Caixa-preta

07/08/2007

A caixa-preta são duas – uma para gravar conversas na cabine de comando, a outra para registrar dados técnicos do vôo – e não é preta, mas laranja-cheguei. Em certo sentido, é o avesso da mitológica caixa que Zeus confiou a Pandora, aquela que jamais deveria ser aberta porque continha todos os desastres do mundo: depois do desastre é que se abre a caixa-preta. Mas a velha fixação da humanidade em receptáculos lacrados e cheios de segredos ajuda a explicar o sucesso da palavra na linguagem comum.

A tese mais aceita sobre a origem de “caixa-preta” (palavra composta, com hífen) aponta para um equipamento usado na Segunda Guerra Mundial pela Royal Air Force, a força aérea britânica. Não era um gravador, mas um radar que, nos bombardeiros, permitia “ver através das nuvens ou no escuro”. Como outros itens eletrônicos na aviação da época, era acondicionado numa caixa preta. Ao batizá-lo, porém, o jargão da RAF parecia destacar sobretudo a aura de mistério e respeito que cercava uma tecnologia obscura até para quem a usava. Com esse sentido, black-box estreou na língua inglesa por volta de 1945.

O sentido que se tornaria o principal – “aparelhagem que grava dados sobre o funcionamento de uma aeronave, seus sistemas e as conversas da equipagem”, nas palavras do Houaiss – surgiu na segunda metade dos anos 1950, quando o equipamento se tornou obrigatório na aviação internacional. Para facilitar o trabalho das equipes de resgate, as caixas de alta resistência que protegiam os gravadores passaram a ser pintadas de laranja berrante nos anos 60.

Mas o nome já tinha vingado. Como a novela que há anos começa em torno das nove mas continua sendo “das oito”, a caixa ficou “preta”. E seu sentido logo transbordou para abarcar qualquer engenhoca cuja lógica de funcionamento seja inacessível ao observador externo. Esticando a metáfora, a palavra foi passear fora do campo tecnológico e passou a ser usada em tom crítico para designar tudo aquilo, instituição ou sistema, que se considere pouco transparente.

6 Comments

  • Lugana Olaiá 07/08/2007 at 16:50

    Sérgio,
    grata pelas informações.
    Tentarei chamá-la de “caixa-laranja”, assim como já me refiro à novela das nove.
    Abraços!

  • Bernardo Brayner 07/08/2007 at 17:05

    É, também, nome de importante livro de Amos Oz.

  • Rafael 07/08/2007 at 17:13

    Lugana,

    Pelo jeito, as palavras devem para você expressar rigorosamente a realidade. O nome caixa-preta só vale se a caixa tiver a cor preta; a novela das oito deve necessariamente iniciar às oito.

    Pergunto: como mesa não tem pé, como é que você se refere às hastes que dão sustentação a ela?

  • ana paula 07/08/2007 at 20:20

    A caixa só poderia se chamar “preta”, pois é a cor que costuma ser chamada fúnebre. É caixa-preta mesmo, nada tem de transparente.

  • Daniel Brazil 07/08/2007 at 23:01

    Ao contrário da ana paula, acho que o nome correto deveria ser mesmo caixa-laranja. Primeiro, porque em 99,9% das viagens de avião, não é fúnebre. Segundo, porque em caso de desgraça, pode funcionar como… laranja!

  • Artur Monteiro 11/08/2007 at 02:57

    Esse pensamento de que a caixa-preta deveria ser laranja e a novela, das nove está naquela filosofia de que o risco é ‘de morte’. Sinceramente… Se são universalmente entendidos como ‘a caixa que guarda registros do vôo’, ‘a última novela do dia’ e ‘risco de perder a vida’, pra que mudar?
    Isso me parece uma nova versão de purismo. Sei lá, neo-purismo.

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