Três histórias de fim
Antologia , Sobrescritos / 19/09/2015

Este post, minha despedida do portal Veja, fica apenas como registro. O fim lá é um recomeço aqui, no velho Todoprosa de sempre. Seja bem-vindo(a)! A MULHER DE BOTERO João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras. Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez. Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um…

Três histórias de inimizade literária
Antologia , Sobrescritos / 08/08/2015

HISTÓRIA DE TRÁS PRA FRENTE José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”. Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, onze anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos. O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu. Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido…

Três histórias de glória fugidia
Antologia , Sobrescritos / 11/07/2015

O CLUBE Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas com espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais a resenha de página inteira que, menos de um mês depois, o chamava de gênio e seu último livro, de obra-prima incontornável, e mais concreta ainda a assinatura de prestígio vertiginoso a encimá-la. A esta crítica seguiram-se outras de tom semelhante espalhadas pelo país, numa orquestração que só poderia ser compreendida como o trabalho de um grupo coeso, um verdadeiro Clube, de forma que, quando atendeu o telefone com o coração disparado certa madrugada e ouviu do outro lado da linha uma voz rouca a lhe perguntar sem preâmbulo se estava satisfeito, resolveu agir com naturalidade e dizer que sim, estava satisfeito. O que era verdade, pois nunca, em muitos anos de carreira literária, fora alvo de tanta atenção, e embora se…

Três histórias de literatura e morte
Antologia , Sobrescritos / 20/06/2015

FINADOS (MANTRA DO ESCRITOR OBCECADO) Cervantes morreu em 22 de abril de 1616. Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616. Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768. No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe. Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880. Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908. Mais dois anos e Tolstoi perdeu a guerra, tomara que para encontrar a paz: 20 de novembro de 1910. Em 3 de junho de 1924 foi a vez de Kafka sair da vida, mas aquilo era vida? Joyce começava então a escrever o Finnegans Wake. Em 13 de janeiro de 1941, levou-o a peritonite. Rosa completou sua travessia de homem humano em 19 de novembro de 1967, três dias depois de virar imortal. Em 1977, Nabokov se foi em 2 de julho e Clarice em 9 de dezembro, no pós-parto de Macabéa, um dia antes de completar 57. Conclusão: escrever é tão perigoso quanto viver. E eu mesmo não estou me sentindo muito bem. * O AMOR LITERÁRIO É A RAIZ QUADRADA DO ÓDIO…

Três histórias de crítica e fogo
Antologia , Sobrescritos / 23/05/2015

FLAME WAR Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar. E Adolfo Pinho Rosa escreveu: “Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê…

Três histórias de antigamente
Antologia , Sobrescritos / 25/04/2015

ERA UMA VEZ Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos. O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio. O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte. O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo. O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o pôr do sol, o nascer do sol,…

Que cena! A megera indomada de Pedro Nava
Antologia / 28/02/2015

Em 1972, às vésperas de completar 70 anos, o ilustre médico mineiro Pedro Nava, radicado no Rio de Janeiro, publicou “Baú de ossos”, o primeiro volume de suas memórias. O livro vinha com um prefácio luxuoso do amigo Carlos Drummond de Andrade, que o declarava “digno de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”. As palavras do poeta não faziam favor algum ao trabalho de Nava, que encontrou sucesso instantâneo. Até sua morte, por suicídio, em 1984, ele teve tempo de concluir e lançar outros cinco títulos na mesma veia: “Balão cativo”, “Chão de ferro”, “Beira-mar”, “Galo das trevas” e “O círio perfeito” – o sétimo da série, “Cera das almas”, ficou incompleto. (Desde 2012, a Companhia das Letras vem repondo a obra em circulação, e já relançou os cinco primeiros volumes em edições caprichadas.) A inesquecível cena abaixo, de “Baú de ossos”, resume bem as qualidades – de prosador fino, de contador de histórias, de evocador de marcas temporais e de aquarelista de atmosferas – que fazem Nava ser considerado pela maior parte da crítica o grande memorialista da literatura brasileira. É a primeira vez que um não-ficcionista vem parar na seção Que cena!….

