Carta aberta aos leitores da Copa

11/11/2008

Reproduzo aqui o comentário que publiquei no site da Copa de Literatura Brasileira, da qual sou um dos jurados este ano. Um reconhecimento de derrota que é ao mesmo tempo uma tentativa de salvar o que for possível. A luta continua.

Caros,

Enquanto minha resenha não vem (o que fazer, se já tinha me comprometido?), gostaria de explicar por que considero a Copa 2008 um fracasso. Divertida, pode ser, num sentido meio espírito-de-porco. Mas um desperdício e uma tristeza.

Não é de hoje que o clima por aqui andava beirando o das torcidas organizadas, mas o fator decisivo para o bolo solar foi a não-resenha dadaísta de André Sant’Anna. Ao investir corajosamente contra uma cidadela imaginária, desconstruir o que está em farelos há décadas, ela ganha leituras como a de Isaac, entre tantas semelhantes – “todo julgamento é estúpido, tudo é válido, viva a liberdade total etc.”

Topei participar da Copa porque via nela um belo fórum para provar – democraticamente, mas provar – justo o contrário. A saber:

1. Que precisamos reaprender a julgar, reencontrar uma linguagem comum para debater mérito. Devemos isso a nós mesmos e principalmente aos leitores. O preço do fracasso é a irrelevância.

2. Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.

3. Que existem, óbvio, fundamentos que alguns dominam, outros dominam mais ou menos e outros não passam sequer perto de vislumbrar. Nem todo mundo é escritor.

4. Que o discurso crítico é algo que, idealmente, deve ser desenvolvido muito acima da rede de alianças e amizades (ou inimizades!), por mais difícil que isso seja na prática.

5. Que a divergência continuará existindo, mesmo porque as estratégias para se chegar à meta serão sempre inumeráveis – como as próprias metas, aliás. O papel decisivo da subjetividade está garantido, sobretudo na “disputa” entre livros de qualidade semelhante. Mas isso não tem nada a ver com anomia babaca.

Como pode ver qualquer um que acompanhe isso aqui, a balbúrdia chegou a um ponto em que essas pretensões iniciais parecem definitivamente derrotadas. “Perdeu, perdeu.” Reconhecer a derrota é parte fundamental do jogo.

Mas continuo achando que a idéia era boa. Quem sabe um dia.

Abraços.

44 Comments

  • Fernando Torres 11/11/2008 at 11:51

    Sérgio: Esse é sem dúvida alguma um dos melhores posts que li em neste blog. Gostaria de comentar um ponto: “tudo é válido, viva a liberdade total”. Quem diz isso esquece de um ponto. acima de qualquer outra forma de arte a literatura pressupõe uma regra: o código. Toda literatura é construida pelo menos duas vezes,, ao ser escrita e ao ser lida, pressupondo que o leitor precisa conhecer o código.

    Claro que existe liberdade dentro do código, mas ainda assim, as letras devem formar palavras. as palavras, devem formar frases, que devem formar ideias. Caso a regra seja ignorada, a literatura será qualquer outra coisa menos literatura.

    Creio que os dignos Leitores desse blog “pessoas de inteligentes e de discernimento”, concordarão comigo. Ou não.

  • tiago a. 11/11/2008 at 11:53

    Amém, Sérgio, amém.

  • Tibor Moricz 11/11/2008 at 13:04

    Eu, einh…

  • Nestor Magalhães 11/11/2008 at 14:00

    É impressão minha ou mais da metade dos supostos críticos e comentadores da Copa não entendem absolutamente nada de literatura?

  • Rafael 11/11/2008 at 14:00

    Interessante a linha de argumentação desenvolvida pelo André Sant’Anna… Por meio dela, chego à conclusão de que o próprio André Sant”Anna escreve bem.

    Desde que Zenão criou seus famosos paradoxos, que demonstram, irrefutavelmente, que o movimento não existe, sabe-se que a lógica e a realidade não necessariamente seguem juntas.

