Carta ao bisneto

16/06/2009

Meu querido Zeca,

Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar.

Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos.

Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil das letras, impõe-se-me o dever – e a suprema satisfação – de dar-te uns quantos piparotes à guisa de conselhos. Então, prepara o cocoruto, que lá vão!

Não te acanhes, não te deixes intimidar pelos caiporas. Põe de fora tua cabecinha sem temer a guilhotina, que à indiferenciação da malta mesmo o gélido fio da plaina é de preferir.

Cultiva teu pomar, mas evitando sempre o preciosismo, a pirotecnia de um Faetonte. O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta que, colhida, à palma da mão expõe o avesso pútrido. Lembra-te sempre: mais vale a expressão genuína, tosca eventualmente embora, do que lhe galopa n’alma, que o fraseado bem polidinho dos imbecis, ricamente ataviado mas oco.

Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!

Cedo descobrirás que não, a vida artística não tem a placidez de um lago suíço. Dá-se mesmo o inverso: um mar bravio é seu símile perfeito, vindo sempre aos borbotões, escouceando-se e rasgando no ar mil cristas ríspidas de espuma onde tua amada carne, ai de mim, há de lanhar-se inapelavelmente. Sofre, pois de não sofrer mais se morre, mas consola-te com o bálsamo da musa.

Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios.

Eis meu modesto legado, querido Zeca. Lá de onde eu estiver, estarei acompanhando cada um de teus passos, velando por ti, feliz de saber que a atemporalidade abençoada das letras concedeu-me, no fim da vida, lançar esta ponte sobre o abismo das épocas e me entender contigo, feito fôssemos dois estudantes noite adentro, ébrios de futuro, no idioma universal dos poetas.

Bastaria isso para justificar minha existência.

Do bisavô que te abençoa,

Demóstenes Bastião

29 Comments

  • Eric Novello 16/06/2009 at 12:31

    Bem sacado o jogo cultural, Sérgio.
    Gostei bastante. Abss!

  • Ernani Ssó 16/06/2009 at 14:05

    Esforços luso-parlatórios. Gozei.

  • Tomás 16/06/2009 at 15:00

    Gostei dos nomes que ficarão gravados “pela eternidade afora”, haha.

  • isaac 16/06/2009 at 16:29

    humberto campos é o horrível do horrível!!

  • Daniel Brazil 16/06/2009 at 21:29

    Faina inconsútil das letras?!? Eis o único ponto mal costurado deste belo e saudosista testamento. Muito bom!

  • Sérgio Rodrigues 16/06/2009 at 21:41

    Eric, Ernani, Tomás: valeu.

    Daniel: o que exatamente o incomodou em faina inconsútil (trabalho ininterrupto)?

    Abraços a todos.

  • will 16/06/2009 at 23:29

    Bloomsday !!!

    Abraço

  • Daniel Brazil 16/06/2009 at 23:41

    A idéia de perfeição, de coisa sem emendas, sem rasuras, sem costuras, que parece incompatível com a literatura. E a lembrança de Jorge de Lima, claro.

  • Sérgio Rodrigues 17/06/2009 at 07:02

    Pois é, Daniel, o inconsútil é figurado, qualifica a faina (sem trégua, sem interrupção) e não a literatura. Mas será que, se indicasse perfeição, seria o maior dos equívocos do velho Bastião?

  • Daniel Fernandes 17/06/2009 at 08:40

    “Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!”
    Sérgio esta frase está um primor, como diria o velho Bastião, supimpa mesmo. Adorei!

  • João Athayde 17/06/2009 at 08:53

    Grande Sérgio! O primeiro contato que tive com seus escritos foi através do conto A fruta por dentro, publicado na revista Piauí – li o texto de um só fôlego. Aí descobri seu blog, visita obrigatória todos os dias, assim que abro o computador. Por artes do sortilégio ganhei seu romance Elza, a garota – devorei-o numa sentada. Já estou providenciando as outras obras que você colocou na praça com a certeza de que sentirei o mesmo imenso prazer com a leitura. E lhe digo uma coisa, os contos que você disponibiliza no blog – entre outros inéditos, certamente – vão causar furor assim que forem enfeixados entre duas capas. Um abraço.

  • Daniel Brazil 17/06/2009 at 09:20

    Fez sentido, Sérgio. Vejo que você não dá ponto sem nó, mesmo em questões inconsúteis. Abraço!

  • Rodrigo O. 17/06/2009 at 14:30

    Só faltou dizer que Zequinha, ao término da carta, jogou-a numa gaveta sem nada compreender, apenas confirmando algo que já suspeitava há muito: a insanidade do avô.
    Daí foi teclar com colegas no MSN, relegando a carta ao esquecimento até que o tempo – ou o Aurério – possam-lhe explicá-la.

    Isso dava um romance.
    Excelente, como sempre, Sérgio.

