Bob Dylan é o mesmo. O Nobel, não
Posts / 14/10/2016

Que o prêmio Nobel de literatura para Bob Dylan tenha deflagrado uma polêmica quente nas redes sociais não espanta ninguém. Polêmica em redes sociais, de preferência bem polarizada e estridente, é o novo padrão-ouro do sucesso no mundo digital. É provável que estivesse nos planos da Academia Sueca o quebra-pau entre a facção do “lindo reconhecimento a um gênio” e as hostes da “lamentável rendição ao pop”. Não deixa de ser uma atualização do cansado e pouco midiático refrão “quem já ouviu falar desse poeta uzbeque?” que vinha dominando o Nobel ano sim, ano não. Como ocorre com a maioria das polêmicas polarizadas e estridentes, os dois lados têm argumentos respeitáveis. Sim, Robert Allen Zimmerman, que adotou seu nome artístico em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas, é um dos grandes nomes da canção do século XX e um letrista prolífico e nada menos que genial. Talvez seja um dos maiores seres humanos vivos em qualquer campo da arte. Além disso, como lembrou com erudição curiosamente defensiva a secretária da Academia, Sara Danius, os poetas Homero e Safo “escreveram textos que deviam ser ouvidos, executados, muitas vezes com instrumentos…”. O que é verdade, mas soa forçado. Desde então houve alguma…

ATÉ BREVE
Posts / 27/09/2014

Estou de férias. O Todoprosa voltará a ser atualizado no dia 11 de outubro. Um abraço e até lá!

ATÉ BREVE!
Posts / 01/03/2014

O colunista está de férias. O Todoprosa volta a ser atualizado no dia 22 de março. Até lá.

O paradoxo do moleque no país do futebol
Futebol & literatura , Posts / 12/06/2013

Molecagem baiana. Capoeiragem pernambucana. Malandragem carioca. “Com esses resíduos”, escreveu o sociólogo Gilberto Freyre, autor de “Casa grande & senzala”, obra clássica sobre a formação da sociedade brasileira, “é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é.” Atenção: o autor pernambucano não estava embriagado pelos vapores de uma grande vitória esportiva quando escreveu isso. O texto é de 1947. Além de ostentar como maior feito internacional um terceiro lugar na Copa do Mundo da França, em 1938, a seleção – algo que hoje parece mais grave – ainda envergava como uniforme uma camisa branca. Ou seja, o “país do futebol” ainda não o era. Hoje, depois de cinco títulos mundiais e da introdução da camisa amarela como um dos mais poderosos ícones da mitologia esportiva em todos os tempos, o problema é outro. Comenta-se pelas esquinas que o “país do futebol” já era. Será? A possibilidade não deve ser descartada. Dentro e fora do esporte, os destroços de potências decaídas entulham a história. Mas é curioso observar como a velha retórica otimista do sociólogo, com suas “surpresas irracionais” e “variações dionisíacas” (uma referência a…

ATÉ BREVE
Posts / 02/01/2013

Deixando a todos meus votos de um 2013 feliz e cheio de bons livros, dou uma pequena folga aos leitores. O Todoprosa voltará a ser atualizado no dia 16 de janeiro. Até lá!

ATÉ BREVE
Posts / 24/09/2012

Sérgio Rodrigues está de férias. A coluna volta a ser atualizada no dia 8 de outubro.

Para ‘país de leitores’ e ‘potência olímpica’, falta trabalho
Posts / 15/08/2012

Quem vê televisão aberta já deve ter esbarrado com o filmete em que Elisa Lucinda, poeta e declamadora, fala da importância dos livros em sua infância e adolescência. Em torno do bordão “Leia mais, seja mais”, está no ar (mais) uma campanha de incentivo à leitura promovida pelo Ministério da Cultura, com investimentos, este ano, de R$ 373 milhões – leia mais aqui. Sempre fico meio triste diante de iniciativas do gênero. Não que elas não sejam importantes e necessárias: até hoje me lembro da campanha “Ler é sonhar, ler é viver”, dos anos 1970, que tinha um jingle maneiro. Não sei se ela formou algum leitor, mas levava sobre a atual a vantagem de não apelar para um contraproducente imperativo – “Leia! Seja!” “Eu não!” – e me ajudou a me sentir menos extraterrestre, eu que era um solitário leitor compulsivo rodeado de não-leitores sarcásticos. Se as iniciativas são simpáticas, concentrar em campanhas culturais o esforço da “formação de leitores” é semear em solo árido. Sem um profundo – lento, custoso e politicamente pouco rentável – avanço educacional, os resultados serão sempre magros. E esse avanço não está no horizonte. Aqui e ali, isoladamente, uma semente mais bem dotada…

Pop de sexta: a segunda chance de João Grilo
Posts / 08/06/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=av8k5e07Qtw O Pop Literário de Sexta homenageia Ariano Suassuna, que o Senado apontou na semana passada como candidato brasileiro ao Prêmio Nobel de 2012, e traz a cena do julgamento post-mortem de João Grilo (Matheus Nachtergaele) na excelente adaptação da peça “O Auto da Compadecida” dirigida em 1999 para a TV por Guel Arraes. Bom fim de semana a todos.

Ah, a língua…
Posts / 10/03/2008

Autores como Guimarães Rosa, quando morrem fisicamente, morrem também literariamente. O Rosa não vai durar muito tempo, ele hoje só é lido nas universidades. Porque ele saiu dos trilhos, exagerou. Aconteceu isso também com o Mário de Andrade que, quando escreveu “Macunaíma”, queria ser o Dante da língua portuguesa. Quem me chamou a atenção para isso pela primeira vez foi o Graciliano Ramos. É possível saber tudo de língua e nada de literatura? A entrevista do “imortal” Evanildo Bechara ao “Jornal do Brasil” (acesso livre) revela um gramático de 80 anos que, em suas idéias sobre o idioma, conserva-se surpreendentemente jovem e arejado – bem mais que a maioria dos jornalistas de 30 que eu conheço. Motivo de festa maior que este, só o fato de Bechara não ser crítico literário.

Bienal e… até breve
Posts / 17/09/2007

Como os leitores habituais terão reparado, o Todoprosa vem ameaçando há duas semanas virar um devezenquandário. Pois é: a idéia não é e nunca foi essa, mas a correria da vida pós-NoMínimo tem exigido adaptações. Para recuperar o fôlego, estou tirando duas semanas de férias. Deixo aqui, para quem se interessar, a agenda de minhas participações na Bienal do Rio: Sexta-feira, dia 21, às 18h, serei o mediador da mesa em que o tradutor Eric Nepomuceno e o cineasta Ruy Guerra lembrarão histórias de Gabriel García Márquez, como parte da homenagem ao escritor colombiano organizada pela editora Record, no auditório Machado de Assis, no Riocentro. Sábado, 22, às 16h, Maria Lúcia Dahl, João Paulo Cuenca e eu vamos encarar o tema “Existe uma literatura carioca?”, proposto pelos organizadores, no Fórum de Debates, também no Riocentro. E na segunda-feira, 24, às 20h, um evento paralelo: encerrando a Quinzena da Literatura Latino-Americana, dividirei com o escritor peruano Santiago Roncagliolo (de quem a Alfaguara acabou de lançar o romance “Abril vermelho”) uma mesa intitulada “Novos escritores, novas mídias”, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

Potter, não-Potter, Potter, não-Potter…
Posts / 16/07/2007

Sim, eu sei: o assunto costuma render debates lamentáveis. Lixo para alguns, maravilha para outros, Harry Potter pode ser uma prova cabal do emburrecimento do mundo ou a melhor coisa que acontece para a popularização da leitura desde que Gutenberg inventou sua máquina sujona. Para quem tende a achar que a verdade imprime melhor em meios-tons, essa polêmica já soa vazia há alguns anos. Mais um motivo para ler o artigo (acesso livre, em inglês) que o crítico literário Ron Charles publicou ontem no “Washington Post”. Aproveitando a deixa dada por sua filha de dez anos – que, entediada, lhe pediu que parasse de ler os livros da série para ela –, Charles tenta entender por que os números da indústria editorial e de institutos de pesquisa indicam que não, Harry Potter não está estimulando a leitura de ficção de um modo geral, mas apenas a leitura de… Harry Potter: Talvez mergulhar o mundo numa orgia histérica de marketing não encoraje o tipo de contemplação, independência e solidão que o verdadeiro envolvimento com livros exige – e recompensa. Deve-se considerar que, com o lançamento de cada novo volume, os leitores de Rowling vêm sendo levados não apenas a surtos mais…

O melhor da Flip – de graça
Posts / 02/07/2007

Para quem, como eu, já está de malas prontas (não esquecer os tênis mágicos, de solado resistente ao calçamento mais absurdo do planeta) para ir a Parati, eis um aperitivo. Para quem não vai, uma ótima oportunidade de estragar um pouco o prazer alheio, usufruindo de graça daquilo que outros estão comprando caro. Do ponto de vista estritamente literário, é inútil negar que a maior atração da Flip é o escritor sul-africano/australiano JM Coetzee, um sujeito com fama de recluso e esquisitão que já avisou: não admitirá perguntas do público, limitando-se a ler em primeiríssima mão trechos de seu próximo livro, Diary of a bad year (“Diário de um ano ruim”), que seria lançado em outubro mas, parece, está ficando para janeiro do ano que vem. Fora a aura da presença grisalha do prêmio Nobel de 2003, portanto, o que Coetzee apresentará não é nada muito diferente do que pode ser usufruído aqui, neste trecho suculento antecipado pelo último número do “New York Review of Books” (em inglês, acesso livre). O excerto revelado de Diary of a bad year alterna blocos de texto ensaístico produzido por um famoso escritor australiano de 72 anos – coisa cabeçuda, investigando o eterno e insolúvel…

(Re)começou
Posts / 30/06/2007

“Era uma sexta-feira chuvosa e triste quando…”, escreveu, e se deteve. Desde quando um clichê como aquele era um começo digno para o segundo volume? PS: Ops, começamos com problemas técnicos. Quem entrou ontem à meia-noite neste blog encontrou a casa muito mais arrumada. Um tufão de origem ainda desconhecida passou de madrugada, deixou tudo de pernas para o ar. Peço desculpas – e um pouco de paciência.

Dicionário de papo furado
Posts / 30/06/2007

O Cânone – Documento misterioso (que ninguém jamais viu) idealizado (ninguém sabe quando) secretamente por uma conspiração (ninguém sabe onde) de pouquíssimos machos europeus mortos, a fim de ditar aquilo que todo mundo precisa ler. O divertido Dictionary of Fashionable Nonsense, glossário satírico do “pensamento” (perdão pelo substantivo impreciso) politicamente correto escrito pelo pessoal do ótimo site inglês Butterflies and Wheels, merece uma visita – a dica é do blog de livros do “Guardian”. Pode-se ler online uma amostra da versão de papel, com mais de quinhentos verbetes, que está à venda na Amazon.com. Duvido que a obra esgote o tema – que talvez seja inesgotável – mas, a julgar pelo trailer, deve garantir um bom sobrevôo no território da neoburrice. Outros exemplos: Educação – Introdução violenta e brutal de material arbitrário nas cabeças limpinhas e inocentes das crianças, que deviam ser deixadas vazias. Elitista – Alguém que sabe mais do que eu.

Dois finais faltantes + um encontro marcado
Posts / 27/06/2007

Primeiro os finais, depois o encontro. A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a sra. Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a Avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos. (Marcel Proust, “No caminho de Swann”) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia. (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”) Convido os leitores do Todoprosa a seguir o blog em sua travessia para um novo endereço, www.todoprosa.com.br, que estará funcionando a partir de sábado. Atualizem seus favoritos e espalhem a notícia, por favor. Espero todo mundo lá. Sim, a área de comentários vai sobreviver à viagem. Nada muda, embora tudo mude. (Mas que ninguém se surpreenda se o NoMínimo renascer com algum novo formato – os caminhos, afinal, são fugitivos – dentro de um ou dois…

Finais inesquecíveis
Posts / 25/06/2007

O NoMínimo vira história – em todos os sentidos – dentro de poucos dias, mas a frase de Tom Stoppard não está aí em cima por acaso. O Todoprosa ficará no ar. Aguardem notícias de seu novo paradeiro. Não gosto de choradeira (não em público, pelo menos), mas não custa tentar corrigir algumas distorções na reta final. No fim de semana, pensando nesta etapa que se encerra, me ocorreu o desequilíbrio gritante em que o blog incorreu. Sabemos que o mundo é feito de tal forma que o número de começos, no fim das contas, é sempre exatamente igual ao número de fins. Por definição. Se não é igual, é porque o “fim das contas” ainda não chegou. Traduzindo: depois de tantos Começos Inesquecíveis, me ocorreu o tamanho da dívida de Finais Inesquecíveis que acumulei. Tento saldar parte dela agora, enquanto é tempo. Com algum atropelo e, naturalmente, sem pretender fazer uma lista de “melhores” – como nunca foi a intenção dos Começos Inesquecíveis, aliás –, aí vai uma pequena antologia descaradamente impressionista. No mínimo, ficamos no clima da semana. Alguns finais são melancólicos: E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado. (F. Scott Fitzgerald, “O…

Começos inesquecíveis: Herman Melville
Posts / 23/06/2007

Sou um homem de certa idade. A natureza das minhas ocupações, nestes últimos trinta anos, me levou a entrar permanentemente em contato com uma espécie de homens interessantes e um tanto singulares, da qual, que eu saiba, nada até agora se tem escrito: refiro-me aos copistas, escriturários ou escreventes a serviço de homens de leis. Conheci muitos, quer profissional quer particularmente, e poderia, se quisesse, contar sobre eles inúmeras histórias que fariam sorrir afáveis cavalheiros e levariam às lágrimas as almas sentimentais. Mas renuncio às biografias de todos os demais escriturários para relatar algumas passagens da vida de Bartleby, o mais estranho de todos que jamais vi e de quantos tive notícia. Aproveitando o mote da nota “O nosso Bartleby”, aí embaixo, que sirva o início de “Bartleby, o escriturário” (Rocco, 1986, tradução de Luís de Lima) como convite para quem ainda não conhece essa brilhante novelinha – ou conto alentado – que o escritor americano Herman Melville (1819-1891) publicou anonimamente numa revista em 1853, dois anos depois de sua obra-prima “Moby Dick”, e em livro, já com seu nome, três anos mais tarde.

Caro Coetzee
Posts / 22/06/2007

É boa a temporada. Praticamente numa fornada única, a Companhia das Letras pôs nas livrarias novos títulos de três dos maiores autores de língua inglesa da atualidade. Logo depois de “Casa de encontros”, de Martin Amis, e colado em “Na praia”, de Ian McEwan, chega o romance “Homem lento”, de J.M. Coetzee, principal atração da iminente Flip (tradução de José Rubens Siqueira, 280 páginas, R$ 46). Além de uma manifestação de louvor (para a tradução) e outra de absoluto a$$ombro, nada tenho a acrescentar ao que já comentei sobre esse curioso livro aqui.

Quem tem medo de JT Leroy?
Posts / 21/06/2007

O “caso JT Leroy” foi tão embaraçoso para o establishment literário em geral que acabou sendo muito menos discutido do que merece. Levantou-se uma orelha do tapete, varreu-se o assunto, uma pena. Vale aproveitar o fato de a confusão ter finalmente chegado aos tribunais na forma de uma acusação de fraude – leia a reportagem do “New York Times”, mediante cadastro gratuito – para recordar a história. Para quem não se lembra, o escritor-personalidade JT Leroy, apresentado como um jovem travesti drogado, prostituído e soropositivo, salvo por um triz da ruína por sua genialidade literária, entrou em cena em 2000 nos Estados Unidos para virar uma celebridade instantânea. A questão constrangedora é: quanto da imediata e festiva adoção de JT pela imprensa literária se devia à sua biografia e quanto à literatura em si? Porque a biografia provou-se mais falsa do que uma prestação de contas do presidente do Senado. E se o texto era mesmo tão espetacular quanto andaram dizendo, que importância tinha um nom de plume? Por que, do dia para a noite, todo mundo que o cobrira de elogios saiu assobiando para cima? JT Leroy, soube-se há dois anos, era na verdade uma dona de casa quarentona…

O nosso Bartleby
Posts / 20/06/2007

…a minha impressão sugere que Raduan é um caso atípico de Bartleby. Seu silêncio literário aparentemente não se origina das tensões internas da modernidade literária, não veio de um drama autoral frente ao um desafio extremo, Raduan apenas se encaminhou para fora. A estranheza vem do nosso olhar, acostumados que estamos a descrições de “literatura como destino”, “relação orgânica texto-autor” e a escritores que lançam livros a cada dois ou três anos sem ter nada a mostrar. O ‘caso Raduan’ é um problema para nós, não para o próprio. Em seu blog, Marco Polli comenta com perspicácia o “caso Raduan Nasssar” à luz de “Bartleby e companhia”, do espanhol Enrique Vila-Matas – um estudo literário sobre escritores que, a exemplo do escriturário de Herman Melville, em algum momento se recusam a contribuir para o excesso de letrinhas no mundo e avisam: “Prefiro não fazer”. A nota me fez pensar numa razão para que o “silêncio dos escritores”, que não foi inventado ontem e pode obedecer a um milhão de razões particulares, nos pareça, neste início de século, um tema cultural cada vez mais relevante e desafiador. Deve ser porque vivemos – e não apenas na literatura – dentro de uma…

‘Os versos satânicos’ – tudo de novo?
Posts / 18/06/2007

O título de cavaleiro que o governo britânico concedeu a Salman Rushdie no último sábado está provocando reações de profunda insatisfação em diversos países islâmicos. Nenhuma que chegue perto, no tom de ameaça aberta, destas palavras de Mohammed Ijaz ul-Haq, ministro de Assuntos Religiosos do governo do Paquistão, em discurso no parlamento: É hora de 1,5 bilhão de muçulmanos considerarem a gravidade dessa decisão. O Ocidente tem acusado os muçulmanos de extremismo e terrorismo. Se alguém explodir uma bomba atada ao corpo, estará certo em fazê-lo, a não ser que o governo britânico peça desculpas e retire (de Rushdie) o título de Sir. A reportagem do “Guardian”, em inglês, pode ser lida aqui. O escritor passou a década de 90 entocado, ameaçado de morte pela fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini, do Irã, depois que seu livro “Os versos satânicos” foi considerado ofensivo ao Islã pelas autoridades religiosas do país. Vai começar tudo outra vez?

Leia o clipe, veja o livro
Posts / 14/06/2007

Outro dia falamos do assunto aqui, a propósito do divertido “trailer cinematográfico” do livro “A guerra dos bastardos”, de Ana Paula Maia (Língua Geral), uma das poucas iniciativas do gênero no Brasil. No site BookVideos.tv, ligado à editora Simon & Schuster, o barato é um pouco diferente, mais interessado em glamourizar autores e seduzir o leitor com uma espiada nos “bastidores da criação”. Qualquer que seja o conteúdo, porém, a forma parece ir além do mero modismo. Para começar, a produção é barata. E a veiculação é mais ainda, pois a internet fornece um ambiente em que as peças mais bem recebidas se espalham, por assim dizer, sozinhas. Não duvido que editoras e autores se vejam, em breve, obrigados a pegar a onda do videoclipe como peça promocional de livros.

Os começos inesquecíveis de Amós Oz
Posts / 13/06/2007

Onde é que uma história começa, propriamente? Qualquer começo de história é sempre um tipo de contrato entre o escritor e o leitor. Há, é claro, todo tipo de contrato, incluindo aqueles que são insinceros. (…) Há começos que funcionam mais como um papel pega-mosca: primeiro você é seduzido por uma fofoca maliciosa, ou por uma confissão reveladora, ou por uma aventura de gelar o sangue, mas finalmente descobre que não fisgou um peixe, mas sim um peixe empalhado. Em Moby Dick, por exemplo, há muitas aventuras, mas também muitos artigos de delicatéssen não mencionados no menu, nem mesmo insinuados no contrato inicial (“Pode me chamar de Ishmael”), mas conferidos a você como um bônus especial – como se comprasse um sorvete e ganhasse uma passagem para viajar pelo mundo. Há contratos filosóficos, como o famoso trecho inicial de Anna Karenina, de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem umas às outras; cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira.” Na verdade, o próprio Tolstói, em Anna Karenina e em outras obras, contradiz essa dicotomia. Às vezes somos confrontados com um contrato inicial ríspido, quase intimidante, que alerta o leitor logo de início: as passagens são bem caras aqui….

A propriedade social do livro
Posts / 11/06/2007

O movimento BookCrossing lançou há seis anos nos Estados Unidos a idéia de abandonar livros em lugares públicos para que outros os leiam e depois, por sua vez, também os “esqueçam” por aí. Agora o metrô de Londres criou um programa semelhante, o London Book Project, com a diferença básica de que os livros são fornecidos pela empresa e não por leitores voluntários. Exemplares de segunda mão foram espalhados nos assentos dos trens para que os passageiros comecem a lê-los na viagem. Se for fisgado pelo autor, qualquer um pode levar os volumes para casa à vontade, mas sempre tendo o cuidado de, ao fim da leitura, deixá-los de volta no metrô. Dos dois lados do Atlântico, cada exemplar é numerado para permitir que seus leitores relatem – e acompanhem – a trajetória do livro na internet. Idéias muito, muito simpáticas. E inviáveis no Brasil, infelizmente. Ou não?

Desenciclopédia de Literatura Brasileira
Posts / 06/06/2007

O melhor que se pode fazer pela “Enciclopédia de Literatura Brasileira” que o Instituto Itaú Cultural pôs no ar em seu bonito site na terça-feira é não visitá-la. Não por enquanto. Vamos ser justos e, até por respeito aos seus “consultores editoriais” – os escritores Luiz Ruffato e Flávio Carneiro e a professora Regina Dalcastagné –, esperar que a aprimorem. Do jeito que está, o trabalho é um perigo para leitores desavisados. Não é que Ivana Arruda Leite, uma escritora interessante, não mereça um verbete. Deve merecer. Mas de modo algum poderia furar uma fila em que Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst ainda aguardam a vez. Este é só um dos 277 furos que contei em três minutos e meio na “Enciclopédia”, um espantoso conjunto de 106 nomes de “todos os tempos” cuja única defesa parece ser a precipitação de pôr no ar um trabalho maciçamente inacabado e sem apreço a prioridades. O blogueiro exagera? Julgue você mesmo. Que o meu colega de site Daniel Galera, talentoso que só, é um bom nome para uma enciclopédia dessas, estou pronto a defender com veemência. Mas se Campos de Carvalho não aparece, nem Lúcio Cardoso, nem Rubem Fonseca, nem…

Começos inesquecíveis: Italo Calvino
Posts / 04/06/2007

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. A primeira frase de “As cidades invisíveis”, obra-prima lançada em 1972 por Italo Calvino (Companhia das Letras, tradução de Diogo Mainardi, 1990), pode não parecer, em si, inesquecível. É preciso ler esse espantoso conjunto de relatos de viagem por cidades imaginárias para descobrir que é, sim.

Auto-ajuda para escritores
Posts / 31/05/2007

Este vídeo ensina a escrever O Grande Romance Americano. Com óbvias adaptações, funciona também para quem quiser escrever O Grande Romance Brasileiro. Se é que alguém ainda quer.

África em Madri
Posts / 29/05/2007

A 66a Feira do Livro de Madri, inaugurada na última sexta-feira, é dedicada à literatura africana, definitivamente a bola da vez – não em vendas, mas em badalação crítica – no mercado internacional. A edição de sábado passado do caderno Babelia, suplemento literário do jornal “El Pais”, se debruça sobre o tema e traz uma lista de “clássicos (africanos) contemporâneos” que inclui dois autores de língua portuguesa: o angolano Pepetela e o moçambicano Mia Couto, que estará na próxima Flip. (Favor desconsiderar o erro de digitação do jornal, que transformou o último em Mia Coute.)

Sai a programação completa da Flip
Posts / 28/05/2007

Saiu a programação completa da Festa Literária Internacional de Parati, que a cidade histórica do litoral fluminense vai sediar de 4 a 8 de julho – baixe a grade em pdf aqui. A programação também estará disponível, juntamente com outras informações sobre os autores, a partir desta terça-feira no site oficial do evento. Entre as atrações nacionais – pálidas diante do bom elenco de estrelas estrangeiras, já comentado aqui e aqui –, o destaque é a mesa “A vida como ela foi”, inspirada pela recente polêmica sobre a biografia censurada de Roberto Carlos. O autor do livro que o cantor mandou recolher das livrarias, Paulo César de Araújo, terá ao seu lado dois biógrafos de peso, Ruy Castro e Fernando Morais. Os ingressos (R$ 20 para a Tenda dos Autores e R$ 6 para a Tenda da Matriz) começam a ser vendidos no dia 4 de junho às 9h pela internet e nos pontos de venda da Ingresso Rápido.

Clarice x Carlinhos & outros embates
Posts / 24/05/2007

No dia em que Clarice Lispector e José Carlos Oliveira quase saíram no tapa na mesa do Antônio’s, a grande escritora entrevistava o cronista para a “Fatos & Fotos: Gente”, revista que, como fizera com a “Manchete” de 1968 a 1969, ela alimentou de entrevistas com artistas, escritores e esportistas brasileiros de dezembro de 1976 a outubro de 1977, para defender uns trocados. No entanto, pouca gente no lendário restaurante boêmio do Leblon deve ter percebido o que acontecia naquela mesa: perguntas e respostas eram disparadas de um lado a outro em atarefado silêncio, rabiscadas numa folha de papel. Clarice estava gripada. Carlinhos ia jantar. Com sua agressividade cultivada e famosa, o cronista do “Jornal do Brasil” enchia suas respostas de palavrões, magoando Clarice, que anotaria mais tarde: “Acho que Carlinhos continuava a me desafiar escrevendo na folha de papel expressões que ele próprio não usa nas suas crônicas. Mas a mim tanto se me faz”. A certa altura, depois de afirmar que “fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue correr”, Clarice emenda, conciliadora: “Nós dois, Carlinhos, nos gostamos um do outro, mas falamos palavras diversas”….

Começos inesquecíveis: Albert Camus
Posts / 23/05/2007

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1957 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

A sombra de Tanizaki
Posts / 22/05/2007

Escrevo (…) estas coisas por ter a impressão de que em algum lugar, quem sabe no campo da literatura ou das artes, resta-nos um caminho capaz de invalidar as já referidas desvantagens. Eu mesmo quero chamar de volta, pelo menos ao campo literário, esse mundo de sombras que estamos prestes a perder. No santuário da Literatura, eu projetaria um beiral amplo, pintaria as paredes de cores sombrias, enfurnaria nas trevas tudo que se destacasse em demasia e eliminaria enfeites desnecessários. Não é preciso uma rua inteira de casas semelhantes, mas que mal faria se existisse ao menos uma construção com essas características? E agora vamos apagar as luzes elétricas para ver como fica. Eu nunca tinha lido o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) quando o encontrei no papel de personagem – e talvez um pouco mais do que isso – do bom “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho (leia trecho aqui). Mas o ensaio “Em louvor da sombra”, que acaba de sair (Companhia das Letras, tradução de Leiko Gotoda, 72 páginas, R$ 27), me deu a certeza de estar dormindo no ponto. O livrinho, escrito em 1933, é um delicioso – e, paradoxalmente, luminoso – elogio…

Escocês falsificado
Posts / 21/05/2007

Para não voltar das férias numa nota séria demais, que definitivamente não combinaria com meu estado de espírito hoje, aqui vai a história (acesso livre, em inglês) de Chris Baker, um escocês de 26 anos que lançou – na internet, onde mais? – um “projeto literário” com potencial para deixar muito autor aspirante morrendo de inveja. Por meio do site I Want A Word, qualquer pessoa pode comprar por uma libra esterlina (cerca de R$ 3,80) o direito de escolher uma das palavras que o sujeito, autor inédito, usará num romance. O plano é misturar dez mil palavras pagas com, suponho, outro tanto de graça para dar liga. “Um livro que consiste nas contribuições de 10 mil pessoas tem o potencial de ser algo muito especial”, diz Baker. A suposta graça, parece, é escolher termos bem difíceis para deixar o autor em apuros. Se tudo der certo, serão dez mil libras no bolso do cara, mas aposto que não dá: mesmo a estupidez humana tem limites. Até o momento, Baker só conseguiu vender 13 palavras. Mas ninguém deve desanimar. A Grande Web-Gincana Literária Mundial está só começando. Contos personalizados tatuados diretamente na pele do leitor, alguém?

Críticos em pé de guerra
Posts / 05/05/2007

Sabe a gritaria no mercado americano contra o fechamento e o corte de páginas em suplementos literários país afora, comentada na nota “De suplementos e videoclipes”, aqui embaixo? Pois é, nada de ficar nas lamúrias com os amigos de chope. Uma organização chamada National Book Critics Circle resolveu pôr corda no bloco e organizar a campanha. Se vai dar algum resultado, não se sabe. Mas faz barulho. Com isso, fecho o botequim para tirar duas semanas de férias. Dia 21 estou de volta. Até breve.

Semana Paulo Coelho
Posts / 03/05/2007

Em seus escritos, Coelho, que é católico – embora afirme “não beijar a mão do Papa, com certeza” – se apresenta como um explorador de mistérios e um sábio, um híbrido de Carlos Castaneda e Khalil Gibran. Não tem nada de muito revelador para os leitores brasileiros o correto perfil de oito páginas de Paulo Coelho que a jornalista e poeta Dana Goodyear assina na “New Yorker” desta semana – a reportagem não está disponível no site da revista, mas pode ser baixada em pdf aqui, no pé da página. A chamada é provocante: “Cem milhões de leitores podem estar errados?” Bem, há controvérsias. Indiscutível é o momento mágico que vive o Mago. Todo esse cartaz na bíblia dos intelectuais de nariz em pé se soma ao seu antológico artigo em defesa da liberdade editorial publicado na “Folha” de ontem (só para assinantes) para fazer desta uma espécie de Semana Paulo Coelho.

Agualusa ganha o Independent
Posts / 02/05/2007

É uma grande notícia para a língua portuguesa, que ultimamente tem andado atrás até do afegão em prestígio literário no mercado internacional, o prêmio Independent para ficção estrangeira que o angolano José Eduardo Agualusa faturou ontem na Inglaterra pela tradução de seu romance “O vendedor de passados”, que lá virou The book of chameleons (O livro dos camaleões) – veja a notícia, em inglês, aqui. O prêmio em dinheiro não é suntuoso: as 10 mil libras esterlinas, cerca de R$ 40 mil reais, são divididas entre autor e tradutor. Mas a lista de vencedores da história do Independent, que inclui WG Sebald e Orhan Pamuk, mostra que a coisa é séria. “O vendedor de passados” conta a história de Félix Ventura, que ganha a vida vendendo vistosas genealogias falsas para emergentes da sociedade angolana, pessoas que têm tudo, menos um bom passado. O livro saiu aqui em 2004 pela Forense. Pela editora Língua Geral, da qual é sócio, Agualusa lança este mês no Brasil seu novo romance, “As mulheres do meu pai”.

Começos inesquecíveis: E.L. Doctorow
Posts / 01/05/2007

Ninguém tomava ao pé da letra as coisas que Martin Pemberton dizia; ele era melodramático demais, ou atormentado demais, para falar sem floreios. Por isso as mulheres o achavam atraente – viam-no como uma espécie de poeta, embora ele fosse mais crítico do que poeta, um crítico de sua própria vida e época. Assim, quando Martin começou a dizer que seu pai ainda estava vivo, nós que o ouvíamos falar e nos lembrávamos de seu pai tínhamos a impressão de que ele estava se referindo à persistência do mal, em termos gerais. Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário. O que sugere um paradoxo: o que há de mais “profundo” na escrita estaria logo ali na superfície, numa combinação de sinais gráficos que leva o leitor a submergir naquilo – ou ir embora. O primeiro parágrafo de “A mecânica das águas”, do escritor americano E.L. Doctorow (Companhia das Letras, 1995, tradução de Paulo Henriques Britto), é um ótimo exemplo de como pode ser poderoso esse negócio de uma-palavra-depois-da-outra.

De suplementos e videoclipes
Posts / 30/04/2007

A gritaria geral no mercado americano contra os cortes que vários jornais têm promovido em suas seções dedicadas à literatura (pensou que isso só acontecia aqui?) motivou este interessante artigo (acesso livre, em inglês) do escritor Michael Connelly no “Los Angeles Times”. Connelly reconhece que suplementos literários sempre deram prejuízo, mas observa que sua lógica é a do cultivo de longo prazo, baseada na idéia de que consumidores de livros também consomem jornais. Pode ser. O que talvez indique que a imprensa tradicional já não enxerga diante de si um prazo tão longo assim. Enquanto isso, o livro “A guerra dos bastardos” (Língua Geral), da jovem escritora carioca Ana Paula Maia, está sendo lançado com um divertido trailer cinematográfico no YouTube. A moda de promover livros com videoclipes transados, apostando no chamado marketing viral, é recente no mercado internacional, e esta é uma de suas primeiras manifestações – e provavelmente a mais bem produzida – no Brasil. O que tem a ver uma notícia com a outra? Eu acho que muito.

‘Viva o povo brasileiro’ por quê?
Posts / 29/04/2007

Não me surpreendeu a eleição de “Viva o povo brasileiro” como o grande livro da ficção brasileira dos últimos 25 anos (veja a nota sobre a enquete do Todoprosa aqui embaixo). Abrindo só um dos 53 votos – o meu –, confesso que fui um dos eleitores da obra-prima do autor baiano, livro que consegue ser divertidíssimo e, ao mesmo tempo, de uma ambição vertiginosa. Acrescento que como organizador da brincadeira fiquei aliviado ao constatar que ele teria vencido mesmo sem a minha ajuda. Surpreendente foi descobrir que alguns amigos escritores se indignaram com o resultado. Um deles chega a considerar mal escrito o livro de João Ubaldo, um mero “rascunhão”. Essas coisas são assim mesmo. Só não se pode negar que, duas décadas depois de lançado, “Viva o povo brasileiro” ocupa um lugar privilegiado no juízo da crítica e na memória do público. A meu ver, merecido. Achei lúcido este ensaio do crítico Wilson Martins, chamado João Ubaldo Ribeiro, um caso de populismo literário. Martins dá boas pistas dos motivos que levam esse romance a se impor como expoente – inclusive, acrescento eu, sobre qualquer coisa escrita por Jorge Amado, “pai” evidente de Ubaldo: Não hesitei em qualificar “Viva…

‘Viva o povo brasileiro’ é o melhor dos últimos 25 anos
Posts / 28/04/2007

Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, é o principal livro brasileiro de ficção dos últimos 25 anos. Épico mítico e irreverente da nacionalidade, com seu painel histórico abrangendo quatro séculos, o romanção lançado pelo escritor baiano em 1984 ficou em primeiro lugar na votação promovida pelo Todoprosa junto a 53 escritores, críticos e editores brasileiros. Em segundo lugar, empatados, vieram Dois irmãos, de Milton Hatoum, e Quase memória, de Carlos Heitor Cony. Na quarta posição houve outro empate, este triplo, entre Aqueles cães malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, A senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna, e Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. De todos os primeiros colocados, apenas os dois últimos não são romances: o de Caio Fernando é uma coletânea de contos e o de Sérgio, uma novela escoltada por histórias curtas. Cada votante foi orientado a escolher o melhor/mais importante título de ficção (romance, novela ou coletânea de contos) publicado a partir de 1982 (inclusive), valendo a data da primeira edição. Um único livro por pessoa. Não houve lista prévia, a menção foi espontânea. Foram disparados 100 emails para profissionais de destaque ligados à literatura, dos dois lados do balcão e em diversas faixas etárias. Cerca…

Kiran Desai fecha lista de estrangeiros na Flip
Posts / 27/04/2007

A confirmação da vinda da indiana Kiran Desai, 36 anos, completa a lista de autores estrangeiros da Festa Literária Internacional de Parati. Kiran, que vive nos EUA, ganhou o prêmio Booker do ano passado por seu segundo romance, The inheritance of loss, a ser lançado aqui pela Alfaguara com o título (provável) de ?O legado da perda?. Filha da escritora Anita Desai, ela teve seu primeiro livro, ?Rebuliço no pomar de goiabeiras?, publicado pela Record. Kiran Desai fecha com a sul-africana Nadine Gordimer, prêmio Nobel de 1991, e com a egípcia Ahdaf Soueif um trio de mulheres em meio a um time de convidados do sexo masculino em que se destacam o também sul-africano e também nobelizado J.M. Coetzee, o israelense Amós Oz, os americanos Art Spiegelman e Lawrence Wright, o inglês Will Self, o mexicano Guillermo Arriaga, o argentino César Aira e o moçambicano Mia Couto. Completam a lista de estrangeiros os argentinos Alan Pauls e Rodrigo Fresán, o inglês Robert Fisk, o escocês William Boyd, os americanos Dennis Lehane e Jim Dodge e o serra-leonês Ishmael Beah. Quinze homens, três mulheres. Muito desigual? ?Não me preocupei com nenhuma espécie de cota?, ri o diretor de programação da Flip,…

À espera dos bárbaros
Posts / 26/04/2007

Com seu ritmo de cartum, uma temporada clássica dos Simpsons tem mais idéias espalhadas por um amplo espectro cultural do que qualquer romance escrito no mesmo ano. A velocidade, a densidade de informação, o leque de referências; a quantidade, a qualidade e a rica humanidade das piadas – tudo isso faz praticamente qualquer romance contemporâneo parecer lento, sorumbático, monótono e quase totalmente vazio de idéias. … Enquanto isso, a internet está rapidamente se tornando a biblioteca de Babel de Borges, o mar de histórias de Rushdie: tudo está ali, numa potencial relação promíscua com todas as outras coisas. Acontece tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sem qualquer hierarquia. É como se o espaço e o tempo tivessem entrado em colapso. É excitante – e assustador. Quem está capturando isso num romance? Porque é no romance que isso deve ser capturado. O romance pode tomar liberdades que a televisão não pode, moldar e estruturar a multiplicidade e o caos de modos que a internet não consegue. Romancistas podem recorrer a essas novas formas de arte para encontrar novas estruturas e técnicas de contar histórias, como Joyce recorreu ao cinema. Mas quem está fazendo isso? Estranhamente, os modernistas parecem captar o…

Os maiores da língua espanhola (II)
Posts / 24/04/2007

Os 100 títulos da lista são obras de 73 autores, dos quais se destacam Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Javier Marías, Juan José Saer, Antonio Muñoz Molina, César Aira e Diamela Eltit. Usando os sites da Submarino, Livraria Cultura e Estante Virtual (sebos), cheguei ao seguinte: dos 100 livros, 37 estão disponíveis hoje para compra. Deve-se colocar ainda que há autores com obras publicadas no Brasil que não correspondem às da lista. Por exemplo, César Aira já teve três livros lançados pela Nova Fronteira, porém foram outros três os “laureados”. Contabilizando, vê-se que dos 73 autores da lista, 46 já foram publicados no Brasil. Já foi comentada aqui a lista dos cem melhores romances de língua espanhola dos últimos 25 anos, elaborada pela revista “Semana”. Na ocasião, interessado em descobrir o tratamento que esses títulos e autores tinham recebido no mercado brasileiro, Marco Polli publicou aqui na área de comentários alguns números iniciais. Agora volta à carga em seu próprio blog, o Ângulo, e acaba de destrinchar o assunto. Vale a visita.

Violência simbólica, violência real
Posts / 23/04/2007

O escritor e roteirista argentino Marcelo Figueras especula em seu blog no site Boomeran(g), aqui e aqui, que o alarme despertado entre as autoridades escolares por seus textos “perturbadores” – na verdade, esquetezinhos toscos – pode ter contribuído para que Cho Seung-Hui, o atirador da Virgínia, se sentisse realmente um criminoso e completasse o caminho entre a violência simbólica e a real. Figueras, um cara sério, chega a chamar o assassino de “mártir da correção política”. E completa: “Se um Chuck Palahniuk de 23 anos apresentasse alguns capítulos de Fight Club (‘Clube da luta’) a seus professores, seria denunciado hoje perante as autoridades, espionado, vigiado – e talvez até detido, nestes tempos de Patriot Act que permitem encarcerar por obra e graça das razões de Estado”. Não costumo subestimar a vocação americana para paranóias do gênero, especialmente depois de uma tragédia tão brutal. Mas acho que o hermano pirou en la papita.

Começos inesquecíveis: Ivan Ângelo
Posts / 22/04/2007

Quem estivesse na praça da Estação na madrugada de hoje veria um nordestino moreno, de 53 anos, entrar com uns oitocentos flagelados no trem de madeira que os levaria de volta para o Nordeste. Veria os guardas, soldados e investigadores tangendo-os com energia mas sem violência para dentro dos vagões. E veria que em pouco mais de quarenta minutos estavam todos guardados dentro do trem, esperando apenas a ordem de partida. E, a menos que estivesse comprometido com os acontecimentos, não compreenderia como o fogo começou em quatro vagões ao mesmo tempo. Apenas veria que o fogo surgiu do lado de fora dos vagões, já forte, certamente provocado. Assim começa, pegando fogo literalmente e num tom de “jornalismo literário” que logo será explicitado, o romance “A festa”, lançado em 1976 pelo mineiro Ivan Ângelo (Summus Editorial, 4a edição, 1978). Na página seguinte, a explicação: “Trecho da reportagem que o diário ‘A Tarde’ suprimiu da cobertura dos acontecimentos da praça da Estação, na sua edição do dia 31 de março de 1970, atendendo solicitação da Polícia Federal, que alegou motivos de segurança nacional”. Forte candidato a melhor retrato literário do Brasil nos anos da ditadura militar e um caso raro de…

Ana Maria explode o Paiol
Posts / 19/04/2007

A mídia tem dois soluços anuais. Hic! Abril. Hic! Outubro. Em abril, tem o Dia Internacional do Livro Infantil. Em outubro, o Dia da Criança. Nessas duas ocasiões, publica-se a mesma reportagem. Todo ano. Você pode só trocar o nome dos lançamentos. Eles telefonam e fazem as mesmas perguntas aos mesmos escritores. É um rito sazonal. Perguntam se a televisão atrapalha, se as crianças de hoje estão lendo menos. Aí a gente mostra, com números, que as crianças de hoje lêem muito mais. Lêem mais que os adultos até. E eles não acreditam. Seis meses depois, aquilo se repete outra vez. E os jornalistas não acreditam, não lêem, não vêem o que um livro do Pedro Bandeira ou do João Carlos Marinho pode ter de fascinante. Não lêem, não sabem. Mas quando ouvem falar de Harry Potter se arreganham e dão a ele uma capa colorida. A mídia é um caso perdido. … Procuro escrever todo dia. Isso não significa que eu aproveite aquilo que escrevo todo dia. Escrever não quer dizer publicar, não quer dizer aproveitar. (…) O importante é escrever. Uma hora amadurece. Posso estar enganada, mas acho que tem muito mais bobagem publicada do que genialidade não…

Disney, ou melhor, Dickens World
Posts / 18/04/2007

Auto-ajudificar um autor como Cormac McCarthy (veja a nota abaixo) não é nada perto da disneyzação do clássico vitoriano Charles Dickens (1812-1870). E isso não tem nada de metáfora. Dê uma olhada no site do Dickens World, um megaparque temático – investimento da ordem de R$ 250 milhões – dedicado ao autor de “Um conto de duas cidades”, que abrirá suas portas na Inglaterra no dia 25 do mês que vem. Os organizadores prometem, pelo preço do ingresso, mergulhar o visitante nas “ruas, sons e cheiros” da sociedade inglesa – com suas desigualdades de padrão brasileiro – em que viveu o pai de David Copperfield e Oliver Twist. Algo me diz que vão pegar leve no quesito “cheiro”. Ou seja: pobres encantadores de pés descalços e maquiagem fuliginosa tomarão o lugar de Mickey e Donald, mas o espírito é o mesmo. Um grande barato? O supra-sumo do brega? Talvez seja melhor parafrasear o próprio Dickens: “É o melhor dos tempos, é o pior dos tempos”.