    André Sant’Anna escreve bem. Eis aí um paradoxo tão digno quanto qualquer outro elaborado pelo célebre discípulo de Parménides.

  • Daniel Brazil 11/11/2008 at 14:04

    Tem meu aplauso, Sérgio. Realmente o nível do debate na Copa baixou muito, apesar dos esforços bem intencionados do Lucas. E, concordo, a idéia não é ruim, ruim é o nível de alguns participantes.
    O futebol não é uma coisa ruim porque existem alguns (muitos) jogadores pernas-de-pau, certo?
    O pseudo-crítico Sant’anninha virou um balde de estrume na própria cabeça, depois dessa.

  • Anna May 11/11/2008 at 14:49

    Concordo plenamente com vc e com o Fernando. O Teatro tb precisa ser passado a limpo nestes termos.

    Beijo, e parabéns pela audácia de botar o dedo na ferida e escarafunchar a podridão.

  • Claudio Faria 11/11/2008 at 17:17

    A Copa não morreu. O pulso ainda pulsa.

    O Lucas paga um preço alto por ser extremamente democrático, e aí deparar-se com resenhistas (ou jurados, como queiram) babacas, cujos egos necessitam sobressair mais do que os livros analisados. Sem falar em muitos dos leitores, que postam agressões e impropérios e nem assim são censurados.

    Acho que não é o caso de enterrar, mas apenas de corrigir o rumo.

  • Fred Kling 11/11/2008 at 18:08

    O problema não é da Copa, nem dos escritores, mas sim dos brasileiros? Nós somos assim: se sofermos crítica -por mais fundadas que sejam-, achamos que o crítico nos odeia e tem algo contra nós; se recebemos elogios -ainda que fundados-, todos acham que os recebemos por motivos extra-literários…
    realmente, às vezes as críticas e os elogios têm fundamentos que não a obra, o que é uma porcaria e uma besteira, mas, em muitos casos -como, inclusive, na Copa- a crítica é bem fundamentada….
    POrtanto, de tudo isso concluo que o brasileiro continua aquele ser patriarcalista, o homem cordial do Sérgio Buarque, incapaz de desenvolver uma persona pública descolada da persona privada…xingar a minha obra é me xingar e ponto final….
    Por isso os jovens escritores brasileiros escrevem tanta porcaria condescendente e auto referencial…..

  • Milton Ribeiro 11/11/2008 at 18:46

    Eu acho que faz uns quatro ou cinco posts que os resenhistas aderiram ao espírito de porco dos comentaristas, dentre os quais me incluo pois, ao discordar de uma resenha, fui agredido e respondi quando devia ter tirado o time. Não ofendi, mas meu nome está lá. Assumo.

    Uma atira livros na parede, o outro faz ganhar o amigo legal. No ano passado, achei estranha a vitória do apenas simpático “Música Perdida”. Não me manifestei; mas este ano, apesar da presumível vitória do Tezza, o que foi perdida foi a Copa. Uma pena.

    Se tivesse ficado quieto e não visitasse mais o site, teria feito melhor. Burro, eu.

    Grande post, Sérgio, tens 110% de razão.

  • Milton Ribeiro 11/11/2008 at 19:43

    Fiquei pensando.

    Uma iniciativa dessas, que acaba ferindo egos de autores e leitores, precisa ter algo mais do que resenhistas cultos, conhecedores de literatura.

    Ela precisa de um MODERADOR. Baixou o nível, corta. Só que chegou a um tal nível que o moderador teria que moderar até os resenhistas… Mas é exatamente isso que ele devia ter feito. A “crítica” do André Sant’Anna e mais três nunca poderiam ter sido aceitas. Se outras eram primárias, a do André nem isso era. Tais pessoas desqualificaram a iniciativa.

    Abraço.

