Curiosidades etimológicas: Escambau
A palavra é... / 24/04/2010

O leitor Igor Felipe, do Recife, gostou da palavra “escambau”, que usei outro dia, e pergunta por seu “significado e origem”. “Desde pequeno escuto essa palavra mas só descobri sua grafia na sua coluna”, diz Igor, acrescentando já ter visto por aí as formas “iscambau”, “uscambau” e “scambau”. “Escambau” – grafada assim nos dicionários – é uma das minhas gírias antiguinhas de estimação. Leva a data de 1950 no Houaiss, mas tem o misterioso poder de conservar um certo frescor. Não faz o falante parecer recém-saído de uma câmara criogênica, como ocorre com “jóia”, “brasa”, “bokomoko”. O sentido de “o escambau” é, como se sabe, “mais um monte de coisas” – uma espécie de “etc.” menos formal e mais enfático. Também é possível encontrar a palavra, com menos freqüência, num papel que costuma ser assumido por palavrões. Exemplo: “Ingênuo, eu? Ingênuo é o escambau!” Sua origem é controversa, mas a tese que soa mais plausível deriva a palavra de “cambada” (porção de coisas, cambulhada). O Houaiss, sempre ele, explica como isso teria ocorrido: “com alteração de sufixo para -al, ‘grande quantidade’, e depois grafado com -u, seguindo a pronúncia do -l final, predominante no Brasil”. Publicado no “NoMínimo” em 28/8/2006.

Curiosidades etimológicas: Aloprado
A palavra é... / 17/04/2010

“Aloprado” é uma palavra exclusiva do português brasileiro que quer dizer “amalucado, desatinado” ou “agitado, inquieto”. Vem de “lorpa”, termo que, como “pascácio”, é hoje pouco usado mas designa com eloqüência cômica um idiota, imbecil, palerma. De “alorpado”, apalermado, se fez “aloprado” por meio de uma operação lingüística conhecida como metátese, que consiste no deslocamento de fonemas ou letras dentro de uma palavra. Esse deslocamento pode ser produzido deliberadamente por um autor em busca de efeito poético – como Camões ao escrever, nos Lusíadas, sobre “ventos contrairos” – ou ser um trabalho anônimo de gerações de falantes, como o que transformou “desvariar” em “desvairar”. “Aloprado” está no último caso. Publicado no “NoMínimo” em 26/9/2006.

Curiosidades etimológicas: Cachê
A palavra é... / 10/04/2010

A consulta vem do leitor Olney Figueiredo: Dá pra explicar o motivo do uso de “cachê” (do francês, “oculto”) como forma de pagamento de artistas? Na verdade, nosso cachê foi importado do francês cachet, que não guarda relação com o verbo cacher, “disfarçar, dissimular, esconder”. Embora possa sugerir a imagem de um pagamento envergonhado, feito na moita, o cachê não tem nada a ver com isso. A palavra cachet, cujas acepções mais antigas são “sinete, carimbo, selo”, acabou adquirindo em francês o sentido, entre outros, de remuneração dada a um artista por cada uma de suas apresentações. O caminho que percorreu para chegar a esse ponto incluiu carnês – carimbados, claro – que iam sendo destacados a cada pagamento. Publicado no “NoMínimo” em 11/9/2006.

Curiosidades etimológicas: Smoking
A palavra é... / 03/04/2010

A palavra smoking, nome daquele traje masculino formal, tem uma história curiosa. Nos EUA, onde a coisa foi inventada há 124 anos ao se suprimir a cauda do fraque, o nome da roupa é tuxedo – porque era esse o nome do clube em que foi lançada. Na Inglaterra, é dinner jacket. De onde terá saído o smoking? Veio da expressão smoking jacket, algo como “traje de fumar”. O processo de importar do inglês um adjetivo e tratá-lo como se substantivo fosse é manjado, o mesmo que deu em shopping e outdoor. Mas smoking tem algumas peculiaridades. Em primeiro lugar, smoking jacket, um estranho traje que fez sucesso na Inglaterra vitoriana, não tem nada a ver com o que hoje chamamos de smoking. Lembra mais um robe de chambre curto, com gola e punhos acolchoados. Era usado por fumantes de charuto e cachimbo para proteger a roupa do cheiro de tabaco. Por que se tomou o nome smoking jacket para nomear uma roupa muito diferente é matéria de especulação, mas tudo indica que o mal-entendido – ou coisa que o valha – aconteceu primeiro na França. O primeiro registro desse uso data de 19 de julho de 1890, na revista…

Curiosidades etimológicas: Biquíni
A palavra é... / 27/03/2010

Para se ter uma idéia de como mudou a cabeça da humanidade sobre armas nucleares: há mais de 60 anos, em julho de 1946, o primeiro teste nuclear americano no Atol de Bikini, no Pacífico – o primeiro realizado debaixo d’água – soava tão glamouroso que o lugar batizou uma escandalosa novidade adotada pelas banhistas da Riviera francesa pouco tempo depois. Não é provável que “Coréia do Norte” tenha destino sequer vagamente semelhante. Ah, claro: o poderio – econômico, militar, pop – de quem aperta o botão do detonador também conta um pouquinho. Publicado no NoMínimo em 9/10/2006.

Curiosidades etimológicas: Espinafrar
A palavra é... / 20/03/2010

A amiga Marina Lemle pergunta como e por que “espinafrar” virou, na linguagem informal brasileira, sinônimo de repreender duramente, passar uma descompostura em alguém, ou ainda criticar de forma arrasadora. O que o inocente espinafre, verdura imortalizada pelo marinheiro Popeye e tão valorizada pelas mamães, tem a ver com isso? Segundo o etimologista Silveira Bueno, nada. Vejam o que ele diz sobre espinafrar: “Palavra da gíria onde entra a idéia de espinho, na forma espina, sendo obscura a segunda parte frar. Nada tem com espinafre”. Mas tudo indica que Silveira Bueno se enganou. O próprio sentido que ele atribui ao verbo, o de “amolar, apoquentar, massar, irritar”, não bate bem com o que se encontra em outros dicionários. Houaiss e Aurélio concordam que espinafrar deriva mesmo de espinafre, e o primeiro registra uma curiosa acepção portuguesa que bem pode ser a explicação que faltava para o sentido da gíria brasileira: “tornar(-se) semelhante ao espinafre”. De fato, segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, “espinafrar” nasceu com um significado preciso: “Fazer ficar ou ficar alto e magro como um espinafre”. Diz-se, por exemplo: “Sabe aquele rapaz? De um ano para cá, espinafrou”. Nenhuma relação com a gíria brasileira, como…

Curiosidades etimológicas: Chiste
A palavra é... / 13/03/2010

O leitor Alexandre Telles pergunta pela origem da palavra “chiste”, que quer dizer gracejo, dito espirituoso, piada curta. Segundo o Houaiss, o termo foi importado do espanhol chiste, forma regressiva do verbo chistar. O curioso é que a formação de chistar parece ser onomatopaica, ou seja, imitativa do som – não é gratuita, portanto, a semelhança sonora de “chiste” com a interjeição “psit”. Chistar é, na origem, “falar em voz baixa, sussurrar gracejos”. Embora tenha nascido ao pé do ouvido, o chiste já não guarda esse caráter de cochicho – “cochicho” que também é uma onomatopéia. Publicado no NoMínimo em 28/11/2006.

Curiosidades etimológicas: Gringo
A palavra é... / 06/03/2010

Gringo é um termo de conotações pejorativas que os mexicanos, no século XIX, tornaram praticamente sinônimo de americano. Nem sempre foi assim. “Gringo” é uma variação do espanhol griego, “grego”, e surgiu na Espanha – consta que primeiro em Málaga, depois em Madri – para designar de forma jocosa qualquer estrangeiro que falasse “enrolado”, especialmente os irlandeses. Vê-se entre nós a permanência da idéia do grego como algaravia na expressão “falar grego”, que significa “expressar-se de forma ininteligível”. Um provérbio latino medieval está na origem de tudo isso: Graecum est; non potest legi, ou seja – “É grego; não se consegue ler”. A origem espanhola da palavra está registrada no Diccionario Castellano, de P. Esteban de Terreros y Pando, publicado em 1787. Muitas décadas, portanto, antes da guerra entre México e EUA (1846-1848) em que “gringo” se firmou no Novo Mundo. Segundo o Merriam-Webster, o verbete de 1787 desmente uma lenda etimológica de ampla circulação, a de que o termo teria nascido de uma canção escocesa tradicional que os soldados americanos cantavam na guerra contra os vizinhos do Sul, “Green Grow the Rashes, O!”. Isso teria levado os mexicanos, interpretando ao seu modo as duas primeiras palavras do verso de…

Curiosidades etimológicas: Presepada
A palavra é... / 27/02/2010

Sempre me intrigou que o presépio, singela representação do nascimento de Jesus Cristo numa estrebaria, tenha tido na língua brasileira filhotes pejorativos como “presepada” (palhaçada) e “presepeiro” (fanfarrão). Vinda do latim praesepium, que quer dizer apenas curral, cercado onde se guardam animais, a palavra “presépio” existe no português desde o século XIV, com sentido exclusivamente religioso. Quem passa mais perto de uma explicação é o etimologista Silveira Bueno. Depois de afirmar que a tradição do presépio foi iniciada por São Francisco de Assis, ele registra no verbete “presepista”, sinônimo menos comum de presepeiro, que a palavra se aplica tanto a quem monta presépios quanto aos “farsantes que tomavam parte nos autos de Natal”. Isso joga uma luz nova sobre uma das acepções de “presepada” no Houaiss: “espetáculo ridículo”. A péssima qualidade dos atores dos presépios vivos, seus prováveis maneirismos, para não mencionar a cenografia e os figurinos toscos – tudo isso pode ter criado as condições para o nascimento de “presepada”. Publicado no “Nomínimo” em 22/12/2006.

Curiosidades etimológicas: Ianque
A palavra é... / 20/02/2010

Yankees, go home! Hoje usada indiscriminadamente, e muitas vezes com sentido negativo, como sinônimo de nativo dos EUA, yankee é, curiosamente, uma das palavras mais misteriosas da língua inglesa. Ninguém sabe de onde veio, embora ao longo da história não tenham faltado teses etimológicas – algumas cômicas. Acredita-se que, de início, yankee (que aportuguesamos com a grafia “ianque”) era um termo usado pejorativamente pelos holandeses de Nova York para designar os habitantes de Connecticut. Em seguida, os colonizadores britânicos o adotaram como sinônimo de qualquer colono americano. Em sinal de desafio, mais tarde foi o pessoal da terra que reivindicou orgulhosamente o nome, num percurso semelhante ao cumprido pela palavra “brasileiro”, que de início também tinha conotações depreciativas. Hoje, os dicionários nos informam que o sentido mais restrito de “ianque” é habitante da Nova Inglaterra, na região Nordeste dos EUA, que inclui entre outros o referido estado de Connecticut. Na Guerra de Secessão, porém, ianques eram todos os nortistas – que venceram. Isso significa que, numa das acepções restritas da palavra, o texano Bush não era exatamente um deles. Mas faz tempo que qualquer americano é chamado de ianque. Confuso? Ainda não vimos nada. Segundo o Merriam-Webster etimológico, em que…

Curiosidades etimológicas: Gandaia
A palavra é... / 13/02/2010

“Gandaia” – vadiagem, esbórnia, orgia, pândega, bandalha, folia – é palavra antiga e misteriosa. O Houaiss registra duas teses principais sobre sua origem: Bluteau (1713) registra assim: “Gandaya, Gandáya (como quando se diz) Andar à gandáya. He andar buscando no lixo, & nas enxurradas, ferrinhos, & outras cousas, que a agoa leva”. E ainda: Corominas, s.v. gandaya ‘especie de redecilla para el cabello’, ‘tuna, vida holgazana’, dá como do cat. gandalla, de igual sentido, “probablemente porque los bandoleros catalanes de los SS. XVI y XVII llevaban el cabello recogido com gandalla“, acrescentando que o étimo é incerto… (Legendas: D. Raphael Bluteau é autor do clássico “Vocabulario Portuguez e Latino”, publicado de 1712 a 1720; Joan Corominas é um importante filólogo catalão do século XX; redecilla é “redezinha”; tuna, vida holgazana, “vadiagem, vida folgada”.) Silveira Bueno dá crédito a Corominas. Antônio Geraldo da Cunha se cala. O Houaiss acrescenta que Nei Lopes, paladino da ascendência africana de palavras duvidosas, sugere origem banta. E Antenor Nascentes, depois de registrar teses variadas – inclusive a que deriva a palavra do árabe gandur, “peralta” – aumenta o volume do delírio: Candaya será, quem sabe?, uma aproximação arbitrária da Catai misteriosa e desejada, e coloca-se…

Curiosidades etimológicas: Arco-da-velha
A palavra é... / 06/02/2010

O leitor Daniel Brazil pergunta de onde vem o arco-da-velha, hoje presente quase exclusivamente na expressão “do arco-da-velha”, que significa “inacreditável, inverossímil, fantasioso”. Bem, arco-da-velha é simplesmente um dos nomes tradicionais do arco-íris. É sinônimo de arco-da-aliança, arco-celeste, arco-da-chuva e arco-de-deus. Como todos esses termos, anda em desuso. E por que da velha? O que uma senhora idosa tem a ver com o bonito fenômeno meteorológico? “Ainda não se deu explicação suficiente”, anota o filólogo Silveira Bueno, para em seguida apresentar uma explicação: “A maioria pensa que seja em referência do fato bíblico: após o dilúvio, quando Noé oferecia um sacrifício a Deus, apareceu o arco-íris, sinal do termo da velha aliança e do começo da nova aliança”. Embora no cristianismo, diferentemente do que afirma Bueno, a expressão “nova aliança” seja empregada em relação ao Novo Testamento (a de Noé era, portanto, a velha), é verdade que as alianças referem-se aos pactos que, segundo as Escrituras, Deus estabelece com os mortais. Registre-se que arco-da-aliança é um dos sinônimos de arco-da-velha. Quanto ao sentido de coisa inverossímil, fantástica, bem – mesmo que se deixe de lado a própria história de Noé, o arco-íris, com sua beleza impalpável e fugaz, sempre se…

Curiosidades etimológicas: Xará
A palavra é... / 30/01/2010

O leitor Sérgio Luiz Fernandes pergunta: Caro xará, qual a origem desta palavra para designar alguém com o mesmo nome? Parece não haver dúvida de que o brasileirismo “xará” vem do tupi. Os filólogos Antônio Geraldo da Cunha e Silveira Bueno concordam nisso, embora apresentem notações um pouco diferentes: xa’ra, de xe rera, “meu nome”, de acordo com o primeiro; e che-rera-á, “o que é tirado do meu nome”, nas palavras do segundo. Detalhes que não alteram a substância. Publicado no “NoMínimo” em 9/3/2007.

Curiosidades etimológicas: Alho-poró
A palavra é... / 16/01/2010

Alho-poró é um eufemismo que parece ter conquistado a preferência dos falantes brasileiros. Acontece que porro e alho-porro, formas tradicionais de chamar em português a erva Allium porrum ou ampeloprasum, ganharam ressonâncias desagradáveis pela associação com “porra”. Uma associação que, longe de ser fortuita, vai fundo na história das palavras. Segundo Corominas, o filólogo eminente, tudo começou no latim, quando o alho-porro emprestou seu nome em caráter adjetivo a um tipo de maça (arma, porrete) com cabeça redonda e haste alongada, lembrando o formato da apreciada erva: a maça virou porrea, de porrum (alho). Pois é essa porra-clava, mãe do diminutivo porrete, que vamos encontrar na boca de Bocage no fim do século 18 significando um tipo bem específico de cacete: o membro sexual masculino (“Que esse monstro, que alojas nos calções,/ É porra de mostrar, não de foder”, versejou Manuel Maria, o desbocado). Só mais tarde “porra” se tornaria uma palavra-ônibus de largo emprego, inclusive como interjeição e pontuação enfática. Mas será que veio por essa via bocagiana, numa espécie de expansão, digamos, ejaculatória, a acepção – brasileiríssima – de esperma? Ou fará algum sentido a tese, citada por Márcio Bueno em “A origem curiosa das palavras” (José Olympio),…

Curiosidades etimológicas: Degringolar
A palavra é... / 09/01/2010

Parece gíria de malandro da Lapa carioca, talvez dos anos 20 do século passado, não parece? Alguma coisa com “gringo” no meio. Não é nada disso. O verbo – que quer dizer, como se sabe, “decair, desandar, deteriorar rapidamente” – é importado em linha direta do francês dégringoler, que por sua vez, ensina o Houaiss, saiu do holandês kringeln, “cair em círculo”. Tudo muito tradicional e, sim, globalizado: o inglês foi buscar na mesma fonte o substantivo – pouco usado, mas por isso mesmo expressivo – degringolade, “declínio rápido, colapso”. Tradução óbvia, e nesse caso também a mais correta: degringolada. Pronto, o mundo já pode degringolar em uníssono. Publicado no “NoMínimo” em 12/12/2005.

Mais uma curiosidade etimológica: Testa
A palavra é... / 21/12/2009

Do latim testa, vaso de barro cozido, a testa é uma urna de argila. A testa é uma talha para vinho – apropriada, esta. A testa é também tijolo, ladrilho, telha, ou seja, a casca, o casco, a crosta. A escama. A carapaça, eis a testa. A concha. Lá dentro da concha-testa, o bicho dorme. Acorda, bicho-da-testa. Segunda-feira é fogo. Publicado no “NoMínimo” em 9/4/2007, que também caiu numa segunda-feira.