Fechando o desfile: mais cinco histórias de carnaval
Antologia / 14/02/2015

Sábado passado publiquei aqui a Antologia online de carnaval: edição revista e ampliada, com oito contos brasileiros de tema carnavalesco. Nunca tive a pretensão de esgotar o assunto com aquelas sugestões de leitura, evidentemente. Mesmo assim, a resposta de leitores e amigos, tanto na caixa de comentários quanto em contatos pessoais, me convenceu de que o desfile não ficaria completo sem uma última ala. Os cinco contos abaixo abrangem um arco histórico ainda mais amplo, de Machado de Assis a um recentíssimo Sérgio Sant’Anna, e por isso vão organizados em ordem cronológica. É curioso observar como, no geral, eles desenham um quadro carnavalesco bem menos sinistro, mais chegado à alegria, do que o conjunto de histórias da semana passada. Um dia de entrudo não está entre os melhores contos do autor, mas Machado é Machado e desfilaria até de casaca e pincenê. Lima Barreto comparece com um conto leve e divertido, parente da crônica, o que o aproxima da história agridoce de Luis Fernando Verissimo. Rubem Fonseca, que havia perdido a vaga na última antologia por ter tido seu conto Fevereiro ou março retirado da internet, volta à avenida com uma história do início de sua carreira. E Sérgio Sant’Anna,…

Antologia online de carnaval: edição revista e ampliada
Antologia / 07/02/2015

O casamento de literatura e carnaval dá samba? Se dá! Dos oito contos listados abaixo – todos disponíveis para leitura imediata na rede, sem a necessidade de baixar arquivos –, acredito que pelo menos a maioria tenha presença obrigatória em qualquer antologia que se organize sobre o tema. Esta coleção é a versão revista e aprimorada de uma lista que publiquei aqui no blog no carnaval de 2011. Naquele ano, lamentei que não pudese incluir no pacote, por não estarem disponíveis online, a espetacular crônica Batalha no Largo do Machado, de Rubem Braga, com sua prosa-batucada, e o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo. Ocorre que a internet tem dessas maravilhas: a leitora Regina Braga leu aquilo, não se conformou com tais lacunas e, seguindo a minha dica, apressou-se a publicar os dois textos faltantes em seu blog. Outro acréscimo bem-vindo é o sensível conto Folia, de Marcelo Moutinho, o escritor carioca contemporâneo mais ligado ao tema. Em compensação, o trecho de Fevereiro ou março, de Rubem Fonseca, que na época estava ao alcance de um clique, saiu do ar. O que, se é sem dúvida um desfalque importante, não deixa de tornar a antologia mais coesa: todos os…

Merchandising literário, uma modesta proposta
Antologia , Sobrescritos / 24/01/2015

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Hem? Hem? * Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido. * Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu Viu outra lua no mar. O doutor que a atendeu Não tardou a receitar Óc’los da Ótica Fiel Pra vista dupla acabar. * Levantai-vos, heróis do Novo Mundo… Andrada! arranca este pendão dos ares! Colombo! que chás espetaculares! * Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos…

Três histórias de amor e literatura
Antologia , Sobrescritos / 22/11/2014

POR GLORINHA Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico. O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco. Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas. Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez…

O que Machado viu primeiro
Antologia / 22/03/2014

Em 1881, Machado de Assis publicou na “Gazeta de Notícias” um conto extraordinário chamado Teoria do medalhão, que republicou um ano depois no livro “Papéis avulsos”. Trata-se de um diálogo puro, isto é, sem interferência do narrador, em que um pai zeloso, terminado o jantar em que se comemorou o vigésimo primeiro aniversário de seu filho Janjão, puxa-o de lado para lhe dar conselhos. O plano do sujeito é transformar o rapagão naquilo que ele mesmo não conseguiu ser, isto é, um “medalhão”, personagem tão venerável quanto oco, capaz de enraizar sua proeminência social na absoluta ausência de ideias originais e determinado a só enfrentar os problemas reais do mundo pela via da platitude, da frase feita, daquilo que dê uma aparência de solução para o que na essência deve permanecer imutável. A ironia do conto é um pouco mais escancarada do que o habitual em Machado. A “inópia [indigência] mental” que o pai detecta em Janjão assume a forma de elogio, claro, pois é indispensável ao bom medalhão, mas o leitor aprende depressa a inverter todos os sinais do que diz o canalhão. Num extremo metalinguístico brilhante, o autor leva o pai a proibir expressamente ao rapaz o uso…