  • Claudio Soares 11/11/2008 at 20:51

    Em ficção, um recurso, bastante útil por sinal , é o exagero ( de situações, personagens etc) como forma de questionamento (arte, não esqueçamos, é questionamento).

    Levando-se isso em consideração, penso, que a resenha de André, o resenhista “generoso”, se não teve a real intenção de questionar (através do exagero) a maioria das resenhas que lemos por aí, acabou acertando no que não viu.

    “É só isso tudo”: não se estressem, leiam a resenha como ficção.

  • Daniel Brazil 11/11/2008 at 21:41

    Ficção tolinha, né, Cláudio? E falando de pessoas reais…

  • Sérgio Rodrigues 12/11/2008 at 00:22

    Boa tentativa, Claudio, mas não cola. O Daniel é bondoso ao chamar isso de tolice.

    Caro Milton, dê uma olhada no comentário que o Tiago A. publicou agora à noite lá na Copa. É perfeito, dá um belo alento. Mas concordo que, mesmo que ganhe o Tezza, o ano da Copa está perdido. Redenção só ano que vem, se ano que vem houver.

    Abraços a todos.

  • Isabel Pinheiro 12/11/2008 at 09:44

    Puxa, eu estou guardando todos os emails da Copa pra ler de uma vez, mas agora desanimei. Não sei o que o André Sant’Anna escreveu, mas me lembrei que ano passado já houve uma bizarrice, se não me engano na rodada com o livro do Sérgio. Não foi “Sementes de Flowerville” que passou à próxima rodada por um tipo de sorteio feito pelo jurado? O cara não chegou a conclusão nenhuma sobre qual livro era melhor, tirou no palitinho e aprovou o Sérgio. Na boa, esse tipo de coisa ofende a minha inteligência. Abraços

  • Sérgio Rodrigues 12/11/2008 at 09:56

    Foi isso mesmo, Isabel. Logo na primeira rodada o Sementes de Flowerville (que depois acabaria chegando à semifinal) ganhou de Corpo Estranho, da Adriana Lunardi, na moedinha. O que foi bem desagradável para mim – e imagino que mais para a Adriana – mas, convenhamos, ainda é infinitamente mais honesto que o método sérgio-buarquiano (assumido como galhofa ou não, mas quem está rindo?) que foi usado agora. Um abraço.

  • Claudio Soares 12/11/2008 at 10:05

    Daniel, saiba que esse tipo de ficção (a de “seres não imaginários”) é até uma tendência, já há algum tempo.

    Sérgio, infelizmente, sua decepção, a meu ver, era inevitável (“É preciso fé para acreditar na eficiência dos prêmios literários”, diz o próprio texto da Copa). Se não existem critérios de avaliação objetivos, cada um escolhe o seu, meu caro.

    Seria mais simples se ao avaliador fosse sugerido “leia o manual e siga as instruções” (que, em termos gerais, poderiam sim seguir os 5 tópicos que você lista em seu post).

    Desde a escolha dos livros, não existiu um critério científico, se não leiamos: “Dezesseis livros, escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros…” Também está lá no “Sobre a CLB”.

    E nem precisava, concordo com o Lucas, afinal, não esqueçamos: a Copa é apenas um jogo, e o esquema tático (a expressão é apenas ilustrativa, claro) era: “bem, pessoal, recebendo a bola, tentem resolver as partidas…”

    Mudando um pouco o rumo da prosa, outra coisa que me chama à atenção, nas últimas semanas, é a instituição na mídia de uma quase obrigatoriedade de que o livro de Tezza ganhe todos os prêmios literários instituídos no Brasil.

    Se alguém lá de Portugal chia, gritam: “cortem-lhe a cabeça!”; se o livro é preterido no Jabuti, gritam novamente apontando 10 dedos para os jurados, “cortem-lhes as cabeças!”

    Não quero acreditar que o autor, ele próprio, fique tão revoltado quando não ganha, sabe que isso faz parte do jogo da vida.