Curiosidades etimológicas: Despautério
A palavra é... / 19/12/2009

Etimologia pitoresca e sóbria ao mesmo tempo: despautério provém de “Despautère, nome afrancesado de J. van Pauteren, ou talvez latinizado Despauterius (gramático flamengo, 1480?-1520), cuja obra Comentarii gramatici (1537), confusa e rica de dislates, foi muito difundida na Europa entre os sXVI-XVII”. Tá no Uais. Despautério era um gramático cretino, gostei de saber disso. Depois, consultando Silveira Bueno, descubro que Despautério talvez não tenha sido o bobo da corte dos gramáticos que imaginei a princípio. SB cita a Larousse: “Embora difuso, obscuro e cheio de declamação, (Despautère) gozou de não pequena voga até que foi destronado pela Gramática, muito mais simples, de Lhomond”. Despautério não falava despautérios, afinal? Era apenas verboso, talvez meio obtuso, mas chegou a fazer sucesso em seu tempo? Nesse caso, quando terá surgido no caminho da palavra seu sentido tão agudo de disparate, de absurdo, do que não tem cabimento? Publicado no “NoMínimo” em 10/11/2005.

Curiosidades etimológicas: Furacão
A palavra é... / 12/12/2009

A palavra “furacão” descende do espanhol huracán, que por sua vez veio do taino, língua indígena antilhana. De huracán saíram também o inglês hurricane, o francês ouragan e o italiano uragano. No entanto, como traçar a origem de uma palavra nunca dá conta de toda a sua riqueza, o Houaiss anota sabiamente que “a forma portuguesa acusa desde o início um alto grau de motivação expressiva”. Motivação expressiva? Isso. Furacão. Fúria do Cão. Publicado no “NoMínimo” em 31/8/2005.

Curiosidades etimológicas: Corrupção
A palavra é... / 05/12/2009

Antes de designar a venda ilegal de favores por representantes do poder público, corrupção é deterioração, decomposição física, apodrecimento. “Corrupto” vem do latim corruptus, particípio de “corromper”: é o corrompido, o podre, o que se deixou estragar. Como se vê, nossa linguagem condena a corrupção com uma veemência muito maior do que seria de esperar numa sociedade inclinada a pagar a cerveja do guarda sem pensar duas vezes. Pior: a palavra pode nos induzir ao erro quando dá a entender que a prática é uma espécie de acidente ou queda, desvio lamentável num caminho feito para ser reto e solar. E se ela estiver mais próxima de ser um sistema? Publicado no “NoMínimo” em 27/5/2005.

Curiosidades etimológicas: Escroque
A palavra é... / 28/11/2009

O leitor José Luiz Fonseca escreve para falar de sua curiosidade sobre a palavra “escroque”, que, como ele diz, “no meio dessa crise, vejo toda hora aparecer nos textos”. De fato, escroque – “indivíduo que se apodera de bens alheios por manobras fraudulentas”, segundo o Aurélio – não é artigo que ande em falta. O Houaiss informa que a palavra, vinda do francês, chegou por aqui oficialmente em 1914. Foi naquele ano que a revista “Fon-Fon” empregou o termo pela primeira vez – ainda com a grafia “escroc”, que só seria adaptada para a atual duas décadas mais tarde. O francês, por sua vez, tinha ido buscar a palavra no italiano scrocco, “golpe, calote”. Como se percebe, “escroque” nada tem a ver, etimologicamente, com “escroto”, que numa acepção bem brasileira serve para qualificar aquele ou aquilo que é ruim, feio, mau-caráter, de mau gosto etc. Acontece que a etimologia não explica tudo. É provável que as semelhanças sonoras e semânticas entre as duas palavras tenham contribuído para que prosperasse entre nós o velho galicismo da “Fon-Fon”. Publicado no “NoMínimo” em 26/8/2005.

Curiosidades etimológicas: Chulé
A palavra é... / 21/11/2009

Quem se divertiu com a embrulhada do forró, que teria vindo mas não veio de for all, como muita gente – inclusive gente professora – acredita e repete por aí, vai gostar dessa: chulé viria de shoeless (descalço). Um achado digno de rivalizar com o for all but dogs (para todos, menos cachorros) que um leitor pôs na roda para dar conta de forrobodó – palavra bem anterior à Segunda Guerra, do repertório de Chiquinha Gonzaga, o que liquida a tese da influência americana de for all: pode-se afirmar com segurança que forró é a forma reduzida de forrobodó, baile, furdunço. A teoria shoeless já foi desmentida em três golpes firmes pelo bom professor Cláudio Moreno em sua coluna (vai nas minhas palavras): o termo “chulé” nomeia um fato universal e ancestral; existe em português desde quando a influência do inglês sobre nosso idioma era muito pequena; não tem a menor correspondência de sentido com shoeless, que em sua língua significa apenas descalço – nada a ver com o olfato. O trabalho de demolição foi bem feito por Moreno, mas talvez tenha faltado dizer que, diante de for all, shoeless leva pelo menos uma vantagem: não há etimologia sólida a…

Curiosidades etimológicas: Puxa!
A palavra é... / 14/11/2009

Todo mundo pode falar “puxa!”. Tem ótimo trânsito na família brasileira essa interjeição, faz tempo que vem se perdendo nela a memória da puta. Puxa vida! Vida cadela! Está no Houaiss: puxa, “forma eufemística do substantivo puta, tomada de empréstimo ao espanhol pucha (c1500) ‘eufemismo por puta; interjeição de surpresa, desgosto etc.’” Puxa é como cacilda, caramba, caraca, tabuísmos atenuados. De todos eles, é provavelmente o que disfarça melhor a sua origem. Não para Glauco Mattoso, que não tem dúvida sobre ela em seu bilíngüe “Dicionarinho do palavrão & correlatos” (Record): manda direto de Puxa!, Puxa vida! para Puta merda!, e traduz para o inglês: “Hell’s bells! Hot damn! Holy shit! Holy fuck! Holy cow! Fuck a duck!”, e por aí vai. Mas puxa é diferente, todo mundo fala. Confunde-se com o verbo puxar, parece uma interjeição inocente. O Houaiss informa que Antenor Nascentes e Cândido Jucá brigaram pela grafia pucha, “mais consentânea com o étimo”, mas perderam. Ainda bem. Curioso: de poxa, que o dicionarinho do poeta Glauco não registra, os dicionarões dizem apenas isto: o mesmo que “puxa”. Nem uma palavra sobre a óbvia mudança de palavrão que a troca de vogal provoca. Publicado no “NoMínimo” em 16/5/2005.

Curiosidades etimológicas: Hipócrita
A palavra é... / 07/11/2009

Recuando na história da palavra, vamos encontrar um parentesco entre o hipócrita (falso, dissimulado) e o adivinho grego, o hupokrites. De início, a palavra que hoje parece feita sob medida para letras de bolero designava um intérprete de sonhos, profeta ou vidente; em seguida, passou a nomear um ator, um comediante; por fim, o mentiroso genérico. De todos esses sentidos, o que transbordou para diversas línguas modernas, por meio do latim, foi o último. Mero acaso? Ou será que a denúncia da falsidade que acabou prevalecendo em “hipócrita” se deve a uma progressiva desilusão – ou tomada de consciência, chamem como quiserem – da espécie humana ao longo da História, desde a crença cega em oráculos até o ceticismo que hoje exercitamos diante da TV Senado? Publicado no “NoMínimo” em 19/8/2005.

Curiosidades etimológicas: Bonito
A palavra é... / 31/10/2009

A história da palavra “bonito” prova que tem raízes mais fundas do que se imagina a identificação entre as idéias de beleza e bondade, que num exame superficial talvez tenhamos a tentação de atribuir a uma “ditadura estética” inaugurada pela cultura de massa e cujos arquétipos poderiam ser dois personagens de velhos filmes de faroeste: o mocinho de traços finos e o bandido abrutalhado com uma cicatriz na cara. No entanto, depois de descontados os contrabandos raciais com que o cinema americano temperou a seu modo o paralelo entre beleza e bondade (olhos azuis para cá, negros para lá), as idéias continuam de mãos dadas. A palavra “bonito” chegou ao português no século 16. Descende do latim bonus (bom), provavelmente depois de uma tabelinha com o espanhol bueno, do qual tomou emprestado o diminutivo. Em resumo: bonito, na origem, é bonzinho. E para não deixar dúvida alguma no ar, “belo” vem do latim bellus, também diminutivo de bonus. Publicado no “NoMínimo” em 30/8/2005.

Curiosidades etimológicas: Garnisé
A palavra é... / 24/10/2009

O nome desse galináceo pequeno e invocado, reizinho dos quintais de todo o país, de agitação inversamente proporcional à estatura, é um tributo ao cruzamento de culturas como forma de enriquecimento da língua. Pega bem lembrar a história do garnisé nesses tempos bicudos, quando anglicismos de todos os formatos vêm cantar de galo em nosso terreiro e dão a tanta gente a sensação apocalíptica de que o inglês, apesar das esporadas do Itamaraty, vai matar a galinha dos ovos de ouro da língua. Calma, pessoal. O nome do garnisé, de sonoridade brasileiríssima, vem da ilha britânica de Guernsey, de onde foram importados os primeiros exemplares desses galinhos, no século 19. Quer dizer: no fim dá certo, é só não desesperar. Publicado no “NoMínimo” em 25/1/2005.

Curiosidades etimológicas: Esculachar
A palavra é... / 17/10/2009

“Esculachar”, um dos verbos centrais da linguagem bandida de hoje, significa, como se sabe, baixar o cacete. Seu charme marginal lhe garante presença no vocabulário de um grande número de falantes urbanos, especialmente jovens. A maioria nem deve imaginar que se esculacha no Brasil faz tempo. Tudo indica que a palavra nos chegou com os imigrantes italianos no início do século 20. Sculacciare vem de culo e quer dizer dar palmadas na bunda, especialmente de crianças. Entre nós, teve seu sentido ampliado para se tornar, ao longo de quase todo o século passado, o verbo mais expressivo para a ação de repreender de forma violenta ou grosseira. Fazia tempo que o esculacho andava fora de moda: nas últimas décadas foi perdendo a preferência dos falantes para o esporro. O mais interessante é que volta à cena assumindo um significado mais próximo do original, ligado à violência física, do que daquele que por muito tempo foi o mais corrente. Algumas palavras hibernam. Publicado no “NoMínimo” em 11/8/2005.

Curiosidades etimológicas: Luau
A palavra é... / 12/09/2009

O leitor Aian Cotrim tem uma dúvida de grafia que qualquer dicionário poderia ter sanado. Mas vale a pena falar um pouco sobre a história da palavra “luau”. Caro Sérgio, nessa semana travei uma discussão com colegas da faculdade sobre a grafia correta de uma palavra: é ‘luau’ ou ‘lual’? Defendi com todas as minhas forças a opção ‘luau’ por achar as vogais mais características da nossa lingua, porém não tenho qualquer fundamento mais organizado para embasar minha resposta. Espero que você possa responder a minha pergunta. Aian acertou, mas pelas razões erradas: “nossa língua” não tem nada a ver com isso. Provavelmente devido ao fato de “luau” ser uma festa praiana de estilo havaiano que ocorre à noite, muita gente acha que a palavra tem alguma relação com “lua”, “luar”. A pista não poderia ser mais falsa. “Luau” vem do havaiano lu’au, que, antes de nomear por extensão também a festa, era apenas o nome de um prato típico servido nessas celebrações – folhas de taro, um tipo de inhame, cozidas com leite de coco. Publicado no “NoMínimo” em 16/4/2007.

Curiosidades etimológicas: Subornar
A palavra é... / 05/09/2009

Subornar vem de sub + ornar. Ornar deriva do latim ornare – “fornecer, equipar, armar, aparelhar, preparar, embelezar, ornar, distinguir, honrar”, segundo o Houaiss. Trata-se de um verbo um tanto culto, mas ainda vivo como sinônimo menos freqüente de enfeitar, adornar, ornamentar, ataviar, emperiquitar, empetecar. Subornar é, na origem, pôr uma pulseira de ouro no subornado, um brinco de brilhante em sua orelha, uma gravata italiana em seu pescoço. Até aí faz sentido, mas… por que o “sub”? Justamente pelo caráter sorrateiro, dissimulado da operação. O prefixo “sub”, aqui, tem o mesmo sentido que exibe no adjetivo “sub-reptício”: denuncia ação furtiva, aquela que só é praticada quando se imagina que ninguém – ou, em termos mais modernos, nenhuma microcâmera – está de olho. Publicado no “NoMínimo” em 1/7/2005.

Curiosidades etimológicas: Gravata
A palavra é... / 29/08/2009

Se passarmos a fita da história ao contrário vamos presenciar, numa daquelas eras que antigamente se chamavam de priscas, o encontro da palavra “gravata”, acessório polido do vestuário masculino, com a palavra “croata”. Veremos então que os dois vocábulos, um tanto surpresos, se apalpam, se cheiram – e se fundem. A cena se passa bem longe dos salões urbanos em que a gravata brilharia: o que vemos ao fundo, contra o céu roxo, são colunas de fumaça numa paisagem sangrenta de trincheiras. Pois é. A “gravata”, que, já perfumada, nos chegou do francês cravate na virada entre os séculos 17 e 18, antes disso (passando a palavra ao filólogo Silveira Bueno) “veio para o centro da Europa trazida pelos cavaleiros croatas, durante as guerras com a Alemanha desde 1636, depois pelos mercenários croatas dos reinados de Luis XIII e XIV, que compunham o regimento Royal Cravate. A forma primitiva foi o eslavo hrvat passada a um dialeto alemão Krawat”. Simplificando a prosopopéia: os soldados croatas tinham o costume de amarrar no pescoço uma tira de tecido que, vejam só, caiu no gosto dos europeus urbanos. Entre os alemães, o acessório se tornou conhecido também como “croata”, em versão dialetal. Que…

Enigmas etimológicos: Picareta
A palavra é... / 15/08/2009

A leitora Vivian Pontes gostaria de saber qual é a relação entre a picareta e o picareta, ou, nas palavras dela, “entre a ferramenta e o sentido figurado da palavra, que serve como uma luva para os membros do nosso governo”. Boa pergunta. Sabe-se que picareta – substantivo e adjetivo de dois gêneros que designa uma pessoa embusteira, aproveitadora, que recorre a expedientes acanalhados para se dar bem – é um brasileirismo velho de muitas décadas, mas parece ter se perdido o elo entre a acepção original da palavra e seu uso figurado. O palpite arriscado pelo etimologista Silveira Bueno é o seguinte: “Picareta – Instrumento de ferro e ponta, próprio para cavar a terra, revolver pedras, abrir buracos. Fig. pessoa descarada e audaciosa que em tudo mete a cara para cavar dinheiro, emprego”. E quem quiser que conte outra, certo? Então eu conto: não parece mais razoável supor que picareta adquiriu seu sentido figurado por influência da palavra “pícaro”, que quer dizer, justamente, ardiloso, astuto, velhaco? Publicado no “NoMínimo” em 18/8/2005.

Enigmas etimológicos: Babaca
A palavra é... / 08/08/2009

– Você acha que a palavra “babaca” vem do latim baburrus, “tolo, palerma”, ou é uma forma reduzida de babaquara, do tupi mbae’be kwa’a ara, “o que nada sabe, mas manda”? Ou não engole nada disso, acha que babaca vem mesmo é do português basbaque, embasbacado? – Eu sei lá. Larga esse Houaiss. – Diz que a data pra acepção de “vulva” é 1939. A de “bobo”, veja só, trinta anos depois. A babaquinha vem antes do babacão. – Rá, rá. – Chuta aí: latim, tupi ou português? – Babaquice.