Todos os conselhos literários fundamentais
Antologia , Sobrescritos / 08/02/2014

I Odeie o conforto. Se estiver concentrado demais na história que está escrevendo, ligue a TV, entre num bate-papo virtual. Caso as palavras continuem a lhe jorrar dos dedos, ponha uma música, desligue o ar condicionado, abra a janela para o berreiro de freios, buzinas e motores. Sinta-se incomodado: retarde ao limite do desastre – ou mesmo, havendo disposição e necessidade para tanto, além dele – a hora de ir ao banheiro. Morra de sede, chegue a passar fome. Brigue com a sua mãe. Mande confeccionar para sua cadeira de escritório XTZO-3000 (com amortecedor inteligente) um magnífico assento de tachinhas medievais. Boicote-se: se escrever umas tantas páginas-telas que lhe agradem em particular, dê um jeito de perdê-las, negando-se como um tonto a salvar o arquivo ao fechá-lo. E então esprema a memória para reproduzi-las igualzinho, vírgula a vírgula, exceto por uma palavra que já não achará mais e cuja ausência, se tudo der certo, vai torturá-lo por horas e horas de trabalho ou trabalho nenhum, pois não se pode chamar de trabalho o tumulto de pensamento que o tomará então, o céu a estridular como se fosse partir ao meio e o computador berrando mais do que a cidade e…

Retrospectiva: os posts mais lidos de 2013
Antologia / 28/12/2013

Os cinco posts abaixo foram os campeões de audiência do Todoprosa este ano. Boas festas e até 2014! Atenção, letrados do Brasil: está lá fora um Coelho Do ponto de vista da sociologia da cultura, a universidade brasileira está mesmo em dívida com Paulo Coelho. No entanto, antes de saldá-la será preciso erradicar o ufanismo que transparece numa afirmação falsa como a de que “o escritor mais lido no mundo é o brasileiro Paulo Coelho”. Sem dúvida um peso-pesado da literatura comercial, Coelho perde, apenas entre autores vivos, para Danielle Steel, J.K. Rowling, Jackie Collins, R.L. Stine, Dean Koontz, Stephen King, John Grisham e outros (leia mais). ‘O retrato de Dorian Gray’: mais jovem do que nunca A “edição anotada e sem censura” de Dorian Gray não é uma apelação editorial do gênero baú. Por trás da versão eternamente canônica do único romance de Wilde (é tarde para mudar isso), lemos um livro novo, com fôlego de novela, no qual entram em foco os elementos principais da história do elegante e devasso Dorian, cujo retrato envelhece – e se envilece – trancado no sótão enquanto ele próprio se conserva jovem e belo (leia mais). Muito prazer, poesia de lombada Spine…

Que cena! O encontro com a morte, segundo Crane
Antologia / 19/06/2013

O clássico “O emblema vermelho da coragem”, de Stephen Crane (Penguin-Companhia, 2010, tradução deste que vos digita, 216 páginas), romance definitivo sobre a Guerra Civil Americana que o precoce autor (1871-1900) lançou quando tinha apenas 24 anos e nenhuma experiência de batalha, tira pelo menos parte de sua estranha força do contraste entre o vastíssimo cenário épico da guerra e o olhar impressionista por meio do qual o narrador em terceira pessoa filtra tudo para o leitor: o de um jovem, ensimesmado e torturado soldado de primeira viagem que, já em seu batismo de fogo, se descobre um covarde. (Com típico excesso explicativo, chamou-se no mercado brasileiro “A glória de um covarde” a adaptação cinematográfica de 1951 dirigida por John Huston.) Depois de fugir do fogo e passar a vagar sozinho pelos campos em luta feroz com sua consciência, cruzando com grupos de soldados vivos e mortos em situações variadas, o “soldado jovem” que conduz a história, chamado Henry Fleming, encontra numa longa coluna de feridos que caminha em direção à retaguarda seu amigo e companheiro de pelotão Jim Conklin, o “praça alto”, que está evidentemente nas últimas. Ao lado de outro personagem, o “soldado maltrapilho”, o jovem passa a…

