Três histórias de fim
Antologia , Sobrescritos / 19/09/2015

Este post, minha despedida do portal Veja, fica apenas como registro. O fim lá é um recomeço aqui, no velho Todoprosa de sempre. Seja bem-vindo(a)! A MULHER DE BOTERO João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras. Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez. Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um…

Três histórias de inimizade literária
Antologia , Sobrescritos / 08/08/2015

HISTÓRIA DE TRÁS PRA FRENTE José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”. Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, onze anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos. O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu. Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido…

Três histórias de glória fugidia
Antologia , Sobrescritos / 11/07/2015

O CLUBE Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas com espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais a resenha de página inteira que, menos de um mês depois, o chamava de gênio e seu último livro, de obra-prima incontornável, e mais concreta ainda a assinatura de prestígio vertiginoso a encimá-la. A esta crítica seguiram-se outras de tom semelhante espalhadas pelo país, numa orquestração que só poderia ser compreendida como o trabalho de um grupo coeso, um verdadeiro Clube, de forma que, quando atendeu o telefone com o coração disparado certa madrugada e ouviu do outro lado da linha uma voz rouca a lhe perguntar sem preâmbulo se estava satisfeito, resolveu agir com naturalidade e dizer que sim, estava satisfeito. O que era verdade, pois nunca, em muitos anos de carreira literária, fora alvo de tanta atenção, e embora se…

Três histórias de literatura e morte
Antologia , Sobrescritos / 20/06/2015

FINADOS (MANTRA DO ESCRITOR OBCECADO) Cervantes morreu em 22 de abril de 1616. Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616. Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768. No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe. Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880. Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908. Mais dois anos e Tolstoi perdeu a guerra, tomara que para encontrar a paz: 20 de novembro de 1910. Em 3 de junho de 1924 foi a vez de Kafka sair da vida, mas aquilo era vida? Joyce começava então a escrever o Finnegans Wake. Em 13 de janeiro de 1941, levou-o a peritonite. Rosa completou sua travessia de homem humano em 19 de novembro de 1967, três dias depois de virar imortal. Em 1977, Nabokov se foi em 2 de julho e Clarice em 9 de dezembro, no pós-parto de Macabéa, um dia antes de completar 57. Conclusão: escrever é tão perigoso quanto viver. E eu mesmo não estou me sentindo muito bem. * O AMOR LITERÁRIO É A RAIZ QUADRADA DO ÓDIO…

Três histórias de crítica e fogo
Antologia , Sobrescritos / 23/05/2015

FLAME WAR Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar. E Adolfo Pinho Rosa escreveu: “Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê…

Três histórias de antigamente
Antologia , Sobrescritos / 25/04/2015

ERA UMA VEZ Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos. O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio. O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte. O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo. O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o pôr do sol, o nascer do sol,…

Literatura brasileira contemporânea, um diálogo crítico
Sobrescritos , Vida literária / 11/04/2015

– A literatura brasileira contemporânea é uma imensa montanha de cocô. Não produz nada que chegue aos calcanhares da potência de Machado, Rosa ou Clarice. – Pra que ir tão longe? Vamos combinar que também não chega aos pés de Raduan ou do Rubem Fonseca dos bons tempos. – Exato. A literatura virou um espetáculo cheio de som e fúria, mas sem sentido. A tal vida literária tem mais importância do que a arte literária propriamente dita (e impropriamente exercida). Esse circo de festivais, feiras, prêmios, traduções, viagens, oficinas, blogs, networking e o diabo cria uma ilusão de movimento e um verniz de profissionalismo, entre aspas, que encobrem a irrelevância fundamental do ofício. – Eu diria mais: que mascaram um tédio de cemitério. Por que será assim? – Porque tudo já foi dito, ora. Como esperar algo revolucionário ou pelo menos renovador num cenário em que os escritores são robôs teleguiados pelo mercado, aprendem meia dúzia de truques, dominam uma técnica mas não comovem ninguém, não arriscam o pescoço, não incomodam, não acessam o novo? Não têm, em suma, nada a dizer? Não admira que o público ignore esses farsantes. – É o que eu sempre digo. A literatura brasileira…