Lendas etimológicas: Crasso
A palavra é... / 01/08/2009

O post de hoje é a reunião de dois textos publicados no NoMínimo em 7 e 8/11/2005: O adjetivo “crasso”, do latim crassus (gordo, espesso), ganhou em português o sentido figurado – e hoje dominante – de “grosseiro, tosco”. Pode-se falar, por exemplo, numa pessoa crassa, num acabamento crasso, num discurso crasso, entre infinitas possibilidades mais ou menos crassas. Mas isso é teoria. Curiosamente, “crasso” acabou restrito, no mercado real das palavras, ao emprego de ajudante do substantivo “erro”. Algumas palavras se casam, entre juras de fidelidade eterna, e não é mole separá-las. * Volto à palavra de ontem porque vários leitores – alguns deles, justiça seja feita, com uma dose saudável de ceticismo – me escreveram para dizer que, segundo uma tese de sucesso na internet, inclusive na Wikipedia, os erros grosseiros começaram a ser chamados de “crassos” por alusão a um grave equívoco de estratégia militar cometido por Marco Licínio Crasso, membro do primeiro triunvirato romano, ao lado de Pompeu e Júlio César. Pode ser verdade? Pode, nunca se sabe. Mas que tem cheiro de etimologia romântica, tem. Consultando tomos vetustos e outros nem tanto, não encontrei nenhum etimologista sério que dê crédito a essa tese. De resto,…

Lendas etimológicas: Sincero
A palavra é... / 18/07/2009

Recebo o seguinte texto “inspirador”, que circula como corrente na internet: A palavra SINCERO foi inventada pelos romanos. Eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes. Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto – um colar, uma pulseira ou um dado –, que estivesse colocado no interior do vaso. Para o vaso assim, fino e límpido, dizia o romano vaidoso: – Como é lindo!!! Parece até que não tem cera!!! “Sine cera” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana. O vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado. Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações. O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras os verdadeiros sentimentos de seu coração. Estilo açucarado à parte, essa história de vaso fino tem lá sua beleza, não tem? Infelizmente, tudo indica ser uma daquelas lendas muito comuns na etimologia, baseadas em semelhanças fortuitas de som e sentido. Muitas vezes (embora não seja o caso aqui),…

Lendas etimológicas: Aguardente
A palavra é... / 11/07/2009

Dando prosseguimento à série que a Flip interrompeu, segue um texto publicado em minha coluna diária sobre palavras no site “NoMínimo” em 2/3/2005: A leitora Luiza Fontes, de São Paulo, envia uma historinha de certo sucesso na Internet sobre a origem das palavras “aguardente” e “pinga” – texto creditado, não se sabe se acertadamente, ao Museu do Homem do Nordeste, no Recife. “Você pode confirmar sua veracidade?”, pergunta Luiza. Não posso, lamento: a história é grotescamente falsa. Obra de algum etimologista bêbado ou apenas exemplo daquele conjunto de crendices divertidas que faz divisa com a etimologia popular, a coisa, no entanto, é instrutiva ao seu modo – embora não sobre aquilo que pretende ensinar. Vamos à lenda: Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e…

Lendas etimológicas: Larápio
A palavra é... / 27/06/2009

Com o fim da “Revista da Semana”, da editora Abril, a coluna que eu escrevia lá e republicava aos sábados no Todoprosa está momentaneamente suspensa. Mas a etimologia não vai sair do ar aqui. Começo hoje uma série retrospectiva sobre “lendas etimológicas”, aquelas historinhas engraçadas ou curiosas – embora provavelmente falsas – que muita gente ajuda a espalhar, inclusive autores de livrinhos populares sobre a origem das palavras. Garimpado no arquivo que “A palavra é…” acumulou em sua primeira encarnação, entre 2004 e 2007, quando era uma coluna diária no site NoMínimo, o texto abaixo foi publicado em 29/8/2005: A origem da palavra “larápio” é um dos maiores motivos de quebra-pau entre os estudiosos da etimologia. Vale a pena perder algum tempo com o assunto: ainda que a palavra – que, como se sabe, quer dizer ladrão, gatuno – não tivesse triste atualidade, a controvérsia que provocou e ainda provoca seria o bastante para lhe garantir um interesse didático. Especialmente num momento em que certa “etimologia de almanaque”, que privilegia sempre as teses engraçadinhas sem consideração por sua consistência histórica, faz tanto sucesso editorial. O respeitado etimologista brasileiro Antenor Nascentes foi buscar num livro popular chamado “Frases e curiosidades latinas”,…

Êxito
A palavra é... / 20/06/2009

Êxito, todos sabem, é sinônimo de sucesso, triunfo. Não foi sempre assim. É ilustrativo – não só da vivacidade mutante das palavras, mas também do quanto há de relativo nos sucessos e fracassos – pensar que o seu sentido hoje dominante nasceu como forma reduzida de “bom êxito”. A princípio, êxito queria dizer apenas resultado, conseqüência, termo, sem qualificação. Designava o lugar ou estado a que se chega ao fim de determinado processo. O êxito podia – e ainda pode, pois não se trata de modo algum de uma acepção arcaica – ser bom ou mau, péssimo ou excelente, dependendo da situação. A própria palavra sucesso, que de início designava apenas um fato, uma ocorrência, passou por processo semelhante. Que está longe de ser incomum: a qualidade está aí para provar. Em sua primeira acepção o termo é neutro, mas diz-se informalmente, o tempo todo, que algo é “de qualidade” – e ninguém tem a menor dúvida sobre o caráter elogioso da expressão. No latim exitus, o sentido original é ainda mais estrito: a palavra significa saída ou ação de sair. A medicina antiga usava o termo preferencialmente para funções fisiológicas, para tratar das “fluxões que fazem êxito para fora…

Palavra
A palavra é... / 13/06/2009

Segundo o site da BBC Brasil, a empresa americana Global Language Monitor (GLM), que mede a ocorrência de vocábulos na rede mundial de computadores, anunciou que a língua inglesa acaba de ganhar sua milionésima palavra: Web 2.0. A “descoberta” foi criticada por dicionaristas, mas nem chega a se qualificar como polêmica: sua falta de rigor fica evidente no fato de que Web 2.0 não é sequer uma palavra, mas uma locução composta de uma palavra e dois algarismos. Isso lança descrédito sobre outra informação da GLM, a de que o inglês ganha um novo vocábulo a cada 98 minutos. É inegável, porém, que a língua de James Joyce – para citar um escritor que gostava de inventar palavras – leva vantagem quantitativa quando se trata de vocabulário. Enquanto o inglês aspira a um número de sete dígitos, o maior dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, tem cerca de 228.500 verbetes. Uma prova de subdesenvolvimento do português? Vamos com calma. Latim contemporâneo, o inglês é o idioma em que a maioria das inovações técnicas e científicas dos últimos cem anos foi batizada primeiro. Se o critério numérico impressiona os desavisados, está longe de medir saúde linguística. Grande parte dessa “riqueza” é…

Algazarra
A palavra é... / 06/06/2009

“Eu tenho muitos filhos, e toda vez que o pai sai de casa, a meninada faz algazarra.” Foi o que Lula disse na Guatemala sobre os conflitos em seu ministério, centrados na insatisfação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, com alguns de seus colegas. Depois da declaração infeliz em que comparava a procura de uma caixa-preta no fundo do mar à prospecção de petróleo em águas profundas, a tirada da algazarra representou a volta do presidente à boa forma oratória, uma das chaves de sua popularidade – a capacidade de dar um tom íntimo e familiar às mais cabeludas questões de Estado. Algazarra é uma antiga palavra portuguesa (sua certidão de nascimento traz a data do século 15) vinda do árabe, como tantas outras que compartilham com ela a sonoridade e a idade avançada: almofada, açúcar, armazém, alface, alcachofra, algoz, algodão. Vinda de al-gazara, “gritaria, ruído com ira”, era usada de início com um sentido bélico hoje em desuso: designava os gritos de guerra que os exércitos mouros lançavam no início das batalhas. Não é a esse tipo de algazarra que Lula se refere – embora a imagem de aguerrimento possa agradar a Minc – e sim ao significado…

Bomba
A palavra é... / 30/05/2009

A bomba norte-coreana que explodiu no noticiário da semana traz em seu nome ecos da Grécia antiga. É do grego bómbos – uma palavra de origem onomatopaica, isto é, de imitação de um som natural – que provêm, no fim das contas, todas as bombas e bombs e bombes que tornam minado o vocabulário da maioria das línguas do mundo. Bómbos queria dizer na origem “estrondo seco, trovão”, sentido que passaria ao latim bombus (usado ainda para designar zumbido, além de explosão). A acepção da palavra como máquina de bombear líquidos saiu da mesma fonte, por fazer também ela um barulho infernal. Detonada a primeira bomba, seguiu-se uma reação em cadeia. O inglês foi buscar bomb no francês bombe, que por sua vez viera do italiano bomba. O termo estreou oficialmente em nossa língua em 1572, num verso de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões: “As bombas vêm de fogo, e juntamente/ As panelas sulfúreas tão danosas”. Acredita-se que tenhamos importado o vocábulo do espanhol. Naquele tempo as bombas eram estalinhos comparadas às que o século 20 inventaria. Mesmo assim, no início dos 1700, o pioneiro “Vocabulário Português e Latino” não escondia o assombro com o poder destrutivo da bomba:…

Trabalho
A palavra é... / 23/05/2009

O aumento da oferta de emprego no Brasil, embora muito modesto, é uma boa notícia – nada mais óbvio do que afirmar isso. Mas nem sempre a idéia de trabalho esteve associada a algo que se procura com afinco e que faz uma falta tremenda quando não se encontra. A origem desse termo surgido na infância de nossa língua, no século 13, com a grafia traball, é uma boa ilustração de como as palavras, seus sentidos e conotações são construídos historicamente. Para uma sensibilidade moderna, é chocante descobrir que aquele que “enobrece e dignifica o homem”, como diz o chavão, nasceu do nome em latim medieval para um instrumento de tortura, o tripalium, apresentado pelo filólogo Silveira Bueno como um artefato composto de “três paus aguçados, algumas vezes ainda munidos com pontas de ferro”. As estacas eram cravadas no solo, convergindo para um vértice no alto, e a esse esqueleto se atavam os infelizes para serem castigados ou mortos. A relação com a tortura começa a fazer sentido quando se leva em conta que, no momento histórico em que a palavra surgiu, o trabalho era uma atividade indigna reservada a subalternos, de preferência servos ou escravos. Mas a ligação pode…

Lixar-se
A palavra é... / 16/05/2009

O deputado que está – ou estava, até quarta-feira – se lixando para a opinião pública se lixou mesmo. Para compreender a frase anterior é preciso levar em conta dois sentidos bem diferentes, ambos coloquiais, do verbo lixar. A acepção empregada pelo gaúcho Sérgio Moraes é a de não dar importância, não ligar, ser completamente indiferente. Mas lixar-se também pode significar se dar mal ou, como registra o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, “sofrer conseqüências muito desagradáveis”. Nos dois casos, o verbo é pronominal. Diferente, portanto, do lixar propriamente dito, que quer dizer desbastar, alisar, polir. Este existe em nosso idioma desde o século 15 e é derivado de lixa, que tem origem controversa. Há estudiosos que ligam lixa ao italiano liscio, “liso”, base do verbo lisciare, “tornar liso”. Outros apostam numa relação com lixo (lixar viria de remover os excessos, o que não presta), palavra registrada já no século 13 e portanto mais antiga que liscio. E por que não uma conexão com o adjetivo liso, do latim vulgar lisium, sem passar pelo italiano? Enfim, etimologia nunca foi ciência exata. Ainda bem que, desde que uma palavra seja expressiva e funcional, os falantes estão se lixando para…

Craque
A palavra é... / 09/05/2009

O início de um Campeonato Brasileiro marcado pela volta de jogadores de alto nível que andavam fora do país, Ronaldo Fenômeno à frente, é uma boa oportunidade para falar da história da palavra craque. Tudo indica que o termo, um dos muitos anglicismos que povoam o vocabulário do futebol, tenha nos chegado no equipamento esportivo de um daqueles ingleses que, no início do século passado, ainda nos ensinavam a jogar bola – poucas décadas antes de se inverter dramaticamente a posição de quem tinha coisas a aprender nesse departamento. O desembarque oficial de craque em nosso idioma leva a data de 1913, quando apareceu no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo. Era um tempo de aclimatação apressada de termos ligados ao futebol – casos semelhantes foram quíper (do inglês goalkeeper, goleiro), que praticamente caiu em desuso, e beque (de back, jogador de defesa), que ainda se usa hoje, embora zagueiro seja a forma preferencial. Sem mencionar o próprio termo futebol, versão aportuguesada de football, que se sobrepôs a todas as tentativas de criar um neologismo culto para nomear o esporte, como ludopédio e balípodo. A matriz inglesa de craque é crack – não o substantivo, que quer…

Gripe
A palavra é... / 02/05/2009

Suína, mexicana, norte-americana – ainda não se chegou a um acordo sobre o nome definitivo que ganhará o surto de gripe que preocupa o mundo, provocado pelo vírus A/H1N1. O que se sabe com certeza é que a história da palavra atesta o quanto é antigo o contágio entre línguas. A epidemia de gripe que se espalhou pela Europa a partir da Itália, em 1743, provocou em seu rastro a disseminação de dois nomes para a doença: o francês grippe e o italiano influenza. O primeiro é a forma nominal do verbo gripper, “agarrar”, talvez numa referência ao modo súbito como o vírus se apodera do organismo. O segundo – substantivo derivado do latim medieval influentia, “influência dos astros sobre os homens” – provavelmente ganhou seu sentido médico devido ao hábito de se atribuir a essa causa qualquer problema de saúde. Curiosamente, embora exista em inglês a palavra grip com o mesmo sentido original do termo francês, foi o italiano influenza que acabou vingando no idioma de Barack Obama, no qual ganhou em meados do século 19 o apelido (carinhoso?) de flu. O holandês e o húngaro, entre outras línguas, também foram por esse caminho. Já o português e o…

Patrimonialismo
A palavra é... / 25/04/2009

Ao fazer seu mea culpa no caso do uso abusivo pelos parlamentares de passagens aéreas pagas pelo contribuinte, o deputado Fernando Gabeira deu certa profundidade ao debate: “Agi como se a cota fosse minha propriedade soberana”, disse a Josias de Souza, da Folha de S.Paulo. “Confesso que caí na ilusão patrimonialista brasileira.” O uso do conceito de patrimonialismo, termo do vocabulário sociológico, é preciso. Estranho é vê-lo associado à palavra ilusão. Patrimonialismo vem de patrimônio, do latim patrimonium – em seu sentido original, conjunto dos bens paternos, herança familiar. Mas o significado que vem ao caso nasce como um conceito cunhado pelo jurista alemão Max Weber (1864-1920), um dos pais da sociologia. Em linhas gerais, trata-se de uma forma de dominação política comum em regimes absolutistas, em que o governante não diferencia bens particulares de públicos, tratando a administração como assunto pessoal. O patrimonialismo weberiano encontrou solo fértil no pensamento brasileiro do século 20. O primeiro a usá-lo foi Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. “Para o funcionário ‘patrimonial’, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular”, escreve ele, parecendo falar do que ocorre hoje no Congresso. “As funções, os empregos e os benefícios…

Republicano
A palavra é... / 18/04/2009

Houve um tempo em que o adjetivo republicano se opunha ao adjetivo monarquista. Mas quem é monarquista hoje em dia? Por falta de um adversário de peso, republicano se viu no papel de palavra sonora e respeitável (república existe em nosso idioma desde o século 15 e veio do latim res publica, isto é, coisa pública, o bem comum pelo qual zela o Estado) em busca de uma aplicação mais moderninha. Talvez tal disponibilidade ajude a entender por que, nos últimos anos, o termo se transformou num dos preferidos do vocabulário político brasileiro. Fetichista, recoberto de conotações puras e arejadas, republicano vem sendo empregado como um sinônimo mais nobre de qualificativos – talvez gastos pelo abuso – como democrático, transparente, respeitador da cidadania e das liberdades civis, não-clientelista e até… honesto. O batismo do recente Pacto Republicano foi feliz. Recorre à impressionante cauda de conotações positivas da palavra com evidentes intenções alicerçadas no campo do marketing político, mas, ao mesmo tempo, mantém um pé firme na velha semântica: trata-se, afinal, de um acordo firmado entre os três poderes da República. A aura mítica de republicano encontra menos sustentação ao se falar em “debate republicano” quando se quer dizer apenas debate…

Terremoto
A palavra é... / 11/04/2009

O terremoto veio da Itália. E não apenas no sentido imediato de ter abalado o noticiário da semana, mas no etimológico também. A palavra italiana terremoto, cunhada no século 13, é considerada pela maioria dos estudiosos a matriz do vocábulo português, que fez sua aparição por aqui já no século seguinte, e também do espanhol, todos com grafia idêntica. O inglês earthquake e o alemão Erdbeben são traduções literais de terremoto. O francês prefere uma solução menos sucinta, a locução tremblement de terre. Se o sentido da palavra fica evidente ao se examinar cada um de seus termos – terra + tremor, movimento –, o fato de ter raiz latina não é menos claro. Segundo o Houaiss, o termo terraemotus já aparece registrado antes de Cristo em Cícero, o grande orador e mestre da prosa latina, que após a morte de Júlio César foi apanhado num terremoto político (agora em sentido figurado, claro) e condenado à morte por Marco Antônio em 43 a.C. Sismo, um sinônimo perfeito de terremoto, tem raiz também antiga no vocábulo grego seismós, mas sua introdução em nossa língua foi, por assim dizer, fabricada numa época bem mais recente: chegou por aqui na grande onda dos…

Goleada
A palavra é... / 04/04/2009

Que goleada, não? O vexame magnífico que a Bolívia impôs à Argentina no 6 x 1 de quarta-feira merece, claro, a eloqüência desse brasileirismo que ganhou seu primeiro registro em 1958 no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Antônio Soares Amora. Mas nem sempre a justeza da palavra é tão evidente. No mesmo dia o Brasil derrotou o Peru por 3 x 0. Goleada? A julgar pelo que disse a certa altura da transmissão da partida o repórter Mauro Naves, da TV Globo, sim. De acordo com a sabedoria não escrita dos torcedores, não. Derivada de gol – que importamos do inglês goal, “meta” –, a goleada nunca teve definição numericamente precisa nos dicionários. É apresentada como “vitória por ampla diferença de gols” (Houaiss), “grande quantidade de gols marcados por uma equipe numa só partida, contra nenhum ou poucos gols da equipe adversária” (Michaelis) ou “vitória por larga margem de gois (sic) ou tentos; enfiada” (Aurélio). Historicamente, como sabe qualquer freqüentador de arquibancada, o piso da goleada sempre foi o 4 x 1 – três gols de diferença, mas quatro marcados. Ou seja: 3 x 0 e 4 x 2 não servem. No entanto, a freqüência com que o placar…

Vestibular
A palavra é... / 28/03/2009

Vestibular, aquilo que o Ministério da Educação estuda agora extinguir, é um brasileirismo para algo que em Portugal costuma ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular, qualificativo de telefone que tenta – e na maioria das vezes consegue – expulsar a palavra principal de cena sob uma pertinente alegação de redundância, tomando para si o lugar de substantivo. Pois o exame vestibular, de tão consagrado no vocabulário de gerações e gerações de estudantes brasileiros que perderam o sono por causa dele, acabou conhecido como vestibular só. E qualquer associação remota com a palavra que está em sua origem – vestíbulo – se perdeu nesse processo. Quando ainda era claramente um adjetivo, ficava mais fácil perceber a metáfora que, com certa dose de pernosticismo, levou a palavra vestibular a ser escolhida para qualificar o processo de seleção de candidatos ao ensino superior. Vestíbulo (do latim vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que significa pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma ante-sala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta…

