Soy latino-americano – e como me engano!
Pelo mundo , Vida literária / 06/12/2014

Leu-se no jornalão mexicano “El Excelsior” que a morte do comediante Roberto Bolaños deixou multidões de luto “em toda a América Latina, no Brasil e na Espanha”. Foi o adido cultural brasileiro no México, Gustavo Pacheco, quem me chamou a atenção para o detalhe, daquele tipo em que o diabo gosta de morar: pela lógica do jornal, que espelha uma percepção bastante comum, nosso país não está contido no conjunto “América Latina” e precisa ser nomeado à parte. À parte, pois é. Por acaso não será assim que gostamos de nos ver? Se é evidente que, histórica e politicamente, isso é só um erro de classificação, há vetores culturais poderosos que apoiam tal ideia. Isso ficou muito claro para mim na espetacular Feira do Livro de Guadalajara na última quinta-feira, quando me vi dividindo uma das mesas do programa Latinoamérica Viva com um escritor uruguaio, um argentino, um chileno e uma equatoriana. A língua é o que primeiro nos separa, claro – e certamente aquilo que mais dificulta a vida de um imprudente como eu, que decidi não levar nenhum texto pronto, ponderado e revisado para ler diante do público, como fizeram o chileno Nicolás Poblete e a equatoriana Maria…

Até breve!
Pelo mundo / 29/11/2014

Meus blogs deixarão de ser atualizados nos próximos dias, quando estarei no México para lançar a tradução de meu romance “O drible” (El regate) e participar da Feira do Livro de Guadalajara. Volto ao Todoprosa no dia 6 de dezembro e ao Sobre Palavras no dia seguinte.

Pelé pilotava o carro de James Bond

Escrevi o artigo abaixo por encomenda da revista literária colombiana “Arcadia”. Com tradução de Camila Moraes, ele saiu no número que está nas bancas como parte de uma série de textos assinados por dez escritores, cada um de um país que disputará a Copa do Mundo: Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, França, Inglaterra, Itália, México, Portugal e Uruguai, em ordem alfabética na edição. A ideia era que cada um evocasse, “em forma de memória literária, sua relação com a seleção nacional”. * No livro “Febre de bola”, o escritor inglês Nick Hornby fala de como ficou impressionado quando, criança, viu jogar a seleção brasileira de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino na campanha do tricampeonato mundial, em 1970. Bem, ele não estava sozinho. A contribuição original de Hornby ao pasmo mundial diante da superioridade daquela equipe é uma metáfora infantil surpreendente: para ele, o futebol apresentado pelo Brasil no México lembrava “o Rolls-Royce cor-de-rosa de Penélope Charmosa e o Aston Martin de James Bond, ambos equipados com artefatos sofisticados, tais como assentos ejetáveis e armas ocultas, que os colocavam acima da banalidade entediante”. Não sei se leitores mais novos conseguirão captar o encanto singelo dessa imagem de futurismo datado. Para mim, nascido…

Gêneros? Sim, mas com generosidade
Pelo mundo / 26/04/2014

Se escrevesse hoje, Jane Austen, autora de clássicos do romance inglês como “Orgulho e preconceito”, talvez fosse catalogada como uma autora cômica, isso se não fosse parar na prateleira de “romance romântico” ou, quem sabe, de chick lit. Esse é o argumento defendido pela escritora Elizabeth Edmondson em artigo publicado no “Guardian” (em inglês, aqui), sob o título “Ficção literária é só marketing esperto”, como parte de uma série dedicada a debater os chamados “gêneros literários”. O argumento é instigante: Jane Austen não se via como autora de “ficção literária” (também chamada de “literatura séria”) pela simples razão de que tal rótulo não existia no século XIX. Sua criação, no século XX, foi uma forma até certo ponto artificial de diferenciar obras artisticamente ambiciosas, mais focadas no trabalho de linguagem do que na contação de histórias, da vasta produção de livros de ficção científica, literatura policial, fantasia, terror, humor, faroeste e outros gêneros de grande apelo comercial, mas considerados artisticamente “menores”. Muito bem. Fora o fato de que rótulos são redutores por definição, haverá algo errado nessa classificação, de resto importante para as livrarias na hora de expor seus produtos? Se considerarmos que uma coisa é vender livros e outra…

Gabo (1927-2014): o legado complexo de um gênio
Pelo mundo / 17/04/2014

A reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez, que morreu hoje na Cidade do México, aos 87 anos, está estabelecida faz tempo. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações no futuro, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes devem se dar ao trabalho de lamentar, por exemplo, seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários” como fez o exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005. “Cem anos de solidão” é um monumento cravado na história da literatura, ponto. Como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamavam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982. Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou…

O romance cura? Da autoajuda à autoatrapalhação
Pelo mundo / 21/09/2013

Em entrevista à seção de livros do “New York Times” (aqui, em inglês), o cantor e compositor Sting se sai com uma boa tirada quando lhe perguntam se é leitor de livros de autoajuda: “Livros de autoajuda? Isso não é um oxímoro?”. Gostei dessa ideia de que livros de autoajuda podem ser, mais que um gênero besta, um gênero cujo próprio nome exprime uma contradição em termos, proposição absurda em que um elemento nega o outro. Como, para citar o clássico exemplo sacado por Groucho Marx, “inteligência militar”. Ora, se é livro, não pode ser de autoajuda – e vice-versa. Na melhor das hipóteses será de autoatrapalhação. É claro que há nisso um tanto de exagero ditado pelo gosto: se alguém acredita que se autoajuda lendo autoajuda, é provável que se autoajude mesmo, e não há nada que Sting possa fazer para mudar isso. Nem eu. O que eu posso fazer é me lembrar vividamente, tendo a frase do ex-líder do Police como madeleine, de um tempo remoto em que o trio inglês ainda nem existia e Clarice Lispector era para mim o exato oposto da autoajuda. Caramba, como eu tinha medo daquela mulher. Estou falando da minha adolescência. Uma…

A pré-história é uma tremenda história
Pelo mundo / 14/09/2013

Um curioso artigo de Jennifer Vanderbes na revista The Atlantic (aqui, em inglês), intitulado “O argumento evolutivo em favor da ficção de qualidade”, ganha de saída minha simpatia. Como se sabe, vivemos tempos difíceis para a tal ficção de qualidade, um tempo em que alguns de seus ex-aliados se atarefam em graves demonstrações teóricas de que a ficção está esgotada, fetichizada, transformada em mercadoria, e de qualquer modo a ideia de qualidade nunca passou de miragem ideológica, certo? Num quadro tão hostil, qualquer palavra endereçada no sentido contrário é bem-vinda para quem se recusa, talvez por pura teimosia, a abandonar a ideia de que a literatura expressa algo de vital sobre o mundo e a experiência humana que nenhuma outra linguagem pode expressar. Seja lá o que for esse algo. Convenhamos: parece melhor que a encomenda uma defesa darwinista do poder da contação de histórias que começa ao redor de uma fogueira do Pleistosceno, 45 mil anos atrás, como se vê na ilustração acima, de Viktor M. Vasnetsov, que acompanha o artigo. Na verdade, o que Vanderbes faz, de um ponto de vista da psicologia evolutiva, não é muito diferente de outras defesas do papel estruturante das narrativas na forma…

Elmore Leonard (1925-2013) e a glória
Pelo mundo / 20/08/2013

A morte do escritor americano Elmore Leonard, hoje, aos 87 anos, me levou a buscar um post de pouco menos de um ano atrás (que vai reproduzido abaixo na íntegra) em que saudei sua chegada a uma certa glória literária oficial, na forma de uma condecoração da National Book Foundation e do lançamento de seus livros pela Library of America. A conclusão era a de que o reconhecimento, merecido, era melhor para o establishment do que para Leonard – embora fosse bom para os dois. Essa impressão é ainda mais forte hoje. * Fiquei muito feliz com a notícia (em inglês) de que o escritor americano Elmore Leonard, 86 anos, autor de um punhado dos melhores romances policiais e de faroeste de todos os tempos, vai receber a medalha da National Book Foundation pelo conjunto da obra, uma honraria que costuma ser abiscoitada por escritores mais “sérios” como John Updike, Gore Vidal e Toni Morrison. Além disso, a Library of America reunirá seus policiais em três volumes de capa dura. Pode ser que esses passos no sentido da canonização não signifiquem muita coisa para o ex-publicitário recluso que vive há décadas de seus livros, produzidos ao ritmo de um por…

Em defesa de Alice Munro
Pelo mundo , Vida literária / 17/06/2013

Trata-se de uma espécie de “Sobre a arte de jogar pedra nos clássicos – parte 2”: na revista eletrônica Salon.com, o escritor Kyle Minor sai em defesa da contista canadense Alice Munro (foto), que foi esculachada dos pés à cabeça por uma resenha de Christian Lonrentzen na prestigiosa London Review of Books (os dois textos em inglês, acesso gratuito). Alice Munro atingiu um lugar de proeminência literária, e quando um escritor atinge um lugar de proeminência literária, pode acontecer que um crítico encarregado de resenhar seu novo livro se sinta tentado a transformar a encomenda numa oportunidade de fazer uma declaração bombástica sobre o tal escritor proeminente – e dessa forma fazer uma declaração bombástica sobre a literatura contemporânea, a cultura literária contemporânea ou a crítica literária contemporânea. Há dois caminhos comuns pelos quais esse tipo de declaração bombástica pode dar errado – o da santificação e o da iconoclastia. O crítico do tipo santificador despeja sobre o escritor uma ducha de elogios incondicionais, declara-o um gênio e ignora seus defeitos – ou diz que eles são virtudes. O outro tipo de crítico talvez decida que o modo mais seguro de esvaziar o balão de uma reputação hiperbólica não é…

Como a Coreia do Norte salvou a arte alemã e outros links
Pelo mundo / 10/06/2013

Um fascinante artigo da Bloomberg Businessweek (em inglês, acesso gratuito) conta como um gigantesco ateliê norte-coreano de escultura e pintura em estilo realista-socialista, o Mansudae (que tem como principal cliente o próprio Estado, claro), foi a melhor opção da cidade de Frankfurt quando, há poucos anos, seus administradores decidiram reconstruir a Fonte do Conto de Fadas (foto), uma extravagância art noveau de 1910 que tinha sido derretida para alimentar a indústria bélica nazista na Segunda Guerra Mundial. Uma fábula real sobre como o tecido da história tem dobras surpreendentes em que o “atraso” estético pode virar vantagem competitiva: Klaus Klemp, diretor do Museu de Arte Aplicada de Frankfurt, descobriu o Mansudae em 2004 e ficou tão impressionado com a qualidade de seu trabalho que convenceu a burocracia local a contratar o ateliê. “Foi uma decisão puramente técnica”, diz ele. “Os artistas de ponta na Alemanha simplesmente não fazem mais arte realista. Os norte-coreanos, por outro lado, não vivenciaram a longa evolução da arte moderna: estão meio que presos no início do século XX, que é exatamente quando a fonte foi construída.” O preço cobrado pela Coreia do Norte para reconstruir a escultura de bronze também foi atraente: 200 mil euros,…

Eagleton espanca Coetzee e Auster: só falta o Bono Vox
Pelo mundo / 03/06/2013

É uma ilusão romântica supor que escritores devem ter algo interessante a dizer sobre relações raciais, armas nucleares ou crises econômicas pelo simples fato de serem escritores. Não há nenhuma razão para presumir que romancistas ilustres como Paul Auster e J.M. Coetzee tenham uma visão mais sábia da conjuntura mundial do que um físico ou um neurocirurgião, algo que essa correspondência entre eles confirma de modo deprimente. Na verdade, não há razão alguma para que autores tenham algo especialmente marcante a dizer sobre o ato de escrever, muito menos sobre a Caxemira ou o IRA. Seus comentários sobre a própria obra que produziram podem ser ainda mais obtusos que o dos críticos. Se T.S. Eliot acreditava mesmo que “A terra devastada” era apenas um amontoado de resmungos rítmicos, como disse certa vez, nunca deveriam tê-lo condecorado com a Ordem do Mérito. Os comentários de Coetzee sobre a atual crise econômica não são apenas equivocados, mas levianos. Nada de fato aconteceu com a economia mundial, ele escreve presunçosamente a Auster, a não ser uma reacomodação estatística. É improvável que o Banco da Inglaterra, para não falar das pessoas que viram suas casas e seus sustentos lhe serem roubados por gângsteres financeiros,…

Literatura acima das nuvens e outros links
Pelo mundo / 29/05/2013

A Qantas, companhia aérea australiana, lançou um curioso programa (em inglês, acesso gratuito) de encomenda de livros de ficção e não-ficção para serem distribuídos em seus voos. Os tamanhos são variados como as rotas, mas a ideia é que o volume seja sempre lido entre a decolagem e o pouso. No cálculo, levou-se em conta que o leitor médio dá conta de algo entre duzentas e trezentas palavras por minuto. Os nomes dos autores ainda não foram divulgados. Por alguma razão, não consigo imaginar Gol ou Tam fazendo isso. * Há um ingrediente adicional que torna mais eficaz o recurso ao pensamento esotérico. Para deixá-lo doutrinariamente inofensivo, para despojá-lo de todo perigo satânico, Coelho o combina com doses adequadas de cristianismo tradicional: citações da Bíblia, quadros do Sagrado Coração de Jesus, rezas do Pai Nosso… O público majoritário não se sente em pecado por ler heresias, e o narrador, ao mesmo tempo que se faz passar por alguém dotado de poderes paranormais (capaz inclusive de telepatia), deixa saber que é também um bom cristão, apesar de seus flertes com a magia. Por que Paulo Coelho é tão ruim, na avaliação de Héctor Abad Faciolince (em espanhol). * A escrita é…

Contra Gatsby: sobre a arte de jogar pedra nos clássicos
Pelo mundo / 27/05/2013

Em um ótimo artigo (em inglês) no blog de livros da “New Yorker”, Sam Sacks tenta recuar dois passos para falar em termos menos apaixonados – e mais historicamente fundamentados – da polêmica deflagrada pelo recente torpedo “Por que eu desprezo ‘O grande Gatsby’”, de Kathryn Schulz (em inglês, aqui). Na verdade, mais do que o artigo original e a onda de condenações que ele levantou, a principal motivação de Sacks parece ser um tuíte em que a escritora Joyce Carol Oates tenta blindar o romance do colega F. Scott Ftizgerald dizendo o seguinte: “Odiar ‘O grande Gatsby’ é como cuspir no Grand Canyon. Ele não vai desaparecer tão cedo. Você vai”. Achei honesto o artigo de Schulz, ainda que não concorde com ele em seu ponto mais fundamental: considero ‘Gatsby’ um belo livro. No entanto, como Sacks, também fiquei incomodado com as tentativas generalizadas de desqualificar a crítica de antemão, como se a ousadia de falar mal de uma obra canônica não pudesse obedecer a nenhuma outra motivação além daquele impulso baixo, a “vontade de aparecer” – que em sua versão contemporânea pode ser traduzida como “fome de cliques”. Sim, é verdade que jogar pedras em ídolos é um…

Quero ser lido em Marte e outros links
Pelo mundo / 08/05/2013

A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num concurso de mensagens poéticas para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado para novembro (via Guardian). Como se sabe, haicai (também chamado haiku) é um poema de apenas três versos, de origem japonesa. As inscrições são abertas a todos e vão até 1º de julho. Uma votação online apontará os vencedores. Não, ninguém espera encontrar em Marte um público leitor para os poeminhas. A mensagem é dirigida aos próprios terráqueos, em busca de apoio popular para a contestada causa da exploração espacial. Isso é tornado mais evidente pela promessa de que os nomes de todas as pessoas que entrarem em contato com a missão manifestando esse desejo também serão gravados no tal DVD. Depois de refletir longamente sobre tudo isso, pensei em enviar minha modesta contribuição: Nada de arte, Marte: A Terra é feita de terra Água e marketing. Mas desconfio que desclassifiquem textos em português. * O cineasta Steven Soderbergh, de “Sexo, mentiras e videotape” e…

Angry Birds liquidam o Quixote: viva (morra) a literatura!
Mercado , Pelo mundo / 26/04/2013

A Associação de Editores de Madri acaba de lançar uma campanha publicitária, assinada pela agência espanhola Grey, em que ilustres representantes da cultura literária de todos os tempos são impiedosamente exterminados por representantes da cultura audiovisual contemporânea (via No mundo e nos livros). Dom Quixote enfrenta os Angry Birds e é abatido ao pé de um moinho de vento. A baleia Moby Dick, depois de derrotar a fúria homicida de Ahab, encalha e morre na praia do seriado Lost. O Pequeno Príncipe (vamos conter as comemorações, pessoal) tomba entre as ruínas de um videogame de guerra. A arte é caprichada e o recado, claro: o culpado é você – isso, você mesmo – que devia estar lendo em vez de perder tempo com atividades idiotas como jogar videogame e ver TV. “Quando você passa tantas horas jogando um joguinho no seu celular, nem tudo o que você destrói lhe rende pontos”, diz a legenda da primeira imagem. “Quando você passa tantas horas assistindo à série de TV mais popular da história, não são apenas os personagens que terminam perdidos”, reforça a segunda. “Quando você gasta tanto tempo jogando videogames de guerra, não são só seus inimigos que você liquida”, fulmina…

Freeman deixa a ‘Granta’, Maracanã é amaldiçoado – e outros links
Mercado , Pelo mundo / 24/04/2013

Após quatro anos à frente da “Granta”, a mais influente revista de literatura do mundo, o escritor e crítico americano John Freeman (foto) está deixando o posto – e a ponte aérea Londres-Nova York – para dar um curso de “escrita criativa” na Universidade Columbia. A saída de Freeman, aparentemente amigável, se dá poucos dias após o lançamento da quarta edição da já lendária seleção de “melhores jovens romancistas britânicos” (em inglês, aqui). A gestão do americano foi marcada pela expansão internacional da marca, lançada nesse período em dez países em modelo de franquia – a brasileira, da editora Alfaguara, já existia quando ele desembarcou na revista. O último fruto da safra será a “Granta” portuguesa, que tem lançamento marcado para 21 de maio e já anunciou a publicação de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa. (Via Galleycat.) * E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres. Recurso antigo que o pós-modernismo revalorizou, a paródia literária costuma ser vítima…

Capas ‘melhoradas’, impossíveis de piorar e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 01/04/2013

A capa ao lado (“Este é o primeiro livro que eu leio em seis anos”), nome alternativo de “A garota com tatuagem de dragão”, de Stieg Larrson, é a preferida de todos os tempos pelos leitores do blog de humor Better Book Titles, que desde 2010 imagina “títulos melhorados” para livros famosos. O nome que coube à obra do autor sueco, claro, caberia em vários outros sucessos. * E por falar em capa de livro: se esta aí embaixo, à direita – um legítimo produto brasileiro, de uma coleção popular da editora Record nos anos 1980 – não for a pior do mundo em todos os tempos, como a denominou Gabe Habash no blog da Publishers Weekly, será apenas porque as outras da coleção “Best of the best” não ficam atrás. * Michel Laub, oportuno, escreve sobre a forma mais garantida e socialmente aceita de assassinar um escritor: banalizá-lo em pílulas de auto-ajuda nas redes sociais. * A sempre provocante Laura Miller reflete na Salon.com sobre o direito que têm os escritores de ficção de puxar o tapete do leitor – e em que momento esse direito esbarra no direito do leitor de simplesmente abandonar o livro. * Um livro…

Análise ‘científica’: Shakespeare não escreveu Shakespeare
Pelo mundo / 29/03/2013

A suspeita é antiga, mas uns dois séculos mais nova do que a obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616): ele não seria o verdadeiro autor de suas peças e poemas, ou pelo menos de grande parte deles. Algumas lacunas historiográficas e sobretudo o fato de que o jovem Will nunca teve acesso a uma educação clássica de primeira linha, então ao alcance apenas da nobreza, são os principais argumentos invocados pelos céticos. Como diz o próprio Stephen Greenblatt na introdução do excelente Will in the world: how Shakespeare became Shakespeare, “(sua) obra é tão assombrosa, tão luminosa, que parece ter vindo de um deus e não de um mortal, muito menos um mortal de origem provinciana e educação modesta”. Convém deixar claro que o autor de “Como Shakespeare se tornou Shakespeare” (lançado aqui pela Companhia das Letras, com título que abre mão do trocadilho intraduzível entre Will e “vontade, determinação”) não duvida que Shakespeare tenha sido escrito por Shakespeare. Apenas se dedica a pesquisar, com uma mistura sedutora de informações históricas e insights, como isso foi possível. Se os céticos nunca foram capazes de provar sua tese, correndo o risco de se aproximar de descabelados teóricos…

Chabon sobre Wes Anderson: ‘A isso chamamos arte’
Pelo mundo / 27/03/2013

O mundo é tão vasto, tão complicado, tão repleto de maravilhas e surpresas que a maioria das pessoas leva alguns anos para começar a perceber que é também irremediavelmente quebrado. A esse período de pesquisa chamamos “infância”. Segue-se um programa de investigação reiterada, quase sempre involuntária, sobre a natureza e os efeitos de mortalidade, entropia, coração partido, violência, fracasso, covardia, hipocrisia, crueldade e sofrimento, cujas histórias e amargas lições o pesquisador aprende de cor. Ao longo do caminho, ele ou ela vai descobrindo que o mundo está quebrado até onde alcança a memória de qualquer um, e luta para conciliar tal fato com a pontada de nostalgia cósmica que, de tempos em tempos, agita-se em seu coração: uma sugestão de glória extinta, de inteireza perdida, uma memória do mundo antes de se quebrar. Ao momento em que essa pontada se manifesta pela primeira vez chamamos “adolescência”. O sentimento assombra as pessoas pelo resto da vida. Todo mundo, cedo ou tarde, é submetido ao aprendizado da quebra. A questão passa a ser então: o que fazer com os pedaços? Há quem se abanque em sua pilha local de escombros e toque a vida assim mesmo, beduínos criando suas cabras à sombra…

Qual é o negócio da literatura?
Mercado , Pelo mundo / 22/03/2013

A história do livro como tecnologia – o livro como uma tecnologia revolucionária, de ruptura – precisa ser contada honestamente, sem triunfalismo nem derrotismo, sem esperança nem desespero, como Isak Dinesen nos recomendava escrever. Um grande obstáculo à produção de um relato desse tipo, contudo, é a “heurística da disponibilidade”. Trata-se de um modelo de psicologia cognitiva proposto pela primeira vez em 1973 por Daniel Kahneman, ganhador do Nobel, e seu colega Amos Tversky, que descreve como os seres humanos tomam decisões baseadas em informações relativamente fáceis de lembrar. Como as coisas de que nos lembramos com facilidade são aquelas que ocorrem com frequência, tomar decisões baseadas em amostras que temos à mão parece fazer sentido. O sol nasce todo dia; inferimos daí que o sol nasce todo dia. Um peru é alimentado todo dia; inferimos daí que será alimentado todo dia – até que, de repente, não é. A heurística é ótima até deixar de ser. Lemos um grande número de notícias sobre gatos que pulam de árvores altas e sobrevivem, e desse modo acreditamos que os gatos devem ser resistentes a longas quedas. Notícias desse tipo predominam amplamente sobre aquelas em que um gato cai e morre, como…

Fala, Tolstoi, que nós te ouvimos
Pelo mundo / 18/03/2013

Ouvir a voz de Leon Tolstoi, um dos maiores escritores do século XIX, é uma experiência quase fantasmagórica. É difícil espantar a ideia de que aquele som não vem do além, mas foi realmente articulado por um ser vivo e gravado por meios terrenos, prosaicos. O fato de que nessa rara gravação de 1909 – um ano antes de sua morte – o escritor não está falando russo, mas inglês, torna tudo ainda mais estranho. Numa cortesia do blog Brainpickings, o que se ouve aqui é o autor de “Guerra e paz” lendo um trecho da tradução inglesa de seu livro “Calendário da sabedoria”, um precursor da onda de auto-ajuda em que Tolstoi, preparando-se para o fim da vida, resumia o legado de suas inquietas investigações espirituais – em que se combinavam um cristianismo peculiar (e excomungado pela Igreja Ortodoxa), o pacifismo, a idealização da vida no campo e uma espécie de proto-ambientalismo. Mas o que vale mesmo, de toda a experiência, é ouvir aquela voz. Abaixo, uma tradução caseira do trecho: Que o propósito da vida é a busca da perfeição, a perfeição de todas as almas imortais, e que esse é o único propósito da minha vida, é…

Coetzee e Auster veem esporte na TV: ética x estética
Pelo mundo / 11/03/2013

Numa das cartas do recém-lançado Here and now – que traz a intensa correspondência trocada por J.M. Coetzee e Paul Auster entre 2008 e 2011 e que teve um excerto publicado no site da “New Yorker” – o escritor sul-africano explica por que discorda do amigo americano quando ele sustenta que a dimensão estética do esporte explica seu fascínio sobre o espectador. De forma nada surpreendente, Coetzee leva a conversa para o campo ético. Para mim, a discussão não poderia ser mais atual. Estes dias estou dando os retoques finais em meu novo romance (a ser lançado no segundo semestre pela Companhia das Letras), que tem a história do futebol brasileiro como pano de fundo e que se ocupa de questões tanto estéticas quanto éticas. É justamente o futebol brasileiro que contraria um dos elos da argumentação de Coetzee. O discurso missivístico do autor de “Desonra” vai reproduzido abaixo, em tradução caseira, para que o leitor julgue por si. Pareceu-me interessante e iluminador de aspectos certamente presentes na mágica esportiva, mas limitado também. “Que atleta gostaria de ser parabenizado por sua graciosidade em campo?”, pergunta Coetzee. “Até mulheres atletas o olhariam de cara feia. Graça, graciosidade: termos efeminados.” Vê-se que…

Mo Yan, Morrissey, Maura e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 06/03/2013

O chinês Mo Yan (foto), Nobel de literatura do ano passado, se defendeu em entrevista ao Der Spiegel – a meu ver, bem – das acusações generalizadas de ser um escritor governista. Em inglês (melhor do que alemão, certo?), aqui. Como noticiou ano passado o vizinho “Veja Meus Livros”, Mo Yan é considerado por alguns especialistas ocidentais em assuntos chineses uma espécie de “via do meio”. * Morrissey, em momento de rara infelicidade (que o Guardian criticou aqui), disse que não haveria guerra se todos os homens fossem gays, porque “gays não matam”. Alguém aí dê ao Moz um exemplar de “As benevolentes”, por misericórdia. * Estou bem curioso para ler essa biografia da talentosa e atormentada escritora mineira Maura Lopes Cançado, que teve uma vida triste. Ainda no forno, mas promete. * Deve ser, disparado, a pauta preferida do jornalismo inglês que trata de literatura: por que é tão difícil escrever cenas de sexo, blablablá. Durante algum tempo dei trela para o assunto aqui no blog, mas confesso que estou cansado. A obsessão com o sexo na literatura me parece cada vez mais um problema de quem vive uma escassez de sexo fora dela. Reconheço que Daniel Galera discorreu…