O Pulitzer ou o público?
Posts / 17/04/2007

Responda depressa: você preferiria ganhar o prêmio Pulitzer de romance, que dá prestígio e um cheque de dez mil dólares, ou uma vaguinha no “clube de leitura” que mais fabrica best-sellers em todo o mundo? Este dilema o americano Cormac McCarthy não precisou enfrentar. Ficou com os dois. Merece ambos, mas não é preciso muito cinismo para encarar essa historinha como um retrato das mudanças que vêm sendo operadas por nosso tempo nas máquinas de fabricar celebridades literárias. O autor de “Meridiano sangrento” (Nova Fronteira, esgotado) e “Onde os velhos não têm vez” (Alfaguara, 2006) faturou ontem o prêmio Pulitzer de romance por The road, uma sombria história conduzida por um pai e um filho que vão para a estrada num cenário pós-apocalíptico – a edição brasileira do livro está prometida pela Alfaguara para julho deste ano. O Pulitzer é um prêmio “sério” e tradicional, criado em 1917. Deve ter na carreira de McCarthy, um autor recluso e de apelo popular limitado pela extrema violência de suas histórias, um impacto desprezível. Prestígio não lhe faltava. Revolução mesmo é a que vem sendo provocada pela surpreendente inclusão de The road no Oprah’s Book Club, o “clube de leitura” da apresentadora de…

O livro, esse desconhecido
Posts / 16/04/2007

Preocupado com o futuro do livro? Já parou para pensar no seu passado? Este vídeo é espetacular – principalmente se você conseguir ignorar a claque enlatada.

Começos inesquecíveis: H.G. Wells
Posts / 14/04/2007

Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água. O começo do clássico de ficção científica “A guerra dos mundos” (Alfaguara, tradução de Thelma Médici Nóbrega, 2007), romance lançado em 1898 pelo escritor inglês H.G. Wells (1866-1946), impressiona pela precisão “científica” da prosa. A frieza do tom torna ainda mais sinistra a ameaça de invasão marciana que prenuncia.

Rumo a Tralfamador
Posts / 13/04/2007

“Onde estou?”, disse Billy Pilgrim. “Preso numa outra bolha de âmbar, Sr. Pilgrim. Estamos onde temos que estar exatamente agora – a trezentos milhões de milhas da Terra, em direção a uma curva de tempo que nos levará a Tralfamador em questão de horas, em vez de séculos.” “Como – como eu cheguei aqui?” “Só um outro terráqueo poderia lhe explicar isso. Os terráqueos são os grandes explicadores, explicam por que este evento é estruturado da forma que é, dizem como outros eventos podem ser obtidos ou evitados. Eu, que sou um tralfamadoriano, vejo o tempo como um todo, da mesma forma que você veria um trecho das Montanhas Rochosas. Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Observe-o momento a momento e descobrirá que nós todos somos, como eu disse antes, insetos no âmbar.” “Para mim, você soa como se não acreditasse no livre-arbítrio”, disse Billy Pilgrim. Comecei a reler Slaughterhouse-Five ontem à noite (“Matadouro 5” no Brasil; a L&PM tem uma edição de bolso baratinha, com boa tradução de Cássia Zanon). Dei boas risadas, feliz – e um pouco surpreso – de constatar que o livro não envelheceu…

Kurt Vonnegut (1922-2007)
Posts / 12/04/2007

A quinta-feira acaba de ficar sombria, apesar do sol no Rio de Janeiro. Kurt Vonnegut morreu ontem. Caramba: ontem. O mesmo dia em que, pela primeira vez e obviamente sem saber de nada, tasquei – plano antigo – uma frase dele aí na epígrafe do Todoprosa. Não, isso não tem a menor importância diante da notícia de que, aos 84 anos, morreu o autor de “Matadouro 5”, mestre do humor sombrio, o mais irrequieto e o menos solene entre os grandes escritores americanos. Minha epígrafe não tem a menor importância, mas, por alguma razão, deixou tudo mais triste aqui pelas bandas da Gávea. Volto ao assunto quando puder. Por enquanto deixo aqui (acesso livre, em inglês) o alentadíssimo obituário do “Los Angeles Times”, que é quase um romance.

Com licença, eu peço a palavra
Posts / 11/04/2007

Vivemos, para o bem e para o mal, um tempo de pulverização, de multiplicação de referências. Não existem parâmetros reconhecidos por um número suficiente de pessoas para que o debate literário role direito, o clima é de um certo vale-tudo estético. Aí, claro, vêm os vírus oportunistas e quem acaba se dando bem é a turma da autopromoção, do marketing. Tudo isso é triste e angustiante, mas, pensando bem, talvez não seja de todo ruim. Porque é evidente que no meio desses escombros há um novo ambiente literário em gestação. … Lemos pouquíssimo. Você entra no ônibus, no metrô, e ninguém está lendo um livro. Nunca. Nem romance Sabrina. Nem faroeste de banca de jornal. Isso é um dado grave, a meu ver. Mas daí a acreditar em visões apocalípticas vai uma grande distância. ? O tempo de amadurecimento da literatura e o tempo do blog são mais do que diferentes, chegam a ser antagônicos. O problema é que, uma vez publicado, qualquer texto passa por uma espécie de cristalização – esta é a minha experiência, pelo menos – que dificulta reescrevê-lo depois. E reescrever é a alma do negócio. Entrevista boa é aquela que nos obriga a formular idéias…

Parabéns, Rascunho
Posts / 09/04/2007

Exemplo raro de longevidade na imprensa literária independente, o jornal curitibano “Rascunho” está completando sete anos esta semana – o aniversário caiu ontem, domingo de Páscoa. Para comemorar a data, estréia novas seções na edição de abril, entre elas as colunas “Passe de letra”, com crônicas mensais sobre futebol assinadas pelo crítico e ficcionista Flávio Carneiro, e “Ponto final”, que vai na última página, sempre com um escritor convidado e forma livre – este mês, trecho do próximo romance de Luiz Ruffato.

O gato corteja o mico
Posts / 07/04/2007

Um dos mitos preferidos da grande indústria editorial é o do “próximo”. Nos últimos anos, andou na moda procurar o próximo “Harry Potter”, depois o próximo “Código da Vinci”. Agora parece ser a vez do próximo “Marley e eu”, best-seller canino que foi a grande surpresa do ano passado. É curioso observar que as temporadas de caça ao próximo não costumam render nada além de cópias pálidas – pálidas inclusive nas vendas – mas isso não revoga a corrida. Salvo os que seguem fórmulas estabelecidas como as dos livros de espionagem ou de tribunal, os verdadeiros fenômenos comerciais geralmente se afirmam a partir de um núcleo original e imprevisível, não como “próximos” de alguma linhagem. Mas quem se importa? O mito é mais forte. Só ele explica que um leilão pelos direitos de publicação da história de Dewey, um gato vadio adotado como mascote de uma biblioteca no interior do estado americano de Iowa, tenha terminado quando a Grand Central Publishing descarregou na mesa um caminhão com 1,25 milhão de dólares – notícia completa, em inglês,

Eros em alto Grau
Posts / 05/04/2007

Vânia era desenhista de moda e pintora, da minha altura, uma gazela, pernas e coxas alongadas, saboneteiras profundas e seios discretos. Rosto marcante, olhos bonitos. Encontrávamo-nos regularmente. Sempre à tarde, que ela desconfiava que o marido desconfiasse. Usava, invariavelmente, camisas de seda ou algodão em padrões que ela mesma desenhava, lindas, marcantes, ousadas. Tinha uma válvula de sucção no lugar do sexo e soltava sonoras flatulências vaginais pós-coito. Era agradável, sadio, sem dramas, o namoro de tardes inteiras, ela nua, suas esguias longas pernas enroscadas em meu corpo. Nenhuma ansiedade. Pedia-me, enquanto nos amávamos, que inventasse estórias sobre ela mesma estar sendo possuída por mais de um homem, concomitantemente, dois ou três, ocupando todas as suas frestas, o que importava em que nos amássemos sem qualquer sentimento de propriedade. Está certo: o trocadilho do título desta nota é infame. Mas como resistir a ele quando Eros Grau, ministro do Supremo Tribunal Federal, estréia no romance com uma narrativa tão cheia de erotismo quanto a de “Triângulo no ponto” (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 29), que chega às livrarias semana que vem?

Cortázar entre Thelonius Monk e Bill Evans
Posts / 04/04/2007

“O jogo da amarelinha” seria então um produto mais próximo de Thelonius Monk e “62 [Modelo para armar]”, mais próximo de Bill Evans. “O jogo da amarelinha” é um mundo fechado e autônomo, complexo e completo e, ao mesmo tempo, muito aberto, como a música de Monk: dispõe de um tronco central – a primeira forma de leitura – e de numerosos capítulos que se intercalam à vontade e se manifestam como composições solistas com aspecto de improvisações; o centro de gravidade persiste e as harmonias rompem a narrativa tradicional. “62”, por sua vez, é a fronteira e o cavaleiro que se perde no mistério depois de ultrapassá-la. Muito já se falou da influência do jazz sobre a literatura de Julio Cortázar – a começar por ele mesmo. Mas este luxuoso ensaio do escritor madrilenho José Maria Guelbenzu (pdf de acesso livre, em espanhol), publicado na edição de abril da revista “Claves de razón práctica”, consegue desenhar novas e deliciosas harmonias em sua variação sobre o tema. [Via El Boomeran(g)]

Kafka, um escritor realista
Posts / 03/04/2007

Esse anti-sensacionalismo do tom, o não-anúncio do incomum, confere ao incomum, até mesmo ao pavoroso, um bem-estar pequeno-burguês muito característico. Esse produto misto de horror e conforto perdeu, hoje, certamente, a estranheza que, a seus primeiros leitores, dera a impressão de loucura. Todos nós estamos a par dos “aposentos sociais” que os chefes de campos de extermínio mobiliaram com estofados, vitrolas e quebra-luzes, parede-meia com as câmaras de gás. A sala de estar de K., no ginásio de esportes de O castelo, não é em nada mais fantástica do que esses cômodos contíguos às câmaras de gás, os quais, sem dúvida, pareciam normais a seus usuários. Esse cruzamento “louco” (“desloucado”) de ambientes, empreendido por Kafka, é, na verdade, uma descrição da realidade; uma descrição do fato de que, hoje em dia, o “mundo dos deveres” e o “mundo familiar privado” mal têm algo a ver um com o outro, ainda que se instalem sob o mesmo teto ou, pelo menos, se interseccionem como mundo único. Na realidade, o exterminador industrializado e o jovial pai de família são um único e mesmo homem. Mas, uma vez que a total discrepância entre as “esferas da vida” é considerada natural, do ponto de…

Oi. Sou um escritor. Sou legal. Em que posso ajudá-lo?
Posts / 02/04/2007

Sinais dos tempos. No blog do “Guardian”, Stuart Walton escreve (em inglês, acesso livre) sobre uma contradição: nossa imagem preferida do escritor ainda é a do trabalhador solitário, muitas vezes recluso – JD Salinger e Dalton Trevisan são exageros que confirmam a regra. Enquanto isso, no mundo bicudo lá fora, profissionais das letras andam tão ocupados com o papel de pequenas celebridades que desempenham em excursões de lançamento de livros, maratonas de entrevistas e participações em festivais que não lhes sobra muito tempo para escrever. É claro que a tendência se manifesta de forma mais vigorosa em países de mercado leitor maduro, mas o Brasil já apresenta alguns sintomas da síndrome. Enquanto isso, no “New York Times”, a reportagem de Julie Bosman (em inglês, cadastro gratuito) aborda, aí sim, uma novidade que ainda não chegou por aqui: a excursão promocional pré-lançamento do livro, destinada principalmente a fazer com que autores desconhecidos conquistem a simpatia e os favores daqueles profissionais na linha de frente do mercado livreiro – gerentes e vendedores de livrarias. Nesse meio tempo, quem um dia achou que viver de escrever era uma boa pedida porque, entre outras coisas, não levava o menor jeito para showman, vendedor ou…

Nota para O Livro dos Gêneros (que nunca escreverei)
Posts / 30/03/2007

O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva.

Os maiores da língua espanhola
Posts / 29/03/2007

A revista colombiana “Semana” ouviu 81 críticos, escritores e editores para elaborar uma lista dos cem melhores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos – o mesmo período que o “New York Times” arbitrou para fazer sua lista de americanos, ano passado, noticiada na época aqui. Ganhou “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, com “A festa do Bode”, de Mario Vargas Llosa, em segundo lugar. Esses dois não param tão cedo de se bicar. Até aí, estamos no terreno dos medalhões. A notícia fica mais interessante quando se descobre, em terceiro e quarto, dois livros do mesmo autor: “Os detetives selvagens” e “2666”, do grande – e, pelo visto, em fase de crescimento – Roberto Bolaño (1953-2003). O sujeito ainda se deu ao luxo de emplacar um terceiro título, a novela “Estrella distante”, na 14a posição.

Empréstimos, perdas e ganhos
Posts / 28/03/2007

Já transitei pelos dois lados do empréstimo de livros com a mesma desenvoltura. Muitos anos, perdas e ganhos depois, não faço isso mais. Virou tabu: um quarto de porta lacrada no último andar da casa em que é proibido entrar, como num romance gótico. Lá dentro, acumulando poeira, o vazio de perdas incalculáveis e amores insubstituíveis convive com a culpa abafada por devoluções que nunca fiz – parte por esquecimento, a maioria por motivos menos claros. Um dia decidi, chega dessa bagunça. Não empresto mais, não tomo mais emprestado. Com a segunda resolução tento me redimir da antipatia da primeira, ou pelo menos, ao dispor as duas em arranjo simétrico, simular um cenário de olímpica justiça onde há apenas confusão e cansaço. E antes que me acusem de alguma abominável síndrome retentiva, quem sabe de uma forma bibliográfica de misantropia, aviso que de vez em quando parte aqui das estantes uma enorme caixa transbordante de alegres exemplares para doação. Não corto o fluxo social do livro. Apenas evito que ele me corte. A maior lacuna entre os livros que emprestei e nunca me devolveram foi deixada – a julgar pela insistência até surpreendente com que me contempla do fundo da…

Pequenos prazeres domésticos
Posts / 26/03/2007

No blog de livros do “Guardian”, Nicholas Clee fala de sua preocupação (em inglês) com o futuro das redes de livrarias convencionais, como Waterstone’s e Borders, que têm fechado lojas aos montes por serem incapazes de concorrer com o preço baixo e a escala massificada dos supermercados de livros – supermercados com aspas, como Amazon, ou sem, como Tesco. O tema é um dos mais batidos na imprensa literária, mas não faz muito sentido culpar os escribas se a realidade continua a reeditá-lo. Clee até que tenta inovar, atribuindo aos pequenos livreiros de bairro, os chamados independentes, uma vantagem competitiva sobre as redes convencionais – vantagem advinda do charme da seleção idiossincrática de títulos e do contato direto com o cliente. (Infelizmente, o mesmo artigo diz que os independentes estarão extintos em 15 anos, o que parece contrariar o argumento anterior, mas deixa pra lá.) Eu leio essas coisas e também me preocupo, claro. Não há nada como uma boa livraria real, de preferência com um expresso espumante num canto e um vendedor daqueles que leram tudo o que deve ser lido e ainda têm um GPS mental para encontrar volumes empoeirados em prateleiras improváveis. Mas a leitura do artigo…

Começos inesquecíveis: Michael Chabon
Posts / 24/03/2007

Anos depois, falando a um entrevistador ou a um público de velhos fãs numa convenção de histórias em quadrinhos, Sam Clay gostava de declarar, a propósito da maior criação sua e de Joe Kavalier, que, quando menino, trancado e de mãos e pés atados dentro do recipiente estanque conhecido como Brooklyn, Nova York, costumava ser assombrado por sonhos de Harry Houdini. “Para mim, Clark Kent numa cabine de telefone e Houdini num caixote eram uma só coisa”, expunha em tom erudito na WonderCon ou em Angoulême ou ao editor do The Comics Journal. “Você não era, ao sair, a mesma pessoa que tinha entrado. O primeiro número de mágica de Houdini, vocês sabem, quando ele estava começando. Chamava-se ‘Metamorfose’. Nunca foi uma simples questão de escapar. Era também uma questão de transformação.” A verdade é que, quando garoto, Sammy só tinha um interesse casual, na melhor das hipóteses, em Harry Houdini e em seus feitos lendários; seus grandes heróis eram Nikola Tesla, Louis Pasteur e Jack London. No entanto, o relato do seu papel – do papel da sua própria imaginação – no nascimento do Escapista, como todas as suas melhores fabulações, soava verdadeiro. Seus sonhos sempre tinham sido houdiniescos:…

O mapa da literatura
Posts / 23/03/2007

Para desestressar: o Literature Map não é novo, mas quem ainda não o conhece pode gostar da brincadeira de digitar o nome de um autor (sim, claro que os de língua inglesa ocupam mais espaço, embora não tenham exclusividade) e receber de volta uma tela que o situa, digamos assim, no mapa literário mundial. Em termos visuais, o digitado torna-se o centro de uma constelação trêmula de nomes afins, a maioria formada por escritores que exerceram influência sobre ele ou foram por ele influenciados. Supostamente, pelo menos. O que torna tudo mais interessante e imprevisível é a ferramenta ser “inteligente”: em vez de se basear no conhecimento enciclopédico de seu autor, o Literature Map (existem também versões do brinquedo para música e cinema) vai aprendendo com os caminhos traçados pelos usuários. Entre esses usuários não têm faltado brasileiros, a julgar pelos dois nomes que, numa pesquisa aleatória, descobri serem os mais próximos de Julio Cortázar em toda a literatura universal: Lygia Fagundes Telles e? Paulo Leminski! É claro que ser “inteligente”, no caso, equivale muitas vezes a ser extremamente burro. Exemplo: uma pesquisa sobre Franz Kafka revela sua íntima e insuspeitada vizinhança com Bret Easton Ellis. Mas até por besteiras…

Fala, Mirisola
Posts / 22/03/2007

Marcelo Mirisola me manda uma carta aberta para responder à carta aberta de Sérgio Sant’Anna, publicada ali embaixo: Oi, Sérgio. Pedi uma carta de recomendação a Sérgio Sant’Anna, sim. Não fui escolhido pela comissão do concurso – que tinha regras, um corpo de jurados, critérios pré-estabelecidos e um edital público. Muito diferente do “Bonde da Alegria” da Companhia das Letras. Infelizmente a carta de Sérgio não comoveu os jurados. O que consegui foi uma suplência ridícula que não me rendeu um centavo. Sou suplente de Andrea del Fuego e Eustaquio Gomes. Pode rir… Agradeço a deferência de Sérgio Sant’Anna. Mas a informação é falsa. Espero que você e ele corrijam o erro. Obrigado, e um abraço, Marcelo Mirisola

Com a palavra, Sérgio Sant’Anna
Posts / 21/03/2007

Sérgio Sant’Anna, um cara respeitadíssimo aqui no blog, não só como escritor mas como amigo, me pede que publique o recado abaixo sobre a polêmica do projeto “Amores expressos”, que ele integra (vai para Praga): Avisado por uma amiga que comentários irados e espumantes estavam chegando em grande quantidade à coluna Todoprosa, no site NoMínimo, fui lá conferir. E, na verdade, apesar dos ressentidos e invejosos (poucos) achei a coisa muito bem humorada. Mas é repugnante que um mau-caráter como o tal de Arnaldo diga que eu fui ao Programa Internacional de Escritores, na Universidade de Iowa, EUA, com uma bolsa da Ditadura Militar. Fui selecionado para o programa pela Fundação Ford, que me concedeu a bolsa e passagens, para mim e minha mulher. Isso depois de uma apreciação de meu livro de estréia, O sobrevivente, em edição das mais modestas, custeada por meu pai, com um empréstimo que nunca paguei. Também o pessoal da Ford no Rio me submeteu a uma entrevista. Arnaldo também dá uma de dedo-duro falando na caixa de maconha que me apresentaram, como boas-vindas, assim que cheguei. Mas que tolice, maconha lá era fumada como aqui se toma cafezinho. E garanto a todos que a…

Polêmica expressa
Posts / 20/03/2007

O projeto “Amores expressos” vai mandar 16 escritores brasileiros – alguns inéditos em livro, alguns consagrados, a maioria no meio do caminho – passarem um mês com tudo pago em alguma cidade do mundo, de onde eles se comprometem a voltar com um romance de amor para ser publicado pela Companhia das Letras (embora a editora se reserve o direito de só aproveitar parte do material) e, se tudo correr bem, adaptado para o cinema. Nas andanças por sua cidade turística de eleição (o destino foi escolhido pelos organizadores), cada um será acompanhado durante três dias por uma equipe de cinema, que transformará em documentário esse périplo de 16 autores em busca de 16 histórias. A notícia do projeto, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira, 30 anos, responsável pela coleção de futebol Camisa 13 (DBA e Ediouro), explodiu na “Folha de S. Paulo” de sábado e provocou uma agitação incomum nas águas paradas da literatura brasileira. Pode-se afirmar – com algum exagero, claro, mas não mais que o protocolar em clichês como este – que desde então escritores e editores não falam de outra coisa. Parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima…

Bolaño neles
Posts / 19/03/2007

Quando “Os detetives selvagens” foi publicado, Ignacio Echevarría, o mais destacado crítico literário da Espanha, o elogiou como “o tipo de romance que Borges poderia ter escrito”. Acertou pela metade. Borges, cujo trabalho de ficção mais longo tem quinze páginas, teria provavelmente admirado o modo como o romance de Bolaño emerge de uma árvore cheias de galhos em forma de histórias. Mas o que acharia ele da delirante viagem de carro, do sexo frenético, das esculachadas exibições de ego masculino? Bolaño enche sua tela com conturbadas emoções lawrencianas, mas as situa dentro de uma fria moldura cerebral. É um estilo digno de seu nome: modernismo visceral. Seis meses depois de publicado no Brasil, o romance “Os detetives selvagens”, obra-prima do chileno Roberto Bolaño (1953-2003) – nota da época e trecho aqui – ganha um longo e consagrador ensaio-reportagem-resenha de Daniel Zalewski na “New Yorker” desta semana, a propósito de seu tardio lançamento nos Estados Unidos.

Bukowski, alguém?
Posts / 15/03/2007

Fiquei surpreso quando vi que o Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”, dedicou sua última capa a Charles Bukowski (1920-1994). Minha primeira reação foi suspeitar de exagero. Capa? Do Babelia? Páginas internas, vários pontos de vista, reprodução de cartas dele para uma editora, coleção de links sobre sua vida e obra? A princípio me pareceu descabido, como se o inegável mas restrito mérito literário do escritor americano nascido na Alemanha – recordista mundial em número de páginas dedicadas a porres e ressacas – não merecesse mais do que uma resenha ou artigo isolado. Aí pensei melhor: me lembrei da força que “Cartas na rua”, na primeira edição da Brasiliense, teve para mim aos 20 anos, e de como passei um ano ou mais caçando tudo o que pudesse encontrar do sujeito. Depois pensei nas levas de jovens escritores e aspirantes influenciados pelo homem, que escreveram e continuam escrevendo sobre suas próprias bebedeiras e promiscuidade como se bebessem e trepassem apenas para escrever depois. É gente à beça, embora a maioria só saiba o que é fome quando a empregada atrasa o jantar, o que estraga um pouco a brincadeira. Será que tudo isso é pouco para levar Bukowski…

A boca grande do Lobo
Posts / 14/03/2007

Saber ler é tão difícil como saber escrever. Ainda que o tradutor tenha génio, uma tradução é sempre uma foto a preto e branco de um quadro. Custa-me conceber um poeta que nunca tenha feito amor. E às vezes quando leio certos prosadores portugueses, não têm esperma nenhum lá dentro, são tudo coisas que se passam dentro da cabeça. Pensam muito. E a literatura faz-se com palavras. Hoje, os escritores jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e na quinta ser traduzidos em todo o mundo. O grande prosador António Lobo Antunes ganhou hoje o Camões, o maior prêmio literário da língua portuguesa. Já mereceria o “galardão”, como se diz em seu país, mesmo que fosse só pelo talento de frasista.

Literatos em vias de fato
Posts / 14/03/2007

Hoje o Todoprosa pede licença para ter seu momento de revista de fofoca: tudo começou em 1976, quando Mario, depois de ouvir a história escabrosa que sua mulher, Patrícia, tinha para contar, disse ao amigo Gabriel: “Como você ousa?”. Quem acha que isso é perda de tempo deve parar de ler aqui. Da amizade fraterna entre o colombiano Gabriel García Márquez, 80 anos completados na semana passada, e o peruano Mario Vargas Llosa, de 70, não sobrou nada. A intensa admiração mútua e os anos de convivência próxima em Barcelona, onde moravam na mesma rua, chegaram ao fim quando o cruzado de direita desferido pelo autor de “Tia Júlia e o escrevinhador” encontrou o olho esquerdo do autor de “Crônica de uma morte anunciada” num cinema da Cidade do México, 31 anos atrás. Isso é história velha. Nenhum dos dois jamais explicou a briga, atribuindo-a simplesmente a problemas “pessoais” e, de vez em quando, também “políticos”, tendo o colombiano ficado firme na esquerda enquanto o peruano migrava para a direita. Eis que, mais de três décadas depois, a inimizade dos dois maiores nomes das letras latino-americanas volta à berlinda. E volta, espantosamente, repetidas vezes em poucas semanas. Primeiro foram os…

Começos inesquecíveis: Will Self
Posts / 11/03/2007

Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina. A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e flexível localizada no ponto onde terminam os tendões. É quase certo que Bull não a perceberia tão cedo, não tivesse ele como prioridade, logo ao despertar, o hábito de se inspecionar, explorando cuidadosamente todas as suas curvas e fendas. Qualquer semelhança com Kafka não é coincidência. Nem plágio. Este é o início do primeiro capítulo, chamado justamente A metamorfose, da novela “Bull, uma farsa”, que compõe com “Cock, uma noveleta” o livro “Cock & Bull – Histórias para boi dormir”, do escritor inglês Will Self (Geração Editorial, tradução de Hamilton dos Santos, 2a. edição, 2002). Em “Cock”, em perfeita simetria, é a protagonista que um belo dia descobre entre as pernas um recém-brotado pau. Satirista feroz e, nos melhores momentos, brilhante em sua mistura de erudição, grosseria e delírio pop, Self, de 45 anos, é um autor bem estabelecido na literatura britânica, mas nunca deu certo no Brasil. Não por falta de tentativas. Além deste…

J.M. Coetzee, um gigante na Flip
Posts / 10/03/2007

O sul-africano J.M. Coetzee, autor da obra-prima “Desonra” (Companhia das Letras), duas vezes ganhador do Booker e prêmio Nobel de literatura de 2003, disse sim aos organizadores da Festa Literária Internacional de Parati (Flip). Será o grande nome do evento. John Maxwell Coetzee, 67 anos completados mês passado, andou freqüentando recentemente o Todoprosa: as notas de 23/2, sobre seu último romance, inédito no Brasil, e 3/3, sobre “Desonra”, ainda estão no ar aí embaixo. Recomendo conferir também seu discurso de aceitação do Nobel, traduzido e publicado por NoMínimo em dezembro de 2003, aqui. Trata-se de uma bela e meio enigmática declaração de amor à literatura, de alta voltagem poética e protagonizada por ninguém menos que Robinson Crusoé. Nascido na Cidade do Cabo e desde 2002 vivendo em Adelaide, na Austrália, Coetzee fez carreira como professor universitário de literatura e vai falar em Parati sobre Samuel Beckett, uma de suas admirações. Além de “Desonra”, um retrato perturbador das feridas sociais sul-africanas que o fim do apartheid não curou, vários de seus livros foram lançados no Brasil: “Elizabeth Costello”, “Vida e época de Michael K.”, “Juventude”, “À espera dos bárbaros”, “A vida dos animais” e “O mestre de São Petersburgo”, todos da…

Somos todos realistas?
Posts / 08/03/2007

A respeitada revista literária “The Believer”, de São Francisco, publica uma tabela universal das escolas literárias desde o realismo do século XIX até hoje (abaixo, clique para ampliar). Parte de um postulado polêmico do ficcionista americano Donald Barthelme (“Creio que todos somos realistas. Não temos outra possibilidade”) para – nas palavras do autor da coisa, Greg Larson – “explorar esse paradoxo”. O rebuscado quadro que Larson nos oferece imagina a literatura ocidental como um único tronco realista com vários galhos. Os nomes cômicos de algumas categorias, como realismo dipsomaníaco (Bukowski) e pós-mortal (Beckett), sugerem que tudo não passa mesmo de uma piada superelaborada. Será? Confesso que fiquei em dúvida. Para ser uma piada completa falta, como direi, graça. E se houver um tiquinho de seriedade no quadro da “Believer”, uma gota que seja, então estamos diante de mais uma prova grotesca da insuficiência dos esquemas totalizantes de pensamento. De uma forma ou de outra, vale como curiosidade. [Via Jean-François Fogel, de El Boomeran(g)]

O outono do patriarca
Posts / 07/03/2007

Normalmente, o Todoprosa não gosta muito de aniversários e outras efemérides, preferindo pretextos jornalísticos menos – por definição – previsíveis. Isso é o normal, mas convenhamos que a palavra “normal” não combina com o colombiano Gabriel García Márquez, que ontem virou oitentão. E vem mais por aí: este ano comemoram-se ainda os 40 anos de “Cem anos de solidão” e os 25 anos de seu prêmio Nobel. Três datas, três links: Aqui, uma simpática galeria do jornal espanhol “El País” mistura fotos antigas e recentes para contar um pouco da vida do escritor. Em inglês, o pungente relato de Simon Romero, correspondente do “New York Times”, sobre as comemorações de ontem na pequena Aracataca, a decadente cidade natal de Gabo e modelo de sua Macondo mítica. A cidadezinha organizou uma parada militar (!), uma missa e uma queima de fogos à espera do homem, que, dizia-se, apareceria a qualquer momento. Apareceu nada: comemorou o aniversário em casa, na Cidade do México. Finalmente, em espanhol, este artigo do escritor argentino Marcelo Figueras, do blog Boomeran(g), tenta relativizar a distância irônica que mantêm do legado gigantesco de García Márquez as novas gerações de autores latino-americanos de língua espanhola.

Kundera e a cilada do Machado anônimo
Posts / 06/03/2007

Uma das armadilhas favoritas do antiintelectualismo – doença crônica da nossa cultura; a outra é o intelectualismo – foi reeditada pela “Folha de S. Paulo” alguns anos atrás, ao submeter anonimamente às principais editoras do país um conto de Machado de Assis como se fosse de um autor inédito em busca de publicação. Tempos depois o repórter recebeu, previsivelmente, algumas cartas de recusa e – oba, escândalo! – uma coleção de silêncios glaciais. Ahá. Quer dizer que nosso sistema de avaliação de mérito literário está montado sobre pressupostos hipócritas? Então o grande Machado de Assis, despido de seu nomão, vale tanto quanto um pobre coitado qualquer? Tinham razão os Titãs quando cantavam que “ninguém sabe nada”? Blá, blá, blá. Bem, os Titãs sempre têm alguma razão. Que uma dose de hipocrisia entra nesse jogo, não dá para negar. O problema é que o truque que supostamente a denunciaria não denunciava nada. Graça jornalística à parte, a armadilha usada pela “Folha” era desonesta, mais afeita à mistificação do que à desmistificação que fingia abraçar, como uma seqüência de dribles para o lado no meio-de-campo. Por quê? Simples: porque qualquer autor que escrevesse hoje, vírgula por vírgula, como Machado de Assis –…

Com a palavra, os escritores cubanos
Posts / 04/03/2007

Medo do futuro? Imagine! Creio que dificilmente ficaremos em situação pior do que já estivemos. Só pode ser pior uma guerra, e não creio que isso ocorra de jeito nenhum. Seria bom haver uma transição, e que ela se desse com a menor violência possível. Me eduquei na escola comunista, me pintaram um futuro soviético maravilhoso e aí está o que aconteceu. Este país está esgotado e cansado, está apodrecido, esta é a palavra. Quando ouço intelectuais daqui ou de fora falarem da revolução cubana, não sei do que estão falando. Nasci em 1972 e conheci a era soviética e a queda do muro de Berlim. Em Cuba houve um pouquinho de abertura em matéria de direitos civis e um grande desastre econômico. Mas para mim isto aqui é uma ditadura estabelecida e agonizante, não vejo nada de revolução nisso. O “Babelia”, suplemento literário do jornal espanhol El Pais, um dos melhores do mundo no gênero, foi à Feira do Livro de Havana ouvir escritores cubanos sobre o clima na ilha neste momento de indefinição, expectativa, medo e algum otimismo inaugurado pela doença de Fidel Castro. O depoimento acima, de Ena Lucía Portela, considerada uma das grandes revelações da ficção…

Começos inesquecíveis: J.M. Coetzee
Posts / 03/03/2007

Para um homem de sua idade, cinqüenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema de sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor. E já que andamos falando do homem, vai aí o começo do tétrico romance “Desonra”, obra-prima do escritor sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 2a. edição, 2003, tradução de José Rubens Siqueira). O professor universitário David Lurie, personagem solitário, orgulhoso e triste, logo vai descobrir – a um preço alto – que não resolveu tão bem quanto imaginava “o problema de sexo”.

Quem não pode faltar na Flip?
Posts / 02/03/2007

Não tenho procuração do novo diretor de programação da Festa Literária Internacional de Parati, meu vizinho Cassiano Elek Machado, para fazer esta consulta, mas é melhor assim. A montagem daquele elenco é um exercício de vida real sujeito a tantas limitações e percalços (o único nome já confirmado oficialmente é o de Dennis Lehane, autor de “Sobre meninos e lobos”) que, para quem tem esse privilégio, ficar no terreno do desejo puro vale mais a pena. Sendo assim: Que escritores de ficção – brasileiro e estrangeiro – você gostaria de ver tropeçando naquele calçamento absurdo dentro de quatro meses, de 4 a 8 de julho? Um breve histórico de ausências e presenças pode ajudar na escolha – afinal, só vale sugerir quem ainda não passou por lá. João Ubaldo Ribeiro ia, mas desistiu na última hora. Carlos Heitor Cony, por problemas de saúde, também. Rubem Fonseca não costuma ir a lugar nenhum – isto é, em território nacional. Raduan Nassar e Dalton Trevisan, menos ainda. Luis Fernando Verissimo foi, mas um problema de família o obrigou a sair antes da hora. Philip Roth nunca encontra espaço na “agenda”, que é basicamente caseira. J.M. Coetzee mora do outro lado do mundo…

Jane Austen não era uma gata?
Posts / 28/02/2007

Will Davis, um dos blogueiros de livros do “Guardian”, levou um susto e eu também. Está certo que o cinema tem o costume de embelezar os personagens reais que retrata – quando se trata de escritores, muitas vezes o falseamento é até um ato de caridade. Nicole Kidman de narigão de borracha para interpretar Virginia Woolf é a exceção que confirma a regra. Mesmo assim, a linda, luminosa, extraordinária Anne Hathaway (de “Brokeback Mountain” e “O diabo veste Prada”) no papel da desfavorecida solteirona Jane Austen (1775-1817) – uma bela escritora, não me entendam mal – deve estabelecer um novo recorde mundial para a glamourização da vida na sétima arte. Becoming Jane, a cinebiografia da autora de “Orgulho e preconceito”, estréia na Inglaterra semana que vem prometendo fazer qualquer amante do realismo nas telas perdoar o Shakespeare garotão de Joseph Fiennes e o garboso Euclides da Cunha de Tarcísio Meira.

Roth é tri
Posts / 27/02/2007

A poderosa novela Everyman, inédita no Brasil, deu ao escritor americano Philip Roth o prêmio PEN/Faulkner, no valor de US$ 15 mil. Não é uma das maiores honrarias do mundo das letras, mas a notícia tem apelo extra por ser a primeira vez que um escritor conquista o tri: Roth ganhou o PEN/Faulkner em 1994 com “Operação Shylock” e em 2001 com “A marca humana”, ambos lançados no Brasil pela Companhia das Letras. Para ler um trecho de Everyman, publicado ano passado em tradução da casa no Todoprosa, clique aqui. Alerta: quem acha bacaninha o ridículo eufemismo “melhor idade” deve passar bem longe desse livro.

Da arte de não ler
Posts / 26/02/2007

O recém-lançado Comment parler des livres que l’on n’a pas lus (“Como falar de livros que não se leu”), do professor de literatura e psicanalista francês Pierre Bayard, não é exatamente um daqueles manuais para blefadores que andaram na moda alguns anos atrás. Sendo um intelectual francês, Bayard tem pretensão maior – alguma coisa a ver com uma defesa da não-leitura como atividade criadora. Como estou falando do livro dele sem tê-lo lido, fica tudo em casa. Mas Comment parler… é, antes de mais nada, uma provocação, e como tal tem atingido seu objetivo. De um lado Bayard vem colhendo o apoio risonho de quem reconhece sua coragem de ir contra a hipocrisia e cutucar um tabu de intelectuais – pois é evidente que todo mundo trapaceia de vez em quando, mesmo porque o tempo para ler tudo o que se deveria ler anda escasso pelo menos desde o início do século XVIII. Recepções simpáticas ao livro de Bayard podem ser lidas no artigo da “Lire”, em francês, e, com uma dose maior de ironia, na resenha do “New York Times”, em inglês. Naturalmente, também é possível carregar no sarcasmo, como fez esse artigo publicado no “Times” de Londres (onde…

Coetzee e a metalinguagem
Posts / 23/02/2007

Acabo de ler o último livro do sul-africano J.M. Coetzee, Slow man, ainda sem tradução no Brasil (o próximo, Diary of a bad year, está prometido para outubro). O que achei dele não é simples de expressar. Se não posso dizer que gostei, é certo que o desagrado, no caso de um autor tão inteligente, costuma ser esteticamente mais prazeroso do que muitos prazeres fáceis. A história vinha bem: tem pegada o drama do fotógrafo Paul Rayment, um sujeito entre a meia-idade e a velhice que perde uma perna ao ser atropelado em sua bicicleta numa rua da cidade australiana de Adelaide – sim, no país de adoção de Coetzee. O livro é narrado naquela terceira pessoa marcante de “Desonra”, uma secura orgulhosa e exasperante como pano de fundo, pequenos rasgos de humanidade ofuscando o leitor aqui e ali. Eis que de repente, sem aviso, entra em cena a velha Elizabeth Costello, escritora meio chatonilda que Coetzee transformou – não sem auto-ironia – em alter ego. E não é que dona Costello conhece como ninguém o livro que estamos lendo? Até frases de capítulos anteriores, que só o narrador e o leitor poderiam conhecer. Daí em diante a história da…

Começos inesquecíveis: Graham Greene
Posts / 21/02/2007

Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para a frente. Eu digo “escolhe-se” com o orgulho incorreto de um escritor profissional que tem sido elogiado – quando observado com seriedade – pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou são essas imagens que me escolhem? É conveniente e correto, segundo as regras do meu ofício, começar exatamente aqui, mas se eu tivesse acreditado então em um Deus, poderia também ter acreditado numa voz, sugerindo ao meu ouvido, “Fale com ele: ele ainda não viu você”. Eis o começo do fim, ou melhor, de “Fim de caso” (Record, 2000, 3ª. edição, tradução de Léa Viveiros de Castro), romance lançado em 1951 pelo escritor inglês Graham Greene (1904-1991).

Enquanto isso, num vasto país obscurantista…
Posts / 20/02/2007

Um livro infantil premiado, voltado para crianças de 9 a 12 anos, foi proibido em diversas escolas e bibliotecas americanas (notícia aqui, em inglês) porque contém a palavra “escroto”. Não o adjetivo brasileiro, mas o substantivo mesmo – trata-se de explicar o ponto exato da anatomia de um cachorro que uma cobra mordeu. Aqui entre nós: a palavra “escroto” é bem escrota. Mas proibi-la é muito mais.

Conto de carnaval: A máscara
Posts / 18/02/2007

Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão merencórios. Ah, esses olhinhos viram coisa, Vi. Claro que não era como agora, era melhor, era pior. Diferente: eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha. Seu avô, sim, aquele se esbodegava inteiro, saía no sábado pra voltar na quarta-feira que nem na música da camisa listrada, só que a fantasia dele, infalível, era de arlequim – conhece a música da camisa listrada? Ainda toca isso? Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati, não, imagine se vai tocar. Agora é diferente, pior, melhor, depende. Por exemplo, quando você casar, duvido que agüente o que eu agüentei. Não agüenta, Vi, mudou demais. Para melhor, nesse ponto eu acho que foi para muito melhor, porque se o seu marido…

Professor Amis
Posts / 15/02/2007

Bem, é um tipo de trabalho sedentário e introspectivo que se faz de pantufas, enfiando o dedo no nariz e coçando a bunda, você sozinho em seu escritório, e não há a menor possibilidade de ser de outra forma. Assim, qualquer um que entre nessa de olho em ganhos materiais e agitação mundana, eu não acredito que chegue muito longe. Surpresa: Martin Amis, 57 anos, um dos romancistas vivos mais importantes da Inglaterra – e provavelmente, com sua máscara midiática enfezada, o mais famoso – está sendo anunciado hoje pela Universidade de Manchester como seu novo professor de “escrita criativa”. Deve haver muito estudante apavorado, mas em entrevista ao “Guardian” (acesso livre, em inglês, aqui), Amis trata de tranqüilizá-los: Posso ser ácido na forma de escrever, mas não na forma como vivo. Seria muito difícil para mim dizer coisas cruéis a pessoas numa posição tão vulnerável. Imagino que eu vá ser surpreendentemente doce e gentil com eles. Uma das coisas que aprendi sobre ficção é que você realmente se expõe de uma forma que nenhum outro artista dito criativo faz. Na maioria das outras artes você está só exibindo um talento específico, de certa forma até na poesia, mas ao…

Mawady de Accu3
Posts / 14/02/2007

Olha o Joaquim Maria aqui de novo. Essa aí ao lado é a capa de uma edição bilíngüe (português-russo) de doze contos de Machado de Assis, inéditos na língua de Anton Tchecov, que acaba de ser lançada pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Hertzen, de São Petersburgo. Organizado por Vadim Kopyl e com prefácio do professor brasileiro Adelto Gonçalves, o livro traz um elenco respeitável de histórias curtas: “Uns braços”, “O caso da vara”, “O espelho”, “Uma senhora”, “A senhora do Galvão”, “A sereníssima República”, “A igreja do Diabo”, “O enfermeiro”, “A causa secreta”, “D. Paula”, “Entre santos” e “Um apólogo”. Sentiu falta de “O alienista”, “Missa do galo”, “Um homem célebre”, “A cartomante”? Eu também. Mas Machado é um contista tão grande que o time fica poderoso mesmo com desfalques.

Literatura e carnaval
Posts / 13/02/2007

Um dos chavões preferidos da imprensa literária brasileira é discutir a discreta presença do futebol em nossa ficção. E o carnaval, clichê da “nacionalidade” tão forte quanto o velho ludopédio, será que está bem representado? À primeira vista, não. “O país do carnaval”, romance de estréia de Jorge Amado, de carnavalesco mesmo tem pouco mais que o nome. Os contos “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles, e “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, chegam mais perto da festa, mas mantendo um pé na vida e outro na morte. Também sombrio, “O bebê da tarlatana rosa”, de João do Rio, outra história curta, talvez entre mais um pouco no espírito da gandaia. Mas cabe à crônica “Batalha no Largo do Machado”, de Rubem Braga, ser, esta sim, uma brilhante tradução em prosa da ofegante epidemia. É claro que o gênero crônica, por sua natureza, oferece uma fartura de textos de carnaval, mas não acredito que algum deles chegue perto desse do Braga. Devo estar esquecendo títulos importantíssimos, com certeza. Infelizmente, nunca tive nas mãos a (esgotadíssima) “Antologia do carnaval”, de Wilson Louzada. Sendo este post uma obra aberta, espero que me corrijam. Mas mesmo assim o saldo tende…

Uma cena da vida de Tiago A.
Posts / 12/02/2007

O post deve iniciar com breve e superficial descrição do ambiente. Usar as palavras casa de minha avó, sombra da mangueira, calor abafado. Falar da quase felicidade que eu sentia por estar ali, lendo um livro, sem maiores preocupações. Talvez especular sobre a experiência de não suar apesar do calor, divagando sobre as possíveis causas do fenômeno e sobre o modo como ele, longe de representar incômodo, tornava tudo ainda mais estranhamente agradável. Tom neutro. Começa bem, depois melhora. Quem acha que blog não combina com prosa literária de qualidade precisa ler isso.