Bônus
A palavra é... / 21/03/2009

O bônus da discórdia que a seguradora AIG quer pagar a seus principais executivos é uma palavra que o vocabulário financeiro americano importou no último quarto do século 18 do latim bonus, um adjetivo que significa bom, para nomear uma remuneração suplementar, um ganho extra pago aos investidores. Quando bônus desembarcou no português com esse mesmo sentido, cerca de um século mais tarde, já existiam por aqui tanto o verbo bonificar quanto o substantivo bonificação, do francês bonifier e bonification. O significado é idêntico e a origem, no mínimo, semelhante. (Bonificar também queria dizer inicialmente beneficiar, tornar mais produtivo, mas tal acepção caiu em desuso.) De todo modo, foi na cultura americana que o bônus – como palavra e como prática – se consolidou primeiro com o sentido restrito que agora provoca polêmica. Uma reportagem da revista eletrônica “Slate” situa a origem do bônus como suplemento salarial na moda, surgida em diversas empresas em fins do século 19, de dar presentes de Natal a seus principais funcionários. Poucos anos depois, alguns empresários tinham trocado os presentes por uma remuneração em dinheiro – suplemento que em 1952, por lei, passou a ser considerado parte integrante do salário sempre que fosse pago…

Marolinha
A palavra é... / 14/03/2009

E a marolinha de Lula era mesmo um tsunami, afinal. É fácil fazer piada com um erro de avaliação tão caudaloso, mas a própria eloqüência das imagens favorecidas pelo presidente da República torna isso inevitável. Opor o duplo diminutivo de uma pequena marola, isto é, ondinha ou ondulação natural do mar, a tsunami, nome japonês da vaga gigantesca provocada por tremores de terra ou erupções vulcânicas, é um exercício retórico tão expressivo quanto arriscado. E Lula perdeu. A origem de marola, regionalismo brasileiro que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa nem registra, não parece sólida. A maioria dos nossos dicionários aposta numa formação nativa do termo, que seria a junção de mar com o sufixo diminutivo “ola” – o mesmo usado em camisola e bandeirola. Mas não parece razoável descartar a possibilidade de o vocábulo ter vindo do espanhol marola, com uma alteração semântica no meio do caminho. Na língua de Cervantes, seu sentido é o oposto: onda grande. Tsunami é outra história. Sabe-se que a palavra veio do japonês tsu (porto) + nami (onda) e que começou a ser usada por aqui já em fins do século 19. Sua popularidade, porém, só explodiu com o cataclismo que…

Banco
A palavra é... / 07/03/2009

Quando se diz que um banco foi ou está ameaçado de ir à bancarrota – e como se diz isso nos últimos meses, não? –, esbarramos numa sabedoria etimológica que, apesar de óbvia, o hábito mantém trancada no cofre da língua. É que o substantivo bancarrota, existente no português desde o século 16, foi importado do italiano banca rotta, que significa literalmente “banco quebrado”. Quase um século antes da bancarrota, e vindo do mesmo italiano, tinha desembarcado no português o substantivo banco com o sentido de instituição financeira especializada em depósitos e créditos. Na origem dessa acepção havia uma metonímia, figura de linguagem pela qual se nomeia a parte para designar o todo: banca era a mesa, a bancada em que se realizavam as transações em dinheiro, especialmente empréstimos. Como se vê, é dessa forma que o sentido financeiro de banco se liga àquela outra acepção do termo, a de superfície (em geral de madeira) usada como assento ou mesa, que é mais antiga e tem prováveis raízes germânicas. Peça de mobília à parte, é um atestado da importância das cidades-Estado italianas como centros financeiros da época o fato de que banca gerou uma inflação de palavras em outras línguas,…

Ditadura
A palavra é... / 28/02/2009

Ditabranda, o polêmico neologismo com que a “Folha de S.Paulo” se referiu ao regime de exceção instaurado com o golpe militar de 1964, é um trocadilho baseado na sonoridade da palavra e não em seu sentido histórico. O adjetivo “dura”, por mais que soe apropriado neste caso, nada tem a ver com ditadura além da sugestão que acidentalmente evoca. O termo existe no português desde o século 16 e veio do latim dictatura, isto é, cargo ocupado pelo ditador – autoridade da Roma Antiga que, em situações de emergência que exigiam medidas extremas, era investida pelo senado de poderes absolutos por um período de até seis meses. Levando-se em conta a curta duração e o fato de não representar uma ruptura institucional, aquilo sim poderia ser chamado de ditabranda. Pelo menos até Júlio César, o último dos ditadores, manobrar como um Hugo Chávez da Antiguidade e se perpetuar no posto até morrer. Isso significa que, do ponto de vista da formação da palavra, ditadura tem mais a ver com termos como cavalgadura, amargura e tortura, nos quais o sufixo -ura atua como formador de substantivos, do que com linha-dura ou cabeça-dura. Mas seu parentesco etimológico é mesmo com o verbo…

Oscar
A palavra é... / 21/02/2009

A origem do nome da estatueta careca que a Academia de Artes e Ciências de Hollywood distribuirá mais uma vez neste domingo 22 é controversa. A tese mais aceita sustenta que, em 1931, uma funcionária comentou que o prêmio – até então sem nome – lhe lembrava seu tio Oscar. A observação teria sido presenciada por uma jornalista de fofocas hollywoodianas e, por meio de sua coluna, ganhado o mundo. Há até quem acrescente que o sujeito imortalizado por acaso pela sobrinha era um fazendeiro chamado Oscar Pierce. Mas convém guardar algum ceticismo. A atriz Bette Davis também já foi citada como autora do nome, suposta gozação com seu primeiro marido, o músico Harmon Oscar Nelson. Seja como for, não é a origem de Oscar que provoca controvérsia no português, mas seu uso. As dúvidas costumam se concentrar em dois pontos. O plural de Oscar é Oscars ou simplesmente Oscar? E naqueles casos, bastante freqüentes, em que a palavra tem o papel de substantivo comum – como no clichê jornalístico “Grammy, o Oscar da música” –, faz sentido, como querem nossos principais dicionários, escrever “óscar”? Bem, o plural de Oscar é uma das questões sem resposta definitiva de que a…

Antropofagia
A palavra é... / 14/02/2009

A palavra antropofagia, que andou no noticiário esta semana, chegou ao português no século 19, por influência do francês, mas o membro mais antigo da família, antropófago, estreou em nossa língua em 1537. Foi o ano em que, com a grafia antropophago, ele apareceu na tradução que o matemático português Pedro Nunes publicou do clássico medieval “Tratado da Esfera” (Tractatus de Sphaera), do astrônomo Johannes de Sacrobosco. É curioso pensar que, apenas onze anos depois do nascimento oficial da palavra em nosso idioma, desembarcou no país para uma estada infernal o mercenário alemão Hans Staden. Capturado pelos tupinambás, povo antropófago, Staden viveu meses como prisioneiro deles. Escapou milagrosamente de virar refeição e, de volta à Europa, publicou na Alemanha em 1557 “A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América”. Sucesso imediato de público, o livro é um dos mais saborosos relatos de viajantes europeus da época. O costume bárbaro de comer gente, claro, não era novo – o latim tinha ido buscar a palavra no grego anthropo (homem) + phágos (que come) – mas as grandes navegações que estavam em curso davam uma atualidade sinistra ao termo. Poucas décadas antes, tinha…

Maquiagem
A palavra é... / 07/02/2009

“Governo maquia PAC com inclusão de obras antigas”, anunciava a manchete principal do jornal “O Globo” de quinta-feira, 5 de fevereiro. Ilustrando a notícia, uma foto gigante de Dilma Rousseff com maquiagem pesada, penteado de cabeleireiro e colar de pérolas – uma imagem de glamour até então inédito da ministra da Casa Civil, talvez o ponto culminante do processo de “suavização” de sua estampa que, com mira na eleição presidencial de 2010, teve início no fim do ano passado. A graça dessa primeira página está na forma como texto e fotografia dialogam em torno do verbo maquiar, um francesismo que tem tanto a acepção positiva de cobrir de maquiagem com propósitos de embelezamento (sentido ilustrado pelo retrato de Dilma) quanto a negativa de mascarar, falsear (como o jornal afirma que o governo fez com o PAC). Os dois sentidos estão ligados: embelezar e fraudar são ações fronteiriças, separadas pela linha nem sempre muito nítida entre a boa e a má-fé. O curioso é observar que, no idioma em que a palavra nasceu, o primeiro registro do verbo maquiller com o significado de falsificar é de 1815, cerca de um quarto de século antes de surgir, no jargão do teatro, a…

Holocausto
A palavra é... / 31/01/2009

A palavra holocausto entrou no vocabulário de nossa língua no século 14. Vinha em última análise, depois de uma tabela com o latim, do grego holókaustos, “sacrifício ritual pelo fogo”. Mas isso se tornou uma espécie de pré-história do vocábulo depois que seu sentido dominante – já como nome próprio – passou a ser o genocídio dos judeus empreendido pelo regime nazista de Adolf Hitler. Não era a primeira vez que a palavra era usada em referência a massacres. Consta que, antes da Segunda Guerra, o brilhante orador Winston Churchill a tinha empregado para descrever o assassinato de um milhão de armênios pelo governo turco. Mas a escala inédita do extermínio de judeus europeus pelos nazistas exigia um nome próprio para marcar seu caráter único – um crime que, em relação a todos os outros pogroms que vitimaram judeus ao longa da história, era diferente “não só em grau de seriedade, mas em essência”, nas palavras da filósofa Hannah Arendt. Holocausto começou a ganhar esses contornos específicos como tradução do termo hebraico Shoah, “catástrofe”, que já em 1940 era usado para designar o massacre de judeus poloneses pelos alemães. Segundo dicionários etimológicos americanos, a palavra apareceu registrada com inicial maiúscula…

Lobby
A palavra é... / 24/01/2009

Não vai ser fácil. O lobby que o presidente americano Barack Obama atacou em uma de suas primeiras medidas depois de ser empossado, numa tentativa de estabelecer um novo pacto de transparência na administração pública, é uma tradição política americana – e provavelmente universal, embora a palavra que a designa tenha surgido em Washington – que, se acreditarmos que as coisas só passam a ter existência plena quando são nomeadas, tem exatamente dois séculos de idade. Para quem acha que a realidade precede a linguagem, a tradição do lobby é ainda mais antiga. No inglês americano, foi registrada pela primeira vez no distante 1808 – data do desembarque da família real no Brasil – a acepção de lobby como grupo de pressão ou atividade exercida por esse grupo, como forma de influenciar os políticos e obter vantagens para causas privadas, empresariais etc. O mais curioso dessa acepção é que sua origem é, por assim dizer, arquitetônica. A palavra inglesa lobby já tinha naquela época o sentido – que conserva até hoje – de vestíbulo, salão que fica na entrada de um prédio público. Sua origem era o latim medieval laubia ou lobia, de raiz germânica, com o significado primitivo de…

Sapato
A palavra é... / 20/12/2008

Os sapatos que o jornalista iraquiano Muntazer Al Zaidi atirou em George W. Bush com excelente pontaria – mas não tão boa quanto o reflexo do presidente americano ao se desviar dos petardos – têm tudo para ficar na história como a imagem mais marcante de um melancólico fim de mandato. O peso simbólico da cena já era evidente antes mesmo de sermos informados de que, na cultura árabe, é um insulto humilhante atirar calçados contra alguém. Pouco importa que, na Europa da Idade Média, um costume de origem obscura considerasse o mesmo ato um gesto simpático, equivalente a um voto de boa sorte. Para os propósitos desta coluna, a elevação de um objeto tão corriqueiro ao estrelato do noticiário político internacional é uma oportunidade única para abordar um aspecto bem diferente da questão: a posição singular ocupada pelo sapato, que é um artefato dos mais – digamos assim – pedestres e rasteiros, mas ao mesmo tempo um dos grandes mistérios etimológicos ocultos em nosso vocabulário cotidiano. Os etimologistas nunca conseguiram sequer chegar perto de um acordo sobre a origem do termo português sapato, do espanhol zapato, do francês savate, que significa sapato (ou chinelo) velho, e do italiano ciabatta,…

Marketing
A palavra é... / 13/12/2008

Bem que a língua portuguesa tentou forjar um similar nacional: mercadologia e até mercadização são palavras dicionarizadas, mas de aplicação cada vez mais rara na vida real. O vocábulo importado diretamente do inglês, marketing, sem outra adaptação que não a do sotaque local, acabou prevalecendo de tal forma que suspirar hoje por seus sucedâneos fracassados seria tão cômico quanto lamentar que o futebol não se chame balípodo ou ludopédio. Pois é mesmo no marketing e não no balípodo que, pelo menos até prova em contrário, Ronaldo Fenômeno continua sendo craque. Segundo o Houaiss, a língua de Henry Ford viu nascer por volta de 1920 a moderna acepção de marketing, palavra que até então era apenas a forma nominal do verbo to market, “negociar”. Surgia a acepção de conjunto mais ou menos organizado de técnicas comerciais com foco fechado no consumidor, que desse modo deveria ser sondado por meio de pesquisas, bajulado por campanhas publicitárias e acompanhado no chamado “pós-venda”. O mesmo dicionário registra a chegada do termo por aqui em torno de 1960. Hoje, quando não existe uma única área da atividade humana em que o marketing não se aplique, já há descendentes locais, como o termo (pejorativo) marqueteiro. A…

Copiar
A palavra é... / 06/12/2008

O velho verbo copiar, do latim medieval copiare (“reproduzir em grande número”, como os copistas faziam com seus manuscritos), tem uma nova aplicação. Estamos falando da acepção ainda não dicionarizada – embora isso pareça ser questão de tempo – que se usa num contexto de troca de mensagens eletrônicas e que tem como objeto direto uma pessoa (“estou copiando você”). O sentido aqui não é, claro, o de imitar, plagiar, muito menos o de fazer em laboratório uma clonagem do indivíduo em questão. O novo copiar quer dizer incluir (alguém) no circuito de uma troca de informações. Trata-se de um subproduto lingüístico da internet, família de palavras que não pára de crescer. “Como o assunto diz respeito ao departamento como um todo, estou copiando todos os usuários”, diz o chefe ao encaminhar o memorando a uma lista de destinatários maior que a original. Ou em registro mais informal: “Tô copiando o Orelha e a Vê, bjusss”. Talvez haja um impulso de condensação na origem dessa mudança. Como copiar uma pessoa significa simplesmente fazer uma cópia para ela, a alteração básica seria o fato de a preposição não ser usada. Se a frase fosse “estou copiando (a mensagem) para você”, não…

Calamidade
A palavra é... / 29/11/2008

A calamidade que desabou sobre Santa Catarina faz parte do rico vocabulário associado às grandes tragédias, sobretudo as naturais. Além de calamidade e tragédia, o dicionário tem em estoque desastre, catástrofe, hecatombe, cataclismo, flagelo. Todos são vocábulos antigos que o uso figurado e a conseqüente extensão de sentido transformaram em sinônimos. Hoje exprimem em doses mais ou menos iguais nosso luto e estupor, mas nasceram com significados restritos. Com o cuidado de não ver nisso uma pregação de fundamentalismo etimológico, tolice das mais calamitosas, vale a pena fazer um breve passeio por esses sentidos originais. Mais que uma curiosidade, eles iluminam as palavras e a própria história humana de resistência às hecatombes. Calamidade, do latim calamitas, tem a ver com cálamo, do grego kálamos, “haste de planta”, e seu provável significado primitivo é descrito por Antenor Nascentes como “prejuízo causado por um temporal, por uma saraivada que quebrasse as hastes verdes do trigo”. Um parente próximo é o cataclismo, do grego kataklysmós, derivado de um verbo que quer dizer “encher de água, inundar”. O medo das tempestades inspira os dois. Desastre e flagelo têm origem mais poética e apontam para as causas do infortúnio: o primeiro veio do italiano dis…

Humor negro
A palavra é... / 22/11/2008

O humor negro que caracteriza o novo filme dos irmãos Coen, “Queime depois de ler”, é uma locução comum a várias línguas, do inglês black humor ao francês humour noir. Definido pelo Houaiss como a graça feita “a propósito de uma manifestação grave, desesperada ou macabra”, tem tudo para se tornar, como se vê, um dos registros mais visitados pela arte nesse período sombrio de recessão mundial que vem chegando. Como a época do derretimento financeiro também é, por acaso, a de Barack Obama, não custa frisar que o humor é chamado de negro sem o menor traço de racismo. Embora um certo pensamento politicamente correto tenha tentado criminalizar todas as expressões que contenham a cor do piche – como lista negra, língua negra e a velha frase “a coisa está preta” –, o bom senso não recomenda ver insulto onde há apenas coincidência cromática. Do contrário, o elefante branco e a expressão “dar um branco”, com seus sentidos negativos, também ficariam sob suspeita. Para não mencionar a febre amarela e as contas no vermelho. Se recuarmos na história da palavra humor, a viagem será longa. Ela veio do latim humor com sentido médico. Na Antiguidade o humor era apenas…

América II
A palavra é... / 15/11/2008

Na semana passada falamos sobre o hábito que têm os americanos de chamar de América um país que, em nossa língua, é conhecido como Estados Unidos. Sem pretender lhes negar o direito de se referir desse modo a seu país, o argumento usado aqui foi o de que o português tem sua história, seu próprio jeito sedimentado ao longo de séculos, e ao não respeitá-lo corremos o risco de resvalar no servilismo cultural. Curiosamente, o raciocínio que recomenda evitar em nosso idioma a palavra América como nome do país de Barack Obama é o mesmo que nos incentiva a chamar seus nativos de americanos. Contradição? Num certo sentido, sim. Mas não se for levada em conta a tradição. Faz tempo que chamamos os americanos de americanos, um gentílico consagrado por, entre outros, o mais-que-canônico Machado de Assis. Um exemplo: em seu famoso ensaio Instinto de nacionalidade, Machado, ao citar o poema épico Song of Hiawatha, chama seu autor, Henry Wadsworth Longfellow, de “cantor admirável” da “terra americana”, assim como Shakespeare o é da inglesa. Não se trata de dizer que está certo porque Machado escreveu, mas de provar que esse uso está enraizado em nossa cultura. A crítica mais comum…