Que cena! O sexo incestuoso de ‘Lavoura arcaica’
Antologia / 25/03/2013

Em 1975, ano especialmente feliz para a literatura brasileira, um paulista do interior, descendente de libaneses nascido em Pindorama, lançou seu livro de estreia. O nome do autor, então com 39 anos, era Raduan Nassar. O romance curto e denso com que se apresentava, “Lavoura arcaica”, ganhou reconhecimento da crítica – imediato – e de um público exigente – aos poucos – como um clássico moderno. O que sem dúvida é. Nove anos depois, quando anunciou que estava abandonando a literatura para cuidar de sua fazenda, Raduan tinha publicado só mais uma novelinha, “Um copo de cólera”. Intitulado “Menina a caminho”, o volume também breve que reúne cinco contos, quatro escritos antes de “Lavoura” e apenas um recente, sairia em 1997, pela mesma Companhia das Letras que edita toda a sua obra. Acredito estar dizendo o óbvio ao apontar “Lavoura arcaica”, do qual extraí a cena abaixo, como a obra-prima de Raduan. E também ao alertar quem ainda não conhece o livro (nem viu o filme nele baseado, dirigido por Luiz Fernando Carvalho) para o risco de descobrir nesta seção a revelação de um mistério que preferiria desvendar no tempo certo da leitura. O anseio não é apenas justo, mas…

Que cena! Os caminhos bifurcados de Borges
Antologia / 04/03/2013

Nos contos de “Ficções”, um dos maiores livros do século XX, Jorge Luis Borges propõe vários jogos literários em seu estilo inimitável (embora não falte quem tente imitá-lo), no qual se misturam de forma quase inverossímil a seriedade mortal da investigação erudita sobre os limites da linguagem e uma espécie de molecagem irônica que torna possível ler seus rigorosos artefatos ficcionais com um prazer e um abandono normalmente associados à literatura de gênero – como o policial, por exemplo, que o autor argentino admirou e cultivou. Ou ainda o romance de espionagem, inspiração para uma de minhas “Ficções” preferidas, embora menos famosa do que “Funes, o memorioso”, “Pierre Menard, autor do Quixote” ou “A Biblioteca de Babel”. Estou falando de “O jardim de veredas que se bifurcam” (ou “O jardim de caminhos que se bifurcam”, ao gosto do freguês: o original fala em senderos), cuja maravilhosa cena final, na tradução de Carlos Nejar para a editora Globo, é reproduzida abaixo. Como costuma ocorrer nesta sessão, a leitura da cena é puro spoiler e talvez deva ser evitada por quem ainda não leu o livro, mas pretende lê-lo. Algo que, tendo a chance, deveria começar a fazer ainda hoje. Na Primeira…

Que cena! O horror carnavalesco de João do Rio
Antologia / 11/02/2013

A cena abaixo pertence a O bebê de tarlatana rosa, de João do Rio, que talvez seja o mais célebre conto de carnaval da literatura brasileira (para outros exemplos do gênero, clique aqui). O fato de ser também um dos mais célebres contos de horror da literatura brasileira só torna tudo mais interessante. Publicada em 2010 no livro “João do Rio – Uma antologia” e republicada em “Os cem melhores contos brasileiros do século” (Objetiva), com organização de Italo Moriconi, a história começa de forma leve com o narrador anunciando a um grupo de amigos que vai contar uma “história de máscaras”. Curiosos, estes o estimulam e tomam conhecimento do fascínio crescente que ele sentiu em certo carnaval por uma moça vestida de rosa – um bebê “gordinho e apetecível”, como ele diz, cuja única máscara era um nariz postiço. Esbarrou com ela algumas vezes até se encontrarem ambos numa rua deserta do Rio, após um baile, alta madrugada, e ele resolver agir. Aviso: a cena abaixo estraga a surpresa do conto. Quem desejar lê-lo inteiro pode clicar aqui. O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. – Vens comigo?…

Destaques 2012 (V): cinco posts
Antologia / 28/12/2012

A internet é aliada da inteligência, mas ama a burrice De um lado, a internet traz a promessa concreta de um novo Iluminismo. Do outro, acena com as sombras de uma nova Idade Média. Qual dos lados vai prevalecer nesse cabo-de-guerra? E quem disse que um deles vai prevalecer? (Leia mais.) Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico. O discurso literário parece sentir, de alguma forma, que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais. (Leia mais.) Ser universal é um direito que se conquista Os sinais de desparoquialização do ambiente literário brasileiro estão por toda parte, mas deve-se levar em conta que, numa desconstrução da máxima atribuída a Tolstói, ninguém estará disposto a acreditar na universalidade de uma literatura que não seja reconhecida em sua aldeia. (Veja mais.) Mamilogate, o momento mais ridículo do Facebook Se existe um lado bom no neopuritanismo do Facebook, ele acaba de ser encontrado. O tom de falsa seriedade com que a revista “New Yorker” expôs em seu site o ridículo de quem…