Nabokov na mira do atraso russo e outros links
Pelo mundo / 01/03/2013

Depois da banda Pussy Riot, Vladimir Nabokov (foto) é a nova vítima da ruidosa onda de ultraconservadorismo – nacionalista, populista, autoritário, religioso, anti-ocidental – que varre a Rússia de seu xará Vladimir Putin. Michael Idov conta no blog de livros da “New Yorker” (aqui, em inglês) como uma adaptação teatral de “Lolita” que estreou no início do ano em São Petersburgo tem despertado em parte da população um furor censório que incluiu o espancamento do produtor, Anton Suslov, tachado de “pedófilo”. A notícia parece ainda mais preocupante quando se considera que, segundo informa Idov, a mesma peça entrou e saiu de cartaz na cidade várias vezes durante décadas, sem provocar a menor marola. Até a censura soviética a liberou. “Lolita” é só parte da campanha contra Nabokov. Os fogosos militantes reivindicam ainda o fechamento do museu dedicado ao escritor, também em São Petersburgo, e o banimento de todos os seus livros. Talvez não vençam todas essas batalhas. Infelizmente, com Putin, têm vencido a maioria. * Gostei desse breve “ensaio filosófico” de Saulo Dourado sobre o ótimo romance “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera. É restaurador ver uma obra de literatura contemporânea ser abordada por um prisma não exclusivamente literário,…

A sabedoria de DFW, professor de literatura
Pelo mundo / 27/02/2013

De todos os itens do baú de David Foster Wallace que vêm surgindo, em número proporcional ao crescimento do culto ao escritor americano que se suicidou em 2008, um dos que considero mais interessantes é também um dos mais modestos: o programa de um curso de “análise literária” (na reprodução ao lado, a primeira página) que ele ministrou na universidade de Illinois em 1994. O programa é comentado (aqui, em inglês) pelo site Open Culture e está disponível na íntegra para consulta online (aqui), ao lado de outros documentos do professor DFW, graças a uma iniciativa da Universidade do Texas em Austin. O que mais chama a atenção no programa (conhecido em inglês pelo nome latino syllabus, como ocorre também em Portugal) é a lista de livros de ficção que DFW decidiu analisar com os alunos: de Mary Higgins Clark a Jackie Collins, de Stephen King a James Ellroy, de C.S. Lewis a Thomas Harris, todos os autores podem ser arquivados na mesma estante – uns em prateleiras mais elevadas, outros ao rés do chão – daquilo que a maior parte dos críticos universitários costuma chamar com desprezo de “literatura comercial”. Considerando-se que o próprio DFW favorecia em sua produção…

Nem só o sertanejo é universitário. A literatura também
Pelo mundo , Vida literária / 25/02/2013

O segredo que Mark McGurl revela em ‘The Program Era: Postwar Fiction and the Rise of Creative Writing’ é o quanto a riqueza da cultura americana do pós-guerra (e aqui me atenho ao romance, por motivos que serão explicados) é produto de um sistema universitário e, o que é pior, do programa de escrita criativa como parte institucional e institucionalizada desse sistema. Não se trata apenas de uma questão de documentação e pesquisa histórica, abundantes no livro, mas de uma questão de vergonha: os escritores americanos modernos sempre gostaram de se imaginar livres do suplemento artificial à vida real que é a universidade e, sobretudo, dos cursos de escrita criativa. Quem sabe faz, quem não sabe ensina. Basta pensar no elogio que intelectuais europeus como Sartre e Simone de Beauvoir fizeram aos grandes escritores americanos que não deram aulas nem frequentaram a universidade, mas trabalharam como motoristas de caminhão, garçons, vigias, estivadores, enfim, em tudo menos como intelectuais, registrando “o fluxo constante de homens por todo o continente, o êxodo de toda uma cidade para os campos da Califórnia” – e por aí vai. Denso e recheado de provocações, o ensaio “O segredinho inconfessável da América”, do crítico marxista Fredric…

A crise de fé de McEwan e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 20/02/2013

Essa apostasia se insinua no abismo largo que separa o fim de um romance do início do próximo. Não se trata de um bloqueio, não é uma longa noite, mas uma questão de profunda indiferença. A felicidade está em algum outro lugar. Passam-se os meses e lá vem uma virada, um realinhamento. Começa com um cutucão. Um detalhe, uma frase ou uma sentença pode dar início a esse retorno. Não precisa ser brilhante. Basta exalar um certo calor imaginativo. Em belo artigo no “Guardian” (em inglês, aqui), Ian McEwan fala sobre a crise de fé que costuma acometê-lo toda vez que termina um romance. Crise de fé na ficção, entenda-se. Por que perder tempo com narrativas inventadas se o mundo da ciência e da história está cheio de livros mais, digamos, relevantes para a compreensão do mundo em que vivemos? McEwan conta que a fé lhe volta sempre de forma meio fortuita, nunca a partir do plano geral de uma obra grandiosa e sim da leitura de uma frase solta, uma imagem bem sacada, um achado feliz – miudezas, os “divinos detalhes” de que falava Nabokov. * O desejo de escrever para o grande público está firmemente enraizado no peito…

Muito prazer, poesia de lombada
Pelo mundo / 18/02/2013

Spine poetry, ou poesia de lombada, é a arte – pelo menos no sentido travesso da palavra – de empilhar livros de tal forma que os títulos formem um todo inteligível. Com sorte, um poema. Consta que a ideia surgiu em 1993, mas foi só no ano passado que a prática começou a virar febre no mundo anglófono – veja aqui e aqui. A foto aí em cima flagra minha primeira tentativa de dominar essa, digamos, nova linguagem literária. É recomendável clicar na imagem para ter melhor leitura. Mas cuidado, bibliófilos, a coisa vicia. Você nunca mais vai olhar para suas estantes do mesmo jeito. Para mim, o que mais chama a atenção na brincadeira é o fato de ser exclusiva do mundo físico. Olha aí, coveiros do livro de papel: quero ver fazer isso no Kindle!

‘A sangue frio’ errou. E daí?
Pelo mundo / 13/02/2013

Documentos policiais recém-desencavados provam algo que há muito se murmurava por aí: há em “A sangue frio”, clássico absoluto do jornalismo literário (ou do romance de não-ficção, como o autor o chamou) publicado em 1966 por Truman Capote (foto), imprecisões factuais que vão além dos pormenores irrelevantes que até hoje tinham sido apontados. O livro reconstitui o assassinato brutal, ocorrido sete anos antes, de uma família de fazendeiros do Kansas por dois ex-presidiários. Sabe-se desde o início quem cometeu os crimes e ainda que eles serão apanhados pela polícia, mas mesmo assim a arte de Capote agarra o leitor pelo colarinho até o ponto final. Quem não leu “A sangue frio” pode ter uma ideia do clima que cerca a história assistindo ao bom filme “Capote” (2005), de Bennett Miller, cujo trailer segue abaixo. O filme se interessa pelas circunstâncias da apuração jornalística conduzida por um intelectual citadino, sofisticado e homossexual (em interpretação memorável de Philip Seymor Hoffman), tão integrado à paisagem do interior do Kansas quanto um norueguês em Tóquio. httpv://www.youtube.com/watch?v=-rWX7AFoOyI Nem é preciso dizer que, para conhecer o romance, nada substitui sua leitura, que recomendo efusivamente. Trata-se de uma obra-prima. Há no mercado uma edição de 2003 da…

O literário como fetiche
Pelo mundo / 08/02/2013

O sempre interessante blog Explore, editado por Maria Popova (do não menos interessante Brain Pickings), voltado para estímulos diversos à criatividade, trouxe outro dia uma lista que me deixou pensativo. Trata-se de uma relação de “últimas palavras” de romances famosos. Atenção, não estamos falando aqui de frases de encerramento, algo que certamente pode ser objeto de estudo de quem escreve – se não for instrutiva, a investigação será no mínimo divertida, na mesma linha da seção “Começos inesquecíveis”, que por muitos anos foi uma das atrações mais visitadas deste blog. Não: trata-se realmente da última palavra, no singular, de cada romance. Foram listados 55 títulos. Ali aprendemos que “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, e “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë, terminam com o mesmo vocábulo: “terra”. Descobrimos também que “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, deixa cair o pano da narrativa sobre o termo “honra”, o que é sem dúvida curioso. Mas significará alguma coisa saber que “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll, se encerra com a palavra “dias”, enquanto “O som e a fúria”, de William Faulkner, prefere se despedir com “lugar”? A lista me pareceu não só uma inutilidade ululante, mas o…

As lições da senhora Ros, a ‘pior escritora do mundo’
Pelo mundo , Vida literária / 30/01/2013

É possível que a romancista e poeta Amanda McKittrick Ros (foto), uma professora nascida em 1860 na Irlanda do Norte, não tenha sido a pior escritora do mundo. Com certeza foi a escritora ruim que mais sucesso fez justamente pela ruindade de sua literatura. Esbarro em sua história fascinante no ebook Epic fail (Fracasso épico), de Mark O’Connell, que teve um trecho (em inglês) reproduzido há poucos dias na revista eletrônica Slate. O surrealismo involuntário da prosa absurdamente artificiosa de Ros já foi apontado por sua legião de admiradores-detratores – com hífen porque são as mesmas pessoas, a admiração sendo no caso uma forma de gozação. A novidade do enfoque de O’Connell é lançar a hipótese de que Ros também tenha inventado sem querer o pós-modernismo ou pelo menos um de seus traços mais marcantes, a elevação irônica da ruindade galopante a uma forma de arte. Não se trata de fenômeno isolado. Ros está para as letras como Ed Wood está para o cinema e Pedro Carolino, autor do hilariante “Novo guia da conversação em portuguez e inglez” (Casa da Palavra), para os estudos linguísticos. Mestre insuperável da purple prose, como os anglófonos chamam o estilo empolado típico da subliteratura,…

Sylvia Plath como ‘chick lit’ e outros links

“A redoma de vidro” (The bell jar), o único romance da poeta americana Sylvia Plath, foi lançado sob o pseudônimo de Victoria Lucas em 1963, poucos dias antes de sua morte. Está completando meio século, portanto, e para comemorar a data o editor teve a ideia de relançá-lo embalado na inacreditável capa chick lit aí ao lado. Como se Sylvia Plath e Sophie Kinsella não fossem antípodas, mas irmãs literárias. Tempos realmente estranhos: um dia vamos rir disso tudo? * Em compensação, como os tempos estranhos são os mesmos em que a informação flui com liberdade inédita, o áudio do famoso discurso de paraninfo feito por David Foster Wallace em 2005, chamado “Isto é água” (e lançado recentemente no Brasil na coletânea de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”), pode ser ouvido na íntegra, em duas partes, aqui. * Para mim, a oficina foi essencial para, digamos, começar a escrever. Porque, na Oficina, uma das maiores revelações foi a de que o apelo sensorial é um dos maiores méritos que um texto pode ter. Dito assim – e de repente eu me leio –, parece uma platitude, uma banalidade, uma ociosidade. Mas, dentro…

Os blurbs e os blurbs de John Updike
Pelo mundo / 23/01/2013

Blurb não tem, que eu saiba, uma tradução concisa em português. É aquele texto curtinho elogioso ao autor, em geral composto de uma ou duas frases e às vezes de uma única palavra, que aparece na capa ou na contracapa de um livro. Usado com alguma parcimônia no Brasil, é praticamente obrigatório no mercado americano. Quase sempre é extraído de uma resenha publicada, mas também existem os de encomenda. Blurb que se preza traz uma assinatura prestigiosa de escritor ou crítico colada na traseira, embora o elogio também possa ser referendado só pelo nome da publicação nos casos – não muito raros – em que este dê mais peso à louvação que o do crítico meio obscuro. Como se vê, trata-se de um gênero que tem mais a ver com promoção e marketing do que com literatura ou crítica literária. O próprio nome é pejorativo desde a origem e consta que foi popularizado nos primeiros anos do século 20 por um humorista, Frank Gelett Burgess. Sua credibilidade é baixa por uma razão simples: é possível recortar um blurb bastante decente de praticamente qualquer resenha. Mesmo que seja negativa, e ressalvados casos extremos de demolição da obra, uma apreciação crítica séria…

150 preocupações da ciência sobre o futuro da humanidade
Mercado , Pelo mundo / 16/01/2013

Após duas semanas de férias em que não tive preocupação maior que a de renovar o protetor solar depois de cada mergulho na água morna de uma praia do Nordeste, dei um jeito de, em poucas horas, reabastecer até a boca o reservatório de ansiedade: caí de cara na edição 2013 da imperdível enquete (em inglês) que a mesa-redonda eletrônica Edge promove todo início de ano com nomes de destaque do universo científico, tecnológico, artístico, jornalístico e editorial. O tema desta vez parece ter sido talhado para me trazer de volta ao mundo interconectado e profundamente preocupado em que vivemos: “Com o que deveríamos estar preocupados?”. A lista de respostas possíveis para tal pergunta é bem longa, claro, mas isso não é problema para a Edge: mais de 150 intelectuais são convocados a dar sua opinião em ensaios mais ou menos sucintos. No mais curto deles, o cineasta Terry Gilliam gasta duas linhas para dizer que desistiu de se preocupar com qualquer coisa, mas a maioria leva a encomenda a sério e expõe suas angústias sobre o futuro da humanidade em meia dúzia de parágrafos densos. Há especulações preocupadas para todos os gostos. Do provável emburrecimento da espécie à opinião…

A correspondência de Coetzee e Auster e outros links
Pelo mundo / 31/12/2012

A correspondência entre J.M. Coetzee e Paul Auster, que começou em 2008 e que os teria transformado em “grandes amigos”, será lançada em maio sob o título Here and now (Aqui e agora) pela editora Faber. * Não sou um grande fã de cartas de escritores, embora reconheça o valor de algumas correspondências, mas adorei essa que Honoré de Balzac escreveu em 1840 para sua noiva, a condessa polonesa Hanska, no meio de uma de suas famosas crises financeiras: Cheguei ao fim da minha resignação. Penso deixar a França e levar meus ossos ao Brasil numa empresa louca, e que escolho por causa da sua loucura. Não quero mais suportar a existência que levo; basta de trabalhos inúteis. Vou queimar todas as minhas cartas, todos os meus papéis (…). Darei procuração a alguém, deixá-lo-ei explorar minhas obras e irei buscar a fortuna que me falta: ou voltarei rico ou ninguém poderá saber o fim que eu tiver levado. É este um projeto excessivamente fixo, que será posto em execução este inverno, com tenacidade, sem remissão. O projeto não foi posto em execução, nem naquele inverno nem nunca. Foi só por meio de seus personagens, como lembra Paulo Rónai no delicioso…

Livro de presente é tiro certo. Se não sair pela culatra
Pelo mundo , Vida literária / 19/12/2012

Será ou não um preconceito pensar que não há exceções à regra segundo a qual nada de bom se pode esperar de quem responde ‘Fernão Capelo Gaivota’ à pergunta ‘Qual é o seu livro preferido?’. A disposição retrospectiva do fim do ano me leva longe: desencavei aqui o comentário que fiz em 2009 sobre um saboroso artigo (trechinho acima) publicado no jornal espanhol “El País” acerca dos riscos de dar livros de presente. Assinado por Leila Guerriero, o texto satiriza com humor afiado a tendência a um certo esnobismo que costuma atacar em maior ou menor grau todo mundo que se considera bom leitor. Trata-se de terreno pantanoso: para alguns, o nome desse esnobismo é simplesmente bom gosto, enquanto para outros é preconceito mesmo. De uma forma ou de outra, multiplicam-se as armadilhas no caminho de quem, inocente e bem intencionado, escolhe um título para dar de presente. Quando acerta na mosca, um livro provavelmente conta mais pontos do que qualquer outro regalo em sua faixa de preço. No entanto, o mesmo exemplar de “Cinquenta tons de cinza” que seria de bom tom dado a cinquenta pessoas pode reduzir seu filme a cinzas nas mãos da quinquagésima primeira. A verdade…

Rowling provoca morte súbita da leitura – e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 05/12/2012

Curioso pela migração de gênero e público, comecei a ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. Pouco mais de meia hora depois tinha parado de ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. A leitura teve morte súbita – e vale registrar que eu tinha optado pelo original, The casual vacancy, o que inocenta do crime a tradução brasileira recém-lançada pela Nova Fronteira – por doses cavalares de academicismo e clichê na trama e na linguagem. Não, claro que isto não é uma resenha. Só quem lê uma obra inteira, e com ponderação, pode se atrever a resenhá-la. Mas é um toque: a vida é curta para tanto livro, e “Barba ensopada de sangue” está aí mesmo. * Todos sabemos que juízos estéticos baseados em ideias como “belo” e “sublime” pertencem ao passado. Mas o que significa a predominância contemporânea de categorias como “fofo” e “interessante”? O recém-lançado livro Our aesthetic categories (Nossas categorias estéticas), da poeta e crítica literária Sianne Ngai, acha que significa muito. Resenha da Slate, em inglês, aqui. * A entrevista dada à “Folha de S. Paulo” pelo crítico Rodrigo Gurgel,…

Viva a tuiteratura: do concurso ao lado ao festival mundial
Pelo mundo , Vida literária / 03/12/2012

O blog vizinho “Veja Meus Livros” está recebendo até o próximo dia 9 inscrições para um concurso de microcontos no formato Twitter, em parceria com a editora Globo. Os vencedores receberão como prêmio uma pequena montanha de livros. O desafio é resumir, em até 140 caracteres, a saga de Sherazade, a contadora de histórias das “Mil e uma noites”. Tarefa dura: na verbosidade obrigatória da moça que noite após noite entretinha o sultão com suas narrativas para não morrer, 140 caracteres dariam conta de uns poucos segundos. Estarei entre os jurados. O microconto ultrassintético continua sendo, a meu ver, o maior desafio de quem pretende usar o Twitter para fazer ficção. É estranho que tenha sido um gênero definitivamente menor – com trocadilho, claro – no primeiro festival de ficção do Twitter, que durou cinco dias e terminou ontem. Há mais Sherazades do que Daltons no mundo. O Twitter Fiction Festival teve um grande e indiscutível mérito: reunir gente de todo o planeta em torno da hashtag #twitterfiction. O clima – exagerado, como é comum nesses casos – era de urgência e fervor. “A literatura nunca mais será a mesma depois disso”, chegou a dizer alguém. O que é cômico,…

Coisas do mundo, minha nega: o anti-Roth, Mãe, Hilda etc.
Pelo mundo , Vida literária / 28/11/2012

Não, Roth não abandonou sua arte, não enterrou sua varinha como Próspero. Foi a arte que lavou suas mãos diante desse escritor irremediavelmente trivial e constrangedor. Tomando de empréstimo o título do primeiro livro Roth, a coletânea de contos ‘Adeus, Columbus’: Adeus, Philip! E, olhe, a porta da rua é a serventia da casa. O artigo publicado pelo crítico americano Lee Siegel no “Estadão” de domingo, chamando de “absurdo sem tamanho” a comoção em torno da aposentadoria de Philip Roth, afoga um ou dois argumentos interessantes num caldeirão tão cheio de ódio e amargura que a coisa acaba por entornar inteira em seu colo. Siegel, vale lembrar, é um notório defensor da tese de que o romance está morto. Descobrir que o público ainda se importa tanto com o que um romancista faz ou deixa de fazer deve ser mesmo muito frustrante. * Ano passado, poucos dias depois de se tornar o maior fenômeno de popularidade instantânea da história da Flip, o escritor português Valter Hugo Mãe me disse, numa longa conversa que se transformou nesta reportagem: “Muitas coisas na vida são momentos. Eu não me admirava nada de vir aqui no próximo ano e saber que ninguém mais se…

Franzen põe Chico e Bernardo na seleção do ‘Guardian’
Pelo mundo / 26/11/2012

Quando Jonathan Franzen fez elogios efusivos a Chico Buarque e Bernardo Carvalho em sua passagem pela Flip deste ano, muita gente acreditou numa estratégia diplomática para ganhar a simpatia dos nativos. Tudo indica que não era isso ou não apenas isso. Franzen acaba de bradar ao mundo, em tom enfático, sua admiração pelos dois ficcionistas brasileiros. Um dos quarenta escritores ouvidos pelo jornal inglês “The Guardian” para preparar sua prestigiosa lista de “melhores livros do ano” (sim, se você não tinha reparado na decoração de Natal dos shopping centers, agora já sabe que 2012 está chegando ao fim), o autor de “Liberdade” indicou Chico e Bernardo, seus colegas no catálogo da Companhia das Letras. E mais ninguém. Budapest e Nine nights não foram lançados em inglês em 2012, o próprio Franzen se apressa em explicar, embora não diga que o primeiro saiu por lá em 2005 e o segundo, em 2007. Foi este ano que os leu, e para ele isso basta. Vinda do escritor de língua inglesa mais festejado por público e crítica em sua geração (tem 53 anos), é difícil imaginar chancela mais importante para a literatura brasileira no momento em que ela começa a fazer um esforço…

Agora o festival de contos do Twitter é oficial. Vai perder?
Mercado , Pelo mundo / 23/11/2012

Além de Jennifer Egan ter publicado uma obra-prima usando o formato dos 140 caracteres como tijolinho numa construção ambiciosa, concursos e festivais de micronarrativas no Twitter já houve vários – inclusive duas edições aqui no Todoprosa – mas desta vez a coisa é oficial. O próprio Twitter vai promover na semana que vem, de 28 de novembro a 2 de dezembro, um festival de ficção que tem o objetivo pouco modesto de “ampliar as fronteiras do que é possível dizer no Twitter”. Serão destacados nos cinco dias do Twitter Fiction Festival projetos de serialização escolhidos por um júri em que figuram escritores como Teju Cole – ele próprio autor de uma interessante série de tweets baseada em notícias tiradas de jornais de antigamente – e Ben Marcus, além de editores. Ficou tarde para tentar uma vaga entre os eleitos oficiais do Twitter, infelizmente: as inscrições se encerraram no último dia 15. Mesmo assim, ainda é possível participar da brincadeira, bastando tuitar entre 28/11 e 2/12 um ou mais microcontos com a tag #twitterfiction. Em tempo: tudo será basicamente anglófono, supõe-se, embora isso não seja dito explicitamente e nada impeça um autor javanês de pular no bonde. Mas algo me diz…

‘A ferida de Kafka’, ensaio digital de Will Self: não perca
Pelo mundo / 19/11/2012

E assim como o casamento entre Kafka e os pós-graduados parece ter certo grau de necessidade, o casamento entre Kafka e a internet tem o ar disfuncional e pesadelar de uma união arranjada entre duas partes que se ignoram. O próprio Kafka sentia uma repulsa visceral à vida doméstica a dois, desviando o olhar dos trajes de dormir de seus pais dobrados sobre a cama; mas quão pior do que isso será o que temos aqui, o aburguesamento do nada? Acabamos por ser os conselheiros matrimoniais, sentados do outro lado do vidro que nos permite ver sem sermos vistos, observando a replicação incessante e assexuada de blog após ensaio após atualização, uma ordem simbólica dando lugar à seguinte enquanto a longa sombra de Kafka filtra-se sinistramente pelo vidro da tela que você está encarando no momento. Em sua “Carta ao meu pai”, Kafka escreveu: “Casar, começar uma família, aceitar todas as crianças que vierem e ajudá-las nesse mundo inseguro é o melhor que um homem pode fazer”. E assim descobre-se que esses temas espúrios são seus únicos temas. E se os precursores de Kafka são Zenão, Lewis Carroll, Lord Dunsany, então seus sucessores são estes: os cookies não comestíveis que…

Literatura brasileira? E boa? Que danado esse tradutor!
Pelo mundo , Vida literária / 14/11/2012

Não há dúvida de que o leitor internacional é sempre um leitor inseguro e preocupado, como um histérico deitado num sofá. Quer dizer, não sei nada da língua em que esse conto chamado “Animais” foi escrito. E também não sei exatamente onde fica Porto Alegre – que é onde o conto de Michel Laub começa. O que eu digo é que isso faz um leitor ficar ansioso. Tenho que supor que fique no Brasil. E, no entanto, acho que é possível de alguma forma grosseira, em vez de ligar para esses problemas éticos, simplesmente prestar atenção no que está ali. (…) Porque a beleza dessa história – e essa beleza sobrevive a quaisquer ansiedades com as quais sua tradutora, Margaret Jull Costa, tenha se preocupado para produzir essa peça tão cuidadosa e bem organizada de prosa em inglês, da mesma forma que sobrevive agora às ansiedades de seu leitor internacional – é seu movimento ágil. Há algo de cômico e perturbador na breve resenha do conto “Animais”, de Michel Laub (foto), publicada pelo escritor inglês Adam Thirlwell no site da “Granta”, a propósito do lançamento internacional da edição da revista dedicada ao Brasil. Com as credenciais de quem foi selecionado…

O ‘boom’, 50 anos depois: deixem o pai vivo
Mercado , Pelo mundo / 12/11/2012

Essa mania de matar o pai, inclusive como simples simbologia freudiana, me parece uma estupidez, a menos que o pai seja um delinquente. Em relação aos grandes do ‘boom’ não podemos sentir nada além de gratidão: foram eles que nos abriram as portas do mundo e dos leitores. Nos livraram do complexo de idiotas ou de subdesenvolvidos. Nos mostraram caminhos literários completamente novos, e não para seguirmos no mesmo rumo, mas para buscarmos saídas novas em qualquer encruzilhada. A declaração do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince resume o tom reverente – ou, digamos, de irreverência contra a irreverência – que marca a longa série de artigos comemorativos dos 50 anos do chamado boom da literatura latino-americana (na verdade, hispano-americana) publicados pelo jornal espanhol “El País”. O ano de 1962 virou marco por ter concentrado o lançamento de uma série de livros identificados com o movimento, entre eles “A morte de Artemio Cruz” (foto), de Carlos Fuentes. * Semana passada, participei da gravação da conversa com o editor franco-americano André Schiffrin para o programa “Roda Viva”, da TV Cultura, como um dos entrevistadores convidados. Aos 77 anos, Schiffrin tem história. Filho do homem que criou a Bibliotèque de la Pléiade, foi…

Pornografia com bilionário é fácil. E com assalariado?
Pelo mundo / 09/11/2012

O que acontece quando uma boa escritora feminista como a inglesa Julie Burchill, ex-menina-prodígio do “New Musical Express”, ataca o estranho fenômeno editorial desencadeado pelo sucesso de “Cinquenta tons de cinza”? Aqui (em inglês), escrevendo no “Observer” sobre Bared to you – lançado no Brasil pela editora Paralela como “Toda sua” – de Sylvia Day, uma imitação descarada que também tem vendido feito pão quente por lá, ela nos dá a resposta. Acontecem risadas, risadas restauradoras da nossa fé na inteligência do homem – e da mulher, claro. Principalmente da mulher. Sempre achei a ideia de obscenidades “ao gosto feminino” especialmente patética, como papel higiênico com crinolina. Mesmo antes de ler qualquer coisa do gênero, minha opinião era que esse tipo de “pornografia da mamãe”, como é conhecido de forma bastante revoltante, demonstrava um lado sádico e não masoquista da mulher moderna. Parecia ser só mais uma forma de atormentar os homens, surgida quando estávamos prontas para algo um pouco mais forte do que anúncios televisivos que os retratam como débeis-mentais incapazes de encontrar o próprio traseiro usando as duas mãos, um GPS e um são-bernardo. Escuta aqui, homenzinho – você não é um bilionário jovem e lindo que pode…