Merchandising literário, uma modesta proposta
Antologia , Sobrescritos / 24/01/2015

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Hem? Hem? * Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido. * Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu Viu outra lua no mar. O doutor que a atendeu Não tardou a receitar Óc’los da Ótica Fiel Pra vista dupla acabar. * Levantai-vos, heróis do Novo Mundo… Andrada! arranca este pendão dos ares! Colombo! que chás espetaculares! * Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos…

Três histórias de amor e literatura
Antologia , Sobrescritos / 22/11/2014

POR GLORINHA Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico. O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco. Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas. Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez…

Todos os conselhos literários fundamentais
Antologia , Sobrescritos / 08/02/2014

I Odeie o conforto. Se estiver concentrado demais na história que está escrevendo, ligue a TV, entre num bate-papo virtual. Caso as palavras continuem a lhe jorrar dos dedos, ponha uma música, desligue o ar condicionado, abra a janela para o berreiro de freios, buzinas e motores. Sinta-se incomodado: retarde ao limite do desastre – ou mesmo, havendo disposição e necessidade para tanto, além dele – a hora de ir ao banheiro. Morra de sede, chegue a passar fome. Brigue com a sua mãe. Mande confeccionar para sua cadeira de escritório XTZO-3000 (com amortecedor inteligente) um magnífico assento de tachinhas medievais. Boicote-se: se escrever umas tantas páginas-telas que lhe agradem em particular, dê um jeito de perdê-las, negando-se como um tonto a salvar o arquivo ao fechá-lo. E então esprema a memória para reproduzi-las igualzinho, vírgula a vírgula, exceto por uma palavra que já não achará mais e cuja ausência, se tudo der certo, vai torturá-lo por horas e horas de trabalho ou trabalho nenhum, pois não se pode chamar de trabalho o tumulto de pensamento que o tomará então, o céu a estridular como se fosse partir ao meio e o computador berrando mais do que a cidade e…

O último Sobrescrito
Sobrescritos / 05/06/2013

“Lá fora espocam foguetes que choram lágrimas incandescentes”, ele escreveu. “Mas não choram mais que Maria Flor.” Assim terminava a redação de 1975 que nunca lhe saiu da memória. Tinha treze anos e sua presunção, como toda presunção, era feita metade de coisas sabidas – lágrimas metafóricas! o verbo espocar! – e metade de coisas rotundamente ignoradas. O atraso cósmico, por exemplo. Transformar a tarefa escolar num esboço de conto regionalista dos anos 30 sobre um coitado, o marido de Maria Flor, que os capangas de um coronel provavelmente nordestino matavam por vagas disputas fundiárias em pleno curso dos festejos juninos era para sempre embaraçoso. Talvez desculpável também. Quem sabe nessa idade o que é clichê ou, mais difícil ainda, purple prose? A professora de português, que devia saber tudo isso, adorou. Leu a redação em voz alta para a turma e apressou a chegada do arrependimento que ia se agravar com os anos, a ponto de levá-lo a passar a vida inteira, livro após livro – não que tivesse consciência disso, era algo que percebia agora, no leito da UTI – renegando no tutano de cada frase que escrevia a própria possibilidade de foguetes derramarem lágrimas incandescentes e serem…

‘Temperamento imperatriz’: a revolução da spam-literatura
Sobrescritos / 10/05/2013

