Cafungadores e coveiros: vamos virar a página?

16/11/2009

Um maniqueísmo mais apaixonado que inteligente tem marcado as conversas sobre o livro eletrônico no Brasil, entre o pessoal que prefere morrer a abrir mão de uma cafungada no papel e o que prega simplesmente a morte do livro como o conhecemos. Nesse cenário, é uma boa notícia este artigo de Jerome Vonk, que o autor me enviou por email e que pode ser lido na íntegra em pdf em seu site. Não por conter novidades, mas por trazer um olhar lúcido e a certeza de que não estamos diante de um mata-mata: o campeonato se estende até onde a vista alcança e é disputado em sistema de pontos corridos. Um trecho:

Examinemos de perto o livro eletrônico, e percebamos que ele não é apenas a versão digital do livro físico; é muito, muito mais! É o superlivro no modo mega hiper blaster total; confira aqui os acessórios originais de fábrica (variações existem de modelo a modelo):

• busca de palavra ou expressão

• dicionário embutido

• imagens animadas, áudio e vídeo (multimídia)

• hiperlinks e referências cruzadas com outros livros, revistas online, blogs…

• realce de texto, marcação de página e anotações

• empréstimo do livro e envio de trechos/anotações para outras pessoas

• modo de leitura texto para voz

• atualização automática do conteúdo

• oferta de mais de 1.000.000 de livros gratuitos e mais de 360.000 a preços razoáveis (no exterior, a menos de R$ 20,00)

• leitura no computador, celular, e-book reader…

O assunto aqui é o futuro da leitura, e não o futuro do livro. Os dois livros (as duas formas de leitura) podem e deverão conviver pacificamente, e é irrelevante discutir sobre isto. Os debates sobre prós e contras, a apaixonada defesa de um ou outro, as crônicas saudosistas de uma morte que ainda não se consumou cheiram a ranço. (…)

A maneira de ler modifica-se com a introdução de novas tecnologias (estruturas, dispositivos e sistemas) e técnicas (nossa habilidade em usar estas tecnologias). O livro eletrônico não é a mera digitalização do livro impresso, e sim o aprendizado e a conquista de um novo modo de leitura. Todas as funções descritas acima – e as vindouras – nos permitem e ensinam a ler de forma não linear, fragmentada, sobreposta, múltipla e compartilhada – instantaneamente – com terceiros.

Acrescento uma única observação: faz tempo que esse “modo de leitura” nos vem sendo ensinado pelo computador. A novidade do e-reader é ser um objeto projetado especificamente para a leitura, com todas as suas funções subordinadas a este fim e o trunfo principal de uma tela que nossos olhos (quase) acreditam ser de papel.

33 Comments

  • zanza 16/11/2009 at 13:05

    Sérgio, seus títulos são ótimos! Muito interessantes.
    Quanto a essa do livro cafungado e do livro buscado a dedo em tecla, o importante é a LEITURA. Precisamos antes de tudo ser leitores que lêem e não leitores que só folheem…

    Gosto muito de dar uma cafungada nos livros. Gosto de rabiscar, ir e vir nas páginas, deitada de bruços com lápis ali, anotando, pegando dicionário… de repente comparando com outro livro… e às vezes vem um soninho… o livro cai, o marido pega devagarinho e guarda com o cuidado de não tirar da página… ou o netinho chega e pedi para (a leitora. rsrs) ir jogar bola com ele no quintal… e de repente a vovó está lá com o livro na mão… E o netinho pega o livro, e fecha na cara… rsrsr e guarda e diz: -Vovó, ler agora, não!

    Bem, no digital, não tem essas gostosuras… mas é muito bom também. Gostei quando meu filho falou de um livro que me empolgou e quando pensei que ia demorar para ter o livro em minhas mãos, meu filho me dá a excelente notícia: Tem na net. Na mesma hora… li o livro todo. Isso não tem preço… Portanto… “De tudo examineis e retem o que é bom! É isso.
    Cafungadores sempre. Coveiros? Jamais. Por falar nisso, não vejo a hora de ler Olga, quer dizer, Elza… Não vejo a hora.