Tchekhov, ‘comedido e dócil’, era o anti-Rimbaud
Pelo mundo / 07/11/2012

Esbarro duas vezes no mesmo dia com Anton Tchekhov (1860-1904), o grande dramaturgo e contista russo. No “Globo”, Ana Paula Sousa conta que o criador de “Tio Vânia” e “As três irmãs” é o autor mais montado da cena teatral londrina este ano. E na revista “The New Criterion”, um alentado artigo (em inglês) de Gary Saul Morson enfatiza as peculiaridades que o tornavam um escritor único no panorama da literatura russa – e não só dela. Nem aristocrata, nem radical, Tchekhov escrevia em tom menor. Era um médico de província que privilegiava as cenas banais sobre os quadros extravagantes e a atenção ao detalhe comezinho em detrimento de projetos grandiosos e teorias abrangentes. Abstrações o desagradavam. É autor de um dos melhores conselhos a escritores que eu conheço: “Não diga que a lua está brilhando. Mostre-me seu reflexo num caco de vidro”. Não tinha nenhuma proposta política a apresentar aos seus leitores porque considerava ser o dever de um grande artista reconhecer que ninguém entende nada do mundo. Covardia? Essa impressão se desfaz quando se sabe o quanto ele teve que brigar para defender tal postura. Ocorre que a personalidade de Tchekhov não o tornava um escritor esquisitão apenas…

A polêmica Mann-Schoenberg ou a morte do escritor-deus
Pelo mundo / 05/11/2012

É imperdível este artigo que Enrique Vila-Matas publicou no “Babelia” em fevereiro deste ano – e que eu quase perdi. Resgatei-o por acaso, e como não se trata de matéria que envelheça tão facilmente, compartilho aqui o relato mordaz sobre a polêmica entre dois gigantes das artes do século 20, o escritor alemão Thomas Mann e o compositor austríaco Arnold Schoenberg, com o auxílio luxuoso de Theodor Adorno no papel de intermediário. Segue um breve resumo da confusão, que espero que funcione como isca e não como substituto da leitura do texto em espanhol. Ao escrever, já em seu exílio americano, o romance “Doutor Fausto”, que lançaria em 1947, Mann sentiu que esbarrava nos limites de seus conhecimentos musicais. Estes não eram pequenos, mas ele precisava dar ao personagem do compositor Adrian Leverkühn a capacidade de voos mais altos, fazer dele um revolucionário pensador da música. Em seu socorro veio um solícito Adorno, compatriota mais jovem – apresentado como “adulador, quase servil, admirador ardente” de Mann – que tratou de lhe fornecer competentes resumos das teorias de Schoenberg, o criador do dodecafonismo. Pois bem: o escritor teria enxertado então em seu romance esses resumos, sem mudar quase nada – algo…

‘Literatura é o contrário de informação’
Pelo mundo / 31/10/2012

Nos estudos literários, e não só neles, as “humanidades digitais” têm sido um dos campos mais cheios de energia inovadora dos últimos anos. No instigante “A literatura vista de longe”, lançado no Brasil pela Arquipélago Editorial em 2008, o crítico italiano Franco Moretti, um dos pioneiros da área, aplica à história da literatura técnicas de análise quantitativa que até então sentiam-se mais confortáveis nas ciências exatas. Em vez do close reading, da leitura atenta, por que não compreender o fenômeno das letras por meio de uma leitura feita deliberadamente por alto, à distância, em busca de padrões? Hoje a ocorrência de uma palavra ou conceito pode ser mensurada em segundos dentro da obra de um ou vários autores, de um ou mais países, de uma época, ao longo da história. Estamos falando, claro, de mais um subproduto cultural da revolução digital, promovida no caso pelo tsunami de digitalização e indexação de livros iniciado por um pequeno tremor de terra ocorrido nos laboratórios do Google em 2002. Em um ensaio publicado no “Los Angeles Review of Books”, o escritor e crítico canadense Stephen Marche conta essa história e, sem apelar para o saudosismo, especula sobre os limites de seu alcance. Traduzo…

Frankfurt 2013: a passagem do bastão
Pelo mundo / 15/10/2012

O bastão de país homenageado da Feira do Livro de Frankfurt foi passado ontem, no encerramento da festa, pela representante da Nova Zelândia a Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional (foto), em cerimônia despojada. O vídeo completo, de uma hora e meia, pode ser visto aqui por quem estiver muito interessado (aviso que os primeiros minutos estão sem som). O escritor amazonense Milton Hatoum falou brevemente em nome da literatura brasileira, exaltando a antropofagia oswaldiana, depois de ler um trecho de seu romance “Dois irmãos”. Disse que o evento do ano que vem é a chance de “reparar uma grande injustiça, pois o boom da literatura latino-americana foi um boom da literatura hispano-americana”. Um pouco mais tarde, Arthur Nestrovski e Celso Sim apresentaram uma seleta de canções brasileiras em clima extremamente cool, só voz e violão. Um verso mais sincopado de Chico Buarque acabou engolido (antropofagicamente?) por Sim, mas poucos da babélica plateia devem ter notado. O resto do show de bolso correu com bom gosto e sem sobressalto. Sem sobressalto, mas também sem colorido e até com uma certa solenidade – no mesmo tom do vídeo oficial que a delegação brasileira preparou (veja abaixo) e em contraste marcante com…

Leia um trecho de Mo Yan, Nobel de Literatura de 2012
Pelo mundo , Primeira mão / 11/10/2012

O chinês Mo Yan, que ganhou hoje o Nobel de Literatura, aparecia em todas as listas de favoritos – na preferência dos apostadores da casa londrina Ladbrokes, estava em quarto lugar –, mas isso não quer dizer que sua obra seja fartamente conhecida no Ocidente. Como quase todo mundo, saí correndo atrás de informações sobre o homem, que não tem nenhum livro lançado no Brasil e que, na loja do Kindle, conta com apenas um título (em pré-venda!). As notícias da premiação (aqui e aqui) e o comentário de Maria Carolina Maia no vizinho “Veja Meus Livros” satisfazem a maior parte da curiosidade que se possa ter sobre o homem, uma escolha que tem inegável dimensão política, daquelas que o Nobel gosta de fazer. A partir do pseudônimo que adotou para escrever, e que significa “Não fale”, Mo Yan mantém relações tensas com o mundo oficial de seu país, onde a liberdade de expressão é restrita. A Academia Sueca o saudou por seu “realismo alucinatório” e o comparou a William Faulkner e Gabriel García Márquez. A melhor forma de conhecer um escritor, porém, é lê-lo. Por isso decidi traduzir o trecho inicial do romance Life and death are wearing me…

Nobel: façam suas apostas. Eu fiz a minha
Pelo mundo / 10/10/2012

O mundo britânico das apostas, que tem na Ladbrokes seu principal palácio, não entende nada de literatura. Mesmo assim, todo ano movimenta fortunas às vésperas do prêmio Nobel de literatura, que será anunciado amanhã. Os jogadores da Ladbrokes, vindos virtualmente dos quatro cantos do mundo, não precisam ter lido um único livro do japonês Haruki Murakami (foto) para levá-lo ao topo da lista de favoritos – que é, confortavelmente, sua posição atual, depois que arrefeceu o ímpeto do azarão Bob Dylan. Os apostadores apostam em tudo o que for possível apostar, de corridas de cachorros a quem será o próximo arcebispo de Canterbury. Bastam rumores, palpites que por alguma razão soem mais convincentes do que outros, suposições de informação privilegiada. Não costuma dar certo: a Academia Sueca é competente em garantir que o resultado do prêmio nunca vaze e quase sempre surpreenda – para o bem e para o mal. Isso não se deve ao fato de os clientes da Ladbrokes não entenderem de literatura. Gente profundamente enfronhada no meio não se sai melhor nessa hora. Prêmios culturais têm mais em comum com jogos de azar do que seus promotores gostariam de admitir. De qualquer modo, o ranking de escritores…

Elmore Leonard chega à glória oficial. Melhor para ela
Pelo mundo / 21/09/2012

Fiquei muito feliz com a notícia (em inglês) de que o escritor americano Elmore Leonard, 86 anos, autor de um punhado dos melhores romances policiais e de faroeste de todos os tempos, vai receber a medalha da National Book Foundation pelo conjunto da obra, uma honraria que costuma ser abiscoitada por escritores mais “sérios” como John Updike, Gore Vidal e Toni Morrison. Além disso, a Library of America reunirá seus policiais em três volumes de capa dura. Pode ser que esses passos no sentido da canonização não signifiquem muita coisa para o ex-publicitário recluso que vive há décadas de seus livros, produzidos ao ritmo de um por ano e em muitos casos adaptados para o cinema e a TV. (Fala-se muito em “Jackie Brown”, um Tarantino menor, mas meu Leonard cinematográfico preferido é Get Shorty/“O nome do jogo”, de Barry Sonnelfeld.) Estamos falando de um sujeito avesso a qualquer tipo de pose, que projeta uma imagem de artesão e que nunca precisou reivindicar o título de “intelectual” para se levar a sério. De todo modo, as homenagens de agora não são propriamente uma surpresa. Elmore Leonard virou uma instituição cultural americana, ganhou elogios públicos de ninguém menos que Saul Bellow…

Bret Easton Ellis x David Foster Wallace e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 17/09/2012

É muito esclarecedor este artigo (em inglês) publicado na “Salon.com” por Gerald Howard, sob o título “Eu sei por que Bret Easton Ellis odeia David Foster Wallace”. Howard editou os dois autores americanos quando jovens, admira ambos e acredita que eles sejam os mais brilhantes representantes de dois lados antitéticos da mesma geração – com DFW na extremidade que acabaria por se provar culturalmente vitoriosa. Mesmo assim, reconhece que os tweets cheios de fel que o autor de “Psicopata americano” disparou em sequência, a propósito da biografia de DFW recém-lançada por D.T. Max, deixam-no na posição indigna de chamar um morto para sair no braço. Dois exemplos: A fajuta “sinceridade” do Meio-Oeste de David Foster Wallace, em que uma geração de bebês se reconhece, é a coisa que eu mais odeio como escritor. Tudo bem que David Foster Wallace seja mais esperto do que eu e um escritor melhor, mas ele era tão mais frio do que eu jamais fui. Ele era uma farsa. Quase. * Por falar em David Foster Wallace, cuja morte acaba de completar quatro anos: sai no mês que vem, pela Companhia das Letras, “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”,…

Mamilogate, o momento mais ridículo do Facebook
Pelo mundo / 12/09/2012

Se existe um lado bom no neopuritanismo do Facebook, ele acaba de ser encontrado. O tom de falsa seriedade com que o editor de cartuns da revista “New Yorker”, Robert Mankoff, expôs no site da revista o ridículo de quem se escandaliza com mamilos de nanquim numa representação cartunesca de Adão e Eva produziu uma pequena obra-prima do humor. Muito melhor, aliás, do que o cartum da discórdia, que não é ruim. O post se chama Nipplegate (Mamilogate) e pode ser lido inteiro, em inglês, aqui. Traduzi o trecho inicial: A “New Yorker” tem uma página no Facebook para nossos cartuns, que muitos de vocês curtem, ou talvez seja só uma pessoa com tempo livre à beça que curte a página, depois curte de novo e de novo. Em todo caso, é um número grande de curtidas. Nós curtimos isso. O que nós não curtimos foi a suspensão temporária que levamos do Facebook por violar suas normas comunitárias de “Nudez e sexo” ao publicar este cartum de Mick Stevens. Com a esperança de voltar às boas graças do Facebook, Mick redesenhou o cartum para a gente, mas a adição de roupas provocou uma severa subtração no humor. Uma breve investigação…

Retratos, biquínis e outros links nem sempre literários
Pelo mundo , Pop de sexta / 07/09/2012

A inspiração do artista e poeta austríaco Anatol Knotek, que pinta retratos – como o de Herman Hesse, à esquerda – com palavras manuscritas em vez de traços disputou uma vaga no Pop de Sexta com a suprema gratuidade de uma coleção online de biquínis que se parecem com capas de livros – como o da direita. Deu empate. * Embora pop à beça e bom mesmo seja este mapa da Via Láctea com design inspirado no do metrô londrino. Pena que não se qualifique como propriamente literário. * O escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder fez para o site do Instituto Moreira Salles um apanhado de vídeos interessantes disponíveis na web literária. Já havia feito o mesmo com textos. * Este artigo (em inglês) de Barton Swain para o Weekly Standard, a propósito de um livro que busca ensinar regras de estilo para acadêmicos, tem o grande mérito de mostrar – consolo duvidoso – que o problema não é só nosso: “Os acadêmicos modernos não são celebrados pela clareza e pela felicidade de seu texto”, escreve ele. “Uma das lições mais importantes que um estudante de pós-graduação pode aprender – e se não aprender logo, estará condenado – é que…

Por que ‘Laranja mecânica’ ainda dá suco e outros links
Pelo mundo / 31/08/2012

Em artigo no “New York Times” (em inglês), adaptado do prefácio que escreveu para a edição comemorativa do livro no Reino Unido, Martin Amis tenta entender por que o romance “Laranja mecânica”, de Anthony Burgess, ainda está vivo (certamente mais do que o filme homônimo de Stanley Kubrick) meio século após seu lançamento. Sua aposta é que a chama que não se apaga reside na improvável paixão extremada de Alex, o sociopata caricatural que cultiva a “ultraviolência”, pela música clássica: Num só golpe, e sem sentimentalismo, Alex é realinhado. Ele agora foi equipado com uma alma, até mesmo com uma suspeita de inocência. Burgess ventila a sugestão sinistra, mas não implausível, de que Beethoven e Birkenau não apenas coexistiram, mas se combinaram e conspiraram, inspirando sonhos loucos de supremacia e onipotência. * A propósito, isto é para quem não resiste a uma lista, por mais questionável que ela seja: o site Popcrunch escolhe os 16 (estranha opção numérica) maiores romances distópicos de todos os tempos, por ordem decrescente de grandeza. Todos escritos em inglês, claro, em lógica semelhante àquela que transforma em World Series o campeonato americano de beisebol (embora seja preciso reconhecer que o gênero se confunde com a…

Em defesa da boa (e moribunda?) crítica jornalística
Mercado , Pelo mundo / 29/08/2012

Porque toda crítica é baseada nesta equação: CONHECIMENTO + GOSTO = JUÍZO SIGNIFICATIVO. A palavra-chave aqui é “significativo”. Pessoas que reagem fortemente a uma obra – a maioria de nós o faz – mas não têm uma erudição mais ampla que lastreie essa opinião não são críticos. (É por isso que grande parte das resenhas feitas online por leitores não constituem propriamente crítica.) Tampouco são críticos aqueles que têm uma tremenda erudição, mas não o tipo de gosto ou temperamento que poderia conferir a seu juízo autoridade aos olhos dos outros, daqueles que não são especialistas. (É por isso que tantos estudiosos acadêmicos se saem mal escrevendo resenhas para grandes audiências.) Como qualquer outro tipo de escrita, a crítica é um gênero que requer do praticante um talento específico, e as pessoas que têm esse talento são aquelas em quem o conhecimento se cruza de modo interessante e persuasivo com o gosto. No fim das contas, o crítico é alguém que, quando seu conhecimento, mobilizado por seu gosto, se vê na presença de um novo exemplar do gênero pelo qual se interessa – uma nova série de TV, filme, ópera, balé ou livro – saliva para atribuir sentido a essa…

Como escrever uma boa resenha má
Pelo mundo , Vida literária / 27/08/2012

Esse artigo (em inglês) de J. Robert Lennon na revista eletrônica Salon.com traz boas – e divertidas – reflexões sobre a ética da resenha literária negativa. Qual é o limite entre descer o malho com desassombro em livros que o resenhista julga merecedores de malho e aquele espetáculo sádico de espinafração em que o foco é transferido dos problemas da obra para a verve exibicionista do próprio resenhista? O autor parte do contraste entre sua própria crítica negativa do novo livro de Paul Auster, que ele acredita estar no primeiro caso, e uma resenha cruel assinada por um colega, que classifica no segundo, para elaborar sete regras que vale a pena conhecer. Elas estão aí embaixo, em versão condensada, traduzidas por mim. Não são poucos os pontos de contato entre as observações de Lennon e as seis regras de ouro de John Updike, que publiquei aqui em 2009. Em primeiro lugar, forneça um contexto. Isso significa ler o máximo possível da obra do autor, tomando notas sobre todos os livros e não só o que você está resenhando. Foi por isso que me senti justificado em malhar o livro de (Paul) Auster – nem sempre gosto dele, mas às vezes…

Qual o melhor conselho literário que você já recebeu?
Pelo mundo , Vida literária / 20/08/2012

O Writer’s Digest lançou a pergunta acima (em inglês) a seus leitores em fevereiro. Algumas das respostas são boas, mas, pensando em qual seria a minha, descobri que a única honesta é: depende do momento. Nesta fase em que estou em luta corporal com um novo romance – apanhando mais do que batendo – o conselho que resolvi imprimir em corpo 72 para colar na parede em frente à mesa de trabalho, de autoria de Neil Gaiman (foto), me parece o mais útil de todos os tempos: “Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.” * Fernando Pessoa que se cuide: Benjamin Black, heterônimo adotado por John Banville quando escreve romances policiais, vai incorporar o espírito de Raymond Chandler em livro que sai ano que vem. Missão duríssima. Como evitar o pastiche que faz a graça de textos como este da McSweeney’s? * E por falar em espíritos e cavalos, uma frescura chique: Jeffrey Eugenides (no papel de Henry James), Jonathan Safran Foer e Junot Díaz posam para Anne Leibovitz num superproduzido ensaio fotográfico sobre Edith Wharton para a “Vogue”. * Para quem estiver muito interessado em refletir sobre o futuro do livro,…

O Twitter, quem diria, pariu uma obra-prima: ‘Caixa preta’
Pelo mundo , Vida literária / 17/08/2012

É possível fazer literatura de qualidade no Twitter? Essa pergunta, que tem andado no ar há alguns anos, não teve até agora (terá um dia?) melhor resposta do que a que a escritora americana Jennifer Egan – autora do notável “A visita cruel do tempo”, resenhado aqui – deu em maio deste ano ao publicar no perfil da revista “The New Yorker” uma história de espionagem em forma de flood de tweets chamada Black box. Quem ainda não leu pode acessar o conjunto inteiro (em inglês) no site da revista. Ou acompanhar a tradução, “Caixa preta”, que a editora Intrínseca publicará a partir desta segunda-feira, dia 20, até o dia 30, sempre das 22h às 23h, em sua conta no Twitter (@intrinseca). Ao fim desse prazo, a narrativa completa será lançada como e-book. A iniciativa é oportuna: uma “Caixa preta” basta para redimir quaisquer “Cinquenta (ou até mais) tons de cinza”. Na Flip deste ano, em que dividiu uma mesa com Egan, o escritor inglês Ian McEwan não mediu elogios a Black box: “É uma das melhores coisas que leio em anos”. Os espectadores que não conheciam o texto podem ter pensado que o autor de “Serena” estava apenas exercitando…

Quando escritores ganhavam medalhas olímpicas
Pelo mundo , Vida literária / 08/08/2012

Em vez de duplos mortais carpados, tetrâmetros iâmbicos cataléticos? Exatamente. Embora quase não se fale nisso, entre 1912 e 1948 os Jogos Olímpicos distribuíram medalhas de ouro, prata e bronze para escritores (mais especificamente, poetas), além de músicos, arquitetos, pintores e escultores, por obras inéditas que tivessem o esporte como tema. Não que faça muita falta saber. O fato de o primeiro vencedor da medalha de ouro olímpica na modalidade literatura, em 1912, ter sido o próprio Barão Pierre de Coubertin (foto), o grande ideólogo dos Jogos e o maior entusiasta da inclusão das artes entre as modalidades competitivas, torna tudo bastante suspeito. Curiosamente, ao inscrever sua obra “Ode ao esporte” nos Jogos de Estocolmo, Coubertin adotou um pseudônimo alemão duplo – “Georges Hohrod e Martin Eschbach”, talvez imaginando que o texto fosse bom demais para ter sido escrito por uma pessoa só –, o que fez sua medalha ser computada inicialmente no quadro da Alemanha. Se o panteão dos escritores com medalha de ouro não inclui nenhum grande nome da literatura, o que sugere uma baixa adesão dos maiores artistas da época à ideia de disputar uma medalha olímpica, nem todos são inteiramente obscuros. O nome de maior destaque…

A era do crítico gente boa
Pelo mundo / 06/08/2012

Resenhistas não deveriam ser máquinas de recomendar, mas nós acabamos por nos conformar com esse papel, em parte porque o espírito de solicitude comunitária do Twitter estimula isso. Nossa vantagem sobre os algoritmos da Amazon e da Barnes & Noble e sobre o amadorismo (parte dele bastante bom e útil) de sites como GoodReads é que nós somos profissionais com opiniões nuançadas, informadas. Somos pagos para ser céticos, até mesmo belicosos, de modo que nosso entusiasmo vale mais quando é merecido. Os resenhistas de hoje tendem a mitificar os velhos arranca-rabos televisivos entre William F. Buckley e Gore Vidal ou Noam Chomsky (os vídeos estão no YouTube), mas não estão dispostos a se engajar eles mesmos nesse tipo de combate intelectual. Elogiam a beligerância de Norman Mailer e Pauline Kael, mas quase sempre à distância. Mailer e Kael são como aqueles amigos rebeldes da escola: objetos de adoração, mas não de imitação. Afinal, é tudo tão perigoso, alguém pode acabar se machucando. Em vez disso, gentileza enjoativa e entusiasmo cego são os sentimentos dominantes. Como se espelhasse a cultura à sua volta, a crítica dura virou sinônimo de ofensa; tudo é pessoal – a afeição de alguém por um livro…

Gore Vidal (1925-2012) deixa a igreja mais vazia
Pelo mundo / 01/08/2012

Nossa adorável, vulgar e humaníssima arte [o romance] está num de seus finais, se não estiver no fim. Mas isso não é motivo para não querer praticá-la, ou mesmo lê-la. De qualquer modo, como sacerdotes que já se esqueceram do sentido das preces que entoam, continuaremos por um bom tempo falando de livros e escrevendo livros, fingindo não notar, enquanto isso, que a igreja está vazia e os paroquianos foram embora para algum lugar a fim de venerar outros deuses, quem sabe em silêncio ou com novas palavras. O escritor americano Gore Vidal escreveu o trecho acima num ensaio publicado em 1967 – bem antes, portanto, da onda digital que transformou em lugar-comum prever o fim do romance. Ao morrer ontem, aos 86 anos, em sua casa em Los Angeles, vítima das complicações de uma pneumonia, o ficcionista, roteirista e polemista que era um dos últimos grandes nomes da galeria de escritores-celebridades deixou a igreja um pouco mais vazia. Seu pessimismo era parte inseparável de uma personalidade complexa em que um profundo esnobismo aristocrático se aliava à coragem de reafirmar ideias e comportamentos que lhe eram caros – laicismo, aversão ao patriotismo e à demagogia, homossexualidade – sem concessão às…

Livros digitais são uma nova bolha?
Pelo mundo / 30/07/2012

Estou convencido de que os livros digitais são uma nova bolha tecnológica, e de que ela vai estourar nos próximos 18 meses. Eis a razão: a publicação digital é inextricavelmente ligada às estruturas do marketing nas redes sociais e ao mito de que a mídia social funciona para vender produtos. Não funciona, e só agora começamos a ter estatísticas verdadeiras sobre isso. Quando o marketing das redes sociais entrar em colapso, destruirá a plataforma na qual se baseava o sonho de uma indústria formada por escritores autopublicados. Em sua tentativa de demolir no “Guardian” de hoje (em inglês) a lógica da autopublicação digital – e não a do livro digital em si, embora o trecho acima não deixe isso tão claro – Ewan Morrison apresenta números desconcertantes e compra briga com muita gente, inclusive o brasileiro Paulo Coelho, um defensor da publicação gratuita na internet como estratégia para escritores se fazerem conhecidos do público. * Depois de viajar a Cuba, o escritor argentino [Julio Cortázar] iniciou uma lenta transformação. Pouco a pouco, ele deixou de buscar uma revolução cultural vanguardista que mudasse a vida e começou a defender as revoluções políticas que transformavam as sociedades. Cuba preencheu um vazio político…

Ser universal é um direito que se conquista

No auditório da Biblioteca Nacional, no centro do Rio, quarta-feira à noite, predominavam escritores, editores, tradutores e jornalistas culturais. Compondo a mesa estavam a inglesa Amy Webster, representante da Feira do Livro de Londres, e o escritor João Paulo Cuenca, além de mim. A propósito do lançamento carioca da revista literária londrina “Litro”, que em seu número 114, com edição da inglesa Sophie Lewis, reuniu autores brasileiros – Cuenca e eu entre eles – a ideia da noite era discutir as possibilidades de exportação de nossa literatura para o fechado mercado britânico num momento em que o cenário econômico mundial deixou o Brasil, por assim dizer, na moda. Por via das dúvidas, Amy começou tratando de jogar muitas pints de água gelada em qualquer fogueirinha que pudesse – tudo é possível – ter começado a arder no peito dos ufanistas. Com apenas 3% de seu mercado ocupado por traduções, uma fatia mínima que é abocanhada quase inteiramente por vendedores de peso como o sueco Stieg Larrson, o fato é que as brechas para a entrada de literatura brasileira no Reino Unido são virtualmente inexistentes. Membro de uma delegação de editores britânicos que está no Brasil neste momento para conhecer melhor…

Livros podem salvar a sua vida. Literalmente
Pelo mundo / 22/06/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=-BSUmLAQG-4&feature=relmfu O velho truque cômico – que alguns chamariam de cretino, mas isso é parte da graça – de tomar a linguagem figurada por literal garante a diversão desse vídeo, mais um da turma da revista multimídia americana Electric Literature, que compartilha com o Pop Literário de Sexta a certeza de que a literatura, como a música clássica, pode, deve e precisa urgentemente ser deschatificada (leia aqui um post sobre a minha conversa com o fundador da EL, Scott Lindenbaum, no projeto Oi Futuro, ano passado). Bom fim de semana a todos.