    Sejamos razoáveis. Muitos livros bons (e aqui, mesmo não desprovido de alguma lógica, não fujo à minha dose de subjetivismo) são escritos no Brasil e não chegam às prateleiras, jornais, logo, ao público e aos “prêmios”.

    Gostaria muito que as resenhas (caso não seja realmente uma peça ficcional do Sant’Anna, sério, ainda acho que o seja) fossem diferentes, que a qualidade e não o compadrio fosse o critério base, mas, em termos gerais, também não vejo nada que se aproxime disso por aí… (ah, esse maldito subjetivismo…, inclusive o que me escorre pelos dedos e aciona estas teclas…)

  • Sérgio Rodrigues 12/11/2008 at 10:56

    Claudio, nos desentendemos em alguns pontos, e aproveito para deixar bem claro: nunca cobrei nem cobraria “critérios científicos”, que até onde estou informado não existem na literatura. Os prêmios literários nunca foram “eficientes” (a não ser acidentalmente) e a Copa também não o seria. O que me decepciona no clima instalado lá, um clima que o texto-piadinha do AS agravou – sabe sala-de-aula-quando-o-professor-sai? – é que, como escreveu brilhantemente o Tiago A., a hora não é de piada. Vista como piada a literatura brasileira já é, pela maior parte do público. Ver alguém, com o apoio entusiástico de uma parcela dos comentaristas, dar uma de modernista enfezado com 85 anos de atraso para chutar um cachorro já se desfez em cinzas é, na boa, o fim da picada.

    Uma leitora lá me tresleu, como é habitual, e disse que eu estou buscando criar um consenso para o meu próximo livro (gargalhadas)!!! Como se pudesse existir – ou mesmo como se fosse desejável, o que não é o caso – consenso nesses assuntos. Critério cada um tem o seu, ainda bem. O que acho triste é que os critérios não sejam expressos num idioma comum, só isso.

  • Ernani Ssó 12/11/2008 at 11:08

    Sérgio, só pra dizer que compartilho tua preocupação e que assino tua carta. Abraço. Ernani Ssó

  • Eric Novello 12/11/2008 at 13:53

    IMHO, foi uma tentativa de fazer a resenha brilhar mais que os livros. Uma pena mesmo. Mas não dá para acertar todas… é só o segundo ano da copa, não é isso? Vivendo e aprendendo. É só ajustar um critério ou outro como “está proibido cara ou coroa e zerinho ou um” :). Infelizmente a gente só percebe alguns obstáculos quando já está em cima deles.
    Acho importantíssimo que a crítica recupere seu papel. Não de determinar a verdade absoluta, mas de colocar ordenadamente em um texto uma opinião de prós e contras, ajudar no processamento da informação, não deixar que ela caia no vazio. Sei que eu montei uma listinha de livros que deixaria passar se não fosse a Copa de Literatura!

  • Rafael Rodrigues 12/11/2008 at 14:06

    O problema, a meu ver, é que um dos pontos principais da Copa era mostrar, se é que não mudaram isso também, como funciona um prêmio literário em suas minúcias (nossa, falei certo? tanta gente falando bonito e cheio de pompa por aí que fico até com medo). Ou seja: mostrar porque tal livro foi escolhido e não o outro. Como boa parte das pessoas supõe, alguns jurados acabam favorecendo amigos, votando em livros que não leu e tal. A curadoria de um Portugal Telecom, por exemplo, não tem como controlar isso. Por isso é que colocam como jurados pessoas que têm uma certa reputação no meio. Mas, é claro, às vezes acaba acontecendo o voto por amizade. Acontece que, e isso eu pensei depois de ler o texto do Sant’Anna, pra quê isso, na Copa? Se quase todo mundo acha que tem voto por amizade no Jabuti, no PPT etc., a Copa não poderia ser um “prêmio” (entre aspas porque, pelo visto, os escritores participantes estão ganhando é dor de cabeça, bem como alguns jurados) que fugisse justamente disso? Ou seja: que fosse um torneio no qual os jurados escolheriam os livros que acharam melhores, fosse quem fosse o autor, com justificativas sensatas? Concordo com o Sérgio. Sobre a questão dos critérios, até o da moedinha tava valendo, no caso de um empate. Mas o “critério” do Sant’Anna é dose. E outra: esse negócio de “ah, o texto vale pelo debate que causou” é conversa fiada. Ou então, façamos assim: todo mundo sai falando os absurdos que quiser e vamos começar debater. Quer dizer, só se for debater como fizeram umas torcidas religiosas organizadas em Jerusalém, se não me engano.