América
A palavra é... / 08/11/2008

“Bem-vinda de volta, América.” A mensagem de um leitor do “New York Times” ganhou destaque no site do jornal no dia seguinte à vitória histórica de Barack Obama. É evidente que, mais do que o nome que os americanos dão a seu país, a palavrinha mágica América representa nessa frase um mito, um ideal de liberdade e oportunidade para todos – a corporificação daquele “sonho americano” que, de tão universalmente difundido, parece tão velho quanto o próprio país, embora o primeiro registro da expressão American dream leve a data de 1931. Mais do que seqüestrar o nome de um continente, portanto, os EUA – a última das grandes potências, o país mais poderoso do planeta – tomaram posse do próprio conceito de Novo Mundo. Que o sucesso desse seqüestro conta uma longa história de imperialismo cultural não se discute. A questão é: do ponto de vista de uma língua soberana como a nossa, qual é a melhor maneira de tratar o esperto branding feito pelos antepassados dos eleitores de Obama? No caso do nome do país, nossa tradição nunca teve dúvida: aquilo que os nativos dos EUA chamam de América (palavra derivada no início do século 16 do nome do…

Afro-americano
A palavra é... / 01/11/2008

Barack Obama está perto de se tornar o primeiro presidente negro da história dos EUA. Ou o primeiro presidente afro-americano, dependendo do gosto do freguês – e o número de fregueses desse eufemismo, inclusive no Brasil, não parou de crescer sob a influência da onda politicamente correta emanada das universidades americanas nos anos 70 e 80 do século passado. A mesma onda que, em seus extremos de pedantismo, transformou mendigos em “moradores em situação de rua” no discurso de muita gente séria. Não se trata de erro. Aqui e ali se esbarra no argumento de que o termo afro-americano padece de imprecisão por sugerir que todo africano é negro. O literalismo dessa crítica, porém, lembra o de quem considera “errado” chamar os nascidos nos EUA de americanos, uma vez que brasileiros e canadenses, por exemplo, também o são. Como se as palavras não pudessem ter mais de um sentido. A questão é política antes de ser lingüística. Afro-americano é um termo surgido nos EUA em meados do século 19 e resgatado há poucas décadas pelos primeiros ideólogos do PC (o politicamente correto, não o Partido Comunista) como sinônimo de black – o que no país de Martin Luther King, com…

Pacote
A palavra é... / 25/10/2008

O governo federal não quer que a medida provisória 443 fique conhecida como pacote. Nenhuma surpresa. Pacote é uma palavra de tom crítico que costuma ser mais favorecida pela imprensa do que por governantes. Usado no Brasil desde aproximadamente 1960, segundo o Houaiss, com o sentido de conjunto de medidas adotadas de um só golpe a fim de atacar um problema emergencial na área econômica ou política, não é de hoje que o termo carrega um ar pejorativo que pode até chegar à zombaria nos aumentativos pacotão ou pacotaço. As conotações negativas parecem ter se incorporado à palavra aos poucos. O auge da má fama carrega a data de 1o de abril de 1977, quando o chamado Pacote de Abril baixado pelo presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso Nacional e criou os senadores biônicos. Isso fez colar na palavra para sempre uma mancha de autoritarismo. Mesmo após o fim da ditadura militar, pacote conservou alguma truculência: afinal, a adoção em bloco de medidas de alcance social sempre carrega o risco do erro de cálculo. Pacote não aparece apenas em contextos negativos. Fala-se de forma simpática em pacotes de incentivo a atividades acima de qualquer suspeita. Nem os dicionários destacam o…

Vaca-fria
A palavra é... / 18/10/2008

Nas últimas semanas brilharam nesta página as palavras juros, crise e pânico. Como a histeria financeira ainda parece longe de passar, é hora de voltar à vaca-fria – expressão que quer dizer retomar algo deixado para trás no atropelo da conversa, mas que não se considera devidamente resolvido. No caso, retomar o saudável ecletismo do papo sobre termos de nosso vocabulário. Como, por exemplo, vaca-fria. “Voltar à vaca-fria” é uma locução misteriosa. Por que vaca? Por que fria? Isso não afeta sua popularidade no Brasil e em Portugal – talvez maior lá do que aqui –, como se pode comprovar numa rápida consulta ao Google. Dicionarizada desde que o lexicógrafo português Cândido de Figueiredo a registrou, em 1899, a vaca-fria é cercada de silêncio quando se trata de investigar sua origem. Um silêncio que não é completo, felizmente. No oitavo volume de seu Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, de 1968, o filólogo brasileiro Silveira Bueno vai buscar a seguinte história no colega e compatriota Teobaldo, pseudônimo de Francisco Mendes de Paiva, que em 1879 publicou o livro Provérbios Históricos e Locuções Populares: “Com pequena variante de animais, ora o carneiro, ora a cabra, diz Teobaldo (…) que é muito…

Ortografia
A palavra é... / 04/10/2008

A palavra ortografia vem do grego orthós + grápho, isto é, o modo correto de escrever. Quem determina que modo é esse sempre foi uma questão polêmica. Na tradição luso-brasileira, o papel tem sido desempenhado por legisladores, respaldados por comissões de sábios. É o que ocorre mais uma vez na atual reforma ortográfica. Um dos argumentos mais correntes contra o acordo – o de que ele é condenável por mexer apenas no modo de escrever as palavras, deixando de lado as divergências sintáticas e semânticas entre Brasil e Portugal – lembra a desculpa do capitão que negligencia a manutenção de seu navio porque não pode controlar o oceano. A não ser nos delírios de ditadores caricatos, o poder dos governantes sobre sintaxe e semântica é zero: não há o que eles possam fazer. Sobre a ortografia, verniz da língua, há. Se deveriam se meter nessa seara é outro debate. Na definição da ortografia, o poeta português Fernando Pessoa preferia o método da lenta decantação cultural ao das canetadas legislativas, o que o levou a se insurgir contra uma das reformas de espírito “simplificador” pelas quais o português passou. Em suas palavras, “um acto que, à parte ser desnecessário, ou, pelo…

Voto
A palavra é... / 27/09/2008

Voto, do latim votum, é uma palavra que veio do vocabulário religioso para entrar no da política. Seu sentido original, que ainda conserva, é o de promessa, desejo íntimo, e por extensão o de oferenda com que se paga tal promessa, consagração. Do voto de castidade dos padres aos votos de boas festas, das velas votivas aos ex-votos com que os fiéis agradecem as graças que acreditam ter recebido de Deus ou de algum santo, não faltam exemplos da permanência desse núcleo semântico religioso na linguagem moderna. De forma menos evidente, as bodas (casamento) também têm a mesma origem, segundo a maioria dos etimologistas. E a própria palavra devoção é descendente de votum, particípio do verbo latino vovere (obrigar-se, prometer), um termo de raiz indo-européia aparentado de outros do sânscrito e do grego. Se a história do voto devocional vem de muito longe, seu sentido político hoje dominante – “modo de manifestar a vontade ou opinião num ato eleitoral ou assembléia”, segundo o Houaiss – é bem mais recente. Registrada em inglês a partir do século 15 ou 16, consta que essa acepção da palavra vote nasceu no parlamento da Inglaterra e logo foi importada pelas línguas latinas, a começar…

Crise
A palavra é... / 20/09/2008

“Que crise?”, perguntou o presidente Lula. Bom, que tal essa crise-mamute que ameaça engolfar o mundo, levantando até especulações de que a de 1929, em comparação, pode acabar parecendo um piquenique? Provando que a interdependência global, embora tenha se acelerado nas últimas décadas, não é uma invenção contemporânea, a palavra saiu do grego krísis para o latim crisis e daí para o mundo. Chegou ao francês no século 15, ao inglês e ao alemão no 16, ao italiano no 17 e ao português no 18. Sem mencionar o sueco, o holandês, o turco etc. Globalização é isso. A diferença é que, hoje, a vertigem eletrônica tornaria o contágio lingüístico mais rápido, como tem tornado o financeiro. A palavra nasceu no vocabulário da medicina. Referia-se ao momento na evolução de uma doença em que se definia para o médico o caminho que o paciente tomaria numa encruzilhada: de um lado a cura, do outro a morte. O grego krísis quer dizer decisão, definição e, por extensão, momento decisivo. O que explica também o sentido da palavra crítico (de arte, por exemplo), um profissional encarregado de decidir, de julgar o mérito de algo (no caso, uma obra). Foi apenas no século 19,…

Google
A palavra é... / 06/09/2008

Google é uma daquelas marcas registradas que, de tão integradas à vida cotidiana, acabam fatalmente perdendo a inicial maiúscula e caindo na linguagem comum. Os substantivos gilete, chiclete e xerox são bons exemplos dessa transformação. Em inglês, o verbo to google – procurar uma informação por meio de um mecanismo de busca na rede mundial de computadores – teve ascensão vertiginosa nos primeiros anos do século 21, espelhando a da própria empresa. Em 2006, ganhou a bênção do dicionário Oxford. Imaginar que os donos de uma marca adotada pela linguagem comum encarem o fenômeno como uma espécie de consagração pode ser prova de ingenuidade. Por meio de seu departamento jurídico e em campanhas junto aos usuários, o Google tem se esforçado para que o verbo to google só seja usado se a ferramenta de busca for mesmo… o Google. Perda de tempo, claro. Desde sua fundação, em 1998, a empresa que agora lança seu próprio navegador tornou-se uma superpotência da economia digital, mas seu poder certamente não se estende à língua. O novo verbo tem sido lento em sua penetração no português, provavelmente devido ao exotismo de grafia e pronúncia. Embora não seja rara, a forma googlar – ou mesmo…

Candidato
A palavra é... / 30/08/2008

A palavra “candidato” vem do latim candidatus, termo derivado do adjetivo candidus, que significa, segundo o Houaiss, “branco, alvo, cândido; vestido de branco; radioso, brilhante; belo, formoso; sereno; feliz, ditoso”. Embora todo esse leque de conotações positivas fosse obviamente bem-vindo, o sentido de candidatus nasceu literal: queria dizer apenas vestido de branco. Aqui estamos na fronteira entre a política e a moda: na Roma Antiga, os aspirantes a qualquer cargo público só se apresentavam diante dos eleitores metidos em togas imaculadamente alvas. O costume, tão arraigado que passou a nomear os próprios políticos em campanha, foi analisado da seguinte forma no início do século 18 por Rafael Bluteau, em seu Vocabulário Português e Latino, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa: “Candidato – Assim chamavam antigamente em Roma àqueles que pretendiam ser eleitos às dignidades, porque estes tais vestiam de branco, como se quisessem mostrar a candideza do seu ânimo na sua pretensão, dirigida só ao bem público; ou também porque queriam dar a entender que não fundavam nos seus merecimentos, mas na bondade e virtude dos que haviam de eleger, o sucesso da pretensão.” Já começado o século 21, Márcio Bueno, autor de A origem curiosa das palavras, acrescentou…

Nepotismo
A palavra é... / 23/08/2008

A notícia é excelente: o Supremo Tribunal Federal declarou ilegal o nepotismo, a prática de favorecer parentes com empregos públicos. Resta saber se isso bastará para extirpar uma crença tão trançada em nossa armação social – a crença no direito sagrado ao favorecimento, à mamata – que chega perto de constituir uma religião. A palavra nepotismo desembarcou no português no início do século 18. Vinha em última análise, provavelmente via francês, do latim nepos, nepotis – “sobrinho ou neto”. Mesmo antes de ganhar um nome, a prática já se espalhava feito praga por todos os cantos do poder na então colônia portuguesa. Casava-se à perfeição com a lógica de uma sociedade escravocrata que praticamente desconhecia – e levaria ainda muito tempo para começar a reconhecer – o valor do trabalho livre. A metáfora religiosa usada ali em cima é mais pertinente do que parece: a palavra nasceu para designar os privilégios de que gozavam os sobrinhos de certos papas na hierarquia da Igreja (netos não, apesar da ambigüidade da palavra latina, pois pelo menos em tese o Sumo Pontífice não devia tê-los). Nas palavras do filólogo brasileiro Silveira Bueno, fica assim: “Nepotismo – Proteção aos sobrinhos, criação italiana visando aos…

Recorde
A palavra é... / 16/08/2008

A profusão de recordes batidos nos Jogos Olímpicos de Pequim e sua extensa cobertura põem em evidência uma dúvida de pronúncia que sempre acompanhou esse termo importado do inglês record. Afinal, devemos falar récorde, palavra proparoxítona, como a maioria dos locutores e comentaristas da TV? Ou, seguindo a recomendação de dez entre dez sábios, recórde, paroxítona? Trata-se de um caso clássico em que a língua da vida real vai para um lado e a dos estudiosos para o outro. “Recorde”, estrangeirismo consagrado há décadas em todos os dicionários, pode ser substantivo – com o sentido de marca esportiva, desempenho a ser superado – ou adjetivo: tempo recorde, velocidade recorde. Até aí ninguém briga. A divergência começa na hora de definir a prosódia. Em seu Dicionário de palavras e expressões estrangeiras, Luís Augusto Fischer observa com bom humor que há “duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, rre-CÓR-dji, ou a do resto da humanidade, RRÉ-cor-dji”. É mais ou menos isso. Basta substituir, na frase de Fischer, “o resto da humanidade” por “a maioria dos brasileiros” que ela fica perfeita. Em Portugal, os falantes se inclinam por recórde. Uma possível explicação para o descompasso: os portugueses manteriam a pronúncia que record ganhou…

Olimpíadas
A palavra é... / 09/08/2008

Quem não sabe que as Olimpíadas da era moderna, disputadas desde 1896, herdaram seu nome e seu ideal de confraternização dos jogos que se realizavam na cidade de Olímpia, na Grécia Antiga? No sítio arqueológico da velha Olímpia, tombado pela Unesco, a tocha é acesa de quatro em quatro anos antes de ser conduzida ao país-sede da vez. Mas o que eram aqueles jogos é algo pouco lembrado, mesmo em momentos olímpicos. O festival de Olímpia, realizado no verão a cada quatro anos a partir do século 8 a.C., era o mais importante dos quatro grandes festivais pan-helênicos, que atraíam levas de visitantes e celebravam a unidade grega acima das divisões em Estados. O Barão de Coubertin não criou do zero sua ideologia de integração entre os povos. O Dicionário Oxford de Literatura Clássica diz que “por ocasião do festival proclamava-se uma trégua sagrada (ekekheiria), graças à qual concedia-se um salvo-conduto aos viajantes a caminho de Olímpia”. Tudo começou com uma corrida de 183 metros, à qual se somaram com o tempo uma prova de longa distância, o pentatlo, o pugilismo e as corridas de bigas. O sucesso dos jogos pode ser medido pelo estádio que os abrigava, com capacidade…

Gerundismo
A palavra é... / 02/08/2008

Uma das qualidades do decreto de regulamentação dos call centers assinado pelo presidente Lula está numa ausência: o texto não procura banir do discurso dos atendentes o famigerado gerundismo. Quem não o conhece? “Vamos estar lhe enviando uma nova via.” Ao recusar o papel de patrulha da língua, a medida se distancia de um decreto folclórico assinado ano passado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, proibindo o uso do gerúndio nas repartições públicas. Longe de defender o gerundismo, trata-se de reconhecer que os costumes lingüísticos zombam das tentativas de controlá-los a canetadas. Além disso, o decreto de Arruda confunde gerundismo e gerúndio. O primeiro é um vício de expressão que pode ou não vir a se firmar na língua. O segundo, uma forma verbal usada por Camões que hoje viceja mais no Brasil que em Portugal. Seria absurdo que, combatendo a praga (olha o gerúndio aí), matássemos também a planta. Neologismo ainda não dicionarizado, gerundismo tem sentido pejorativo. Nomeia e ao mesmo tempo critica o modismo que, depois de se firmar na fala burocrática em geral e na do telemarketing em particular, contaminou outros grupos sociais. Muita gente acredita que tenha nascido como tradução literal do inglês. No…

Genocídio
A palavra é... / 26/07/2008

As atrocidades que nomeia são mais velhas que a Bíblia, mas a palavra genocídio – extermínio deliberado, total ou parcial, de um grupo étnico, nacional ou religioso – tem apenas 64 anos. Quase a mesma idade de Radovan Karadzic, o ex-líder servo-bósnio que, preso esta semana em Belgrado, aguarda extradição para responder a processo no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia, em Haia. Entre as acusações que Karadzic enfrentará, por crimes de guerra cometidos contra os muçulmanos bósnios no conflito dos Bálcãs nos anos 1990, a de genocídio diz respeito a um crime que ainda não existia no direito internacional em 1945, quando ele nasceu. A palavra acabara de surgir. Um ano antes, o advogado polonês de origem judaica Raphael Lemkin tinha publicado nos EUA um livro sobre a ocupação nazista na Europa em que punha por escrito pela primeira vez um termo cunhado por ele mesmo com elementos do grego (génos, “tronco, raça”, da família de gênese e gente) e do latim (cidium, “ação de matar”). A mesma obra propunha uma definição de genocídio que abrangia não só a perseguição física mas também a cultural, a moral etc. Como costuma ocorrer, a realidade tinha se antecipado à linguagem….

