Campos de Carvalho voltou da Bulgária

19/06/2006

O Grande Escritor Injustamente Esquecido é um personagem fundamental em qualquer literatura. Mais até do que os nomes consagrados, é o Grande Escritor Injustamente Esquecido quem define os limites da leitura, lá onde não chega o senso comum e uns poucos conseguem vislumbrar tudo o que poderíamos ter sido, como nação leitora, e desgraçadamente não fomos. José Agripino de Paula, de “Panamérica”, é o Grande Escritor Injustamente Esquecido da moda: pega bem à beça citá-lo em rodinhas literárias, sobretudo as paulistanas. Há quem prefira ser mais original e se abrace ao Antônio Fraga de “Desabrigo”. Num terreno em que a glória é virada do avesso e a obscuridade se torna o valor supremo, suspeita-se até que escritores inventados em conversas de botequim – como o prosador vesgo Lucho Ventania, de Itapecerica da Serra, imbatível nos anacolutos – passem por Grandes Escritores Injustamente Esquecidos. E quem vai dizer que não?

Eu prefiro Campos de Carvalho (1916-1998). Sem pensar duas vezes, fico com o autor de “A lua vem da Ásia”, mestre do nonsense e um dos grandes humoristas da língua portuguesa – humor entendido aqui como coisa seriíssima, ainda que impagável. Por preferir Campos de Carvalho, ando empolgado com a publicação de “Cartas de viagem e outras crônicas” (José Olympio, apresentação de Antonio Prata, 126 páginas, R$ 25,00) na curiosa coleção Sabor Literário, em formato de bolso. Trata-se de um punhado de crônicas que Walter Campos de Carvalho, mineiro de Uberaba, publicou no “Pasquim” em 1972. Na primeira parte do livrinho agrupam-se “cartas” escritas de Londres e Paris e tendo como destinatário o próprio autor – “poupando assim ao menos o dinheiro e o trabalho de ir até o Correio”, como ele explica. A segunda metade reúne crônicas (algumas sem título, defeito que a edição poderia ter corrigido) que, livres da camisa-de-força das impressões de turista, deixam o pessimismo de Campos de Carvalho e seu olhar afiado para o absurdo da existência se resolverem melhor naquela prosa de invejável precisão dele. Enfim, o livrinho é um livraço.

Mais ainda se levarmos em conta que essas crônicas de 1972 são a única esmola do talento do autor que nos seria oferecida entre 1964, quando ele mergulhou num silêncio de pedra depois de enfileirar quatro romances de respeito em nove anos, e sua morte. Em 1995, a mesma editora José Olympio se apiedou dos fuçadores de sebos e reuniu num volume histórico aqueles quatro livos: “A lua vem da Ásia”, “Vaca de nariz sutil”, “A chuva imóvel” e “O púcaro búlgaro”. O último – último mesmo, infelizmente – é um relato dos esforços do narrador para verificar se a Bulgária realmente existe. Ele conta que a obra esteve ameaçada de nem vir a público quando “uma comissão de búlgaros, berberes, aramaicos e outros levantinos, todos encapuzados”, lhe ofereceu dez milhões de dracmas por seu silêncio editorial, “pelo menos até o começo do século XXI, quando certamente o mundo já não terá mais sentido”.

Estamos chegando lá, Campos de Carvalho.

7 Comments

  • Writing Ghosts 19/06/2006 at 01:20

    muito interessante! não vai ter a canja de um excerto, desa vez? fiquei com vontade.

  • Lilia Freitas 19/06/2006 at 10:19

    embora Injustamente Desconhecido (nem tanto depois da edição da Obra Reunida pela José Olimpyo), já havia sido lembrado – e entrevistado- por Nelson de Oliveira no Sem leitores de Campos, uma obra limitadíssima em, claro, cem exemplares. Mas é uma recompensa e tanto quem encontrar essa Bulgária restrita!
    Parabéns pela coluna, que visito diariamente à caça de tesouros, e obrigada por mais essa dica, Sérgio!
    um abraço,

  • Marcelo Moutinho 19/06/2006 at 10:41

    Não deixe de assistir à peça “O púcaro búlgaro”, Sergio! Uma preciosidade, o texto – e a encenação está à altura….

  • Vinícius Trindade 19/06/2006 at 11:35

    Na minha humilde opinião, Campos de Carvalho é somente o melhor escritor de todos os tempos. Quem se interessa por novidade, e já está cansado de literatura chove-não-molha deve ler esse cara.
    E somando mais um nome à sua lista “Grande Escritor Injustamente Esquecido”, cito o Jayme Rodrigues e seu “Phutatorius”, lançado pela DBA. Muito louco!

  • Luiz André 19/06/2006 at 13:02

    É, Sérgio, coloca um trecho aí… fiquei interessadíssimo.

  • Marvado 19/06/2006 at 14:27

    Há algum tempo atrás, em 94 talvez, li uma crônica de Mário Prata, na qual ele falava do autor e obra, um escrito muito bem humorado que me fez pesquisar este senhor velho e solitário morador de Higienópolis segundo Mário, foi bem difícil encontrá-lo, ou melhor encontrar alguma obra do autor, vale muito mesmo, uma forma além da minha capacidade de esplicação, genial enfim, ótima notícia esta publicação,
    abração Sérgio

  • Suzana 20/06/2006 at 16:50

    Olá,

    Campos de Carvalho é realmente brilhante. Pra quem não tem os livros é só baixar os arquivos pela internet. Segue o link:
    http://www10.brinkster.com/payres/campos/

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