O boicote da autora de ‘A cor púrpura’ a Israel e outros links
Pelo mundo / 20/06/2012

A escritora americana Alice Walker (foto) vetou a publicação de seu best-seller “A cor púrpura” em Israel, em protesto contra o que chamou, numa carta à editora Yediot, de “apartheid e perseguição do povo palestino”. Acrescentou que “gostaria muito que meu livro fosse lido pelo povo de seu país, especialmente pelos jovens e corajosos ativistas israelenses (judeus e palestinos) que lutam por justiça e paz e com os quais eu tive o prazer de trabalhar. Tenho esperança de que um dia, talvez em breve, isso possa acontecer.” Reportagem completa do “Guardian”, em inglês, aqui. * Como o imperialismo linguístico do “latim moderno” afeta a Bolsa de Valores Literários é um tema que renderia muitos livros – de preferência em inglês, claro, para que todo mundo se interessasse em ler. Mas é improvável que isso ocorra, por uma simples questão de ponto cego. Tim Parks, escritor inglês que mora em Milão, faz no blog da “New York Review of Books” reflexões lúcidas sobre a acachapante – e crescente – hegemonia da literatura de língua inglesa entre os leitores europeus de ficção. Um trecho: Participando de uma conferência com escritores britânicos ano passado, em Berlim, fiquei constrangido quando um dos meus colegas,…

Twitter: como ser conciso e prolixo ao mesmo tempo
Pelo mundo , Vida literária / 18/06/2012

O fato de escrever sobre literatura neste blog há seis anos, sem interrupções, me leva a ser convidado com frequência para tratar de um assunto que deve ter grande apelo para o público interessado em literatura, a julgar pela vaga cativa que os curadores lhe destinam na programação de feiras e congressos: o da convergência entre o velho mundo das letras e o novo mundo digital. Sempre que me perguntam em tais ocasiões se a internet mudou ou vai mudar nosso jeito de escrever, respondo que sim, claro que mudou, está mudando, mas não tão depressa nem tão inequivocamente quanto se costuma imaginar. Estamos, como é típico da contemporaneidade, apalpando o caminho numa sala escura. Este artigo (em inglês, via Arts & Letters Daily)) que acaba de sair no último número da revista literária americana “n+1” acende algumas luzes no breu, como se pode ver nos trechos abaixo: Nos seus melhores momentos, o Twitter diverte e instrui. Alguém, frequentemente alguém de quem você não esperaria isso, condensa o Espírito do Tempo numa ótima anedota, epigrama ou sacada. (…) Olhe para sua página do Twitter no momento errado, porém, ou mande você mesmo um tweet idiota, e de repente um infinito…

Eagleton é mais um dos grandes críticos autocríticos
Pelo mundo , Vida literária / 06/06/2012

O crítico inglês Terry Eagleton (foto) acaba de dar uma interessante entrevista para a revista acadêmica “The Oxonian Review” (em inglês, aqui). Nela apresenta uma visão extremamente negativa do atual estado dos estudos literários acadêmicos e dá um conselho seco aos “jovens críticos”: “Não é um bom momento para estar nas universidades”. Vindo de um nome fundamental da teoria literária britânica, o desabafo tem impacto. Na sua opinião, os jovens estudiosos de literatura sabem “discorrer de forma muito inteligente sobre o contexto de um poema”, sem no entanto ter a menor ideia de como “falar dele como poema”. Marxista, Eagleton tenta dar a esse desejo de restauração dos valores tradicionais da literatura uma roupagem progressista: trata-se, a seu ver, de recuperar para os críticos a relevância cultural dos grandes “intelectuais públicos”, em oposição ao que considera o conformismo reinante com o fechamento da academia em si mesma. Reagindo a uma provocação dos entrevistadores, o crítico traça então um limite para a autocrítica: afirma não acreditar que a razão do problema deva ser buscada numa suposta overdose de teoria dentro da universidade. Ela estaria no mundo lá fora, num miasma em que entram “a mídia, o pós-modernismo, o status da palavra…

Um belo Poe, uma Flip tranquila e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 04/06/2012

Conhece essas ilustrações de 1919, do inglês Harry Clarke, para os contos de mistério de Edgar Allan Poe? Eu não conhecia. Coisa finíssima. * Hoje, dez da manhã, quando se abriram os portões virtuais, tudo correu com suavidade na compra de ingressos para a Flip no site Tickets for fun. Agora, passando do meio-dia, as entradas para a Tenda dos Autores estão esgotadas na maioria das mesas, o que era previsível, mas ainda não ouvi – por email, telefone ou redes sociais – nenhum sinal do choro e do ranger de dentes que em outras edições do evento eram parte da paisagem, diante de conexões que caíam no meio do processo de compra, informações desencontradas etc.. Sim, está certo que cobrar 20% de “taxa de conveniência” é extorsivo, mas isso não é exclusividade da Flip. No décimo aniversário da festa, a bagunça da venda de ingressos parece ser uma herança maldita que ficou definitivamente para trás. * Você gostaria de viver para sempre? Tolinho. Um livro do filósofo Stephen Cave explica por que a imortalidade é uma daquelas ideias que parecem ótimas e na verdade são péssimas. Como champanhe no café da manhã. * Furo de Raquel Cozer na “Ilustrada”…

Máquinas de escrever eróticas, o chefão da Record etc.
Mercado , Pelo mundo / 28/05/2012

Como sabe quem costuma aparecer por aqui, elas são um fetiche assumido do Todoprosa: aí vai uma inusitada coleção de fotos eróticas de priscas eras (mais inocentes que a novela das nove, mas vale o alerta) que juntam mulheres e… máquinas de escrever! * É um belo trabalho jornalístico esta entrevista de Rinaldo Gama, Ubiratan Brasil e Maria Fernanda Rodrigues com o editor Sérgio Machado, da Record, que saiu no último Sabático. O chefão da megaempresa aparece de corpo inteiro, mais interessado no “negócio livro” do que no conteúdo dos livros, o claro junto com o escuro, o que explica muita coisa. Só acho injusto que se demonize o homem por contar o episódio – de resto já sabido – da falsa tradução de Nelson Rodrigues para Harold Robbins. Deixa-se de levar em conta que tal tipo de trapaça com o leitor era visto como benigno e foi característico de certo estágio condescendente da indústria cultural do século 20 – veja-se o horóscopo falso, por exemplo, inventado do início ao fim por leigos absolutos, que muitas publicações de respeito cultivaram. É evidente que não cabe mais esse tipo de coisa, o mundo mudou, a ética ficou menos elástica. Mas convém…

Pop de sexta: James Joyce, voz e violão
Pelo mundo / 25/05/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=43q-ZeMhFaQ&feature=related Ainda em clima de “Ulisses”, um vídeo em que a tradicional canção irlandesa “Lass of Aughrim” é interpretada por James Joyce e sua amada, Nora Barnacle – isto é, por Ewan McGregor e Susan Lynch nos papéis de Joyce e Nora. O longa-metragem de Pat Murphy do qual foi extraída a cena chama-se “Nora” e não é grande coisa: apesar de honesto, patina naquela mistura de apanhadão biográfico, trivialização da obra e exaltação do “gênio” que condena 9,7 em dez filmes que têm grandes escritores como protagonistas. Mas a canção é linda, linda. Bom fim de semana a todos.

Fuentes: acima de tudo, agitador cultural do ‘boom’
Pelo mundo / 16/05/2012

Escritor multifacetado que gabava-se de reescrever pouco e não saber o que era bloqueio criativo, prolífico articulista de esquerda que nunca se prendeu a dogmatismos partidários, cidadão do mundo de modos aristocráticos, professor universitário e “elegante intelectual público”, segundo o obituário do “New York Times”, Carlos Fuentes morreu ontem deixando uma obra vasta mas, tudo indica, menor que seu papel histórico como agitador do chamado boom latino-americano. Profundamente identificado com a cultura mexicana, embora nascido no Panamá, Fuentes foi o primeiro dos autores do boom – que nos anos 1960 e 1970 conquistou leitores nos quatro cantos do mundo para a literatura do continente – a expressar como ensaísta, ainda nos anos 1960, autoconsciência sobre um movimento que tinha como combustível, em doses iguais, talento e marketing. Fez pelo arcabouço ideológico e pelo instinto gregário do realismo mágico o que a agente literária espanhola Carmen Balcells fazia por suas estratégias comerciais. Como costuma ocorrer com agitadores culturais, Fuentes não figura, porém, entre os nomes de maior potência artística do movimento. O colombiano Gabriel García Márquez, que ainda não se pronunciou sobre sua morte, e o peruano Mario Vargas Llosa – que o fez ontem no calor da hora, ainda que…

Você pensa que sabe abrir um livro? Pense de novo
Pelo mundo / 14/05/2012

O primitivo infográfico ao lado, chamado “Como abrir um livro novo” e pinçado em velhos arquivos da imprensa americana pela revista The Atlantic, funciona como piada pronta – e de época, ou seja, pronta faz tempo – para quem, ao defender os livros de papel diante dos digitais, argumenta que sua tecnologia é insuperável, intuitiva, descomplicada, perfeita. Não para o consciencioso encadernador que deu as dicas para o passo-a-passo ao lado, pelo qual ficamos sabendo que o simples ato de abrir um livro recém-encadernado oferece perigos inimagináveis: “Apoie o livro numa mesa, com a lombada para baixo. Abaixe a capa. Em seguida, a contracapa. Abra então algumas folhas na parte da frente. Agora abra algumas folhas na parte de trás, e siga alternando a abertura de folhas entre a parte da frente e a parte de trás, pressionando-as suavemente para baixo, até atingir o centro. Repita a operação duas ou três vezes para flexibilizar a costura”. Ligar um iPad não é muito mais fácil?

Harry Potter ‘de graça’: a nova mágica da Amazon
Mercado , Pelo mundo / 11/05/2012

A partir do dia 19 de junho será possível baixar no Kindle todos os sete livros da série Harry Potter, o arrasa-quarteirão de J.K. Rowling, em cinco línguas (inglês, espanhol, francês, alemão e italiano), sem que o cartão de crédito do usuário seja debitado em um único centavo. Os títulos são a mais nova aquisição da “biblioteca” do Kindle, que permite pegar emprestado até um título por mês. Mais detalhes, em inglês, aqui. Ora, qualquer um que tenha cinco minutos de familiaridade com um leitor eletrônico sabe que a diferença entre o empréstimo e a compra pode ser meramente teórica no intangível universo digital – mesmo porque a Amazon anuncia que “não há data de devolução” para os livros da biblioteca do Kindle. Onde, então, estará a pegadinha? A pegadinha, se é que se pode chamar assim, é o amadurecimento de um conceito que já estava embutido no projeto Kindle desde o início: o do dono do aparelho como membro de um clube. A “biblioteca” não é exatamente gratuita no fim das contas: só têm acesso a seus (por enquanto) 145 mil títulos – e a benefícios como entrega rápida de livros físicos sem taxa extra e um acervo de…

As estantes mais criativas do planeta
Pelo mundo / 09/05/2012

Divertidas, as listas fotográficas da Flavorwire já são uma tradição no mundo digital – uma prova de que pouca gente resiste a uma sabedoria de almanaque organizada em tópicos. O tema das estantes criativas, por seu lado, já é uma pequena tradição na blogosfera literária – uma prova de que, embora os livros eletrônicos tenham chegado para ficar, os volumes de papel estão longe de perder seu charme. Juntando as duas coisas temos esta galeria de “30 estantes lindas e inovadoras”. Recomenda-se uma visita à lista completa, mas, como o tempo é curto e os altos e baixos fazem parte do gênero, o Todoprosa separou aqui algumas de suas preferidas. . .

Um belo pôster, um enxame de autores e outros links
Pelo mundo / 04/05/2012

O pôster ao lado (“Estes são seus filhos. Estes são seus filhos com livros”) é uma criação do grupo americano de incentivo à leitura Burning Through Pages. Uma beleza, não? Via Galleycat. * O romance é escrito frase por frase. Para cada uma delas, qualquer pessoa pode inscrever uma concorrente (até 140 toques). Usuários como você votam então em cada uma das frases inscritas, dando-lhes cotações de +1 ou -1. A que tiver a maior nota torna-se então uma frase do romance, pelo menos até que outra inscrita obtenha uma contagem maior. Clique aqui para ler mais sobre a ideia, e aqui para conferir a execução. Ah, sei. Mas já que estamos interativos, proponho outra votação. [poll id=”51″] * Parece ser parte do espírito do tempo a aposta no coletivismo. Mesmo quando os autores são indivíduos: será que “coletivos” e cooperativas de escritores estão escritos no futuro da autopublicação? Alison Flood, do blog de livros do “Guardian”, acredita que sim (em inglês). * O escritor londrino Will Self fez dia desses uma curiosa e enfática defesa das “palavras difíceis”, comparando o gosto de nosso tempo pela facilidade textual com os playgrounds emborrachados das crianças. Vale confrontar com a crônica que…

Tudo em 5 capítulos: Julian Barnes na cama com Updike
Pelo mundo / 02/05/2012

O site é visualmente modesto, baseado numa ideia simples, e abre mão até de ilustração, que dirá dos recursos multimidiáticos que a internet propicia. Apesar disso – ou por isso mesmo? – o FiveChapters.Com tem um charme dos mais distintos e duradouros da blogosfera literária anglófona. Com curadoria de David Daley, que já andou trabalhando com o pessoal da McSweeney’s, sua proposta é publicar um conto por semana em cinco capítulos, um por dia, de segunda a sexta, e deixar que o talento narrativo de bons escritores faça o resto. Tem sido assim há mais de cinco anos – desde outubro de 2006. Abaixo, em tradução caseira, uma amostra de “Dormindo com John Updike” (aqui o conto inteiro, em inglês), de Julian Barnes, uma espécie de Sobrescrito psicologicamente sagaz e melancolicamente cômico sobre duas amigas, Jane e Alice, escritoras idosas de sucesso limitado às voltas com suas memórias – entre elas, a do caso que a última teve com o ex-marido da primeira, Derek, muito tempo atrás – no trem em que ambas retornam de mais um festival literário. Elas acabam de se irritar mais uma vez com o tópico eternamente repisado do velho triângulo quando Jane abre um novo…

O não-Pulitzer, a não-política – e outros sim-links
Pelo mundo , Vida literária / 20/04/2012

Baixada a poeira, já dá para dizer: Laura Miller, ex-jurada do prêmio Pulitzer, publicou na Salon.com a melhor reflexão (em inglês) que vi por aí sobre a polêmica ausência de um representante da literatura de ficção entre os laureados deste ano, algo que não ocorria desde 1977. Miller explica o frequente atrito entre as deliberações do júri, formado por gente da área de literatura, e o aval do conselho do Pulitzer, que tem interesses variados e costuma levar as decisões para um terreno próximo do gosto médio – daí, aliás, a costumeira eficácia do prêmio como propulsor de vendas. Os conselheiros se comprometem a ler os finalistas, claro, mas é só. Qualquer manobra fora desse terreno é limitada. Miller sustenta basicamente que, como hoje em dia ninguém fora do gueto literário tem tempo nem vontade de se manter em dia com os lançamentos, por melhores ou mais comentados que eles sejam, o consenso em situações desse tipo tende a ser cada vez mais difícil: Segundo todos os relatos, o grupo (de conselheiros) não conseguiu construir uma maioria em torno de nenhum dos três títulos recomendados pelo júri. É certamente improvável que um número suficiente deles tenha lido ficção de forma…

Eagleton: Literatura existe e tem cinco ingredientes
Pelo mundo / 16/04/2012

Meu próprio entendimento é que, quando as pessoas chamam hoje em dia algum texto de literário, elas geralmente têm em mente uma de cinco coisas, ou alguma combinação entre elas. O que elas querem dizer com “literário” pode ser um trabalho que seja ficcional; que comporte uma medida significativa de intuição sobre a experiência humana, em oposição ao relato de verdades empíricas; que use a linguagem num registro peculiarmente elevado, figurativo ou autoconsciente; que não seja pragmático no sentido em que listas de compras o são; ou que seja altamente valorizado como exemplar de escrita. O novo livro do crítico literário inglês Terry Eagleton – que brilhou como o grande provocador da Flip há dois anos, conforme relatado na época aqui – chama-se The event of literature (“O evento da literatura”) e traz uma surpresa não só para quem tem alguma familiaridade com sua obra como para qualquer pessoa que costume acompanhar, mesmo de longe, as conversas no ambiente cada vez mais rarefeito da crítica literária acadêmica. Eagleton afirma que, pensando bem e diferentemente do que vinha sustentando até aqui, é possível, além de desejável, definir de forma universal o que é literatura, sim. Para tanto basta introduzir nas lucubrações…

O baú de David Foster Wallace e outros links
Pelo mundo / 13/04/2012

Três anos e meio após a sua morte, David Foster Wallace (foto) se consolida como o Raul Seixas da literatura americana: os últimos achados em seu baú são um cartão postal que ele escreveu para Don DeLillo e algumas cenas ainda inéditas de The Pale King, romance inacabado publicado postumamente. * Da mesma geração de DFW e, para todos os efeitos, tão sério quanto ele no modo de encarar a literatura, Jonathan Franzen se distingue pela absoluta ausência de autoironia. Após mais uma entrevista em que martelou seus temas preferidos – a necessidade que o ser humano tem de ler histórias literárias “complexas” como as que ele escreve e a incapacidade escrevê-las quando se tem conta no Twitter ou no Facebook – abriu a porta para que Tim Parks levantasse dúvidas interessantes sobre a tal “necessidade humana de histórias” e lhe dirigisse outras perguntas incômodas neste artigo (em inglês) no blog da “New York Review of Books”: Naturalmente, é conveniente para um romancista pensar que, pela própria natureza de seu trabalho, está do lado do bem, provendo uma demanda urgente e geral. (…) Mas qual é a natureza dessa demanda? O que aconteceria se ela não fosse atendida? (…) E…

‘Lean back’, moçada, e leia: é a nova moda
Mercado , Pelo mundo / 09/04/2012

Lean Back 2.0 – updated February 2012 O link acima abre uma apresentação de slides feita há menos de dois meses por Andrew Rashbass, presidente do grupo “The Economist” (em inglês). Para quem tiver paciência de aguentar um certo visgo Powerpointilhista de embromação corporativa, ela traz algumas ideias novas e surpreendentes – numa palavra, revolucionárias – sobre os padrões de leitura online na segunda década do século 21. “O velho é novo de novo”, afirma um dos quadros. O que isso quer dizer? Resumindo, trata-se da constatação de que, após um período em que a leitura online foi feita basicamente em desktops e laptops, estamos entrando de modo resoluto na era do tablet, que – eis a tese, sustentada por pesquisas e tendências já visíveis de comportamento – muda tudo: daquilo que já se convencionou chamar de Lean forward para Lean back 2.0. Lean forward, para quem não sabe, faz referência à posição do corpo do internauta diante da máquina, inclinado sobre ela: é uma postura ativa que favorece o compartilhamento de informação, a navegação nervosa de link para link e o vaivém da atenção entre texto e vídeo, por exemplo. Lean back 2.0 – e agora a inclinação é…

Pop de sexta: ‘O velho e o mar’
Pelo mundo / 06/04/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=v1EbNvHDxbA O Pop Literário de Sexta volta com “O velho e o mar”, curta de animação russo (postado no YouTube em duas partes) que faturou o Oscar da categoria em 2000. Baseado na famosa novela de Ernest Hemingway sobre a luta de um velho pescador solitário contra um peixe gigantesco, o belíssimo filmete do animador Aleksandr Petrov foi feito com uma técnica peculiar – pastel sobre vidro em 29 mil quadros – e tem cenas de tirar o fôlego. Boa Páscoa a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=l2_KszEnlq0&feature=related

‘Por que só agora?’ Sobre os armários de Günter Grass
Pelo mundo / 05/04/2012

“Por que só digo agora,/ velho e com minha última gota de tinta,/ que a potência nuclear Israel põe em risco a já frágil paz mundial?” É curioso que o escritor alemão Günter Grass, Nobel de literatura de 1999, tenha abordado retoricamente em seu polêmico poema-manifesto “O que precisa ser dito” – publicado na quarta-feira em diversos jornais do mundo com duras críticas a Israel – a questão do longo silêncio que finalmente se quebra. Foi um desses atrasos que, em agosto de 2006, arranhou sua imagem de tal forma que faz a manifestação de agora ser recebida com maior perplexidade. Naquele momento, veio a público a confissão de Grass – parte de seu livro de memórias “Descascando a cebola” – de que tinha sido nazista na juventude, tendo pertencido às tropas SS em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. Uma informação que ele mantivera em segredo até então. Muitos alemães tinham e têm histórias semelhantes. A diferença é que o autor de “O tambor” havia passado seis décadas como uma das principais vozes da consciência moral alemã, instando seus compatriotas a encarar de frente o passado nazista, sem no entanto aplicar a receita a si mesmo (leia aqui…

A verdadeira máquina de escrever é o cérebro
Pelo mundo , Vida literária / 02/04/2012

Descubro sem surpresa, mas com algum pesar, que já existe alguém na internet declarando seu ódio a máquinas de escrever como peças de decoração moderninha – um tumblr dedicado à trollagem dos modismos do design chamado, significativamente, Fuck Your Noguchi Coffee Table. Não, é claro que isso não quer dizer muito. Tente imaginar qualquer coisa no universo que não mereça declarações de ódio em algum lugar da internet e você se verá em apuros. Mas achei curioso, porque não fazia ideia disso e nunca vi nada parecido nas casas que frequento, descobrir que uma paixão que alimento há anos vai, em alguma parte do mundo, entrando no terreno do clichê. Há dois anos e meio, quando rolou a notícia de que Cormac McCarthy estava leiloando sua velha Olivetti, saí do armário aqui no blog como amante e pequeno colecionador de máquinas de escrever. Na verdade, tenho só três peças, todas de valor afetivo, que na época apresentei assim: Tenho em casa um modesto museu da máquina de escrever. Além da portátil Hermes 2000 que já comprei velhinha nos anos 1980, num antiquário, mas ainda cheguei a usar, conservo a pesada Remington que herdei de meu pai, na qual batuquei meus…

Tabucchi (1943-2012) e as garatujas na areia
Pelo mundo , Vida literária / 26/03/2012

A vida não está em ordem alfabética como há quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cume e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, achata-se e resta-lhe apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e você continua insistentemente no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado… até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, você deixou na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começa a desconfiar de que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas. E que belas garatujas! O trecho acima é de “Tristano morre” (Rocco, tradução de Gaetan Martins de Oliveira), romance em forma de monólogo de um moribundo que o escritor italiano Antonio Tabucchi (foto) lançou em 2004. Tabucchi morreu ontem, aos 68 anos,…

Amazon, Apple etc.: está online um e-curso intensivo
Mercado , Pelo mundo / 14/03/2012

Interessado em compreender melhor as entranhas do novo mundo dos e-books, em especial a luta dos modelos comerciais antípodas oferecidos por Amazon e Apple e como se situam escritores, editores e livreiros diante deles? Bem, levando-se em conta que, a maior parte do tempo, o Brasil ainda age como se nada disso existisse, você precisa em primeiro lugar saber inglês. Cumprido tal requisito, não existe curso melhor e mais intensivo do que ler a carta aberta – pró-Apple e grandes editoras – que o escritor best-seller Scott Turow (foto), presidente do Authors’ Guild, a associação dos escritores dos EUA, enviou aos membros da organização. Depois é só tomar fôlego e emendar, rolando a tela, na longa lista de comentários postados no site da AG, divididos entre o apoio e a crítica ao ponto de vista de Turow. Além de ser didático, o debate dá inveja: fora um papalvo internético ou outro, o grau de civilidade, informação, articulação e até estilo dos debatedores é de derrubar o queixo. * No momento histórico em que a Enciclopédia Britânica deixa de circular em papel, que tal olhar em volta e medir nosso atraso em relação ao país que ocupa a extremidade oposta da…

Combinado: depois das baleias, a gente salva o Updike!
Pelo mundo , Vida literária / 12/03/2012

O ensaio do crítico americano Lee Siegel no décimo número da revista “serrote”, chamado John Updike ou A desimportância de ser sério, tem duas partes instigantes que, no entanto, não se encaixam muito bem. Ambas – e sua (des)conexão – vão comentadas abaixo. Na primeira parte Siegel defende John Updike (foto, 1932-2009) do que considera uma campanha sórdida – nem tão nova, mas acelerada à medida que sua vida se aproximava do fim – para desmoralizar um dos grandes escritores americanos da segunda metade do século 20. Os maiores inimigos de Updike seriam, pela ordem, o crítico James Wood e o escritor David Foster Wallace, mas o complô acabaria envolvendo Harold Bloom e a própria revista “New Yorker” em que Updike se consagrou – e que mesmo involuntariamente, nothing personal, teria aplicado no criador de Coelho Angstrom um golpe duro ao contratar Wood. O ensaísta é galhardo e até valente em sua defesa crítica de um escritor de inegáveis méritos, prolífico e generoso, que de alguma forma tornou-se uncool e anda necessitado de defesa em seu país. Deixa a sensação de que poderia ter feito um trabalho melhor em demonstrar por que Updike é importante, como eu acredito que seja…

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

httpv://www.youtube.com/watch?v=EfzuOu4UIOU O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano. Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros. Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco. Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a…

Houaiss, Shakespeare e outros crimes
Pelo mundo , Vida literária / 02/03/2012

Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare. * O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante: Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio. * Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações de misoginia, desta vez devido às…

Esses fantásticos livros voadores
Pelo mundo / 27/02/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=Adzywe9xeIU&feature=player_embedded#! Eis a versão integral (cerca de 15 minutos) do curta de animação que ganhou o Oscar ontem à noite, The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore, nome próprio que contém um trocadilho intraduzível, algo como “Maisé Menosmais”). Essa declaração de amor ao livro de papel começa com um furacão que arranca as casas de seus alicerces e as palavras das páginas impressas, metáfora óbvia da onda digital. Mudo, o filmete é escrito e codirigido pelo ex-animador da Pixar William Joyce e mistura técnicas (stop-motion, animação computadorizada e desenho) para produzir uma bonita homenagem aos livros físicos. Embora ameace derrapar aqui e ali (personagens em preto e branco ganham cor ao ter contato com livros, por exemplo), o curta consegue no fim das contas driblar a maior parte dos lugares-comuns associados ao tema. Destaque para o momento em que, na mesa de operação, o velho tomo carcomido em francês tem uma parada cardíaca e só ressuscita quando o Sr. Lessmore começa a… lê-lo! Um tom profundamente nostálgico perpassa o filme, da música à direção de arte. Isso é condizente com uma cerimônia do Oscar em que o grande premiado foi “O…

J.K. Rowling para adultos pode ser policial. Magia migra?
Mercado , Pelo mundo / 24/02/2012

J.K. Rowling anunciou que está escrevendo um novo romance – e que desta vez é um livro adulto! Só isso. Nem tema, nem data aproximada de lançamento, nada. J.K. Rowling está escrevendo um livro, é adulto, ponto. Tão desmesurado é o poder da mãe de Harry Potter, há não mais de 15 anos uma pobretona aspirante às letras, que todos se agitam: o “Guardian” aposta num romance policial, livreiros soltam fogos, editores afiam as unhas – ela informou julgar natural que a “nova fase” de sua carreira ocorra noutras casas editoriais, o que evidentemente não deixou felizes suas parceiras de HP Bloomsbury no Reino Unido, Scholastic nos EUA, Rocco no Brasil e dezenas de outras pelo mundo. Como se sabe, a varinha mágica de Rowling foi turbinada pelo bônus de vender mais de 450 milhões de exemplares dos livros do bruxo adolescente de óculos, 11 milhões só nas primeiras 24 horas do lançamento americano de “Deathly hallows” (Relíquias da morte), o último da série, em 2007. Mas conseguirá sua mágica migrar com igual força para outro mundo, outra visão de mundo – ou o que quer que ela queira dizer com esse papo de literatura “adulta”, policial ou não? Não…

Quando escritores falam de sexo – e isso não é ficção
Pelo mundo / 15/02/2012

Desta vez a lista do Flavorwire (em inglês) é picante: cartas de amor com conteúdo sexual, na maior parte dos casos explícito, assinadas por escritores famosos. Leitura muito divertida. James Joyce (foto), insuperável, faz até Charles Bukowski parecer um coroinha. * O crítico acadêmico João Cezar de Castro Rocha publicou na última edição do Prosa & Verso um artigo alentador e de leitura obrigatória. Ainda bem que a fauna e a flora da universidade são diversificadas a ponto de incluir visões lúcidas, autocríticas e generosas como esta: Dada a pluralidade da produção atual, é impossível decretar a morte da crítica ou o impasse definitivo da literatura, simplesmente porque há muito tempo não mais existe uma única forma de poesia, prosa ou crítica — aspecto que desautoriza juízos totalizadores. A tarefa atual da crítica é realizar uma arqueologia das formas do presente, a fim de descrever os movimentos novos esboçados na prosa, na poesia, no ensaio e na interlocução crescente com os meios audiovisuais e digitais. O único modo de fazê-lo é dedicar-se à leitura atenta da produção contemporânea, em lugar de proferir sentenças magistrais, com base na hermenêutica mediúnica dos profissionais do obituário alheio. Trata-se de evitar a vocação fóssil…