  • Rafael Rodrigues 12/11/2008 at 14:12

    Ah, nossa, esqueci de falar sobre o Tezza: se ele ganhou o Jabuti e o PPT, certamente não foi por favorecimento. O cara competiu com os queridinhos-mor da literatura e do jornalismo não só do Brasil, mas também de Portugal. Então, mesmo eu não tendo lido ainda o livro dele, não tenho medo de afirmar que as conquistas foram mais que merecidas. O Tezza, me parece, não é escritor-de-brinquedo. O cara leva a sério o que faz.

  • Milton Ribeiro 12/11/2008 at 15:23

    A algaravia é tão grande lá que demorei a encontrar o Tiago A.

    Sim, é uma luz.

  • JULIO 12/11/2008 at 20:03

    ” Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.”

    Isso que você escreve deveria ser traduzido para todas as línguas do mundo. Parabéns pela inteligência e intensa verdade no que escreve.
    Meus alunos terão de ler isto.

    Júlio

  • André Sant'Anna 12/11/2008 at 21:15

    Sérgio, querido. A minha resenha não foi uma piada. Acho mesmo que a c’rítica literária brasileira carece de generosidade. Vocês, críticos sérios, passam a maior parte do tempo atacando as pessoas, procurando defeitos na obra dos outros. Creio que é para se sentirem importantes. A arte não é algo tão nobre assim. Já foi até, mas não é mais. E aqueles que querem alcançar uma posição “especial” na sociedade, fazendo arte, ou criticando arte, acabam sendo pernósticos a maior parte do tempo. Sim, não. é impossível dizer que um livro é melhor do que o outro. Mas ainda preciso entrar no site da Copa e ver o que está acontecendo. Mas fique tranquilo, querido, o seu livro é melhor do que o meu. Você ganhou de mim na Copa do ano passado. Com certeza, porque o juiz era alguém com critérios, muito diferente do juiz da fase seguinte, que eliminou o seu livro na fase seguinte e ainda deu uma sacaneada. De todo modo, não nasci para a crítica literária, embora eu tenha sido absolutamente sincero na minha resenha para a Copa. Mas continue lutando para salvar a arte…

    Abraço,

    André

  • Sérgio Rodrigues 12/11/2008 at 21:51

    André, que surpresa vê-lo por aqui, depois de sua longa e sentida ausência lá na Copa. Mas agradeço a visita e fico contente de ver que você está disposto a uma conversa, coisa que, desculpe, sua “resenha” não sugeria.

    Não sou um crítico sério, meu caro. Acho que sou considerado um cara sério, até meio sério demais, e certamente gosto de me ver como um escritor e jornalista sério, mas crítico não. Sou um blogueiro que sempre evitou falar dos livros de que não gosta – mesmo que isso limite terrivelmente meus temas, sobretudo quando se trata de literatura brasileira contemporânea. Mas é evidente que discordamos, isso sim: levo a literatura mais a sério do que você. Até aí tudo bem.