  • Sal 17/06/2009 at 15:10

    Coisa linda de se ver…

    Caro Sérgio, sou leitor assíduo deste seu espaço, mas muito tímido e dotado de pouquíssimas luzes para enriquecê-lo com algum comentário.

    Só queria lhe dar os parabéns por esta pérola.

    um abraço,

  • Mr. WRITER 17/06/2009 at 17:39

    Sobrescritos para livro… já…

  • Sonia 17/06/2009 at 19:15

    Nabokov se gabava de conseguir mimetizar a prosa de qualquer escritor.

    Acho que tens futuro. Que tal sobrescritos mimetizando Henry James, Joyce, Euclides da Cunha, os cronópios de Cortázar…

    Amo muito os sobrescritos!

  • Rui 17/06/2009 at 19:19

    Sergio: o que exatamente o incomodou em faina inconsútil (trabalho ininterrupto)?

    Brazil: a preguiça de consultar um dicionário.

  • Flora de A Favorita 17/06/2009 at 20:33

    Mais sobrescritos.
    Eu quero MAIS sobrescritos.

  • Noga Lubicz Sklar 17/06/2009 at 22:18

    Sérgio, desculpe a confessa ignorância de Google, mas… Camilo, o inigualável? É quem, mesmo?
    Fora isso, gostei. Deu frase do dia: “A vida artística não tem a placidez de um lago suíço”, grande verdade disfarçada de aforismo. Ontem mesmo eu tentava explicar isso ao meu irmão engenheiro.
    .

  • Daniel Brazil 18/06/2009 at 00:07

    Pobre Rui…

  • Ernani Ssó 18/06/2009 at 08:34

    Pobre Camilo…

  • Maria Cristina 19/06/2009 at 17:25

    Olá,

    Como outros que, afetados por esse texto, se resolveram a comentar, sou leitora assídua, e etc.
    Para mim, é principalmente do amor que fala esse sobrescrito. Muito bom!!! o afeto se comunica e prevalece ao estranhamento com a linguagem.
    Ao lado do amor, o humor: “O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta ..” é muito engraçado!! Seria uma ironia do autor ou um exemplo de relativismo?

    Adorei!
    Um abraço!

  • Trentini 19/06/2009 at 17:33

    Dos melhores, Sérgio. E aumento o coro: já é hora de esses sobrescritos serem escritos sobre papel.

    Noga, meu irmão engenheiro sabe quem é o Camilo referido.

  • Noga Lubicz Sklar 20/06/2009 at 08:39

    O curioso é que em resposta à minha cândida confissão de não saber quem é Camilo, uma lacuna, claro, inaceitável n’alguém que se pretende escritora — “a nível” de desculpa eu poderia deplorar o ensino básico das letras lusas no Brasil, já que, vamos combinar, não sou exatamente uma “iletrada ignorante” e até me arvoro em público de especialista em Joyce, imaginem — ninguém, nem uma só alma piedosa foi generosa a ponto de dizer simplesmente, Camilo é tal e tal. Por que será, hein? Não seria bem mais simples?
    Ah, tá bom. Pior a emenda que o mal soneto, deixa quieto que é melhor.

  • Ernani Ssó 20/06/2009 at 10:24

    Que o mau soneto.

  • Sérgio Rodrigues 20/06/2009 at 13:35

    Noga, desculpe não ter levado a sério sua dúvida, achei que era só ironia. Bastião está falando de Camilo Castello Branco, escritor português que por muito tempo foi considerado um modelo de estilo e que hoje ninguém mais lê. Convém ler o “inigualável” com o distanciamento recomendado pela “imortalidade” dos outros nomes que ele cita.

    Aos leitores do Todoprosa em geral e especialmente aos que gostaram deste Sobrescrito, tenho o prazer de anunciar que a seção já está em processo de migração para o papel, com lançamento agendado para o segundo semestre. Darei mais notícias em breve.

    Abraços a todos.

  • Noga Lubicz Sklar 20/06/2009 at 18:26

    Tá certo, Ernani, obrigada pela correção: mau soneto; e Sérgio, obrigada também, é nisso que dá a constante ironia, não? Ou seria o contrário? rsrs.
    Pelo menos rendeu assunto, isto é, post.
    Quanto ao coment aí de cima não faço ideia de quem enviou, não fui eu, viu?
    Assunto encerrado. E parabéns pelos “Sobrescritos” em papel, boa notícia.

  • EMANUELLA 30/10/2014 at 14:12

    Olá pessoal.

    Preciso saber o significado de PARCAS PEPITAS nesse texto. Pois estou fazendo um trabalho do meu curso de português e não consigo encontrar as duas palavras juntas.
    Obrigada a quem puder me ajudar.
    Oi, Emanuella. Pepitas, como você deve saber, são pedrinhas de metal em estado natural, especialmente de ouro. “Parcas” quer dizer escassas, poucas. As “poucas pedrinhas de ouro”, na carta do velho, são uma metáfora da sabedoria que ele acumulou ao longo da vida. Boa sorte com o trabalho!

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