Que cena! A queda no abismo em ‘Perdas e danos’
Antologia / 07/12/2012

Cheguei ao romance Damage (“Perdas e danos”), com o qual a irlandesa Josephine Hart debutou na literatura em 1991, por meio de sua adaptação cinematográfica. O filme dirigido por Louis Malle e estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche me parece até hoje – tratei de revê-lo recentemente – uma obra rara em sua combinação de simplicidade narrativa com capacidade de cavucar o fundo do poço. É difícil tirar da cabeça certas cenas do explosivo triângulo amoroso que tem no vértice a bela Anna Barton, figura misteriosa e sombria, e nos cantos da base seu jovem noivo Martyn, jornalista e gente boa, e o pai dele, Stephen Fleming, importante político inglês e narrador da história. Lançado no Brasil pela editora Record com tradução de Ana Deiró, o livro deixa claro que Malle, longe de extrair leite de matéria rochosa (como acontece algumas vezes no trânsito tumultuado entre literatura e cinema), apenas foi feliz ao transpor para a tela a atmosfera perturbadora criada pela autora. A linguagem do romance é simples a ponto de ser convencional, mas o que Hart consegue dizer com ela tem uma força notável. Nem só de alta literatura vive a seção “Que cena!” A cena abaixo,…

Grandes livros, críticos anões: uma seleção
Antologia / 17/10/2012

A crítica jornalística, já disse Antonio Candido, é uma atividade de alto risco. Avaliar com pressa e no calor da hora os méritos de uma obra literária, emitindo juízos que a posteridade terá tempo de sobra para julgar, confirmar ou revogar, é andar na corda bamba. Elogios rasgados a livros medíocres costumam ser esquecidos, mas o oposto disso, o pau firme em obras que depois se revelam imortais, garante uma ridícula espécie de imortalidade aos resenhistas míopes. A Flavorwire, sempre ela, preparou uma saborosa lista (em inglês) de 15 críticas especialmente negativas colhidas por grandes obras da literatura na época de seu lançamento. Traduzi minhas preferidas: SOBRE LOLITA, DE VLADIMIR NABOKOV: “‘Lolita’ é inegavelmente uma novidade no mundo dos livros. Infelizmente, uma novidade ruim. Há duas razões igualmente sérias para que o livro não mereça a atenção de nenhum leitor adulto. A primeira é que ele é chato, chato, chato de um modo pretensioso, floreado e vazio. O segundo é que ele é repulsivo.” Orville Prescott, The New York Times. SOBRE ‘O MORRO DOS VENTOS UIVANTES’, DE EMILY BRONTË: “Como pode um ser humano ter escrito um livro como esse sem cometer suicídio antes de completar uma dúzia de capítulos…

Flip, ano 10: uma retrospectiva pessoal
Antologia / 02/07/2012

Não somos exatamente da mesma geração: a Festa Literária Internacional de Paraty está completando dez anos e o Todoprosa acaba de fazer seis. Antes de criar o blog, porém, participei ativamente da Flip 2004 como mediador de duas mesas – a dos contistas brasileiros Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela e a dos romancistas anglófonos Jeffrey Eugenides, americano, e Jonathan Coe, inglês. Feitas as contas, só estive ausente em duas edições do principal evento literário brasileiro, ambas na pré-história do blog, em 2003 e 2005. Mesmo em 2009, quando peguei leve na cobertura jornalística por estar em Paraty com outras prioridades – falar de meu romance “Elza, a garota” na Tenda dos Autores como autor convidado era a primeira delas –, a Flip rendeu posts no Todoprosa. Suas histórias se confundem com regularidade suficiente para que seja possível montar uma retrospectiva desses dez anos de evento – assumidamente pessoal, ou seja, parcial no melhor dos sentidos – só com o que foi publicado aqui. No começo era o mito O fato de não ter estado na primeira Flip não me impediu de captar com precisão sobrenatural o que aconteceu por lá em 2003 neste post de 2010. Muito pelo contrário, acredito…

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