Retratos falados literários
Pelo mundo / 13/02/2012

Que caras obtemos quando as descrições físicas de personagens famosos da literatura, feitas pelos próprios autores nas obras originais, são submetidas ao software de produção de retratos falados da polícia? Este tumblr, chamado The Composites (dica do Book Bench), é dedicado à brincadeira. Os resultados são variáveis, o que se compreende. Mesmo escritores realistas não costumam abrir mão de uma margem de imprecisão quando se trata de descrições físicas, para que a imaginação do leitor faça a sua parte. As ilustrações acima são dois exemplos que pincei na galeria. O escracho da esquerda, de Sam Spade, combina bem com a famosa comparação do detetive a um “Satã louro”, feita por Dashiell Hammett logo na abertura de “O falcão maltês”. Curiosamente, Humphrey Bogart o imortalizou com feições inteiramente diferentes no cinema, deixando para Robert Mitchum, que fisionomicamente se assemelhava muito mais a Spade, o consolo de encarnar o Philip Marlowe de Raymond Chandler. Já Emma Bovary, à direita, mesmo não tendo sido descrita por Gustave Flaubert como uma beldade de parar o trânsito, surge embarangada demais para o meu gosto, como se já tivesse ingerido veneno. Quem entraria naquela carruagem com essa mulher? E quem iria imaginar que ela fosse praticamente…

A internet é aliada da inteligência, mas ama a burrice
Pelo mundo / 10/02/2012

Esta semana esbarrei em duas notícias pouco comentadas que, embora inteiramente desvinculadas uma da outra, são bons exemplos das linhas que a cultura digital traça em sua atarefada remarcação do território da inteligência coletiva, cada uma numa extremidade – a da ampliação da inteligência e a da ampliação da burrice. Tendo como único ponto em comum o fato de terem sido garimpados na banda anglófona da rede (onde, como se sabe, desenrola-se a vanguarda da revolução eletrônica), estou falando dos seguintes nacos de informação: 1. Empreendimento conjunto de duas universidades americanas, a Brown University e a University of Tulsa, The Modernist Journals Project disponibiliza gratuitamente na internet, em pdf, versões escaneadas de revistas e jornais de língua inglesa (de diversos países) que tiveram relevância para o modernismo artístico, sobretudo literário, entre os anos de 1890 e 1922. Trata-se de um trabalho em andamento que disponibiliza – e pretende disponibilizar cada vez mais – material raríssimo, até então encontrável somente em grandes bibliotecas e mesmo assim quase nunca em conjunto, a qualquer pessoa que tenha acesso a uma lan house em qualquer ponto do planeta. 2. Em um artigo intitulado 25 razões para o Google odiar o seu blog (em inglês),…

Auster x Erdogan: quem disse que escritor não morde?
Pelo mundo / 06/02/2012

O bate-boca entre Paul Auster (à esq.) e o fogoso primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem um certo tom farsesco, mas é uma bem-vinda prova de que os escritores, se já não gozam do cartaz de antigamente, ainda podem atuar como consciência crítica dos poderosos – talvez sobretudo em temas como direitos humanos em geral e liberdade de expressão em particular. Aqui (em inglês), uma boa nota da “Time” digital sobre o caso. Para resumir: numa entrevista à imprensa turca, Auster disse ter cancelado uma visita ao país porque seu governo mantém dezenas de jornalistas presos por crime de opinião. Erdogan se queimou e recorreu à ironia num discurso aos membros de seu partido, de inclinação muçulmana: “Oh, nós realmente dependemos do senhor!”, disse, como se se dirigisse ao escritor do Brooklyn. “Quem liga se o senhor vem ou não? A Turquia vai perder prestígio?” Em seguida, botou Israel no meio e a conversa degenerou, mas de uma coisa a reação de Erdogan deu bandeira: a mordida do intelectual novaiorquino que escreve ficção – uma criatura sem dentes, como nos acostumamos a pensar – doeu. * ERRO DE EDIÇÃO: Não é a primeira vez que acontece. Sete, a crônica…

Como (não) recitar poesia
Pelo mundo / 03/02/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=EqlPKnPTz7s De vez em quando um leitor me pergunta se tenho alguma coisa contra poesia, um tema que nunca abordo aqui no blog. Sempre explico – e explico agora de novo – que não, claro que não tenho nada contra poesia. Ocorre que é preciso fazer escolhas e a do Todoprosa é falar só de prosa, como o nome indica. Questão de foco. O que nunca acrescentei, mas acrescento agora, é que existe um aspecto da poesia que realmente não costuma me cair bem: a recitação. Talvez porque eu suspeite da musicalidade fácil das palavras, como João Cabral. Ou quem sabe o pessoal anda abusando mesmo da afetação nos saraus da vida. Refletindo sobre essas questões, decidi abrir uma exceção e… falar de poesia! Mais especificamente, de recitação de poesia: o Pop Literário de Sexta traz um hilariante vídeo tutorial (em inglês) que ensina tudo o que não se deve jamais fazer ao ler poesia em voz alta, a menos que se almeje o ridículo. Algumas dicas: Insira pausas… nas frases… quer elas estejam lá… ou não. Leia versos que não são perguntas… como perguntas? Chegando perto do fim do poema? TALVEZ O PRÓXIMO VERSO DEVA SER GRITADO PARA DAR…

As mais belas livrarias do mundo
Pelo mundo / 01/02/2012

Selexyz é o nome da livraria das fotos acima, diante da qual um lugar-comum como “templo dos livros” ganha uma inesperada força expressiva. Foi montada no interior de uma antiga igreja dominicana em Maastricht, na Holanda, e vem em primeiro lugar entre as 20 livrarias mais belas do mundo, segundo uma das mais inspiradoras listas que o Flavorwire já compilou. O Brasil também comparece (com a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo). * Se essa lista fosse um documentário, poderia ter a narração em off de Jonathan Franzen, que acaba de recitar (aqui, em inglês) no festival Hay de Cartagena, na Colômbia, a maior defesa dos livros impressos ouvida nos últimos tempos. De forma um tanto surpreendente, o autor de “Liberdade” não se referiu ao aroma inebriante da tinta no papel ou algum outro clichê do gênero. Atacou justamente aquilo que os entusiastas do meio digital mais exaltam: a aura de impermanência – ou seja, a plasticidade, a permeabilidade, a interatividade, o compartilhamento, a coautoria – do texto lido na tela. “Talvez ninguém ligue para livros impressos daqui a cinquenta anos, mas eu ligo”, disse Franzen, um dos autores confirmados na próxima Festa Literária Internacional de…

Como viver, por Vila-Matas
Pelo mundo / 30/01/2012

Enrique Vila-Matas publicou na última sexta-feira no “El País” o artiguete que traduzo abaixo: Embora inconciliáveis entre si, três atitudes diante da arte literária podem ser igualmente fascinantes. No fundo, as três respondem à questão de como posicionar-se diante do mundo, como viver. Se me perguntassem, seria difícil precisar com qual me afino mais, pois todas têm a mesma carga de verdade íntima, o que não faz mais que comprovar que, como sustentava Niels Bohr, o oposto de uma verdade não é uma mentira, mas outra verdade. Mesmo assim, reconheço que por algum tempo tive minhas preferências e admirei, acima de todas, a atitude elegante dos solitários, dos que têm desejo de clausura, de torre de marfim, uma necessidade de isolamento para atender apenas à sua obra. Tudo mudou quando me dei conta de que estava reparando apenas em criadores de indiscutível estatura moral e intelectual; andara estudando, por exemplo, Wittgenstein, lendo tudo sobre o ano que ele passou em radical solidão na cabana de Skjolden, na Noruega, onde sentiu uma grande euforia ao ver que podia se dedicar inteiramente a si mesmo, ou melhor, ao que acreditava ser a mesma coisa, a sua lógica, o que lhe permitiu ter…

O cânone russo de Putin: literatura e poder, tudo a ver?
Pelo mundo / 27/01/2012

Não é simples dar conta da notícia de que Vladimir Putin, ex-presidente, atual primeiro-ministro e novamente candidato à presidência da Rússia, propôs num longo artigo de jornal – intitulado “Rússia: a questão étnica” – a formulação de uma lista oficial de cem livros que traduzam um certo espírito russo, a serem adotados nas escolas de todo o país como forma de fortalecer sua unidade cultural. O jornalista russo Alexander Nazaryan, residente nos Estados Unidos, optou neste artigo (em inglês) por encarar a notícia pelo lado escuro – o que no caso do primeiro-ministro, ex-agente da KGB, faz sentido – e comparar Putin a Adolf Hitler no nacionalismo exacerbado e manipulador. “Engenharia social por meio de uma literatura sancionada pelo Estado: nenhum outro ato de Putin até agora foi tão escancaradamente soviético em seu desejo de manipular e subjugar o intelecto humano”, alarmou-se Nazaryan, prevendo como contraponto ao cânone oficial uma lista de livros banidos, embora Putin não toque neste assunto. Eis o lado ruim, certo, mas qual seria o bom? Simples: o fato mesmo de acharem – Putin e Nazaryan – que a literatura tem essa importância toda em pleno século 21. Tanto as ideias do primeiro-ministro quanto as de…

Quer ganhar aumento? Leia Guimarães Rosa
Pelo mundo / 23/01/2012

Assolado por uma sensação de perda de tempo toda vez que abre “Em busca do tempo perdido”? Em busca de uma razão utilitária para ler – com perdão da palavra – ficção? Bem, a executiva americana Anne Kreamer também estava, até que descobriu uma série de pesquisas que associam a leitura de ficção literária com “inteligência emocional”, empatia, capacidade de imaginar o outro e se adaptar a situações novas, eficiência no trabalho em equipe – e, como consequência de tudo isso, maiores chances de descolar bons salários no mundo corporativo, especialmente na era da globalização. O artigo (aqui, em inglês, no blog da Harvard Business Review) vale mais como curiosidade do que como guia de comportamento para futuros executivos. Por um lado, o que Anne Kreamer afirma não é muito diferente de algo que já virou lugar-comum entre letrados, uma espécie de último reduto de “relevância social” da ficção num mundo em que ela perdeu centralidade: aquilo que Amós Oz chama de “antídoto contra o fanatismo”, a “virtude moral” de exercitar sistematicamente a imaginação de tudo que ultrapassa o círculo limitado do ponto de vista individual do leitor. (O mesmo vale para histórias contadas em filmes, peças de teatro etc.?…

Como não escrever um romance – o escracho
Pelo mundo / 20/01/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=ocvlo3XG8aY&feature=related O livro é de aconselhamento literário do tipo sério – ou quase isso. O filmete de animação (em inglês) que acompanhou seu lançamento, porém, é puro escracho, com aquela sátira da vida boêmia podre de chique à la Scott e Zelda Fitzgerald que já era falsa no original: como escrever um bom romance, ganhar rios de dinheiro e ser sexualmente irresistível, tudo sem derramar o dry martini? Tem coisas que só o Pop Literário de Sexta faz por você.

O ‘crítico demolidor’ como figura folclórica e outros links
Pelo mundo / 13/01/2012

Para críticos e resenhistas que se ressentem, às vezes de forma dolorosa, da importância atribuída às obras dos escritores em detrimento da sua própria, uma boa notícia: um prêmio (anglófono, of course) para resenhas jornalísticas. Mas não se trata de qualquer resenha. Só podem concorrer aquelas que, de preferência com estilo, fizerem picadinho de seu objeto, como o nome do galardão indica: Hatchet Job of the Year, isto é, Serviço de Machadinha do Ano. Talvez a notícia não seja tão boa, afinal. Por que não premiar simplesmente a melhor resenha, a que jogue mais fachos de luz – negativos ou positivos, mas mais provavelmente uma mistura deles – sobre o livro que analisa? O foco em textos de espinafração espirituosa é claramente uma forma de, pela via do folclore, dar contornos nítidos a algo que permanece embaçado e amorfo na cena cultural contemporânea. * Talvez seja o caso de refletir sobre a surpreendente humildade declarada por George Steiner, crítico de altíssimo coturno, nesta entrevista (em inglês) de duas semanas atrás: Críticos, comentaristas e exegetas, mesmo os mais talentosos, ainda estão a anos-luz dos criadores. Nós não compreendemos as fontes íntimas da criação. Por exemplo, imagine esta cena, que se passou…

‘Livro? Oba! Vamos ler agora, professor!’
Pelo mundo / 06/01/2012

O Pop Literário de Sexta saúda 2012 e pede passagem. * PROFESSOR: Muito bem, crianças, sentem-se. Houve uma mudança de orientação pedagógica na escola. Vou passar um livro para vocês lerem. ALUNO: Livro? Cara, como eu odeio isso. P: Turma, este livro é muito polêmico e acaba de ser retirado da lista de livros proibidos. A: É mesmo? Maneiro. P: Chama-se “O apanhador no campo de centeio” (começa a distribuir exemplares entre as carteiras), e tem algumas partes muito censuráveis… A: Eba! P …e linguagem forte e vulgar. Por sinal, diversas escolas do país ainda proíbem este livro, considerado realmente impróprio. A: Cara, mal posso esperar! P: Como dever de casa, eu quero que vocês leiam do capítulo 1 ao 5, e amanhã debateremos… A: Não, não, vamos ler agora! A: Sr. Garrison, o cara que matou o John Lennon não botou a culpa neste livro? P: Sim (a contragosto), parece que o assassino de John Lennon alegou ter sido inspirado pelo “Apanhador no campo de centeio”. Mas ele era só um maluco. A: Olha só, você tá dizendo que esse livro é sujo, impróprio, e ainda fez um cara dar um tiro no rei dos hippies? Quer fazer o…

Pop Literário de Sexta: ‘O jogador’
Pelo mundo / 16/12/2011

O filme “O jogador” (1992), de Robert Altman, satiriza a indústria cinematográfica americana na pessoa de um produtor tão cheio de talento quanto desprovido de caráter, vivido por Tim Robbins. Mas sobra para quem escreve também, como o roteirista “artístico” interpretado pelo britânico Richard E. Grant, visto aqui em toda a glória de seu pitch, a tentativa de vender um roteiro ao establishment em poucas palavras, à mesa de um restaurante. Curiosidade: a cena ganha certo tom metalinguístico quando se sabe que “O jogador”, adaptação de um romance, foi roteirizado pelo próprio autor, Michael Tolkin. Um ótimo fim de semana para nós. httpv://www.youtube.com/watch?v=sxDHMspVzsQ&feature=player_embedded

Ian McEwan de volta à Flip e outros links
Pelo mundo / 14/12/2011

O escritor inglês Ian McEwan, uma das estrelas da edição 2004, estará de volta à Festa Literária Internacional de Paraty em 2012. “Se não será necessariamente ‘maior’ do que a criada em 2004, a expectativa com a vinda de McEwan para a Flip 2012 deve (…) ter um lastro ao mesmo tempo mais sólido e diverso”, diz o curador Miguel Conde, em post publicado hoje no site do evento, referindo-se ao fato de o autor, na época, ser conhecido do público brasileiro quase exclusivamente pelo sucesso do romance “Reparação”. Não precisava se incomodar. É verdade que a obra de McEwan não é só “Reparação”, mas este romance permanece como seu ponto mais alto – tão alto que já justificaria a repetição do convite. Com o americano Jonathan Franzen, estreante na festa e também já confirmado, o escritor inglês monta um meio-campo literário de peso como há anos não se via. Se “Liberdade”, de Franzen, andou sendo saudado por aí como “o livro do século”, considero “Reparação” um candidato muito mais respeitável a essa hipérbole – desde que sejamos capazes de abstrair o quanto ela tem de tolinha, claro. Para outras novidades da Flip 2012 anunciadas hoje, clique aqui. * O…

Pop literário premiado: Jane Austen com ventosas roxas
Pelo mundo / 25/11/2011

httpv://www.youtube.com/watch?v=_jZVE5uF24Q Para não deixar cair mais uma vez no esquecimento a seriíssima série Pop Literário – que aparece aqui no blog às sextas-feiras, ou então não aparece – aí vai o bem produzido, divertido e premiado trailer do mashup “Razão e sensibilidade e monstros marinhos”, de 2009.

Zumbis de Bolãno, choro de Lethem e outros links
Pelo mundo / 23/11/2011

Sim, Roberto Bolaño (foto) escreveu uma história de zumbis – tendo a TV como intermediária, mas escreveu. Clique aqui para ver uma animação (meio desanimada, mas estilosa) baseada em seu conto The colonel’s son, “O filho do coronel”, publicado pela “Granta” inglesa em sua edição de horror. (Via The Book Bench.) * Antes eu me satisfazia com a imagem nebulosa de um novo e persuasivo crítico que deixava todo mundo excitado e nervoso ao atacar apaixonadamente romances em que as pessoas (inclusive eu) apaixonadamente acreditavam; agora eu me via na posição de revisar essa imagem em favor da impressão de um crítico nada convincente cujo ar de amplitude erudita mascarava – mal – um paroquialismo punitivo. O escritor americano Jonathan Lethem conta no “Los Angeles Review of Books” (em inglês, acesso livre) como descobriu que o rei – isto é, o crítico James Wood, de quem até então era fã – estava nu quando este lhe dedicou uma resenha negativa, oito (!) anos atrás. Não se pode negar coragem a Lethem por se expor assim, lambendo em público uma ferida que, tanto tempo depois, ainda se recusa a cicatrizar. Infelizmente, este elogio ambíguo é o único que consigo fazer ao…

Tesouro de cinemateca: Poe por James Mason
Pelo mundo / 18/11/2011

httpv://www.youtube.com/watch?v=W4s9V8aQu4c O blogueiro retoma a negligenciada série Pop Literário de Sexta com uma bela pepita de cinemateca: o curta de animação The tell-tale heart (“O coração delator”), adaptação fiel do conto de Edgar Allan Poe. Esta é, de longe, a melhor das incontáveis versões audiovisuais dessa obra-prima da literatura de terror disponíveis no YouTube. Lançado pela Columbia no distante 1953, o filmete parece surpreendentemente avançado no manejo ousado de enquadramento, montagem e técnicas pictóricas que antecipam as graphic novels dos anos 1980. E tem, acima de tudo, a narração sublime de James Mason no papel de sua vida: “É verdade, eu sou nervoso. Muito nervoso, terrivelmente nervoso… Mas por que vocês dizem que sou louco?”. Bom fim de semana a todos.

Bíblia chata e Shakespeare falso
Pelo mundo / 16/11/2011

Não dá para derivar personagens muito profundos ou suspense narrativo da convicção de que Jesus salva e tudo vai acabar bem. Até Charles Dickens se atrapalhou. Emérito contador de histórias, ele queria – embora não fosse lá tão cristão assim – que seus filhos soubessem “algo da história de Jesus Cristo”. Em fins da década de 1840, escreveu ‘A Vida de Nosso Senhor’ e a recitou para eles no Natal. “Jamais viveu alguém”, começava, “que tenha sido tão bom, tão amigo, tão gentil e tão piedoso com as pessoas que erram.” Eis uma sentença de abertura ruim por qualquer critério que se adote, mas as coisas pioraram quando Dickens insistiu: “Ele agora está no céu, para onde todos esperamos ir, a fim de nos reencontrarmos após a nossa morte”. Bom humor e alto astral diante da morte não rendem boa literatura, e o autor de ‘Oliver Twist’ e ‘David Copperfield’ deve ter percebido que fracassou. Deu o manuscrito aos filhos, sob a condição de que nunca permitissem que fosse copiado ou retirado de casa; e de fato o texto não achou o caminho de uma edição impressa por quase cem anos. Se um personagem nascido com todas as perfeições é…

A biografia mal escrita de Martin Amis e outros links
Pelo mundo / 11/11/2011

É cruelmente divertida a resenha de Geoff Dyer (no “Financial Times”, acesso livre) sobre a recém-publicada biografia de Martin Amis (foto), escrita por Richard Bradford. Dyer defende a tese de que Amis rompeu com seu biógrafo não por desaprovar as revelações do livro (não há nenhuma, segundo ele), mas por ser alérgico a textos mal escritos. Depois de listar mais um de muitos exemplos de prosa pedregosa, observa: Seria possível argumentar que isso é só um deslize, um momento infeliz de descuido, e que é injusto, ao resenhar um livro cujo propósito é fornecer fatos, deter-se em defeitos de estilo. Se Bradford estivesse escrevendo a história da vida de um almirante reformado, talvez tal atenuante funcionasse. No entanto, como já apontou seu biografado, o estilo não é algo que se acrescente posteriormente ao texto, como um bonito papel de embrulho. É a própria coisa, o dom em si. E quando as frases começam a escapar do autor, todo o resto vai junto – a impaciência do escritor se transmite ao leitor. Estamos perto daquela famosa frase provocadora de Vladimir Nabokov, não por acaso um favorito de Amis: Estilo e Estrutura formam a essência de um livro; idéias grandiosas são besteira….

Amós Oz e o poder dos livros: ‘Vale a pena tentar’
Pelo mundo / 07/11/2011

Pouco perguntam sobre literatura ao israelense Amós Oz, 72 anos, embora ele seja um baita escritor. Oz costuma falar muito mais de política, o que é compreensível. Desde 1967, quando começou a se pronunciar publicamente a favor da criação do Estado palestino, ele vem sendo a face progressista mais constante de Israel, alguém com quem o diálogo é possível mesmo nos momentos de maior recrudescimento do conflito israelense-palestino. Seu mais recente feito político foi presentear com um exemplar autografado de seu livro de memórias o líder palestino Marwhan Barghouti, preso em Israel sob acusação de terrorismo. Isso reavivou um velho hábito da direita israelense: enviar-lhe cartas com ameaças de morte. Apesar de crítico da política israelense, Oz é um intransigente defensor do Estado de Israel, alguém que, filho de imigrantes sionistas oriundos da Europa oriental, viveu a história de sua criação como parte da infância e morou por décadas – inclusive depois de casado – num kibbutz. E que, quando saiu de lá, se mudou para uma casa no deserto de Negev. Oz está no Brasil para duas palestras sobre o tema “Literatura e guerra: perspectivas israelenses”, num dos eventos comemorativos do aniversário de 25 anos da Companhia das Letras,…

Sobre livrões, tijolos, mamutes e afins
Pelo mundo / 04/11/2011

O novo livro de Haruki Murakami, “1Q84”, tem 928 páginas. O estouradíssimo George RR Martin, resposta americana a Tolkien, escreveu para a série “Crônicas de gelo e fogo” cinco tijolos de muitas centenas de páginas cada um, que na soma das tiragens dariam para construir metrópoles inteiras de casas robustas, com paredes à prova de som. Estamos na terra dos gigantes, em que o último título megahypado da literatura americana, “Liberdade”, de Jonathan Franzen, com suas 761 páginas, parece de porte não mais que mediano. Os dois romances mais recentes do velho Stephen King têm, respectivamente, 1074 e 740. Roberto Bolaño compareceu há pouco tempo com “2666”, que não chega a ter tantas páginas quanto o nome sugere, ficando em 856, e que de todo modo é um coletivo de romances e não um. Mas na estante ocupa quase tanto espaço quanto outros mamutes, de “Infinite Jest”, de David Foster Wallace (1079), a “As benevolentes”, de Jonathan Littell (912). Diante de tudo disso, o novo Jeffrey Eugenides (que já baixei no Kindle e que seu tradutor Caetano Galindo me disse ser muito bom) nem parece exatamente um romanção. O anterior, “Middlesex”, tinha 544 páginas. O novo, “The marriage plot”, para…

O paraíso dos fetichistas de estantes e outros links
Pelo mundo / 28/09/2011

O blog Booklicious tem, toda quarta, uma seção chamada Bookcase Wednesday, dedicada a estantes criativas, belas, inspiradoras, bizarras ou apenas, no sentido mais amplo possível, interessantes. Está certo que, como ocorre frequentemente com designs ousados, é comum a forma se sobrepor à função. Mesmo assim, recomendo visitas regulares a todo mundo que, amando livros, aprendeu a amar também o lugar onde eles moram. Esta estante minimalista aí ao lado, por exemplo, eu não me incomodaria nem um pouco de ter em casa. * Livros perdidos. O primeiro romance de Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, chega às livrarias quase 130 anos depois de extraviar no correio. Coincidentemente, o site da Smithsonian faz uma lista de dez livros perdidos – de Homero, Shakespeare, Melville etc. – que provavelmente nunca terão a mesma sorte. * “É a lei pérfida mas fatal do corte, que – como toda droga – põe em primeiro plano um de seus efeitos, o efeito imediato, ‘bom’, e faz com que passe despercebido o outro, o efeito tempo, que previsivelmente nunca traz senão deterioração, tristeza, decadência.” Esse trecho do romance “História do cabelo”, de Alan Pauls (Cosac Naify), comentado aqui por seu editor, o não-careca Emilio…

Uma indelicada troca de letras e outros links
Pelo mundo / 12/09/2011

Peço desculpas a todo mundo que comprou meu ebook “Baby, I’m yours” e leu na página 293: “Ele se retesou por um instante, mas então ela sentiu seus músculos ficando mais relaxados, e ele cagou no chão”. Susan Andersen, autora americana de romances românticos conhecida por adicionar pitadas de pimenta na massa açucarada, foi obrigada a esclarecer que não, seu herói não precisa de fralda geriátrica e de modo algum lhe passaria pela cabeça ser tão deselegante com a mocinha. Andersen avisa que não escreveu “cagou” (shitted) e sim “mudou de posição” (shifted). Mudou de posição (shifted), ele MUDOU DE POSIÇÃO (SHIFTED)! Com sorte, isso talvez esteja só na versão em iBook que eu comprei, mas se estiver na sua também, por favor, me avise. Já entrei em contato com a editora para implorar que o problema seja corrigido imediatamente. Tarde demais para nós… pelo amor de Deus. Alison Flood, do “Guardian”, chamou essa troca de um f por um t de “melhor erro de edição de todos os tempos”. Perde na tradução, uma pena, mas é no mínimo candidato ao título. A preparação da frase escrita por Andersen (retesou-se, relaxou) é perfeita. O site Smart Bitches Trashy Books preferiu…

O 11 de setembro na literatura: dez anos, dez livros
Pelo mundo / 09/09/2011

Na literatura – sobretudo a americana, mas não apenas nela – o principal efeito da queda das Torres Gêmeas, que completa dez anos neste domingo, foi o surgimento de um novo subgênero, chamado em inglês de 9/11 novel, “romance do 11 de setembro”. Agrupar no escaninho de um subgênero as muitas obras de ficção que tentaram dar conta do impacto psicossocial “extremamente alto” do atentado (para citar o título de Jonathan Safran Foer que ajudou a engordar essa leva) tem um risco: o de mascarar sua razoável variedade de forma e conteúdo. Como fenômeno mercadológico, porém, o termo se aplica. Autores consagrados como John Updike, Don DeLillo, Ian McEwan, Art Spiegelman, Paul Auster e Martin Amis se atracaram com o tema, como se deixar o fato sem uma resposta imediata representasse uma nova derrota, desta vez artística. Curiosamente, os primeiros momentos após a tragédia passavam longe de anunciar tanto apetite. O inglês Amis chegou a dizer que “depois de algumas horas diante de suas escrivaninhas, no dia 12 de setembro de 2001, todos os escritores do mundo estavam considerando relutantemente mudar de profissão”. Havia uma sensação pós-traumática de que as palavras tinham perdido o sentido. Com seu conto “Os últimos…

Musas literárias, o tamanho de DFW e outros links
Pelo mundo / 07/09/2011

Diversão de feriado: uma curiosa lista de dez musas da literatura em todos os tempos, feita pelo blog coletivo “Mais 1 Livro”. Espera aí, Mayra Dias Gomes está dentro e a jovem Lygia Fagundes Telles (foto), fora?! Será que estamos nos entendendo sobre o significado da palavra “musa” – ou, por falar nisso, da palavra “literatura”? Pois é. Como ocorre com todas as listas do gênero, a melhor parte da diversão é discordar. * Três anos após se suicidar, no dia 12 de setembro de 2008, o escritor americano David Foster Wallace ainda dá trabalho à posteridade, que não consegue se decidir sobre o seu tamanho real. A última voz de peso a dizer que ele não é tão grande assim – ecoada por Maude Newton no “New York Times” – foi a do inglês Geoff Dyer, que, como DFW, transita entre a ficção e o ensaio jornalístico. Dyer mirou justamente nos ensaios de Wallace, afirmando que “tem surtos de alergia mental” quando é obrigado a lê-los: “Não é que eu não goste da extravagância, do excesso, do barroco de colegial, da incrível verborragia. Eles simplesmente me deixam todo empolado”. Da minha parte, acho que Dyer devia tomar um Fenergan….