    • cely 16/11/2009 at 17:08

      Olha Zanza,a gente vai ter que se conformar! Este tipo de nostalgia já não é bem visto pela geração coca cola.Por mais que eu concorde com voce de A a Z,logo logo vamos ter que procurar livros no mercado de pulgas…..
      E..Sergio não acho que a questão é ser ou não mata mata.É a tecnologia X lampião de gás! Só que o que é que vai prencher no coração da gente esta doçura à qual a Zanza se refere?Que será que meus netos vão fazer com a minha biblioteca?

  • joão sebastião bastos 16/11/2009 at 14:41

    Isso termina em discussões do tipo” Marlene ou Emilinha ?” O importante é o conteúdo veiculado .O livro eletronico emula um livro comum além de agregar uma série de funções que facilitam outras coisas além do ato de ler , mas não substitue a experiência sensorial do contato com o livro , do jeito que comprar pela Internet não levou á falência as lojas de departamentos.

  • Gustavo 16/11/2009 at 14:54

    Poucas dessas vantagens do livro digital são realmente exclusivas do livro digital. Acho que o caminho para o livro digital ainda é longo e talvez não seja nem este que estamos seguindo. De qualquer forma, vale a discussão.

  • Daniel 16/11/2009 at 15:00

    Trabalho há 35 anos com informática e não me sinto um ludita, nem resistente ás novas tecnologias. Teria morrido de fome se este fosse o caso. Mas concordo que as duas midias irão coexistir. O livro eletrônico tem várias vantagens, já citadas. Mas o bom e velho papel ganha na hora em que acaba a bateria, falta luz para o carregador (vulgo apagão) ou um bug ou virus resolve se intalar no aparelhinho.
    Objetos distintos com funções semelhantes, mas não idênticas.

  • Noga Sklar 16/11/2009 at 18:13

    Amanhã eu conto se é legal ler no Kindle: o meu está chegando. Mas já adianto que no Kindle para PC é bom demais: rápido, prático e com todas as benesses citadas no artigo. O software é grátis, baixável do site do Kindle na Amazon. Nada a ver com o velho pdf, e ainda vem com DRM.
    Enquanto isso, aproveito pra comunicar aos todoprosianos que estou prestando serviços (para autores e pequenas editoras) de conversão e publicação na Kindle Store, quem quiser informações entre em contato: dtp@noga.blog.br.
    Não é arquivo para copiar para o Kindle por cabo nem nada disso, é Kindle Book mesmo, viu? Baixado, sem fio, para Kindle, PC e iPhone.
    Podem procurar na Amazon nosso primeiro título: Marco Polo & a Princesa Azul.
    Aí, Sérgio, desculpe a casquinha publicitária, só pra variar (vale pelo conteúdo da informação, né?).
    Abraço

    • Sérgio Rodrigues 17/11/2009 at 12:15

      Fique à vontade, Noga. Seu comentário é pertinente. E boa sorte na empreitada. Um abraço.

  • Daniel Brazil 16/11/2009 at 19:51

    Será que quando o automóvel foi inventado, algum apocalíptico previu a extinção dos cavalos?
    Bem, há muita gente que gosta de cavalos, até hoje. Cria, coleciona, admira. O mundo seria mais feio sem eles. E há certos sítios onde o carro não funciona…

  • Lineu 16/11/2009 at 20:48

    Jerome mandou muito bem. Mudou meu conceito sobre o livro digital. Tomara que a bateria reserva seja bem baratinha…rs

  • Elton 16/11/2009 at 21:13

    Também acho que esse debate anda muito empapuçado ora de pessimismo sentimental (snif, os livros vão sumir), ora de otimismo tecnológico (eba, os livros vão sumir!). Os dois vão coexistir e ponto. Basta ter gente pra consumir (é, esqueci meu mundo encantado em casa, hoje) e, pela divisão das posições, parece que isso não faltará a nenhum dos meios.

    Assim que me for possível, pretendo comprar um leitor de e-books da mesmíssima forma como sempre que possível compro e sempre que possível continuarei comprando livros de papel. A coisa não vai além disso. Só acho que os preços dos livros digitais estão muito altos em relação à economia de sua produção (resguardando o pagamendo de quem merece).

    A propósito, calhou de eu comprar um tal Elza, a garota nesse domingo. Lerei nesta semana.