O blog de papel de Susan Sontag
Posts / 11/02/2007

A autora nunca me interessou terrivelmente, mas comecei a ler seu diário de juventude com uma vaga curiosidade e fui até o fim. São cheias de reflexões como essas aí embaixo – cruas, nervosas, às vezes meio adolescentes, mas transpirando sinceridade – as anotações que a escritora e pensadora americana Susan Sontag (1933-2004) manteve de 1958 a 1966, basicamente entre Paris e Nova York, enquanto lutava para se inventar como escritora. Como atração colateral, vale a pena fingir por um momento que estamos lendo os posts de uma aspirante a escritora do século XXI: o estilo blogueiro já estava maduro há meio século, só faltava o meio. Uma tradução do diário de Susan Sontag acaba de ser publicada pela revista “Granta” em espanhol – acesso livre, em pdf, aqui. 31 de dezembro de 1958: Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser esse personagem, uma escritora, e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o fait accompli deste diário – emergirei lá na frente com a confiança de que eu (eu) tenho algo a dizer, algo que deve ser…

Começos inesquecíveis: Campos de Carvalho
Posts / 10/02/2007

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E já que mencionei a sisudez da literatura contemporânea, aí vai o supra-sumo do contrário: o primeiro parágrafo do romance “A lua vem da Ásia”, lançado pelo grande Campos de Carvalho (1916-1998) em 1956 (José Olympio, Obra reunida, 2a. edição, 1995).

O jogo do sério
Posts / 09/02/2007

Eis um belo paradoxo. Em todas as áreas da vida britânica, a acusação de falta de humor é um insulto cruel; não ser engraçado é praticamente um pecado nacional. Mas para ser considerado um dos “romancistas de verdade” deste país, hoje, você tem que ser mortalmente sério. Estou começando a temer que haja algum insidioso Zeitgeist rolando, uma estranha sopa em que se unem os Tempos Difíceis em que vivemos, um malformado desejo de categorizar e regras subterrâneas que ninguém articula mas todos sabem que estão lá. (…) Com raras exceções, o clima literário agora é de solenidade implacável. Uma noção nebulosa serpenteia em torno do subconsciente do romancista como uma trepadeira: você precisa ser sério, senão nunca vai ser resenhado nos jornais importantes ou terá a menor chance de conquistar uma vaguinha na posteridade. Tive vontade de aplaudir de pé esse pequeno artigo (em inglês, acesso livre) publicado no blog de livros do “Guardian” por Tania Kindersley. Ela cita Jane Austen e Graham Greene como escritores sérios dotados de fino senso de humor, para não mencionar o mais obviamente cômico Evelyn Waugh. Acrescenta que Martin Amis, cansado de jamais ganhar prêmios com suas comédias sombrias, “agora escreve sobre os…

J.K. Rowling: mais de oito vezes Dickens?
Posts / 08/02/2007

Do diário de J.K. Rowling em seu site, entrada de 6 de fevereiro, com modéstia apenas aparente: Charles Dickens expressou melhor do que eu conseguiria: “Talvez seja de escasso interesse para o leitor saber com que tristeza a pena é deposta após dois anos de labor da imaginação; ou como um Autor tem a sensação de estar abandonando uma porção de si mesmo ao mundo sombrio, quando um grupo de criaturas nascidas em seu cérebro se despede dele para sempre.” Ao que eu posso apenas suspirar, experimente 17 anos, Charles… O sétimo e último livro da série de Rowling, Harry Potter and the Deathly Hallows, será publicado no dia 21 de julho nos mercados britânico e americano. Via The New York Times.

Machado de Assis negro
Posts / 06/02/2007

No que toca à questão étnica abordada nos romances, pode-se constatar que, além de não ter se esquivado dos problemas que afetavam os afro-brasileiros, Machado fala de seus irmãos de cor como sujeitos marcados por traços indeléveis de humanidade e por um perfil que quase sempre os dignifica, apesar da posição secundária que ocupam nos enredos. Impõe-se destacar que essa ausência de protagonismo está em homologia com o papel social por eles desempenhado, caracterizado pela subalternidade da condição e pela redução a mera força de trabalho, como já demonstrou Gizêlda Melo do Nascimento (2002). Ainda assim, o escritor, se não os eleva a heróis épicos da raça ou a líderes quilombolas, o que de resto comprometeria a verossimilhança do universo citadino e burguês representado nos textos, também não os limita ao formato estreito advindo dos estereótipos dominantes no imaginário social do Segundo Reinado. O livro “Machado de Assis afro-descendente”, de Eduardo de Assis Duarte (Pallas/Crisálida, 288 páginas, preço a definir), professor de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais, supre uma lacuna nos estudos machadianos ao levantar na obra do gênio brasileiro os textos e trechos de textos que lidam de alguma forma com o problema da escravidão. A velha…

Autodefesa literária
Posts / 05/02/2007

Sabe aquela prosa cortante? Aquele estilo contundente? O conto que é um soco na boca do estômago? O poema que é um tapa na cara do leitor? (Para não mencionar, por educação, o escritor que é um pé no saco?) Seus problemas acabaram. O blog Ao Mirante, Nelson! descobriu a solução – veja o vídeo aqui.

Começos inesquecíveis: Paul Auster
Posts / 04/02/2007

Seis dias atrás, um homem morreu em uma explosão à beira de uma estrada no norte de Wisconsin. Não houve testemunhas, mas parece que ele estava sentado na grama junto a seu carro estacionado quando a bomba que montava detonou por acidente. Segundo o relatório da perícia divulgado há pouco, o homem teve morte instantânea. Seu corpo explodiu em inúmeros pedacinhos, e fragmentos do seu cadáver foram encontrados a até quinze metros do local da explosão. Até hoje (4 de julho de 1990), ninguém parece ter a menor idéia de quem era o morto. Ninguém menos o narrador, é claro. E logo, se não abandonar o romance, o leitor poderá se juntar a ele. Tudo isso – para não mencionar a promessa, que será cumprida, de estudo ficcional sobre um tema que desde então só faz ficar mais atual e doloroso, o terrorismo – está contido nas linhas iniciais do excelente “Leviatã” (Companhia das Letras, 2001, tradução de Rubens Figueiredo), meu livro preferido de Paul Auster, lançado em 1992. Muito antes, portanto, de virar modismo entre intelectuais brasileiros espancar o escritor mais famoso do Brooklyn, como se ele fosse um escrevinhador chinfrim. Modismo gratuito, como quase todos, mas que parece…

Um romance a dez mil mãos
Posts / 03/02/2007

Imagine um romance escrito nos moldes da Wikipedia, com cada autor contribuinte tendo o poder de pôr e tirar, escrever e cortar tanto o seu trabalho quanto o dos outros. O “projeto” – como o chamam com certa pompa seus criadores, gente da editora Penguin em parceria com uma universidade inglesa – leva o nome de A million penguins (“Um milhão de pingüins”) e está no ar desde quinta-feira, aqui. (Se a página não abrir logo, dê um tempo e tente de novo. Volta e meia, o serviço tem andado “temporariamente indisponível”, num sinal de sucesso maior que o esperado: em dois dias, o romance já chegou ao capítulo 7.) Não, claro que uma coisa dessas não tem a menor chance de dar certo num sentido, vamos dizer, estético. Mesmo tendo regras mais ou menos estritas e contando, como conta, com um time de “moderadores profissionais” escalado para zelar 24 horas por dia pela qualidade do material, editando a edição dos colaboradores, o resultado da empreitada tem tudo para ser pífio. O primeiro parágrafo provisório do romance – isto é, no momento em que escrevo – sugere que “pífio” talvez venha a se provar um adjetivo pálido. Vai uma tradução…

De Machado de Assis a Paulo Lins
Posts / 30/01/2007

Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector e Paulo Lins. Eis o eixo em torno do qual gira a história da literatura brasileira, segundo o artigo Destination: Brazil (acesso livre), publicado hoje por Anderson Tepper na seção “Guia Literário do Mundo” da boa revista eletrônica americana Salon. Eu sei que parece, mas não, com essa seqüência de nomes o autor não quis insinuar que a decadência das letras brasileiras é vertiginosa e irremediável. Será que, além de ser levado pelo cinema a superestimar a arte do autor de “Cidade de Deus”, ele fala muita bobagem? Uma ou outra, mas bem menos do que a média em artigos desse tipo. Diante da virtual invisibilidade internacional da nossa literatura, pode-se dizer que o texto é positivo à beça.

Coetzee, Mailer, Arendt
Posts / 29/01/2007

Ao invocar o sobrenatural, ele (Norman Mailer) pode parecer afirmar que as forças que moviam Hitler eram mais do que meramente criminosas; no entanto, o jovem Adolf ao qual ele dá vida nessas páginas não é satânico, nem mesmo demoníaco, mas apenas uma figura nefasta. Manter vivo o paradoxo infernal/banal, em toda a sua inescrutabilidade angustiante, talvez seja a maior das conquistas desta mui considerável contribuição à ficção histórica. O sul-africano J.M. Coetzee elogia (em inglês, acesso livre) no “New York Review of Books” o novo romance de Norman Mailer, The castle in the forest, sobre um jovem Adolf Hitler e seu, digamos, demônio da guarda. Vê no livro uma espécie de desafio ficcional à tese da “banalidade do mal” de Hannah Arendt. Interessante. Coetzee é, pelo menos aqui em casa, um escritor muito maior do que Mailer. Sua opinião tem peso.

Ô João Antônio!
Posts / 28/01/2007

João Antônio sentia a metamorfose do malandro em bandido ambicioso; a boemia é massacrada pela onipresença do mundo interesseiro dos negócios e das relações profissionais invasivas. A pobreza dos “desdentados” bate à porta dos condomínios particulares, com “a desconfiança e o medo massacrando”. Morro e asfalto não se encontram mais para fazer samba no Zicartola, encontram-se para a carnificina. Criminoso é otário que negocia com a polícia. A elite mostra-se mais egoísta e indiferente e a classe média, apenas uma correia de transmissão dos ideais elitistas, enganando a si mesma sobre a realidade brasileira. Apesar das reedições e da publicação de Dama do Encantado (96), o ostracismo. No controle de cartas enviadas, em 11 de outubro de 1996 marca o último destinatário – o compositor Ascendino Nogueira. Sofria de problema circulatório, como o pai. O corpo seria encontrado somente em 31 de outubro. O cheiro era insuportável. Ninguém tinha a chave do apartamento em Copacabana. Mesmo sem nenhuma tese original, é sucinto, abrangente e lúcido o texto sobre João Antônio (1937-1996) assinado por Francisco Quinteiro Pires no “Estadão” de hoje. O autor de “Malagueta, Perus e Bacanaço” teria completado 70 anos ontem. Nunca foi – vou confessar logo, desafiando a…

Começos inesquecíveis: Bernardo Carvalho
Posts / 27/01/2007

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo…

Assombroso!
Posts / 26/01/2007

Alguém pode protestar dizendo que é ridículo decidir qual livro comprar com base num mero adjetivo. Eu concordo inteiramente. Mas deixe-me enfatizar que, se eu compro apenas livros que foram chamados de “assombrosos”, não compro todos os “livros assombrosos”. (?) Se há momentos em que eu temo que minha obsessão com a palavra “assombroso” me impeça de comprar um grande livro? Claro que sim. Mas a verdade é que, se ninguém descreve um livro como assombroso, ele provavelmente não é assombroso, e, se não é assombroso, quem precisa dele? Em artigo no “New York Times” (em inglês, mediante cadastro gratuito), o escritor Joe Queenan afirma ter encontrado um modo de lidar com o excesso de títulos postos no mercado e com o terreno pantanoso – sim, também lá – da crítica e da imprensa literária: há anos só compra livros que pelo menos um resenhista tenha brindado com o adjetivo “assombroso” (astonishing). Talvez não custe acrescentar que o texto é um exercício de ironia.

Cadê o iPod dos livros?
Posts / 24/01/2007

Antes de mais nada – sim, eu acho que os livros de papel são eternos. Enquanto houver ser humano, haverá quem os leia. Talvez até depois. Isso não elimina o fato de que uma engenhoca tipo iPod dedicada a livros está demorando a aparecer. Eu, pelo menos, não tenho a menor dúvida de que aparecerá. A questão é: será que o recém-lançado Sony Reader é essa máquina? Consta que o aparelho tem grandes vantagens sobre os desajeitados leitores eletrônicos do passado recente. Sobretudo pela tela não iluminada, fosca, proporcionada pela tecnologia da tinta eletrônica – ou papel eletrônico – desenvolvida pela empresa E-Ink. A coisa tem problemas também, parece, sobretudo de navegação. Mas mede o mesmo que um livro fino e permite aquela decisão revolucionária que os fãs do iPod conhecem bem: na dúvida sobre qual título levar para ler nas férias, que tal a biblioteca inteira? Está sendo vendido no site da Sony por US$ 350. O que sei é que, se não for o Reader a ocupar essa vaga, será outro. Há empresas trabalhando com a tinta eletrônica em suportes flexíveis, mais próximos do papel. Aguardemos.

Boca-livro
Posts / 22/01/2007

Todo mundo pode pedir doações para as editoras, afinal, o pedido “é para divulgar a literatura, a cultura”, e por aí vai. E dá-lhe pedidos de jornalistas, escritores, igrejas, ONGs, bibliotecas, penitenciárias, associação de amigos de bairro, cursinhos e por aí afora. Uma festa! Por que será que essas mesmas entidades não pedem um carro zerinho pra Volks quando ela lança um novo modelo? Por que não um apartamento pra Coelho da Fonseca em um novo empreendimento? Ou um “quarto completo” pras Casas Bahia? Será que se eu fechar a Papagaio e abrir um bar muita gente vai pedir um trago de graça? Ou vai aparecer alguma entidade pedindo uma porção de queijo com um pouquinho de azeite e uma pitada de orégano? Dá o que pensar o divertido desabafo do editor Sérgio Pinto de Almeida, da Papagaio, publicado hoje no site Leia Livro, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, sob o título “Livro custa caro (também para as editoras)”. A motivação foi o pedido de doação vindo de uma próspera faculdade particular. Tudo bem que o pessoal adore uma boca-livro – o trocadilho é meu. O problema é a sensação de que de livro, mesmo, não…

Começos inesquecíveis: Marguerite Duras
Posts / 21/01/2007

Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.” Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta. Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Assim, de forma bela e estranha, começa o belo e estranho “O amante” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Aulydes Soares Rodrigues), pequeno – na extensão – romance memorialístico com o qual Marguerite Duras (1914-1996) conquistou o prêmio Goncourt de 1984 e o sucesso comercial em escala planetária.

Um escritor sincero demais
Posts / 20/01/2007

Existem coisas que a gente só faz quando está sozinho. Caminhei até a estante reservada às primeiras edições dos meus romances e de suas traduções e acariciei as lombadas tão conhecidas. Depois, como se sob o efeito de uma compulsão irresistível, retirei, em primeiro lugar, o novo livro e, mais tarde, todos os outros, para dar uma espiada em certas passagens. No fim, passei a noite inteira em minha poltrona, além de todo o dia seguinte, até boa parte da noite, sem quase nenhuma interrupção, embora suspeitasse estar com febre. Reli toda a minha produção. A certa altura, sentenças inteiras que eu tinha escrito pareciam se desintegrar como as figuras num caleidoscópio, quando a gente gira o tubo, só que minhas palavras não se reagrupavam nem se fundiam em novas maravilhas de cor e desenho. Jaziam na página como cacos vulgares e odiosos de vidro. A conclusão a que cheguei resumiu-se ao seguinte: nenhum dos meus livros, nem o novo romance nem qualquer um dos outros que escrevi antes, era muito bom. Com certeza, nenhum deles tinha o mérito literário que a crítica lhe atribuíra. Nem mesmo meu segundo romance, o que ganhou todos os prêmios e sobre o qual…

Vida inteligente após a morte
Posts / 18/01/2007

Dois obituários brilhantes. O da agente literária alemã Ray-Güde Mertin, publicado ontem aqui mesmo em NoMínimo. Assinado por Paulo Roberto Pires, é informativo e emocionado na medida certa da enorme lacuna que ela deixa. E, em vídeo, o do cronista de humor americano Art Buchwald, no site do “New York Times”, seção A última palavra, que traz o próprio morto dizendo como quer ser lembrado. Começa assim: “Olá, sou Art Buchwald e acabo de morrer”.

Do ato de escrever pelado e outros assuntos
Posts / 17/01/2007

Não tenha dúvida: o ato de escrever era infinitamente mais complicado (e sobretudo mais moroso) antigamente. O que não impediu que alguns praticantes lhe acrescentassem novos estorvos – que, para eles, deduzo, não eram propriamente estorvos; antes, um estimulante. Assim como o visconde de Valmont, o libertino personagem de Chordelos de Laclos, seu contemporâneo Voltaire, por exemplo, adorava redigir cartas e escritos menos íntimos sobre as costas nuas de suas amantes. Tão singular mesa de trabalho não lhe afetou a criatividade. Nem a saúde; muito pelo contrário: Voltaire produziu bastante e chegou aos 84 anos. É de se presumir que, ao rabiscar palavras sobre o dorso desnudo de uma dama, Voltaire vez por outra também estivesse como Deus o criou. Nisso não foi um inovador. Alguns gregos da Antiguidade já haviam feito a mesma coisa, não raro apoiando-se (e inspirando-se) na região glútea de um efebo. “Com a bunda de fora, eu nem sequer anoto um número de telefone”, revelou Truman Capote, que, apesar de tudo, não gostava de misturar os canais. Para ele, havia a hora de deitar com os efebos e a hora de deitar para escrever. “Sou um escritor completamente horizontal”, definiu, numa entrevista, citando Mark Twain…

Borges para ouvir
Posts / 16/01/2007

O site da Harvard University Press oferece gratuitamente arquivos de áudio com trechos de duas das seis palestras proferidas na universidade americana por Jorge Luis Borges em 1967-68, no ciclo Norton Lectures, sob o título This craft of verse. Para melhor temperar o acepipe, a HUP avisa que só recentemente as gravações foram descobertas nos arquivos da universidade. A qualidade do som é muito boa. Ali podemos constatar tanto o conhecido talento dramático do escritor argentino, com seu histrionismo contido, quanto um surpreendente – em autor famoso por sua anglofilia – sotaque carregado. Em resumo: imperdível para borgianos e divertido para curiosos em geral. Quem se interessar pelo áudio completo das palestras pode comprar o CD no próprio site. As conferências de Borges no ciclo Norton foram publicadas no Brasil como “Esse ofício do verso” (Companhia das Letras, 2000). Via El Boomeran(g).

Bem-vinda, Zadie Smith
Posts / 15/01/2007

Grandes estilos representam a interface entre “mundo” e “eu”, e é na própria noção de ser tal interface diferente da nossa em espécie e qualidade que reside o poder da ficção. Escritores fracassam quando essa interface é feita sob medida para nossas necessidades, quando agencia as generalidades do momento, quando nos oferece um mundo que sabe que aceitaremos, por já tê-lo visto na televisão. A má literatura nada faz, nada muda, não educa as emoções, não redesenha circuitos interiores – fechamos o livro com a mesma confiança metafísica na universalidade de nossa própria interface que tínhamos ao abri-lo. Mas a grande literatura, esta o obriga a se submeter à sua visão. Você passa a manhã lendo Tchecov e, de tarde, dando uma volta na vizinhança, o mundo se tornou tchecoviano (…). Nunca li Zadie Smith, uma das mais festejadas jovens escritoras inglesas, que teve seus dois primeiros romances, “Dentes brancos” e “O caçador de autógrafos”, lançados no Brasil pela Companhia das Letras. Admito que, quando a imprensa começa a bater demais na tecla do “jovem gênio”, desconfio de marquetagem – quase sempre com razão. Mas com este longo e original ensaio sobre o que vem a ser literatura (acesso livre,…

Tempo, tempo, tempo, tempo
Posts / 31/12/2006

Tempo físico e mental para ler “As mil e uma noites”, “Dom Quixote”, “A comédia humana”, “Guerra e paz”, “Em busca do tempo perdido”, “O quarteto de Alexandria”, “O Senhor dos Anéis”, “O tempo e o vento”, as aventuras completas de Maigret, as obras reunidas de Pynchon, toda a saga de Sandman, Mônica e Cebolinha unabridged – todos estes, um ou outro deles, nenhum, desde que sem sombra daquela sensação de correr contra o tempo para cumprir tarefas. Pelo puro prazer de pular fora do tempo. É o que deseja o Todoprosa a todos os seus leitores em 2007, aproveitando o mote para avisar que vai dar um tempo: o blog volta a ser renovado dia 15 de janeiro. Até lá.

Alguns livros estrangeiros do ano
Posts / 29/12/2006

Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), do qual publiquei um trecho em Primeira Mão aqui, não teve na imprensa literária brasileira a acolhida que merecia. Houve quem o condenasse a nota de colunão, depois se arrependesse. Isso talvez se explique em parte pela força impressionante de uma narrativa que vai para duzentos lados ao mesmo tempo, confundindo o leitor apegado a eixos mais fixos. Romance complexo e excessivo, estilhaçado mas coeso, trágico mas engraçadíssimo, a obra-prima desse chileno que morreu precocemente na Espanha em 2003 é povoada de dezenas de personagens, quase todos, curiosamente, poetas – e menos curiosamente, considerando que Bolaño viveu no país, mexicanos. Engajam-se em disputas às vezes surdas, às vezes escancaradas sobre qual seria a voz capaz de redimir, com seu canto, todo um continente desgraçado – o nosso. Ou estarão apenas atrás do ouro-de-tolo da glória? A ingenuidade dessa fé juvenil no poder da literatura é contrabalançada com folga por um desencanto de gelar a espinha, os dois pólos entre os quais vagam os “detetives” do título. Sua busca de romance metapolicial os leva a errar pelo mundo, arrastando, sempre um ou dois passos atrás, o leitor boquiaberto. Para mim, o livro…

Alguns livros brasileiros do ano
Posts / 28/12/2006

Existe uma segunda vantagem em tentar acompanhar o turbilhão de lançamentos que comentei na nota abaixo: diante da tarefa de eleger os livros mais destacados do ano, basta pescar na memória aqueles que conseguiram fugir do campo gravitacional dessa algaravia-láctea, suspendendo a impaciência e a exasperação da leitura para instaurar seu próprio tempo. Ah, o critério é subjetivo? Evidente que é. O Todoprosa nunca foi outra coisa. (Existe mesmo quem seja?) Os títulos à altura da façanha não foram tantos assim. Em meio ao borrão de velocidade que Thomas de Quincey, com uma argúcia que soa deliciosamente ingênua nestes tempos eletrônicos, identificou no futuro da humanidade ao contemplar em meados do século XIX a carruagem do correio inglês, os livros que carregam suas próprias cápsulas de tempo flutuam nítidos na memória do leitor que leu muito, leu demais, mas ainda se recusa a abrir mão do prazer como princípio básico da brincadeira. Não houve livro brasileiro de ficção que eu tenha lido com mais gosto este ano do que Mãos de Cavalo (Companhia das Letras), de Daniel Galera, resenhado na época aqui. Não estou dizendo que seja uma obra-prima, uma obra irretocável. Uma leitura ranzinza identifica nele pelo menos um…

Zeitgeist 2006
Posts / 27/12/2006

Em 2006 eu li muito, talvez nunca tenha lido tanto. Não é uma experiência de todo positiva. Ler por obrigação, tentando acompanhar o ritmo cada vez mais desembestado dos lançamentos, deve trair algum princípio formador do gosto pela leitura, desses que ficaram perdidos na pré-história da vida adulta. Tem algo de heresia nessa exasperação, nessa velocidade, e outro tanto de mau gosto e barbárie. Não me queixo. É até possível – embora por enquanto seja apenas uma suspeita a ser ponderada com calma em 2007, eis mais uma resolução para a lista – que tal modo de ler tenha a virtude de reproduzir numa escala individual a aceleração do fluxo de informações que é uma marca do nosso tempo, com todos os penduricalhos da diluição geral dos sentidos, da atenção curta, da impaciência do leitor etc. E por que isso seria uma virtude? Sei lá – porque mergulhar de forma suicida no Zeitgeist deve servir para alguma coisa. Nem que seja para descobrir onde fica o botão que desliga essa joça.

Nabokov, mestre da auto-reflexão
Posts / 25/12/2006

“Mestre da ficção auto-reflexiva”, assim já se chamou Vladimir Nabokov (São Petersburgo, 1890-Montreux, Suíça, 1977). A verdade é que este escritor genial que estava convencido de o ser criou um estilo que, se com certeza é único, paradoxalmente fecundou de maneira extensa a narrativa norte-americana que não depende exclusivamente do realismo. Mesmo assim, Nabokov é um detalhista consumado; a quantidade de gestos, trejeitos e outras coisas extraídas da realidade que utiliza é impressionante; verdadeiramente fascinante é o modo pelo qual as transmuta em literatura, porque é tão minucioso ao selecionar o que seu olhar observa como ao transpor tudo isso para o território da imaginação. O constante fluxo de imagens em sua prosa é resultado de uma poderosa reflexão sobre as qualidades expressivas da linguagem, pois, como assinala seu biógrafo com acerto, “só quando a mente tenta olhar além da generalização ou do lugar-comum as coisas começam de verdade (o grifo é meu) a se tornar reais, individuais, detalhadas, diferenciadas umas das outras”. O melhor realismo seleciona, para o imitar, o que considera significativo da realidade; Nabokov dá a sensação de operar de modo inverso, isto é: só aceita a realidade que sua imaginação iluminou previamente; sua magia – ele…

O melhor dos contos de Natal
Posts / 24/12/2006

O “conto de Natal” é um subgênero mortífero. Se for muito natalino, dificilmente escapa de ser má literatura. Se não for nada natalino, pode até ser boa literatura, mas conto de Natal não mais será. Por isso, de vez em quando nessa época eu releio e renovo minha admiração por “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles, o melhor conto natalino que conheço, publicado no livro “Antes do baile verde” (1970). Para ler ou reler, é só clicar aqui. Bom Natal para todos.

Começos inesquecíveis: Bret Easton Ellis
Posts / 23/12/2006

“Você vai causar uma ótima impressão.” Esta é a primeira linha de Lunar Park e na sua concisão e simplicidade deveria supostamente ser um retorno à forma, um eco, da frase de abertura do meu primeiro livro, Abaixo de zero. “As pessoas têm medo de mudar de pista nas vias expressas de Los Angeles.” Desde então, as frases de abertura dos meus livros – não importa o quanto artisticamente compostas – tornaram-se supercomplicadas e ornamentadas, com uma ênfase pesada e inútil nas minúcias. Que fique claro: o começo de “Lunar Park” (Rocco, 2006, tradução de Aulyde Soares Rodrigues e Maira Parula) parece ser mais inesquecível para seu próprio autor, o americano Bret Easton Ellis, do que para o leitor. Paciência. Uma seção como esta não poderia deixar passar um início de romance feito de inícios de romance, numa apoteose metalingüística que, se não me deu vontade de ler o livro, tem lá o seu engenho – ainda que cabotino. De Ellis, li nos anos 80 o bom “Abaixo de zero”, que o transformou no jovem da moda nas letras americanas, e nos anos 90 “O psicopata americano”, tão equivocado que me fez desistir do sujeito.

Qual foi o livro mais superestimado do ano?
Posts / 21/12/2006

A idéia foi roubada de um post do blog de livros do “Guardian”, blog que foi uma das melhores notícias da – em geral mais louvada do que merece – blogosfera literária em 2006: eleger o livro mais superestimado do ano. Soa antipático? Soa, claro. Uma antipatia à moda inglesa. Mas não deixa de ser uma forma inteligente de retrospectiva. Ao inverter os sinais habituais em busca de identificar aquele livro que ocupou mais espaço em nossas vidas do que – percebemos claramente agora – fazia por merecer, estamos refletindo sobre o passado recentíssimo e nos imunizando contra uma praga comum nas listas que proliferam nesta época do ano, a do “vamos dar uma força para o Zé”. No blog inglês, melhor do que o post em si foi a resposta que ele provocou nos leitores, cada um em busca do seu livro superestimado de eleição. Mãos à obra, portanto, moçada. Fica aqui a minha contribuição: “Mastigando humanos”, de Santiago Nazarian (Nova Fronteira), foi tratado por parte substancial de nossa imprensa literária como um livro de originalidade lancinante, apenas por ser narrado por um jacaré. O papagaio de Verissimo chegou poucas semanas depois, e com prosa bem melhor, mas não…

Bioy, traidor de Borges?
Posts / 20/12/2006

“Borges”, de Adolfo Bioy Casares, é um livro monstruoso e de alguma forma heróico. Tem a descortesia de somar 1.663 páginas, que podiam ter sido reduzidas, nas mãos de um editor menos preocupado em parir um monumento, facilmente a 600. A maior parte das entradas desse extenso e excessivo diário de vida são listas de pessoas que jantaram na casa de Bioy ou compareceram a um coquetel da sociedade de escritores argentinos. O excesso de páginas é ainda mais aterrador quando se pensa que os protagonistas do livro eram, com justiça, famosos como fanáticos da concisão. (…) Não indicado para almas sensíveis, Borges e Bioy destróem em poucas frases toda a literatura espanhola depois de Quevedo, e Eliot, e Pound, e Aragon, e Sartre, e Eluard, e Beckett, e Neruda, e Mistral, e Camões, e naturalmente Arlt, Sábato (um dos grandes personagens cômicos do livro), Cortázar… O articulista Rafael Gumucio, do suplemento literário do jornal chileno “El Mercurio”, defende a tese de que Adolfo Bioy Casares traiu seu grande amigo e irmão literário, Jorge Luis Borges, ao manter um diário tão minucioso de sua convivência. A traição estaria na exibição de um homem prosaico, fofoqueiro, palavroso, às voltas com as…

A redenção de Ian McEwan
Posts / 19/12/2006

Nada melhor para combater o baixo astral de uma acusação de plágio do que publicar um belo texto na “New Yorker”. Ian McEwan sabe disso. A revista adianta um trecho do próximo romance do autor inglês, On Chesil Beach, a ser publicado em junho – aqui. Recomendo efusivamente. A descrição da tensa lua-de-mel de Edward e Florence, ambos virgens, numa década de 60 que ainda não tinha dito com todas as letras a que viera, é puro McEwan na mescla de paisagens interiores e ambientação histórica. E o sexo, com todos os seus conflitos, é quase tão bom – embora bem menos gratificante – quanto o da inesquecível cena da transa na biblioteca em “Reparação”.

O pai de Pamuk
Posts / 18/12/2006

Em 2000, dois anos antes de morrer, o pai do escritor turco Orhan Pamuk lhe deu uma mala cheia de escritos que, literato amador, acumulara ao longo da vida. As cenas tensas que se desenrolaram em seguida foram lembradas por Pamuk em seu discurso de agradecimento do Nobel de Literatura, parcialmente publicado no fim de semana pelo “Guardian” – acesso livre, em inglês, aqui. A primeira coisa que me manteve afastado do conteúdo da mala foi o medo de que eu pudesse não gostar do que ia ler. Como meu pai sabia disso, tomara a precaução de fingir que não levava aquilo a sério. Depois de trabalhar como escritor por 25 anos, era doloroso para mim perceber isso. Mas eu não queria ficar irritado com ele por ter fracassado em levar a literatura a sério (…) Meu verdadeiro medo, a coisa crucial que eu não queria saber ou descobrir, era que ele pudesse ser um bom escritor. É impressionante a semelhança entre a experiência pungente relatada por Pamuk e aquela que inspirou ao inglês Hanif Kureishi seu livro “No colo do pai” – comentado aqui embaixo, na nota de 6/12.

Começos inesquecíveis: Lúcio Cardoso
Posts / 17/12/2006

DIÁRIO DE ANDRÉ (conclusão) 18 de… de 19… – (…meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas… O início de “Crônica da casa assassinada”, romance lançado em 1959 pelo escritor mineiro Lúcio Cardoso (Civilização Brasileira, edição comemorativa dos 40 anos da obra, equivalente à 12a, 1999),…

Crichton, a literatura como vingança
Posts / 14/12/2006

Acertos de contas do gênero não são novos, e confesso até já ter brincado com a idéia de me vingar de uma ou outra pessoa nefasta da vida real por meio da ficção – embora, felizmente, não tenha levado adiante planos tão mesquinhos. Mas o que o best-seller Michael Crichton, de “O Parque dos Dinossauros”, fez em seu último livro, Next, bate todos os recordes. O caso é contado no “New York Times” de hoje (aqui, mediante cadastro gratuito) e pode ser resumido assim: este ano, um repórter de política formado em Yale e baseado em Washington, chamado Michael Crowley, escreveu um artigo criticando Crichton com violência por suas posições políticas conservadoras; em Next, um personagem secundário chamado Mick Crowley, colunista político formado em Yale, baseado em Washington e – detalhe infame – portador de um pau pequeno, é preso por estuprar um menino de dois anos, “ainda de fralda”. O mesmo nome, a mesma universidade, a mesma cidade, a mesma profissão, não se sabe se a mesma anatomia. E o mais imperdoável dos crimes. Tudo indica que Crichton pirou.

The book is on the table
Posts / 12/12/2006

Lucas Murtinho, leitor e comentarista habitual aqui do Todoprosa e titular do blog Bom dia, França, ganhou o sorteio de um exemplar autografado do meu romance “As sementes de Flowerville”. Obrigado pela idéia, Saint-Clair. Ainda não foi desta vez.

O romance é fraco, mas a bibliografia…
Posts / 11/12/2006

Uma reportagem de Julie Bosman no “New York Times” (em inglês, mediante cadastro gratuito) discute a moda anglo-americana – pois é de moda que se trata – das longas bibliografias em livros de ficção. A coisa tem atingido níveis ridículos. O novo de Norman Mailer (veja nota abaixo), um romance sobre a infância de Hitler, traz uma lista de 126 títulos e autores consultados por ele. Michael Crichton, mais modesto, fecha a conta em 36 livros, mais 12 artigos e 12 endereços de internet. E a polêmica envolvendo os empréstimos feitos por Ian McEwan em “Reparação” deve pôr ainda mais lenha nessa fogueira. Há quem diga que tudo não passa de exibicionismo dos autores, de uma forma de impressionar o leitor: “Vejam como sou culto”, estariam dizendo. Críticos mais benevolentes falam numa tentativa de trazer para a ficção parte da respeitabilidade acadêmica das obras de não-ficção. E desde quando a ficção precisa disso? Uma listinha razoável de agradecimentos costuma cair bem, sobretudo quando se trata de reconhecer uma dívida palpável com outro autor, mas convém ir com calma. A moda, que eu saiba, ainda não desembarcou por aqui. Questão de tempo?

Começos inesquecíveis: Rodrigo Lacerda
Posts / 10/12/2006

Eu, Valfredo Margarelon, subscrevo esta declaração no intuito de recolocar a justiça acima dos boatos e restaurar a fachada honrosa do brasão de minha família, sordidamente maculada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês. Meu espírito simples, desabituado à lida com as palavras, vem a público para desmentir as ignominiosas calúnias feitas contra minha prima, Maria Margarelon, por um desclassificado de nome João Manningham, em conluio com o autor teatral Guilherme Shakespeare, integrante da companhia Homens do Lorde Camarista, e outro chamado Ricardo Burbage, ator na mesma companhia. Juntos, os três espalharam boatos deturpados e desonrosos, que alteram o curso da verdade e mancham a honra de minha prima e irmã de criação. Eu afirmo, perante Deus e a justiça real, que tais aleivosias nasceram de suas mentes imundas e tiveram divulgação a partir de tavernas e bordéis, sítios tão infectos quanto indecorosos. Provarei aqui como sua versão dos fatos é caluniosa, além de muito deturpada pela arrogância que caracteriza o círculo teatral e os que nele perambulam. O primeiro parágrafo anuncia com todas as letras a delícia que é a novelinha farsesca “O mistério do leão rampante” (Ateliê Editorial, 1995), livro de estréia…

Quando o resenhista é amigo do tio da ex-namorada do…
Posts / 08/12/2006

Nos suplementos literários da América do Norte, nada importa mais do que o conflito de interesse. Ele deixa os editores temerosos e os autores amargos. Ninguém se queixa se os resenhistas não sabem escrever, pouco entendem de seus temas, põem os leitores para dormir ou superestimam absurdamente a qualidade de um livro. Mas se existe uma chance de que a violenta demolição promovida por Bruce do romance de Samantha tenha sido motivada pela resenha podre que o marido de Samantha fez do livro de Bruce seis anos atrás, aí é um escândalo. Trata-se de uma área popular de polêmica, em parte porque é uma questão literária que até os iletrados acham que entendem. Ano passado, o “Washington Post” publicou um abjeto pedido de desculpas por ter permitido que Marianne Wiggins falasse mal do romance de John Irving, Until I find you. Irving é amigo do ex-marido de Wiggins, Salman Rushdie. O excelente artigo dela passou longe de ser a única crítica negativa do livro. Não importa. Os editores do “Post” decidiram que não deviam ter confiado nela para lidar honestamente com o romance do amigo de seu ex-marido. O artigo (acesso livre, em inglês) de Robert Fulford no jornal canadense…

O Hitler de Mailer
Posts / 07/12/2006

O primeiro romance de Norman Mailer em mais de uma década, The castle in the forest (“O castelo na floresta”), com lançamento marcado para 23 de janeiro e já à venda na Amazon, abre o artigo sobre literatura – chamado, numa tradução de telemarketing, “O que os americanos estarão lendo”, não disponível online – da edição em que a “Economist” faz suas previsões para 2007. Mailer puxa a fila de apostas da revista, seguido de Dan Brown e J.K. Rowling, o que não é pouco em termos de prestígio jornalístico. Mas será que tanta gente vai se interessar? Provavelmente, sim. Manchetes, pelo menos, devem ser garantidas: o novo livro do autor de “A canção do carrasco” conta a história de uma família austríaca problemática ao longo de três gerações, até o nascimento de… Adolf Hitler, ele mesmo. Parido o menino, Mailer acompanha seu crescimento pelos olhos de Dieter, um demônio escalado pelo próprio Satã para estimular o futuro ditador nazista no caminho do Mal Absoluto. Instigante? Deve haver quem goste. Eu, que nunca tive paciência para a mescla maileriana de alta ambição literária com baixo marketing, acho que vou passar.

Pai e filho
Posts / 06/12/2006

Pelo que sei, os escritores são os únicos artistas que não têm uma tradição de aprendizado. Por meio de leitura, educação e conversa, eles têm que criar seus próprios cânones e objetivos. O que um professor poderia fazer? Já notei que jovens escritores freqüentemente supõem que a livre produção de suas próprias imagens e sentimentos machucará os outros, que sua criatividade é uma forma de agressão a que outros – principalmente os pais – não sobrevivem. Um professor pode mostrar a eles que a sobrevivência é provável, que há um vínculo forte e útil entre agressividade e criatividade. Além disso, os escritores precisam de bons leitores, amigos que compreendam o que eles estão tentando fazer. Isso é essencial, pois se você disser a alguém que pretende se tornar artista, receberá uma resposta dolorosa e complexa. A outra pessoa também quer ser artista. Os outros estão a ponto de começar, mas ainda não deu. E, claro, você não parece ser artista, para eles. Quanto talento você acredita ter? Crê realmente que os outros estejam interessados em você? O escritor inglês Hanif Kureishi, roteirista do filme “Minha adorável lavanderia” e autor do romance “O buda do subúrbio”, produz algumas das reflexões mais…

Juó Bananére x Mandrake
Posts / 05/12/2006

Na área de comentários da nota abaixo, o leitor Felipe Lenhart lembra uma discussão que andou empolgando alguns comentaristas do Todoprosa há pouco tempo: se a literatura brasileira teve ou não teve força para produzir personagens que se tornassem ícones culturais, parte do nosso imaginário, referências para a população em geral – e não apenas para aquela meia dúzia de apaixonados por literatura. Felipe justifica sua volta ao assunto com a edição de dezembro da revista “Entrelivros”, que elege os “50 personagens que são a cara do Brasil”. E pede minha opinião. Não sei se ele se refere à minha opinião sobre a escolha da revista ou sobre a questão de termos ou não termos personagens tão fortes em nossa literatura – então comento ambas. Minha opinião é que temos personagens emblemáticos aos montes: Macunaíma, Jeca Tatu, Emília, Capitu, Policarpo Quaresma, Diadorim, Gabriela e Iracema são alguns. A penetração social deles seria maior se não fosse contida pela grave limitação do nosso letramento, mas não faz sentido culpar os escritores por isso. Quanto à lista da “Entrelivros”, fica claro que não se trata de relacionar apenas os personagens que transbordaram dos livros para impregnar o imaginário nacional – desconfio que…

A benevolência
Posts / 04/12/2006

A lista dos vinte melhores livros do ano da revista francesa “Lire” é encabeçada por – adivinhou? Pois é: o romance “Les Bienveillantes”, de Jonathan Littell, best-seller que acumulou o Goncourt, o grande prêmio da Académie Française e um volume absurdo de especulações contra e a favor. Picaretagem? Obra-prima? Marketing puro? Foi Littell mesmo quem escreveu aquilo? Bom, vale registrar que a benevolência do – digamos – sistema literário francês vai se mostrando praticamente unânime.

Começos inesquecíveis: Jeffrey Eugenides (de novo)
Posts / 03/12/2006

Eu nasci duas vezes: primeiro como uma menininha, num dia excepcionalmente despoluído de Detroit, em janeiro de 1960; e depois outra vez como um rapaz adolescente, num ambulatório de emergência perto de Petoskey, Michigan, em agosto de 1974. Os leitores especializados talvez tenham esbarrado comigo no estudo do dr. Peter Luce, “Identidade sexual em pseudo-hermafroditas com 5-alfa-redutase”, publicado no Journal of Pediatric Endocrinology em 1975. Ou talvez tenham visto minha fotografia no capítulo 16 do hoje tristemente ultrapassado Genetics and Heredity. Sou eu lá na página 578, sem roupa, diante de um gráfico que indica minha altura, com uma tarja preta sobre os olhos. É a primeira vez que repito um autor nesta seção, mas o americano de origem grega Jeffrey Eugenides merece. Como o início de “Virgens suicidas”, narrado na primeira pessoa do plural, o de “Middlesex” (Rocco, 2003, tradução de Paulo Reis) também usa o velho mas eficaz expediente de deixar entrever o fim de sua história, e que história – mas apenas o suficiente para que o leitor não consiga mais abandonar o livro antes de descobrir como chegaremos lá.

Roubos, empréstimos e homenagens
Posts / 02/12/2006

Quando Brahms compôs sua primeira sinfonia, foi acusado de usar um grande tema da Nona de Beethoven. Sua resposta foi que qualquer idiota podia ver isso. A frase do romancista inglês Julian Barnes não se aplica ao caso de Ian McEwan, que passou longe de usar um “grande tema” de outro autor em “Reparação” (veja nota abaixo). Barnes escreveu isso em defesa de outro compatriota, Graham Swift, acusado em 1997 de plagiar ninguém menos que William Faulkner. Quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto pode se interessar por este artigo de Jan Dalley no “Financial Times” (acesso livre, em inglês), que recupera a tirada de Barnes/Brahms. O caso de Yann Martel e sua mão grande no bolso do brasileiro Moacyr Scliar também é lembrado lá, mas sem que o escritor gaúcho mereça uma citação nominal. Feio. Até por não ter o nomão de Beethoven ou Faulkner, o que Scliar sofreu foi mais grave.

