Cachorro

12/03/2008

Os brasileiros que se queixaram de ter sido chamados de “cachorros” por agentes da imigração espanhola podem ter cometido um erro de tradução. Foi o que argumentou na terça-feira, em reunião com membros da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o embaixador da Espanha no Brasil. “Cachorro em espanhol é diferente, significa filhote”, afirmou Ricardo Peidró.

Mais uma exibição do velho esporte diplomático do “nó em pingo d’água”? Sim e não. A distinção não deve ser suficiente para amenizar a dor de quem se viu barrado injustamente no aeroporto, mas o fato é que, do ponto de vista lingüístico, esta curiosidade se impõe: Peidró está certo sobre a assimetria semântica de “cachorro” nos dois lados do Atlântico.

Além da Espanha, Portugal também usa o termo apenas para animais filhotes. Do latim catulus (filhote de cão), com o acréscimo da terminação basca orro, foi no português brasileiro que o significado de “cachorro” se expandiu até se confundir com o de cão (em espanhol, perro). Isso parece ter obedecido a razões de religiosidade ou superstição: como “cão” é um dos nomes do diabo, a idéia era evitar seu uso.

E daí? Bem, uma conseqüência dessa distinção é que, da desusada acepção “indivíduo de classe inferior, escravo” a “pessoa vil, mau-caráter”, para não mencionar a libertina “cachorra”, personagem de sucesso na cultura funk carioca, os sentidos pejorativos que se grudaram na palavra parecem ser um fenômeno mais característico do Brasil, atenuado em Portugal e inteiramente ausente do dicionário da Real Academia Española.

Esse argumento filológico dificilmente comoverá quem acredita que a Espanha está fazendo uma cachorrada e que o Brasil deve instruir a Polícia Federal a soltar os cachorros em cima dos turistas vindos de lá. Mas ajuda a matizar um caso que é multifacetado demais para admitir sentenças simplistas.

Publicado na “Revista da Semana”.

13 Comments

  • Chico 12/03/2008 at 19:18

    Ese senior Peidro no entiende nada de espaniol callejero. En la espania cañi, ser jamado de perro, asi como jilipollas e enfollon, es ofensivo pra caracoles, e no venga me dezer que no, pues hablo espaniol pra caramba.

    Enquanto isso no arco andino… el bitcho tambien esta pegando y la jeripoca peando!!

  • Chico 12/03/2008 at 19:20

    Perdao, arco amazonico….

  • Sérgio Rodrigues 12/03/2008 at 19:27

    De perro sim, Chico, por supuesto. Mas não de cachorro.

  • Sérgio Karam 12/03/2008 at 23:12

    Legal mesmo é dizer “cachuerro”, que é, obviamente, a tradução correta, para o espanhol, do português “cachorro”. “Cachuerro” tem largo uso por aqui (Rio Grande do Sul) devido à proximidade com os países do Prata. Claro que isso tudo é uma imensa bobagem…

  • Rafael 13/03/2008 at 12:26

    Senior? Espaniol? Dezer? Jamado?

    Cervantes está, neste momento, debatendo-se furiosamente no ataúde. Desde a heróica batalha de Lepanto não via tantas barbaridades juntas.

  • Sérgio Rodrigues 13/03/2008 at 17:04

    Rafael, acho que o Chico estava falando portunhol selvagem e não espanhol.

  • André Pessoa 13/03/2008 at 18:02

    Existe um filme espanhol chamado justamente “Cachorro”, que eu nunca tinha entendido o que é que o título tinha a ver com a história. A trama principal é a disputa de um homem gay para criar o sobrinho que ficou órfão (e que o adora). É um garoto mesmo, de uns 12 anos, e deve ser ele o “filhote” do título.

  • Eliane Azevedo 13/03/2008 at 18:25

    E por que a polícia espanhola chamaria visitantes supostamente ilegais de filhotes?

  • Sérgio Rodrigues 13/03/2008 at 18:42

    Um dos brasileiros falou primeiro, Eliane. “Vcs estão nos tratando como cachorros” ou coisa assim. Ao que o espanhol lá teria confirmado: “Mas vocês são cachorros mesmo”. De sacanagem, óbvio. Mas, se a situação foi essa mesmo, com um efeito lost in translation no meio, a sacanagem pode ter sido bem menos odiosa do que parecia no primeiro momento.

    Bom encontrar você por aqui, já que no mundo real anda difícil.

  • Eliane Azevedo 14/03/2008 at 13:28

    Tenho freqüentado o todoprosa desde o início, caro. É que ando numa fase low profile…
    Vem cá, você imagina esse diálogo num livro? “Você está nos tratando como filhotes, seu fdp!”, “Ah, é isso mesmo que vocês são, filhotes, seus manés!”
    Não há lost in translation que explique isso. O sujeito devia ter agradecido, “Puxa, obrigado, a gente procura dar o maior conforto possível pros nossos filhotes”, porque ninguém no mundo trata filhote a pão e água. Ou o espanhol sabia muito bem o que é cachorro em brasileiro, ou achou a gente ainda mais mané que antes.
    Aliás, deu no Globo que os espanhóis deportados no Galeão disseram pra imprensa de lá que tinham sido tratados como cachorros. Vou ver se acho se o original é perros…

  • Chico 14/03/2008 at 15:44

    Rrrrafael, yo hablo un español lejos del castizo, por lo tanto lejos de aquel que hablais con tantas ganas de querer parecer cañi. Hablo pero no lo hago con frecuencia. Pero si lo deseas voy empezar a ser didáctico…

    Mano véio, não sei se tua erudição chega até lá, mas o Cervantes era ambidestro – anota ai ao lado do teu Lepanto – e o Lope de Vega, se voce reparar bem, quando escreveu El Caballero de Olmedo, inseriu aquele astuto personagem Tello propositalemente. Nao sei se voce lembra mas Tello tem em seu quarto uma caixa de madeira, onde guarda as lembranças de sua infancia. Ninguém sabe, porém que na caixa há uma mão previamente tratada por um taxidermista de nome Ricardo Darin….

    Tu não acha isso estranho não, mermão?

  • Chico 14/03/2008 at 15:47

    Rrrrafael, o Tello guardava uma mao esquerda…

  • danielle 10/04/2008 at 16:49

    por que o cachorro passa mal?

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