Literatura e universidade, a história de um divórcio
Pelo mundo / 29/08/2011

A propósito do lançamento do tijolão The Cambridge history of the American novel, produto de um coletivo de acadêmicos, o crítico Joseph Epstein publicou sábado no “Wall Street Journal” o mais devastador artigo (em inglês, acesso gratuito) que já li sobre o progressivo afastamento entre os estudos literários feitos no âmbito da universidade e tudo aquilo que na vida real faz da literatura, literatura. “Só o que ficou fora do livro”, diz Epstein com ironia, “foram questões como a de por que é importante e mesmo prazeroso ler romances e como acontece de certos romances serem imensamente superiores aos outros.” Basta abstrair as referências à realidade americana para ter um retrato mais ou menos fiel do que se passa no Brasil e, presumo, em muitos outros países. Para leituras complementares, recomendo dois textos que publiquei aqui no Todoprosa: A crítica de mal com a literatura e Quer odiar literatura? Estude Letras. Tenho certeza que um dia nós – ou nossos descendentes – vamos rir disso tudo. Mas será preciso esperar tanto? Abaixo, alguns trechos do artigo de Epstein: É improvável que a maioria dos leitores já tenha ouvido falar dos autores que colaboram em “The Cambridge history of the American…

Canudos não fica na Amazônia e outros links
Pelo mundo / 24/08/2011

Aí não, Babelia! A última edição do bom caderno literário do jornal espanhol “El País” trouxe na capa, com a assinatura de William Ospina, um abrangente apanhado da literatura produzida na região amazônica, “O grande rio dos mitos”, a pretexto dos quinhentos anos de Francisco de Orellana, “descobridor” do rio. O problema é que o texto é abrangente demais: inclui entre os expoentes da literatura amazônica “Os sertões”, de Euclides da Cunha, o clássico brasileiro sobre a guerra de Canudos – que, como se sabe, fica na Bahia. * Desde o surto de suicídios deflagrado pelo sucesso de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, não se via uma epidemia romântica de fundo literário como essa: casais de namorados escrevem seus nomes em cadeados, prendem-nos nas pontes de Veneza e atiram as chaves na água. Inspirada num livro do escritor italiano Federico Moccia, a gracinha virou febre e vem sendo reprimida pelas autoridades, que temem danos ao patrimônio histórico. O jornal “La Repubblica” cobrou em editorial multa de 3 mil euros e um ano de prisão para a turma do “cadeado do amor”. Reportagem completa do “Guardian”, em inglês, aqui. * A revista “Banipal”, em inglês, lançou este ano uma…

Um prêmio de peso para poesia e conto e outros links
Pelo mundo / 15/08/2011

Depois de uma série de prêmios literários cheios de cifrões, mas todos monopolizados por romances, chegou a vez da poesia e do conto. O prêmio Moacyr Scliar, que o governo do Rio Grande do Sul anuncia amanhã, vai contemplar o melhor livro brasileiro de cada um desses gêneros, em anos alternados, com R$ 150 mil para o autor e R$ 30 mil para a editora. * No site da “New Yorker”, Giles Harvey junta numa só crônica (em inglês) suas tentativas frustradas de ser um jogador de futebol decente, os bons conselhos literários de Virginia Woolf, um papo velho demais de Noam Chomsky e o mais famoso gol que Pelé não marcou, aquele contra o Uruguai em1970. No campo eu não sei, mas com as palavras o cara é bom de bola. * Polêmica: “Enquanto o debate literário clama por mais e melhores antologias, Pires pede ‘referências centrais e critérios claros’ na organização de uma antologia geracional”. Nelson de Oliveira responde a Paulo Roberto Pires na “Ilustríssima” (só para assinantes). To be continued. * Para mim, o debate literário clama mesmo é por mais e melhores apreciações críticas. Já começou a se preparar para o I Concurso Todoprosa de Resenhas?…

Como sobreviver ao fim do mundo
Pelo mundo / 10/08/2011

Quis o acaso que eu estivesse lendo dois ensaios de peso sobre a famosa “crise do romance” quando os jornais de terça-feira trombetearam o fim do mundo, com as bolsas de valores derretendo em todos os cantos do planeta e as multidões de saqueadores de Londres ateando fogo à cidade que até então parecia a prova mais risonha de que o multiculturalismo globalizado podia dar em boa coisa, afinal. Essa atmosfera de fim dos tempos – ou no mínimo de fim de uma era, uma vez que o apocalipse maia em 2012 é duro de levar a sério – foi o ruído de fundo perfeito para a leitura de É possível pensar o mundo moderno sem o romance?, de Mario Vargas Llosa, e O romance é concebível sem o mundo moderno?, de Claudio Magris, ensaios que são, respectivamente, a abertura e o fecho do monumental volume de crítica literária organizado pelo italiano Franco Moretti, “A cultura do romance” (Cosac Naify, 2009, tradução de Denise Bottmann). Respondendo a provocações em que a ordem dos fatores altera, sim, o produto, o consagrado romancista peruano e seu colega italiano, que também é crítico, não poderiam deixar de adotar posturas diferentes diante de uma…

Camus teria sido morto pela KGB e outros links
Pelo mundo / 08/08/2011

O acidente de carro que matou Albert Camus em 1960 pode ter sido arquitetado pela KGB, diz o jornal italiano “Corriere della Sera” (em inglês, via “Guardian”, aqui). * Nos cinqüenta anos da morte do grande Dashiell Hammett, o Babelia lembra (em espanhol) a dignidade do silêncio à la Bartleby que o levou à cadeia no auge do mccarthismo. * Resposta (em inglês) da Kurt Vonnegut Memorial Library ao banimento do livro “Matadouro 5” do currículo de uma escola americana: distribuição de 150 exemplares gratuitos do livro aos alunos. * Paulo Roberto Pires reflete sobre antologias e antologias na Ilustríssima de ontem (só para assinantes). * “A ironia é elitista”, minha crônica de ontem no Sobre Palavras, poderia ter saído aqui. * Escritores estão se tornando “versões baratas de celebridades”, diz David Foster Wallace nesta entrevista, falando da demanda crescente por viagens de divulgação e leituras em livrarias – ou, na versão brasileira, Flap, Flep, Flip, Flop, Flup. httpv://www.youtube.com/watch?v=S9VAgdEzUss&feature=related

Manual para tweets, Itamaraty literário e outros links
Pelo mundo / 03/08/2011

Estava demorando: sai em inglês um seriíssimo manual de estilo para quem quer se aprimorar na comunicação com um mundo em que qualquer mensagem além de 140 caracteres parece tão longa quanto um livro de Jonathan Franzen. “Microestilo: a arte de escrever pequeno” é de autoria de um publicitário, o que faz todo o sentido. Especialista em branding, Christopher Johnson acredita que as técnicas de condensação usadas por profissionais de comunicação na criação de marcas, slogans, títulos e frases de efeito podem ser úteis ao cidadão comum. Mas o que este sujeito estaria interessado em vender online? A si mesmo, claro. * Depois do bom programa de apoio à tradução da Biblioteca Nacional, mais um indício de que o Brasil está finalmente acordando em seu berço esplêndido para a importância de exportar literatura: os vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura – Rubens Figueiredo por “O passageiro do fim do dia” e, na categoria estreante, Marcelo Ferroni por “Manuel prático da guerrilha” – podem correr o mundo em viagens de divulgação bancadas pelo Itamaraty. No “Estadão” de hoje. * Corajoso para publicar o que muitos sussurram pelos cantos, o jornalista e escritor paulista Ronaldo Bressane descasca o novo livro de…

Massacre da Noruega: literatura e trauma nacional
Pelo mundo / 01/08/2011

“Como reagirão os escritores policiais da Noruega ao massacre de Utoya?”, perguntava ontem um tweet do jornal inglês “Observer”, dando um endereço que conduzia a um artigo de Brian Oliver, intitulado “Quando escritores são confrontados por um trauma nacional” (em inglês, acesso gratuito). Resposta possível: “Não reagirão. Escritores policiais não têm que reagir a tal coisa. Basta que reajam os policiais”. Mas o artigo não é tolo, embora também não seja profundo. Faz um rápido apanhado do bom momento vivido pela literatura policial nos países escandinavos e sustenta a tese de que, na cultura nórdica, a ficção retém um lugar privilegiado de arena de debates públicos que está praticamente esquecido no resto do Ocidente. Ao contrário do que sugere o tom ligeiramente ridículo do tweet que gerou, o texto de Oliver não força a barra de uma ligação direta entre o que explode nas manchetes e o que vai parar nas páginas dos romances. Ainda bem. A não ser em casos de subliteratura, essa ligação não costuma ter nada de direta, simples ou urgente. Uma excelente reflexão sobre o tema, a partir de um “trauma nacional” incomparavelmente mais devastador que o da Noruega, encontra-se no livro “Guerra aérea e literatura”,…

Comprando livro pela capa
Pelo mundo / 29/07/2011

A capa do novo livro do jovem escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, “A página assombrada por fantasmas”, uma coletânea de contos sobre livros e escritores que acaba de sair pela Rocco, parece ter sido inspirada pelo mesmo vento que soprou a capa do novo romance do escritor inglês Julian Barnes, The sense of an ending, que a Jonathan Cape põe na rua semana que vem – e que mesmo inédito já está na lista do prêmio Man Booker. As evidentes diferenças – a arte do livro inglês é mais limpa e mais preparada para disputar aos gritos a atenção do leitor na livraria, enquanto a do brasileiro leva a um limite ousado a ideia de palimpsesto, de rasura – não escondem o fato de que se trata de capas irmãs. Em ambas, as letras parecem prestes a desaparecer, a se desfazer em borrões. Os lançamentos praticamente simultâneos eliminam qualquer possibilidade de influência de uma sobre a outra. O que o belo trabalho da designer gaúcha Ieve Holthausen tem em comum com o de seu colega britânico parece ser apenas aquilo que, à falta de um nome melhor, o pessoal chama de Zeitgeist. As letras que aspiram a sumir teriam algo a…

Naipaul preto x Naipaul branco. Mas cadê o cinza?
Pelo mundo / 25/07/2011

Duas entrevistas com o escritor britânico V.S. Naipaul publicadas por tradicionais jornalões no mesmo dia, o último sábado, são tão radicalmente opostas que o primeiro efeito do contraste não pode deixar de ser uma perplexidade cômica: qual dos dois retratos é fiel ao prêmio Nobel de Literatura de 2001? Ou seriam ambos falsos? Quando se vai além dessa primeira impressão é que começam a surgir questões interessantes sobre o jornalismo cultural. No Sabático, suplemento literário do “Estado de S.Paulo”, o enviado especial Andrei Netto encontra-se em Londres com um Naipaul “formal, mas simpático e muito gentil”. No Babelia, suplemento literário do espanhol “El País”, o correspondente Walter Oppenheimer teve sorte diferente na casa de campo do escritor, em Wiltshire: “A entrevista vai mal. Desde o primeiro instante. Não há química. O olhar de Sir Vidia destila cada vez mais impaciência, mais desprezo”. As entrevistas que eles arrancaram do autor de “A máscara da África” – relato de viagens lançado ao mesmo tempo aqui e na Espanha – são condizentes com esses inícios em chaves opostas. Com Netto, interlocutor abertamente simpático que evita até a sombra de questões espinhosas, Naipaul é paciente, loquaz, quase vulnerável (não disponível online). Com Oppenheimer, que…

Bataille: ‘Literatura é coisa de criança’
Pelo mundo / 22/07/2011

Eu acho que há algo essencialmente infantil na literatura. Isso pode parecer inconciliável com a admiração que se tem pela literatura, e que eu acredito compartilhar, mas creio ser uma verdade profunda e fundamental que não se pode compreender realmente a literatura se não for do ponto de vista de uma criança, o que não significa dizer uma perspectiva inferior. (…) Eu acho que a literatura é um perigo muito grande e muito grave, e que só se é realmente um homem ao confrontar esse perigo. Deixo o leitor com a voz mansa – e as ideias ferozes – do escritor francês Georges Bataille nessa entrevista de 1958 para a TV, sobre seu livro “A literatura e o mal” (em francês, com legendas em inglês). Bom fim de semana a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=-WiwNekNJGA

Concentração dividirá o mundo entre senhores e escravos
Pelo mundo / 29/06/2011

Antes do tsunami digital, o poder pertencia aos detentores da informação. Agora, com a informação mais desvalorizada que cruzados e cruzeiros nos anos Sarney e Collor, a moeda em alta será cada vez mais a capacidade de concentração – aquela exigida por exemplo de quem mergulha na primeira página de um livro para emergir na última, sem parar dez mil vezes no meio do caminho para conferir o e-mail ou se divertir com vídeos virais no YouTube. Parece um paradoxo, mas não é. O turbilhão das informações online é superficial para quem o consome, não para quem o produz. Toda horizontalidade tem uma dimensão vertical que a sustenta: o vídeo viral que se engole em um minuto e meio exigiu tempo e concentração de seu autor ou autores. A capacidade de imersão atenta e refletida que o mundo digital parece disposto a aniquilar é, no fundo, um dos pilares de sua linha de produção. Uma pesquisa feita no mês passado nos EUA pela Nielsen apurou números interessantes: a maior parte dos proprietários de tablets (70%) e smartphones (68%) passam parte significativa de seu tempo de uso do aparelho (30% e 20%, respectivamente) diante da TV. Isso é dispersão em estado…

‘Como vendi 1 milhão de e-books em cinco meses!’
Pelo mundo / 24/06/2011

A história do escritor independente – isto é, sem editora – John Locke, publicada esta semana pelo “Los Angeles Times” (em inglês, acesso gratuito), é um interessante caso de sucesso no mundo dos e-books. Um mundo que, se no Brasil ainda cabe numa xícara, nos EUA já desenha uma paisagem de contornos vastos e cada vez menos nebulosos. Vale a pena conhecer o caso porque, mais cedo ou mais tarde, suas lições poderão ser aplicadas aqui. As duas questões fundamentais levantadas pela história são: Quanto pode ou deve custar um e-book? E que percentual desse valor deve caber ao autor, que no mercado editorial convencional leva em torno de 10%? Com uma série de thrillers de mistério, Locke acaba de entrar para o clube dos escritores independentes com mais de um milhão de downloads na livraria virtual Amazon. Isso significa que mais de um milhão de proprietários do leitor eletrônico Kindle, que pertence à Amazon, compraram seus livros. Pagaram por cada um deles o preço quase simbólico de 0,99 cents – cerca de R$ 1,60. Ah, mas assim é fácil vender tanto? Não, não é. A maior parte dos escritores autopublicados não vende nem mil livros. Além de seus prováveis…

A ‘literatura expandida’ do novo Harry Potter e outros links
Pelo mundo / 20/06/2011

O “novo projeto” de J.K. Rowling não é mais um livro protagonizado por Harry Potter, diz a versão oficial, mas isso não impede a autora de continuar fazendo mágica. Venha o que vier, uma coisa parece certa: será mais uma aula sobre como usar os recursos do mundo digital para manter vivo e vendável um mundo ficcional. Num momento em que tanto se fala de “literatura expandida”, convém prestar atenção. O site pottermore.com, que entrou no ar na semana passada, consiste por enquanto apenas de uma página ilustrada por duas corujas, em que se vê a assinatura da autora sob um aviso: “Em breve”. Isso foi o suficiente para deflagrar um surto de histeria (notícia aqui de VEJA.com) entre os milhões de fãs de Harry Potter. Seria um jogo online? Uma enciclopédia sobre o “mundo potteriano”? Apenas uma ferramenta de promoção do último filme da série, “Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2”, que estreia mês que vem? Os boatos de que se trataria de um novo livro foram desmentidos por um porta-voz da autora, mas persistem – o que é compreensível, se for levado em conta que Rowling já admitiu dar prosseguimento à série e que…

Salman Rushdie televisivo e outros links
Pelo mundo / 13/06/2011

Mais uma notícia para arquivar na editoria “Fim do romance”? Salman Rushdie vai escrever uma série televisiva americana de ficção científica chamada The next people. “É o melhor de dois mundos. Você pode trabalhar com produções semelhantes às do cinema, mas tendo o devido controle (criativo)”, disse, elogiando o papel fundamental dos autores no formato: “The Sopranos era David Chase, West wing era Aaron Sorkin.” * Para quem não vai a Parati: terminada a festa, algumas das maiores estrelas da Flip darão mole em São Paulo e no Rio de Janeiro. O blog “A biblioteca de Raquel” preparou um roteiro. * Você sabia que, pelo método tradicional de arquivamento de sobrenomes ingleses, os Mcs, como McEwan, vêm antes dos Mas, como Mamet? Mas será que isso ainda faz algum sentido? Mark Sarvas, do referencial blog “The Elegant Variation”, sobre as agruras de quem tem uma biblioteca caseira para organizar. * O mais engraçado daquela última polêmica literária nacional é que, embora ela não tenha ido a lugar nenhum, com defesas dispersas espelhando a inconsistência intelectual do ataque, começam a pipocar as vozes que tentam surfar a marola, como se algo muito importante tivesse ocorrido no panorama da crítica. Meu Deus….

Jane Austen em versão pornô
Pelo mundo / 10/06/2011

Agora é definitivo: depois de dar a partida na moda dos mashups com o sucesso de “Orgulho e preconceito e zumbis”, que abriu a porta para a invasão dos clássicos da literatura por criaturas pop variadas, de monstros marinhos a robôs steampunk, Jane Austen acaba de se consagrar como a rainha incontestável da reciclagem literária brincalhona-oportunista. A coroação se dará com o lançamento pela editora americana Cleis Press, mês que vem, de Pride and prejudice: hidden lusts (“Orgulho e preconceito: prazeres ocultos”), obra erótica de uma certa Mitzi Szereto. A julgar pelos clichês “românticos” acumulados na capa, estamos no terreno daquele erotismo prêt-à-porter dos livrinhos de banca de jornal, e portanto distantes do sexo transgressivo de Sade, Bataille e Rèage, embora Szereto insinue no site do livro (que inclui um clipe chinfrim) a inclusão supostamente subversiva de alguns temperos gays. No site somos informados também de que esse é o romance que Jane Austen teria escrito “se tivesse coragem”. O estilo do material de divulgação sugere prazeres mais humorísticos que eróticos: Em “Orgulho e preconceito: prazeres ocultos”, todo o elenco de personagens do clássico de Austen é flagrado com as calças desabotoadas e as saias levantadas, numa versão recontada que…

O poder das metáforas
Pelo mundo / 23/05/2011

A experiência é meio tosca, provavelmente, como costumam ser os produtos da psicologia social americana, mas não tenho dúvida de que aponta para sacadas profundas sobre a mente e a linguagem. No caso, uma comprovação do insidioso poder das metáforas. Diante de uma reportagem que compara o crime a uma “fera que tem a cidade como sua presa”, dois terços dos leitores dizem que a solução é um aumento da repressão policial (enjaular!). Quando a reportagem pinta o crime como “um vírus que infecta a cidade”, a turma que defende reformas sociais (curar!) equilibra o jogo com a galera linha-dura, deixando o resultado perto de meio a meio. Detalhe fundamental: as reportagens, introdução retórica à parte, são idênticas. Mais detalhes neste artigo (em inglês) de David DiSalvo publicado pela “Psychology Today”. (Via blog de livros da “New Yorker”.) * Amanhã à noite estarei em São Paulo para um debate sobre blogs literários com Raquel Cozer, do “Estadão”, e Flávio Moura, do Instituto Moreira Salles, como parte da festa do aniversário de um ano do blog da Companhia das Letras. A mediação ficará a cargo de André Conti, editor da casa. Ainda estou pensando numa boa metáfora para o papel dos…

Está provado: a literatura muda o mundo
Pelo mundo / 20/05/2011

É um lugar-comum dos últimos cento e tantos anos, inclusive ou sobretudo entre escritores, reconhecer que a literatura não tem o poder de transformar a realidade e que sua relevância, se houver, deve ser buscada apenas dentro do círculo simbólico que ela instaura, e só enquanto o instaura. Uma relevância virtual, portanto. O impacto sobre a consciência do leitor individual, e olhe lá, seria o máximo a que uma obra literária tem o direito de aspirar, e mesmo esse impacto estaria restrito ao campo das iluminações efêmeras, raramente capazes de influenciar as ações do tal leitor no mundo. Papo furado. As provas de que a literatura, como qualquer construção simbólica, interfere na chamada realidade concreta estão por toda parte. O erro é imaginar que esse impacto teria que se dar de forma previsível, programada, como acreditavam por exemplo os (será que ainda existentes?) cultores da ficção politicamente engajada. Os efeitos são sempre imprevisíveis. É possível que Jorge Amado não tenha conquistado um único leitor para a causa stalinista com seus panfletários romances da série “Subterrâneos da liberdade”. Já o impacto de Gabriela e Dona Flor sobre as carreiras de Sônia Braga e Bruno Barreto foi monumental, para não mencionar a…

A ficção contemporânea é mesmo tão medíocre?
Pelo mundo / 16/05/2011

A pergunta do título, que parece pairar no ar do mundo globalizado, foi feita pelo “Los Angeles Review of Books” a Mark McGurl, autor de um livro recente sobre a importância dos cursos universitários de “escrita criativa” para a literatura americana das últimas décadas, chamado The program era. Sua resposta, da qual transcrevo os trechos abaixo, não poderia deixar de ser uma defesa dos tais cursos, que nos EUA são o bode expiatório preferido dos que – numa atitude de “oportunismo desesperado”, segundo McGurl – apregoam a morte da literatura (o equivalente nacional seria a “profissionalização do escritor”, a “ciranda dos festivais” ou algo do gênero). Vale a pena ler a entrevista inteira, em inglês, aqui. Ouve-se essa ideia no ar o tempo todo. Virou um truísmo entre pessoas culturalmente sofisticadas (…), que aconselham os que estão procurando por uma instigante “justaposição de narrativa pessoal com os fatos do mundo” a ouvir rádio ou ler livros de memórias em vez de perder tempo com uma obra contemporânea de ficção literária. A não-ficção lida com “algo real no mundo”, enquanto a ficção contemporânea tem a ver com – o quê? Com quase nada, conclui-se, uma vez que “algo real no mundo”…

O romance perdido de Karl Marx e outros links
Pelo mundo / 11/05/2011

Está certo que o pós-modernismo andou abusando do truque, mas não é espantoso que ninguém tenha ainda construído um romance em torno do romance perdido de Karl Marx? Skorpion und Felix, Humoristischer Roman (Escorpião e Félix, romance humorístico) foi escrito em 1837, quando o então futuro autor do “Manifesto comunista” tinha 19 anos, e aparentemente destruído por ele mesmo – com exceção de uns poucos fragmentos, que chegou a publicar. Humor filosófico e provável influência do “Tristram Shandy” são atributos que costumam ser associados a esse livro, o que parece mais que suficiente para fazer de Marx um irmão espiritual de… Machado de Assis! Se alguém se habilitar, aviso logo que me terá como leitor. E que me contento com um agradecimento em corpo 8 no fim do volume. * Close reading de tweets? Isso mesmo. E ainda inclui um glossário de pés métricos dos nomes de rappers: iambos, troqueus etc. Pode, Arnaldo? * E por falar no Twitter: a “Wired” fez uma antologia de comediantes profissionais que se dedicam a fazer rir em menos de 140 caracteres. Alguns conseguem. * O neonazista americano educava o filho de 10 anos entre armas e relíquias nazistas. O filho aprendeu bem a…

Na cama com García Márquez
Pelo mundo / 29/04/2011

“Querido, vê se me esquece, prefiro ir pra cama com Gabriel García Márquez!” Da curta mas seminal série Pop Literário, que de vez em quando aparece aqui às sextas-feiras, uma pérola de 1993 da banda folk canadense Moxy Früvous, chamada My baby loves a bunch of authors. Tão divertida que me fez perdoar a baixíssima qualidade do vídeo. Bom fim de semana a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=J9F_XHb81N0

Piglia: ‘A crítica literária desapareceu do mapa’
Pelo mundo / 25/04/2011

“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.” Como sempre, as anotações do escritor e crítico argentino Ricardo Piglia em seu “diário” no caderno Babelia do último sábado (em espanhol, acesso gratuito) sugerem mais do que explicitam. A que “situação atual da literatura” ele se refere? (Pode-se apostar que tem algo a ver com sua observação recente, no mesmo espaço, de que “só se torna artístico – e se politiza – o que caduca e está ‘atrasado’”.) Como sempre, também, Piglia dá o que pensar. Sua cartografia é só uma hipótese, claro, mas iluminaria alguns aspectos do “campo da literatura” – como o pessoal costuma dizer na universidade. Uma vez que ninguém aceita “desaparecer do mapa” de uma hora para outra, pelo menos não…

24 horas de literatura e outros passatempos
Pelo mundo / 18/04/2011

Você já ouviu falar de The clock, o filme (ou vídeo-instalação?) de Christian Marclay que faz uma colagem em ordem cronológica, com 24 horas de duração, de cenas de filmes em que aparecem relógios? Uma boa apresentação é esta crítica da escritora Zadie Smith para “The New York Review of Books”, que, além de ridiculamente bem escrita, é de uma empolgação inédita no jornalismo cultural dos últimos 30 ou 40 anos: ela diz que The clock é “sublime, talvez o melhor filme que você já viu”. O pessoal do blog de livros do “Guardian” também deve ter se apaixonado, porque está pedindo ajuda aos leitores para repetir o esquema no mundo das letras, com retalhos literários no lugar dos cinematográficos. Será que alguém com tempo à beça de sobra se habilita? * “As feiras de livro estão mais para feira do que para livro, e para os que têm medo do mundo digital, dos livros eletrônicos, eu sugiro: assustem-se primeiro com os grandes eventos, como os que acontecem aqui [em Londres] e em Frankfurt. Preocupem-se se ainda haverá boa literatura com tanta competição e sem o necessário tempo para se escrever, ler e editar.” Falando só por mim, claro, esse…