Recebi ontem, de um endereço comercial no Japão, este spam assombroso: Grandes meios, elementar ?? ??? bolsa desimpedido, sem muita modificação, feminilidade esplêndida flor, uma força aliada, é manifestar a propensão pessoal ??? ?? e bondade, ela pode imediatamente invertido o seu ???? ??? imagem. Modelagem atmosférica, queda de galante, este pep-se, não há pintura unblended, o simples primordial refere ainda, notar ser adepto de extraordinariamente todas as vezes para manter ? ???? volta ótimo! Porque você não discernir a próxima segunda-lhe propósito colisão em encontro com quem! Temperamento imperatriz, linda interpretação quixotesca do discreto auto-indulgência ???? ????? posição pessoa, elegância de design polido, para fazer uma fuga através das necessidades avançadas de em voga ?? ??? as mulheres. Todo mundo que tem uma vida online – ou seja, todo mundo – já terá esbarrado com casos semelhantes de algaravia produzida por tradutores automáticos sem noção (com perdão da redundância). No entanto, como tendemos, e não sem razão, a tratá-los como lixo, desconfio que não seja tão comum a epifania que experimentei quando, no início da manhã e ainda não completamente desperto, liguei o computador e fui atropelado. Será delírio meu, ou achados verbais como “queda de galante”, “interpretação quixotesca…

O jogo
Sobrescritos / 06/05/2013

Primeiro era o prazer infantil de pôr uma palavra depois da outra, encaixes de dominó. Depois que os encaixes em si perderam a graça, fáceis demais, veio a ambição de usar as sequências de peças para desenhar coisas no chão: bichos, casas, cidades. Ainda era uma ambição infantil, mas já continha o germe da fase seguinte, quando os desenhos começaram a parecer bobos, constrangedores, esquemáticos em sua bidimensionalidade de criança. Do lado de fora do jogo ficava o mundo inteiro com seus bichos de verdade, casas de verdade, cidades de verdade. Para desenhar o mundo em sua profundidade enigmática era preciso criar novos encaixes, superpor as peças do dominó rumo a uma nova dimensão: aspirar ao teto. Isso abriu uma fase de dificuldades imensas, torres penosamente empilhadas desabando sob o peso daquela última peça chamada ponto final, e com ela a temporada da frustração permanente – o fracasso como modo de vida – que só não provocou o abandono do jogo porque descobria-se na própria persistência uma nova e perversa modalidade de prazer infantil. Muitos anos depois, quando as torres começaram a se sustentar em pé e o espaço entre o chão e o teto se encheu de formas belas…

A origem da tragédia em 17 tweets
Sobrescritos / 08/04/2013

1. Ga era seu amigo. Matavam bichos, dividiam a carne, raramente trocavam socos. 2. Deixou Ga sozinho na mata no dia em que foi tomar banho no rio e lá conheceu Fia. 3. Fia foi morar em sua loca e ele passou a caçar sozinho. Teve que bater um pouco em Ga para ele ir embora. 4. O mundo ganhava nomes com Fia. Espuma da água. Cangote cheiroso. Fenda apertada. 5. Começou a prestar mais atenção no poente. Ensaiou batizar as cores em prisma na imensidão do céu. 6. A barriga de Fia cresceu. Muitos poentes depois, nasceu Uh. Uh era como Fia: mulher. Pensou em matá-la, mas desistiu. 7. Um dia, Uh já era mais alta que um cabrito, a caçada o levou longe. Passou três sóis e duas luas afastado de sua toca. 8. Voltou um início de noite com dois cabritos mortos e encontrou Ga e Fia se lambendo junto do fogo. A pequena Uh olhava. 9. Matou Ga com o bom facão de pedra lascada, rasgou sua barriga, depois cortou seus bagos e espremeu-os entre os dedos. 10. Fia aproveitou o tempo que essas ações tomaram para sair correndo mata adentro, Uh em seu encalço. 11….