Ian McEwan e nós
Posts / 01/12/2006

Quando li a notícia de que havia uma suspeita de plágio – sem processo na justiça – pairando sobre um livro do inglês Ian McEwan, e que este livro era nada menos que o magnífico “Reparação” (Companhia das Letras, 2002, tradução de Paulo Henriques Britto), minha primeira reação foi decidir que não trataria do assunto aqui. Factóide, pensei, ao saber que a acusação se baseava em semelhanças entre apenas uma das quatro partes do romance e um livro de memórias lançado em 1977. Mais especificamente, entre algumas cenas passadas num hospital de Londres durante a Segunda Guerra, onde Briony, a protagonista, trabalha como enfermeira, e um livro chamado No time for romance, de Lucilla Andrews, que morreu mês passado. Este livro – o detalhe é fundamental – foi citado por McEwan como uma importante fonte de pesquisa nos agradecimentos que constam da edição inglesa de “Reparação” (limados da brasileira). Tudo isso é dito no artigo em que o escritor se explicou, a meu ver de forma convincente, no “Guardian” da última segunda-feira. Caso encerrado, então? Acho que não. O que me faz entrar finalmente no assunto não é o debate sobre a legitimidade dos “empréstimos” literários e o que os…

Kafka + Kafka
Posts / 28/11/2006

O acaso promove uma espécie de festival Franz Kafka (1883-1924) nas livrarias brasileiras: chegam ao mercado ao mesmo tempo dois lançamentos que trazem abordagens opostas, embora igualmente apaixonadas, do escritor tcheco. Uma é pop-cabeça e se destina a iniciantes em sua obra. A outra, papo-cabeça, só será devidamente apreciada por quem já leu tudo ou quase tudo escrito por esse atormentado judeu de Praga, um dos maiores escritores do século XX. “Kafka de Crumb” (Relume Dumará, tradução José Gradel, 176 páginas, R$ 34,90) é uma parceria do famoso desenhista de Fritz the Cat com o escritor David Zane Mairowitz. O título original do livro, Introducing Kafka, deixa clara sua intenção: apresentar ao leitor em linhas gerais o universo do autor, um mundo entendido aqui como mistura de vida, contexto histórico-cultural e obra. Assim, a pequena biografia ilustrada de Franz é entremeada de breves adaptações simplificadas de seus principais livros. Apontar o dedo em riste para o que tem de superficial um livro desse tipo seria fácil, mas tolo. “Kafka de Crumb” é saboroso até para kafkianos cascudos. Parte de seu mérito funda-se no texto de Mairowitz, que consegue ser sucinto e didático sem subestimar a inteligência do leitor. Mas o…

Real x virtual, 57o round
Posts / 27/11/2006

O repórter Wilson Tosta conta no “Estadão” deste fim de semana que, segundo números do IBGE, a presença da internet avança no Brasil enquanto encolhe a das livrarias. A parcela de municípios servidos por provedores de acesso à rede passou de 16,4%, em 1999, para 46%, em 2005. Já a de cidades que têm pelo menos uma livraria encolheu, no mesmo período, de 35,5% para 30,93%. O levantamento traz notícias de outros altos e baixos da paisagem cultural brasileira, do bom desempenho das bibliotecas públicas ao panorama desolador das salas de cinema. Acesso livre ao texto aqui.

Começos inesquecíveis: Rubens Figueiredo
Posts / 24/11/2006

Não não. Papel, não. Ninguém vai falar de papel aqui. Não é coisa que se fale. Papel. Mas já reparou como tem papel por aí, espalhado, empilhado, grampeado, no mundo inteiro, um mundo de papel. Olha bem. Papel de parede, lenço de papel, papel-moeda, toda hora a gente está pegando ou olhando para um papel. Que nem você aí parado. E não precisa nem se mexer porque é aqui perto, bem pertinho, nessa página mesmo, que tem uma pessoa a um passo e a poucas páginas da maior complicação da sua vida por causa de um punhadinho bobo de papel. Não conheço muita gente que concorde comigo, mas lamento que Rubens Figueiredo tenha abandonado tão definitivamente o estilo efervescente de seus três primeiros livros, “O mistério da samambaia bailarina”, “Essa maldita farinha” e “A festa do milênio” – em que brincava desvairadamente com a linguagem em farsas rebuscadas e divertidíssimas –, para se dedicar aos meios-tons melancólicos de obras como “As palavras secretas”, “Barco a seco” e “Contos de Pedro”. Sim, foi esta segunda fase, sem dúvida competente, que tornou Rubens respeitado pela crítica brasileira. Mas eu, que sempre tive medo de confundir seriedade com sisudez, confesso sentir falta de…

NYT elege os “cem mais” de 2006
Posts / 23/11/2006

Philip Roth e John Updike, sem surpresa nenhuma, deram as caras. Thomas Pynchon e Monica Ali também, embora tenham merecido resenhas bem menos que entusiasmadas ? indicando que na seleção dos ?cem livros notáveis do ano? o julgamento propriamente literário não ocupou o centro do quadro. Novos nomes? Claro: Gary Shteyngart, Nell Freudenberger, Marisha Pessl? Não surpreende que quase todo mundo tenha o inglês como primeira língua na lista de livros do ano (mediante cadastro gratuito) do ?New York Times?, escolhidos entre os que foram resenhados pelo jornal desde dezembro do ano passado em duas categorias, ficção & poesia e não-ficção. Estamos falando, afinal, de um país que chama um campeonato esportivo nacional de World Series. Kiran Desai, a indiana que ganhou o Man Booker, não chega a ser uma das exceções que confirmam a regra: mora nos EUA desde a adolescência. É meio incômodo ? e provavelmente sintomático do isolacionismo da era Bush, por mais que o NYT se oponha a ela ? que ?o mundo lá fora? não vá muito além de um Michel Houellebecq aqui, uma Irène Némirovsky acolá. Com as migalhas que caem da mesa, esboça-se a nova geopolítica literária vista do Hemisfério Norte. A África…

Milton Hatoum (surpresa!) ganha o Portugal Telecom
Posts / 22/11/2006

Está ficando monótono. Depois de faturar o Jabuti, o romancista amazonense Milton Hatoum, autor de “Cinzas do Norte”, foi anunciado esta noite, em cerimônia realizada em São Paulo, como o grande vencedor do 4o Prêmio Portugal Telecom, o mais importante da literatura brasileira, no valor de R$ 100 mil. Milton, ficcionista de mão cheia, merece os prêmios em série. A biodiversidade cultural brasileira, talvez não. A repetição lembra o caso recente do americano Jonathan Littell, cujo “Les Bienveillantes” ganhou na França, quase no mesmo fôlego, o grande prêmio de romance da Académie Française e o Goncourt. Em segundo lugar no Portugal Telecom (R$ 35 mil) ficou o poeta Alberto Martins, autor de “História dos ossos”. Em terceiro (R$ 15 mil), Ricardo Lísias, pelo romance “Duas praças”. Leia a notícia da Agência Estado aqui.

Livro favorito? ‘O alquimista’
Posts / 21/11/2006

Numa oficina literária, recentemente, todos fomos instados a levar nosso livro favorito. Íamos balançando a cabeça, sabidos, à medida que desfilavam os suspeitos de sempre: Orwell, Waugh, McEwan, ?O guia do mochileiro das galáxias?. E então alguém brandiu ?O alquimista?, de Paulo Coelho. É um bom livro para ler quando se está pensando em mudar de vida, disse sua defensora. Devo confessar logo de cara que ?O alquimista? não funciona para mim: não consigo pensar numa razão para alguém sequer terminar de lê-lo, muito menos para elegê-lo seu livro favorito. Mas, pondo meu preconceito de lado, ainda assim me parece que ?ser um bom livro para ler quando se está pensando em mudar de vida? é uma estranha razão para se escolher um favorito (claro, talvez ela tivesse outros motivos também, mas esses me escaparam). A nota que Sarah Burnett lançou hoje no animado blog de livros do ?Guardian? tinha um propósito singelo: convocar o leitor a nomear seu próprio livro favorito na área de comentários (sim, o pessoal atendeu em peso). Mas eu, que acredito tanto em ?livro favorito? ? no singular ? quanto em Papai Noel, me diverti mesmo foi com a participação especial do nosso best-seller canarinho,…

Vida & arte – nesta ordem
Posts / 20/11/2006

“Sugerir que Jane Austen era lésbica ou Sófocles um travesti”, escreve o teórico da literatura Terry Eagleton, “é a forma encontrada por aqueles que não têm nada especialmente brilhante a dizer sobre a ironia ou o destino trágico para forçar sua entrada na cena literária. É um pouco como ganhar uma reputação de geógrafo eminente por achar o caminho do banheiro.” A literatura, em outras palavras, é grande demais, independente demais, importante demais para ser aprisionada nos domínios da vida. E de qualquer maneira, o que exatamente é tão importante na vida? O poeta John Ashbery uma vez me disse que nunca quis escrever sobre nenhum dos assuntos normais da vida porque “as mesmas coisas acontecem a todo mundo”. Há uma desconexão entre arte e vida que deveria nos pôr em alerta contra invasões morais ou psicológicas. Orwell se perguntou se nossos sentimentos em relação a Shakespeare seriam diferentes caso fosse descoberto que ele tinha o hábito de atacar menininhas sexualmente. Bem, seriam? A resposta, parece, é sim. O ótimo artigo de Bryan Appleyard no “Sunday Times” (acesso livre, em inglês, aqui) reflete sobre a fascinação do nosso tempo com a vida dos escritores, traduzida no boom das biografias, obras…

Rubem Fonseca bom é o outro
Posts / 19/11/2006

O melhor livro rubem-fonsequiano da temporada não é a coletânea de contos “Ela e outras mulheres” (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 34), a última e desvitalizada cria do autor de obras-primas como “A coleira do cão” e “Feliz ano novo”. É o romance “O que contei a Zveiter sobre sexo” (Record, 336 páginas, R$ 44,90), de um gaúcho radicado no Rio de Janeiro chamado Flávio Braga. O título é o que o livro de Braga tem de pior. Deve-se desconsiderá-lo. Além de palavroso e sem sal, esbarra no inconveniente de que o tal Zveiter, psicanalista a quem o narrador confessa suas aventuras, não chega a se constituir como personagem. Superado esse problema, o que o leitor encontra é um furioso, perturbador e engraçado romance picaresco em torno da compulsão sexual do priápico João. A comparação com Fonseca vai além da conveniência jornalística de juntar lançamentos que aliam afinidades temáticas e proximidade cronológica. Por acaso, quando saiu “Ela e outras mulheres”, eu tinha acabado de ler o livro de Braga e ainda refletia sobre o que ele tem de rubem-fonsequiano, no bom sentido – e tem muito. Mas só ao ler o novo do próprio Fonseca é que percebi o…

Começos inesquecíveis: Suzana Flag
Posts / 18/11/2006

– Você não vem? – Vou já, mamãe. Mas não foi: nem iria nunca. “Coitada de mamãe”, pensou, numa tristeza maior. D. Margarida não sabia, não desconfiava de nada. Se soubesse, se pudesse imaginar! Disse baixinho: “Daqui a pouco estarei morta”. E repetiu, como se custasse a acreditar: “Estarei morta”. Assim, com a morte rondando o seio da família, começam as peripécias rocambolescas de “Núpcias de fogo” (Companhia das Letras), o quarto folhetim escrito por Nelson Rodrigues com o pseudônimo de Suzana Flag. “O Jornal” publicou-o em capítulos em 1948. A primeira edição em livro só saiu em 1997.

Tony Rocco – cuidado com esse nome
Posts / 17/11/2006

A lição não está no curso de Raimundo Carrero (veja nota abaixo) ou em qualquer outro: escritores devem ter cautela ao batizar personagens, especialmente os vilanescos. Em seu romance policial Johnny come home, lançado este ano, o inglês Jake Arnott imaginou um ex-cantor de big band e atual gângster chamado Tony Rocco. Foi processado por danos morais por um ex-cantor de big band – e, parece, atual cidadão de bem – chamado… adivinhou, Tony Rocco. Derrota para autor e editora, sem muito papo. Não há chance para a defesa em casos assim. A notícia inspira um artigo bem-humorado de John Sutherland no “Guardian” de hoje – acesso livre aqui, em inglês – sobre os riscos do batismo de personagens e as formas como diversos autores lidaram com o problema ao longo da história. Em nossas oficinas de literatura, o máximo que se costuma adiantar nesse terreno é a recomendação de evitar que nomes semelhantes se embaralhem numa mesma trama: nada de José Carlos disputando namoradas com seu amigo João Carlos – a menos, claro, que a idéia seja confundir o leitor irremediavelmente. Com a indústria dos danos morais em franca expansão no mundo inteiro, pode ter chegado a hora de…

Raimundo Carrero: trabalhar, trabalhar, trabalhar…
Posts / 16/11/2006

Na 11a e última aula de sua oficina literária online no Portal Literal, o romancista pernambucano Raimundo Carrero, autor de “Os segredos da ficção” (Agir), faz um resumão do curso tomando como fio condutor a bibliografia comentada que usou nas aulas – aulas que também é possível revisitar no arquivo do site. O aproveitamento de “lições” desse tipo vai ser sempre idiossincrático, claro, ou não será aproveitamento algum. Há tópicos para assimilar, para refutar e para esquecer. No geral, porém, Carrero reflete com lucidez sobre o ofício de escrever ficção. Eis o ponto mais louvável de sua abordagem: o fato de tratar como ofício o que ofício é, sem dar bola para a mitologia da “irrefreável expressão do eu” que a era da internet, num curioso retrocesso, tanto reavivou. O autor de “Sombra severa” (Iluminuras) chega ao exagero de sustentar – como neste artigo publicado ano passado em NoMínimo, em resposta a uma crítica de Antonio Fernando Borges às novas gerações de escritores – que qualquer pessoa pode se tornar ficcionista, que talento é balela. Nesse ponto eu subo no caixote para discordar com a maior ênfase possível: acredito, como Nelson Rodrigues, que o sujeito precisa de talento até para…

Contra (ou a favor de) Pynchon
Posts / 14/11/2006

A revista Time e a Publishers Weekly desrespeitaram o embargo imposto pela editora Penguin à publicação de resenhas sobre o novo livro de Thomas Pynchon, Against the day (“Contra o dia”) – veja nota anterior do Todoprosa aqui. Faltando uma semana para o lançamento nos Estados Unidos, dia 21, quando finalmente as resenhas estarão liberadas, as duas publicações puseram suas críticas na rua. A da “Time”, naquele estilo antiintelectualista característico, compara o peso literal do volume de 1.085 páginas com o de uma torradeira e conclui que esta leva vantagem: faz torradas. O rompimento do tradicional acordo de cavalheiros entre editora e imprensa está provocando algum alvoroço, comenta Richard Lea no blog de livros do “Guardian”. Compreensível. Pynchon, autor de “O arco-íris da gravidade”, é um recluso que não fala, não se deixa fotografar e publica um livro por década – com muitas centenas de páginas, para compensar a longa espera. A expectativa que o cerca é sempre grande. A “Time” e a “PW” só fizeram ampliá-la um pouco mais.

Gore Vidal na igreja vazia
Posts / 13/11/2006

Nossa adorável, vulgar e humaníssima arte (o romance) está num de seus finais, se não estiver no fim. Mas isso não é motivo para não querer praticá-la, ou mesmo lê-la. De qualquer modo, como sacerdotes que já se esqueceram do sentido das preces que entoam, continuaremos por um bom tempo falando de livros e escrevendo livros, fingindo não notar, enquanto isso, que a igreja está vazia e os paroquianos foram embora para algum lugar a fim de venerar outros deuses, quem sabe em silêncio ou com novas palavras. A previsão pessimista sobre o futuro do romance é do escritor americano Gore Vidal, 81 anos, que está lançando nos Estados Unidos um novo livro de memórias, Point to point navigation: a memoir. Esse alarmismo soa batido em tempos internéticos, mas ganha frescor quando se sabe que o trecho faz parte de um ensaio, French letters, publicado em 1967. O prognóstico sombrio de Vidal é lembrado pelo resenhista Larry McMurtry em seu longo artigo (acesso livre, em inglês) sobre o novo livro do escritor para a última edição do “New York Review of Books”. Em 1967 eu tinha cinco anos. Hoje, aos 44, constato que a igreja, sem dúvida esvaziada, ainda tem…

Começos inesquecíveis: Antonio Tabucchi
Posts / 12/11/2006

Antes tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir ao hospital com uma barba de três dias, por favor, vá chamar o barbeiro, mora na esquina, é o senhor Manacés. Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a zeladora, o táxi já está na porta, seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada. Não importa, respondeu ele, sempre há tempo. Ajeitou-se na poltronazinha onde o senhor Manacés habitualmente lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesias de Sá-Carneiro. O singelo início da novelinha “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, do italiano Antonio Tabucchi (Rocco, tradução de Roberta Barni, 1996), talvez não seja memorável para qualquer um. É para mim. E o que vem em seguida não é menos: no hospital, Pessoa é visitado por um séquito de heterônimos antes de morrer.

James Ellroy: ‘Sou o maior’
Posts / 10/11/2006

Sou um mestre da ficção. Sou também o maior escritor policial que jamais viveu. Sou para o romance policial, especificamente, o que Tolstói é para o romance russo e Beethoven para a música. A declaração é de James Ellroy (veja nota abaixo, sobre “Dália Negra”), em entrevista publicada domingo passado pela revista do “New York Times”. Que marra, hein? Um pouco dessa autoconfiança – um pouco só, senão mandam buscar a camisa-de-força – não faria mal a alguns dos escritores que andam se digladiando aqui no blog.

A polêmica da vez
Posts / 09/11/2006

É boa a polêmica surgida entre Vinicius Jatobá e Gaston Gallimard na caixa de comentários da nota “Littell, Goncourt no bolso, é da Alfaguara”, aí embaixo. Boa, exaltada e complexa, mas no geral vejo uma dose maior de bom senso nos argumentos de Gaston. Tudo indica que a Alfaguara empregou bem seu dinheiro em Jonathan Littell – qualquer que seja o valor exato. Com a histeria internacional de público e crítica que cerca “As Benevolentes”, não é improvável que o investimento gere lucro. Quem sabe, até, muito lucro. Creio ser este o ponto fraco do retrato que Vinicius faz dos best-sellers – ralos de dinheiro que o autor brasileiro, se bem entendi, financia. Ora, best-sellers fazem dinheiro. É o que eles fazem, por definição. Exatamente de que forma isso seria ruim para o autor brasileiro aspirante? Na história da indústria editorial, pelo contrário, é recorrente que fenômenos comerciais financiem o ambiente de afluência em que bancar a publicação de meia dúzia de escritores duvidosos, “literários”, passa a ser encarado como um piquenique. Convém não esquecer que o negócio de livros é, como sempre foi, um negócio. Interessa ao ambiente intelectual como um todo que o negócio seja saudável. Comprar os…

Leia o livro. Não precisa ver o filme
Posts / 07/11/2006

Esta nota é destinada àquele cético que, ao topar numa livraria com a capa “cinematográfica” de “Dália Negra”, em que se vê Scarlett Johansson ombro a ombro com outras estrelas do elenco, tiver a – compreensível – tentação de classificar o (re)lançamento como um mero caça-níqueis destinado a atrair os pobres fãs do filme de Brian de Palma, que ainda está em cartaz, para uma literatura rasteira e oportunista. O cauteloso incauto deixará então de conhecer o melhor livro de James Ellroy, um dos mais originais e desconcertantes escritores do gênero policial da história. “Dália Negra” (Record, tradução de Cláudia Sant’Anna Martins, 3a edição, 432 páginas, R$ 45,90) é nada menos que uma obra-prima. O filme, infelizmente, não.

Littell, Goncourt no bolso, é da Alfaguara
Posts / 06/11/2006

O romance “Les bienveillantes” (veja nota de 27/10, abaixo), escrito em francês pelo americano Jonathan Littell, confirmou hoje sua condição de grande fenômeno literário do ano ao ganhar o prêmio Goncourt, o mais importante da França – aqui, em francês, a notícia do “Le Monde”. O livro, um tijolaço narrado por um ex-oficial nazista gay, já havia levado o Grande Prêmio de romance da Académie Française e tido seus direitos para os Estados Unidos vendidos por US$ 1 milhão. No Brasil, o Goncourt de Littell foi intensamente comemorado num casarão do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, hoje de manhã. Um leilão disputado por quatro grandes editoras brasileiras terminou com a vitória da Alfaguara, leia-se Objetiva. O valor não foi revelado – é de cinco dígitos – mas consta que Littell, 38 anos, que cuidou pessoalmente da escolha das editoras em todos os 16 países para os quais o livro foi vendido, levou em conta outros fatores além do valor financeiro.

Saramago salazarista
Posts / 06/11/2006

Chegou a hora de fazer a minha confissão. Eu pertenci à juventude salazarista, que se chamava Mocidade Portuguesa. Pertencíamos todos: alunos da instrução primária, do ensino secundário, do ensino superior, todos sem exceção. Era, por assim dizer, automático. Digo no livro como consegui escapar a usar o fardamento e creio que essa foi a minha primeira vitória contra o fascismo. Mais não podia fazer. E para a revolução ainda era cedo. Em entrevista (acesso livre) a Antonio Gonçalves Filho no “Estadão” de sábado, a propósito de seu novo livro, “As pequenas memórias”, José Saramago se solidariza com o alemão Günter Grass. Seu colega de Nobel confessou ter sido hitlerista aos 17 anos.

Madonna, Paul, Kylie e outros escritores
Posts / 05/11/2006

A avassaladora moda anglo-americana dos livros infantis escritos por celebridades – Madonna, Paul McCartney, Kylie Minogue, Gloria Stefan, Julie Andrews, Jamie Lee Curtis e Whoopi Goldberg são algumas delas – inspira um

Começos inesquecíveis: Julio Cortázar
Posts / 03/11/2006

Encontraria a Maga? Tantas vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia. Este é o começo “natural”, o do percurso de leitura que vai do capítulo 1 ao 56, do romance “O jogo da amarelinha” (Rayuela), lançado em 1963 pelo argentino Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 4a edição, 1982, tradução de Fernando de Castro Ferro). Há ainda, no mínimo, um segundo e ziguezagueante livro…

Flaubert ou não Flaubert?
Posts / 02/11/2006

O bigodudo da foto é Gustave Flaubert? Os especialistas se dividem – leia aqui, em francês, a reportagem do jornal “Le Monde”. O daguerreótipo de 1846 seria a imagem fotográfica mais antiga do autor de “Madame Bovary”, na época com apenas 25 anos. A imagem está indo a leilão na França no próximo dia 18, com lance mínimo de 40 mil euros – preço de coisa autêntica. O escritor inglês Julian Barnes, flaubertiano fanático, é o maior dos céticos: “Flaubert aos 25 anos? Com esse grau de calvície? E com essa silhueta delgada?”.

Da tradução como dever do Estado, etc.
Posts / 01/11/2006

Sem querer ser chato, acho que vale a pena levantar a questão do acesso. Para quem teve a oportunidade de aprender várias línguas, e tem acesso a boas edições, de grandes tradutores, vale reclamar de nuances nos textos traduzidos. Mas quando se trata de leitura, sou daqueles que costumam dizer sempre: “É melhor do que nada”. Cheguei a estudar Filosofia um ano, e lembro que muitas pessoas falavam mal da coleção “Os pensadores”. De fato, ela não traz as melhores traduções, mas não creio que atrapalhem estudantes do primeiro período. Concordo que é muito melhor ler Kant em alemão, mas devo esperar aprender a língua para fazê-lo? Comentário de Pedro — 31/10/2006 @ 1:58 pm Pedro, traduções, boas ou más, são fundamentais. Querer que uma obra só faça sentido no original é defensável para a poesia, mas para qualquer prosa, de filosofia a literatura, denuncia um elitismo alarmante. Além de um separatismo cultural no grau mais insano: “Jamais saberás o que disse Dostoiévski, até aprenderes russo”, a sentença pairaria sobre todas as cabeças não-russas da humanidade do primeiro ao último dia de suas vidas. É nesse mundo que vivem os inimigos da tradução. A tradução é uma necessidade humana básica,…

Tradução: visível ou invisível?
Posts / 31/10/2006

Minha escala em matéria de relações tradutor-autor oscila entre o zero absoluto, cujo protótipo foi Thomas Bernhard (o tradutor é um ser incompetente que faz um trabalho merecidamente mal pago), e Günter Grass, para quem seus tradutores são, como ele disse algumas vezes, a verdadeira razão para continuar escrevendo. Entre esses extremos eu situaria Salman Rushdie, que jamais interfere nas traduções de seus livros, mas responde em 24 horas qualquer consulta… Rushdie escreveu sobre Hitoshi Iragashi, seu tradutor japonês assassinado: “A tradução é uma espécie de intimidade, uma espécie de amizade, e por isso choro sua morte como choraria a de um amigo”. O resto dos escritores se situa em variadas alturas. Um DeLillo, por exemplo, está perto de Grass; um Kundera, mais próximo de Bernhard, ainda que com pretensões de entender de tradução. O bom artigo do espanhol Miguel Sáenz – tradutor de Grass e Rushdie, sorte dele – é um dos que debatem as agruras da tradução na última edição do suplemento Babelia, do “El País”. O assunto ganhou a capa do caderno, sob o título “O ofício invisível”. Invisível, claro, quando a tradução é boa. A visibilidade do tradutor é inversamente proporcional à qualidade de seu trabalho….

O escritor que era monge que era escritor
Posts / 30/10/2006

O relançamento de “O nariz do morto” (Civilização Brasileira, 384 páginas, R$ 44,90), livro publicado em 1970 por Antonio Carlos Villaça (1928-2005), dá à cultura brasileira a oportunidade valiosa de repor em lugar menos folclórico o nome do escritor carioca. Embora esse título, que costuma ser considerado seu melhor, tenha dado início a uma série de volumes de memórias como “O anel” e “Monsenhor”, entre outros, Villaça é mais conhecido – sem que para isso seja preciso lê-lo – como arquivo de anedotas dos bastidores da literatura brasileira do século XX, cuja intimidade freqüentou. Não é que tal juízo esteja errado. Apenas não faz justiça a um grande escritor. “O nariz do morto” acompanha a vida de Villaça do nascimento à idade adulta, com foco na inquietação espiritual que o levou a tentar a carreira religiosa, internando-se no Mosteiro de São Bento – apenas para sair correndo de lá, trinta quilos mais magro e mergulhado numa crise existencial que o acompanharia pelo resto da vida. Como monge, Villaça – ou Lelento, ou ainda Sigismundo, máscaras que ele vai assumindo ao longo da história – era um poeta. Como poeta, era monge. Nesse descompasso equilibrou sua vida. O livro foi definido…

Começos inesquecíveis: Marcel Proust
Posts / 28/10/2006

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. O começo inesquecível desta semana foi sugerido pelo leitor Rogério Martins. Talvez as linhas iniciais de “No caminho de Swann”, livro lançado em 1913 pelo francês Marcel Proust (1871-1922), não tenham grande impacto em si, mas entraram para a história por marcarem o início de uma aventura literária em sete volumes chamada “Em busca do tempo perdido” – uma das obras fundamentais do século XX. Numa nota aí embaixo, o bibliófilo José Mindlin confessou ter achado “No caminho de Swann” sonífero quando tentou encará-lo pela primeira vez – para, numa nova tentativa, tornar-se um proustiano de carteirinha. A tradução citada aqui é do poeta Mario Quintana, publicada pela Abril Cultural, sob licença da editora Globo, em 1982.

O fenômeno ‘Les bienveillantes’
Posts / 27/10/2006

O livro-sensação da Feira de Frankfurt, “Les bienveillantes” (“As benevolentes”), escrito em francês pelo americano Jonathan Littell, 38 anos, teve seus direitos de publicação nos Estados Unidos vendidos para a HarperCollins por US$ 1 milhão – notícia completa aqui, mediante cadastro gratuito. O romance, um tijolo de quase mil páginas, tem um narrador peculiar: ex-oficial nazista da SS, sem um pingo de arrependimento, homossexual. Na França, vendeu 280 mil cópias em um mês e meio. O sucesso inesperado obrigou a editora Gallimard a remanejar parte do papel que estava reservado para as reedições de Harry Potter. A obra está sendo disputada por quatro editoras brasileiras. O nome da vencedora deve sair na semana que vem. Em conversa com o Todoprosa, um dos editores que participam do leilão se referiu ao livro de Jonathan Littell – filho do escritor de espionagem Robert Littell – como “obra-prima”.

Mario de Andrade, lenda na web?
Posts / 26/10/2006

Shakespeare não seria blogueiro por estar muito ocupado, e Jane Austen por não entender a tecnologia, mas Daniel Defoe e George Orwell postariam (sim, há que se usar a palavra justa) uma nota atrás da outra, alegremente. O exercício, bobo mas divertido, sobre como se comportariam os clássicos da literatura inglesa na era da internet é feito pelo jornalista Robert McCrum no novo e vitaminado blog de livros do “Guardian” – que deu uma repaginada geral na sua versão online e merece uma visita. Fiquei pensando em quem, na história da literatura brasileira, teria aderido à blogagem se ela estivesse ao seu alcance. Machado de Assis, provavelmente sim, para comentar com ironia e fino texto os acontecimentos da Corte – mas teria que ser um blog pago, amadorismo não. Amador, e amantíssimo, seria Mario de Andrade, autêntica lenda na web: blogueiro caudaloso, incansável nos posts e generoso na troca de mensagens com dezenas de leitores simultaneamente. Oswald começaria bem, espirituoso, sucinto, mas dificilmente sustentaria o esforço por um prazo longo: depois de três meses e meio sem renovação, tiraria o blog do ar. Graciliano e Rosa? Acho que não. O alagoano passaria uma violenta descompostura no primeiro comentarista que o…

Fala, Mindlin
Posts / 25/10/2006

A língua portuguesa, hoje, não corresponde à realidade de todos os países lusófonos. Há grandes diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil. Anteontem, eu estive na casa do cônsul de Portugal, em um jantar para um escritor português, José Rodrigues dos Santos. Era um evento para quatro, cinco pessoas apenas. E eu passei o jantar inteiro sem conseguir entender quase nada do que o escritor falava. Felizmente, a Maria Adelaide Amaral estava sentada ao meu lado e traduzia para mim o que ele dizia. Nunca achei certa a posição do Oswald de Andrade, que dizia: “Não li e não gostei”. Isso é uma coisa que não tem propósito. Eu li um livro de Paulo Coelho para poder dizer que li e não gostei. Paulo Coelho está para a literatura como o bispo Edir Macedo está para a religião. Nos anos 40, resolvi ler Proust. E esbarrei naquela dificuldade: páginas e páginas sem um parágrafo. Não consegui captar o interesse e o valor do texto proustiano. E uma noite, em casa de um amigo do Rio, encontrei o Tristão de Athayde, Alceu de Amoroso Lima, um dos introdutores de Proust no Brasil, nos anos 20. A conversa…

Beckett em Paris
Posts / 24/10/2006

O Festival Paris Beckett 2006-2007, que começou no mês passado e vai até junho do ano que vem, comemora o centenário do nascimento do autor de “Esperando Godot” (1906-1989) com um riqueza de atividades – veja aqui o site oficial do projeto, em francês – capaz de matar de inveja os habitantes de ecossistemas culturais como o nosso, em que são escassos dois fatores abundantes por lá: dinheiro para atividades artísticas e respeito pelo patrimônio cultural. Só para dar uma idéia: todas as 19 peças escritas por Samuel Beckett estarão em cartaz na cidade. Isso mesmo, todas. E o homem nem era francês, era irlandês, embora tenha adotado Paris e o idioma francês a partir do fim dos anos 1930.

Literatura é caso de polícia
Posts / 23/10/2006

De vez em quando, roubo uma nota que, se eu bobeasse, acabaria no blog do meu amigo Luiz Antonio Ryff, caçador de bizarrices. Esta é uma delas. Na Cidade do México, que não fica atrás do Rio ou de São Paulo quando se trata de criminalidade, policiais estão sendo submetidos a uma reciclagem originalíssima: cursos de literatura e aulas de xadrez. “O princípio é que um policial com boa cultura estará numa posição favorável para ser um policial melhor”, declarou ao jornal “The Guardian” (acesso livre aqui, em inglês) o chefe de segurança pública José Jorge Amador.

Barbie e Ken vão à livraria
Posts / 22/10/2006

Entre na sua livraria de sempre. Uma bancada estará provavelmente inundada de tons pastéis, letras bordadas e títulos que falam de compras, sapatos e mamães apetitosas: é o canto das meninas. Outra mesa exibe cores agressivas e capas que mostram helicópteros, soldados, lasers e caveiras – o canto dos garotos. Fico exausta só de olhar para isso – será que os hábitos de leitura de homens e mulheres cabem em clichezinhos tão banais? Por que, oh, por que qualquer mulher moderna compraria um livro com uma capa lilás? O blog de literatura que Ceri Radford mantém no site do jornal inglês “Daily Telegraph” vale uma visita. O olhar da moça tem freqüentemente uma candura que faz falta nesse mercado povoado de gente calejada que finge que já leu tudo, que nada mais é motivo de espanto. Ceri preserva uma qualidade fundamental em qualquer repórter, a capacidade de estranhar. Embora pareça, nessa nota ela não está falando de literatura infantil ou infanto-juvenil. Está falando de certos tipos popularíssimos – mais febrilmente consumidos lá do que aqui, é verdade – de ficção para adultos. As raízes dos clichês que deprimem a blogueira são profundas: a nota me fez lembrar que, criança, eu…

Borges vem aí, trazido por Bioy Casares
Posts / 19/10/2006

E já que estamos no labiríntico assunto de Borges (nota abaixo), uma notícia sensacional: está prestes a chegar às livrarias o que o jornal “Clarín” apresenta como o acontecimento literário do ano na Argentina. E não só na Argentina, observa Jean-François Flogel em seu blog no site Boomeran(g). Trata-se do minucioso e, parece, indiscretíssimo diário em que o escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), amigo e parceiro literário de Jorge Luis, registrou a convivência dos dois de 1947 a 1986, quando Borges morreu. A reportagem do “Clarín” sobre o lançamento pode ser lida aqui, mas os trechos do livro, adiantados na revista do jornal, “Ñ”, não estão disponíveis na internet. Graças a Flogel, aqui vai um deles, que mostra os dois escritores numa venenosa conversa de comadres sobre o Nobel em outubro de 1956 – cedo demais para que Borges, que jamais ganhou o prêmio, pudesse ser acusado de estar ressentido com a Academia Sueca: Borges me disse: “Deram o prêmio Nobel a Juan Ramón Jiménez”. BIOY: “Que vergonha”. BORGES: “…para Estocolmo. Primeiro Gabriela, agora Juan Ramón. São melhores para inventar a dinamite do que para dar prêmios”. BIOY: “De qualquer modo, Juan Ramón é muito melhor que Gabriela Mistral….

Começos inesquecíveis: Jorge Luis Borges
Posts / 18/10/2006

Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. A primeira frase de ?Tlön, Uqbar, Orbis Tertius?, o primeiro conto da coletânea ?O jardim de caminhos que se bifurcam?, lançada em 1941, resume Jorge Luis Borges. Ou pelo menos o Borges dos labirintos, da erudição absurda, lúdica e ardilosa, dos tempos paralelos ? tudo aquilo que daria origem ao borgianismo. O livro ganhou três anos depois o acréscimo de outros contos fundamentais, entre eles ?Funes, o memorioso?, e o nome de ?Ficções?. O melhor título do escritor argentino, na minha opinião. (Cito aqui a tradução que consta das ?Obras completas?, editora Globo, 1998, mas com uma liberdade: no título do livro, prefiro ?caminhos? a ?veredas?, que pode até ser uma tradução mais precisa do original senderos, mas soa meio pesado.)

Ficção, internet, salões de beleza – um debate
Posts / 17/10/2006

…a muitas outras pessoas, as possibilidades de se tornarem leitoras foram decididamente vedadas por nosso mundo volúvel e cínico – um mundo aturdido pelo botão de fast-forward, um mundo que iguala o estar quieto no seu canto com o não-ser, um mundo cujos habitantes sentem uma raiva lancinante de alguma coisa sem nome que lhes falta. “Eu não leio ficção”, as pessoas me dizem, normalmente num tom que beira o acusatório. “Isto é, nos dias de hoje, não é só um punhado de sujeitos usando a linguagem para tentar parecer inteligentes?” Sim, é exatamente isso! “Mas eu encontro a mesma coisa, e com mais rapidez, num blog. Ou no meu cabeleireiro.” O trecho acima faz parte de uma das respostas do escritor russo-americano Gary Shteyngart ao seu colega, este americano por inteiro, Walter Kirn, no bom debate encomendado aos dois pela revista eletrônica Slate sobre “O Romance, 2.0” – ou seja, o futuro da forma por excelência da literatura de ficção na era da internet. Ambos são jovens ou quase isso – Shteyngart na casa dos 30, Kirn na dos 40. Cada um escreveu três artigos curtos, em forma de carta dirigida ao outro, e a coisa toda tem momentos…

Setenta anos de solidão?
Posts / 16/10/2006

Esse premiado anúncio (via Gawker) da agência de publicidade milanesa Saatchi & Saatchi para uma liquidação da rede de livrarias Mondadori – tudo com 30% de desconto, claro – é a prova de que as campanhas de “incentivo à leitura” não precisariam ser a chatice que são.

Dois livros pinçados da avalanche
Posts / 15/10/2006

Como Drummond mirando com perplexidade as pernas dos transeuntes, qualquer um que acompanhe de perto o volume de lançamentos editoriais tem vontade de gritar de vez em quando: “Para que tanto livro, meu Deus?”. Às vezes – nem sempre – é possível surfar a avalanche no contrafluxo e recuperar novidades de ontem ou anteontem. Nos últimos meses, dois lançamentos nacionais que passaram em branco por aqui, e pela maior parte da imprensa cultural, ficam ao mesmo tempo acima – na qualidade literária – e abaixo – no marketing literário – da média dos dias que correm. Em outras palavras, são boas dicas de leitura. “A solidão do Diabo”, de Paulo Bentancur (Bertrand Brasil, 352 páginas, R$ 45), é uma alentada coletânea de 59 contos – necessariamente desiguais, dada a quantidade – que, no entanto, encontram sua unidade no difícil artesanato de uma linguagem madura, econômica, reminiscente do bom conto brasileiro dos anos 60 e 70. A originalidade do livro aparece quando essa simplicidade enganadora, sugestiva de penosos trabalhos de reescritura que infelizmente andam fora de moda, é posta a serviço de uma liberdade narrativa de um tipo difícil de encontrar na literatura contemporânea – um tipo capaz de enfileirar no…

Lendo Pamuk em Teerã – ou coisa parecida
Posts / 14/10/2006

Metade da Turquia comemorou o Nobel de Orhan Pamuk, enquanto a outra metade ficou arrasada com a consagração internacional de um sujeito que é considerado traidor da pátria – leia mais sobre as reações, em inglês, aqui. Parece saído de um livro de Pamuk esse embate de consciências irreconciliáveis num país que, até por razões geográficas, para não mencionar as históricas, se estica sobre o abismo entre Ocidente e Oriente. O problema – para todo mundo, claro, mas primeiro e principalmente para quem tem um pé de cada lado – é que o abismo está se alargando nestes nossos “tempos catastróficos”, como anotou Margaret Atwood num emocionado artigo para o jornal inglês “The Guardian”. A escritora canadense afirma não conceber hoje, por essa razão, um Nobel de literatura mais importante do que Orhan Pamuk. Tudo isso me fez pensar na recente polêmica provocada por um acadêmico iraniano radicado nos EUA, Hamid Dabashi, professor de literatura da Universidade de Colúmbia, ao atacar com violência a escritora Azar Nafisi, autora do best-seller “Lendo Lolita em Teerã” (editora Girafa, 2004). O livro trata, a seu modo, do mesmo choque cultural que alimenta a obra de Pamuk. Escreveu Dabashi: “Lendo Lolita em Teerã” é…

Pamuk ganha o Nobel
Posts / 12/10/2006

O prêmio Nobel de literatura para o romancista turco Orhan Pamuk só é surpreendente porque não foi surpresa alguma. Pamuk, de 54 anos, era o favorito este ano e vinha aparecendo entre os principais candidatos há algumas edições do prêmio, mas o Nobel, que gosta de uma surpresa, raramente premia favoritos. Embora o presidente da Academia Sueca tenha negado o caráter político da premiação (leia a notícia do “New York Times”, em inglês, mediante cadastro), é difícil desvinculá-la da recente controvérsia que cercou o nome de Pamuk, submetido a um processo (já encerrado) na Turquia por crime de opinião, após afirmar em entrevista que o país massacrou 1 milhão de armênios na Primeira Guerra Mundial – veja nota da época no Todoprosa aqui. Pamuk devolve o prêmio, digamos assim, a um país majoritariamente muçulmano, depois que o egípcio Naguib Mahfouz morreu em agosto deste ano. Como a de Mahfouz, pode-se ver sua literatura como uma rica fusão cultural entre Ocidente e Oriente. O autor turco é conhecido dos leitores brasileiros. Esteve no país ano passado, como convidado da Festa Literária Internacional de Parati, e tem seu romance “Neve” chegando às livrarias nos próximos dias – sim, a Companhia das Letras…

Sabino, um mestre sem imaginação
Posts / 11/10/2006

Hoje faz dois anos que morreu Fernando Sabino. Amanhã faz 83 anos que Fernando Sabino nasceu. Tudo isso e mais o carnaval feito pelo caderno “Prosa e verso” do “Globo” com o romance “O encontro marcado” – tratado, a meu ver com exagero, como se fosse um “Grande sertão” ou um “Dom Casmurro” – me motivaram a entrar no debate republicando um artigo que escrevi assim que soube da morte do escritor mineiro. Fica como contribuição à tarefa nada simples de pôr em perspectiva o legado de Sabino: O jornalista e escritor Humberto Werneck tem razão: é injusta a cobrança que perseguiu Fernando Sabino ao longo de sua carreira, porque “nenhum escritor tem a obrigação de escrever mais que um bom livro”. Werneck completa seu raciocínio com estilo e contundência: “Se todo romancista fizesse um romance da envergadura de ‘O encontro marcado’, o Brasil teria a maior literatura do mundo”. Posta a questão nesses termos, é difícil discordar. Lançado quando o escritor tinha só 32 anos, “O encontro marcado” é um romance que bastaria para justificar qualquer obra. Mesmo assim, fica faltando dizer alguma coisa. Por que Fernando Sabino, depois de um vôo tão ambicioso, guardou as asas no sótão…

Nobel: façam suas apostas
Posts / 10/10/2006

O Nobel de Literatura, que será divulgado nesta quinta-feira, está movimentando as casas de aposta inglesas – o que não é novidade nenhuma num país que aposta até na cor do vestido que a Rainha vai usar amanhã. O romancista turco Orhan Pamuk está disparado em primeiro lugar nas preferências, mas isso não quer dizer muita coisa: Pamuk já era o favorito ano passado e perdeu para o dramaturgo Harold Pinter, que nem aparecia na lista de seus conterrâneos jogadores. A americana Joyce Carol Oates também está no páreo, segundo a casa de apostas Ladbrokes. Uma curiosidade: Bob Dylan aparece mais bem cotado que Ian McEwan. Mais especulações podem ser lidas, em inglês, no blog Culture Vulture.