    Seriedade ou não, devo dizer que achei contraditório você pregar a generosidade e depois fazer ironia com o sucesso e o insucesso de nossos livros na Copa passada, coisas irrelevantes que eu tinha deixado quietas. O que isso tem a ver, me diz? Já que o assunto foi levantado, sou obrigado a dizer que concordo com o juiz daquela partida que você parece não ter engolido até hoje: também acho o meu livro melhor que o seu. Mas a verdade é que o meu também não é lá grande coisa, o próximo é melhor. Mesmo assim, conheço algumas pessoas que preferem o seu, e isso é bem bacana. O jogo é esse, os juízos são infinitos. O problema é não ter juízo nenhum.

    O que me decepcionou no seu texto – e quando falo em decepção existe aí um elogio embutido em forma de expectativa, caso você não tenha percebido – foi o pouco caso, o desprezo, o desrespeito que ele traduz por esse ofício de escrever, de ler. Agora me explica: se não era piada, André, era o quê?

    Ou não explique, tudo bem. Se aparecer lá na Copa e resolver responder a todos, você terá trabalho suficiente para os próximos dias. Entenderei se não sobrar tempo para o Todoprosa.

    Mais uma vez obrigado por aparecer. Pode deixar que continuarei lutando aqui no meu canto – em vão, provavelmente – pelas coisas em que acredito. Isso deve soar meio ‘corny’ aos ouvidos de quem chama os críticos de “esses filha da puta”, mas fazer o quê. Sem esse tipo de honestidade eu não veria graça na fantástica roubada em que escolhemos trabalhar.

    Um abraço.

  • Rafael Rodrigues 13/11/2008 at 01:40

    Sérgio, você vai me perdoar pelo trocadilho infame, mas o que é bem bacana é o paraíso, se ele realmente existir.

    Peço licença a André Sant’Anna para dirigir-lhe a palavra, já que não o conheço nem nunca tive contato com ele. André, a crítica não carece de generosidade. Os escritores contemporâneos é que sim. E carecem de qualidade também. Os críticos são generosos até demais. O que tem de livro-bomba sendo elogiado por aí não está no gibi. Acho que você está invertendo as coisas. A crítica literária brasileira, na minha humilde opinião, se não é benevolente demais (cadernos de cultura/suplementos literários/blogs literários), é complicada/hermética demais (acadêmicos). E, o pior, bem cegueta. Não consegue separar o joio do trigo nem achar alfinete em caixa de fósforo. Na verdade, não têm é paciência pra fazer isso. Aliás, acho que têm é muita preguiça. Poucos são os que se salvam.

    Os escritores fingem que escrevem algo que preste, a crítica finge que aquilo é bom, o leitor finge que gostou e danou-se. Poucos são os que levam a sério o que fazem, e foi justamente no calo desses que você pisou, com seu texto.

    Não sei se você fez isso por diversão ou se realmente tem contato com escritos que o fizeram enxergar as coisas do jeito que você dá a entender no seu texto, mas se aceita um conselho, tente mudar de ares. Ler coisas novas e tal. A crítica literária, quando é feita com responsabilidade e idoneidade, não traz lucro. Poucos são os que conseguem algum destaque, ou uma “posiçã ‘especial’ na sociedade”. Augusto Meyer, que estou descobrindo só agora, passou anos sem ser editado. José Castello encerrou a coluna “Cartas de um aprendiz” no Rascunho porque não aguentou a reclamação dos “jovens” autores.

    A literatura é a paixão de uma parcela pequena demais da sociedade. Inclusive, é uma paixão sua. Ela, coitada, não interfere em mais nada, só nas vidas de uns poucos que se dignam a escrever romances, críticar e ler livros por prazer. Concordo quando você diz que a arte não é tão nobre assim, que já foi mas não é mais. Mas do jeito que você falou, na Copa, foi um desrespeito, e isso não se pode fazer com a literatura – na minha opinião, claro.

  • ed 13/11/2008 at 11:46

    Há mais de um ano fui incompreendido aqui por criticar essa tal “copa”: http://breviario.org/sententia/2007/07/26/do-lat-cuppa/

    sempre achei o negócio uma pasmaceira, e só não falei mais nada acerca porque pessoas que respeito, como você, vez ou outra participavam de alguma forma, nem que por meio de comentários.

    este seu post me alivia.