O PM e o revisor
Sobrescritos / 13/03/2013

Ia entrar na garagem de seu edifício quando um PM fortão de cabeça raspada fez sinal para que encostasse o carro. Obedeceu, claro. Baixou o vidro da janela. – Boa noite, cidadão. Seu farol está queimado. – É mesmo? – ele fingiu que não sabia, lendo a identificação do homem no bolso do uniforme: sargento Hudson. – Prometo consertar amanhã cedo, sargento. – Mas isso é uma infração, cidadão. Como é que fica? Claro, que coisa mais previsível: o cara queria levar uma grana. Mas não ia levar. Ele não compactuava com corrupção. – Bom, se tiver que me multar… – O que é isso, cidadão, não tem escopo nem determinismo. O senhor é revisor, positivo? O primeiro efeito daquelas palavras foi deixá-lo confuso, depois com medo. Como o sargento Hudson sabia que ele era revisor? Será que os medíocres livros de auto-ajuda e elevação espiritual que garantiam seu sustento, e com os quais se relacionava com envergonhada discrição, tinham deixado alguma marca traiçoeira em sua testa? Confirmou: – Como sabe disso, sargento? O homem riu. – Não precisa se assustar, cidadão. Não vamos causar malefício a si. Provemos a segurança aqui da área, conhecemos todo mundo. Gostaríamos de fazer…

História de trás pra frente
Sobrescritos / 06/02/2013

José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”. Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, dez anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos. O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu. Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido o Gordo e o Magro…

Destaques 2012 (IV): cinco Sobrescritos
Sobrescritos / 26/12/2012

Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos. A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas. (Leia mais.) Nelson Rodrigues está vivo e tuitando Imagine que Nelson Rodrigues não morreu. Às vésperas de completar cem anos, tem um blog chamado A vida como ela ainda é, que atualiza dia sim, dia não (a idade pesa), embora mantenha com as tecnologias digitais uma relação irônica e cheia de ambiguidade. Aproveita-se do que elas têm de prático, mas sente falta do teclado pesado da máquina de escrever. Só consegue continuar publicando…

O curioso caso do padre Simão
Sobrescritos / 10/12/2012

A dar fé ao viajante inglês William Boyd Sennett, que em 1819 teria tido diante dos olhos as memórias posteriormente perdidas do então recém-falecido bispo Antônio Simão das Neves (e não vejo por que não lhe dar mais fé do que à arenga anticlericalista e factualmente vaga que no fim daquele século publicaria em São Paulo o anarquista Vicenzo Cucco, outra fonte habitualmente consultada pelos estudiosos da história de Simão), a dar fé a Sennet, como eu ia dizendo, no rigoroso inverno mineiro de 1777 o então jovem padre baiano viu-se com a alma “toda em farrapos”, numa crise de fé que teria como fulcro o amor (se platônico ou carnal, nunca se pôde comprovar) por dona Maricota, esposa de um comerciante de pedras preciosas de Vila Rica chamado Olegário, o que bem poderia configurar incidente banal ou ao menos não muito destoante das provações sensuais enfrentadas por tantos homens de batina ao longo dos séculos, porém (ai, porém), naquele instante demoníaco o futuro bispo se pôs a febrilmente deitar palavras ao papel em surto logorreico de todo semelhante a um transe de possessão, ao qual não faltavam olhos revirados, gemidos de dor excruciante e uma espuminha a borbulhar nas…

Finados (mantra do escritor obcecado)
Sobrescritos / 02/11/2012

Cervantes morreu em 22 de abril de 1616. Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616. Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768. No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe. Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880. Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908. Mais dois anos e Tolstoi perdeu a guerra, tomara que para encontrar a paz: 20 de novembro de 1910. Em 3 de junho de 1924 foi a vez de Kafka sair da vida, mas aquilo era vida? Joyce começava então a escrever o Finnegans Wake. Em 13 de janeiro de 1941, levou-o a peritonite. Rosa completou sua travessia de homem humano em 19 de novembro de 1967, três dias depois de virar imortal. Em 1977, Nabokov se foi em 2 de julho e Clarice em 9 de dezembro, no pós-parto de Macabéa, um dia antes de completar 57. Conclusão: escrever é tão perigoso quanto viver. E eu mesmo não estou me sentindo muito bem.