Charge
A palavra é... / 19/07/2008

Ao mostrar o casal Barack Obama encarnando os boatos que circulam contra o candidato democrata em setores conservadores dos EUA, a capa da revista “The New Yorker” tenta, pelo exagero da cena, expor tais boatos ao ridículo. Se a estratégia corre o risco de incompreensão que sempre acompanha a ironia, o que ninguém pode negar é que toda boa charge tem isso em comum: agressividade e exagero. Ou o gênero de desenho jornalístico que filtra o noticiário pela lente do humor não teria esse nome. O francês charge, de onde veio nossa palavra, quer dizer apenas carga, mas nesse caso com o sentido de crítica contundente. Trata-se de uma extensão metafórica da acepção militar de ataque – presente numa expressão como carga de cavalaria – adaptada ao vocabulário da imprensa e especialmente ao trabalho dos desenhistas cômicos. O italiano caricatura (inicialmente, ato ou efeito de carregar) partiu do mesmo ponto e chegou a resultado parecido. Tão parecido que é lícito supor que um vocábulo tenha surgido como tradução do outro. Nesse caso, há indícios de que a caricatura veio antes: segundo o Houaiss, o primeiro registro de sua acepção moderna (fins do século 16) aparece quase cem anos à frente…

Colarinho-branco
A palavra é... / 12/07/2008

A palavra composta colarinho-branco, que traduzimos do inglês white-collar, está tão associada à expressão “crime do colarinho branco” que deixa em segundo plano sua idéia de origem, que era simplesmente dividir os trabalhadores em dois grupos: de um lado os colarinhos-brancos, com terno e gravata, alto grau de escolaridade e salários gordos; do outro os blue-collar workers, o pessoal de uniforme, mal remunerado, encarregado de trabalhos braçais. O colarinho-azul não migrou para o vocabulário do português. Ficamos só com o branco mesmo. Esse código de cores é bem americano: em grande parte das empresas daquele país, ao longo do século passado, o nível hierárquico dos funcionários era indicado por jalecos brancos e azuis. No entanto, há quem diga que as raízes são mais profundas. O primeiro registro de white-collar para qualificar o trabalhador de escrivaninha é de 1919 e aparece na obra de Upton Sinclair, autor do livro em que se baseou o filme “Sangue negro”, que valeu a Daniel Day-Lewis o Oscar de melhor ator. Supõe-se, porém, que a palavra tenha influência do colarinho engomado dos clérigos de várias religiões cristãs. Por séculos, foi nesses grupos que a sociedade européia recrutou não apenas sacerdotes, mas a maioria de seus…

Calote
A palavra é... / 07/07/2008

No dia em que for contada a história da crise econômica que, com maior ou menor força, aflige hoje o mundo inteiro, é provável que o primeiro capítulo seja dedicado a um calote, ou melhor, um megacalote: o das hipotecas subprime no mercado imobiliário dos EUA. Caída a primeira peça do dominó, os efeitos seguintes foram – estão sendo – complexos demais para resumir numa palavra, mas uma coisa é certa: o calote sempre volta a aparecer. Quando a disparada da inflação faz muita gente descobrir que calculou mal sua capacidade de endividamento, por exemplo. A peça de dominó do parágrafo acima não está ali por acaso. É controversa a origem de calote – palavra antiga, registrada em português desde 1771, segundo o Houaiss –, mas a tese mais provável sustenta que ela veio do francês culotte. Não o calção, mas um velho termo do jogo de dominó que, como afirma o etimologista Antônio Geraldo da Cunha, designava “as pedras com que cada parceiro fica na mão, por não poder colocá-las”. A relação do culotte lúdico com a dívida não paga parece forçada à primeira vista, mas não é tanto assim. O calote pode ser entendido como o entulho que…

Propina
A palavra é... / 28/06/2008

Num momento em que se teme uma explosão do mercado de propinas como efeito colateral da lei de tolerância zero para o álcool no trânsito, vale lembrar que a palavra, como se sabe, quer dizer gorjeta, gratificação extra por serviço prestado, mas não traz de berço conotações de prática escusa. Se no Brasil ela é empregada quase exclusivamente em contextos negativos, como parte do arsenal da corrupção, isso tem mais a ver com nossa cultura do que com sua etimologia. A propina surgiu no século 17, vinda do latim tardio propina, “dar de beber”, termo saído por sua vez do grego por um caminho curioso. Quem explica é o dicionarista Rafael Bluteau, autor do clássico Vocabulário Português e Latino: “Propinar – Os latinos tomaram esta palavra dos gregos, os quais nos seus banquetes costumavam encher um copo de vinho, e depois de dizer Tibi propino, ‘Bebo à tua saúde, ou faço-te um brinde’, bebiam um trago, e logo davam o copo a algum dos convidados”. Propina nasceu, assim, como o ato – legítimo e até elegante – de dar de beber e comer a quem se desejava agradar ou homenagear. Ninguém precisa ser cínico para enxergar aí o caldo de…

Dunga
A palavra é... / 21/06/2008

Dunga é o maioral, o ás, o bambambã, o batuta, o melhor de todos, o rei da cocada preta, o chefão. E para evitar que se interprete a frase anterior como uma defesa do contestado técnico da seleção brasileira, convém esclarecer que antes de ser o nome profissional do gaúcho Carlos Caetano Verri, capitão da equipe tetracampeã mundial em 1994, e mesmo antes do anão da Branca de Neve, dunga já era um regionalismo brasileiro, substantivo comum e adjetivo, com os sentidos listados acima. Ironia? Pode-se ler assim, claro. O próprio uso popular do termo dunga se presta a isso. Sua primeira acepção, de “sujeito sem igual em sua especialidade, exímio”, ganhou no Nordeste, segundo o dicionário Houaiss, um emprego irônico como “homem de influência local, chefe, mandão”. Convenhamos que, desde os tempos em que desfilava nos gramados suas qualidades de volante raçudo e dotado de forte espírito de liderança, Dunga, jogador de técnica limitada, estava mais para a segunda acepção do que para a primeira. Como a sonoridade não nega, dunga veio da África, afirma Nei Lopes, estudioso da cultura afro-brasileira e autor do Novo dicionário banto do Brasil. Lopes foi buscar sua origem no quicongo (língua da família…

Ressurreição
A palavra é... / 14/06/2008

O que o governo federal (ou seria melhor, diante da preocupação geral em não deixar impressões digitais, usar aqui um sujeito indeterminado?) está tentando fazer com a CPMF, poucos meses após sua morte, tem em nossa língua um nome cheio de conotações religiosas: ressurreição, do latim resurrectionis, parente do verbo ressurgir. Só pode ressuscitar – isto é, reanimar-se, manifestar-se outra vez – aquele ou aquilo que estava morto. Como se sabe, a ressurreição é uma impossibilidade no reino da ciência e, no dogma católico, um poder reservado a Deus. No mundo das metáforas, porém, nada nos impede de empregá-la com liberalidade. Entre muitos outros casos de volta à vida, fala-se por aí na ressurreição de modismos, de carreiras e até, no sentido figurado, de pessoas que estavam apagadas ou esquecidas. Se de algum tempo para cá ficou mais comum, pelo menos em certos círculos, usar nesses casos a palavra revival, emprestada do inglês, vale observar que ela significa a mesma coisa – não faltam nem os contornos religiosos. Ateus, agnósticos ou pessoas de outras orientações espirituais que se incomodarem com a forte carga cristã de ressurreição têm outras escolhas no dicionário. A primeira é clássica: tratar a CSS como uma…

Milícia
A palavra é... / 07/06/2008

A palavra milícia ganhou projeção nacional depois que membros de um desses grupos torturaram jornalistas no Rio de Janeiro. No entanto, séculos antes de adquirir o sentido hoje dominante no Brasil – grupo de policiais dedicados à atividade criminosa de vender segurança em áreas abandonadas pelo Estado –, a milícia brotou da mesma fonte belicosa, mas respeitável, que daria em termos como militar e militante. A família saiu da raiz latina miles/militis, isto é, soldado, por meio de militia (serviço militar, campanha). O primeiro registro de uma acepção que diferenciava milícia e Exército apareceu no francês do século 17: milice ganhou o sentido suplementar de “tropa de cidadãos recrutada para reforçar as forças regulares em caso de necessidade”. A palavra ainda não estava associada ao crime: as milícias se punham a serviço dos militares de carreira. Esse sentido chegou poucos anos depois ao inglês militia. Em português, no início do século 18, o pioneiro “Vocabulário Português e Latino”, de Raphael Bluteau, retratava uma abertura semântica semelhante: “Gente miliciana é a gente bisonha, e soldados de ordenança, em que entram sapateiros, alfaiates e outros oficiais mecânicos”. (Bisonho, no caso, é recruta, soldado inexperiente.) A reputação da palavra ficou muito comprometida em…

Amazônia
A palavra é... / 29/05/2008

Assim como o estado da federação, a floresta que alguns gringos gostariam de internacionalizar deve seu nome ao rio. Tudo começou com um potamônimo, palavrão que quer dizer “nome de rio”. Coube ao explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a descer o Amazonas de ponta a ponta, rebatizar em 1542 aquele marzão doce – a princípio chamado pelos colonizadores, justamente, Rio Santa Maria de la Mar Dulce – de Rio (das) Amazonas, após enfrentar uma tribo de ferozes guerreiras armadas de arco e flecha às suas margens. A preposição foi tragada pelo tempo, e as certezas também. Seriam tapuias? Segundo uma tese, as “guerreiras” de Orellana eram na verdade mancebos cabeludos. De uma forma ou de outra, a maioria dos estudiosos é firme ao sustentar que o mito grego das amazonas está por trás de tudo, tratando como mera curiosidade a tese alternativa de que a palavra teria vindo de amassunu, termo indígena para “águas ruidosas” (e não “águias”, erro reproduzido em muitos sites brasileiros). Como a etimologia é um campo de batalha em que pululam versões e mal-entendidos, a palavra amazona também carrega um qüiproquó de origem. O vocábulo foi provavelmente importado do iraniano ha-mazan (“guerreiras”), mas, adotado…

Casal (gay)
A palavra é... / 21/05/2008

“Casal gay está certo?”, perguntam-me de vez em quando. Por trás da curiosidade lingüística, mal se esconde o desejo de encontrar no idioma um solo “natural” onde enraizar uma noção nada natural: a de que, se os pares homossexuais não têm sequer o direito legítimo à denominação de casal, outros direitos também não devem ter. No entanto, não há nada errado, do ponto de vista da etimologia, com a expressão casal gay. Nenhuma língua é natural, mas sempre uma construção histórica. Reflete todas as facetas da sociedade que a fala, inclusive preconceitos, mas também costuma conter os antídotos para esses preconceitos – é só procurar. Longe de ser uma ciência exata, o estudo das palavras está mais para ciência política. A acepção mais corrente de casal é mesmo “par composto de macho e fêmea, ou marido e mulher” (Aurélio), o que exclui os gays. Mergulhando na história da palavra, porém, vamos descobrir que o sentido original de casal era bem diferente: casa pequena e rústica ou conjunto de habitações desse tipo. Foi por extensão de sentido que a palavra passou a nomear também quem ali morava. Como diz o filólogo Antenor Nascentes: “No sentido de par de animais de sexos…

Inflação
A palavra é... / 15/05/2008

O que é, o que é? Nunca some por completo, corroendo devagarzinho nossas riquezas, mas só lhe damos atenção quando ameaça fugir ao controle e pôr a casa abaixo? É curioso que a inflação, mesmo tendo semelhança com uma colônia de cupins, seja representada por bicho tão diferente, o dragão, num dos mais vigorosos lugares-comuns da linguagem jornalística. O monstro mitológico é tudo o que o cupim não é – imaginário, gigantesco, espalhafatoso. Mais adequado para representar a hiperinflação, estado agudo em que o valor da moeda vira pó e a vida econômica, pesadelo, o dragão parece tirar sua força deste alerta: cuidado, a qualquer descuido o caos pode se instalar. A convivência do Brasil com a inflação, que já foi íntima, tornou-se mais distante depois que, em 1994, o Plano Real a reduziu a níveis internacionalmente aceitáveis. Mesmo quando ela não saía do noticiário, pouca gente se dava conta de que a palavra, do latim inflationis, é parente do verbo inflar, isto é, encher(-se) de ar. O primeiro sentido de inflação em português foi registrado no século 16 e tinha contornos médicos: inchaço, intumescimento, dilatação. No século 18 surgiu o significado expandido de vaidade ou soberba, sentimentos que a…

Grau (de investimento)
A palavra é... / 09/05/2008

A tradução literal de investment grade por grau de investimento, embora ligeiramente desajeitada à primeira vista, não chega a soar estranha a nossos ouvidos lusofônicos porque a idéia de grau como nota que se tira numa prova está presente na linguagem comum, e no fim das contas trata-se disso mesmo – um conceito, uma posição em determinada escala de valores. No exame da banca financeira internacional, o Brasil foi bom aluno e deu mais um passo à frente, subiu um degrau, credenciando-se a uma recomendação firme de investimento. Não faltará quem considere a metáfora escolar um tanto humilhante para um país soberano. Paciência: assim caminha o mundo globalizado. Esse grau, no fundo, não é outro senão aquele que se usa para escalonar vários sistemas de medição – da temperatura à proximidade em relações de parentesco, do teor alcoólico das bebidas à potência das lentes dos óculos. O que muda, naturalmente, é o contexto, o sistema. Em todos eles, porém, o grau corresponde sempre a um passo da escala. E é exatamente do sentido de passo (gradus em latim) que a palavra vem. A presença de gradus em nossa língua é robusta, embora nem sempre se deixe detectar a olho nu….

Grau (de investimento)
A palavra é... / 09/05/2008

A tradução literal de investment grade por grau de investimento, embora ligeiramente desajeitada à primeira vista, não chega a soar estranha a nossos ouvidos lusofônicos porque a idéia de grau como nota que se tira numa prova está presente na linguagem comum, e no fim das contas trata-se disso mesmo – um conceito, uma posição em determinada escala de valores. No exame da banca financeira internacional, o Brasil foi bom aluno e deu mais um passo à frente, subiu um degrau, credenciando-se a uma recomendação firme de investimento. Não faltará quem considere a metáfora escolar um tanto humilhante para um país soberano. Paciência: assim caminha o mundo globalizado. Esse grau, no fundo, não é outro senão aquele que se usa para escalonar vários sistemas de medição – da temperatura à proximidade em relações de parentesco, do teor alcoólico das bebidas à potência das lentes dos óculos. O que muda, naturalmente, é o contexto, o sistema. Em todos eles, porém, o grau corresponde sempre a um passo da escala. E é exatamente do sentido de passo (gradus em latim) que a palavra vem. A presença de gradus em nossa língua é robusta, embora nem sempre se deixe detectar a olho nu….

Travesti
A palavra é... / 30/04/2008

A repercussão do caso de polícia que envolveu o craque Ronaldo e o travesti André/Andréa no Rio de Janeiro promete dar cores mais brasileiras a uma palavra francesa que, mesmo sendo um item de nossa pauta de importações lingüísticas, é vista em todo o mundo como coisa nossa, muito nossa. Mais ou menos como ocorre com o futebol. Travesti nasceu em francês no século 16 como adjetivo, particípio de travestir, verbo que a princípio tinha a grafia transvestir, mais próxima do original latino trans + vestire. A substituição de trans por tra foi uma influência do italiano travestire. De saída, travesti carregava o sentido amplo e ainda não especializado de “disfarçado, vestido com roupas de outra condição, idade ou sexo”. Essa largueza semântica também é possível hoje em português, mas apenas quando se trata do verbo: pode-se falar em “bandido travestido de deputado”, por exemplo. Travesti é outra história. No início do século 20, quando, já no papel de substantivo, travesti e seus termos irmãos se espalharam por diversas línguas, todos já levavam o sentido estrito de homossexual que se veste com roupas do sexo oposto e, especialmente, o de homem que tenta se parecer com mulher, inclusive recorrendo a…

Madrasta
A palavra é... / 25/04/2008

A palavra madrasta está envolta em conotações negativas há tanto tempo que, pode-se argumentar, alguma elas devem ter aprontado. Além dos contos de fada, com Cinderela puxando a fila, ditos populares são testemunhas da antiguidade do problema. Rafael Bluteau, em seu dicionário do início do século 18, registrava os seguintes adágios portugueses: “Madrasta e enteada sempre andam em baralha” (isto é, em conflito, em joguinhos de intrigas); e o genialmente sucinto “Madrasta, o nome lhe basta”. Bastará mesmo? Será que o sentido negativo já estava lá no momento da criação da palavra? Madrasta saiu do latim popular matrasta, de significado idêntico: a nova mulher do pai. Trata-se de uma das derivadas de mater, vinda por sua vez da imemorial raiz indo-européia matr-, ancestral tanto do sânscrito mata quanto do inglês mother. A idéia de mater, mãe, matriz, é tão vital na língua que aparece embutida em lugares inesperados – na matéria, por exemplo, ou na madeira. Mas a madrasta, afinal, tem ou não tem um lado escuro desde sua formação? A maioria dos filólogos lava as mãos, mas Antenor Nascentes, nome clássico da etimologia brasileira, aposta que sim: segundo ele, a palavra latina nasceu como um “despectivo” – forma depreciativa,…

Adultescente
A palavra é... / 18/04/2008

Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa. Seu trânsito internacional deve-se ao fato de o novo tipo humano que nomeia ser encontrável em muitos países. É só olhar em volta: adultescentes não faltam na paisagem contemporânea. Talvez você tenha um ou dois dentro de casa. Talvez, meu Deus, você seja um. A palavra se difundiu como um daqueles rótulos que a cultura de massa adota para vender camisetas. Nesse sentido, é prima de expressões midiáticas como “geração X”, “metrossexual” etc. No entanto, “adultescente” tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse novo nicho de mercado detectado no fim do século 20: o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que freqüentemente prolongam sua dependência…