Blogs e redes sociais são aliados dos escritores. Porém…
Pelo mundo / 15/04/2011

Na revista e muito ampliada área de livros do site do jornal inglês “The Guardian”, a escritora de romances históricos Sara Sheridan passa uma reprimenda severa (em inglês, acesso gratuito) em todos os colegas que resistem a ter uma presença ativa em blogs e redes sociais. “Me entristece ver esses escritores – comunicadores profissionais – ficarem distantes de um meio que clama por suas habilidades e que é, comprovadamente, a melhor forma de comunicação com os leitores”, escreve ela. Sheridan tem uma dose de razão, claro, mas acredito que os recalcitrantes também tenham. Deixando de lado fatores prováveis como ranzinzice e acomodação, é razoável supor que grande parte deles sinta medo de, caindo feito Alice nessa toca de coelho, para usar uma imagem de Margaret Atwood, acabar sem tempo ou cabeça para escrever algo além de posts e tweets. Escritores talvez sejam enquadráveis, tecnicamente, na categoria de comunicadores, e sem dúvida sempre houve os que se notabilizaram mais pelo talento promocional do que pela qualidade do texto. Isso não muda o fato de que escrever requer uma medida de recolhimento, de silêncio mental, sem a qual é impossível distinguir o que é a própria voz e o que é a…

Livros roubados, livros bandidos e outros links
Pelo mundo / 28/03/2011

“Os livros de que me lembro melhor são os que roubei na Cidade do México entre as idades de dezesseis e dezenove…” Roberto Bolaño discorre (em inglês) sobre os prazeres de ser um ladrão de livros. * Roubando ou não, você é um acumulador de livros, do tipo que se julga incapaz de se desfazer de um único volume, por pior que ele seja? Então saiba que sua doença tem nome: bibliomania. Conheça alguns truques que, sem prometer cura, podem aliviar os sintomas. * Mas se você acha que é novo esse sentimento de estar soterrado por livros, veja esta: “Temos razões para temer que a Multidão de Livros que aumenta a cada dia (…) faça cair os séculos seguintes num estado tão lamentável quanto aquele em que a barbárie lançou os anteriores a partir da decadência do Império Romano.” A frase é do erudito francês Adrien Baillet, biógrafo de René Descartes, que a escreveu no início do século 18. * “Diante da ciência, nós escritores somos como crianças com a cara colada no vidro de uma janela, tentando descobrir o que lá dentro.” Ian McEwan, um escritor que sempre levou a ciência a sério, num debate em Barcelona, semana…

República das Letras, sim. Mas isso inclui o Google?
Pelo mundo / 23/03/2011

Depois da decisão do juiz americano que refreou o apetite de digitalização universal do Google, ontem, vale a pena recuperar o trecho mais aplaudido da palestra que o historiador Robert Darnton fez na Flip do ano passado: Em primeiro lugar, devo dizer que admiro o Google, que fez coisas maravilhosas, e não quero soar como um D. Quixote. A digitalização do conhecimento é uma grande oportunidade e um grande risco. O Google já digitalizou cerca de 2 milhões de livros que estão em domínio publico. Não cobra pelo acesso e ganha discretamente com publicidade, mas isso não me incomoda. O que me preocupa é a comercialização do nosso patrimônio cultural. Na Biblioteca de Harvard temos 14 milhões de livros. O Google nos procurou e propôs digitalizar tudo sem custo para nós, mas em troca eles nos cobrariam pela leitura em formato digital. Isso é inaceitável. Estão criando o maior monopólio já visto, um monopólio de informação. Não acho correto comercializar uma biblioteca que foi formada ao longo de séculos e deixar isso na mão de uma empresa que precisa gerar lucro para seus acionistas. A República das Letras, com seu acesso universal ao conhecimento, ideal do seculo 18, tem uma…

O maior matador de Kindle desta semana
Pelo mundo / 21/03/2011

Um bom indicador de como anda confuso o mundo dos livros é o título de um artigo publicado ontem no “Guardian” por Patrick Kingsley (o rapaz da foto ao lado): “Será este novo livro o matador de Kindle?” Primeiro fator de estranhamento: esse epíteto forçado, “matador de Kindle”, não era reservado até outro dia mesmo ao iPad? Era. Aparentemente, a despeito de todo o seu sucesso comercial, o aparelho da Apple não fez jus a ele. O segundo susto vem ao se constatar que o poderoso objeto para o qual se tenta transferir agora tamanha esperança assassina é só um livrinho de papel – este mesmo que aparece na foto, nas mãos de Kingsley. Chamado flipback book e apresentado como “uma sensação na Holanda, onde já vendeu um milhão de cópias”, o livrinho chegará em breve a outros países europeus. Como o nome diz, “abre para trás”, como certos tipos de caderneta de anotações. Além disso, tudo o que o torna diferente tem a ver com portabilidade e manuseio: é menor que um livro de bolso, tem miolo de papel-bíblia e uma encadernação que facilita a leitura sem o uso das mãos: aberto em determinado ponto, o livro permanece assim…

Bibliotecas depois do terremoto
Pelo mundo / 18/03/2011

As fotos de bibliotecas japonesas pós-terremoto que vêm sendo reunidas pelo site Togetter.com, enviadas por voluntários de diversas cidades, levam Macy Halford a especular, no blog de livros da “New Yorker”, por que essa preocupação com estantes tombadas e tomos esparramados no chão em meio a uma devastação tão completa, que deveria fazer este parecer o menor dos problemas. Bom, talvez por isso mesmo, imagina ela, ao dizer que “as imagens nos permitem ter uma ideia da destruição num ambiente relativamente benigno – livros não são gente”. As bibliotecas funcionariam então como uma poderosa metonímia, tirando sua força menos do que as imagens mostram do que daquilo que sinistramente sugerem. Faz sentido, mas acho que fica faltando dizer alguma coisa. Num país de povo tão proverbialmente organizado, estudioso e culto, bibliotecas podem ser vistas também como uma metáfora do próprio edifício social – e de sua fragilidade. Num minuto, todo aquele mundo de livros estava perfeitamente ordenado em suas prateleiras por assunto, ordem alfabética etc. No minuto seguinte…

O que eles disseram: Marías, Hatoum, Wallace
Pelo mundo / 14/03/2011

“‘Isto é de tal período e só dele’, dizemo-nos ao ler [certas obras] fora de sua época, e, com a inapelável e sempre crescente aceleração do mundo, ‘fora de sua época’ significa às vezes, hoje em dia, apenas uma década depois de sua vinda à luz. Algo desse tipo sentimos até com as narrativas dos maiores autores contemporâneos: com Kafka, com Faulkner, às vezes com Borges, com Joyce quase sempre. De tão inovadores, de tão arriscados, de tão voluntaristas, de tão diferentes ou de tão ambiciosos, podem resultar, vez por outra, levemente antiquados, ou, se se prefere, simplesmente ‘datados’.” Javier Marías fazendo o elogio do não-datado “O Leopardo”, de Lampedusa, no Babelia. * “Creio que a literatura argentina é a mais forte do continente.” Milton Hatoum em entrevista à revista do jornal (argentino) “Clarín”. Será que tem alguém aí disposto a discordar? (Ah, mas que Pelé foi maior que Maradona, foi!) * “Toda pessoa sadia tem ambições, objetivos, iniciativas, metas. A meta desse garoto em particular era ser capaz de pressionar seus lábios sobre cada polegada quadrada de seu próprio corpo.” Começo (inesquecível?) do conto Backbone (Espinha dorsal), de David Foster Wallace, publicado na “New Yorker”.

‘A Cabeça’ e o mistério da McSweeney’s
Pelo mundo / 09/03/2011

Faz poucos dias que finalmente botei as mãos no mais recente número da revista (à falta de um nome melhor) literária McSweeney’s, de São Francisco. Editada pelo escritor Dave Eggers, de “O que é o quê”, com a ajuda de um bando de malucos, a maioria em esquema de trabalho voluntário, a McSweeney’s é hoje a coisa mais lúdica, divertida, inquieta e (por que não?) cool existente no mundo da literatura: uma publicação trimestral que desde seu surgimento, em 1998, nunca repetiu um formato. Um dos números, ano passado, foi o jornal mais belo da história, o “Panorama”, comentado na época aqui. Este que eu tenho nas mãos agora, conhecido como “A Cabeça”, é uma caixa de papelão resistente cheia de livretos, revistinhas, postais e artigos mais difíceis de nomear. Não se trata, como podem pensar os cínicos de plantão, de uma forma esfuziante para encobrir a falta de conteúdo: para desmentir essa impressão bastariam o conto de Colm Tóibín e os quatro primeiros capítulos de “Fountain City”, o famoso romance inacabado que quase acabou com a carreira de Michael Chabon, acompanhados de impiedosas notas críticas do próprio autor. Mas “A Cabeça” tem muito mais, e imagino que estarei mexendo…

Biblioteca de sentar
Pelo mundo / 07/03/2011

Uma poltrona da qual ninguém precisa se levantar para alcançar os livros na estante: a Bibliochaise Home, que acomoda “cinco metros de livros”, foi criada por um estúdio de design de Glasgow, Escócia, chamado Timorous Beasties, e custa cerca de 12 mil reais (!). Vem em duas cores básicas, preto e branco, mas outras podem ser encomendadas. Quantos não-carnavalescos não andam sonhando com algo parecido nestes dias ofegantes? Embora um aprimoramento pareça necessário: como assim, nem um lugarzinho para acomodar o copo? (Via The Book Bench.)

Vêm aí os Escritores Unidos, diz Margaret Atwood
Pelo mundo / 02/03/2011

“As anchovas estão inquietas”, diz a escritora canadense Margaret Atwood, explicando que as anchovas são os escritores – individualmente fracos, mas fortes quando em cardume, por darem sustentação a toda a cadeia alimentar do mercado editorial. A inquietude, diz ela, provém da sensação de que a maioria das editoras tem sido intransigente ao negociar direitos autorais para e-books, deixando de levar em conta uma nova realidade em que os baixos custos de produção permitiriam multiplicar o tamanho da fatia que tradicionalmente cabe ao autor (em torno de 10% do preço de capa). “Está no ar”, nas palavras de Atwood, a ideia de repetir no mundo literário o que fizeram alguns artistas de ponta de Hollywood em 1919, entre eles D.W. Griffith e Charles Chaplin, ao romper com os grandes estúdios e fundar sua própria companhia, a United Artists. United Writers? Mas “escritores unidos” não é uma contradição em termos? Este é apenas um dos atrativos desta recente palestra de Margaret Atwood no TOC 2011, seminário de novas tecnologias realizado em Nova York. Pontuada por piadas, algumas ótimas, e desenhos em PowerPoint feitos pela própria escritora, a fala de Atwood cobre de forma leve quase todos os aspectos do emaranhado de…

42 minutos de Scliar e outros links
Pelo mundo / 28/02/2011

“Meu nome é Moacyr Scliar, eu sou de Porto Alegre…”. Assim começa um depoimento autobiográfico de fôlego (42 minutos) disponível no site da editora gaúcha L&PM, gravado em vídeo menos de um ano atrás. * “Qualquer um que seja honesto consigo mesmo sabe que a internet deixou de ser um grande lugar para consumidores de cultura um ou dois anos atrás. Nos dias de hoje, você pensa que está lendo a rede, mas a rede é que está lendo você – reunindo informações sobre você, tentando lhe vender coisas, empurrando-o para outros links. Na internet, ler é comprar. E às vocês você não quer comprar.” Virginia Heffernan, na revista dominical do “New York Times”, desanca a internet aberta para exaltar os e-readers. Exagero, provavelmente, mas com um fundo de verdade. * A resenha tem muito de anticlímax, assim como a ausência (até agora) de comentários, mas o fato é que começou hoje a nova edição da Copa de Literatura Brasileira.

Muamar Kadafi, o escritor
Pelo mundo / 23/02/2011

Certamente não será o maior de seus pecados – a competição, afinal, é duríssima – mas o ditador líbio Muamar Kadafi também se julga escritor. Depois de lançar em 1975 sua obra mais conhecida, o “Livro verde”, um panfleto político-ideológico que se gaba de apresentar “a solução teórica definitiva do problema da ‘máquina de governar’”, Kadafi publicou nos anos 1990, quem diria, um volume de contos – ou coisa parecida. Escape to hell and other stories (Fuga para o inferno e outras histórias) teve uma tradução lançada na Inglaterra no finzinho do século passado e ainda está à venda na Amazon britânica – aqui. Nas palavras do editor, “nesta coletânea, além das visões de um revolucionário e profeta, descobrimos um escritor e um ensaísta”. A crítica do “Guardian” foi bem menos benevolente: “O que descobrimos é uma mente que não consegue desenvolver um pensamento coerente por muito tempo, é cheia de dicotomias grosseiras e de nonsense, e tagarela aleatoriamente, implodindo antes de explodir de novo numa erupção de palavrório surreal”. Ou seja, Kadafi puro.

Em busca de Gatsby, aos pulinhos
Pelo mundo / 18/02/2011

Será que “o último sucesso digital nos arrabaldes da literatura” vai virar uma tradição das sextas-feiras aqui no blog? Não prometo, mas, depois do clipe de três semanas atrás, este videogame online em estilo vintage Nintendo baseado em “O grande Gatsby”, o romance de F. Scott Fitzgerald, parece apontar nesse sentido. E por que não? Detalhe: os programadores liberaram o código-fonte para quem quiser desenvolver joguinhos semelhantes sobre seus clássicos favoritos. E quem achar que conduzir Nick Carraway entre obstáculos em forma de mordomos e dançarinas de Charleston é uma perda de tempo não deve se preocupar: usando a hora extra que o fim do horário de verão vai nos conceder amanhã, não perderá tempo nenhum. (Via The Book Bench.)

Piglia: só pode ser arte o que já caducou
Pelo mundo / 14/02/2011

O que envelhece e perde vigor se torna solto e mais livre: quando o público do romance do século 19 se deslocou para o cinema, foram possíveis as obras de Joyce, de Musil e de Proust. Quando o cinema foi suplantado como meio de massa pela televisão, os cineastas do “Cahiers du Cinéma” resgataram os velhos artesãos de Hollywood como grandes artistas; agora que a televisão começa a ser substituída maciçamente pela web, valorizam-se as séries televisivas como forma de arte. Logo, com o avanço das novas tecnologias, os blogs e os velhíssimos emais e as mensagens de texto serão exibidos nos museus. Que lógica é esta? Só se torna artístico – e se politiza – o que caduca e está “atrasado”. Esta iluminação do escritor e crítico argentino Ricardo Piglia, garimpada num texto que o Babelia publicou no último sábado, tem brilho tão intenso que provoca uma sensação de ofuscamento. Para dissipá-lo, seria necessário que Piglia desenvolvesse a ideia de que só pode haver arte no que é “atrasado” – o que ele, preso ao formato leve de um diário, não faz. Assim, resta-nos especular. Vê-se logo que não se trata, como pode parecer à primeira vista, de um…

Uhu!!! Txt eh d+!!!!!
Pelo mundo / 07/02/2011

“Se estamos vendo um declínio nos padrões de letramento infantil, isso se dá apesar das mensagens de texto e não por causa delas”, afirma a psicóloga Clare Wood, da Universidade de Coventry, na Inglaterra, que conduziu nos últimos dez anos um estudo sobre o assunto com crianças de 8 a 12 anos. A conclusão de Wood (em inglês, acesso gratuito) aponta para o oposto daquilo que, nos últimos tempos, vem deixando pais e professores à beira de um colapso nervoso: não só a famigerada “linguagem” cheia de abreviações do MSN e dos torpedos não faz mal nenhum como, ora veja, faz bem! O estudo constatou que quem tc msg no cel o dia todo, entre abrax e bjusss, tem maior capacidade de escrita e leitura do que quem não faz isso. A revelação pode ser contraintuitiva, mas sou obrigado a dizer, com humildade, que não me surpreende nem um pouco. Há cerca de uma década, costumo tranquilizar leitores alarmados dizendo que, filosoficamente, não há diferença entre a notação cifrada da cultura virtual e a velha Língua do Pê. Em ambos os casos, trata-se de brincar com a língua, o que é uma forma de tomar posse dela, e criar um…

Escrever é… (segundo Nabokov, Bolaño, Duras etc.)
Pelo mundo / 02/02/2011

O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench): Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade. Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo…

Não enche, estou lendo!
Pelo mundo / 28/01/2011

Para quem, se é que existe esse alguém, ainda não viu o último sucesso viral do YouTube (mais de 814 mil acessos) nos arrabaldes da literatura, aí vai. Boa diversão e bom fim de semana a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=BuRuwR2JSXI

Literatura na internet? Não: internet na literatura
Pelo mundo / 24/01/2011

Este artigo de Laura Miller no “Guardian” (em inglês, acesso gratuito) é o melhor que leio em muito tempo sobre o (já) velho tema do impacto que o mundo digital exerce sobre a literatura. Uma das fundadoras da revista eletrônica Salon.com e jornalista de prosa fina, Miller parte de E unibus pluram, o famoso ensaio de David Foster Wallace sobre TV x ficção – do qual traduzi um naco e tanto aqui no blog, em três partes, no fim do ano passado – para especular se os autores de “literatura séria” serão forçados, pelo que o meio tem de específico, a enfocar a internet em suas obras de uma forma que nunca enfocaram a televisão, isto é, como uma das vigas mestras do “Modo como vivemos hoje”. Longo e cheio de boas tiradas, o artigo aposta que sim e diz que isso já começa a ocorrer, citando entre outros os últimos trabalhos de Jonathan Lethem, Gary Shteyngart e Jennifer Egan – este, A visit from the goon squad, recém-nomeado finalista do prêmio do National Book Critics Circle. Abaixo, alguns trechos do artigo de Miller: …o romancista americano é acossado por dois imperativos cada vez mais contraditórios. O primeiro decorre da…

A morte de Stephen Crane e outros links
Pelo mundo / 19/01/2011

Sincronicidade na era digital: enquanto sai pela Penguin-Companhia uma nova e caprichada edição da tradução que fiz há muitos anos (para a extinta Lacerda Editores) de “O emblema vermelho da coragem”, o clássico de Stephen Crane sobre a Guerra Civil Americana, é publicado na Espanha – como me informa a resenha empolgada de Vicente Molina Foix no “Babelia” – um romance do ótimo escritor americano Edmund White que havia me escapado ao sair em inglês, em 2007. Trata-se de Hotel de Dream, que recria ficcionalmente a morte precoce de Crane, aos 29 anos, de tuberculose. Corro para o Kindle e, trinta segundos depois, estou lendo o livro, que até agora escapou também às editoras brasileiras. Ainda estou no capítulo 5, mas já posso declarar que se trata de delícia pura. A caricatura que White faz do afetado Henry James, amigo de Crane, já vale o ingresso. Algo me diz que vou voltar a esse assunto. * “O conto não está passando por um renascimento. Nossa recente e tão discutida saturação contística do mercado não tem a ver com nenhuma devoção real ao gênero. A situação existe porque os muitos escritores que treinamos simplesmente não sabem escrever nada além de contos.”…

A biblioteca de Michael Jackson. E outras…
Pelo mundo / 12/01/2011

Você esperaria que a biblioteca da casa de Michael Jackson tivesse um ar de livraria especializada em literatura infantil, pode confessar – entre volumes esparsos, muitos pufes, estantes em cores vivas e um boneco maior-que-a-vida de Peter Pan ou Winnie the Pooh, por aí. Nada disso: como se vê na foto ao lado, a biblioteca do chamado Rei do Pop era um templo aristocrático dedicado ao recolhimento e à intensa atividade intectual. O mesmo se pode dizer, com algumas variações, das impressionantes bibliotecas do estilista Karl Lagerfeld (cujos volumes são curiosamente dispostos na horizontal), do cineasta Woody Allen, da estrela televisiva Oprah Winfrey, da diva Greta Garbo etc. – fotos que podem ser conferidas aqui, no link da “Flavorpill”. E daí, pode perguntar um leitor mal-humorado, aonde este post pretende chegar? A lugar nenhum – a não ser, talvez, ao velho e sensato lugar da busca de inspiração, num momento em que o blogueiro, de casa nova, luta para acomodar seus quase três mil volumes num arranjo menos parecido com o depósito de um sebo decadente. Mas não deixa de ser agradável saber que as celebridades encontram tempo, ao fim de seus dias presumivelmente atarefados de celebridade, para sentar na…

Conversa de gente grande
Pelo mundo / 10/01/2011

Quem disse que tudo na internet é rapidinho e superficial? São mais de quarenta minutos de papo franco (com alguma dose de timidez dos dois participantes, o que até ajuda) sobre literatura, dos aspectos técnicos aos éticos, deixando de fora os teóricos; a admiração de ambos por David Foster Wallace e James Baldwin; a ficção como exercício de imaginação do Outro; o esgotamento artístico do relativismo moral, também conhecido como a necessidade de resgatar as noções de certo e errado; literatura negra, literatura judaica, literatura só: a conversa de Zadie Smith e Nathan Englander (em vídeo, sem tradução) num evento beneficente em Nova York, mês passado, é um banquete farto proporcionado por duas estrelas da nova ficção anglófona: a autora inglesa de “Sobre a beleza” e o autor americano de “Para alívio dos impulsos insuportáveis”. Vale separar o tempo que a festa consome – e ter paciência com o baixo volume do áudio. (Via The Elegant Variation.)

Interlúdio portenho
Pelo mundo / 31/12/2010

K. é um jovem (na casa dos 40) e bem-sucedido escritor de língua alemã que vive em Buenos Aires com a mulher e a filha pequena, num apartamento tão amplo, belo e cinematográfico que não dispensa sequer um elevador de porta pantográfica que parece saído de “O bebê de Rosemary”. Eu não conheço K., nunca o encontrei, de modo que não saberia começar a explicar por que um jovem e bem-sucedido escritor suíço de língua alemã elegeu a capital argentina para viver, mergulhado num idioma que ele próprio – assim me dizem – não fala direito. Sequer li K., que jamais foi traduzido no Brasil e de quem ouvi falar apenas agora, já hospedado em sua casa, tornada imensamente vazia pelas férias africanas da família – sim, folheei alguns de seus livros na biblioteca, junto à lareira extemporânea, mas aqueles tomos podiam estar escritos em grego. Apesar de toda essa distância linguístico-existencial, a hospitalidade de K., por meio de amigos comuns, contribui decisivamente para tornar memorável minha passagem de ano portenha, entre dias que parecem querer competir com a temperatura dos ojos de bife fumegantes que alimentam meu corpo e noites frescas em que o vinho tinto torna-se subitamente inadiável…

Enquanto existe 2010…
Pelo mundo / 27/12/2010

…dá tempo de comentar a eleição do livro do ano na Espanha por um time de críticos reunido pelo caderno “Babelia”, do jornal espanhol “El País”: ganhou “Verão”, de J.M. Coetzee, um híbrido de romance e memória que também por aqui foi acolhido generosamente. O livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, não me agradou muito, como expliquei aqui num post de julho, mas teve inúmeros defensores – Michel Laub foi só um deles. Seja como for, é muito melhor ler sobre a vitória do escritor sul-africano do que ser informado de que “Psicopata americano”, de Bret Easton Ellis, vai virar musical da Broadway. Bem que o ano podia ter acabado sem essa.

Hemingway e Salinger são os maiores, diz Lillian Ross
Pelo mundo / 13/12/2010

Os dois maiores escritores do meu tempo são Ernest Hemingway e JD Salinger. Ambos cruzaram a fronteira entre o século 20 e o 21 com sua originalidade, sua substância e seu poder de permanência intactos. Como repórter e como amiga – com o privilégio de brincar na sua área – foi excitante observar em primeira mão o gênio único dos dois escritores revelar-se de forma cada vez mais nítida com o passar dos anos. Ambos tinham um senso de humor muito particular – surpreendente, inimitável, em conversas, em cartas e em seu trabalho. Salinger me mantinha ao telefone por horas, morrendo de rir, falando de tudo e de todos à nossa volta. Ele adorava ler e adorava escrever. Hemingway costumava dizer que amava a parte de escrever, “mas não o que vinha depois”. O que veio depois para ele foram anos de inexplicável censura por ter tido a coragem e o gênio de nos dar prazer e iluminação duradouros na leitura. Nunca entendi a parte do “depois”, nem no caso de Hemingway nem no de Salinger. Temos visto tentativas deprimentes de derrubar Salinger também. Salinger amava as pessoas que criava e as protegeu até a sua morte. Ele nos deu…

Auto-ajuda para escritores, safra 1895
Pelo mundo / 10/12/2010

Aprendo neste artigo da “Slate” (em inglês, acesso gratuito) que o primeiro guia conhecido de auto-ajuda para escritores foi publicado em Londres em 1895 por um jovem chamado Sherwin Cody. Intitulava-se How to write fiction (Como escrever ficção) e dava conselhos como estes: O público é como uma criança: quer ser tocado emocionalmente ou inconscientemente. Os homens geralmente pegam um bom tema e o desenvolvem mal, enquanto as mulheres pegam um tema fraco e o desenvolvem bem. Mas nem tudo eram generalidades tolas. Havia momentos de sensatez diante das incertezas do ofício: Ninguém deve fazer da escrita de ficção sua única atividade. E havia também formulações especialmente felizes como esta, que mais tarde ficaria conhecida pelo nome genérico de “não conte, mostre”: Dizer que sua heroína era orgulhosa e desafiadora não tem nem metade da eficácia de dizer que ela empinou o queixo e bateu o pé. Se o livro de Cody prova que o mercado dos aspirantes à glória literária, hoje vivendo uma explosão internética, foi descoberto faz tempo, demonstra também que uma certa dose de picaretagem já estava presente nesse mundinho desde o início: publicado sob um pseudônimo (An Old Hand) que sugeria décadas de estrada, How to…

Crítica de arte na rede, isso existe?
Pelo mundo / 06/12/2010

Os consensos artísticos do futuro (do presente?) vão surgir (estão surgindo?) na rede, da rede, isso parece certo. Outro dia me perguntaram numa palestra o que acontece na era digital com o velho sistema de validação literária, que há tempos vinha se baseando na academia e nos estratos mais rarefeitos da imprensa de papel. Quem vai separar o joio do trigo no presente, no futuro? Parece evidente que, cada vez mais, quem vai dizer o que fica e o que merece ser lido é a rede – a mesma rede que eleva a uma potência inédita o número de candidatos a essa glória fugidia. É claro que isso não exclui por completo os atores tradicionais: universidade e imprensa também fazem parte da rede. Mas inclui outros personagens, “autoridades” que não dependem de títulos ou da chancela de um grande grupo de comunicação para se estabelecer – basta que tenham números consideráveis de seguidores. Pode-se ver nisso uma bem-vinda democratização ou o beijo da morte do pensamento crítico. Eu mesmo oscilo entre os dois pontos de vista. Mas o crítico e editor James Panero escolhe resolutamente a segunda opção neste artigo para “The New Criterion” (em inglês, acesso gratuito), no qual…

A sabedoria de John Updike
Pelo mundo / 01/12/2010

A princípio, acho que para tentar encontrar seu caminho nas letras você procura um modelo. E eu elegi quatro ou cinco que significaram muito para mim em meus anos de formação. Mas depois que está formado, então você lê basicamente à procura de coisas tão admiráveis que gostaria de ter feito você mesmo, e não está acima de, quem sabe, roubá-las, se conseguir achar um bom lugar para escondê-las. (…) Os jovens me perguntam sobre como se tornar escritores, mas eles na verdade não leram nada, nem mesmo coisas ruins. Nunca tiveram a experiência da leitura como felicidade. Ora, sem algum conhecimento sobre o que outros escritores fizeram, é muito difícil encontrar seu próprio caminho, eu acho. Suponho que todos sejamos ladrões. Nesta entrevista até agora inédita (em inglês, acesso gratuito), concedida a Lila Azam Zanganeh em 2006, John Updike fala com a sabedoria habitual sobre seu processo criativo, as relações entre arte e política e a diferença entre jornalismo e literatura, duas áreas em que foi igualmente prolífico. Mas fala sobretudo, por insistência da entrevistadora, de sua admiração por Vladimir Nabokov, que idiossincraticamente considera um escritor devotado à felicidade e ao prazer de viver. Quando Updike fala, a gente…

Fala, Raymond Chandler!
Pelo mundo / 24/11/2010

Natal antecipado aqui no Todoprosa: em quatro partes, do arquivo da BBC para o YouTube, esta sensacional entrevista de rádio concedida por Raymond Chandler a Ian Fleming em Londres em 1958, poucos meses antes de morrer. Consta que se trata do único registro da voz do genial – além de profundamente amargurado com a crítica americana e levemente alcoolizado, como se verá – criador de Philip Marlowe, consciência crítica de Los Angeles, o mais perfeito exemplar de detetive hard-boiled da história: 1, 2, 3, 4.