A inconcebível solidão de Salman Rushdie
Sobrescritos / 19/09/2012

Eu me descobri envolvido em algo que se pode chamar de evento histórico mundial. Pode-se dizer que foi um grande evento político e intelectual do nosso tempo, até mesmo um evento moral. Não a fatwa, mas a batalha contra o Islã radical, da qual essa foi apenas uma refrega. Têm sido levantados certos argumentos, até por pessoas de orientação liberal, que me parecem muito perigosos. Argumentos que são basicamente de relativismo cultural: nós temos que deixá-los fazer isso porque é a cultura deles. Minha visão é: não. Circuncisão de mulheres – isso é uma coisa ruim. Matar pessoas porque você não gosta das ideias delas – isso é uma coisa ruim. Nós temos que ser capazes de ter um sentido de certo e errado que não se dilua nesse tipo de argumento relativista. Se não tivermos, teremos deixado de viver num universo moral. Em entrevista ao “New York Times”, concedida no mês passado mas publicada ontem, Salman Rushdie tocou com lucidez nos pontos que tornam “Joseph Anton” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira e Donaldson M. Garschagen, 616 páginas, R$ 54,50) – seu livro de memórias sobre a década que passou escondido sob o codinome inspirado em Joseph…

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (II)
Sobrescritos / 10/09/2012

Esta é a segunda e última parte da entrevista que fiz com o ex-escritor Silvério Sombra, que há sete anos abandonou as lides literárias para criar galinhas num pequeno sítio chamado Itaguaí. A primeira parte pode ser lida aqui. A mulher feia que a juventude embeleza é uma metáfora da sua própria obra? Ou da literatura em geral? – (risos) É a metáfora de uma metáfora. Uma metáfora para acabar com todas as metáforas. Tudo é metáfora nesse negócio, vê só que porcaria. Demorei a entender o que estava errado. Que tinha alguma coisa errada, tinha. Aquela não era a minha turma. Entrei nesse negócio perseguindo uma miragem, como imagino que todo mundo entre. Um dia lá, perdido na infância, um Robinson Crusoé qualquer, uma Emília, um Zezé do Pé de Laranja Lima puxa um neurônio pra cá, outro pra lá, uma sinapse nova faz zapapof e aí já viu, está feito o estrago. O coitado vai passar o resto dos seus dias perseguindo uma coisa que não sabe direito o que é, querendo fazer parte daquilo. Nesse caminho ele muda de gosto, renega o passado, refina, escolhe a dedo uma meia dúzia de desafetos, quase sempre fica bastante besta,…

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (I)
Sobrescritos / 05/09/2012

Encontrei o ex-escritor Silvério Sombra em seu sítio, que ele batizou de Itaguaí por motivos que veremos adiante, embora não se situe na cidade fluminense. O sigilo sobre a localização da pequena propriedade rural de Sombra é apenas uma das cláusulas restritivas que ele impôs como condição para conceder sua primeira entrevista desde que, há sete anos, abandonou tanto os círculos literários em que tinha atuação frenética quanto a própria literatura, recusando-se a acrescentar – conforme suas últimas palavras públicas – “uma linha que seja a uma obra que espero ver esquecida para sempre”. A obra de Sombra, composta de dois romances e dois livros de contos, foi esquecida sem demora, como ele desejava. Seu nome, porém, tem teimado em pairar como um fantasma sobre as conversas literárias nacionais, sobretudo depois que alguém cunhou para ele o epíteto maldoso de “Raduan sem Lavoura”, que pegou. O nervosismo com o imperativo jornalístico de lhe perguntar em algum momento da entrevista o que achava desse apelido me atazanou a viagem até o sítio. Contudo, assim que saltei do jipe um homem de meia-idade descalço e maltrapilho, saco de milho na mão, cercado de galinhas, acabou com o problema. “Aqui não tem lavoura…