Dossiê
A palavra é... / 11/04/2008

A palavra dossiê – do francês dossier, “conjunto de documentos sobre determinado assunto ou pasta em que eles são agrupados” – é um bom exemplo de estrangeirismo que criou raízes rapidamente em nossa língua e parece disposto a se tornar eterno. Alcançou essa proeza graças à capacidade de, justamente por não pertencer ao velho vernáculo, se revestir de uma grossa camada de conotações excitantes, misteriosas e explosivas, que a literatura tratou de explorar. Com suas promessas de segredos cabeludos, seria um evidente empobrecimento trocar hoje a palavra dossiê por uma tradução técnica e convencional na linha de “documentação, processo, pasta”, como sempre pregaram os puristas, defensores de uma pureza (impossível) do idioma. Se alguma dúvida a respeito disso ainda persistia, o papel turbulento desempenhado pelos dossiês na política brasileira recente tratou de liquidá-la. O primeiro registro do vocábulo em nossa língua data de 1958, segundo o dicionário Houaiss. Muitos séculos, portanto, depois do surgimento dessa acepção de dossier em francês, derivada no fim das contas do latim vulgar dossum, “dorso, costas” – provavelmente em referência à pasta em que se agrupam os tais documentos, com sua etiqueta no dorso. Seja como for, após seu desembarque por aqui o dossiê não…

Maomé
A palavra é... / 02/04/2008

O reconhecimento, pelo Vaticano, de que a população muçulmana ultrapassou numericamente a católica fez toda a imprensa ocidental se voltar ao mesmo tempo para Meca, capital espiritual da religião fundada pelo profeta Maomé. Na hora de escrever o nome do pai do islamismo é que começou o descompasso: Maomé virou Muhammad em inglês, Mahomet em francês, Mahoma em espanhol e assim por diante. Como explicar isso? Numa palavra: transcrição. Em muitas palavras: a técnica de transportar para uma língua, com base na fala, algo expresso em outra, quando esta adota um sistema de escrita diferente. Como o nome original de Maomé é escrito no alfabeto árabe, sua grafia no Ocidente será sempre uma transposição. Esta pode ser feita letra por letra (transliteração) ou com base nos sons. Neste caso, depende das características do idioma que importa o termo, pois é ao perfil sonoro do vocábulo original que se busca ser fiel. Mesmo que a grafia sugira abismos, a pronúncia de Maomé é semelhante à do francês Mahomet e mesmo à do inglês Muhammad – que, só para complicar, segue o método da transliteração. Qualquer idéia de fidelidade à forma “original” é, portanto, ingênua. Durante anos, a “Folha de S.Paulo” só…

Maiô
A palavra é... / 28/03/2008

A palavra “maiô” parecia destinada a ter sabor nostálgico para sempre. Nome de um traje feminino de banho inteiriço tornado conservador pela explosão mundial do duas-peças, ou biquíni, o maiô nunca desistiu de tentar rentrées periódicas. Foi necessária, porém, uma mudança de praia – ou piscina – semântica para que invadisse triunfalmente o século 21. Não mais como peça feminina, mas unissex. Não mais estrela em passarelas, mas artigo de alta tecnologia no esporte de competição. “Maiô” foi resultado da aclimatação em português, em algum momento da primeira metade do século 20, do francês maillot. A palavra dava conta entre nós dos cada vez mais ousados trajes de banho femininos. Em sua língua original, maillot era um vocábulo vetusto, mas com diferentes acepções. Começara sua carreira no século 16 como sinônimo de cueiro ou fralda, pano de enrolar recém-nascido. Só no início do 19 surgiria a acepção de malha de balé, que, na primeira década do século passado, se expandiu para abarcar trajes colantes de banho. Maillot veio, em última análise, do latim macula, ancestral de “malha” e “mancha”. A adaptação da grafia e o lugar confortável ocupado pela palavra em português nada têm de raros. Inúmeros vocábulos franceses no…

Engarrafamento
A palavra é... / 19/03/2008

Como ocorre nos engarramentos, que se espalham rapidamente embora sua origem nem sempre seja fácil de determinar, a idéia de que os carros retidos num congestionamento de trânsito estão presos como o líquido numa garrafa, ocupando todos os espaços e condenados a sair lentamente, por um gargalo estreito, é uma metáfora que se espalhou pelas línguas latinas ali pelo início do século passado. Provavelmente jamais saberemos com certeza qual foi o país que, diante daquele efeito colateral do desenvolvimento urbano, usou primeiro a imagem da garrafa (palavra antiqüíssima, vinda ao que tudo indica do árabe). O certo é que a idéia existe também no francês embouteillage, no espanhol embotellamiento e no italiano imbottigliamento. Todos eram termos existentes desde o século 19 em sua acepção literal de “ato de meter em garrafas”, mas passaram a fazer hora extra como sinônimo de tráfego lento ou bloqueado quando os automóveis começaram a se popularizar. Os primeiros registros desse uso em francês datam dos anos 1920. Um pouco antes, por volta de 1917, começara a fazer sucesso no inglês a expressão traffic jam, que carrega o mesmo sentido e evoca imagem semelhante: a palavra jam tem entre suas acepções a de atochar, comprimir algo…

Cachorro
A palavra é... / 12/03/2008

Os brasileiros que se queixaram de ter sido chamados de “cachorros” por agentes da imigração espanhola podem ter cometido um erro de tradução. Foi o que argumentou na terça-feira, em reunião com membros da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o embaixador da Espanha no Brasil. “Cachorro em espanhol é diferente, significa filhote”, afirmou Ricardo Peidró. Mais uma exibição do velho esporte diplomático do “nó em pingo d’água”? Sim e não. A distinção não deve ser suficiente para amenizar a dor de quem se viu barrado injustamente no aeroporto, mas o fato é que, do ponto de vista lingüístico, esta curiosidade se impõe: Peidró está certo sobre a assimetria semântica de “cachorro” nos dois lados do Atlântico. Além da Espanha, Portugal também usa o termo apenas para animais filhotes. Do latim catulus (filhote de cão), com o acréscimo da terminação basca orro, foi no português brasileiro que o significado de “cachorro” se expandiu até se confundir com o de cão (em espanhol, perro). Isso parece ter obedecido a razões de religiosidade ou superstição: como “cão” é um dos nomes do diabo, a idéia era evitar seu uso. E daí? Bem, uma conseqüência dessa distinção é que, da…

Grátis
A palavra é... / 07/03/2008

Palavrinha adorável, “grátis” nunca saiu de moda, mas alguns anos atrás pouca gente teria sido capaz de prever que a internet a transformaria em carro-chefe. Mera – e antiga, já registrada em 1502 – transposição para o português do latim gratis, é derivada do adjetivo latino gratus, que tem sentido ativo (“que agrada, que delicia”) e passivo (“agradecido, reconhecido”). A gratuidade traz do berço, portanto, a idéia de que aquilo que é oferecido livre de custo busca agradar, é um favor, geralmente em reconhecimento ao valor de alguém. O que significa dizer que, do outro lado do balcão, de frente para o grátis, existe sempre uma pessoa que deve se sentir grata. A ambivalência ativo-passivo se transmitiu a outros termos da família: olhando bem, é possível ver a presença do mesmo “grat” latino na gratificação e no agradecimento, ou seja, dando conta tanto do que agrada quanto de quem, sendo agraciado, demonstra gratidão. Engraçado? Juro que esse grande congraçamento de palavras aparentadas, talvez gracioso para uns, mas certamente uma desgraça de etimologista doido para outros, não está aqui gratuitamente, só para fazer graça. As palavras grifadas no parágrafo anterior – algumas, como “grátis”, vindas diretamente do latim, enquanto outras se…

Porrada
A palavra é... / 27/02/2008

“Se porrada educasse as pessoas, bandido saía da cadeia santo.” Que o presidente Lula fala a língua do povo já se sabia. O que ainda choca muita gente – mas talvez não devesse, num país capaz de transformar em febre a grotesca coreografia do “créu” – é ouvir de tão alta autoridade um palavrão desse quilate. “Porrada” e “porra” são tabuísmos tão velhos quanto o português, mas, mesmo sendo figurinhas fáceis na linguagem cotidiana, ainda não ganharam acesso aos salões do discurso educado. Por quê? Como se sabe, porrada tem dois sentidos principais: o de “pancada, cacetada”, que Lula usou, e o de “grande quantidade”. O primeiro não deveria, a rigor, ser considerado palavrão. Vem da acepção mais antiga de porra, hoje em desuso, que nada tinha de grosseira: clava, maça, cacete, arma dotada de cabeça redonda e haste alongada. Segundo o filólogo Corominas, deve seu nome – acredite quem quiser – ao alho-porro ou poró, com o qual tinha semelhanças de forma, por meio do latim porrum (alho). Se a porrada-pancada não é bem um palavrão, a associação de porra e seus derivados com sentidos chulos tornou-se tão dominante que contaminou tudo – até o alho, chamado de “poró”…

Cuba
A palavra é... / 20/02/2008

A origem do nome Cuba é uma zona conflagrada em que teses eruditas se enfrentam há tempos, sem um vencedor à vista. Se essa guerra língüística de guerrilhas não se compara em ardor àquela outra, política e reavivada pela renúncia de Fidel Castro, entre castristas a anticastristas, ostenta em compensação um número maior de lados na disputa. Embora cuba seja uma palavra espanhola (e também portuguesa) de bom pedigri latino – derivada de cuppa e com o sentido de tonel, recipiente grande, especialmente para guardar bebida –, o nome do país caribenho nada tem a ver com isso. Todas as teses etimológicas buscam a origem de Cuba em termos indígenas: coa + bana (“lugar grande”), ciba (“montanha”) e ainda cubanacan (“lugar central”). O Houaiss registra que a palavra aparece no diário de Colombo em 1492. Isso não impediu o navegador de batizar a ilha à moda européia, chamando-a Juana em homenagem a Juan de Castilla, herdeiro do trono espanhol. Mais tarde, os colonizadores ainda tentaram emplacar os nomes de Fernandina, Santiago e Ave María. Acabou prevalecendo Cuba mesmo. O interesse da questão escapa de ser simplesmente acadêmico devido à transformação pela qual passou a palavra a partir da revolução de…

Cara-de-pau
A palavra é... / 15/02/2008

A cara-de-pau não é apenas um regionalismo brasileiro, usado com o mesmo sentido – de descaramento, desfaçatez, cinismo, desembaraço diante dos maiores apertos – que, em algumas regiões de Portugal, tem a expressão “cara estanhada”. Mais que um jeito de falar, trata-se de uma instituição, como provam mais uma vez casos como a farra dos cartões corporativos e o escândalo que envolve o reitor da UnB. É difícil dizer quando surgiu a cara-de-pau – e aqui estamos falando do termo, naturalmente, visto que o comportamento nomeado por ele é tão velho quanto a humanidade. Ausente de dicionários antigos, a palavra composta, que tanto pode exercer o papel de substantivo quanto o de adjetivo, aparece nos léxicos modernos como uma forma subsidiária de “caradura”, vocábulo hoje menos usado, do qual é provavelmente uma variação cômica. Se caradura foi registrada pela primeira vez por um lexicógrafo em 1913, as abonações literárias de cara-de-pau que aparecem no bom “Dicionário de Usos do Português do Brasil”, de Francisco S. Borba, datam dos anos 1960 e 1970 e foram extraídas de obras célebres por fixar a linguagem falada no submundo de grandes cidades brasileiras, como “Navalha na carne”, de Plínio Marcos, e “Malagueta, Perus e…

Dieta
A palavra é... / 30/01/2008

Eis uma das lições que o estudo da origem das palavras nos ensina: somos menos moderninhos do que imaginamos. Dada a obsessão de nosso tempo com o corpo esbelto e saudável, quase se poderia desculpar quem, sem parar para pensar muito, imaginasse ser a palavra “dieta” uma invenção do século 20, quem sabe até adaptada do inglês diet. Quase se poderia desculpar – se não fosse um erro imperdoável. Em português, “dieta” nasceu no século 15, mas sua matriz chega perto de se perder num passado imemorial. A palavra veio do latim diaeta, “parcimônia à mesa”, um dos requisitos da mens sana in corpore sano, “mente sã em corpo são”. Diaeta, por sua vez, era derivada do grego díaita, “modo de viver”. Convém não esquecer que o culto ao corpo esbelto e saudável nasceu na antiga Grécia, e que talvez fosse ainda mais importante para eles que para nós. Não surpreende que a primeira acepção de dieta em velhos dicionários já tivesse, portanto, fumaças científicas. Tratava-se do regime pregado por uma certa corrente da medicina, visando ao equilíbrio total do organismo. Incluía, além de comida e bebida, “o exercício, a quietação, o ar que respiramos, as paixões d’alma, as evacuações…

Motoboy
A palavra é... / 25/01/2008

A palavra “motoboy” parece ter vindo do inglês, mas é uma criação brasileira – mistura de motoqueiro e office boy (contínuo), esta sim uma locução importada. Tudo indica tratar-se de um vocábulo que teve gestação lenta e gradual na agitação urbana de São Paulo, mas que, uma vez pronto, atingiu o estrelato da noite para o dia: em agosto de 1998, “motoboy” ganhou fama nacional na esteira dos crimes de Francisco de Assis Pereira, apelidado pela imprensa de “Maníaco do Parque”, que tinha essa profissão. O dicionário Houaiss aposta justamente em 1998 como ano de surgimento ou consolidação da palavra em nosso vocabulário, no que parece acertar, embora prefira a desusada grafia “motobói”. O caso de motoboy bagunça uma certa visão de mundo apocalíptica, infelizmente de larga difusão no país, em que o português brasileiro é retratado como dodói e indefeso diante do bombardeio de palavras importadas do inglês. Ao revelar um idioma em plena posse de suas faculdades criativas, trabalhando com peças de qualquer origem que estejam à disposição e dando-lhes uma feição própria, “motoboy” atropela a idéia de uma língua apática, mera receptadora de mercadoria contrabandeada. Lançado há quatro anos, o curioso livrinho “Inglês Made in Brasil” (editora…

Apagão
A palavra é... / 18/01/2008

O Brasil está de parabéns pelo apagão. Não, o colunista não pirou. Motivo de orgulho é a palavra e não aquilo que ela nomeia – o catastrófico colapso de energia que passou raspando em 2001 e que agora, quase sete anos de imprevidência depois, uma nova estiagem volta a transformar em ameaça. Uma ameaça que os sucessivos desmentidos do governo, saindo pela culatra, tornam cada dia mais palpável. Nomear uma coisa é o primeiro passo para dominá-la, eis a história da humanidade. É nesse sentido que o apagão merece ser comemorado. É fácil esquecer, mas entre nós a palavra surgiu outro dia mesmo. O dicionário Houaiss aposta em 1988 como data de “nascimento”. Pode ser, mas a novidade pegou aos poucos: no “Jornal do Brasil”, para ficar em um único exemplo, a palavra estreou em 1996. Até então nossa língua dispunha apenas de “blecaute” – forma aportuguesada do inglês black-out – quando queria condensar num só vocábulo o horror de uma crise de escassez de energia. Nada contra blecaute, anglicismo bem plantado em nossa cultura popular graças ao nome artístico do cantor – negro, naturalmente – Otávio Henrique de Oliveira (1919-1983), intérprete das marchinhas “General da Banda”, “Maria Candelária” e…

Verão
A palavra é... / 11/01/2008

Estação brasileira por excelência, eixo em torno do qual giram, nesta terra bronzeada, os sonhos de lazer e as engrenagens de indústrias como as da moda, do turismo e da boa forma, o verão parece tão essencial e eterno quanto a própria natureza. Engano. As estações como as conhecemos se firmaram em nossa língua a partir do século 16, semeando confusão por todo o 17 e vitimando, no início do 18, o primeiro grande dicionarista da língua portuguesa, Rafael Bluteau, que abre assim seu verbete Verão: “Querem alguns que essa palavra signifique Primavera”. Acontece que antes disso, quando era comum encontrar o verão na grafia ueerãão, a divisão das estações não estava consolidada num sistema científico em torno de dois equinócios e dois solstícios – momentos em que o Sol está respectivamente mais próximo e mais distante da linha do Equador – mas fundada em percepções empíricas. Isso fazia com que, no castelhano, em que tais palavras se firmaram primeiro, as fases do ano fossem cinco, segundo o filólogo catalão Joan Corominas. Nessa conta torta, a metade do ano correspondente ao calor e ao “bom tempo” se dividia em três segmentos: primavera (do latim primo + vere, o primeiro bom…

Pequim/Beijing
A palavra é... / 31/12/2007

Os Jogos Olímpicos de 2008 serão disputados em Pequim ou em Beijing? Esta promete ser a questão lingüística mais candente do ano que vai começar. Como no caso Birmânia/Mianmar, já abordado aqui, um lado acusa o outro de estar “errado”, mas pouca gente sabe por que pensa assim. Não cabe falar em “erro”, mas em opção. A minha é pela forma consagrada em português há séculos – Pequim. A semelhança com a polêmica birmanesa é superficial. Para que Pequim se visse transmudado em Beijing (e Cantão em Guangzhou, Hong-Kong em Xianggang etc.), não houve a criação de um novo nome. Deu-se apenas, em 1979, a adoção pela República Popular da China – mas não por Taiwan (Formosa) – de um novo sistema de romanização, ou seja, de transliteração do mandarim para o alfabeto latino: o sistema Pinyin. A intenção era boa: acabar com a sopa de letrinhas que corria o mundo. Muitos sistemas vigoraram ao longo da história. O mais influente foi o de Wade-Giles, criado no século 19 e dedicado à anglicização, à adaptação para o inglês, que deu em Peking. (O português nada deve a ele. Pequim já era Pequim desde as grandes navegações.) Ocorre que país algum…

Senado
A palavra é... / 22/12/2007

Da novela que estorricou o ex-presidente da casa, Renan Calheiros, à que terminou com a derrota do governo na votação da CPMF, a sombra do Senado estende-se, comprida, sobre o ano de 2007. A palavra é derivada do latim senatus, “conselho de anciãos”, o que torna o Senado parente de vocábulos respeitáveis como senhor e sênior, mas também de termos menos lisonjeiros, como senectude e senilidade. O Senado brasileiro comemorou 180 anos em 2006. A origem da idéia de que os idosos, mais sábios, são indicados para guiar a coletividade perde-se no passado. Rafael Bluteau, patrono dos dicionaristas da língua portuguesa, registrou no início do século 18 que “os egípcios e os persas, à imitação dos hebreus, compuseram o seu Senado de homens velhos, e os lacedemônios e cartaginenses observaram esta circunstância tão rigorosamente que, entre eles, para chegar a ser senador, era preciso ter chegado aos sessenta anos de idade”. (Talvez fosse uma boa idéia, não? Renan, que em setembro fez 52 anos, nem teria pisado naquele carpete azul. Brincadeiras à parte, o “conselho de anciãos” ficou no passado: no Brasil, a idade mínima para que alguém se candidate ao Senado é de 35 anos, enquanto para a Câmara…