O ‘Suplemento Literário’, hoje
Posts / 09/10/2006

Um belíssimo presente dado pelo “Estadão” de ontem aos seus leitores tem textos disponíveis também a não-assinantes na internet: quatro páginas com uma seleção de artigos do “Suplemento Literário”, lançado em 6 de outubro de 1956 (a primeira versão desta nota dizia, repetindo informação equivocada do jornal, tratar-se de um fac-símile; na verdade, é uma coletânea que cobre vários números). Editado pelo crítico teatral Décio de Almeida Prado a partir de um projeto de Antonio Candido, o SL marcou época pela qualidade de seus colaboradores nos dez anos seguintes, enquanto teve Décio à frente da equipe. Sóbrio e elegante, o SL nunca assumiu um papel vanguardista e combativo como seu contemporâneo carioca mais vistoso, o “Suplemento Dominical” do “Jornal do Brasil”. A explicação de Antonio Candido para isso – em entrevista publicada na mesma edição do “Estado”, esta, porém, fechada no site para assinantes – é curiosa e dá uma medida de como a paisagem cultural brasileira mudou nesse meio século: São Paulo naquele tempo não tinha a densidade cultural do Rio, onde se concentrava o mais vivo da literatura e das artes. Não valeria a pena, portanto, pensar uma fórmula “de movimento”, como a que caracterizava, por exemplo, o…

Começos inesquecíveis: José Saramago
Posts / 08/10/2006

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. “Memorial do convento” (Bertrand Brasil, 1998, 22a edição), que José Saramago publicou em 1982, é um livro do início da “fase madura” do autor português – aquela, prolífica, que lhe valeria sua enorme popularidade e o Nobel. Naquele tempo o estilo aliciador de Saramago, com traços viciantes, ainda era novo demais para criar anticorpos no leitor ou para ser acusado de repetitivo. Resultado: D. Maria Ana Josefa podia ser estéril, mas a prosa era a própria…

Dê um Google: Ahab + baleias = ?
Posts / 06/10/2006

O Brasil, nariz enfiado no umbigo, finge que não é com ele. Mas continua mundo afora o quebra-pau sobre o futuro do livro e da leitura na era digital, assunto que o Todoprosa – embora seja tão cerimonioso com engenhocas de alta tecnologia que até hoje tem um celular sem câmera, imagine só – acompanha com interesse entre o perplexo e o entusiasmado. O último capítulo é um artigo/resenha (em inglês, acesso gratuito) de Jason Epstein, ex-diretor editorial da Random House, no “New York Review of Books”. Comentando um pacote de cinco livros que de alguma forma abordam o assunto, Epstein observa que… … a concepção original de (Larry) Page (um dos fundadores do Google) para o Google Book Search parece ter sido a de que livros, como os manuais de que ele precisava na escola secundária, são fontes de informação que os usuários podem pesquisar como pesquisam na Web. Mas a maioria dos livros, diferentemente de manuais, dicionários, almanaques, livros de receita, publicações acadêmicas, manifestos estudantis e assim por diante, não podem ser representados adequadamente googlando-se assuntos como Aquiles/ira ou Otelo/ciúme ou Ahab/baleias. A “Ilíada”, as peças de Shakespeare e “Moby Dick” são, em si mesmos, informação para ser…

A incrível lenda do violino funerário
Posts / 05/10/2006

O último burburinho nos meios literários anglófonos é o conto-do-vigário em que caíram duas editoras de respeito – a Duckworth na Inglaterra e a Overlook nos Estados Unidos – ao comprar como uma legítima obra de não-ficção um livro chamado An incomplete history of the art of the funerary violin (Uma história incompleta da arte do violino funerário), do inglês Rohan Kriwaczek. O livro conta em detalhes, com fotos, partituras e fac-símiles de documentos, a história de um gênero musical menor, o do violino funerário, que teria sofrido perseguição da Igreja Católica no século XIX até ser virtualmente extinto, sobrevivendo apenas como culto secreto numa organização chamada Sociedade dos Violinistas Funerários. O livro vai ser publicado este mês, embora tenha sido denunciado por historiadores e músicos como uma completa invenção, segundo reportagem do “New York Times” (aqui, em inglês, mediante cadastro gratuito). “Verdadeiro ou falso, é o trabalho de alguma espécie de gênio louco. Se é uma fraude, é uma fraude brilhante, brilhante”, defende-se Peter Mayer, editor da Overlook. O autor não quis falar.

Ainda a decadêndia da leitura: zapping
Posts / 04/10/2006

O que ainda pode haver de tão impressionante num fenômeno que todos sabemos que marca o nosso tempo – o do encontro de atenções cada vez mais dispersas com fluxos de informação cada vez mais acelerados? É uma obviedade que, por alguma razão, nunca nos ocorre quando somos jovens: há livros demais, cada vez mais, e tempo de menos, cada vez menos. Solução não há, mas o zapping não deixa de ser uma digna resposta humana a essa perversidade de Deus. Zapear, eu também zapeio. Mas não vou ficar surpreso se, exatamente porque o tempo anda tão curto e nossa atenção, tão impaciente, o romance longo vier a ganhar cada vez mais importância como santuário, como refúgio contra a tirania da velocidade. Os trechos acima são de Zap não pula por boniteza, um artigo que publiquei aqui no NoMínimo há pouco mais de dois anos, logo após fazer a mediação de uma mesa na II Flip em que Sérgio Sant’Anna declarou que já não tinha tempo para ler: agora, disse, apenas zapeava entre os livros. Tudo a ver com as observações de Daniel Galera sobre o, digamos, “rebaixamento do horizonte” da leitura como uma marca do nosso tempo (nota abaixo)….

Índia em Frankfurt
Posts / 03/10/2006

O Babelia, suplemento cultural do jornal espanhol “El Pais”, preparou um interessante roteiro com dez links (em línguas diversas, mas sobretudo em inglês) sobre aspectos variados da literatura indiana. A Índia é o país homenageado este ano na Feira de Frankfurt, que começa amanhã e termina domingo. Cerca de 70 escritores indianos estarão na Alemanha vendendo o seu peixe.

Galera e a decadência da leitura
Posts / 02/10/2006

…as conversas sobre literatura, mesmo entre o público mais culto e esclarecido, raramente ultrapassam variações de diálogos do tipo “E aí, já leu o LIVRO X, do AUTOR Y?” “Claro, bom à beça. Gostei muito.” “Bacana, né? Agora já comecei o LIVRO Y, achei o início sensacional.” “De quem é esse mesmo?” “Do AUTOR X, primeira tradução direto do original, saiu pela coleçãozinha nova, aquela, da EDITORA Z, com as capinhas aquelas.” “Ah, claro. Claro. Tinha lido a resenha do RESENHISTA A no JORNAL B. Tenho que comprar esse aí também, mas a grana tá curta.” Sob o risco de minha memória estar sendo deformada por sentimentos nostálgicos, acho que na adolescência eu tinha muito mais conversas longas e profundas sobre livros com meus amigos do que hoje, agora que já publiquei livros e trabalho praticamente só com coisas relacionadas a literatura ou mercado editorial. Em seu blog, Ranchocarne, o escritor gaúcho Daniel Galera – autor de “Mãos de cavalo”, desde já um dos livros brasileiros do ano – fala da sensação de que a qualidade da leitura vem caindo à medida que aumenta a velocidade com que novidades literárias são lançadas e substituídas no foco de interesse de um…

Começos inesquecíveis: Ernest Hemingway
Posts / 01/10/2006

Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Os jabs em seqüência com que Ernest Hemingway (1899-1961) abre seu primeiro romance, “O sol também se levanta” (Bertrand Brasil, 2001, tradução de Berenice Xavier), são mais do que o começo de um livro. Desferidos em 1926, quando o autor tinha 27 anos, marcam a fundação de um mito pessoal e outro coletivo, o da “geração perdida” de escritores americanos que viveram em Paris nos anos 20. Mas isso é marketing literário, não literatura. Importa mais reconhecer que a prosa do homem, tão seca que faz o adjetivo “seca” soar úmido, continua poderosa. Lamento que esteja meio demodê apreciá-la, mas sei que essas coisas de prestígio literário são cíclicas. Acho difícil que qualquer escritor, mesmo um de estilo barroco, diluvial, chegue muito longe se não tiver em algum momento da vida trocado com Hemingway uns golpes desses de quebrar o nariz – como Robert Cohn quebrou o dele.

Cala a boca, heideggeriano!
Posts / 29/09/2006

A história foge do terreno da ficção em que se concentram as obsessões do Todoprosa, mas reúne nomes de peso e um coquetel de política e filosofia que merece atenção: a supereditora francesa Gallimard acaba de suspender a publicação de um livro de filosofia chamado Heidegger à plus forte raison – notícia do “Le Monde”, em francês, aqui. Detalhe bizarro: a suspensão se deu no último minuto, depois que cópias do livro já tinham sido distribuídas à imprensa e algumas resenhas, publicadas. A Gallimard não explicou a decisão. A proposta do livro – de diversos autores, com organização de François Fédier – é provar que o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) não era nazista.

Para calvinistas e não-calvinistas
Posts / 28/09/2006

FERNANDO ARRABAL, espanhol, vinte e sete anos, pequeno, cara de criança com uma barba que parece um colar e franjinha. Há anos vive em Paris. Escreveu peças teatrais que ninguém nunca quis encenar e também um romance publicado pela Julliard. Passa fome. Não conhece nenhum escritor espanhol e os odeia todos porque dizem que ele é um traidor e gostariam que fizesse realismo socialista e escrevesse contra Franco e ele se recusa a escrever contra Franco, ele nem sabe quem é Franco, mas na Espanha, se não formos contra Franco, não podemos publicar nada nem ganhar prêmios literários porque quem manda em tudo é Goytisolo, que impõe a todos o realismo socialista, ou seja, Hemingway-Dos Passos, ele nunca leu Hemingway-Dos Passos, nem sequer leu Goytisolo porque não consegue ler realismo socialista, e deixando de lado Ionesco e Ezra Pound não gosta de muita coisa. É extremamente agressivo, brincalhão de forma obsessiva e lúgubre, e nunca se cansa de me bombardear com perguntas sobre como é que eu posso me interessar por política e também sobre o que se faz com as mulheres. Seus objetivos polêmicos são dois: política e sexo. Ele e os blousons noirs, dos quais se faz intérprete,…

Pau no Capote
Posts / 27/09/2006

“Travessia de verão” é assustadoramente supertrabalhado, cheio daquelas metáforas improváveis que mais tarde Capote diria detestar. É impiedosa a crítica (em francês) que Josyane Savigneau assina no “Le Monde” sobre a tradução francesa do primeiro romance de Truman Capote – sim, tudo indica que se trata realmente do primeiro, embora o crítico brasileiro Silviano Santiago tenha tentado mudar essa cronologia em resenha no “Mais!” (só para assinantes). O rigor francês não surpreende. Curioso mesmo é descobrir que o lançamento do livro por lá, mercado voraz, coincidiu com o brasileiro – veja nota do dia 22, aqui embaixo.

Hay, Segóvia, Parati
Posts / 26/09/2006

Em Segóvia há muito mais açougues que livrarias. Consomem-se mais leitões do que livros. Não há tradição de encontros literários, e muito menos existiam antecedentes de pagar para poder ouvir escritores falando de suas obras, seus gostos literários ou suas opiniões sobre literatura ou política. Segóvia não é Hay on Wye, a cidadezinha galesa cheia de livrarias e acostumada a celebrar encontros de escritores há décadas. E, apesar de tudo, em Segóvia o Festival de Hay foi um êxito e uma surpresa. Os encontros literários dos dias ? e das noites ? segovianas demonstraram que há, sim, o desejo de escutar, ler, debater e participar das discussões culturais e literárias. Os locais onde se deram os encontros estavam cheios, as pessoas pagavam pelo espetáculo de ouvir os intelectuais, historiadores ou escritores de tão distinta condição, cultura ou fama que ali compareceram. Havia debates, perguntas e celebrações de manhã à noite na monumental, civilizada, divertida, e de excelente gastronomia, cidade castelhana. Havia filas (!!) para poder ver um escritor. É engraçado ler a embasbacada crônica do jornalista espanhol Javier Rioyo no site literário Boomeran(g) sobre o sucesso do Festival de Hay em Segóvia ? sim, um absurdo equivalente ao do Rock…

Julian, Arthur e George
Posts / 25/09/2006

No “Telegraph” deste fim de semana, Jasper Rees conversa com Julian Barnes sobre seu último livro, que, quem diria, é um relativo sucesso comercial na Inglaterra: “Arthur & George”, uma história de tribunal de leitura grudenta em que o advogado é ninguém menos que Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes. Surpreendente, sem dúvida, mas não pelo uso do personagem famoso. Barnes escreveu sua obra mais marcante quando transformou sua paixão por Gustave Flaubert numa deliciosa mistura de romance, esboço biográfico e ensaio literário em “O papagaio de Flaubert”. Difícil saber em qual gênero o livro brilha mais. Situando Julian Barnes em sua geração excepcional, Rees anota: “Martin Amis, Salman Rushdie, Ian McEwan – com eles você sabe, há anos, onde está pisando. Mas o tema unificador da obra de Barnes? O fio condutor? Se existe tal coisa, é uma elegante imponderabilidade…”. Imagino que seja um elogio.

Começos inesquecíveis: Franz Kafka
Posts / 23/09/2006

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto. Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

Alfaguara, o epílogo: Truman Capote e Will Self
Posts / 22/09/2006

Para fechar o capítulo do megalançamento brasileiro do selo espanhol Alfaguara (veja as duas últimas notas, sobre os livros de Mario Vargas Llosa e Cormac McCarthy), o Todoprosa destaca outros dois títulos no pacote de meia dúzia que está chegando às livrarias neste fim de semana: “Travessia de verão” (tradução de Fernanda Abreu, 143 páginas, R$ 31,90), o primeiro romance escrito por Truman Capote, e “Grandes símios” (tradução de José Rubens Siqueira, 406 páginas, R$ 59,90), do inglês Will Self. Trata-se de dois livros menores do que seus autores – mas os autores são tão interessantes que isso não é grave. “Travessia de verão” tem uma história curiosa: os cadernos escolares com o manuscrito foram entregues à casa de leilão Sotheby’s em 2004 pelo herdeiro do proprietário de um apartamento em que Capote (1924-1984) morara nos anos 40. O livro foi publicado ano passado nos EUA com a autorização do Truman Capote Literary Trust, embora o autor de “Bonequinha de luxo” – com o qual “Travessia de verão” tem parentesco – e da obra-prima “A sangue frio” nunca tenha demonstrado o menor interesse em lançá-lo em vida. Como documento dos primeiros passos de um grande escritor, é material valioso. “Grandes…

Vila-Matas e o futuro do livro
Posts / 19/09/2006

Adivinhar o futuro do livro diante da suposta ameaça digital é como especular com o resultado que seu time favorito obterá no domingo. Você não tem como saber, não faz idéia e é melhor que não faça, porque se o seu time, por exemplo, vai perder de goleada, é inútil que você preveja isso, porque não poderá fazer nada por ele, nada para evitar a catástrofe. De modo que o melhor é não se incomodar demais com especulações. Depois de tudo, ocorrerá o que tiver de ocorrer. Mais ainda: na realidade o futuro digital do livro já está escrito, e não creio que em sua escritura eu tenha participado ou venha a participar. Há pouco mais de dois meses, passaram aqui pelo Todoprosa os ecos de uma boa polêmica travada nas páginas do “New York Times” entre o ficcionista John Updike e o jornalista Kevin Kelly, o primeiro declarando-se horrorizado com as previsões do segundo de que o livro como o conhecemos, com autoria, estilo, começo e fim, está prestes a se diluir num grande livro universal sem autor e sem forma, acessado aos pedaços por mecanismos de busca – a própria internet, pois é. A última edição do caderno…

Chávez lê, diz que lê – e manda os outros lerem
Posts / 18/09/2006

Já sabemos que George W. Bush posa de leitor de grandes livros para ficar bem na foto e que Lula, mais autêntico, não tem a menor intimidade com eles (veja abaixo a nota “O que lêem os presidentes”, de 23/8). Mas o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é diferente, garante um artigo (em inglês, mediante cadastro) assinado por Simon Romero no “New York Times” de ontem. Na ficção, as paixões literárias de Chávez incluem “Os miseráveis”, de Victor Hugo, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes – cujo aniversário de 400 anos, ano passado, foi comemorado pelo governo venezuelano com uma edição de um milhão de exemplares para distribuição gratuita. Chávez não se limita a ler, diz Romero: está sempre citando livros em seus longos discursos, o que, juntamente com as escolhas de títulos e autores, sugere uma tentativa consciente de dar dimensão cultural às suas idéias políticas. Mas como o cacique do “bolivarismo” acha tempo para ler tanto? – pergunta-se o articulista. Uma resposta vem de Herma Marksman, que foi namorada de Chávez de 1984 a 1993: segundo ela, Chávez lhe pedia, sempre que estava dirigindo, que ela lesse em voz alta. “Prestava atenção em cada palavra, principalmente se…

Começos inesquecíveis: Juan Rulfo
Posts / 17/09/2006

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Um dia a dúvida tinha que aparecer nesta seção: será que o começo de “Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), romance publicado em 1955 pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), só é inesquecível porque o livro todo é? Ou existirá alguma coisa na primeira linha dessa obra-prima da literatura latino-americana que a faria reverberar mesmo sozinha, no ar seco de um México mítico, sustentada entre o tema ancestral da busca do pai e a sonoridade estranha de nomes como Comala e Páramo?

Oriana Fallaci (1929-2006)
Posts / 15/09/2006

A polêmica jornalista e escritora italiana Oriana Fallaci morreu nesta madrugada, aos 77 anos, de câncer, num hospital de Florença. Leia aqui a notícia do “Estadão” e aqui (em inglês) uma entrevista com a autora feita este ano pela “New Yorker” – republicada hoje como homenagem póstuma. Famosa pela combatividade de suas entrevistas assumidamente “parciais”, Oriana dedicou seus últimos anos a uma violenta cruzada contra o fundamentalismo islâmico. Pelo menos dois de seus livros são encontráveis hoje no Brasil, segundo o site da Câmara Brasileira do Livro: “Carta a um menino que nunca nasceu” (Entrelivros Cultural, 2001) e “Inshallah – Como Deus quiser” (Best Seller, 2001).

Hatoum e Ruy ganham o Jabutizão
Posts / 14/09/2006

Nenhuma surpresa. Na entrega do prolixo prêmio Jabuti aos vencedores (divulgados mês passado) de suas 19 categorias, ontem à noite, em São Paulo, foram anunciados os dois livros do ano: na ficção, “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum; na não-ficção, “Carmen, uma biografia”, de Ruy Castro. Cada um deles leva um prêmio de R$ 30 mil.

Hatoum e Ruy ganham o Jabutizão
Posts / 14/09/2006

Nenhuma surpresa. Na entrega do prolixo prêmio Jabuti aos vencedores (divulgados mês passado) de suas 19 categorias, ontem à noite, em São Paulo, foram anunciados os dois livros do ano: na ficção, “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum; na não-ficção, “Carmen, uma biografia”, de Ruy Castro. Cada um deles leva um prêmio de R$ 30 mil.

‘Eu na verdade não li este livro, mas…’
Posts / 13/09/2006

Coisas da era internet: o blogueiro que se assina Jon Swift – em homenagem escancarada a Jonathan Swift, o grande satirista irlandês – está começando a construir uma lenda como o mais, hmm, “cultuado” (vejam A palavra é de hoje) leitor-crítico a deixar seus comentários no site da Amazon. Vale a pena dar uma olhada – aqui, em inglês – nas curtas e ferinas “resenhas” de Swift, sempre iniciadas com o bordão “Eu na verdade não li este livro, mas…”.

Se ler, beba. Se beber, leia?
Posts / 12/09/2006

Tudo bem: eu sei que o expediente da “venda casada” tem lógica comercial, mas dêem uma olhada neste link e vejam o que o Submarino anda recomendando a quem quer comprar o clássico “Raízes do Brasil” – apenas um exemplo entre muitos. Sérgio Buarque de Holanda e Johnnie Walker, tudo a ver? Como diz um amigo meu: “O diabo é que nunca sugeririam um livro a quem fosse comprar uísque”.

O ano em que a literatura transbordou
Posts / 11/09/2006

Nada a ver com saudosismo. Eu mal entrava na adolescência, e os livros que lia na época eram bem diferentes dos que vou citar aqui. Apenas aconteceu que, intrigado por uma coincidência flagrada casualmente, comecei a puxar um fio na estante e acabei com uma pilha de evidências de que a safra de 1975 foi gloriosa para a literatura brasileira – a última de nossas safras gloriosas, como se depois disso a terra tivesse secado, tornando as colheitas mais espaçadas. Antes de tentar explicar a generosidade literária daquele tempo – e a relativa sovinice dos anos seguintes –, convém justificar a tese. Para tanto basta dizer que 75 trouxe à luz, de uma só vez, duas obras-primas espantosas e cabais: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, e “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar (eis a coincidência em que reparei por acaso). Só isso já seria histórico. Tem mais. De saída, que tal juntar à pilha o “Zero” de Ignácio de Loyola Brandão? A qualidade é desigual, eu sei. Talvez o confuso “Zero” nem faça muito sentido lido fora da moldura de um regime autoritário, mas, censurado, converteu-se em livro-símbolo de um tempo. Ou seja: entre méritos literários e históricos, entre texto…

Contra o inferno rosa
Posts / 10/09/2006

A verdade é que a chick lit é ruim para os Estados Unidos porque é ruim para escritores literários, ambiciosos, homens ou mulheres. E isso significa que é ruim para todos nós. Enquanto a América cada vez mais desvaloriza o rigor intelectual, a educação e a compaixão, fica mais e mais difícil encontrar um bom livro. E acredite em mim – a ex-editora de ficção –, não é porque eles não existam. É porque o mercado está saturado de más escritoras que alegam representar todas as mulheres, entulhando as prateleiras e assegurando-se de que sua única história marginal e sem graça seja reproduzida dez milhões de vezes, como uma bonita versão rosa do inferno. Tem provocado debates na – vá lá – “blogosfera literária” americana esse violento artigo (em inglês, acesso livre) contra o modismo da chick lit, ou literatura de mulherzinha, publicado na revista cultural “Dig”, de Boston. A autora, que se protege no anonimato, apresenta-se como “ex-editora de livros femininos”. Sua argumentação é simplista, dando às vezes a impressão de que toda a literatura era um poço de inteligência e sensibilidade até que Helen Fielding e companhia inventassem sua versão comercial e digestiva. Mesmo assim, chegamos a tal…

O novo de Paulo Coelho, alguém vai?
Posts / 08/09/2006

Não sei até que ponto isso vale para os leitores do Todoprosa, mas nunca falta quem se interesse: está prometida para hoje a publicação, no blog de Paulo Coelho, do nono capítulo de seu novo livro, “A bruxa de Portobello”, que será lançado no próximo dia 27 pela Planeta. É possível ler também os oito capítulos anteriores, mas só até o dia da publicação. O papel da internet na estratégia de lançamento do livro é o de oferecer um trailer, como explica o aviso na capa: O equivalente a 1/3 do livro será colocado aqui até a data de publicação. A partir desta data o blog passará a servir apenas para discussão entre pessoas que leram o livro. Abrir o apetite do leitor para a edição impressa é um bom recurso que a rede oferece. Claro que o tiro pode sair pela culatra. Por exemplo: fiz um esforço para me despir de todas as idéias prévias sobre Paulo Coelho e, como um leitor primal, sorriso alvar de Nelson Rodrigues na cara, fui encarar “A bruxa…”, em que cada capítulo é narrado por um personagem. Resisti por onze minutos, a edição de papel não me pega mais. A internet é inocente.

Gato por lebre
Posts / 07/09/2006

Escritor admite que seu livro de memórias, um sucesso comercial, tinha partes inventadas. Sentindo-se logrados, leitores aos montes entram na Justiça para ter seu dinheiro de volta e a editora, diante da derrota certa, propõe um acordo que vai lhe custar nada menos que 2,35 milhões de dólares. Ficção? Não. O autor é o americano James Frey. O livro, “A million little pieces” (Um milhão de pedacinhos). A editora, a gigante Random House. A notícia (em inglês, mediante cadastro gratuito) está aqui. O mercado não consegue disfarçar o nervosismo. E se a moda pega?

Começos inesquecíveis: Hilda Hilst
Posts / 07/09/2006

Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia em direção àquele riso. Tocou-se. Estava vivo sim. Quando menino perguntou à mãe: e o cachorro? A mãe: o cachorro morreu. Então atirou-se à terra coalhada de abóboras, colou-se a uma toda torta, cilindro e cabeça ocre, e esgoelou: como morreu? como morreu? O pai: mulher, esse menino é idiota, tira ele de cima dessa abóbora. Morreu. Fodeu-se disse o pai, assim ó, fechou os dedos da mão esquerda sobre a palma espalmada da direita, repetiu: fodeu-se. Assim é que soube da morte. Começa assim “Com os meus olhos de cão” (Editora Globo, 2001), novela lançada em 1986 pela escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004). Ou assim começa sua parte em prosa: tomei a liberdade de excluir os doze versos curtos que a antecedem para ir direto a esse monumental, enigmático Deus “ancorado no riso”. Observa Alcir Pécora, organizador das obras reunidas de Hilda, que “o obsceno é nome do cordame grosso com que se desce a este fundo”. Acrescentar alguma coisa? Eu não. Ancorado no silêncio, leio.

Biógrafo contra biógrafo, o epílogo
Posts / 06/09/2006

O impagável mistério da falsa carta de amor que enganou AN Wilson, biógrafo do poeta inglês John Betjeman (veja abaixo a nota “O poeta, a amante, o biógrafo e o cafajeste”, de 29/8), chegou ao fim: a elaborada fraude – que formava em acróstico a frase “AN Wilson é um merda” – foi obra do escritor Bevis Hillier, 66 anos, que deu entrevista ao “Times” de Londres (aqui, em inglês) assumindo a trapaça. A confissão não surpreendeu os meios literários britânicos. Embora a princípio tivesse jurado inocência, Hillier era o suspeito número um: escreveu uma longa biografia de Betjeman antes do rival e foi espinafrado por ele na imprensa na época do lançamento. Mesmo assim, tem valor a candura com que o falsificador assumiu seu ciúme: o ego ferido, como se sabe, é um poderoso motor secreto da literatura. “Quando um jornal começou a dizer que o livro de Wilson era o maior, passou dos limites”, disse Hillier.

Alemanha absolve Günter Grass
Posts / 05/09/2006

Günter Grass fez ontem à noite sua primeira aparição pública desde que confessou ter integrado a Waffen-SS, tropa de elite de Hitler, aos 17 anos de idade. No famoso teatro Berliner Ensemble, diante de uma platéia respeitosa e propensa aos aplausos, Grass leu trechos de suas memórias, “Descascando a cebola”, mas evitou as páginas 126 e 127 – as que tratam de seu breve passado nazista. O relato de uma noite consagradora para o autor é feito por Luke Harding no blog inglês “Culture Vulture”. Para Harding, a controvérsia sobre a confissão tardia de Grass, que domina as primeiras páginas dos cadernos culturais alemães há três semanas (veja nota de 15 de agosto, aqui embaixo), atingiu finalmente a fase do consenso, e ele é favorável ao escritor: o de que teria sido melhor se Grass houvesse revelado seu segredo antes, mas isso não afeta sua “credibilidade moral”. As caixas registradoras confirmam: “Descascando a cebola” está em primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos na Alemanha.

Martin Amis vai ao inferno
Posts / 04/09/2006

O conto “Os últimos dias de Muhammad Atta”, do inglês Martin Amis, que acompanha ficcionalmente – do ponto de vista do próprio Atta – as últimas horas de um dos terroristas mortos no atentado ao World Trade Center, foi publicado ontem pela revista do jornal “Observer”, de Londres, e pode ser lido aqui (em inglês, acesso livre). A história não é inédita: em abril deste ano saiu na “New Yorker”, mas, por razões contratuais, não deu as caras na versão online da revista. Se o conto é bom? No máximo interessante – e olha que eu gosto de Amis. Mas não dá para negar seu valor, digamos, histórico: de todas as abordagens ficcionais do 11 de setembro que começam a pipocar, esta é a que ousou chegar mais perto do centro do horror.

Flaubert, o arroz-de-festa?
Posts / 04/09/2006

Muitas das alegações de Flaubert devem ser entendidas com uma dose de ceticismo. A certa altura, por exemplo, ele expressou o desejo de escrever “un livre sur rien”, um livro sobre “nada” – livro ideal que ficaria de pé por meio da pura força do estilo e da estrutura, sem qualquer preocupação com o tema. Essa metáfora da criação desapegada de um artífice parecido com um deus foi muito citada por críticos ansiosos em arrolar Flaubert entre os primeiros pós-modernistas. Mas permanece o fato de que “Madame Bovary”, firmemente plantado na realidade cotidiana de sua Normandia nativa, continha uma carga precisa de matéria temática suficiente para fazer seus conterrâneos normandos urrarem de fúria. A resenha (em inglês, acesso livre) que Victor Brombert assina na última edição do “Times Literary Supplement” sobre o recém-lançado tijolo Flaubert – a biography, de Frederick Brown, faz foco nas meias trapaças que Gustave Flaubert (1821-1880) semeou sobre sua própria pessoa: o famoso eremita que desprezava o convívio social e se devotava inteiramente à arte não era tão misantropo assim, teve uma vida interessantíssima e exultou quando se tornou amigo e conviva habitual da Princesa Mathilde Bonaparte. O que, pensando bem, ameniza a traição representada por…

Começos inesquecíveis: Machado de Assis
Posts / 03/09/2006

AO LEITOR Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado….

Manguelismo dos bons
Posts / 01/09/2006

Minha biblioteca é constituída, meio a meio, por livros que lembro e por livros que esqueci. Agora que minha memória já não é tão precisa quanto costumava ser, as páginas se esvaem na mesma medida em que tento conjurá-las. Algumas se apagam por inteiro de minha experiência, esquecidas e invisíveis. Outras me assediam tentadoramente com um título ou uma imagem, ou umas poucas palavras fora de contexto. Qual romance começa com as palavras “Numa noite de primavera de 1890”? Onde li que o rei Salomão usou uma lente de aumento para saber se a rainha de Sabá tinha pernas peludas? Quem escreveu aquele livro singular, Flight into Darkness, do qual só recordo a descrição de um corredor sem janelas, tomado por pássaros esvoaçantes? Em qual história li a frase “no despejo de sua biblioteca”? Qual livro tinha uma vela acesa na capa e desenhos a lápis no papel creme? Em algum lugar de minha biblioteca encontram-se as respostas a estas questões – mas esqueci onde. “A biblioteca à noite” (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 304 páginas, R$ 45), lançado esta semana em São Paulo, é mais um exemplar inspirado daquele ensaísmo que, se não foi inventado, pode-se…

A vida como ela voltou a ser
Posts / 31/08/2006

“Envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais rápido possível.” O conselho de Nelson Rodrigues (1912-1980) aos jovens deixa evidente a implicância que ele devotava a qualquer pessoa que não carregasse um bom número de décadas nas costas. No entanto, pelo menos num ponto – entre outros, claro – a juventude é invejável: quanto menos vivido, mais chances tem o leitor de receber como revelação a nova edição de “A vida como ela é…” (Agir, 606 páginas, R$ 59,90). E encontrar essas histórias pela primeira vez é um privilégio, uma dádiva. Convém, então, refazer aquele conselho: não envelheçam, jovens. Não enquanto não lerem isso aqui. Crônicas? Bem, pode-se dizer que sim, pois saíam no jornal. Por alguma razão parece melhor chamar de contos essas variações curtas e às vezes brutais em torno do tema do adultério. Como contos, aliás, elas já eram rotuladas em sua primeira edição em livro, nos dois volumes lançados em 1961 pela editora J. Ozon, que a Agir reúne agora num volume só. Contos populares, velozes, furiosos, magistrais em sua economia de meios. Fazendo as vezes de pano de fundo, um milagre: como é possível que textos de jornal, escritos diariamente – sim, com uma única…

Naguib Mahfouz (1911-2006)
Posts / 30/08/2006

O escritor egípcio Naguib Mahfouz, que morreu hoje no Cairo aos 94 anos, foi o único escritor do mundo árabe a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1988. Mahfouz fora internado há um mês e meio, depois de sofrer uma queda em casa. O declínio da saúde de Mahfouz começou em 1994, quando um homem o esfaqueou no pescoço – e fugiu sem ser preso. O atentado foi provavelmente praticado por um extremista islâmico: líderes fundamentalistas tinham acabado de declarar o escritor “infiel”. De fato, sua literatura era boa demais, humana demais, para descer pela goela do fundamentalismo. Muitos de seus livros foram proibidos em outros países árabes, e um deles, de 1959, no próprio Egito. Leia o obituário do “New York Times” (em inglês, mediante cadastro) aqui. E o do “Le Monde” (em francês, acesso livre), aqui. Mahfouz, que certa vez se definiu como um “escritor de quarta ou quinta categoria”, é autor de três dezenas de romances, além de volumes de contos, peças teatrais e roteiros de cinema, mas sua obra hoje é escassa nas livrarias brasileiras. Lançado em 1997, o romance “Noites das Mil e Uma Noites” (Companhia das Letras), fantasia baseada no maior clássico das…

O poeta, a amante, o biógrafo e o cafajeste
Posts / 29/08/2006

Os personagens são quase inteiramente desconhecidos por aqui, mas a história é tão boa que vale assim mesmo. Uma recente biografia do poeta inglês Sir John Betjeman – poeta “oficial” do Reino Unido de 1972 até morrer, em 1984 – trouxe como uma de suas maiores curiosidades uma derramadíssima carta de amor até então inédita endereçada por Betjeman a uma amante. O biógrafo, AN Wilson, acaba de reconhecer que o texto é falso e que alguém lhe armou uma cilada. A prova é incontestável: um jornalista descobriu que as iniciais maiúsculas de cada frase da suposta carta de amor formam a sentença “AN Wilson is a shit” (AN Wilson é um merda). Esse ambiente literário sabe ser inóspito às vezes.

Ficção é coisa de mulher?
Posts / 28/08/2006

Faz alguns anos que pesquisas no mundo anglófono vêm denunciando a insignificância do papel masculino entre os leitores de ficção: os homens respondem por cerca de 20% do mercado. Só. Não foi à toa que o inglês Ian McEwan, um dos maiores escritores vivos, declarou ano passado: “Quando as mulheres pararem de ler, o romance estará morto”. É sempre arriscado tirar conclusões muito ambiciosas em cima de estatísticas como essa. Faltam dados a respeito do sexo dos leitores de ficção em outros países – e em outras épocas, como quando Ernest Hemingway era rei com seus livros cheios de testosterona. Mesmo sendo difícil pôr em perspectiva números tão curiosos, já se começa a murmurar por aí que a dramática perda de prestígio cultural dos romancistas, ocorrida do último quarto do século XX para cá, está relacionada ao fato de os homens, os detentores do poder, estarem interessados mesmo é em livros de não-ficção. Obras sérias, sabe como? (Atenção: isso é uma ironia. O Todoprosa só se interessa por não-ficção quando ela fala de ficção.) O ótimo tema da feminilidade da leitura é discutido com graça em suas diversas implicações – políticas, culturais, filosóficas – num artigo (em inglês) publicado pela…

Começos inesquecíveis: Italo Svevo
Posts / 27/08/2006

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica. Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu supunha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a idéia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias. Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!… O pequeno prefácio que abre “A consciência de Zeno” (Nova Fronteira, tradução de Ivo Barroso),…

Sete décadas de ‘Angústia’
Posts / 24/08/2006

Passados setenta anos da publicação de “Angústia”, reafirmada sua excelência artística no âmbito da literatura brasileira, Graciliano Ramos parece ter-se enganado sobre seu livro mais polêmico. É conhecido o desconforto do escritor em relação ao romance que necessitava, segundo ele, ser revisto até chegar ao osso, sem as repetições e os excessos que julgava defeitos a serem sanados. A prisão em 3 de março de 1936 o impediu de realizar a revisão desejada, antes que o livro fosse editado com o autor ainda na cadeia. O “livro infeliz”, como Graciliano se refere a “Angústia” em “Memórias do cárcere”, vai aos poucos se impondo por meio de um processo de atração e repulsa, que marcará para sempre a postura do romancista diante da obra. Em artigo de capa no jornal “Rascunho”, o professor de literatura Wander Melo Miranda, autor de “Graciliano Ramos” (PubliFolha), comemora os 70 anos de “Angústia”, do autor preferido de Heloísa Helena.

O que lêem os presidentes
Posts / 23/08/2006

O último número da revista “New Yorker” traz uma boa gozação de Adam Gopnik com a lista de “leituras de verão” de George W. Bush, uma tradição americana tão forte que mesmo um dos presidentes mais notoriamente broncos a passar pela Casa Branca acha de bom tom não dispensá-la. A piada maior é que, brilhando na lista de Bush, aparece “O estrangeiro”, de Albert Camus. E por que isso é engraçado? Bem, como se sabe, o narrador do maior clássico do existencialismo, Mersault, mata um árabe sem motivo – não, o sujeito não era acusado de esconder armas químicas no quintal. Entende-se o interesse do presidente americano, então? Claro que sim, mas apenas quando se leva em conta que listas desse tipo cumprem sobretudo um papel marqueteiro. Não é preciso que Bush leia Camus. Basta que ele diga que está lendo. E que depois agüente as gozações. Passada a zoeira, o que sobra é, por via das dúvidas, a imagem de um homem um pouco mais pensante do que imaginávamos – e se quisermos ser muito, muito crédulos, um verdadeiro estadista. Estamos bem longe disso no Brasil. O colunista Ancelmo Góis, do “Globo”, publicou no último fim de semana uma…

Livros à mão vazia
Posts / 22/08/2006

Reportagem de ontem do jornal “Valor Econômico”, assinada por Tainá Bispo, fala do alarme geral provocado pela apresentação de Fábio Godinho, diretor da Larousse do Brasil, no 34o Encontro de Editores e Livreiros, em Fortaleza. Tentando entender por que o mercado de livros no Brasil encolheu, segundo seus números, 26% nos últimos dez anos, com venda de 270 milhões de exemplares e receita de R$ 2,5 bilhões em 2005, Godinho apontou, além da desorganização do setor, razões econômicas. Destacou o fato de o preço do livro ter subido acima da inflação nesse período, o que faz sentido. Por outro lado, comemorou “a universalização do ensino médio”. Aí, acho que já não faz tanto. Que ensino é esse? O Brasil jamais terá um mercado leitor saudável enquanto insistir na sua educação de mentirinha. Considerando que qualquer medida nessa área só surtirá efeito a longo prazo, e que não se vê nenhuma medida decente no horizonte, não será surpresa para este blog se o mercado continuar murchando. Apertem os cintos.

A incrível história da ‘História de O’
Posts / 22/08/2006

“História de O”, romance publicado em 1954 com a assinatura de Pauline Réage, costuma ser considerado um dos maiores clássicos da literatura erótica de todos os tempos, e talvez a única obra do século XX a levar o tema às alturas – ou profundezas? – atingidas pelo Marquês de Sade. Conta a história da submissão voluntária de O a seu amante, num crescendo de provas psicológicas e castigos físicos que ela encara – eis o escândalo – cada vez mais feliz e realizada. Sim, o livro pode ser lido como um poderoso libelo antifeminista, embora, convenhamos, isso o empobreça terrivelmente. Tendo lido “História de O” já faz uns vinte anos, posso garantir que não é fácil apagar da memória algumas de suas imagens, como a que encerra o livro: a linda O, nua e com uma enorme máscara de coruja, finalmente despersonalizada, endeusada, cercada de homens devotos numa festa. Estranhíssimo. Deve-se reconhecer que essa insistência em permanecer na memória é mais do que se encontra na maior parte da literatura, erótica ou não. A verdadeira identidade da autora de “História de O” foi um grande mistério literário na França durante quarenta anos. Albert Camus chegou a garantir que o livro…

Começos inesquecíveis: Leon Tolstoi
Posts / 21/08/2006

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. A frase de abertura de “Ana Karenina”, obra-prima do romance que Leon Tolstoi começou a publicar na imprensa em 1875 (Editora Nova Aguilar, Obra Completa, volume 2, 2004, tradução de João Gaspar Simões), conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo.

‘Bufo & Spallanzani’, museu da informática
Posts / 20/08/2006

Liguei o TRS-80. Primeiro o printer, Epson FX-80, conectado no computador. Depois, no drive 0 coloquei o Superscripsit e no drive 1 um floppy disk, para arquivo. A luz vermelha em cima dos drives acendeu e apagou quando o TRSDOS foi carregado. Mês, dia e ano, ENTER, hora, minutos, segundos, ENTER, luz vermelha acendendo e apagando, nos dois drives. READY. Escrevi: SS. ENTER. O menu do programa apareceu na tela. Bati 0. Name of document to open? Escrevi Bufo. ENTER. Na tela, Open Document Options: Document name: Bufo: 1 Author: Gustavo Flávio. Operator: GF. Comments: Romance Printer type: LP 8 Lines per page: 54 Pitch: P Line spacing (to 3 +, “+” = ½): 1 1st page to include header: 1 1st page to include footer: 1 Apareceu a screen page: a tab line, com o ghost cursor e a status line e as especificações de impressão do documento. No alto da “página” o cursor piscava. Tudo pronto para escrever. Pronto mesmo? Ufa. Perto do fim de seu bom romance “Bufo e Spallanzani” (1985), pouco antes de o narrador, que é um escritor de sucesso, apagar o livro em que vinha trabalhando, Rubem Fonseca capricha no informatiquês da época. Que…

Quando Machado não era rei
Posts / 17/08/2006

Embora fosse coisa assente, a grandeza de Machado não se entroncava na vida e na literatura nacionais (nas primeiras décadas do século XX). A sutileza intelectual e artística, muito superior à dos compatriotas, mais o afastava do que o aproximava do país. O gosto refinado, a cultura judiciosa, a ironia discreta, sem ranço de província, a perícia literária, tudo isso era objeto de admiração, mas parecia formar um corpo estranho no contexto de precariedades e urgências da jovem nação, marcada pelo passado colonial recente. Eram vitórias sobre o ambiente ingrato, e não expressões dele, a que não davam seqüência. Dependendo do ponto de vista, as perfeições podiam ser empecilhos. Um documento curioso dessa dificuldade são as ambivalências de Mario de Andrade a respeito. Este antecipava com orgulho que Machado ainda ocuparia um lugar de destaque na literatura universal, mas nem por isso colocava os seus romances entre os primeiros da literatura brasileira. O artigo “Leituras em competição”, do crítico Roberto Schwarz, é um dos destaques da última edição da revista “Novos Estudos”, do Cebrap. Schwarz – que fez minhas leituras preferidas da obra de Machado de Assis nos livros “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”…

Literatura de mulherzinha: quem vê cara…
Posts / 16/08/2006

Esta é imperdível para editores e diretores de arte, mas não só para eles. Qualquer um que se divirta em desmontar clichês vai gostar de conferir o que a revista Print inventou: uma espécie de mapa (via Gawker) que organiza as capas dos livros, digamos, canônicos da tendência literária conhecida como chick lit, ou “literatura de mulherzinha” – uma das maiores minas de ouro descobertas pelo mercado editorial nos últimos anos. A organização das capas se dá por temas (saltos altos, drinques), cores (rosa, rosa e umas outras lá) e mais alguns elementos. Não muitos.

Abóbora gigante: Harry Potter x Tony Blair
Posts / 16/08/2006

Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos pelo Instituto Zogby (em inglês, aqui) descobriu que Harry Potter é reconhecido por um número maior de pessoas (57%) do que, por exemplo, Tony Blair (50%). E que muito mais gente consegue citar o nome de dois anões da Branca de Neve (77%) do que de dois juízes da Suprema Corte (24%). E era preciso fazer pesquisa para descobrir isso? Bom, a conclusão do pessoal que encomendou o levantamento, produtores de um reality show, é que a cultura de massa tem uma comunicação poderosa mesmo, puxa… Poderosa é a capacidade dos institutos de pesquisa de vender água da bica engarrafada.

Bomba, bomba: Günter Grass foi nazista militante
Posts / 15/08/2006

Depois de uma Flip encharcada de política, o Todoprosa gostaria muito de mudar a chave da conversa, mas brigar com notícia não dá. Os meios literários alemães estão em tumulto desde que Günter Grass, Nobel de Literatura de 1999, revelou ao jornal “Frankfurter Allgemeine” que foi nazista e chegou a pertencer às tropas da SS em 1945, no final da Segunda Guerra, quando tinha 17 anos. Grass, autor de “O tambor”, é – ou era? – um dos principais nomes do movimento artístico que ficou conhecido como Vergangenheitsbewaeltigung (algo como “acertando as contas com o passado”). Seu papel de consciência moral de uma geração, desempenhado ao longo de décadas, torna a revelação de agora mais chocante. Joachim Fest, biógrafo de Hitler, é uma das vozes que criticam mais duramente o escritor. “Não entendo como alguém pode se colocar numa posição de superioridade por 60 anos e só então admitir que também esteve envolvido. Para usar um dito popular, eu não compraria um carro usado dessa pessoa.” O livro de memórias em que Grass fala de sua adolescência durante a Segunda Guerra, “Descascando a cebola”, sai em setembro. Para justificar o longo silêncio, o escritor disse que sentia vergonha do passado….