O prefácio do psicanalista
Sobrescritos / 13/08/2012

O narrador do romance sou eu. Meu nome será omitido, mas não minha profissão, esta sim importante: sou psicanalista praticante, de consultório na praça há mais de vinte anos. Bem de vida, sim, mas não propriamente rico como alguns colegas. Fui mais escrupuloso, quem sabe; menos esperto sem dúvida. Construí uma carreira sólida e plana, mantive-me ao largo da politicagem da profissão, do assédio da imprensa, das tentações da glória acadêmica. Era um analista na linha de frente, só isso. Infantaria, tudo o que eu desejava. Como outros são ortopedistas, cirurgiões, otorrinos, eu praticava a psicanálise. Meus pacientes me pagavam por isso. E o que seria isso, exatamente? Ouvir, claro. Os pacientes contavam suas histórias. Eu ouvia. Compreendo que para o leitor isso seja, ao primeiro contato, meio desconcertante. Parece claro que o analista não pode ser outro senão, justamente, o leitor – confere? O escritor é o paciente, o analisando. Conta sua história, tece sua teia. O analista é o leitor, vítima e algoz, enredado e crítico ao mesmo tempo. Caberá a ele encaminhar a resenha, comprar ou não o livro, dá-lo de presente aos melhores amigos, esquecê-lo num canto inacessível da estante ou, pior, vendê-lo a peso a…

Sem meritocracia
Sobrescritos / 20/07/2012

– Imagine o futebol sem meritocracia. Imaginou? – Não sei se estou entendendo. – Um futebol sem meritocracia, ora. Sem hierarquia, sem mecanismos de aferição de valor. Imagine um ambiente em que não só o craque desapareceu como a própria ideia de que certos jogadores possam ser considerados craques é revoltante para a sensibilidade democrática de todos. Craque para quem, na opinião de quem? Com que autoridade divina alguém decreta que um jogador é craque e outro não? – Mas isso não é evidente? Qualquer torcedor na arquibancada percebe a diferença na primeira matada de bola, no primeiro passe. – Será evidente mesmo? Ou será que estamos falando de um olhar condicionado, adestrado pelos poderosos, construído por gerações de cronistas esportivos preconceituosos para cobrir de privilégios seus eleitos, seus amiguinhos? – Você está brincando, né? – De jeito nenhum. No futebol sem meritocracia, a violência e a arbitrariedade de todo treinador ficam grotescamente expostas. De onde ele pensa que tirou autoridade para decidir quem entra em campo, quem fica no banco, quem estará na próxima lista de dispensa? – Do presidente do clube? – Do presidente, claro, como personagem contingente, mas através do presidente fala uma força historicamente constituída chamada…

A vergonha do rei
Sobrescritos / 27/06/2012

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos. O rei tinha vergonha de sentir vergonha de escrever versos. A vergonha, sentimento de escravo, não ficava bem num rei. Este nada deve temer, nada falsear de sua natureza, pois esta cria a própria lei que rege o reino. Não se envergonhe o rei de nada do que sente,…

Maria Alice ou a política literária pelo método alfanumérico
Sobrescritos / 30/05/2012

Quando conheci Maria Alice, era o auge da guerra poético-universitária dos anos 90, o que queria dizer que éramos todos grandes escritores, jovens o bastante para isso. Eu andava fascinado por e.e. cummings e escrevia coisas assim: cooktop scoop ;stop entope poo pi(l)l : há lá pupila pop Era absolutamente imperdoável, mas Maria Alice lia tudo com suas sobrancelhas grossas, seu silêncio enigmático, e depois se entregava na cama com tal desespero que eu me sentia aprovado de forma plena como poeta, como homem e como semideus, o que naquele tempo dava no mesmo. Foi Maria Alice quem me ensinou a catalogar aliados e desafetos com as letras A e D seguidas de um número, de forma que o primeiro professor que me elogiou em público fosse, por exemplo, A1, e o último poeta rival a me desancar para terceiros no botequim, D59. Foi também Maria Alice quem me sugeriu um aprimoramento no sistema, a fim de dar conta das migrações de um campo ao outro. Estas foram ficando mais frequentes à medida que a guerra poético-universitária dos anos 90 amadurecia: o professor A1 virava, por exemplo, D60(A1), o código alfanumérico entre parênteses indicando sua função passada, e se por…

Você decide: por que a literatura brasileira é assim?