Nick Hornby e todos aqueles grandes garotos
Pelo mundo / 19/11/2010

O inglês Nick Hornby é o mais recente nome da literatura a aderir a uma bela tendência internacional que bem poderia servir de inspiração para iniciativas locais: abre hoje em Londres uma oficina literária gratuita para crianças a partir de seis anos, com base no trabalho voluntário de escritores e de quem mais quiser participar e em colaboração com escolas públicas da cidade. O autor de “Febre de bola” e “Um grande garoto” segue os passos do americano Dave Eggers, que desde 2002 tem ajudado a espalhar pelos Estados Unidos “clubes de escrita” do gênero, tendo sempre como fachada e chamariz uma loja temática de apelo lúdico – de produtos para piratas, super-heróis ou viajantes espaciais. Em Londres, a decoração e os produtos à venda terão como tema o universo das histórias de horror. O Ministério das Histórias, como Hornby batizou o projeto, anuncia entre seus professores estrelas literárias do calibre de Zadie Smith e Roddy Doyle – que por sua vez encabeça uma empreitada semelhante na Irlanda – e apregoa o objetivo nada modesto de “inspirar uma nação de contadores de histórias”. Aí alguém pode perguntar, pensando no post de quarta-feira passada aqui no blog: mas já não temos…

A hipótese dos dez milhões de escritores
Pelo mundo / 17/11/2010

É uma percepção mais ou menos generalizada que nunca houve no mundo tanta gente escrevendo a sério, isto é, não necessariamente escrevendo bem, mas com suficiente investimento emocional na atividade para sonhar com alguma medida de glória literária. Quantificar o fenômeno é praticamente impossível, claro, mas não creio que essa percepção esteja errada, por mais desconcertante que seja conciliá-la com o evidente declínio de prestígio social pelo qual passa a literatura há um punhado de décadas. Na falta de métodos mais rigorosos – como a inclusão da questão no censo, por exemplo: “Quantos banheiros tem a casa? Quantos escritores?” – talvez se possa tomar como ponto de partida um cálculo meio maluco feito por Alix Christie, ela própria uma ficcionista inédita, para a revista More Intelligent Life: existiriam em todo o mundo dez milhões de pessoas escrevendo ou tentando escrever romances. O número é uma invenção, mas sustentado por uma tosca matemática. Duzentos e cinquenta mil novos romances são publicados anualmente no planeta, dos quais cem mil em inglês. Isso representa, por sua vez, talvez um quarto dos manuscritos que os agentes tentam emplacar. Os agentes, como os escritores sabem, aceitam apenas uma pequena proporção dos trabalhos que lhes são…

Vêm aí os romances customizados?
Pelo mundo / 01/11/2010

Há poucas semanas, perguntaram a Don DeLillo como as novas tecnologias digitais estão interferindo na literatura de ficção. Conhecido por sua paranoia e seu pessimismo, o autor de “Submundo” e “Ruído branco” se saiu com a seguinte previsão, que leva o festejado potencial de interatividade dos leitores eletrônicos para dar uma voltinha no inferno: Os romances serão gerados pelo usuário. A pessoa não só apertará um botão que lhe dará um romance adequado a seus gostos, necessidades e estados de espírito particulares, como também poderá projetar seu próprio romance, muito possivelmente tendo a si mesma como personagem principal. O mundo está ficando cada vez mais customizado, modificado segundo especificações individuais. Esse contexto de encolhimento mudará necessariamente a linguagem que as pessoas falam, escrevem e leem. A frase de DeLillo, que tinha me parecido apocalíptica demais e até meio tola quando a li, voltou-me à cabeça agora como contraponto a uma opinião de Alberto Manguel citada no artigo “A utilidade da ficção”, assinado por Carlos García Gual no caderno Babelia do último sábado: Alberto Manguel destaca a importância dos relatos de ficção para uma compreensão autêntica e panorâmica do mundo e de nossa existência acidental. Uma vez que vivemos em um…

Como diria Juarez Soares: Kindle é Kindle, iPad é iPad
Pelo mundo / 27/10/2010

Um interessante artigo de Lance Ulanov na PCMag.com, intitulado “Kindle x iPad: uma falsa escolha”, informa que os últimos números de venda dos dois aparelhos já permitem afirmar que o pessoal estava errado ao saudar o lançamento da Apple como “exterminador de Kindle”: ambos vão muito bem, obrigado. Ulanov, que tem os dois, considera isso apenas natural: Faço coisas muito diferentes com eles. Me pedir que escolha um é como me pedir que escolha entre meu carro e minha HDTV. O fato de tanto o carro quanto a TV serem capazes de tocar música não quer dizer que eu deva começar a tentar dirigir minha HDTV, ou me sentar diante do carro à espera do próximo episódio de ‘Mad Men’. Seria obviamente uma escolha absurda, tão falsa quanto a de optar entre o Kindle e o iPad, e quanto antes pararmos de pedir às pessoas que a façam, melhor. O argumento central do artigo é que o iPad, maravilha tecnológica sob tantos aspectos, leva uma surra da engenhoca da Amazon num quesito crucial: como leitor de livro, ou leitor-leitor de livro-livro, como talvez devêssemos dizer. É o mesmo ponto de vista que eu defendi aqui em janeiro, assim que o…

Bartleby, Bellow, Tezza e Vargas Llosa: os links de segunda
Pelo mundo / 18/10/2010

Bartleby, o escriturário de Herman Melville, sofria de síndrome de Asperger, pesquisadores acabam de anunciar. Supunho que, diante dessa informação, eu devesse escalar agora os píncaros da revelação literário-científica. Mas prefiro não. Saul Bellow, em carta de 1959 ao colega Bernard Malamud, que queria convencê-lo a entrar para o sindicado dos escritores, recusou a proposta dizendo que “o editor e o agente não são os inimigos. Os inimigos (e eu tampouco os hostilizo demais) são cento e sessenta milhões de pessoas que não leem nada”. Um volume com a maior parte das cartas escritas por Bellow será publicado mês que vem nos EUA. Sem link aproveitável (ah, Estadão…), mas vale assim mesmo: a resenha do Sabático sobre o novo romance de Cristovão Tezza, “Um erro emocional”, chama o livro de “Um erro promocional”. Ato falho? Diante da expectativa mais ou menos generalizada – e frustrada, o que é um bom sinal – de que Tezza poria na rua um livro tão confessional e dramático quanto o best-seller “O filho eterno”, é inevitável achar que sim. No Babelia, as possíveis semelhanças entre dois ganhadores do Nobel, Albert Camus e Mario Vargas Llosa, que se encontraram em Paris numa certa manhã de…

‘Viva a caligrafia!’, escreveu ele em seu teclado
Pelo mundo / 15/10/2010

Mais um sensacional capítulo da série “Como a tecnologia vai transformar nossos cérebros em esponja de lavar louça”: uma reportagem do “Wall Street Journal” (em inglês, acesso gratuito) cita pesquisas científicas que apontam o papel fundamental desempenhado pela velha escrita à mão no desenvolvimento do cérebro. “A prática ajuda no aprendizado de letras e formas, pode aprimorar a composição e a expressão de ideias e até auxiliar no ajuste fino de habilidades motoras”, diz o texto, acrescentando que escrever à mão também pode ser um bom exercício para manter o cérebro ativo na velhice. O texto não chega a entrar nessa área, mas não pude deixar de imaginar desdobramentos literários interessantes. Será que os poetas, que na maior parte dos casos tendem a usar lápis ou caneta, se saem melhor no quesito “composição e expressão de ideias” do que os prosadores, já rendidos majoritariamente ao teclado? De uma forma ou de outra, a mensagem é clara: apocalipse à vista, certo? Não é bem assim. Ocorre que a própria tecnologia pode nos salvar, oba! Como já disse David Foster Wallace em um de seus brilhantes ensaios sobre a cultura americana, a tecnologia que cria o problema é a mesma que acaba…

Argentina brilhou em Frankfurt
Pelo mundo / 11/10/2010

A participação da Argentina como país homenageado na Feira de Frankfurt deste ano, encerrada ontem, foi chamada de “a mais literária que tivemos em anos” pelo diretor do evento, Juergen Boos, que se declarou convencido de estar ocorrendo neste momento “uma redescoberta da literatura da América Latina”. O caminho que conduziu até lá não foi, no âmbito doméstico, livre de percalços, como demonstra a crítica à exploração da imagem de ícones como Carlos Gardel e Diego Maradona contida num abaixo-assinado divulgado mês passado por escritores argentinos. No entanto, uma conferida na luxuosa cobertura online feita pela equipe da revista “Ñ”, do jornal “Clarín”, confirma a impressão de uma oportunidade bem aproveitada. Isso se vê nas boas ideias levadas ao pavilhão – como o labirinto (borgiano, evidentemente) que contava a história da literatura argentina e o memorial em homenagem aos escritores desaparecidos na ditadura – mas também em ações preparatórias como um programa estatal de apoio a traduções, lançado ano passado e batizado Sur, que promoveu a edição de 130 escritores argentinos em 54 países. A presidente do comitê organizador argentino, Magdalena Faillace, classificou a sensação de ver em Frankfurt tantos conterrâneos traduzidos em tantas línguas como “erótica”. O Brasil tem…

A vida íntima dos Tolstoi foi escrita por Dostoievski
Pelo mundo / 08/10/2010

Achei surpreendentemente fascinante este ensaio da revista “Boston Review” (em inglês, acesso gratuito), em que Vivian Gornick, a partir dos diários deixados por Sofia Tolstoi (que acabam de ganhar nova edição em inglês) e por seu marido Leon (cuja morte completa cem anos mês que vem), imagina-os como personagens de Dostoievski. A surpresa vem do fato de minha reação habitual ser de desinteresse – ou de interesse moderado, o que dá no mesmo – diante de informações biográficas de escritores e artistas em geral. Só a obra importa, certo? Por que, então, fui sentir tal encanto horrorizado diante da história de um casal inseparável até a morte numa rotina pontuada por ímpetos de assassinato e suicídio, atolado na infelicidade e na humilhação que provocava em ambos, nas palavras de Gornick, “a discrepância entre o que se esperava do amor conjugal e o que ele de fato mostrara ser”? Talvez o trunfo da ensaísta seja a sacada que entrego já no título deste post, e que nega ou pelo menos complica todos os modelos certinhos demais de arte e vida que tantos autores e leitores de biografias cultivam: se Dostoievski escrevia a vida conjugal de Tolstoi, a vida de quem Tolstoi…

Nobel para Vargas Llosa: ganham os dois, ele e o prêmio
Pelo mundo / 07/10/2010

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, anunciado agora há pouco pela Academia Sueca como vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2010, é um dos nomes mais incontestáveis a receber a honraria em muitos anos. Um dos mais destacados representantes da geração do chamado “boom latino-americano” dos anos 1960-70, Vargas Llosa, 74 anos, nascido em Arequipa, mora hoje em Nova York e leciona na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. É autor de diversos romances que combinam sucesso de público com o respeito da crítica, como “A cidade e os cachorros”, “Conversa na catedral”, “A guerra do fim do mundo” (sobre Canudos), “Tia Julia e o escrevinhador”, “Pantaleão e as visitadoras” e “Travessuras da menina má”. Seu próximo romance, “O sonho do celta”, será lançado em breve. A obra de Vargas Llosa vem sendo relançada no Brasil pela Alfaguara e uma coletânea de artigos e ensaios, “Sabres e utopias”, acaba de sair por aqui aqui pela editora Objetiva, do mesmo grupo. Nos ensaios literários deste livro, Vargas Llosa enfoca nomes como Jorge Luis Borges, Cabrera Infante e Jorge Amado, classificado por ele como o único escritor a merecer ir para o céu. Sua militância latino-americanista fica evidente, mas a literatura…

Rowling pode voltar a escrever Harry Potter – e outros links
Pelo mundo / 04/10/2010

Saladinha de segunda, para poupar aos leitores do Todoprosa a tarefa de revirar a ganga bruta da web literária atrás de pequenas pepitas de informação: J.K. Rowling admitiu à apresentadora americana de TV Oprah Winfrey – em entrevista que foi ao ar sexta-feira – que pode voltar a escrever um livro da série Harry Potter, que já vendeu 400 milhões de cópias. “Não estou dizendo que não o farei”, disse. Quando o nível da conta bancária começar a baixar, por que não? Falando em dinheiro, um estranho exercício de jornalismo econômico-literário: no “Babelia”, uma reportagem ouve editores espanhois e conclui que, nestes tempos de crise econômica (não aqui, certo?), caem as vendas de clássicos enquanto sobem as de romances policiais. Um azarão atropelou por fora e já aparece em segundo lugar na lista de favoritos ao Nobel de Literatura da casa de apostas inglesa Ladbrokes: o romancista Ngugi wa Thiong’o começou pagando 75 por 1 e está em 5 por 1. Continua atrás do sueco Tomas Tranströmer (4/1), mas por muito pouco. A importância do fator “quem?”, assim, multiplica-se. Thiong’o tem títulos traduzidos para o português pelas Edições 70, de Portugal, mas não no Brasil. Com desempenho menos fulgurante, o…

‘Alô, é o Sr. Roth? Aqui é da Academia Sueca…’
Pelo mundo / 01/10/2010

A mais cruel das pegadinhas literárias: telefone para Philip Roth às seis da manhã da próxima quinta-feira e fale com sotaque sueco. Interessado no Nobel, o prêmio dos prêmios literários, que será anunciado na próxima quinta-feira? Bom, eu confesso que, a cada ano, fico menos. Isso não me impede de reconhecer que pode ser divertido acompanhar o aquecimento que rola online, como este ou aquele outro, da revista eletrônica Words Without Borders, de onde saiu a piada acima. O aquecimento é divertido desde que se leve em conta que costuma ser vão. Em primeiro lugar entre os favoritos das casas de apostas está o poeta sueco Tomas Tranströmer (cujo fator “quem?” pode ser, justamente, um trunfo decisivo). O problema é que as casas de apostas nunca acertam. Em outras paragens, têm sido ventilados Ismail Kadaré, Milan Kundera, Javier Marías e Amós Oz. Os nomes de Roth e Thomas Pynchon também são citados, mas sempre com uma dose saudável de ceticismo, que cresceu desde que a Academia Sueca declarou guerra à “insular” literatura americana, há dois anos. Mas nunca se sabe, não é?

Literatura do futuro? Não, game do futuro
Pelo mundo / 27/09/2010

Sinal dos tempos: um post (em inglês, acesso gratuito) que pretende lançar luz sobre o futuro da literatura saiu no blog de games do “Guardian”, sob o título: “Será a ficção interativa o futuro dos livros?” A questão não é nova, embora esteja cada vez mais presente nas conversas de gente letrada – e acredito que ocupe boa parte do tempo em que estarei, ao lado de Adriana Lisboa, conversando com o público do Café Literário da Bienal do Livro do Paraná neste sábado sobre “Literatura digital, e-books e o leitor do futuro: há uma revolução em curso?”. Para encurtar, eu diria que o post saiu no blog certo. Talvez a ficção interativa seja o futuro dos games; dos livros, duvido muito. Isso não quer dizer que eu fique insensível à excitação do momento presente, em que as novas fronteiras abertas pelos leitores eletrônicos permitem imaginar maneiras até então impensáveis de contar histórias, com a incorporação de recursos de som e imagem e a exploração lúdica do hipertexto em benefício de narrativas que se expandam para o lado que o leitor quiser. Desenvolvimentos interessantes e, provavelmente, inevitáveis. Só que isso não é literatura. O que é literatura, então? Claro que…

Entrevistas da ‘Paris Review’ numa tela perto de você
Pelo mundo / 24/09/2010

Dica preciosa do blog Dicta&Contradicta: todas – 205 por enquanto – as entrevistas com escritores feitas pela “Paris Review”, sob a rubrica The art of fiction, acabam de ficar disponíveis no recém-reformado site da revista para internautas de qualquer parte do mundo que tenham a chave (isto é, que leiam inglês), num roteiro de navegação organizado por autor ou por década, da de 1950 até hoje. São entrevistas longas que, de modo geral, dispensam curiosidades triviais para buscar uma profundidade pouco vista na imprensa sobre o processo criativo de cada autor. Quem está lá? Bom, o predomínio anglófono é previsível, mas “todo mundo” não seria uma resposta totalmente descabida. Um exemplo do sabor da coisa, tirado da entrevista com o escritor espanhol Javier Marías: Pergunta: “Quando comecei a ler seus romances, as digressões do narrador me deixaram ansioso por chegar à conclusão.” Resposta: “Sim, acho que eu forço isso. No segundo volume de ‘Seu rosto amanhã’, há uma cena em que um homem desembainha uma espada. A cena se passa numa discoteca, e o homem está prestes a cortar a garganta de alguém. O narrador é uma testemunha disso, conta a história e está assustado, é claro, e horrorizado –…

O suplemento literário do ‘Wall Street Journal’ e outras bizarrices
Pelo mundo / 10/09/2010

A notícia de que o tradicional jornal econômico americano “The Wall Street Journal” vai lançar dentro de poucas semanas um suplemento literário, publicada ontem no “New York Times” (acesso livre aqui, mediante cadastro), pode ser lida como a exceção meio bizarra que confirma uma regra ou, quem sabe, como um indício de que o apocalipse do jornalismo tradicional de literatura foi apregoado com alguma precipitação. Se considerarmos que um movimento semelhante foi feito em março deste ano no âmbito doméstico pelo “Estado de S. Paulo” ao lançar o caderno Sabático, a segunda opção parece ganhar força. Mas convém não esquecer que, pelo menos desde o início de 2007, o alarme vem sendo disparado por escritores e editores no mercado dos EUA, sempre com excelentes razões: um jornal após o outro passou a extinguir seus cadernos de resenhas, a ponto de hoje, segundo o NYT, só restarem ele próprio e o “San Francisco Chronicle” como jornalões que ainda resistem a fundir a crítica literária à geleia geral da cobertura de assuntos culturais. Por aqui, uma perda recentíssima é a do tradicional Ideias do “Jornal do Brasil”, com a diferença de que não houve nesse caso uma decisão editorial: o caderno afundou…

Houellebecq: o Ctrl+C/Ctrl+V como ‘método’
Pelo mundo / 08/09/2010

“Isso é parte do meu método”, disse o escritor francês Michel Houellebecq a uma rádio de Paris (trechos da entrevista são reproduzidos hoje pelo jornal inglês “The Independent”), em resposta à acusação de plágio que lhe foi feita semana passada pela revista eletrônica Slate.fr, que flagrou em seu recém-lançado romance La carte et le territoire longos trechos copiados da Wikipedia. “Se esses caras pensam isso, não têm a menor ideia do que é literatura”, contra-atacou Houellebecq. “Essa abordagem, a da mistura de documentos reais com ficção, foi usada por muitos autores. Fui influenciado especialmente por Perec e Borges. Acredito que usar esse tipo de material contribua para a beleza dos meus livros.” Para a promoção deles certamente contribui. Único nome da ficção francesa contemporânea a gozar de uma aura de estrela midiática, Houellebecq conseguiu mais uma vez provocar uma boa polêmica. A diferença é que agora, em vez das acusações de misogia ou islamofobia que pairavam sobre seus livros anteriores, surge a atualíssima questão dos limites entre o plágio e o sampling literário. A jovem escritora alemã Helene Hegemann meteu-se em confusão parecida no início deste ano, comentada aqui no Todoprosa. Mas com Houellebecq, autor consagrado, o assunto ganha mais…

Tchekhov e o conto moderno: e se a pistola não disparar?
Pelo mundo / 25/08/2010

Os 150 anos do nascimento do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), considerado o pai do conto moderno, motivaram uma bela edição do Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”. Um dos destaques é o artigo de abertura, “Pistolas e mares”, em que Luis Magrinyà reflete sobre o paradoxo que envolve aquela famosa tirada do autor – em referência ao teatro – sobre a pistola que se mostra no início da trama ter que ser disparada antes de cair o pano. Esse argumento poderoso contra a gratuidade, o mero adorno, foi em geral acatado como lei pela arte narrativa do século 20. O problema é que a frase da pistola, observa Magrinyà, acabou por obscurecer o fato de que os contos tchekhovianos tiram sua maior força de elementos aparentemente desamarrados, sugestões inconclusivas que produzem um efeito duradouro na cabeça do leitor. A pistola não dispara, mas escapa de ser gratuita porque, calada, ressoa ainda mais. A conclusão do autor do artigo é, numa paráfrase livre, a de que Tchekhov inventava assim o realismo que sucederia a onisciência do século 19, um espelho lacunar do que a vida tem de essencialmente amorfo e indomável, “como o mar”. Outro atrativo da edição,…

O mais novo Brinquedo Literário-Digital
Pelo mundo / 11/08/2010

Um programa desenvolvido pela The Open University britânica é o espécime mais recente – e um dos mais elaborados, além de visualmente atraente – de um novo animal na floresta das conversas sobre literatura. Trata-se de uma espécie ainda sem nome, até onde sei, mas a falta não parece ser um problema, uma vez que quase todo dia nasce uma criatura nova. Enquanto não vem o batismo, poderíamos chamar o bicho de Brinquedo Literário-Digital. 20th century writers: making the connections (“Escritores do século 20: fazendo as conexôes”) é um complexo infográfico que apresenta uma lista de autores britânicos sentados em círculo, como ao redor de uma távola redonda, e rabisca na tela a partir de cada um, a um clique do mouse, um emaranhado multicolorido de linhas que apontam temas comuns, relações de amizade ou inimizade, formação, gêneros que praticaram etc. O exemplo acima, meramente ilustrativo (clicar nele vai apenas ampliá-lo, mas a brincadeira pode ser acessada aqui), liga Graham Greene ao resto da turma. Assim ficamos sabendo que ele brigou com Virginia Woolf, era amigo de Ian Fleming, compartilhou com G.K. Chesterton tanto o gênero policial quanto a formação de jornalista, dividiu com Anthony Burgess o tema do pós-colonialismo…

Rushdie está escrevendo memórias da ‘fatwa’
Pelo mundo / 23/07/2010

Em sua segunda participação na Flip, mês que vem, o escritor indiano-britânico Salman Rushdie terá na agenda oficial o lançamento (pela Companhia das Letras) do romance “Luka e o fogo da vida”, uma continuação de “Haroun e o mar de histórias” (que está sendo relançado pela Companhia de Bolso). Não duvido, porém, que um livro ainda inexistente do autor acabe por roubar a cena em Parati. Em fevereiro deste ano, Rushdie tinha anunciado a intenção (aqui, em inglês) de escrever um livro de memórias centrado na experiência radical de viver entocado e cercado de guarda-costas depois que, há 21 anos, a fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini declarou seu livro “Os versos satânicos” ofensivo ao Islã e o transformou em cabra marcado para morrer. A novidade, revelada pelo próprio Rushdie na semana passada, num evento promovido pela revista “Granta”, é que o livro já está sendo escrito, com a intenção primeira de “acabar com os mitos” que cercam seu período na clandestinidade. Entre eles, segundo uma amiga, o de que o colega Ian McEwan o teria acolhido em casa por uma longa temporada no auge do perigo, quando a verdade é que os dois se limitaram a jantar juntos uma vez….

Tweetuivo
Pelo mundo / 19/07/2010

Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela concisão, pela conectividade excessiva, emocionalmente famintas de atenção, arrastando-se por comunidades virtuais às três da manhã em meio a pizza velha e sonhos negligenciados, à procura de um raivoso sentido, qualquer sentido, antenados que usam o mesmo boné ansiando pela aprovação conjunta e cética do dínamo holográfico projetado na tecnologia da era, que feridos e atordoados por conexões ruins e recessão ficaram acordados até tarde microconversando na escuridão sobrenatural de cafés com wi-fi liberado… E por aí vai. O texto inteiro (em inglês) está aqui. Essa paródia do poema “Uivo”, obra-prima de Allen Ginsberg, é assinada por Oyl Miller e leva o título de “Tweet”. Saiu na revista eletrônica McSweeney. Achei o texto brilhante, ao mesmo tempo engraçado e lúgubre. Qualquer um que já tenha visto as horas – e horas e horas – escorrerem entre os dedos no Twitter entenderá o que Miller quer dizer.

Eu escrevo como Lovecraft?
Pelo mundo / 14/07/2010

I write likeH. P. Lovecraft I Write Like by Mémoires, Mac journal software. Analyze your writing! Não, eu não creio que escreva como Lovecraft. Mas é o que garante o certificado acima, oficial e conquistado em jogo limpo com a ferramenta I Write Like (Eu Escrevo Como), a mais nova brincadeira a levantar marolas no pântano da web literária. “Confira ao de que escritor famoso seu modo de escrever se assemelha com essa ferramenta de análise estatística, que leva em conta sua escolha vocabular e seu estilo e os compara aos dos autores famosos”, diz a página inicial. Abaixo desses dizeres cola-se um bloco de texto, aperta-se um botão e… Bobagem? Claro que é. Mas uma bobagem divertida e intrigante. Com certeza vai me obrigar a reler o velho Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) para conferir se existe mesmo algum sentido na “análise estatística” que encontrou semelhanças entre meu estilo e o do mestre americano do fantástico e do horror. Quem quiser brincar deve levar em conta que a ferramenta, infelizmente, só aceita textos em inglês – usei um trecho da tradução de meu conto “O homem que matou o escritor” (The man who killed the writer), publicado na revista eletrônica…

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