Cada geração com seu estilo

10/01/2009

Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento.

A platéia riu.

A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer.

O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone.

Quem se recusou a crescer foi você, cara.

Como disse?

Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo menos a decência de esperar isso acontecer antes de me atirar na cara o seu fracasso.

Seguiu-se um silêncio de cristal. O auditório estalava de tensão. Ninguém respirava. Até que o escritor de meia-idade redargüiu:

Viadinho!

E se atracaram. Os dois tiveram chance de encaixar uns tantos cruzados, e o escritor mais velho se distinguiu pelos potentes cotovelaços, enquanto o mais moço manejava com perícia um estilete, tingindo o palco de sangue, antes que entrassem para separá-los. Caiu o pano.

A platéia explodiu num aplauso de puro êxtase.

6 Comments

  • Saint-Clair Stockler (v.2009) 10/01/2009 at 15:50

    Que MARAVILHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. Adorei!!!

    Queria tanto ver isso acontecendo no mundo real! Até hoje, o mais perto que cheguei de ver algo remotamente parecido foi assistir Josyane Savigneau dizendo, na cara de um “jovem autor”: “Vous savez, monsieur, je n’ai pas aimé votre bouquin” (*)! Nunca vi uma sinceridade assim no Brasil!

    O problema da literatura brasileira contemporânea é que sobra esperma mas falta sangue. Ou será que é “sobra sangue mas falta esperma”???

    _____________________________
    (*) – Sabe, não gostei do seu livro.

  • Bruno M. Oliveira 10/01/2009 at 16:19

    Bem que eu gostaria de saber qual é o PROBLEMA da literatura brasileira, Saint-Clair. Mas não chego nem perto disso.

    Uma coisa é certa: falta de escritor (bom ou ruim) é que não é!

    Abraço!

  • Valéria Martins 10/01/2009 at 18:38

    Hahahahaha!!! Adorei! E ainda imaginei o cenário: o auditório da Travessa nova, no Barra Shopping. Ia dar um trabalho danado limpar depois.
    Beijão,

  • Saint-Clair Stockler (v.2009) 10/01/2009 at 20:04

    Bruno,

    Concordo em parte com você: uma literatura que tem Elvira Vigna, Daniel Pellizzari, Esdras do Nascimento, Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Antonio Fernando Borges, Lima Trindade, Zulmira Ribeiro Tavares (só pra citar alguns), realmente não está assim tão mal das pernas, não…

    Mas eu acho que um punhado de bons escritores é muito pouco pra um país como o Brasil, tão gigantesco. Era pra dar mais…

  • Bruno M. Oliveira 10/01/2009 at 23:24

    Mas tenho certeza de que há muitos mais Brasil adentro. Como você bem ressaltou, há bons escritores em atividade. O que não há – e foi isso o que quis enfatizar (implicitamente) no comentário anterior – é um número razoável de bons leitores.

    Para cada bom livro de ficção publicado, acredito que haja pelo menos três inéditos igualmente bons não publicados, independentemente do motivo. Se boa parte desses livros de ficção que chegam ao mercado já está fadada a jazer ad eternum nas prateleiras cada vez mais exíguas de literatura brasileira das livrarias, imagine o que aconteceria se as editoras publicassem todos os originais interessantes que chegam até elas todos os anos.

    Enfim, discussão antiga e infrutífera essa.

    Abraços.

  • Gisele Lemper 15/01/2009 at 19:31

    Muito verdadeiro e divertido. A turma adora discutir o sexo dos anjos… rs. um abraço da amiga 😉

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