Balanço da Flip
Posts / 13/08/2006

Ruth Lana, Mauro Munhoz e Liz Calder A 4a Flip, que está terminando hoje, custou 3,8 milhões de reais – incluindo apoios – e fez entre 12 mil e 13 mil pessoas circularem pela Tenda dos Autores, por onde passaram 37 escritores convidados. Os números foram divulgados hoje numa coletiva por Mauro Munhoz, diretor do evento. A Flipinha, programa educativo que encheu Parati de crianças, contadores de histórias e bonecos gigantescos inspirados – a maioria – na obra do autor homenageado Jorge Amado, foi um dos orgulhos da organização. Oito mil crianças de 36 escolas participaram da festa. A diretora de programação deste ano, Ruth Lanna, que participou da coletiva ao lado de Munhoz e Liz Calder, está de saída do projeto: acompanhará seu marido, o romancista Milton Hatoum, que vai passar todo o primeiro semestre do ano que vem na Universidade de Stanford, nos EUA, com uma bolsa de escritor. O nome do próximo diretor não foi divulgado. Para ouvir explicações de Munhoz sobre a sempre tumultuada venda de ingressos para a Flip, clique aqui; e sobre o espírito de um evento que faz questão de não crescer demais para não estragar, aqui. Talvez por ter sido realizada em…

Antologia flípica
Posts / 13/08/2006

CABEÇA “Interrompemos o fluxo das sentimentações agendadas, para que brote a visita de um afeto… Escrever é um combate para encontrar lugar no acolhimento. O acolhimento acontece quando o abismo recebe cidadania… Eu habito sempre entre o abismo e o clamor.” (Juliano Garcia Pessanha, autor de “Ignorância do sempre”, na mesa que abriu a Flip, quinta-feira.) MINEIRIDADE “Nó, mas o ser humano é miserável demais, gente!” (Adélia Prado, hoje de manhã, traduzindo sua descrença na espécie.) FOFURA “Eu não quero ter razão, eu quero ser feliz.” (Ferreira Gullar, ontem, irritando seu companheiro de mesa Mourid Barghouti.) CURTO E GROSSO “O que eu posso dizer para você? Existe uma coisa chamada ironia.” (Tariq Ali, em sua palestra de sexta-feira, quando alguém da platéia o acusou de ser homofóbico e anti-semita por ter citado um trecho de Proust em que o sionismo é criticado à luz da história de Sodoma e Gomorra.) CURTÍSSIMO E GROSSÉRRIMO “Aplaudam, seus f.d.p.! É Lilian Ross que está ali!” (Christopher Hitchens, aos berros na primeira fila da platéia da jornalista da “New Yorker”, exigindo que o público a reverenciasse no exato momento em que ela entrava no palco.) QUÍMICO “O cloridrato de fluoxetina me fez uma pessoa…

Lírico, delicado e… lamentável
Posts / 13/08/2006

O veterano Edmund White e a noviça Nicole Krauss, ambos americanos, acabaram encontrando pontos de contato suficientes entre eles para transformar a mesa que protagonizaram hoje na Flip em uma conversa agradável. A maior dessas afinidades foi a reflexão sobre como o establishment literário os categoriza, ele como gay assumido, ela como mulher. Nicole – que é mulher de Jonathan Safran Foer, também na Flip (veja nota abaixo) – queixou-se da grande incidência de adjetivos como “adorável”, “delicado” e “lírico” em resenhas sobre livros escritos por mulheres. “Talvez a escrita dos homens tenha mais chance de ser levada a sério”, disse ela, que veio ao Brasil no vácuo do lançamento de seu romance “A história do amor”. Um livro lírico, delicado e, por que não dizer, adorável. A observação de Nicole Krauss fez Edmund White se lembrar de um clichê associado a gays pelos produtores de Hollywood. “Quando estão discutindo nomes de roteiristas e alguém sugere um que seja gay, a reação é sempre a mesma: ‘Não, esse aí é muito bom no desenvolvimento de personagens, mas para construir uma trama não serve’”, contou White, um homem europeizado e afável, autor, entre outros, de “Um jovem americano” e “O homem…

Ferreira Gullar, o frasista
Posts / 13/08/2006

Ao lado do poeta palestino Mourid Barghouti, ontem, Ferreira Gullar enriqueceu com um bom punhado de frases de efeito o repertório da Flip. A última parece ter magoado Barghouti, que não luta por outra coisa senão o reconhecimento de que os palestinos têm razão. Mas o público aplaudiu delirantemente: A palavra não serve só para criar confusão. Ela serve também para esclarecer a confusão que a palavra cria. No fundo o que há é a linguagem coloquial, a palavra de todos nós. O poema é o lugar em que essa prosa vira poesia. Eu acho que nasci poeta. Há quem nasça ladrão, jogador de futebol… Essa história de ser lido daqui a duzentos anos, a gente não sabe. Se você não passa às pessoas alguma coisa de que elas necessitam, o livro não sobrevive. O povo carrega no colo as obras de arte. Depois de algum tempo, não tem mais o crítico amigo para dar uma notinha. Se o povo não gostar, dançou. Eu não quero ter razão, eu quero ser feliz.

Foer protesta contra excesso de política
Posts / 13/08/2006

A mesa “Nas fronteiras da narrativa”, ontem à noite, que reuniu dois dos mais festejados autores da nova literatura de língua inglesa, justificou as expectativas. O americano Jonathan Safran Foer (“Extremamente alto & incrivelmente perto”) e a escocesa Ali Smith (“Por acaso”) entabularam uma boa conversa focada nos bastidores do fazer literário, com direito a um protesto do primeiro sobre a politização excessiva da Flip: “Esse festival assumiu um ar político, o que eu acho um pouco triste. É a primeira vez que vou a um lugar cuja praça principal é devotada a fazer as crianças se apaixonarem pela leitura. Isso tem exatamente a mesma importância de qualquer coisa que façam políticos ou jornalistas”, disse Foer, um sujeito meio blasé que tem a maior cara de bom moço não apenas de Parati, mas de todo o litoral sul do Estado do Rio. Ali Smith (foto), que contrastava com seu parceiro de mesa esbanjando uma energia ao mesmo tempo elétrica e viajandona, o que contribui para seu jeitão de Björk das letras, preferiu trazer o tema da política para a conversa sobre o escrever: “A arte é inevitavelmente política, como tudo acaba sendo. O que não faz sentido é você ter…

Barghouti ataca Amos Oz
Posts / 12/08/2006

A mesa que o poeta palestino Mourid Barghouti dividiu com seu colega brasileiro Ferreira Gullar, hoje de manhã, não foi abafada por temas políticos – embora o traço de união mais evidente entre os dois autores seja o exílio, que Ferreira Gullar experimentou durante a ditadura militar nos anos 70 e Barghouti durante três décadas, ao fim das quais visitou sua cidade natal e escreveu sobre essa experiência em “Eu vi Ramallah” (Casa da Palavra). Apesar da mediação confusa de Alberto Mussa, a leitura de trechos de poemas e o bom debate que se seguiu acabaram por revelar mais afinidades entre Barghouti e Gullar do que se suspeitava – inclusive, quem diria, estilísticas. O momento de maior voltagem da mesa, porém, ocorreu quando pediram a Barghouti que opinasse sobre uma frase de efeito do escritor israelense Amos Oz: que palestinos e israelenses precisam aprendem a conviver como cônjuges divorciados que continuam dividindo a mesma casa. A resposta do poeta deixou claro que a paciência dos palestinos com Oz – que há duas semanas defendeu a intervenção militar no Líbano – anda em baixa: A situação na Palestina está muito além do alcance de declarações de escritores. Nós, palestinos, estamos desapontados…

O vingador
Posts / 12/08/2006

A agressividade de Christopher Hitchens (veja nota abaixo) lavou a alma de muita gente. Hoje de manhã – antes, portanto, da performance do inglês na Tenda dos Autores -, foi entreouvido na Praça da Matriz: “Está muito difícil ser judeu na Flip”.

Hitchens, o fio desencapado
Posts / 12/08/2006

Christopher Hitchens fez hoje na Flip o que dele se esperava, não só ao defender Israel e atacar o Hezbolá, assim como todos os movimentos políticos muçulmanos de inspiração religiosa, mas também ao expor suas idéias com uma agressividade até então inédita em Parati. Entre vaias e aplausos, como ocorrera com Tariq Ali, o crítico, jornalista e ensaísta inglês (radicado em Washington) chamou membros da platéia de idiotas e chegou a brindar seu companheiro de mesa, Fernando Gabeira, com o rótulo de “terrorista”. A frase foi dita em tom meio brincalhão, a propósito do fato de Gabeira até hoje não poder ingressar nos Estados Unidos por ter participado do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick. Hitchens se ofereceu para hospedar o deputado brasileiro no dia em que ele conseguir derrubar esse veto. “Tenho um quarto lá em casa reservado para terroristas simpáticos”, disse. Gabeira não retrucou. Não satisfeito, Hitchens partiu também para cima do mediador, o jornalista Merval Pereira: “Você não vai fazer nenhuma pergunta sobre literatura e reportagem?”. Merval disse que não. Não mesmo. Talvez inevitavelmente, a invasão do Líbano por tropas israelenses virou o grande assunto da 4a Flip, com fortes aspirações a ser o único. Depois do…

Toni Morrison: e a Virginia Woolf, hein?
Posts / 11/08/2006

A palestra de Toni Morrison, que terminou há pouco, revelou uma mulher sedutora, brilhante e engraçada que, de forma evidente, poderia ter sido mais bem aproveitada pelo público se sua obra fosse mais conhecida no Brasil. Para compensar o pequeno número de perguntas enviadas pelo público, a mediadora Maya Jaggi, inglesa, conduziu boa parte da conversa com uma seriedade acadêmica que contrastou à beça com o calor de sulista americana da conferencista. Abaixo, uma seleção de frases de Toni, Nobel de Literatura e autora de Beloved, recentemente eleito o melhor livro americano dos últimos 25 anos pelo “New York Times”. Imaginando uma entonação musical e às vezes lânguida – como é a própria prosa da autora, aliás -, a leitura fica mais fiel: Eu entendo o elogio implícito em dizerem que estou acima de questões de gênero e raça. O problema é que nunca ocorreu a ninguém dizer isso de Virginia Woolf, por exemplo. Prefiro me identificar como uma escritora mulher e negra mesmo. A ficção pode falar de coisas que a história não pode nem deve (sobre a importância de reelaborar o passado em seus livros). Eu vivo num país que adora não se lembrar do que aconteceu 30…

Tariq Ali esquenta o balneário
Posts / 11/08/2006

A leitura do manifesto pró-Líbano com que Tariq Ali abriu sua conferência hoje na Flip acabou por dominar o debate até o fim – como estava previsto. Nenhuma das perguntas encaminhada ao escritor pela platéia teve como tema qualquer questão ligada à literatura. E a verdade é que não fez falta. Melhor ensaísta e debatedor do que ficcionista, Ali protagonizou uma mesa vibrante, marcada aqui por aplausos de pé, ali por vaias, num clima de happening que esquentou – muito – a temperatura do balneário. Tariq Ali começou falando das relações entre literatura e política, que são profundas – uma verdade inegável. “Não há uma muralha da China separando literatura e política”, afirmou, citando autores previsíveis como Stendhal entre aqueles cuja obra tem motivação política e outros surpreendentes – como Proust – entre os que, mesmo sem essa intenção, produziram livros que admitem uma leitura política. Para provar que toda literatura tem algo de político – e também que não é “anti-americano”, um rótulo que diz odiar -, Ali elogiou o autor Cormac McCarthy, dizendo que seu Blood Meridian é “uma descrição perfeita da brutalidade do Império”. Aproveitou para emendar num elogio efusivo de “Cidade de Deus”, de Paulo Lins,…

Manifesto de Parati defende o Líbano
Posts / 11/08/2006

Tariq Ali abriu sua palestra hoje na Flip pedindo licença para ler um manifesto, assinado por vários autores reunidos em Parati, pela imediata retirada das tropas israelenses do Líbano. Destaca-se entre os nomes o de Toni Morrison, americana e ganhadora do Prêmio Nobel. A seguir, a íntegra do documento: Nós, autores abaixo assinados, reunidos em uma festival literário na idílica cidade brasileira de Parati, não podemos deixar de pensar nas vítimas das guerras no Oriente Médio. A invasão israelense do Líbano é apenas o episódio mais recente de uma série de guerras e ocupações. A destruição deliberada da infra-estrutura social do Líbano e os massacres de Marwahin, Qana e Srifa devem despertar a consciência do mundo. Na ausência de qualquer apoio por parte da “comunidade internacional” ao povo libanês e àqueles encurralados no gueto de Gaza, conclamamos todos os cidadãos dotados de consciência a levantar a voz contra esses crimes, especialmente nos EUA, onde as redes de televisão censuraram as imagens de vítimas civis. O plano cínico de utilizar uma força internacional da ONU ou da OTAN para favorecer os objetivos bélicos de Israel não trará qualquer solução. Para que se possa chegar a uma paz duradoura na região, são…

Enfim, uma ótima conversa sobre literatura
Posts / 11/08/2006

O debate de alto nível sobre o fazer literário desembarcou em Parati com um dia de atraso, mas compensou a demora com a qualidade da conversa. Aconteceu na primeira mesa de hoje, que reuniu o francês Olivier Rolin, o peruano Alonso Cueto e o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil. A erudição articulada do português Mario de Carvalho (“Um deus passeando pela brisa da tarde”), ontem à noite, havia brindado a Flip com frases antológicas como esta: “Os livros não acabam. Nós os abandonamos”. Mas, no caso da mesa de Carvalho, dividida com o mexicano David Toscana, não chegou a haver propriamente um bate-bola. Os dois são distintos demais, faltou uma base comum de referências. Hoje foi diferente. O tema eram as relações entre “Prosa, política e história”. Podia ter dado em nada, ou em bem pouco, como costuma acontecer nos casos em que o tema é tão genérico que deriva para clichês vazios como “por que escrever?”, “de onde vêm suas idéias?” e coisas do gênero. Podia, mas não foi o que ocorreu. Graças principalmente a Rolin, autor de “Tigre de papel” (Cosac Naify), apresentado no Primeira Mão mão aqui do Todoprosa, e a Cueto, cujo “A hora azul”…

Hatoum e o silêncio do escritor
Posts / 10/08/2006

Em Parati a passeio, o romancista amazonense Milton Hatoum conversou com o Todoprosa sobre o prêmio Jabuti que acabou de ganhar com “Cinzas do Norte” e sobre a própria Flip, de que participou como autor convidado no primeiro ano e coordenando uma oficina de texto no segundo. Surpreendentemente, o tímido Hatoum afirma gostar dessas oportunidades de contato pessoal entre autor e leitor. “A presença física é importante, pela gestualidade, pela dicção… Às vezes até pelo silêncio você conhece um escritor”. Ouça a entrevista clicando aqui.

Hitchens: “Temos que aprimorar nossa capacidade de matá-los”
Posts / 10/08/2006

Como no ano passado, quando as bombas no metrô de Londres sacudiram a calma da Flip, a notícia sobre o plano dos atentados descoberto na capital inglesa fez a política internacional ocupar novamente o primeiro plano das conversas. O que é “obsceno”, segundo o inglês Christopher Hitchens, mas inevitável. Hitchens, que no sábado dividirá com Fernando Gabeira a mesa “Profissão repórter: na linha de frente”, teve que interromper hoje seus planos de uma sesta reparadora, que o deixasse novo em folha para novas rodadas de uísque com água mineral gasosa – a cachaça da terra não lhe fez a cabeça – a fim de escrever às pressas sobre o caso para a imprensa inglesa. Obscenidade é uma idéia precisa, principalmente quando se leva em conta o contraste entre a fisionomia carregada de Hitchens e as dezenas de crianças de uniforme escolar que corriam à sua volta na Praça da Matriz, entre contadores de histórias e bonecos de papel machê, dando à cena um jeitão comovente de utopia social. Ex-estrela da esquerda britânica que hoje não tem medo de ser chamado de direitista, Hitchens falou ao Todoprosa sobre as idéias que vai expor em seu artigo. Idéias fortes como esta: “Vai…

A musa era musa mesmo
Posts / 10/08/2006

“Para namorar. Quando comecei, era para namorar.” A resposta do poeta Carlito Azevedo à pergunta encaminhada por um espectador, “por que escrever poesia?”, na mesa “Vozes em verso”, hoje de manhã, foi provavelmente a mais desconcertante ouvida até agora na Flip. A falta de pose também é uma pose? Claro que é. Mas é impossível negar o que há de verdade profunda na confissão de Carlito. “Eu via as minhas limitações, não sou o Marcos Siscar, louro, alto, de olho azul”, disse ele, referindo-se ao poeta com quem ele e Astrid Cabral dividiam a conferência na Tenda dos Autores. “Precisava que prestassem atenção em mim por três minutos, que em geral é o que dura um poema.” E hoje, passada essa necessidade juvenil de impressionar namoradas, por que continuar a escrever poesia? “Para mantê-las”, responde Carlito.

Começou, está começado
Posts / 09/08/2006

Pronto, deu-se a mágica. Parati virou a capital brasileira da literatura do dia para a noite. Nessa hora importam muito pouco as críticas, que nunca estiveram em falta, às imperfeições do evento: começou, está começado. Enquanto as ruas de pedras irregulares são pisadas por exércitos de sapatos, sandálias e tênis fabricados nos quatro cantos do mundo, num assustador desafio à resistência de milhares de tendões, as quedas de luz na sala de imprensa fazem jornalistas experimentados perder de dez em dez minutos o trabalho escrito nos últimos dez minutos. Mas ninguém reclama. A prometida rede wi-fi? Amanhã, quem sabe, murmura-se nessa sucursal fluminense da Bahia. E daí, se você entra num botequim e encontra Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, ainda triste com a desistência de última hora de Ricardo Piglia? “O livro dele (‘O último leitor’) é a melhor obra de não-ficção publicada pela editora este ano”, avalia Schwarcz. Na mesa ao lado, o jovem autor angolano Ondjaki conta suas primeiras experiências com uma especialidade da terra: virou várias doses de cachaça e ficou de pé, garante. A voz firme e o equilíbrio passável confirmam a história. É pouco provável, porém, que a resistência do rapaz ao álcool…

Flip: Política & Cia
Posts / 09/08/2006

Roubei o nome do blog do amigo Guilherme Fiuza para enfeitar o título acima, mas tenho uma boa razão. Isso não é necessariamente um defeito – embora possa ser, dependendo do gosto do freguês –, mas a desistência do argentino Ricardo Piglia parece ter sido o que faltava para fazer a balança da 4a Festa Literária Internacional de Parati, que começa hoje à noite com um show de Maria Bethânia, pender de vez para o lado dos temas políticos, deixando a literatura em segundo plano. A inclinação não deixa de ser condizente com um evento em que o autor homenageado é Jorge Amado, que em sua fase realista-socialista foi o escritor brasileiro que mais resolutamente subordinou sua ficção a diretrizes político-partidárias em toda a história. Não é este o melhor Jorge Amado. Também não é o melhor desta Flip, em termos literários, o paquistanês-britânico Tariq Ali, que na sexta-feira, às 15h, estará sozinho na mesa intitulada – justamente – “Literatura e política”. Romancista pouco inspirado, Ali goza de reputação melhor como ensaísta militante e porta-voz da cultura muçulmana. Tem tudo para dominar a cena, especialmente enquanto as bombas israelentes caem no Líbano. No outro extremo do arco ideológico – se…

Ainda o Jabuti
Posts / 09/08/2006

Alguns outros resultados do Jabuti, em categorias que envolvem texto: Ruy Castro (“Carmen, uma biografia”) levou o prêmio de biografia; Marcelino Freire (“Contos negreiros”), o de contos e crônicas; Affonso Romano de Sant’Anna (“Vestígios”), o de poesia; Mamede Mustafá Jarouche (“Primeiro livro das Mil e uma noites”), o de tradução; Gabriel o Pensador (“Um garoto chamado Rorbeto”), o de infantil. Isso é só o começo da lista. E tem mais: cada categoria conta com um pódio de três ganhadores. O Jabuti é fortíssimo candidato a prêmio mais prolixo da literatura mundial.

Jabuti para Hatoum
Posts / 08/08/2006

O amazonense Milton Hatoum, com “Cinzas do Norte” (Companhia das Letras), ganhou hoje o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria romance. A escolha é justa e nada surpreendente. Para a lista completa (19 categorias ou quer mais?), clique aqui.

Wisnik substitui Piglia
Posts / 07/08/2006

José Miguel Wisnik, com a palestra ?Machado maxixe?, baseada no ensaio homônimo publicado em seu livro ?Sem receita? (Publifolha, 2004), vai substituir o crítico e ficcionista argentino Ricardo Piglia na mesa das 17h de sábado, dia 12, na Festa Literária Internacional de Parati. ?Machado maxixe? analisa o conto ?Um homem célebre?, de Machado de Assis. Piglia, que seria uma das maiores atrações da Flip 2006 na opinião do Todoprosa (veja nota abaixo), alegou motivos de saúde ? uma virose ? para cancelar o compromisso. Sua editora, a Companhia das Letras, entrou hoje em contato com a organização da festa para saber se, chegando a Parati no sábado, o autor argentino ainda conseguiria falar ao público numa mesa improvisada no domingo. Recebeu resposta positiva. Em todo caso, é improvável que isso venha a ocorrer.

Começos inesquecíveis: Fiódor Dostoiévski
Posts / 07/08/2006

Voltava finalmente depois de uma ausência de duas semanas. Os nossos estavam havia já três dias em Rulettenburgo. Pensava que eles, Deus sabe como, me estariam esperando, mas enganava-me. O general parecia o supra-sumo da indiferença; falou-me com altivez e enviou-me à sua irmã. Saltava aos olhos que, fosse como fosse, haviam arranjado dinheiro. A mim me pareceu também que o general se esforçava muito por não me olhar. Mária Filipóvna estava muito atarefada e falou-me muito à pressa; aceitou, não obstante, o dinheiro, contou-o e escutou meu relato até o fim. À hora da refeição esperavam Miezientsov, um francês e também certo inglês; assim costumavam fazer enquanto tinham dinheiro: em seguida davam jantares à moscovita. Polina Alieksándrovna, ao ver-me, perguntou: “Vai estar ali muito tempo?” E sem esperar resposta, foi-se para não sei onde. Naturalmente, fez aquilo de propósito. Precisávamos, não obstante, ter uma explicação. Haviam-se juntado muitas coisas. Muitas coisas, realmente. Coisas demais? O início de “O jogador” (Obra completa, volume III, tradução de Oscar Mendes, Nova Aguilar, 1995), novela escrita por Dostoiévski em apenas três semanas em 1866, a fim de pagar uma dívida com seu editor, leva ao limite do pandemônio a máxima de que os…

Quando a literatura abraçou o mercado
Posts / 06/08/2006

A editora inglesa Penguin está comemorando os 60 anos da coleção Penguin Classics. A festa é justificada: a empresa criada por Allen Lane em 1935 fez tanto sucesso com sua estratégia editorial revolucionária que se tornou a maior responsável por trazer a literatura – um tanto tardiamente – para a era da comunicação de massa. A idéia de publicar conteúdo de qualidade em brochuras industrialmente baratas – suporte reservado até então à subliteratura e a reedições sem cuidado de textos caídos em domínio público – estreou no mercado em 1935. Trazia textos de autores (então) contemporâneos, como Agatha Christie e Ernest Hemingway. Só na década seguinte os clássicos entraram na dança, e o público, para surpresa de muita gente, continuou comparecendo. “O amante de Lady Chatterley”, de D.H. Lawrence, lançado em 1960, chegou a vender o número até então inconcebível de 3,5 milhões de exemplares. Para comemorar a data, a Penguin preparou uma lista dos cem melhores títulos da história da coleção – leia a reportagem do “Times”, em inglês, aqui.

De Cervantes a Joyce, segundo Piglia
Posts / 03/08/2006

Finnegans Wake é um laboratório que submete a leitura a sua prova mais extrema. À medida que nos aproximamos, aquelas linhas nebulosas se transformam em letras e as letras se amontoam e se misturam, as palavras se transmutam, se alteram, o texto é um rio, uma torrente múltipla em contínua expansão. Lemos restos, pedaços soltos, fragmentos, a unidade do sentido é ilusória. A primeira representação espacial desse tipo de leitura já está em Cervantes, sob a forma dos papéis que ele recolhia na rua. Essa é a situação inicial do romance, seu pressuposto, melhor dizendo. “Sou aficionado a ler até pedaços de papéis pelas ruas”, afirma-se no D. Quixote. Poderíamos ver nesse trecho a condição material do leitor moderno: ele vive num mundo de signos; está rodeado de palavras impressas (que, no caso de Cervantes, a imprensa começou a difundir pouco antes); no tumulto da cidade, ele se detém para recolher papéis atirados na rua, deseja lê-los. Só que agora, diz Joyce em Finnegans Wake – ou seja, na outra ponta do arco imaginário que se abre com D. Quixote – esses papéis amassados estão perdidos numa lixeira, bicados por uma galinha que cavouca o chão. O trecho – e…

Geração agora é Ediouro
Posts / 02/08/2006

Para quem gosta de acompanhar os movimentos – nos últimos tempos, todos concentradores – do mercado editorial, é imperdível a reportagem do jornal “Valor Econômico” de hoje sobre a transformação da editora paulista Geração, fundada há 14 anos por Luiz Fernando Emediato, no nono selo da gigante carioca Ediouro.

Poupe a vida de Harry Potter, JK!
Posts / 02/08/2006

Num evento literário beneficente de que participaram ao lado de JK Rowling ontem à noite, no Radio City Music Hall, em Nova York, John Irving e Stephen King fizeram um apelo à autora para que poupe a vida de Harry Potter no sétimo e último livro da série sobre o jovem mago, que ela está escrevendo – notícia completa, em inglês, aqui. Ela não prometeu nada. “Estou cruzando os dedos pelo Harry”, disse Irving. Parece bobagem, e é. Mas muitas piscinas de lágrimas estão em jogo.

Salman Rushdie espanca Germaine Greer
Posts / 01/08/2006

A história dos protestos contra a filmagem do livro de Monica Ali sobre a comunidade bengalesa de Londres, apresentada na nota “Queimem Monica Ali!”, aqui embaixo, ficou muito melhor depois que Salman Rushdie chutou o balde. O autor de “Os versos satânicos”, nascido na Índia, escreveu uma carta para o “Guardian” (em inglês, aqui) atacando o movimento contra o filme. Até aí, normal. O que esquenta tudo é o ataque de Rushdie à intelectual feminista Germaine Greer, uma radical do “relativismo cultural” que, habituada a tomar o partido errado em qualquer discussão, defendeu os que querem inviabilizar o filme. Com a palavra, o autor: Seu (de Germaine Greer) apoio aos que atacam o projeto desse filme é filistino, santimonial e deplorável, mas não é surpreendente. Ela já fez isso antes, lembro-me bem. No momento culminante dos ataques ao meu romance “Os versos satânicos”, Germaine Greer declarou: “Eu me recuso a assinar petições em favor daquele livro dele, que é sobre os problemas pessoais dele”. Gentil, Rushdie preferiu não mencionar que, na mesma entrevista, de 1992, Germaine Greer defendeu a prisão de escritores dizendo que a cadeia é um bom lugar para eles porque lá “eles escrevem”. Se brigas desse tipo…

O ponto a que chegamos
Posts / 31/07/2006

O ponto coroa a realização do pensamento, proporciona a ilusão de um término, possui uma certa altivez que nasce, como em Napoleão, do seu tamanho diminuto. Alberto Manguel, escritor argentino naturalizado canadense – que os leitores brasileiros conhecem de “Uma história da leitura”, da Companhia das Letras, entre outros títulos –, publicou neste fim de semana no Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El Pais”, uma pequena e saborosa crônica sobre a mais simples e genial das convenções tipográficas, uma criação do Renascimento sem a qual a leitura como a conhecemos não existiria: o ponto. Conta Manguel que os mais estranhos métodos de indicar o fim das frases foram experimentados ao longo da história, com efeitos confusos para o leitor, até que… …en 1566, as coisas mudaram. Aldo Manuzio, o Jovem, neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, definiu o ponto em seu manual de pontuação, o Interpungendi ratio. Num latim claro e inequívoco, Manuzio descreveu pela primeira vez seu papel e seu aspecto. Pensou que estava preparando um manual para tipógrafos; não podia saber que outorgava a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música.

Começos inesquecíveis: Luis Fernando Verissimo
Posts / 31/07/2006

Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça. Escrevo um livro por mês, com vários pseudônimos americanos, embora meu herói – não sei se você notou – sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catástrofe pela sua ação decisiva entre as páginas 90 e 95. Tenho uma fórmula: a grande trepada por volta da página 40, o encontro final com o vilão, e o desenlace, a partir da página 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar. O início de “O jardim do diabo” (L&PM, 1988) não é marcante…

A herdeira
Posts / 30/07/2006

Esta podia estar no blog do Ryff, mas vamos lá: a milionária indústria de picaretagem que gira em torno de “O código da Vinci”, de Dan Brown, acaba de pôr na rua seu produto mais bizarro. A escritora americana Kathleen McGowan publicou um tijolo de 464 páginas chamado The expected one (“O aguardado” ou coisa assim), sobre Jesus, Madalena e aquela conversa toda que vocês já conhecem. A novidade é que o livro, um romanção em que se mesclam ficção e “pesquisa”, tem como protagonista uma escritora que se descobre descendente direta… de Cristo. Consta que McGowan deixa no ar sem muita sutileza que a herdeira é ela.

Se…
Posts / 28/07/2006

Se o Todoprosa falasse de poesia, seria o caso de me declarar surpreso e decepcionado com o dogmatismo exposto pelo escritor e agitador cultural paulistano Nelson de Oliveira em artigo para o jornal curitibano “Rascunho”. Oliveira não deixa escolha aos poetas aspirantes: exige que eles… …inventem sua própria métrica, evitem o verso de medida fixa, fujam da rima. O poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso. Hoje seu ritmo mecânico e engessado (cafona até à medula) só faz sentido na música popular e no canto lírico de baixa qualidade. Pensando bem, nem mesmo aí. A literatura não deve ser tratada como passatempo de burocratas afetados e pedantes. Se o Todoprosa falasse de poesia – mas não fala, não fala –, eu diria que, obviamente, metro fixo e rima são apenas recursos, não têm valor intrínseco para o bem ou para o mal. Vetá-los é tão absurdo quanto declará-los obrigatórios. Principalmente num momento em que, tendo sido tratados com um certo desprezo pelos bem-pensantes por décadas, eles oferecem enorme potencial para o drible na expectativa do leitor, para a obtenção do efeito que não se espera – função básica de qualquer boa literatura, pois não? O artigo é desalentador…

Queimem Monica Ali!
Posts / 27/07/2006

Virou caso de polícia a filmagem, em Londres, do longa-metragem “Brick Lane”, baseado no livro homônimo da princesa do multiculturalismo inglês Monica Ali (leia aqui nota publicada no Todoprosa sobre o último livro da autora). A comunidade bengalesa que Monica Ali retrata no livro – e à qual ela pertence – está revoltada com o que alega ser um retrato preconceituoso e estereotipado de sua gente. Os protestos ganharam tal vulto que a produtora cancelou as filmagens em locações na região bengalesa de Londres, seguindo o conselho da polícia. Não bastou. Está prevista para domingo uma passeata em que exemplares do livro serão queimados. “Ela tem direito à liberdade de expressão, nós temos o direito de queimar livros”, declarou Abdus Salique, líder de uma certa “Campanha contra o filme Brick Lane de Monica Ali”. O movimento reúne centenas de pessoas e foi lançado oficialmente ontem, segundo reportagem (em inglês) do “Guardian”. Uma manifestação de trogloditismo? Claro que é. Mas é comovente também. Quer dizer que a ficção, tratada como uma excentricidade cada vez mais irrelevante em termos sociais, ainda é capaz de provocar toda essa mobilização em algum lugar do mundo? Bom saber que o papel não está restrito a…

Irã proíbe ‘O código da Vinci’
Posts / 27/07/2006

O best seller de Dan Brown, cuja tradução já teve oito edições no Irã, não pode mais ser republicado no país. Os exemplares existentes continuarão à venda – presume-se que devidamente inflacionados. O governo se decidiu pelo veto depois de uma campanha de líderes cristãos iranianos. Curiosamente, os cristãos são gatos pingados no país: cerca de 100 mil contra 69 milhões de muçulmanos.

Nabokov aprendeu com as borboletas?
Posts / 26/07/2006

Não é segredo para ninguém que o grande Vladimir Nabokov (veja nota abaixo sobre “Lolita”) foi um estudioso de borboletas tão sério que chegou a batizar uma nova espécie e sugerir que preferia a lepidopterologia à literatura. Mas ninguém tinha levado tão longe a relação entre as duas maiores paixões do escritor russo (o xadrez vinha em terceiro lugar) quanto o biólogo e nabokovólogo Dmitry Sokolenko. Sokolenko organizou em São Petersburgo, cidade natal do autor de “Ada”, a exposição “O código Nabokov”. Trata-se de uma série de grandes painéis com imagens superampliadas da anatomia das borboletas ao lado de fragmentos da obra do escritor – leia a reportagem do “New York Times”, em inglês, mediante cadastro gratuito. O efeito talvez não seja dos mais feios, mas as ambições de Sokolenko vão além do decorativo. Ele espera provar que o Nabokov escritor deve muito ao Nabokov cientista: “Acho que sua atenção meticulosa aos detalhes (como escritor) só pode ter vindo de sua profissão, daquilo que ele estava fazendo na entomologia”.

Brasil em foco no ‘Guardian’: participe
Posts / 25/07/2006

O bom blog de assuntos culturais do jornal inglês “The Guardian”, chamado Culture Vulture, está pedindo aos seus leitores sugestões de escritores brasileiros – de preferência traduzidos para o inglês, mas não necessariamente. Faz parte de uma seção fixa que eles têm, World Literature Tour, que se limita a pôr um país em foco e deixar o resto por conta dos comentaristas (que precisam ser cadastrados, mas o registro é gratuito). A nota do Brasil entrou no ar ontem e até agora as sugestões andam meio pobres. As melhores não conseguiram ir além de obviedades como Machado de Assis e Clarice Lispector, tal e coisa. Fica aqui a convocação: eu sei que os leitores do Todoprosa podem mostrar àqueles ingleses que nós somos mais do que um país bonito e muito, muito esculhambado. Ou não somos?

Callado: um curioso documento de época
Posts / 24/07/2006

O fato é que, sob a aparente paz e ordem encontradas em tantos países da América Latina, uma corrente de inconformismo vai atingindo níveis cada vez mais profundos. Exatamente como nos nossos romances e nas nossas peças – e é isso que confere a elas sua atual vitalidade, reconhecida pelo mundo –, também entre as massas a estagnação do subdesenvolvimento está começando a ser desafiada. Os que pensam e os que sofrem estão confluindo para um mesmo caminho. Não há hoje praticamente nenhum romance na América Latina que não pregue a revolta. Em nossos países, romances suaves e etéreos não iriam mesmo convencer nenhum leitor. É estranho ler “Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos” (José Olympio Editora, tradução de Cláudio Figueiredo, 98 páginas, R$ 20), tradução de três conferências de Antonio Callado (1917-1997) escritas em inglês e proferidas em universidades britânicas em fevereiro e março de 1974. Além da coragem do escritor, militante do Partido Comunista, de tocar naqueles temas com a ditadura militar brasileira esbanjando força – ainda estávamos no governo Medici –, o que mais chama a atenção do leitor de hoje é o envelhecimento implacável desses textos. Não se trata, obviamente, de dizer que os problemas…

Começos inesquecíveis: Vladimir Nabokov
Posts / 24/07/2006

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. De uma família aristocrática que deixou a Rússia fugindo da Revolução de 1917, Vladimir Nabokov (1899-1977) se mudou para os Estados Unidos em 1940, depois de passar por Berlim e Paris. Já então um escritor maduro – e finíssimo – em sua língua materna, embora pouco conhecido do grande público, dedicou-se tanto a dominar literariamente o inglês que em 1955 lançou nada menos que “Lolita” (Companhia das Letras, 1994, tradução de Jorio Dauster). O escandaloso teor sexual do romance sobre o amor de um homem maduro por uma adolescente transformou Nabokov num estouro comercial. Talvez mais escandaloso que o tema, porém, seja um russo ter se tornado um dos maiores estilistas da história da…

As 007 vidas de James Bond
Posts / 23/07/2006

Um livro novo – inédito – de James Bond, o agente 007 criado pelo inglês Ian Fleming? Pois é. A empresa que controla a obra do escritor morto em 1964, a Ian Fleming Publications Ltd., anunciou ter encomendado a um autor “muito famoso e altamente respeitado” um novo livro de Bond, para ser lançado em 2008, quando será comemorado o centenário do nascimento de Fleming. Notícia completa, em inglês, aqui. Se Robert Ludlum pode continuar literariamente vivo depois de morto (veja aqui como ele consegue), por que Fleming não poderia?

Thomas Pynchon vem aí
Posts / 21/07/2006

O próximo livro do americano Thomas Pynchon se chama Against the day (?Contra o dia?), tem mais de 900 páginas e será publicado no dia 5 de dezembro pela Penguin. Excitante? Não falta quem ache. Considerado um dos maiores escritores vivos por muita gente ? e um dos mais ilegíveis por outro tanto ?, não se pode negar que o americano Thomas Pynchon, de 69 anos, conseguiu se tornar uma lenda pop com sua decisão de, como J.D. Salinger, jamais se deixar fotografar ou dar entrevistas. Autor de romances caudalosos marcados por uma profusão de personagens, situações e registros de linguagem, além de uma lógica interna toda própria, Pynchon não publica um livro novo desde ?Mason e Dixon?, de 1997 (aqui lançado em 2004 pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto).

Um alemão ‘latino-americano’
Posts / 20/07/2006

A cobertura da Copa do Mundo ajudou a transformar num bagaço imprestável, mastigado mil vezes por dia, o clichê de que a Alemanha anda mais leve, mais alegre, menos carregada de culpa. Acontece que clichê não é sinônimo de mentira. O romance “Medindo o mundo”, de Daniel Kehlmann, tem sido apontado como mais um sinal dessa nova leveza alemã. Lançado em setembro do ano passado, vendeu 600 mil exemplares no país – mais do que os fenômenos importados JK Rowling e Dan Brown. É o suficiente para fazer de Kehlmann o maior acontecimento editorial alemão desde “Perfume”, de Patrick Susskind, publicado nos anos 80. O que tem merecido a maior admiração da crítica – também ela, como o público, rendida ao autor de 31 anos – é o fato de “Medindo o mundo” não ter nada da gravidade e do peso normalmente associados à literatura alemã. A explicação do próprio autor é que sua mistura de romance histórico e fantasia científica sobre o encontro do matemático Carl Friedrich Gauss com o explorador e naturalista Alexander von Humboldt foi inspirada numa certa literatura sul-americana. Fã de Gabriel García Márquez, Kehlmann declarou o seguinte ao jornal inglês “The Guardian” (reportagem completa aqui):…

Deus mata Mickey Spillane: ‘Foi fácil’
Posts / 18/07/2006

O primeiro livro do americano Mickey Spillane, “Eu, o júri”, de 1947, que já trazia seu lendário detetive durão Mike Hammer, tem um dos finais mais canalhas da história da literatura policial. Quando descobre que a mulher por quem se apaixonou é a assassina do amigo que tinha jurado vingar, Hammer não pensa duas vezes: mete um tirambaço de 45 na barriga dela. Segue-se o diálogo: – C-como você pôde? – ela ofegou. Eu só tinha um momento antes de falar com um cadáver, mas deu tempo. – Foi fácil – disse. Spillane trabalhou aquele gênero de literatura policial barata que Dashiell Hammett tinha transformado numa fortíssima arte seca e Raymond Chandler em admiráveis exercícios de desencanto e sarcasmo. Barateou tudo de novo, aumentou o volume do sexo e da violência até um ponto ensurdecedor e, como vivemos no planeta Terra, vendeu muito mais em poucos anos do que Hammett e Chandler, juntos, a vida inteira. O escritor morreu ontem, em casa, aos 88 anos. Leia aqui o obituário do “Los Angeles Times”.

Tintim, o maior herói da literatura
Posts / 17/07/2006

Para o escritor inglês Tom McCarthy, não basta gostar de Tintim, o repórter aventureiro de topete louro criado por Hergé. Eu também gosto. O problema começa quando McCarthy resolve provar que os álbuns em quadrinhos de Tintim estão no mesmo nível da melhor literatura jamais escrita. Aí seu caso começa a ficar indefensável. Nada contra os quadrinhos, mas me parece fora de questão que eles não são – e só têm a ganhar se não tentarem ser – literatura. Além do mais, se desconfiei da onda teorizante que vinte e tantos anos atrás quis reduzir Tintim a um repulsivo agente do imperialismo francês, por que embarcaria agora na viagem de incensá-lo como o mais acabado herói produzido pela cultura ocidental desde Homero, aquele em que se cruzam algumas das tradições mais férteis da literatura de todos os tempos? O fato é que a editora inglesa Granta resolveu jogar seu prestígio nessa brincadeira, e não parece estar arrependida. Tem feito um certo estardalhaço o livro Tintin and the secret of literature (“Tintim e o segredo da literatura”). Abaixo, alguns fragmentos do livro – e aqui, em inglês, um maior. Personagens como o Capitão Haddock e Bianca Castafiore ombreiam com qualquer um…

Começos inesquecíveis: o pior de todos
Posts / 17/07/2006

O detetive Bart Lasiter estava em seu escritório estudando a luz que incidia da única janela sobre seu super-burrito quando a porta se abriu para revelar uma mulher cujo corpo lhe dizia que tinha acabado de comer seu último burrito por um bom tempo, cujo rosto informava que anjos existem, e cujos olhos denunciavam que ela seria capaz de fazer você cavar sua própria sepultura e depois lamber a pá até deixá-la limpa. Essas linhas, de autoria do californiano Jim Guigli, foram as vencedoras do prêmio literário Bulwer-Lytton de 2006. Criado em 1982 pela Universidade de San Jose, nos EUA, o concurso anual de “piores começos de romances imaginários” homenageia o autor inglês Edward George Bulwer-Lytton, que em 1830 começou de fato um romance, chamado “Paul Clifford”, com a frase que Snoopy e outros amantes de clichês ajudariam a tornar imortal: “Era uma noite escura e tempestuosa”. São horrorosas as primeiras linhas da história do detetive Lasiter, isso não se discute. Mas concordo com o blog londrino Culture Vulture, que encerrou a notícia da premiação com uma provocação aos seus leitores: sabemos que vocês podem fazer melhor do que isso – ou seja, pior. Quem se habilita?

Começos inesquecíveis: João Ubaldo Ribeiro
Posts / 16/07/2006

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável. É certamente com a imaginação vazia que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o bastante para realmente imaginar, como até hoje fazem os muito idosos em sua terra, todos demasiado velhos para querer experimentar o que lá seja, e então deliram de cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados pelo fascínio dos mais novos e mentindo estupendamente. No início de “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira, 1984), João Ubaldo Ribeiro anuncia de cara a morte (mas será mesmo?) do protagonista, como faz Gabriel García Márquez em “Cem anos de solidão”. Mas não fica nisso: baianamente, deixa claro que essa é só uma das vidas do sujeito. Fica apenas insinuada a sugestão de que vale a pena seguir cada uma delas. E vale mesmo. Não será…

De empregada doméstica a escritora-revelação
Posts / 14/07/2006

A grande sensação literária da Índia no momento, já traduzida para o inglês, é uma empregada doméstica chamada Baby Halder e seu livro de memórias, “Uma vida menos banal”. Halder teve vida miserável – abandonada pela mãe aos 4 anos, casada aos 12 com um supercanalha, mãe um ano depois – e só começou a escrever incentivada por um patrão, professor universitário aposentado, que lhe deu um caderno escolar e uma caneta quando descobriu que ela, sempre que tirava o pó da estante, aproveitava para bisbilhotar dentro dos livros (notícia completa do “Herald Tribune International”, em inglês, aqui). O mesmo professor a ajudou a “editar” mais tarde o material bruto. Consta que “Uma vida menos banal” é forte e emocionante a seu modo cru, mas isso contribui pouco para o fato de os quatro cantos do mundo estarem ouvindo falar do livro – inclusive, agora, os leitores do Todoprosa. Méritos à parte, é difícil não ver no caso de Baby Halder mais uma amostra do vício contemporâneo de tratar qualquer arte como um subproduto – não muito importante, aliás – da biografia do artista.