  • zanza 16/11/2009 at 21:53

    Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar ( matar a morte…) e tempo de curarç tempo de derrubar e tempo de edificar

    • Mr. WRITER 17/11/2009 at 12:52

      Eclisiastes? Bem apropriado…

  • zanza 16/11/2009 at 22:02

    Tempo de chorar, e tempo de rir e tempo de prantear tempo de dançar.Tempo de ajuntar pedras e tempo de espalhar pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar. Tempo de buscar e tempo de perderç tempo de guardar e tempo de lançar fora. Tempo de rasgar e tempo de coserç tempo de estar calado e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz.

    O Senhor Jesus nos abençoe.

  • Isabel Pinheiro 16/11/2009 at 22:12

    Estou apaixonada por meu Kindle e, ao mesmo tempo, não pretendo largar meus livros comme il fault. As duas coisas não são excludentes.

  • zanza 16/11/2009 at 22:34

    Cely, quem sabe nossos netos se encontrem para falar das bibliotecas das vovós…
    bjo, Cely

    zanza

  • Marcelo ac 17/11/2009 at 09:55

    Eu tenho uma dificuldade enorme com as novas tecnologias. Não é por causa disso que eu acredito que o livro eletrônico vai demorar ainda um pouquinho para emplacar. É que a cadeia produtiva ainda é muito expressiva para ser desmontada assim da noite para o dia. Por sua vez, o custo do livro eletronico ainda é alto. Tudo bem: vou continuar cafungando meus livros com todo o carinho que eles merecem. Tanto mais que cheiro de livro novo é irresistível!

  • Marcelo ac 17/11/2009 at 10:05

    Sérgio, a propósito do meu post sobre a tua premiação, foi de uma infelicidade a toda prova. Não desdenho do prêmio nem da sua escolha, o único problema é que eu ainda não li seus livros, a não ser as resenhas. Agora, no final do ano, pretendo fazer uma visita às livrarias e atualizar meu acervo. Valeu!!

  • Marcelo ac 17/11/2009 at 10:20

    Sérgio, meu último post, aquele por ocasião do lançamento do livro póstumo do Nabokov, e que se discutiu sua indicação ao prêmio “Quem”, foi de uma infelicidade a toda prova. Não queria desmerecer o prêmio, nem a sua indicação. O caso se resumi a uma única linha: ainda não li seus livros. Nesse fim de ano devo atualizar meu acervo. Só li os livros do Tezza e do Chico, e agora aguardo para ler os outros que saíram. Valeu!

    • Sérgio Rodrigues 17/11/2009 at 12:17

      Marcelo, tá limpo. Não vi infelicidade no seu comentário, embora não tenha entendido o que você quis dizer com “álibi”. Um abraço.

  • Mr. WRITER 17/11/2009 at 12:48

    Acho até legalzinho isso… mas… sempre há um, meu medo é estar no busão, indo ou vindo do trabalho lendo aquele bom livro de papel e lá vem um meliante e não se interessa pelo meu livro de papel…

    Mas um belo dia eu resolvo ter um kindle, o útimo grito de tecnologia. E eu, lá naquele mesmo busão, lendo, desta vez no kindle e o mesmo meliante vem e quer me roubar meu acessório estiloso, moderno… quem sabe não é um novo computador de mão, pensa o meliante… lá se vai meu kindle.

    Esse é meu medo. Os bandidos estão se modernizando e roubando o que há de melhor nas mãos alheias. Celuar só com camera e mp3 player… ele nem precisa saber o que é um kindle e pra que serve, basta saber que é eltrônico e tem um zé ruela pagando de bacana com um num ônibus ou bestando em uma praça qualquer da vida. Já era, perdeu playboy.

    O único perigo para o livro de papel é a menina que roubava livros… toma que agora ela só roube kindles…

    • Isabel Pinheiro 20/11/2009 at 00:35

      Mr. Writer, dá pra comprar umas capinhas que deixam o Kindle com cara de agenda que ninguém quer roubar. :-)

  • Werner Plaas 17/11/2009 at 22:48

    Pessoalmente prefiro todos: volumes encadernados com capa de couro, edições em papel bíblica, pdfs mequetrefes, xerox amarelado e grampeado, HQ com inebriantes aromas de tinta, paperbacks fedorentos, capas duras, e-books sem sal, edições de bolso ou de mesa, até Kindle eu encaro.
    Sou pouco fino com relação à midia.