Greve de fome
A palavra é... / 14/12/2007

A palavra “greve”, aquilo que o bispo Luiz Flávio Cappio voltou a fazer, vem – como tantas inconveniências, diria um ultraconservador – do francês. Sua história começa no século 12 com o vocábulo grève, “praia, terreno de areia ou cascalho à beira-mar ou beira-rio”. Antes de adquirir seu sentido político, a palavra passou a batizar uma praça de Paris, à beira do Sena, que por ter piso arenoso e sem calçamento era chamada de Place de Grève (hoje Place de l’Hôtel-de-Ville). Segundo o Houaiss, o local era “ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego ou descontentes com as suas condições de trabalho; daí a expressão faire grève (1805)” – isto é, “fazer greve”, já então com o sentido de interromper coletivamente o trabalho como forma de protesto ou reivindicação, que mais tarde seria ampliado para outras modalidades de recusa, entre elas a greve de fome. E por que os trabalhadores se reuniam naquela praça? Explica Márcio Bueno, autor do bom livrinho “A origem curiosa das palavras” (José Olympio): “Nesse local funcionou durante muito tempo a Bolsa do Trabalho, órgão encarregado de cadastrar desempregados”. O primeiro registro de “greve” em português é de 1873, mas até as primeiras décadas…

Dólar
A palavra é... / 07/12/2007

Apesar dos gráficos que lhe dão um ar intimidador, o futurismo é uma ciência tão inexata em matéria econômica quanto no futebol. Sim, o dólar pode estar se aproximando do fim de seu ciclo como âncora cambial da economia mundial, mas também pode estar atravessando uma turbulência passageira. Quem sabe? O mergulho na origem da palavra revela pelo menos uma verdade: também do ponto de vista lingüístico, nada é eterno, tudo tem começo e – naturalmente – fim. Sinônimo universal de dinheiro para várias gerações, moeda mitológica que, sobretudo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está na base das relações de amor e ódio travadas entre o império americano e o restante do mundo, o dólar dos EUA inspirou o batismo da moeda de uma penca de países, da Austrália ao Zimbábue. Diante de tal exuberância, é fácil esquecer que há mais de dois séculos ele nasceu humilde, da costela de outra unidade monetária. O ancestral mais antigo de dollar é o alemão taler, moeda cunhada com prata das minas da cidade denominada Vale de São Joaquim, na região da Boêmia, a partir do início do século 16. Hoje a cidade fica na República Tcheca e se chama Jáchymov,…

Livro
A palavra é... / 26/11/2007

Que editores e livreiros percam o sono, é compreensível. Mais difícil é entender o nervosismo que domina o debate entre simples leitores sobre “o fim do livro impresso”. O clima costuma ficar tenso dos dois lados da linha que, numa simplificação caricatural, divide a humanidade entre os deslumbrados da eletrônica e os luditas de Gutenberg. Embora seja cedo para dizer se a engenhoca chamada Kindle será mesmo um marco na história da leitura, é certo que o livro impresso em papel, um achado tão genial que há cinco séculos se mantém inalterado na essência, está à espera de seu próprio iPod. Encontrado um suporte prático e popular, a leitura mergulhará numa era inevitável: a da transferência de bibliotecas inteiras para discos minúsculos. Questão de tempo – as vantagens são grandes demais. Isso não quer dizer que o livro como o conhecemos vá desaparecer. Na pior das hipóteses, deve ter sobrevivência garantida como objeto fetichista de consumo sofisticado, convivendo com os Kindles da vida pelos próximos séculos. Para desfazer um equívoco comum nessa discussão – o de que a era eletrônica decretará o fim da própria idéia de “livro” – a história da palavra é instrutiva. “Livro” vem do latim liber,…

Tupi
A palavra é... / 19/11/2007

“Tupi or not Tupi, that is the question.” A provocação lançada pelo escritor modernista Oswald de Andrade em seu “Manifesto antropófago”, de 1928 – uma brincadeira com o “ser ou não ser” de Hamlet – tem ressonâncias profundas na história do Brasil. Mais profundas do que podem parecer neste início de milênio em que Tupi, para a maioria dos brasileiros, é pouco mais que o nome indígena de um campo da Petrobras na Bacia de Santos, onde foram encontradas reservas que podem transformar o Brasil em exportador de petróleo. As reservas vocabulares deixadas pelo tupi no português brasileiro também são vastas, estimadas em torno de dez mil palavras. O tronco tupi compreende dez famílias lingüísticas que ainda sobrevivem espalhadas pela América do Sul, com maior concentração no Brasil. Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa, porém, sua vitalidade impressionava. Na vertente tupinambá, da família tupi-guarani (da qual se tornaria uma palavra sinônima), o tupi teve sua gramática sistematizada pelos jesuítas. Depois de incorporar traços da cultura invasora, deu origem às “línguas gerais”, as mais faladas no dia-a-dia da colônia: a paulista, disseminada pelos bandeirantes, e a amazônica, também chamada nheengatu (“língua boa”) ou tupi moderno. As línguas gerais foram declaradas…

Referendo
A palavra é... / 14/11/2007

Na linguagem comum, as palavras “referendo” e “plebiscito” são sinônimos, mas há uma diferença nem tão sutil entre essses dois instrumentos da chamada democracia direta. Segundo a legislação brasileira, no plebiscito submete-se ao voto popular uma questão antes que ela ganhe forma de lei, ou seja, “com anterioridade a ato legislativo ou administrativo”. Exemplo: a votação sobre o sistema de governo brasileiro prevista pela Constituição de 1988, realizada em 1993 e vencida pela república presidencialista, foi um plebiscito. No referendo, ao contrário, a consulta se dá após a tramitação de uma matéria, como última instância. Dessa forma, uma decisão prévia pode ser ratificada ou rejeitada na íntegra ou em parte. Como ocorreu na consulta popular de 2005, em que a população repeliu o artigo do Estatuto do Desarmamento, aprovado pelo Congresso, que proibia a comercialização de armas de fogo. Essa distinção não é suficiente para eliminar o fato de que nunca foi pacífico o que diferencia um plebiscito de um referendo, mas ajuda a entender por que vem sendo chamada preferencialmente de referendo a consulta à população venezuelana sobre as mudanças constitucionais talhadas para dar superpoderes ao presidente Hugo Chávez. Ainda assim, o parentesco profundo entre as duas palavras fica…

Copa
A palavra é... / 05/11/2007

O futebol internacional se profissionalizou de tal forma que a segunda Copa do Mundo que o Brasil sediará, em 2014, deve ter pouco em comum com a primeira, de 1950, vencida pelo Uruguai – principalmente no resultado da final, espera-se. Entre essas diferenças, uma das mais curiosas está à vista de todos: se naquele tempo a Copa era uma copa propriamente dita, em 2014 não será mais. Convém explicar. Como anda na moda em certos círculos agarrar palavras pelo pé da letra, pregando-se a substituição de expressões legítimas como “risco de vida” (por risco de morte) e “greve de fome” (por greve de comida), é de admirar que ainda não tenham disparado o alarme: no reino do literalismo, faz tempo que a Copa do Mundo é uma ficção. De fato, Copa-copa era no tempo da Jules Rimet, quando a taça tinha a forma de uma taça, na qual se podia até beber champanhe. E bebeu-se mesmo: na comemoração do título de 1958 na Suécia, a Jules Rimet passou de boca em boca. Quem recorda é Pelé no livro que lançou ano passado (“Pelé, a autobiografia”, editora Sextante). Acrescenta que limitou-se a assistir: aos 17 anos, estava abaixo da idade legal…

Download
A palavra é... / 23/10/2007

(E já que entramos no assunto…) Download é uma das palavras mais saidinhas que importamos do inglês nos últimos anos, membro da onipresente família informática. Diferentemente dos verbos “deletar” e “escanear”, porém, tem sido refratária ao aportuguesamento. Daunloude? O Google mostra que há quem force essa barra, mas a solução parece canhestra. Tal rebeldia está longe de ser alarmante. Se a regra é a adaptação, há vocábulos anglófonos que se abancaram confortavelmente em nossa língua sem tocar num fio de cabelo da grafia original: show nunca virou “chou” nem “xou”, apesar das tentativas da Xuxa. No inglês, download nasceu verbo, mas hoje – o que é comum no idioma de Steve Jobs – faz dupla jornada e atua também como substantivo. Entre nós é sempre substantivo. Para expressar a ação associada a ele, temos a forma “fazer (ou dar) um download”. Em casos mais raros e ousados de hibridismo lingüístico, encontra-se também “downlodear” ou “downlodar”, mas essas soluções parecem se justificar mais pelo desleixo lingüístico – ou por uma intenção brincalhona – do que por uma real necessidade de expressão. Como verbo, o nativíssimo “baixar” está vencendo a guerra. É uma boa tradução. Download quer dizer “carregar para baixo” ou…

Dízimo
A palavra é... / 16/10/2007

O dízimo com que os fiéis alimentam a riqueza da Igreja Universal do bispo Edir Macedo – e que ajudou a tornar a TV Record vice-líder na guerra da audiência – é palavra antiguinha, presente no português desde o século 13, para uma prática de idade bíblica. Dízimo quer dizer a décima parte. É termo gêmeo de décimo, com o qual compartilha o ancestral latino decimus, mas, enquanto este é um derivado culto, dízimo é um desdendente vulgar. Existe ainda a palavra “dízima”, também velhinha e também referente a um tributo de 10% – este, porém, devido ao governo e pago em dinheiro, enquanto o dízimo, na origem, era cobrado em gêneros. Vale conferir o que dizia sobre o dízimo Rafael Bluteau em seu “Vocabulário Português e Latino”, o primeiro grande dicionário de nossa língua, no início do século 18. Atenção para a mistura de definição objetiva e justificação moral, não fosse Bluteau um padre: “A décima parte, que é paga às Igrejas, párocos delas, e pessoas eclesiásticas para sua côngrua sustentação; que assim como estes sustentam aos fiéis com o pasto espiritual da doutrina e sacramentos, assim é razão, que os fiéis sustentem aos tais ministros com a décima…

Birmânia/Mianmar
A palavra é... / 11/10/2007

Países soberanos têm o direito de trocar de nome e exigir que o mundo reforme seus idiomas para adaptá-los ao novo batismo? Antes de responder que sim, vale a pena examinar mais de perto esse rolo, tornado atual pela agitação política na Birmânia – ou seria melhor escrever, como tem feito a imprensa brasileira em peso, ex-Birmânia, atual Mianmar, Myanmar ou Mianmá? Se é justo que a autodeterminação dos povos inclua algum poder sobre o modo como o mundo os chama, também é verdade que o processo de renomear países, regiões e cidades, por envolver razões políticas variadas e mexer com fatores lingüísticos seculares, não deve ser automático, como muita gente o encara. O pensamento politicamente correto explica a boa vontade com que, sem refletir muito, boa parte de nós tende a encarar tais mudanças – mesmo quando elas não envolvem um rebatismo propriamente dito, mas apenas uma nova transliteração, um novo jeito de transportar palavras de um alfabeto a outro, como nas recentes tentativas de “transformar” Bombaim em Mumbai e Pequim em Beijing. Quando o nome muda de verdade, a luta contra a herança colonial explica a maioria dos casos: foi assim que a Rodésia do Norte virou Zâmbia…

Decoro
A palavra é... / 14/09/2007

É mais fácil reconhecer um indecoroso de calças na mão do que fixar em letra fria o que é “decoro parlamentar” e aquilo que o ofende. A Constituição (artigo 5, inciso II) deixa a tarefa para o Legislativo, por meio de regimentos internos. Com sua dupla experiência de parlamentar e jurista, o gaúcho Paulo Brossard disse certa vez que “é mais fácil descrever situações que a configuram, do que definir o que seja falta de decoro parlamentar, de modo a servir a todas as situações”. Uma dessas situações foi vivida pelo deputado Barreto Pinto, do PTB, o primeiro a ser cassado no Brasil, em 1949. Até hoje há versões contraditórias sobre a foto em que ele aparecia de casaca, gravata-borboleta e cuecão, publicada na revista “O Cruzeiro”. Barreto Pinto teria sido uma vítima ingênua do repórter David Nasser e do fotógrafo Jean Manzon? Um cúmplice na fabricação do escândalo? A falta de decoro ninguém contesta. Em estado de dicionário, decoro é compostura, recato, decência, honra, pundonor. Do traje ridículo ao favorecimento indevido, da palhaçada à ladroagem, o sentido da palavra se amplia mas permanece intuitivo. Por que, então, é tão difícil fixá-lo conceitualmente? Porque legislar sobre temas morais nunca foi…

Mensalão
A palavra é... / 30/08/2007

A entrevista do deputado Roberto Jefferson publicada pela “Folha de S. Paulo” naquela segunda-feira, 6 de junho de 2005, marcou um fato raro no mundo das palavras: o momento exato em que nascia uma nova acepção, um novo sentido. No caso, um sentido destinado a fazer tanto sucesso que hoje deixa num pálido segundo plano a acepção até então exclusiva de mensalão – “recolhimento facultativo que pode ser efetuado pelo contribuinte para antecipar o pagamento do imposto devido na Declaração de Ajuste Anual”, segundo o site da Receita Federal. Pouco antes de Jefferson detonar sua bomba, o mensalão já circulava fora do jargão tributário, mas apenas como gíria brasiliense para um novo esquema de corrupção centrado na compra – prática antiga, mas talvez nunca tão literal – de apoio parlamentar pelo governo. Tinha feito uma breve aparição no “Jornal do Brasil” em 2004, mas faltava ganhar as ruas, a corrente principal da língua. Tudo indica que ganhou. Pouco mais de dois anos depois de nascer, a palavra acaba de ser reconduzida ao posto de grande estrela do vocabulário político pelo Supremo Tribunal Federal. É razoável supor que a aparência bonachona contribuiu para o sucesso do termo mensalão. Fascinado pela intimidade…

Caixa-preta
A palavra é... / 07/08/2007

A caixa-preta são duas – uma para gravar conversas na cabine de comando, a outra para registrar dados técnicos do vôo – e não é preta, mas laranja-cheguei. Em certo sentido, é o avesso da mitológica caixa que Zeus confiou a Pandora, aquela que jamais deveria ser aberta porque continha todos os desastres do mundo: depois do desastre é que se abre a caixa-preta. Mas a velha fixação da humanidade em receptáculos lacrados e cheios de segredos ajuda a explicar o sucesso da palavra na linguagem comum. A tese mais aceita sobre a origem de “caixa-preta” (palavra composta, com hífen) aponta para um equipamento usado na Segunda Guerra Mundial pela Royal Air Force, a força aérea britânica. Não era um gravador, mas um radar que, nos bombardeiros, permitia “ver através das nuvens ou no escuro”. Como outros itens eletrônicos na aviação da época, era acondicionado numa caixa preta. Ao batizá-lo, porém, o jargão da RAF parecia destacar sobretudo a aura de mistério e respeito que cercava uma tecnologia obscura até para quem a usava. Com esse sentido, black-box estreou na língua inglesa por volta de 1945. O sentido que se tornaria o principal – “aparelhagem que grava dados sobre o…

Corrupção
A palavra é... / 13/07/2007

Antes de designar a venda ilegal de favores por representantes do poder público, corrupção é deterioração, decomposição física, apodrecimento. “Corrupto” vem do latim corruptus, particípio de “corromper”: é o corrompido, o podre, o que se deixou estragar. Como se vê, nossa linguagem condena a corrupção com uma veemência muito maior do que seria de esperar numa sociedade inclinada a pagar a cerveja do guarda sem pensar duas vezes. Pior: a palavra pode nos induzir ao erro quando dá a entender que a prática é uma espécie de acidente ou queda, desvio lamentável num caminho feito para ser reto e solar. E se ela estiver mais próxima de ser um sistema? (Este texto, que eu já nem recordava, me abordou cheio de marra agora há pouco, quando eu buscava outra coisa aqui na memória do computador. Compreendo-lhe a ansiedade. Talvez seja mais atual hoje do que quando foi publicado pela primeira vez, pouco mais de dois anos atrás.)

Qüingentésima vigésima oitava
A palavra é... / 30/06/2007

O palavrão aí de cima quer dizer que, com esta, foram publicadas 528 palavras – ou expressões – na coluna A Palavra É…, do extinto site “NoMínimo”, desde sua estréia, no dia 3 de novembro de 2004. Com o fim do “NoMínimo”, que saiu do ar no dia 30 de junho, encerrou-se também o ciclo d’A Palavra É… como coluna independente. Esses pequenos exercícios de crítica cultural baseada na língua – assinados não por um professor, mas por um jornalista e escritor que sempre se recusou a aceitar que a falta de brevê oficial da academia o impedisse de voar pelo idioma – não saem de cena, mas terão de agora em diante periodicidade incerta aqui no Todoprosa. A idéia é renovar a seção sempre que um assunto se impuser. Infelizmente, não foi possível trazer para cá o arquivo d’A Palavra É… As 527 notas anteriores a esta devem fazer sua próxima aparição pública em forma de livro – darei notícias sobre isso aqui. A todo mundo que tomou parte nessa memorável história, fazendo consultas, dando contribuições preciosas, deixando críticas e correções ou simplesmente acompanhando em silêncio o bate-papo, meus agradecimentos sinceros. E um convite para que apareçam sempre aqui…

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