Shakespeare inflacionado
Posts / 13/07/2006

Todo jovem escritor deve guardar esta notícia para mostrar a seus pais quando eles vierem com aquela conversa de que “literatura não dá dinheiro”. Às vezes demora um pouco, mas dá. Um exemplar da primeira edição das peças reunidas de William Shakespeare, publicado em 1623, apenas sete anos após a sua morte, e cheio de anotações nas margens, foi vendido hoje num leilão em Londres por 2,8 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 11,4 milhões). Notícia completa, em inglês, aqui.

Ingressos para a Flip? Perdeu, perdeu
Posts / 12/07/2006

Mais uma vez, como já virou tradição, muita gente que se dispôs a encarar a gincana de comprar ingressos para a Festa Literária Internacional de Parati, postos à venda hoje ao meio-dia pela Ticketmaster, levou para casa um mico. Ou um micaço, se for levado em conta que esses aventureiros já pagaram pela pousada no balneário há semanas. Mazelas da pouca oferta para muita procura? Em parte, com certeza. Mas só em parte. Isso não explica que, no posto Ipiranga de Botafogo, no Rio, a mesa de Toni Morrison fosse dada como esgotada às 13h30 num guichê – e cinco minutos depois ainda se encontrasse ingresso para ela no guichê ao lado. O pessoal encarregado das vendas também não entendia o que estava acontecendo. Ligavam para supervisores o tempo todo. Continuaram no escuro. Na internet foi melhor? Não. Quem tentou comprar uma entrada para o show de Maria Bethânia pelo site da Ticketmaster foi informado de que, cinco minutos após a abertura das vendas, todas elas tinham evaporado. Danadinha essa Bethânia, não? É, pode ser… O ceticismo é justificado por um fenômeno que começa a ficar conhecido como a maldição dos ingressos da Flip. Ano passado uma confusão semelhante cercou…

Bogotá, capital mundial do livro
Posts / 11/07/2006

A “Folha de S. Paulo” (aqui, mas só para assinantes do jornal ou do UOL) informa que Bogotá recebeu da Unesco, para ostentar ao longo do ano que vem, o título de Capital Mundial do Livro. A capital da Colômbia é a primeira cidade da América Latina a merecer a distinção, mas parece haver justiça nisso. Uma epidemia de leitura que a experiência brasileira torna difícil até de conceber estaria começando a mudar a imagem colombiana de país violento e ingovernável – ou pelo menos mostrando que ela não é exclusiva: Com 2,7 milhões de visitantes por ano, a Biblioteca Luis Ángel Arango, em Bogotá, é uma das mais visitadas do mundo. Recebe, em média, 9.000 pessoas diariamente. É mais do que a soma de visitantes de Masp (Museu de Arte Moderna de São Paulo), Biblioteca Mário de Andrade e Pinacoteca juntos por dia. Mantida pelo Banco Central do país, ela tem 2 milhões de livros e capacidade para 2.000 leitores sentados. Nos últimos anos, a BLAA fez escola: a prefeitura local construiu outras megabibliotecas pela cidade e criou diversos programas de leitura que visam formar leitores em massa.

Ainda a Turquia
Posts / 10/07/2006

Uma reportagem do jornal inglês “The Guardian” (acesso livre, em inglês) traz novas informações e contextualiza a situação de precária liberdade de expressão que tem atazanado a vida de escritores e jornalistas turcos – veja a nota “A Turquia ataca outra vez”, ali embaixo. A propósito da reabertura do processo contra uma romancista popular no país, Elif Shafak, por “ofender a turquidade” (na falta de palavra melhor), o jornal informa que mais de 60 pessoas foram processadas sob alegações semelhantes de um ano para cá, desde que se introduziu na lei um certo “artigo 301”. A maioria dos processos acaba girando em torno da questão do massacre – há quem prefira chamar de genocídio – dos armênios pelas tropas turcas durante a Primeira Guerra Mundial, que o país nega oficialmente. No caso de Elif Shafak, bastou que a palavra “genocídio” fosse pronunciada por um de seus personagens, aliás armênio, para que a autora fosse acusada. Algo como prender Flaubert pela morte de Emma Bovary. O jornal registra ainda uma interessante tese de Sarah Whyatt, diretora do PEN Internacional que acompanha o caso: mais do que um vício autoritário que a Turquia precisará abandonar em sua campanha para ingressar na União…

Começos inesquecíveis: Jeffrey Eugenides
Posts / 09/07/2006

Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio – foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza –, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: “Isso não é a TV, gente, mais rápido não dá.” Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram. Assim, entregando o fim para garantir desde a primeira linha que o leitor só abandonará o livro antes da hora se for ruim da cabeça, tem início a viagem poética e mórbida – praticamente neo-simbolista, pensando bem – de “Virgens suicidas” (Rocco, 1994, tradução de Marina Colasanti). Para quem se interessa pelas engrenagens da escrita, o belo romance de estréia do americano de ascendência grega Jeffrey Eugenides merece destaque ainda por um recurso inusitado: a narração é toda feita na primeira pessoa… do plural.

Esse bárbaro amor pelos livros
Posts / 08/07/2006

Leitura recomendável a todos nós, fetichistas do papel, para quem é absurda a idéia – defendida por tantos visigodos eletrônicos – de que o livro como o conhecemos seja menos que eterno, indestrutível, maior que a própria História. O jornalista e escritor argentino Marcelo Figueras escreve em seu blog no site El Boomeran(g) sobre uma relação com os livros que nada tem de rara. Talvez seja mesmo a mais comum das relações possíveis entre seres humanos e livros. Mas não é fácil encontrar quem assuma esse amor bandido: Cada pessoa se relaciona com o objeto livro de maneiras distintas. Sei de gente que os trata como se cada exemplar fosse um incunábulo: cuidando para que a sobrecapa e a capa não se amarrotem, abrindo-os de tal forma que não fiquem marcas na lombada, negando-se a sublinhar o texto a menos que seja com um delicado traço de lápis… Compreendo esse cuidado, porque expressa amor. Mas é claro que, como na vida, existem muitos tipos de amor. Amo meus livros, mas com um amor bárbaro. Ali estão os coitados, manuseados, gastos, sublinhados com tinta, cheios de papeizinhos que naquele momento serviram como marcadores… Meus livros se parecem bastante com a edição…

Um mês de farra eletrônica
Posts / 07/07/2006

Começou na última terça-feira e vai até o dia 4 de agosto a World eBook Fair, ou Feira Mundial do Livro Eletrônico. Estão franqueadas por um mês as buscas e os downloads de arquivos – em pdf – numa biblioteca de cerca de 330 mil títulos em mais de cem línguas, com predominância do inglês. A feira comemora os 35 anos do Projeto Gutenberg, programa pioneiro de digitalização de clássicos, com o apoio e o acervo complementar da World eBook Library, que normalmente cobra pelos downloads uma assinatura de 8,95 dólares por ano, e mais um consórcio de iniciativas menores ligadas ao livro eletrônico. Quase todas as obras são suficientemente antigas para estarem em domínio público, ou seja, fora do alcance das leis de proteção aos direitos autorais. Decepcionante? Convém não esquecer que, embora mortal para quem acha que o mundo começou ontem, o critério não chega a excluir 5% dos maiores autores de todos os tempos. Isto é, em tese. Não significa que mais de 95% deles já estejam nessa feirinha, ao alcance de um clique. Chegaremos um pouco mais perto disso quando for atingida a marca, prevista para 2009, de 1 milhão de livros.

Livros para ouvir, ouviu?
Posts / 06/07/2006

Eis um aspecto até certo ponto inesperado da discussão que abriu a semana aqui no Todoprosa, sobre o futuro do livro na era digital. “A palavra falada é o grande sucesso do mercado de livros digitais até o momento, graças ao fenômeno do iPod”, anuncia hoje uma reportagem do jornal inglês “The Guardian” (acesso gratuito aqui, em inglês): Peter Bowron, diretor da Random House, editora de ‘O código da Vinci’, diz que chegará o momento em que livros serão contratados com base em seu apelo de áudio, em vez de seu potencial nas prateleiras. ‘Veio o iPod e, de repente, o mercado de download de arquivos de áudio ficou muito maior… É uma das primeiras áreas do mundo digital em que, em vez de ficar apenas falando dela, estamos realmente ganhando dinheiro’. Depois disso, entende-se melhor a reportagem de ontem do “New York Times” (cadastro gratuito) sobre escritores que estão cuidando pessoalmente das gravações de seus audiolivros, convocando amigos e negociando horas em estúdio na base da camaradagem. Faz sentido. O que encarecia o produto, até pouco tempo atrás uma exclusividade de grandes vendedores, era toda aquela traquitana da vida real: suportes físicos, distribuição, estocagem nos pontos de venda. Quando…

Elmore Leonard não perdoa, mata
Posts / 05/07/2006

Histórias de faroeste? Isso mesmo. Mas histórias de faroeste escritas por ninguém menos que Elmore Leonard, 80 anos, um mestre da narrativa veloz que é dono de um ouvido perfeito, imbatível na estetização da língua americana falada hoje e, por conta de tudo isso, um dos maiores prosadores vivos da língua inglesa. Quem acha que todos esses elogios não combinam com um escritor assumidamente comercial deve pensar de novo. Leonard não é um literato. É uma fábrica de histórias, do tipo que lança um livro por ano e vê muitas de suas tramas irem parar na tela grande – a maioria das vezes em filmes aquém de sua qualidade, mas recentemente em dois sucessos hollywoodianos, “O nome do jogo” e “Jackie Brown”. Mais conhecido como autor de romances policiais, foi escrevendo contos e romances do gênero western que Elmore Leonard fez sua carreira decolar, a partir dos anos 50. Vale conferir, em inglês, os aplausos com que o sisudo “Financial Times” comemora o lançamento de todos os seus contos de bangue-bangue num só volume, na Inglaterra, aqui. Os romances de faroeste de Elmore Leonard vêm sendo lançados no Brasil pela Rocco, que publica o autor há muitos anos – como…

A Turquia ataca outra vez
Posts / 05/07/2006

O que tem a ver a Turquia com a União Européia? É o que muita gente tem se perguntado diante da reincidência do país nas restrições à liberdade de imprensa e opinião, um dos pontos fracos de sua candidatura a membro do clube. Ano passado, o escritor Orhan Pamuk foi submetido a um processo rumoroso por ter comentado, numa entrevista, aquilo que nenhum historiador sério nega: o massacre de cerca de 1 milhão de armênios pela Turquia, em 1915. Como Pamuk é um autor de renome internacional, a pressão da opinião pública, sobretudo a européia, levou o governo a desistir do processo. Mas Fatih Tas não é Pamuk. O dono da editora Aram, jovem de 27 anos que já é veterano de outros processos, anunciou numa entrevista divulgada pela agência France-Presse (mediante cadastro gratuito) que está enfrentando acusações de “denegrir a identidade nacional” e “incitar o ódio”, o que o sujeita a uma pena de até seis anos de prisão. Seu crime foi ter publicado, em março, uma tradução de Manufacturing consent: the political economy of the mass media, de Noam Chomsky e Edward S. Herman. Num dos ensaios do livro, Chomsky critica o tratamento dispensado pelo governo turco à…

Eco e Chartier se juntam ao debate
Posts / 04/07/2006

A polêmica sobre o fim anunciado do livro ganha a adesão de duas vozes de peso. Umberto Eco comparece com a transcrição de sua palestra Da internet a Gutenberg, de 2003, traduzida para o português pelo professor catarinense João Bosco da Mota Alves (o link é uma contribuição do leitor Francisco Gonzalez). Comentando as infinitas possibilidades de “leitura ativa” que o meio eletrônico propicia, aquelas que seus propagandistas saúdam como o fim do “livro fechado” – hipertexto, interatividade, edição, colagem de fragmentos –, Eco defende o livro tradicional com sobriedade e elegância, apresentando um singelo argumento filosófico: Você é obrigado (como leitor de um livro) a aceitar as leis do destino, e constatar que não pode mudar o destino. Um romance hipertextual e interativo nos permite praticar liberdade e criatividade, e espero que tal tipo de atividade inventiva seja praticada nas escolas do futuro. Mas “Guerra e Paz” escrita não nos confronta com possibilidades ilimitadas de Liberdade, mas com as leis severas da Necessidade. Para sermos pessoas livres, precisamos também aprender esta lição sobre Vida e Morte, e apenas os livros ainda nos presenteiam com esta sensatez. A outra contribuição tem peso intelectual equivalente: vem do historiador francês Roger Chartier,…

Livro com os dias contados? – a missão
Posts / 03/07/2006

Para quem se interessou pela polêmica exposta na nota abaixo: o artigo de Kevin Kelly que motivou a resposta de John Updike ganhou uma tradução para o português – uma versão condensada, mas ainda de certo fôlego – na última edição da revista “Entrelivros”, sob o título Biblioteca universal ao alcance do mouse.

Polêmica boa: o livro está com os dias contados?
Posts / 03/07/2006

Eis uma polêmica imperdível (toda em inglês, infelizmente) para quem se interessa pelos novos rumos que a cultura digital pode impor à literatura – ao ato de escrever, de ler, de vender, de comprar livros. Pouca gente minimamente antenada discute que mudanças culturais e econômicas estão a caminho, mas até que ponto isso mexerá, se é que mexerá, com a leitura como a conhecemos? Alguns radicais acham que o livro – o objeto físico e também o mental – está com os dias contados, nada menos. Um desses é Kevin Kelly, da revista de tecnologia “Wired”, que mês passado publicou um longo artigo no “New York Times” (cadastro gratuito) para saudar a nova era que, acredita ele, a digitalização de grandes bibliotecas pelo Google está inaugurando. Nessa era já não haverá livros, mas fragmentos de páginas que os leitores editarão na ordem que bem entenderem, trocando esses novos textos remixados como hoje se trocam listas de música online. Nenhum autor poderá viver de seus escritos em tal ambiente, é claro, pela simples razão de que não haverá direitos autorais. Como viverão os escritores? Vendendo “performances, acesso ao criador, personalização (…), patrocínios, assinaturas periódicas – em resumo, todos os valores que…

Record nega venda para Bertelsmann – de novo
Posts / 01/07/2006

A Record, maior editora de livros de interesse geral (isto é, não didáticos) do país, desmentiu ontem oficialmente os rumores de que foi vendida para o grupo alemão Bertelsmann, um dos maiores do mundo na área de comunicação. Nao é a primeira vez que faz isso, o que reforça a suspeita de namoro entre as partes. O mesmo boato circulou com força em agosto do ano passado. Tanta força que chegou a ser desmentido por Stuart Applebaum, vice-presidente executivo de comunicação da Random House, braço editorial da Bertelsmann e maior editora de interesse geral do mundo. Applebaum declarou ao “PublishNews”: “Nós não compramos nem investimos em nenhuma editora brasileira, nem estamos contemplando fazer isto no futuro”. Mas a tendência do mercado é mesmo concentradora, e pelo menos uma editora portuguesa estava na mira do grupo. Terça-feira passada foi confirmada a compra, pela Bertelsmann, da editora e rede de livrarias portuguesa Bertrand, por um valor estimado entre 20 e 30 milhões de euros (entre 55 e 80 milhões de reais). A compra da empresa d’além-mar pode estar na origem do ressurgimento dos rumores. Em 1997, a Record adquiriu dos portugueses a Bertrand Brasil. Desde então, não há mais relação alguma entre…

Começos inesquecíveis: Charles Dickens
Posts / 30/06/2006

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…) Eis o melhor dos começos, o pior dos começos: o começo de “Um conto de duas cidades”, lançado em 1859 por Charles Dickens (Nova Cultural, 2002, tradução de Sandra Luzia Couto).

Conselho aos ‘leterados’
Posts / 29/06/2006

Porque muitos que são leterados não sabem treladar bem de latim em linguagem, pensei escrever estes avisamentos para ello necessários. Primeiro, conhecer bem a sentença do que há de tornar, e poê-la enteiramente, não mudando, acrescentando, nem minguando alguma cousa do que está escrito. O segundo, que não ponha palavra latinadas nem doutra linguagem, mas todo seja em nosso linguagem escrito, mais achegadamente ao geral bom costume de nosso falar que se pode fazer. O terceiro, que sempre se ponham palavras que sejam dereita linguagem, respondentes ao latim, não mudando umas por outras, assi que onde el disser per latim “escorregar”, não ponha “afastar”, e assi em outras semelhantes, entendo que tanto monta uma cousa como a outra; porque grande deferença faz pera se bem entender, serem estas palavras propriamente escritas. Em homenagem à seleção treinada por Felipão, que encara neste sábado a Inglaterra, vai aí um fragmento delicioso – e cheio de verdade, é só prestar atenção – do “Leal Conselheiro”, clássico do português medieval escrito por um rei de verdade, D. Duarte (1391-1430), que carrega pela história afora o simpático epíteto de “primeiro filósofo da saudade”. O fragmento foi colhido no livro “Era Medieval”, de Segismundo Spina, primeiro…

Autor pernambucano se defende
Posts / 28/06/2006

Reproduzo abaixo a mensagem que acabo de receber de Fernando Monteiro, escritor pernambucano citado semana passada aqui no Todoprosa, na nota “É claro que nossos netos vão rir”, por conta da apresentação interneticamente tosca de um folhetim de sua autoria no site do jornal paranaense “Rascunho”. A mensagem repete em linhas gerais os argumentos de um dos editores do jornal, Luís Henrique Pellanda, já publicados aqui: o trabalho em questão foi concebido para publicação em papel, o site é só um subproduto disso – traduzindo, ninguém está ligando para o que vai ao ar no “Rascunho” digital e eu não deveria ligar também. O que, na minha opinião, é confissão de culpa e não atenuante. De novidade, a mensagem do autor do folhetim traz uma crítica genérica e um tanto difusa ao próprio meio eletrônico e aos “debates” (aspas de Monteiro) que ele propicia. Pois é em benefício do debate (sem aspas) que a mensagem de Fernando Monteiro vai aqui na íntegra, sem edição, o que dificilmente ocorreria no espaço contado da imprensa de papel. E também porque, no fim das contas, suas palavras ajudam a entender por que seu folhetim, mesmo tendo caído na rede, se recusa tão obstinadamente…

Assim comeu Zaratustra
Posts / 28/06/2006

As pinturas religiosas do século XIV foram as primeiras a retratar cenas de danação em que pessoas acima do peso vagavam pelo Inferno, condenadas a saladas e iogurte. Os espanhóis eram particularmente cruéis, e durante a Inquisição um homem podia ser condenado à morte por rechear um abacate com siri. Nenhum filósofo chegou perto de resolver o problema da culpa e do peso até que Descartes dividiu mente e corpo em dois, para que o corpo pudesse se empanturrar enquanto a mente pensava: “Quem se importa, esse não sou eu”. A grande questão filosófica continua sendo: se a vida não tem sentido, o que fazer a respeito da sopa de letrinhas? Deu para reconhecer o estilo? O trecho foi retirado de um livro inédito de um dos maiores filósofos da história, o “Livro de dieta de Friedrich Nietzsche”, cujo manuscrito foi descoberto recentemente em Heidelberg por Woody Allen – ou pelo menos é esse o ponto de partida da crônica de humor filosófico (em inglês) que ele publica no último número da “New Yorker”.

Plebiscito não torna Macondo uma cidade real
Posts / 27/06/2006

A cidade natal do colombiano Gabriel García Márquez, a pequena Aracataca, que ele pôs no mapa, não quis sair de casa para lhe retribuir o favor: num plebiscito realizado domingo passado, uma alta taxa de abstenção – leia-se indiferença – impediu que o nome da cidade fosse trocado para Aracataca-Macondo, em referência à localidade fictícia onde se passa a trama da obra-prima de García Márquez, “Cem anos de solidão”. Dos 22 mil eleitores da cidade, apenas 3.600 apareceram para votar, abaixo da metade do mínimo necessário. Notícia completa, em inglês, aqui. Moral da história? Talvez esta: o brilho da literatura, por mais forte que seja, costuma perder quando confrontado com o sol a pino da vida mundana. Ou ainda: a cidade está ressentida porque faz duas décadas que o escritor não a visita. Ou não, nada disso: rebatizar o lugar como Aracataca-Macondo era uma idéia de jerico mesmo.

Nossos comerciais, por favor
Posts / 26/06/2006

O product placement, mais conhecido no Brasil como merchandising, é tão comum no cinema e na televisão quanto atrizes siliconadas. Parece que já passamos da fase de debater a ética da coisa, que de alguma forma se naturalizou: afinal, o personagem tem que tomar uma cerveja naquela cena, não tem? Está no roteiro. Então por que não fazer da cerveja uma Bohemia e descolar uma grana que – naturalmente – será reinvestida em prol da qualidade artística do produto final? Hein, hein? (Um espírito-de-porco pode argumentar que, uma vez começado esse jogo, é inevitável que mais e mais personagens virem enxugadores de cerveja, mesmo que sejam atletas de ponta em véspera de Olimpíada, mas ninguém vai lhe dar ouvidos.) Na literatura é diferente: a jogada ainda provoca escândalo, como se viu depois que dois autores americanos de livros juvenis, Sean Stewart e Jordan Weisman, admitiram ter reescrito as frases em que mencionavam o batom e outros produtos de maquiagem usados por uma personagem num livro recém-lançado, Cathy’s book, para encaixar as marcas registradas da grife Cover Girl. Imoral? Onde vamos parar? A escritora Jane Smiley publicou no “Los Angeles Times” um artigo em que troca de saída esse enfoque chocado…

Goleadores de letra
Futebol & literatura , Posts / 25/06/2006

Seleção brasileira de autores que escreveram sobre futebol, escalada pelo craque botafoguense Sérgio Augusto para o Portal Literal: Paulo Barreto; Coelho Neto, José Lins do Rego, Octávio de Farias e Vinicius de Moraes; Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Décio Almeida Prado; Mario Filho, Edilberto Coutinho e Luis Fernando Verissimo.

Começos inesquecíveis: Dashiell Hammett
Posts / 23/06/2006

O maxilar de Spade era largo e ossudo, seu queixo era um V muito pronunciado, abaixo do V mais suave formado pela boca. As narinas se arqueavam para trás para formar um outro V, menor. Os olhos amarelo-cinzentos eram horizontais. O tema do V era retomado pelas sobrancelhas um tanto peludas que se erguiam a partir de duas rugas gêmeas acima do nariz adunco, e o cabelo castanho-claro tombava – de suas têmporas altas e retas – em uma ponta, por cima da testa. De modo bem ameno, ele parecia um satã louro. Disse para Effie Perine: – O que é, meu bem? O início de “O falcão maltês” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 2001), obra-prima lançada em 1930 por Dashiell Hammett (1894-1961) e fortíssimo concorrente ao título de maior romance policial da história, marca o momento – não desprovido de choque – em que a descrição da literatura realista encontra o grafismo econômico dos gibis.

Cem anos de polêmica: o Brasil lê ou não?
Posts / 22/06/2006

Nos primeiros anos do século XX, escritores de grande importância no cenário intelectual do Rio de Janeiro deram vez a uma discussão que até hoje parece merecer nossa curiosidade. Com grande interesse, eles tentavam responder à seguinte questão: era o Brasil um país de leitores? O famoso cronista João do Rio, que costumava flanar pelas ruas da capital federal em busca de temas cotidianos e ao mesmo tempo provocantes para suas colunas nos jornais, dizia, ao observar o intenso movimento das livrarias e o número cada vez maior de mercadores ambulantes de livros, que o Brasil, de fato, lia. Inconformado com a análise do colega, Olavo Bilac, poeta, cronista e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, discordava veementemente. Usando como prova os dados censitários que denunciavam o alto índice de analfabetismo em todo o país e a constante queixa de romancistas eminentes que mal conseguiam esgotar a primeira edição de suas obras, Bilac deixava clara sua opinião: o Brasil não lia, pela “razão única e terrível de não saber ler”. Assim começa o bom livrinho “O livro e a leitura no Brasil” (Jorge Zahar Editor, 76 páginas, R$ 22), da cientista social Alessandra El Far, lançamento da coleção…

O ‘Rascunho’ se defende
Posts / 22/06/2006

Um dos editores do jornal literário “Rascunho”, Luís Henrique Pellanda, me envia uma mensagem cordial para defender a publicação – sem a menor pinta, digamos, internética – do folhetim de Fernando Monteiro, que critiquei na nota abaixo. “O projeto que nos foi apresentado pelo Fernando não era o de um romance online, mas o de um folhetim a ser publicado em papel”, explica Pellanda. “A publicação do material no site do jornal é uma conseqüência do que é publicado mensalmente no ‘Rascunho’, e serve como registro e consulta aos leitores que perderam capítulos anteriores. Ou seja, o Fernando não buscava desenvolver, para este projeto, uma linguagem específica para a sua publicação na internet.” Muito bem. Imaginei mesmo que fosse o caso, sendo o “Rascunho” eletrônico um mero espelho do jornal de papel, mas vale usar o clichezão – caiu na rede, é peixe. A crítica continua de pé e pode até ser reforçada, estendendo-se à internet brasileira como um todo: com exceções raras, ainda nem chegamos à fase de tentar tornar a rede algo mais do que um depósito de textos. Temos cabeça de papel.

É claro que nossos netos vão rir
Posts / 21/06/2006

Quem gostou da solução encontrada pela Slate para publicar um romance online (nota abaixo) pode achar instrutivo conferir um exemplo de como não fazer isso, acessando o livro que o escritor Fernando Monteiro tem soltado em capítulos no “Rascunho”, o jornal literário paranaense.

Romance online na Slate: nossos netos vão rir?
Posts / 21/06/2006

Vai chegando ao fim a publicação, pela revista eletrônica Slate, do folhetim (a palavra se refere à publicação em série, não ao estilo) The Unbinding, de Walter Kirn, que estreou em março. Kirn é um autor com alguma estrada, embora pouco conhecido no Brasil, e merece uma visita – é grátis. Não tanto pelo romance em si, ambientado num futuro próximo e montado como uma colagem de e-mails e trechos de diários eletrônicos, entre outros fragmentos. Confesso que não me interessou terrivelmente. Mas o modo como é apresentado, sim. Absolutamente legível, com navegação fácil entre os capítulos, possibilidade de escolher a cor do fundo entre preto e branco e outras boas sacadas. A própria Slate – que é suspeita, claro – anuncia a iniciativa como a mais significativa desde que Stephen King “testou o meio no ano 2000, publicando um romance online chamado The Plant”. Não deu muito certo, como se sabe, mas isso teria ocorrido porque “os leitores foram prejudicados pelo acesso discado. Mas a supremacia da banda larga e o crescente conforto com a leitura online tornam possível a publicação de um romance como The Unbinding”, conclui a Slate. Eu sei que estamos engatinhando nessa área. É muito…

Começos inesquecíveis: Graciliano Ramos
Posts / 20/06/2006

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. “São Bernardo” (1934), de Graciliano Ramos (39a edição, Record, 1983).

Brasil vai mal na Copa do Mundo literária
Posts / 20/06/2006

A lista de sugestões de livros para as férias de verão (deles), publicada no fim de semana pelo “Financial Times”, faz um bom retrato da atual configuração, digamos, geopolítica da literatura mundial – na qual o Brasil vai mal, mas vai mal demais. É importante ressalvar que a qualidade não tem necessariamente a ver com isso. E que listas como essa do FT – dividida por áreas geográficas, simulando as viagens que o leitor poderá fazer em pessoa quando as férias chegarem – não passam de bobagens de interesse meramente jornalístico. Mesmo assim, diz muito sobre a predisposição dos leitores do hemisfério Norte, que quarenta anos atrás mal podiam esperar o próximo lançamento latino-americano, o fato de a categoria “Américas Central e do Sul” ter apenas dois títulos, contra sete (sete!) da África, quatro do Oriente Médio e quatro da China. Ainda bem que, dos dois gatos pingados latino-americanos, um é brasileiro: City of God, de Paulo Lins. Mas não vamos nos iludir: o livro só foi parar lá por causa do sucesso do filme de Fernando Meirelles.

Campos de Carvalho voltou da Bulgária
Posts / 19/06/2006

O Grande Escritor Injustamente Esquecido é um personagem fundamental em qualquer literatura. Mais até do que os nomes consagrados, é o Grande Escritor Injustamente Esquecido quem define os limites da leitura, lá onde não chega o senso comum e uns poucos conseguem vislumbrar tudo o que poderíamos ter sido, como nação leitora, e desgraçadamente não fomos. José Agripino de Paula, de “Panamérica”, é o Grande Escritor Injustamente Esquecido da moda: pega bem à beça citá-lo em rodinhas literárias, sobretudo as paulistanas. Há quem prefira ser mais original e se abrace ao Antônio Fraga de “Desabrigo”. Num terreno em que a glória é virada do avesso e a obscuridade se torna o valor supremo, suspeita-se até que escritores inventados em conversas de botequim – como o prosador vesgo Lucho Ventania, de Itapecerica da Serra, imbatível nos anacolutos – passem por Grandes Escritores Injustamente Esquecidos. E quem vai dizer que não? Eu prefiro Campos de Carvalho (1916-1998). Sem pensar duas vezes, fico com o autor de “A lua vem da Ásia”, mestre do nonsense e um dos grandes humoristas da língua portuguesa – humor entendido aqui como coisa seriíssima, ainda que impagável. Por preferir Campos de Carvalho, ando empolgado com a publicação…

Borges em Alexandria
Posts / 16/06/2006

De todas as homenagens que recebeu nos vinte anos de sua morte, quarta-feira, esta deve ter sido a que mais o envaideceria: a inauguração da exposição “Borges, imagens e manuscritos” na Biblioteca de Alexandria, no Egito – não a que concentrou o conhecimento da antiguidade até ser destruída em ataques sucessivos, em torno de 16 séculos atrás, mas sua versão moderna, inaugurada em 2002. Reportagem do jornal argentino “Clarín”, em espanhol, aqui.

O neto de Joyce é o cara
Posts / 15/06/2006

A neta de John Steinbeck andou levando cascudos dos leitores (veja a nota “De ratos e herdeiros”, abaixo), mas acho que foi vítima de uma injustiça. Seja como for, é inofensiva para a indústria editorial e para humanidade perto do neto do gênio irlandês James Joyce (1882-1941). Stephen Joyce, 74 anos, virou o pesadelo da comunidade de joycianos no mundo inteiro com seu modo discricionário de administrar o legado do avô, como mostra um artigo de D.T. Max no último número da revista “The New Yorker” (aqui, em inglês). A princípio, quando Stephen dizia coisas como “sou um Joyce, não um joyciano”, muita gente achava divertido. Até suas tiradas contra o excesso de teorização em torno da obra do autor de “Dublinenses” encontraram eco num certo antiintelectualismo bonachão: “Se meu avô estivesse aqui, morreria de rir”, é um de seus bordões. Menos engraçada foi sua confissão de que queimou um lote de cartas da família, assim como a suspeita de que pode ter feito o mesmo com cartas do punho do próprio Joyce. Sem falar na facilidade com que inviabiliza a publicação de estudos e outros projetos ligados ao avô, como a versão multimídia de “Ulisses” (pois é…) que um…

Bloom: Harry Potter não leva a nada que preste
Posts / 14/06/2006

Pergunte ao supercrítico americano Harold Bloom se ele concorda com a tese consagrada de que o fenômeno Harry Potter representa uma esperança para a literatura, para o futuro do hábito de ler bons livros. Paulo Polzonoff fez isso, e a resposta foi veemente: Não, não, não. Eu discordo. Isso é um desastre. Geralmente as pessoas que dizem isso argumentam que pelo menos as crianças estão lendo. E que no futuro, se elas criarem o hábito, lerão coisas melhores. Mas a resposta para este argumento já foi dada pelo “Harry Potter de adultos”, um escritor horrível, deplorável: Stephen King, que resenhou um dos livros de Harry Potter no “Sunday Times Book Review”, e disse: “É maravilhoso!”. Bem, se isso é o que as crianças estão lendo aos 9, 10, 11 anos, então aos 12, 13 elas estarão lendo Stephen King. É o que elas estarão preparadas para ler. A entrevista completa de Harold Bloom pode ser lida no site de Polzonoff, aqui. Quem quiser uma visão mais profunda de Bloom sobre o trabalho de J.K. Rowling pode achar instrutivo o artigo (em inglês) que ele publicou no “Wall Street Journal” em 2000, com o significativo título de “35 milhões de compradores…

And the Oscar goes to…
Posts / 14/06/2006

A enquete ficou no ar perto de duas semanas aqui no Todoprosa: “Qual é o melhor filme brasileiro adaptado de uma obra literária (teatro não vale)?” A disputa foi cruenta entre os dois primeiros colocados, que se revezaram o tempo todo na liderança, e “Cidade de Deus” acabou levando a vitória sobre “Lavoura arcaica” no photochart. Pode ter influído no resultado aquele efeito geracional que favorece obras recentes em votações pela internet, mas vale registrar a força demonstrada por alguns clássicos. Segue a lista completa dos dez primeiros: 1) Cidade de Deus (20.00%) 2) Lavoura arcaica (19.52%) 3) Dona Flor e seus dois maridos (15.18%) 4) Vidas secas (11.33%) 5) Macunaíma (9.64%) 6) Memórias do cárcere (8.43%) 7) A hora da estrela (6.75%) 8) O beijo da Mulher Aranha (3.61%) 9) Bufo e Spallanzani (2.17%) 10) Lição de amor (2.17%)

De ratos e herdeiros
Posts / 14/06/2006

Em 1938, o escritor americano John Steinbeck (1902-1968) tinha acabado de publicar “De ratos e homens”, mas ainda estava a um ano de distância de seu livro de maior sucesso, “As vinhas da ira”. Foi quando assinou um contrato em que cedia em caráter definitivo à editora Penguin os direitos de dez de seus títulos. Uma decisão judicial de primeira instância nos EUA acaba de devolver à neta de Steinbeck, Blake Smylle, os direitos sobre esses livros (notícia aqui, em inglês). O juiz alegou que o autor não tinha como saber, na época, a dimensão que sua obra viria a adquirir. E que, portanto, é justo permitir que seus herdeiros renegociem os contratos. A briga vale muito. Quase quarenta anos depois de sua morte, Steinbeck ainda vende cerca de 2 milhões de exemplares por ano.

Começos inesquecíveis: Italo Calvino
Posts / 13/06/2006

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz. Você acaba de ler o primeiro parágrafo de “Se um viajante numa noite de inverno”, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 1999, tradução de Nilson Moulin).

Pedra filosofal? Enganação? As duas coisas?
Posts / 12/06/2006

Os admiradores de Christopher Vogler, que não são poucos, dizem que seu livro “A jornada do escritor – Estruturas míticas para escritores” escapa do clichê tipicamente americano do “guia para ensinar qualquer um a se tornar qualquer coisa”. Bem mais do que isso, afirmam que o livro, ao propor para todas as histórias do mundo um passo-a-passo mitológico (a “jornada” propriamente dita) e, para os personagens, uma série de modelos baseados em arquétipos, torna-se uma ferramenta valiosa que ajuda até escritores experientes a refletir sobre aspectos estruturais mas normalmente nebulosos de sua criação – sobretudo em relação ao enredo e ao desenvolvimento de personagens. Os detratores de Christopher Vogler, que também não são poucos, afirmam que ele nada mais faz do que se apropriar das lições do mitólogo Joseph Campbell, seu conterrâneo e guru, e diluí-las com água e açúcar num livro que pretende ser uma pedra filosofal, um molde infalível para a criação de histórias cheias de ressonância. O que, obviamente, é apenas uma ilusão. Esses detratores vão mais longe e dizem que o livro acaba servindo de muleta para gente sem imaginação – basta dizer que é voltado em primeiro lugar para roteiristas americanos, os mesmos que têm…

Bellow e as dedicatórias: drama e comédia
Posts / 12/06/2006

A notícia, extra-oficial, tem todos aqueles ingredientes que andam levando os escritores a chamar mais atenção pelo privado do que pelo público, ou seja, mais por sua vida do que por sua literatura: o romancista australiano Peter Carey, de “Oscar e Lucinda” (Record), teria pedido a seus editores que apaguem das futuras edições de seus livros as quatro dedicatórias amorosas que fez para sua ex-mulher, Alison Summers, de quem se divorciou de forma litigiosa. Uma bobagem, é claro. Que jamais seria noticiada aqui se nesse gancho frágil o articulista John Shuterland, do jornal inglês “The Guardian”, não tivesse pendurado um texto saboroso e informativo sobre a história das dedicatórias. Afirma que o penduricalho se espalhou no século 18 como auxiliar na bajulação de mecenas e apenas nos últimos cem anos ganhou um caráter mais íntimo. A história de Saul Bellow (1915-2005) é uma das melhores: James Atlas, biógrafo de Saul Bellow, afirma que, para obrigar sua musa a trabalhar, o romancista gostava de trocar de mulher. Passou por cinco delas, e suas dedicatórias deixam uma trilha sanguinolenta dessa história conjugal. Seu último grande romance, “Ravelstein”, contém um retrato malévolo da Sra. Bellow número 4 (Alexandra Ionesco Tulesca, física romena) e…

Hitchens conta a história literária do fellatio
Posts / 11/06/2006

O jornalista e escritor inglês (radicado nos EUA) Christopher Hitchens virá à Flip, informa a coluna do Ancelmo, no “Globo”. Isso deve bastar para garantir a diversão num festival não muito farto em estrelas. Hitchens, de quem a Companhia das Letras lançou este ano “Cartas a um jovem contestador”, é um provocador, um iconoclasta que acende um cigarro no outro e critica a esquerda e a direita com a mesma violência. Também já foi visto cometendo o pecado capital de xingar membros do distinto público em suas conferências. Uma boa amostra do estilo cortante e politicamente incorreto de Hitchens pode ser conferida em seu recente artigo (em inglês) sobre a história literária do fellatio, popularmente conhecido no Brasil como “boquete”, publicado na revista “Vanity Fair”, da qual ele é colaborador permanente. Quem esperar grosseria não sairá decepcionado. Mas os amantes da boa literatura encontrarão bem mais do que isso, como observações sobre a curiosa timidez verbal de Vladimir Nabokov ao tratar do assunto em seu escandaloso “Lolita”. E a tese de que “O poderoso chefão”, de Mario Puzo, deve seu sucesso tanto à precisão do retrato que fazia da máfia quanto à coragem de falar em blowjobs sem meias palavras.

Rowling é melhor que McEwan, dizem leitores
Posts / 09/06/2006

É nisso que dá pedir a opinião do distinto público. Uma enquete online da revista especializada The Book Magazine para eleger o maior escritor britânico da atualidade terminou com JK Rowling, a criadora de Harry Potter (Rocco), disparada em primeiro lugar. Dona Rowling teve o triplo da votação do segundo colocado, outro escritor que se dedica ao público juvenil: Terry Pratchett, da série de fantasia Discworld, lançada no Brasil pela Conrad. Dá para imaginar a idade média dos votantes. Só na terceira posição aparece um autor adulto, e que autor: Ian McEwan, do soberbo ?Reparação? (Companhia das Letras), romance que, para muito leitor cascudo por aí, é barbada para o título de grande obra-prima da literatura mundial nos últimos anos. (Tendo a concordar. Se bem que ?Desonra?, do Coetzee…)

O que conta mais: a vida ou a obra?
Posts / 07/06/2006

Uma observação do lingüista Sirio Possenti (veja a caixa de comentários da nota abaixo) desviou o foco da discussão: de Monica Ali e o multiculturalismo para a importância cada vez maior que as informações biográficas de um autor – nacionalidade, cor, orientação sexual, psicopatologias variadas – assumem na agenda da imprensa literária, enquanto seus méritos de escritor vão recuando para o segundo plano. O assunto levantado por Sírio é bem-vindo. O fenômeno parece ser global e não poupar nenhum ramo de atividade: nunca o mundo foi tão obcecado por celebridades, com seu recheio de pastel de vento e sua consistência de holografia. Ou foi? Saiu há poucas semanas nos EUA um livro que joga luzes interessantes sobre a questão: The economics of attention – Style and substance in the age of information (“A economia da atenção – Estilo e substância na era da informação”), de Richard A. Lanham, professor emérito de inglês da Universidade da Califórnia. Lanham, 70 anos, um vetusto especialista em estilo e retórica, caiu na vida digital nos últimos anos. Primeiro lançou um livro chamado The electronic word (“A palavra eletrônica”). Agora amplia o quadro para refletir, entre outras coisas, sobre as novas estratégias que a superoferta…

Heroína do multiculturalismo em apuros
Posts / 06/06/2006

Poucos nomes da literatura inglesa foram mais festejados nos últimos anos do que Monica Ali, 39 anos, bengalesa radicada na Inglaterra – ou seria mais apropriado chamá-la de inglesa nascida em Bangladesh (na época, ainda parte do Paquistão)? Seu romance de estréia, “Um lugar chamado Brick Lane” (Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro, 472 páginas, 52 reais), lançado no Brasil no início do ano passado, trata de um tema que Monica conhece bem: a vida de imigrantes como ela na terra do Príncipe Charles. Foi o bastante para que passasse a ocupar, ao lado de Zadie Smith, o centro do palco mais iluminado da literatura inglesa atual: o de um multiculturalismo que, no ex-Império Britânico, é uma espécie de religião penitente. Não basta ter talento, ajuda a lot ter nascido numa ex-colônia ou ser de uma família vinda de lá. Assim, louve-se a coragem de Monica Ali, que justamente no momento crítico do segundo livro lança um romance que ninguém esperava dela. Chama-se Alentejo blue e é ambientado, como o nome indica, em Portugal. Seus personagens são portugueses e ingleses. O risco que Monica corre ao fugir do estereótipo é duplo: o de trair os que a admiram mais…

O genoma borgiano
Posts / 05/06/2006

Assim eu vou acabar acreditando que Jorge Luis Borges está neste momento, em algum daqueles tempos bifurcantes que ele adorava, morrendo de rir. Além do caso científico da mulher com memória perfeita que o personagem Funes antecipou em mais de meio século (veja a nota abaixo), existe também a tese de que o escritor argentino lançou pistas proféticas sobre o genoma humano no mesmo livro de 1944, “Ficções”, no conto “A biblioteca de Babel”. Coisa de literato? Não. A tese – brincalhona, claro, mas ótima – é defendida com elegância na revista “Ciência Hoje” por um cientista, Sérgio Danilo Pena, professor titular do departamento de bioquímica e imunologia da UFMG. Vale a pena conferir aqui.