  • Breno Kümmel 13/11/2008 at 18:03

    Eu concordo com o andré, esse negócio de críticos ficarem criticando não tem nada a ver…

  • Chico 13/11/2008 at 18:10

    Achei a resenha do rapaz, filho do Sergio, desrespeitosa sim, pois das duas uma, ou estou perdendo meu senso critico, ou dizer que ambos autores seriam tao bons que um autor poderia escrever o livro do outro, eh no minimo deselegante!!

    Se isso nao eh desrespeito a tese de que o inferno esta cheio de compassivos dotados das mais boas intencoes procede.

    E concordo plenamente com o Rafael, uma critica bem escrita pode dignificar uma obra e po-la para dialogar em seu tempo.

    A proposito, Sindico, cortou meu comentario? Nao entendi! Juro que eu tinha mandado um comentario ontem, mas posso ter teclado errado. Mas tudo bem, o teu 4 paragrafo eh mais ou menos o resumo do que eu disse e tenho dito.

  • Sérgio Rodrigues 13/11/2008 at 18:29

    Chico, nenhum comentário é cortado aqui, a não ser nos casos (raríssimos) em que eles incorrem no Código Penal. Mesmo assim, deixo lá uma frase comunicando a exclusão. O seu não chegou.

    Breno, cuidado: para usar ironia, segundo o Millôr, deve-se avisar com uma semana de antecedência.

  • Chico 13/11/2008 at 21:37

    Sindico, desculpe, nem devo ter mandado.

    [off topic]
    Mas nao me venha com essa coisa de Codigo Penal pra cima de mim, pois a minha mensagem poderia incorrer em falso testemunho, seguido de falsidade ideologica e apologia a violencia literaria critica. Alem do mais, usuarios literarios sao apenas usuarios, e suas acoes nao devem ser criminalizadas!

    Tendo minha indigancao verbalizada, advirto-o, inopinado Sindico, que com esse papo de Codigo Penal podes me complicar a vida ja que pesam sobre minhas costas toda a sorte de calunias.
    Atenciosamente, D. Dantas.

    [on topic] Acho que o Todo Prosa deveria subir na lata de oleo Mazzolla e liderar uma campanha contra a torpeza literaria e faco minha as palavras do Fred Kling, do Milton Ribeiro e do Rafael.

    Essa coisa de escritores jovens, nominadamente o Andre e o Mirisola, encherem paginas e paginas com estorias cheias de palavroes, pode ser interessante, pode teh ser engracado, quando o leitor sabe que o autor tem 19 anos e escreve bem com esses recursos, mas o que me desanima eh o fato de que entre os primeiros livros e os ultimos destes, frescos no prelo, nao ha diferenca estilistica. Imagino que muitos destes autores ja andem pela casa 85 anos, mas continuam escrevendo como se ainda estivessem publicando no jornalzinho do Centro Academico da faculdade. E isso eh fauvista, eh empobrecedor, eh dose, meu amigo. Dose pra liaun.

  • Rafael Rodrigues 14/11/2008 at 00:15

    Chico, rapaz, digo, D. Dantas! Manda uma graninha pra cá, o bicho tá pegando… hehehe

    Às vezes o comentário se perde mesmo. Já aconteceu comigo. Dou-te uma dica: antes de clicar em “enviar”, copia o comentário e salva em um documento de texto. E só deleta o .txt depois de conferir se o comentário foi ao ar!

    Sobre a campanha que você sugeriu, Chico, é uma boa. Mas não iria adiantar muito. Afinal, quem somos nós? Iriam nos chamar de românticos, puritanos – estou sendo otimista; iriam nos chamar é de coisa pior! Mas, enfim, sigamos adiante, tranquilos, sem se envolver demais com essas coisas, e deixemos os sabichões conversarem entre eles. Era o que eu deveria ter feito. Mas agora já comentei, fazer o quê.

