Bellow e as dedicatórias: drama e comédia

12/06/2006

A notícia, extra-oficial, tem todos aqueles ingredientes que andam levando os escritores a chamar mais atenção pelo privado do que pelo público, ou seja, mais por sua vida do que por sua literatura: o romancista australiano Peter Carey, de “Oscar e Lucinda” (Record), teria pedido a seus editores que apaguem das futuras edições de seus livros as quatro dedicatórias amorosas que fez para sua ex-mulher, Alison Summers, de quem se divorciou de forma litigiosa.

Uma bobagem, é claro. Que jamais seria noticiada aqui se nesse gancho frágil o articulista John Shuterland, do jornal inglês “The Guardian”, não tivesse pendurado um texto saboroso e informativo sobre a história das dedicatórias. Afirma que o penduricalho se espalhou no século 18 como auxiliar na bajulação de mecenas e apenas nos últimos cem anos ganhou um caráter mais íntimo. A história de Saul Bellow (1915-2005) é uma das melhores:

James Atlas, biógrafo de Saul Bellow, afirma que, para obrigar sua musa a trabalhar, o romancista gostava de trocar de mulher. Passou por cinco delas, e suas dedicatórias deixam uma trilha sanguinolenta dessa história conjugal. Seu último grande romance, “Ravelstein”, contém um retrato malévolo da Sra. Bellow número 4 (Alexandra Ionesco Tulesca, física romena) e uma untuosa dedicatória à Sra. Bellow número 5 (Janis Freedland, ex-estudante):

“A la bella donna della mia mente.

Para Janis

A estrela sem a qual eu não poderia navegar.”

Para sorte de Janis, embora não se possa dizer o mesmo de seus admiradores, o velho morreu antes de levar sua ficção à próxima estrela.

5 Comments

  • Raquel 12/06/2006 at 08:34

    Sérgio, é mais seguro dedicar à mamãe….

  • Leticia Braun 12/06/2006 at 14:37

    Ou a seu “infante”, como vi uma vez…

  • Writing Ghosts 13/06/2006 at 03:17

    Bellow entendia mesmo o “espírito da coisa”, hein?
    sem drama pessoal, poucos artistas conseguem produzir. eu, ao menos, não consigo. mas para trocar 4 vezes de mulher é preciso estar mesmo alheado, ausente, pouco afeito ao drama pessoal. …ao seu, digo, com certeza. mas talvez se interessasse, como um médico nazista, pelo de suas “vítimas”. ora! tudo pela arte. certo? rs

  • santinha 13/06/2006 at 07:24

    Considero atos de bravura. Falar de amor já é difícil para um; para mais de um, muito mais difícil. Quanto mais registrar esse amor em dedicatórias, para muitos….

  • Paulo Lima 15/06/2006 at 08:53

    O similar brasileiro é Fernando Sabino, que andou “desdicando” sua ex-esposa. E, salvo engano, até reescreveu trechos expurgando a ex-musa.

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