  • Neno Baggo 18/11/2009 at 03:53

    Zanza, Rosângela, Jumentinha, são nomes da mesma maluca que fica entulhando a caixa de comentários de blogs. Parece que o Sérgio Rodrigues (e leitores) é a vítima da vez.

    Saco!

    Ô, Rosângela (Zanza, Jumentinha…), vai lavar um tanque!

  • Matheus 18/11/2009 at 09:01

    Muito boa sua iniciativa de divulgar a literatura, parabéns, vou deixar aqui minha contribuição: você já ouviu falar no poeta Sandro Kretus? Esse poeta é a nova cara da literatura brasileira, seus textos fazem o maior sucesso na web, veja e confira. Abraços, Matheus.

    Sandro Kretus livros
    http://clubedeautores.com.br/books/by_tag/kretus

    Sandro Kretus poemas
    http://www.portugal-linha.pt/KRETUS/menu-id-105.html

    Sandro Kretus pensador
    http://www.pensador.info/autor/Sandro_Kretus/

    Sandro Kretus blog
    http://sandrokretus.blogspot.com/

  • Rosângela 18/11/2009 at 13:13

    Senhor, Neno, vou procurar escrever menos. Obrigada pelo toque. O problema de ler muito é que acabamos escrevendo muito. São muitas palavras vindo ao coração por estarem acumuladas ali, fervendo de amor… Verdade. Parece uma maluquice. Obrigada pelo toque. Vou me cuidar nisso.
    Um abraço,
    Rosângela

    • Rosângela 18/11/2009 at 13:19

      Quanto ao tanque, obrigada pela lembrança! Não é que estava precisando de comprar saponáceo (que é o que deixa o tanque branquinho) e havia esquecido??? Obrigada pela lembrança. E fico feliz do senhor também estar preocupado com as vestes brancas. Um tanque é um excelente lugar para bater roupas. E este momento no Brasil é momento de começar a termos nossas vestes limpas, alvas. Não sei se o senhor sabe, mas as vestes brancas são os atos de justiça.
      Obrigada pela lembrança e que o Senhor Jesus abençoe muito a sua vida bem como a dos seus.

  • Rosângela 18/11/2009 at 13:23

    Por favor, senhor Neno, visite este site e veja que são poucas as palavras agora.

    http://www.agloriadosenhorsobrecampos.blogspot.com/

  • Eduardo Antonio Bonzatto 18/11/2009 at 13:27

    se a preocupação é com o final da leitura não há o que se preocupar. o Brasil tem 911 livrarias, enquanto Buenos Aires tem 934. E esse número já foi bem maior. Preocupem-se com o audio livro. É muito provável que os nossos netos não leiam nada e tudo se absorva pelo olho e pelo ouvido. Mas será que vai fazer realmente falta?

  • Eric Novello 18/11/2009 at 13:44

    Se me permite a propaganda, 20 de agosto escrevi um texto sobre e-books para o Aguarrás: http://aguarras.com.br/index.php?s=e-book Abss!

    • Sérgio Rodrigues 19/11/2009 at 11:55

      Gostei do texto, Eric. Futurologia de boa qualidade. Abraços.

  • Noga Sklar 18/11/2009 at 14:58

    Prometi e cumpro: tô que nem a Isabel, apaixonada pelo meu kindle, mas, diferente dela, sinto-me a ponto de cuspir no prato em que tanto comi, segue trecho de minha crônica de hoje no Noga Bloga, a primeira como feliz proprietária de um kindle: “Ainda estou no comecinho do livro, mas já posso afirmar, com o tom de exagero que me é peculiar, que converti-me irremediavelmente ao Kindle ao ler na cama sobre a vida de Clarice. Nunca mais aqueles livros pesados, aquele virar a página por fora do cobertor que é tão complicado aqui na Serra nos dias mais frios, o dicionário sempre ao lado, e pior, pobres traduções para o português, nunca mais, agora que tenho à distância de um toque sem fio o acesso barato a todos os originais, que cheiro de papel que nada.”

  • Rosângela 18/11/2009 at 16:16

    Tá certo, Noga…

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