Borges e eu, o não-memorioso
Posts / 05/06/2006

Como não tenho a memória perfeita de Irineu Funes, sei apenas que estava no México a trabalho, cobrindo a Copa do Mundo que seria vencida de forma acachapante pela Argentina de Maradona, quando recebi a notícia da morte de Jorge Luis Borges. Lembro-me de ter ficado triste, o que é uma memória óbvia. Se tivesse uma fração do dom de Funes – personagem de “Funes, o memorioso”, um dos melhores contos de “Ficções” (1944), provavelmente o melhor livro de Borges –, estaria escrevendo agora sobre tudo o que tornou aquele 14 de junho um dia sem igual, como todos são: temperatura, forma das nuvens, quanto tempo se passou – certamente uma vida, mas isso também é óbvio para quem conhece o México – entre a encomenda da ensalada de guacamole e sua chegada à mesa, a cor do cardápio, o comprimento da saia da morena sorridente na mesa ao lado e as letras de todas as canções com que os mariachis torturaram o jantar. Tudo isso está perdido para sempre. Só sei que estava no México, me esforçando para falar espanhol dia e noite, quando o argentino que era meu herói literário naquele tempo morreu. Entenderam? Eu falava espanhol, e…

Handke, Milosevic, ‘Asas do desejo’
Posts / 03/06/2006

A vida do escritor austríaco Peter Handke piorou muito desde que ele compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, em março, e fez um emocionado discurso de adeus ao ex-ditador sérvio, o último grande genocida de um século rico nesse gênero. A primeira conseqüência sofrida por Handke foi o cancelamento da temporada de uma peça de sua autoria em Paris, pela direção da Comédie Française. A segunda virá na semana que vem, quando – a agência France-Presse dá isso como certo – o conselho municipal da cidade alemã de Dusseldorf vai se reunir para lhe tomar o prêmio literário Heinrich Heine. A honraria foi atribuída a Handke, mas ainda não entregue. Um dos grandes escritores de língua alemã da atualidade, Peter Handke é pouco lido no Brasil. Alguns de seus principais livros, “A ausência” e “A repetição”, foram lançados pela Rocco, mas andam fora de circulação; ainda disponível em livrarias virtuais, só encontrei “História de uma infância” (Companhia das Letras). Influenciado pela experiência radical (e freqüentemente ilegível) do noveau roman, mas capaz de levar a lentidão da narrativa a novos níveis de ressonância poética, Handke ficou mais conhecido por aqui pela longa parceria com o cineasta Wim Wenders, traduzida em filmes…

Cinema e literatura: e no Brasil?
Posts / 02/06/2006

A enquete do “Guardian” sobre os melhores filmes inspirados em obras literárias (veja nota abaixo) chegou a uma lista discutível, como todas são, mas provocou boas discussões aqui na redação sobre como seria trazer esse debate para o Brasil. Resultado: essa lista aí da direita, na qual você está convidado a votar. (A votação se encerrou no dia 14 de junho. Veja o resultado na nota And the Oscar goes to…, ali em cima.)

Os melhores filmes da literatura
Posts / 02/06/2006

Listas, listas, listas. Quem resiste a elas? A última vem de uma consulta aos leitores feita pelo jornal inglês “The Guardian” e entra na boa discussão sobre o que faz uma obra literária funcionar – ou não funcionar – quando transposta para o cinema. O jornal quis saber quais são os melhores filmes da história adaptados da literatura. Vale a pena visitar a lista completa (em inglês), que tem 50 filmes. Vão aqui os cinco primeiros e seus diretores, com o nome do escritor entre parênteses: 1. “O sol é para todos”, de Robert Mulligan (Harper Lee) 2. “Um estranho no ninho”, de Milos Forman (Ken Kesey) 3. “Blade Runner”, de Ridley Scott (Philip K. Dick) 4. “O poderoso chefão”, de Francis Ford Coppola (Mario Puzo) 5. “Vestígios do dia”, de James Ivory (Kazuo Ishiguro).

Saramago: leitura para poucos, polêmica para todos
Posts / 01/06/2006

“Ler sempre foi e sempre será algo para uma minoria”, disse José Saramago ontem à noite, criticando o Plano Nacional de Leitura, um ambicioso projeto que os ministérios da Cultura e da Educação de Portugal apresentam hoje. Programa governamental de incentivo à leitura, para o autor de “Memorial do convento”, é algo que “não é válido, é inútil”. Notícia da Reuters aqui. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, reagiu assim que se recuperou do susto com a declaração politicamente incorreta da maior glória das letras lusitanas: “Não vejo como ações que tentam promover e democratizar a leitura sejam vistas como secundárias”. Tocaram, Saramago e a ministra, num debate interminável. É corajoso dizer o que disse o escritor, certamente com enorme dose de razão: programas de “incentivo à leitura” são ótimos para burocratas e rendem encomendas de grandes tiragens a editoras, mas costumam cair no vazio de um sistema educacional – e de um modelo de sociedade, sejamos francos – que simplesmente não valorizam isso. Por outro lado, se o fato – inegável – de que ler sempre foi para poucos conduzir ao imobilismo, será que esses poucos não serão cada vez menos? Isso me fez lembrar de uma…

Depois de Nélida, Auster
Posts / 31/05/2006

O americano Paul Auster ganhou o prêmio espanhol de âmbito internacional Príncipe de Asturias das Letras, no valor de 50 mil euros (quase R$ 150 mil), que ano passado ficou com Nélida Piñon. Chegaram com Auster à final o também americano Philip Roth e o israelense Amos Oz. Notícia completa do site da Fundação Príncipe de Asturias aqui. Tomara que o prêmio ajude a dar fôlego novo ao escritor do Brooklyn. Não estou entre os que gostam de esnobá-lo – uma espécie de esporte intelectual da moda nos últimos anos – porque conservo vivo na memória o prazer que tive em minha fase “austeriana”, quando enfileirei avidamente títulos como “Trilogia de Nova York”, “Leviatã”, “Palácio da Lua” e “A invenção da solidão”. Mas reconheço que nos últimos anos o lado mais chato e autocomplacente do autor, que nunca esteve inteiramente ausente de sua obra, vem levando a melhor. Talvez significativamente, a notícia do prêmio encontrou Auster em Portugal, às voltas não com literatura mas com a filmagem de seu segundo longa-metragem como diretor, chamado The inner life of Martin Frost. O primeiro filme, “Lulu na ponte”, lembra seus piores livros: pose demais para pouca substância.

O escritor e o terrorista
Posts / 31/05/2006

Acho que me senti capaz de compreender a animosidade e o ódio que um fiel do Islã pode ter pelo nosso sistema. Ninguém está tentando ver as coisas por esse ponto de vista. Suponho que eu esteja arriscando o pescoço de várias maneiras, mas talvez seja para isso que existem escritores. Às vezes eu penso: “Por que fiz isso?”. Estou cavucando um assunto que pode ser muito doloroso para algumas pessoas. Mas quando essas sombras me cruzavam a mente, eu dizia: “Eles não podem exigir um retrato mais simpático e, em certo sentido, mais amoroso de um terrorista”. John Updike, 74 anos, um dos principais escritores americanos vivos, fala de seu novo romance, que sai por lá na semana que vem, em entrevista a Charles McGrath no “New York Times” de hoje (cadastro gratuito). O nome do livro é Terrorist. A polêmica, como se vê, é garantida – uma polêmica mais política do que literária, certamente, e no meio da confusão pouca gente deve reparar que o ritmo de thriller é uma novidade surpreendente na carreira do autor. “Terrorista” conta a história de um rapaz de 18 anos, Ahmad, filho de uma americana riponga e de um estudante egípcio de…

Obra-prima cinqüentona: presentes
Posts / 30/05/2006

Nosso livro realiza um impulso difuso nos romances em geral, que em grandes obras do século 20 se torna uma espécie de marca fundamental: a vocação para a totalidade. Toda vez que pensamos nele, devemos pensar também no ‘Ulisses’, de Joyce; no ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Proust; no ‘Berlim Alexanderplatz’, de Alfred Döblin; no ‘Doutor Fausto’, de Thomas Mann; no ‘Quer Pasticciaccio Brutto de Via Merulana’, de Carlo Emilio Gadda; em algum romance de Faulkner; no ‘Século das Luzes’, de Alejo Carpentier, e em poucos outros mais. São obras que tentam dar uma súmula da experiência humana. O trecho acima é tirado do longo artigo que o crítico Davi Arrigucci Jr. escreveu para o magistral caderno especial Grande Sertão: Veredas – 50 anos, publicado sábado passado pelo “Estadão”. Quem puder ter acesso à versão de papel não deve titubear: só lá podem ser lidos os textos de Antonio Candido (escrito em 1956 e avaliando com precisão, em cima do laço, a grandeza da obra), Walnice Nogueira Galvão, Willi Bolle e Mario Sergio Conti, entre outros (ou na versão digital do jornal, para quem for assinante). Aperitivo: com acesso livre no site, além do artigo de Arrigucci, estão os…

Lista da Flip está fechada – confira
Posts / 29/05/2006

A lista dos autores que estarão em Parati de 9 a 13 de agosto está fechada. Ainda não há data marcada para a divulgação oficial, mas os últimos nomes, além daqueles que já estavam confirmados (Jonathan Safran Foer, Nicole Krauss, Benjamin Zephaniah, Uzodinma Iweala, Mourid Barghouti e Maria Valéria Rezende), andam vazando por todos os lados. Nem sempre as informações batem. Sábado, a “Folha de S.Paulo” divulgou uma lista (só para assinantes do jornal ou do UOL) com acertos e erros. Os principais acertos: Adélia Prado, o argentino Ricardo Piglia e os americanos Lilian Ross, jornalista, e Edmund White, ficcionista e crítico. Os maiores erros: não confirmar a presença da americana Toni Morrison, único Nobel e principal estrela da festa, que “O Globo” havia noticiado com um tiro na mosca (nota abaixo); e confirmar equivocadamente o nigeriano Chinua Achebe, que de fato foi convidado para compor uma mesa de literatura africana com o também nobelizado Wole Soyinka – mas nenhum dos dois fechou. Ausente das especulações até o momento, também virá a Parati o francês Olivier Rolin, que terá seu romance “Tigre de papel” lançado em breve pela Cosac Naify. Já o supercrítico americano Harold Bloom esteve muito perto de…

Edgar Allan Poe no dia do ‘nevermore’
Posts / 29/05/2006

O gênio americano Edgar Allan Poe inventou praticamente sozinho a literatura de mistério e um bom pedaço da ficção científica, além de ter se tornado pai e mãe do gênero policial ao criar um detetive voltado para a pura dedução, Dupin, que torna Sherlock Holmes pouco mais que um discípulo esforçado. Tudo bem, mas será que isso nos autoriza a imaginar que Poe concebeu o estranho enredo de sua própria morte, de modo a deixar um último mistério – insolúvel – para a posteridade? Ou essa idéia não passa de romantismo, fruto da inclinação que nós, leitores, temos por borrar as fronteiras entre vida e obra dos autores que admiramos? O fato é que Poe foi visto gozando de boa saúde em Baltimore, em 1849, até sumir de circulação. Passou cinco dias desaparecido, e sobre o que fez nesse tempo nada se conseguiu apurar. Quando finalmente o descobriram num hotelzinho-taberna chamado Ryan’s, estava de cama, em estado lastimável, e morreu logo depois. Tinha 40 anos. Charles Baudelaire, seu fã, nunca duvidou de suicídio. Será? A história está no livro The Poe’s shadow (“A sombra de Poe”), de Matthew Pearl, que acaba de sair na Inglaterra, e do qual o Telegraph…

Paulo Coelho esquenta a Sibéria
Posts / 27/05/2006

Nós já sabíamos que (Paulo) Coelho é popular. Suas histórias de busca espiritual venderam tanto no mundo inteiro que os números que costumam ser citados nos jornais (70, 80, 90 milhões?) fazem pouca diferença. Sua tradução é facilitada pelo uso rudimentar, ao modo das parábolas, que Coelho faz da linguagem. Mas mesmo ele e seus editores e divulgadores parecem ter sido apanhados de surpresa pelo entusiasmo despertado nas estepes. John Mullan escreveu no Guardian (em inglês, acesso livre), sem disfarçar o queixo caído, sobre a inacreditável recepção que as mais remotas cidadezinhas da Sibéria estão proporcionando ao escritor brasileiro, cercado por uma multidão sempre que desce de seus dois vagões particulares no expresso Transiberiano – modo de viajar que Mullan compara ao de um “monarca do século XIX”. A imagem procede: Paulo Coelho viaja com uma equipe numerosa que inclui dois chefs internacionais, embora só se refira à aventura como “peregrinação”. Sei não, mas a imprensa brasileira parece ter engolido uma mosca gigante.

Mundo cão
Posts / 26/05/2006

Eu sei que livros (assim como filmes) sobre cachorros sempre tiveram um cantinho seguro no mercado, mas a lista de mais vendidos do “New York Times” (mediante cadastro gratuito) sugere que a cinofilia literária está atingindo uma espécie de apoteose. Em primeiro lugar na lista de não-ficção está Marley & Me, do jornalista John Grogan, que conta a história da atribulada – mas no fim das contas inspiradora e terna, é claro – convivência de sua família com Marley, um labrador neurótico e hiperativo. Na terceira posição da lista de auto(?)-ajuda surge Cesar’s way (“O jeito de Cesar”), em que o apresentador de um programa televisivo de sucesso chamado Dog whisperer (“Sussurrador canino”, aquele que sussurra com cachorros), Cesar Millan, dá lições sobre a psicologia dos totós. Talvez não seja exagero imaginar que a tendência chegará ao ponto de invadir a ficção e nos brindar com novelinhas bitch lit estreladas por poodles cor-de-rosa. Eu seria leitor garantido de um romance policial ultraviolento sobre um serial killer da raça pitbull.

Nem os luandinistas entenderam
Posts / 25/05/2006

Resumindo a fúria dos luandinistas militantes que deixaram comentários na nota ali embaixo, sobre a recusa do Prêmio Camões pelo grande escritor angolano: também não entenderam nada, coitados. Não deviam se amofinar tanto. Ninguém entendeu. Curioso é pensarem que o direito – cristalino, sem dúvida – que Luandino Vieira tem de esnobar um prêmio de prestígio anula o do resto da humanidade de achar que, sem uma explicação razoável, a extravagância fica com cheiro de desfeita, e só. Não digo que seja sua intenção, digo que parece. Uma boa explicação seria, no mínimo, sinal de respeito a José Saramago, Jorge Amado, Pepetela, Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros autores que já ganharam – e aceitaram, onde já se viu – o principal prêmio da literatura em língua portuguesa. Ah, sim: servia uma explicação “pessoal, íntima”, como a que Jean-Paul Sartre apresentou ao recusar o Nobel de Literatura de 1964: “Um escritor deve se recusar a ser transformado em instituição”.

Tirem as crianças da sala: Kurt Vonnegut está na área
Posts / 25/05/2006

Eis aqui uma lição de texto criativo. Primeira regra: Não usem ponto-e-vírgulas. São travestis hermafroditas que não representam absolutamente nada. Tudo o que fazem é mostrar que você esteve na universidade. Percebo que alguns de vocês têm problemas para decidir se estou brincando ou não. Por isso, a partir de agora, vou lhes dizer quando estiver brincando. Por exemplo, ingressem na Guarda Nacional ou nos Fuzileiros Navais e ensinem a democracia. Estou brincando. Estamos para ser atacados pela al-Qaeda. Acenem bandeiras, se as tiverem. Isto sempre parece afugentá-los. Estou brincando. Se querem realmente magoar seus pais e não têm coragem de se tornar gays, o mínimo que podem fazer é entrar para as artes. Não estou brincando. O livro “Um homem sem pátria” (Record, tradução de Roberto Muggiati, 160 páginas, R$ 34,90), coletânea de artigos e crônicas lançada nos EUA ano passado, mostra que o humor extravagante e o verbo afiado de Kurt Vonnegut continuam sendo páreo para Philip Marlowe – mas este era um personagem fictício. E olha que o homem está com 84 anos. Autor de pelo menos uma obra-prima incontornável da ficção americana no século XX, “Matadouro 5” (hoje mais fácil de encontrar por aqui numa edição…

Por que Luandino disse não ao Camões?
Posts / 24/05/2006

O escritor angolano José Luandino Vieira, 71 anos, recusou o Prêmio Camões, o maior da língua portuguesa, no valor de 100 mil euros (quase R$ 300 mil), informou hoje o Ministério da Cultura de Portugal. Luandino alegou “razões pessoais, íntimas”, o que é esquisito. Se a recusa fosse uma atitude política contra a ex-metrópole, seria uma coisa – e não surpreenderia ninguém que conhece a obra ou a vida do angolano, que foi preso pelo regime salazarista e passou oito anos num campo de concentração. Nesse caso, o gesto viria acompanhado de um belo discurso. Mas enjeitar uma grana dessas na moita, alegando razões íntimas, em vez de, digamos, aceitar o prêmio e doá-lo a alguma instituição séria de seu país miserável, é mais difícil de entender.

Os improváveis Truman Capote e Harper Lee
Posts / 24/05/2006

O grande filme “Capote”, que tem como uma de suas melhores subtramas a relação complexa dos dois, ajudou a reavivar o interesse por algumas velhas questões. E se Truman Capote for o verdadeiro autor de “O sol é para todos” (To kill a mockingbird), de sua amiga Harper Lee? Ou num caminho inverso – e se a participação de Harper Lee em “A sangue frio” (In cold blood) tiver sido maior do que seu vaidoso autor era capaz de admitir? Aparentemente, nem uma coisa nem outra. Mas não admira que rumores como esses tenham ganhado corpo diante da absurda improbabilidade que Truman Capote e Harper Lee representavam: a de dois amigos interioranos de infância, vizinhos, que na adolescância dividiam a mesma máquina de escrever, se tornarem, cada um na sua praia, clássicos indiscutíveis da literatura americana. E para deixar tudo mais estranho – ele, absurdamente afeminado, sendo o negativo dela. Essas e outras histórias estão na boa resenha (em inglês) de Thomas Mallon na última “The New Yorker”, sobre uma nova biografia de Harper Lee, Mockingbird, de Charles J. Shields.

Clarice e os sinos sem som
Posts / 23/05/2006

Convite que circula no Rio: O Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Vereador Ivan Moreira, tem a honra de convidar para a solenidade de entrega do título de Cidadã Honorária do Município do Rio de Janeiro, post mortem, à escritora Clarice Lispector, por iniciativa do Exmo. Sr. Vereador Eliomar Coelho, a realizar-se no dia 02 de junho de 2006, às 17:00 horas. Demorou, não? Clarice (1920-1977) merece todas as homenagens – mesmo uma de prestígio em frangalhos como essa dos vereadores cariocas –, mas é engraçado imaginar sua provável reação de desprezo a tal tipo de “glória oficial”. Lendo o convite, me lembrei de uma frase do finzinho de “A hora da estrela”, quando Macabéa morre: “Morta, os sinos badalavam mas sem que seus bronzes lhes dessem som”.

‘A voz do escritor’: vida não é obra
Posts / 22/05/2006

Chega esta semana às livrarias um lançamento útil para escritores, especialmente iniciantes, e críticos, além de divertido para os leitores mais cascudos de literatura: “A voz do escritor” (Civilização Brasileira, tradução de Luiz Antonio Aguiar, 160 páginas, R$ 28,90), do poeta, crítico e ensaísta inglês A.Alvarez. O lançamento tem algo de surpreendente. Trata-se de um livro menor de alguém que está longe de ser um nome vendedor no Brasil, embora tenha história. Ex-editor de poesia e antologista, amigo de Sylvia Plath e autor de um clássico sobre o suicídio (“Deus selvagem”, lançado aqui pela Companhia das Letras), A.Alvarez, de 76 anos, é também um ensaísta eclético que dedicou volumes inteiros a assuntos como pôquer e divórcio. Uma figura. “A voz do escritor”, baseado numa série de palestras proferidas pelo autor na Biblioteca Pública de Nova York em 2002, mergulha de cabeça num assunto nebuloso que, embora posto de lado como esoterismo por críticos mais “científicos”, é para muita gente que escreve profissionalmente a questão entre todas do ofício: como cada escritor encontra – ou não encontra – sua voz própria, inconfundível. Bem, para começar, que papo é esse de “voz”? Sinônimo de estilo? Para Alvarez, é mais profundo que isso….

Ludlum, a literatura como crime
Posts / 22/05/2006

A maior desonestidade literária do nosso tempo não é o plágio, essa velha praga que pode estar ganhando fôlego renovado na era digital e que a jovem copiadora de Harvard trouxe recentemente para o centro das conversas (veja nota abaixo). Pior do que isso, a meu ver, é o escritor-franquia, o escritor-marca, que nos últimos anos já não escreve sequer uma linha de seus livros. Como, entre outros, o best seller Robert Ludlum. Pelo menos em tese (pois há indícios de que alguns já não fazem nem isso), o escritor que não escreve se limita a conceber suas obras. Imagina um personagem como – digamos, num rasgo de imaginação – um agente da CIA. Em seguida, se sobrar tempo, talvez bole um fiapo de enredo de três linhas. O resto, ou seja, a tarefa lenta e penosa de escrever o livro, é trabalho para a “equipe” da dita celebridade. Esse sistema de franquia já operou pelo menos um prodígio quase sobrenatural. Ludlum morreu em 2001 e continua despejando nas prateleiras mais títulos do que a maioria dos escritores no auge da saúde. Edições póstumas? Não. Os livros são inteiramente póstumos, foram escritos depois que seu “autor” morreu. O último deles,…

Porque hoje é sábado
Posts / 20/05/2006

Hoje é o dia que, não se sabe bem por quê, a imprensa de boa parte do mundo reservou para tratar de literatura. Algumas notícias garimpadas por aí: * Toni Morrison, que teve seu romance Beloved (“Amada”) eleito o melhor da ficção americana nos últimos 25 anos (nota abaixo), virá à Flip. A informação está na coluna No Prelo, de Mànya Millen e Rachel Bertol, no caderno Prosa & Verso do “Globo”. Ganhadora do Nobel, Morrison passa a ser assim o primeiro nome estelar garantido em Parati este ano. O caderno traz também uma resenha elogiosa sobre “Mãos de cavalo”, de Daniel Galera – o saldo está melhorando (veja abaixo). * O consagrado escritor angolano Luandino Vieira, que no Brasil é mais citado e estudado na universidade do que propriamente lido, ganhou o prêmio português Camões, informa a Folha de S. Paulo (só para assinantes do jornal ou do Uol). * O caderno Babelia (em espanhol), do “El Pais”, faz um carnaval com o novo romance do peruano Mario Vargas Llosa, que está comemorando 70 anos – a mesma idade de Luandino, embora isso não venha absolutamente ao caso. Tem uma boa entrevista e duas críticas, uma do novo livro,…

Saddam agora tortura o leitor
Posts / 20/05/2006

Leitores com gostos bizarros podem começar a torcer por uma tradução: aquele que é considerado o quarto e último romance escrito pelo ex-ditador iraquiano Saddam Hussein acaba de ser publicado no Japão. Chama-se “A dança do diabo” e é mais ou menos inédito: uma edição de dez mil exemplares freqüentou as prateleiras da Jordânia por um breve período no ano passado, antes de ser recolhida pelas autoridades do país. “A dança do diabo” conta a história de um líder árabe que organiza a resistência de seu povo a uma tentativa de invasão de suas terras por hordas judaico-cristãs – e vence. Consta que Saddam teria pingado o ponto final no livro pouco antes da invasão americana. Saddamistas (epa!) fiéis sentiram falta das cenas de sexo que apimentavam seu romance de estréia, publicado sob pseudônimo no Iraque em 2001. Notícia completa, em inglês, aqui.

O mago não perde a magia
Posts / 19/05/2006

Harry Potter e outros heróis juvenis, livros escritos por líderes religiosos e títulos didáticos lideraram o crescimento do mercado editorial americano no ano passado. Com um salto de 5,9% em relação a 2004, o faturamento total foi de 34,6 bilhões de dólares. O sexto título da série do mago, aqui traduzido como “Harry Potter e o enigma do príncipe” (Rocco), vendeu espantosos 11 milhões de exemplares só nas nove primeiras semanas após o lançamento nos EUA. Leia mais aqui, em inglês, mediante cadastro gratuito.

O livro, a árvore e o deserto
Posts / 18/05/2006

Tenha um filho, escreva um livro e plante uma árvore, diz a velha receita da realização pessoal. Fórmula segura para que seu filho acabe lendo num deserto. A editora Random House (do supergrupo de comunicação alemão Bertelsmann) anunciou a meta de usar em seus livros 30% de papel reciclado até 2010 – hoje a proporção é de 3%. Segundo os cálculos da empresa, o novo patamar corresponderá à salvação de 550 mil árvores por ano. A notícia está aqui, em inglês, mediante cadastro gratuito. Enquanto isso, no Brasil, a discussão engatinha, a ponto de ter sido notícia, ano passado, a edição “ecologicamente correta” de “As intermitências da morte”, de José Saramago, pela Companhia das Letras. Por exigência do autor português, alinhado com uma campanha do Greenpeace, o livro foi o primeiro no Brasil a ganhar o selo internacional FSC, que atesta o cumprimento de boas normas ambientais – não necessariamente o uso de papel reciclado. A questão da reciclagem é complicada. Por um lado, o custo de produção sobe. Por outro, abre-se para a promoção do livro um terreno de marketing que tende a ter cada vez mais ressonância, até num país ambientalmente atrasado como o Brasil. Nem é preciso…

Literatura até debaixo d’água
Posts / 17/05/2006

Uma inutilidade engraçadinha? Uma genial preparação para o aquecimento global? Uma das últimas novidades tecnológicas no mercado editorial é o livro à prova d’água, com páginas plastificadas e encadernação resistente à umidade. Assim é apresentada uma coletânea de “contos praieiros” chamada The beach book (“O livro da praia”), da editora americana Melcher Media. Embora se trate de literatura séria – Gabriel García Márquez, Isaac Bashevis Singer e Jeffrey Eugenides são alguns dos autores –, é inegável que o principal atrativo do livro é mesmo seu suporte físico. Mas um cliente da Amazon que o comprou alerta: “O tamanho é o de uma brochura normal, mas ele é muito mais pesado. Não é do tipo que se consegue segurar com uma mão só”.

A era dos superlivros
Posts / 16/05/2006

O mundo vai ser cada vez mais de Paulo Coelho e cada vez menos de Paulo Mendes Campos. Sempre foi assim, mas o abismo entre o livro como objeto comercial e o livro como objeto cultural está se alargando. Em edição recente do ótimo caderno literário do jornal espanhol “El Pais”, o “Babelia”, um artigo de Esther Tusquets analisa a participação cada vez maior que os títulos de altíssima vendagem, apoiados em esquemas caros de propaganda, têm no bolo do mercado editorial. O que vale para a Espanha, no caso, vale para o mundo inteiro – e mais ainda para países como o Brasil, onde é mais baixo o nível médio de educação. O artigo (acesso livre, em espanhol) não vai muito além de apontar o dedo para problemas que todos conhecemos bem, mas o faz com bom poder de síntese. Abaixo, os argumentos principais: No plano individual e no nível de um país, a moda é inversamente proporcional à cultura: quanto maior é a base cultural, menor é a força da moda, que se torna avassaladora se a referida base for ínfima. O que ocorre no âmbito da leitura? Creio que aí as conseqüências do predomínio desmesurado da moda…

O paraíso de cada um
Posts / 16/05/2006

Acho que “O Paraíso é bem bacana” é um livro que tem tudo, todos os ingredientes para despertar interesse na Europa, principalmente na Alemanha. O Brasil ainda está meio na moda por lá, é ano de Copa do Mundo, e se discute o islamismo o tempo todo. Eu estava todo feliz com isso, fazendo planos, imaginando polêmicas internacionais. Mas, depois, percebi que, se o livro acontecer mesmo na Europa, pode ser que minha cabeça fique a prêmio, embora eu tenha uma profunda simpatia pela causa política dos muçulmanos. Do escritor André Sant’Anna em entrevista ao Portal Literal, revelando um misto de medo e desejo de que seu romance “O Paraíso é bem bacana” (Companhia das Letras, 452 páginas, R$ 51), sobre um jogador de futebol brasileiro que vai jogar na Alemanha e acaba virando homem-bomba, o transforme no Salman Rushdie tupiniquim.

Alain de Botton e a AAPC
Posts / 16/05/2006

O escritor suíço (radicado em Londres) Alain de Botton, autor de “Como Proust pode mudar sua vida” (Rocco), praticamente inventou um novo gênero literário, a auto-ajuda podre de chique (AAPC). A AAPC permite ao cidadão fazer aquela leitura utilitária típica da auto-ajuda mais rasteira – “como este livro pode me melhorar?”, pensa, calculando o custo-benefício de cada volume – e ao mesmo tempo desfrutar de uma sensação de refinamento intelectual que apaga qualquer culpa que tal pedestrianismo pudesse causar. Em termos comerciais, a AAPC é coisa de gênio. Como leitura, há quem goste. Não é o caso da crítica Rachel Aspden, da revista New Statesman (acesso livre, em inglês). O último livro do autor, “A arquitetura da felicidade”, um passeio pela história da arquitetura em busca daquilo que pode – claro – melhorar a nossa vida, é recebido por ela a golpes de marreta: “(O livro) é como um capuccino plastificado da Starbucks: consiste de 65% de banalidades acachapantes apresentadas sob uma espuma de polissílabos alatinados”.

O pau de Updike em Houellebecq
Posts / 15/05/2006

Enquanto os fãs brasileiros do escritor francês Michel Houellebecq aguardam o lançamento por aqui de seu quarto romance, “A possibilidade de uma ilha” – ficção científica sobre uma religião que vende vida literalmente eterna, fazendo cópias clonadas em série de seus fiéis –, talvez ajude a matar o tempo ler o que escreve sobre a edição americana do livro o escritor John Updike. A crítica (acesso livre, em inglês) está na última edição da revista “The New Yorker”. Preparem-se que lá vem paulada – assim caminha a literatura em países pouco inclinados ao morno compadrio em que nos espojamos: Para descrédito de Houellebecq, ou pelo menos em prejuízo de seu romance, todo o seu meticuloso ódio a – e estridente impaciência com – a humanidade em seus tradicionais sentimentos e ocupações o impede de criar personagens dotados de conflitos e aspirações com os quais o leitor se importe. O herói habitual de Houellebecq, cujo monopólio de auto-expressão suga a maior parte do oxigênio da narrativa, se apresenta sob uma de duas formas: um eremita consumido por tédio e apatia ou um inflamado astro pornô. Em nenhum dos dois papéis ele solicita – ou recebe – muita simpatia. Quem quiser ver…

Carpinejar, discípulo de Artur da Távola
Posts / 15/05/2006

Este blog, fiel a seu nome, não discute poesia. Fabrício Carpinejar, o talentoso e festejado poeta gaúcho de 33 anos que escreveu, entre outros livros pelo menos interessantes, “Um terno de pássaros ao sul” e “Cinco Marias”, pode ou não ter sua importância exagerada pelo momento pouco exuberante da poesia brasileira – isso não vem ao caso. O certo é que nada me preparou para o choque de encontrar nas suas crônicas, reunidas no volume “O amor esquece de começar” (Bertrand Brasil, 288 páginas, R$ 35), o trabalho de um desenvolto seguidor de Artur da Távola. Entre o livro de Carpinejar e um Távola clássico como, digamos, “Do amor – Ensaio de enigma”, as diferenças são adjetivas ou nem isso. Por exemplo, qual dos dois escreveu, com rima involuntária e tudo, que “no momento em que a gente ama, é difícil não sentir timidez ao mostrar a nudez. Quem não tem vergonha não ama”? E quem disse que “a mulher que perdeu o seu amor é alguém com óculos de ver eclipse na alma. Fica com olhar de rinoceronte e olho de cambaxirra”? Um deles escreveu que “o casado não suporta fazer relatórios de onde vai e quando volta. O…

O livro de Self
Posts / 14/05/2006

Mais uma atração pinçada no programa do Festival de Hay, no País de Gales (veja nota sobre a outra abaixo, “Literatura é coisa de homem, diz feminista”). Esta é diferente porque o interesse que me despertou exclui por completo a ironia: o alucinado escritor inglês Will Self, um satirista atormentado que merece o meu respeito, está lançando um novo romance chamado The book of Dave (“O livro de Dave”). O argumento é promissor: na Londres do futuro, após a devastação provocada por uma enchente, os sobreviventes encontram os escritos desconexos de um motorista de táxi do passado e, com base nessas “escrituras”, fundam uma religião.

Deus não está morto
Posts / 14/05/2006

O que é a religiosidade? Aonde nos levará? O livro de Will Self citado na nota acima não é a única evidência de que os rumos do planeta nos últimos anos estão levando a literatura a atacar novamente a questão de Deus – uma questão que, pelo menos desde o século 19, parecia enterrada. Para a melhor literatura, com raríssimas exceções, Deus era aquele que estava morto – ponto. Não mais. Basta ver que o tema da última edição da Granta, a melhor revista literária do mundo, é God’s own countries, “Os países de Deus”. O foco é mais em política do que em religiosidade, claro. Mas sem entender o que, no homem, anseia pela divindade não se chega a lugar nenhum nessa conversa. (Na internet é possível ler apenas uma parte da edição, mas um pedaço da “Granta” vale por pilhas de revistas que circulam por aí.)

O melhor dos EUA em 25 anos
Posts / 13/05/2006

O editor de livros do “New York Times”, Sam Tanenhaus, fez uma enquete (acesso mediante cadastro gratuito) com centenas de escritores, editores e críticos americanos para descobrir “a melhor obra americana de ficção publicada nos últimos 25 anos”. Ganhou Beloved (“Amada”), de Toni Morrison. Publicado no Brasil ainda nos anos 80 pela Nova Cultural, com tradução de Sarah Kay Massaro, hoje este que costuma ser considerado o melhor livro da primeira escritora negra a ganhar o Nobel virou raridade por aqui. Em seguida, na lista do NYT, vieram “Submundo”, de Don DeLillo (Companhia das Letras) e Blood Meridian, de Cormac McCarthy.

Sai Silvestre, entra Sandra
Posts / 12/05/2006

O programa “Espaço Aberto Literatura”, da GloboNews, vai ao ar neste momento com uma novidade interessante. A repórter Sandra Moreyra conduz a entrevista (no caso, com José Castello, que fala de seu livro sobre João Cabral de Mello Neto) no lugar de Edney Silvestre. Sandra é de uma ilustre dinastia de letrados cariocas, neta de Álvaro e filha de Sandro, e fica bem naquela cadeira. Não deve ocupá-la por muito tempo, porém: Silvestre está ausente porque cobre férias no escritório da Globo em Nova York, e, ressalvada uma mudança de planos, reassumirá o programa dentro de um mês.

Ele superou Dan Brown, mas não existe
Posts / 12/05/2006

O romance mais vendido hoje na livraria virtual Amazon, Bad twin, foi publicado na semana passada e logo deslocou o fenômeno “O código da Vinci” para o segundo lugar. A façanha é ainda mais respeitável porque o thriller de Dan Brown, além de ter sua própria história de sucesso, está turbinado no momento pela propaganda do filme nele baseado. Nada disso, porém, é o mais importante no caso de Bad twin. O que torna o livro um caso realmente único é o fato de seu autor, Gary Troup, não existir – ou melhor, só existir como personagem de ficção. Troup é um dos passageiros que não sobreviveram à queda do avião no seriado de TV “Lost”. Na história, o manuscrito de Bad twin foi encontrado entre os destroços e lido por um dos sobreviventes. A diferença entre Gary Troup (anagrama de “Purgatory”, como alguns fãs de “Lost” não demoraram a descobrir) e outros autores de mentira – aquele “lourinho/lourinha” que andou pela Flip ano passado, por exemplo – é que o jogo ficcional, no caso do personagem de “Lost”, é assumido. Leva a questão da autoria para um terreno que a obsessão pós-moderna com a história-dentro-da-história ainda não tinha ousado…

O maior (952 páginas) romance da literatura brasileira
Posts / 11/05/2006

Justo agora que a internet tinha nos convencido de que ninguém agüenta ler textos com mais de duas telas, uma blogueira mineira de 35 anos chamada Ana Maria Gonçalves está lançando o maior romance da literatura brasileira de todos os tempos: 952 páginas. Chama-se “Um defeito de cor” (Record, R$ 79,90) e é uma saga daquelas que, nos Estados Unidos, já chegariam às prateleiras com um contrato assinado em Hollywood. Ana Maria cobre oito décadas para contar a vida de Kehinde, capturada na infância no reino do Daomé (hoje Benin), em 1810, e que acaba vindo parar no Brasil como escrava. A ambição do vôo romanesco e a coragem quase agressiva do tijolaço já seriam suficientes para destacar Ana Maria da multidão, mas aqui vai outra notícia espantosa: a moça escreve que é uma beleza, com uma sobriedade, uma segurança e um ajuste sereno entre forma e conteúdo que andam em falta – e como – no mercado. Na orelha, Millôr Fernandes escala o livro entre os melhores que já leu “em nossa bela língua eslava”. E desafia: “Desmintam-me, por favor”. Não, isto aqui não é (ainda) uma resenha: estou no começo de “Um defeito de cor”. Um juízo acabado…

A triste história da plagiária de Harvard
Posts / 10/05/2006

A história de Kaavya Viswanathan, estudante de Harvard de 19 anos que foi do paraíso ao inferno editorial em poucos dias por conta de uma série de acusações – todas fundadas – de plágio, não comoveu a imprensa brasileira. Normal: Kaavya, que até poucas semanas atrás era festejada por seu primeiro romance chick lit (de literatura para moças, no estilo de Bridget Jones), não teve tempo de ser conhecida pelo leitor brasileiro. A autora que primeiro a acusou de copiar passagens de dois livros seus, Megan McCafferty, também não é ninguém por aqui. Se é normal que o caso, fora uma notinha ou outra, tenha passado em branco no Brasil, não deixa de ser, ao mesmo tempo, uma pena. Primeiro porque a história é pungente em si: Kaavya, garota linda, tinha fechado com uma grande editora um contrato para dois livros no valor de meio milhão de dólares – nada menos. Depois de recolher o livro sob suspeita, How Opal Mehta got kissed, got wild, and got a life, a princípio para “revisá-lo”, a editora Little, Brown & Company anunciou na semana passada que não haveria uma nova edição. Anunciou também que o contrato estava cancelado. Supõe-se que o meio…

A opinião de Fred Flintstone
Posts / 10/05/2006

Talvez seja exagero atribuir ao caso de Kaavya Viswanathan qualquer importância maior do que a de uma história triste sobre uma moça sem caráter, mas pelo menos um subproduto brilhante a polêmica já gerou: o texto humorístico de Larry Doyle publicado no último número da revista “The New Yorker”, intitulado How Fred Flintstone got home, got wild, and got a Stone Age life. Trata-se de uma alucinada colagem de pastiches de trechos famosos da literatura, tirados de autores como Poe, Dickens, Nabokov, com os versos da musiquinha de abertura dos “Flintstones” de entremeio. A graça do jogo (só para quem lê inglês, infelizmente) é desvendar o maior número possível das referências usadas por Doyle.

Corra que a Flip vem aí!
Posts / 09/05/2006

O romancista americano (filho de nigerianos) Uzodinma Iweala, de apenas 24 anos, mais recente atração internacional confirmada na Festa Literária Internacional de Parati, de 9 a 13 de agosto, é um autor inédito no Brasil. Não por muito tempo: a Nova Fronteira prevê lançar em julho, às vésperas da festa, o livro com o qual Iweala estreou há dois anos, “Feras de lugar nenhum”. O caso é semelhante ao do veterano inglês Benjamin Zephaniah, inédito até que a Companhia das Letras publique, também em julho, o infanto-juvenil “Gangsta rap”. Será que toda essa correria para publicar desconhecidos (desconhecidos aqui) indica que a Flip está com dificuldade para fechar seu elenco internacional? Não seria surpresa – as edições anteriores foram tão vorazes nesse aspecto que não sobraram muitos nomões no caderninho. Isso não quer dizer que Iweala e Zephaniah sejam fracos ou que desembarcarão em Parati a bordo de alguma cota racial – ambos são negros. Nada disso: “Feras de lugar nenhum”, história de um menino africano transformado em matador por uma guerra civil, foi recebido calorosamente pela crítica internacional. E Zephaniah é uma figuraça, um agitador performático que pode até vir a perder todo o sentido na tradução, mas não…

Literatura é coisa de homem, diz feminista
Posts / 09/05/2006

Dando uma olhada na programação do festival de literatura de Hay, no País de Gales – aquele que serviu de inspiração para a nossa Flip –, não demoro a encontrar minha atração preferida: uma conferência da feminista australiana Germaine Greer. No próximo dia 27, sábado, ela examinará “a literatura como construção masculina, e a poesia, especialmente, como uma ‘forma espetacular de exibição de macheza’”. E mais: a intelectual quer descobrir “que estratégias podem adotar as leitoras e escritoras quando confrontadas com uma linguagem desse tipo, que ‘as objetifica completamente’?” A primeira e urgente estratégia seria, provavelmente, pedir com gentileza a dona Germaine que fosse catar little coconuts. E que, enquanto estivesse a catá-los, aproveitasse para refletir sobre algumas posições bizarras que vem adotando nos últimos tempos, e que causam mais estragos à imagem das mulheres do que cem gerações de poetas priápicos barbudos. Como sua defesa intransigente da mutilação genital feminina, com o argumento de que as sociedades africanas em que ela é praticada lhe atribuem um peso cultural que nós, ocidentais, não temos o direito de julgar. Aquela conversa mole de relativismo cultural, pois é. Substância literária eu não garanto, mas querem esquentar o debate nacional? Ainda dá tempo…

Para a ficção ficar mais científica
Posts / 09/05/2006

“Escritores de ficção científica não sabem nada”, declarou certa vez Philip K. Dick. No entanto, sendo um escritor de ficção científica, é possível que ele não soubesse nada. Por via das dúvidas foi criado na Inglaterra o SciTalk, um inacreditável serviço online de aconselhamento científico gratuito a autores que queiram criar coisas como universos paralelos habitados por mutantes com o sexo entre as sobrancelhas, mas deixando a imaginação trabalhar sobre fundamentos físicos e químicos sólidos. Está certo que o gênero de Fausto Cunha, Jorge Luiz Calife e – às vezes – Braulio Tavares está longe de ser o preferido dos escritores brasileiros, mas nunca se sabe quem pode fazer bom uso da dica. Um regime de mais pósitrons e menos pose até que não nos faria mal.

Futebol, literatura e caneladas
Posts / 08/05/2006

O caderno Prosa & Verso, do “Globo”, aproveita a proximidade da Copa do Mundo para pôr novamente na roda uma velha discussão: por que o futebol do Brasil nunca encontrou uma representação literária à altura de sua exuberância? (Re)lançada a questão, alguns craques consagrados foram convidados a comentá-la. E protagonizaram um festival de matadas na canela de fazer inveja ao Íbis. Para o crítico literário Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado que é quase impossível uma obra de ficção apreendê-lo. Nunca o imaginário do artista esteve à altura do imaginário do povo”. Soa bonito, mas deixa no ar algumas perguntas incômodas: se a presença anêmica da arte de Ronaldinho Gaúcho na literatura brasileira se explica pelo excesso de complexidade do nosso “imaginário sobre futebol”, onde estão os grandes romances brasileiros sobre esportes de imaginário mais pobre como vôlei, basquete, automobilismo, bocha, badminton – qualquer um? E cadê as belas obras de ficção futebolística produzidas em países de literatura mais desenvolvida e futebol menos acachapante? “Febre de bola”, do inglês Nick Hornby? Aquilo é memorialismo, não ficção. E eu disse “belas obras” – não bonitinhas ou passáveis. O antropólogo…

Esportes coletivos não dão liga?
Futebol & literatura , Posts / 08/05/2006

Impossível levar essa discussão sobre futebol x ficção a sério sem ampliar o quadro e tentar entender as relações entre os mundos esportivo e literário de forma mais geral. Não fiz nenhum estudo aprofundado – isso aqui é um blog, os estudos aprofundados ficam do outro lado da rua –, mas os dois universos parecem, com as exceções óbvias da crônica esportiva e de alguma poesia, manter relações frias. E não ficarei surpreso se, dos poucos exemplos de casamento feliz, a maioria envolver esportes individuais e não coletivos. Pense no que representa o halterofilismo para um conto extraordinário como “A força humana”, de Rubem Fonseca; a natação para o alter ego de Fernando Sabino em “O encontro marcado”; a tourada para o Ernest Hemingway de “O sol também se levanta”. O esporte como microcosmo da luta do homem – frágil, só, patético, magnífico – contra o mundo hostil. (Só depois de citar de memória esses três exemplos me dou conta de que dois deles falam de atividades que nem são consideradas propriamente esportivas.) Talvez seja difícil dar conta, literariamente, de trivialidades como o 4-3-3 e a disputa de pênaltis. Isto é, sem quebrar o encanto.

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