  • kurtz 14/11/2008 at 13:01

    Sergio, estou curioso pra saber o que vc achou do estupendo “Cordilheira”.

  • Ademar Santos 14/11/2008 at 15:43

    André Santana escreveu:
    “é impossível dizer que um livro é melhor do que o outro.”

    Curioso ler tanta certeza da parte de quem louva o relativismo.

    Curioso.

  • Claudio Soares 14/11/2008 at 16:59

    Pessoal, escrevendo um artigo sobre o The Golden Notebook Project, um interessante projeto on-line sobre o romance de Doris Lessing (mais detalhes no PONTOLIT, basta clicar o link no meu nome), me deparei — olhem só que coincidência — com o prefácio deste livro (no Brasil, O carnê dourado), postado no blog Opiário, de Saint-Clair Stockler, comentarista aqui do TP.

    Vale a pena ser lido, por todos. O texto traz a visão de Lessing (e já lá se vão 46 anos) sobre “Essa triste altercação entre autores e críticos, dramaturgos e críticos…”.

    Forte abraço!

  • Sérgio Rodrigues 16/11/2008 at 00:50

    Kurtz, diferente de você, não vi nada de estupendo em “Cordilheira”. Mas é um livro interessante. Talvez escreva alguma coisa sobre ele em breve.

  • Clara 16/11/2008 at 02:35

    Puxa, a gente passa um tempo fora e quando volta, percebe que pedeu muita coisa interessante!

    Grande abraço,

    Clara

  • Pedro de Oliveira 16/11/2008 at 11:42

    Tá explicado, Fred. O problema é genético. Hitler adoraria tê-lo no time. Rá, te peguei!

  • fred 17/11/2008 at 11:58

    Cuma?

  • Eduardo 22/11/2008 at 21:58

    Excelente comentário, Sérgio, e citação. Fiquei aflito também com aquela resenha. Abçs – Eduardo

  • Ivan 11/12/2008 at 12:36

    Maravilhoso encontrar na internet uma verdadeira discussão a céu aberto… A crítica anda de pé quebrado sim, há uma promiscuidade enorme e nociva entre divulgação midiática e a leitura crítica, que antes de se querer generosa ou egoísta deve ser sagaz e rigorosa e deveria ser também um modo de se emprestar a linguagem do outro, dos Outros. Se a crítica se contenta em ser resenha rala o rebaixamento reflexivo está dado… Grande parte da crítica que circula em jornais hoje é constrangedora, leituras impressionistas e favoritismos, uma tristeza. Mas a literatura me parece numa situação não menos complicada, pois cada vez mais se subsume ao jogo das vaidades, e confesso, não suporto mais discursos de escritores literalmente pregando a humildade em entrevistas e falatórios narcísicos. Acho o André corajoso e acho contemporâneo no melhor sentido da palavra o seu modo de desmistificar o lugar do escritor, o que ao meu ver – discordo do Sergio – não significa não levar a literatura a sério, mas estabelecer com ela uma relação de conflito, menos sacralizante e ingênua, o que é me parece ser muito necessário hoje. Achei a premiação da Copa assim como o Prêmio São Paulo muito problemáticos. Um abraço a todos e bom fimd e ano.

  • nana 17/12/2008 at 22:06

    2. Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.

    Dá-lhe, Sérgio!!!

  • Lucas 23/12/2008 at 11:41

    Isso aí, galera!

    Continuem levando a literatura bem a sério.
    Mas só enquanto ela der dinheiro e popularidade.

    Na boa: fodam-se os escritores e as resenhas.

    “Amor”, do André, foi a melhor coisa que surgiu na prosa brasileira dos 90. Quem não leu, leia. e pare de encher o saco do cara.

    Minha resenha de “Amor” (Dubolso, 1997):

    “É um livro do caralho!”

    Lucas

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