, política e militar.

  • Writing Ghosts 12/08/2006 at 20:51

    sobre Barghouti: falou e disse!

    e com propriedade (me pareceu, ao menos).

    a propósito, parece envolver suas palavras na outra discussão – também transcrita pelo Sérgio Rodrigues – sobre o ‘papel da literatura’, de que participaram o OLIVIER ROLIN e também ALONSO CUETO (post: 11/08/06 12:47 PM).

    bons diálogos que se cruzam com pertinência. gostei.

  • Marcos 12/08/2006 at 21:08

    Amos Oz apenas defende a existência de um Estadom judeu e um palestino, ao contrário de Bargouthi, que defende dois estados palestinos.

  • Kleber 13/08/2006 at 00:59

    Engraçado esse tema único Israel x Palestina que tomou o evento… Legal escritores preocupados com o mundo e tal… Mas, sem querer ofender, será que eles tem noção de quanto a opinião deles é irrelevante para tanto os chamados terroristas como para os governantes de Israel?

  • João Paulo 13/08/2006 at 08:39

    Barghouti além de falar sôbre seu livro Eu vi Ramallah, falou sôbre seu próximo livro Também vi estrêlas! onde conta sua experiência com um míssel israelense

  • João Paulo 13/08/2006 at 08:47

    Na outra ponta da mesa, Alberto Mussa com os dois pés enfiados numa jaca, reclamava contra as semelhanças etílicas entre Gullar e Barghouti, dizendo que êle sim, era muito mais semelhante. Após esta declaração, desapareceu do recinto, sendo encontrado horas depois dormindo debaixo da mesa.

  • João 13/08/2006 at 11:33

    Sempre que alguém defende a necessária convivência vem um desintelectual clamando que “seu povo” tem motivos para estar chateado demais com o povo dos outros, a ponto de ter toda a razão para não poder mais tolerá-los no mesmo planeta

  • Clara 13/08/2006 at 23:30

    O escritor que “tem toda a razão” deve ter talento de menos, além de ser burro. Deixarei um documento-testamento em que deixarei registrado que no dia que eu tiver “toda a razão”, me tirem dessa sem dor, pois não dispenso ter uma certa falta de razão na vida.

  • Palhares 14/08/2006 at 10:45

    Gente, alguém leu o “Eu vi Ramallah”? Meu deus, leiam! É maravilhoso. Leiam junto com livros de sobreviventes do Holocausto, como “A noite”, de Elie Wiesel, para ver as semelhanças. Mas parem de falar do que não leram! Como tem gente que diz gostar de literatura mas não lê nada!

  • O Espezinhador 15/08/2006 at 16:19

    Ano que vem se vierem outros picaretas árabes como Tarik Ali e esse Barghouti para parati eu tomo um avião e vou lhes dar uns tabefes na cara pessoalmente.
    É o tudo que eles merecem: porrada.

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