No distante julho de 2007, impressionado com a capacidade que tinham os “debates críticos” sobre a literatura brasileira dos últimos 20 anos de descambar para lugar nenhum, publiquei aqui um Sobrescrito em forma de enquete chamado O problema é ‘o problema’, mais tarde compilado no livro “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010). As respostas foram desenhadas de acordo com as metodologias mais avançadas de prospecção sociocultural da Universidade de Itaguaí, a fim de cientificamente dar conta de todos os vetores relevantes da nossa “cena”. O único problema com aquele experimento pioneiro é que a enquete era falsa, um mero simulacro literário de enquete: o internauta não votava. Será por isso que, cinco anos depois, ainda estamos mais ou menos no mesmo lugar? Por via das dúvidas decidi republicar a enquete, mas desta vez é diferente: ficamos interativos, docemente interativos. Vote, caro leitor, e ajude a descascar esse pepino. . [poll id=”61″]

Era uma vez
Sobrescritos / 30/04/2012

Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos. O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio. O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte. O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo isso com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo. O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o por do sol, o nascer do sol, os cabritos…

Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia
Sobrescritos / 18/04/2012

Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos. A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas. Se algum prenúncio de confusão houve, naquele primeiro momento, ele não partiu dos escritores com mais de noventa anos e sim dos que, aos oitenta e tantos, julgaram-se injustiçados. Um manifesto contra a “ditadura dos anciãos” chegou a reunir centenas de assinaturas. Os insatisfeitos não estavam desprovidos de razão. Meia dúzia de primaveras a menos não escondiam o fato de que as obras de alguns deles tinham as mesmas características – temática ultrapassada, imagística vintage, sintaxe détraqué – que Giorgio Agamben havia…

O amor literário é a raiz quadrada do ódio
Sobrescritos / 04/04/2012

A fórmula v = b², proposta em seu clássico The supercool writer’s decalogue por Otto Bax, o berlinense suicida, é a genial quantificação de uma lei universal que, apesar de pressentida por geração após geração de cultores das letras, permanecia desde Homero no campo obscuro das intuições: no âmago de todo escritor, o número de colegas desprezados é igual ao número de colegas admirados ao quadrado. O que equivale a dizer, naturalmente, que o amor literário é a raiz quadrada do ódio. (As iniciais v e b correspondem respectivamente às palavras Verachtung, “desprezo”, e Bewunderung, “admiração”. Optamos por não traduzi-las, discordando de outros autores, devido à consagração da fórmula de Bax nos mais influentes círculos da coologia acadêmica literária internacional.) Não contente em capturar na malha dos números aquilo que se julgaria imponderável, Bax foi além e, antes de aplicar na própria veia uma gorda injeção de Frischluft, propôs outra lei universal: quando se levam em conta apenas autores vivos, a fórmula se transforma em v = b³, o desprezo equivalendo à admiração elevada ao cubo. Infelizmente, a morte prematura de Bax não lhe deu tempo de se aprofundar nas consequências de seus achados para o estudo da complexa rede…

A hora de Técio Ordoñez, alter ego
Sobrescritos / 19/03/2012

Do vasto repertório de histórias acumulado pelas relações periclitantes entre autor e alter ego, não será uma das menos curiosas a de Técio Ordoñez, que acusou o escritor Sérvio Rodriguez de ser ele, o Sr. SR, alter ego de TO e não o contrário. O caso propiciou uma divertida troca de farpas entre os dois, com os comentaristas se dividindo no apoio a um e a outro, em blocos maciços cheios daquela ira mutuamente esculhambadora da internet. As evidências estavam contra Ordoñez, de quem se ouvira falar pela primeira vez no conto Todas as amoras deste lado da cerca, de Sérvio Rodriguez, publicado na revista manauara Noitenorim em 6 de fevereiro daquele ano. Rodriguez estava em aparente vantagem, portanto – visto ser obviamente preferível a condição de autor à de alter ego. Pelo menos ele, SR, era de forma textualmente comprovada o criador de Ordoñez. No entanto, os argumentos de Ordoñez em defesa da não existência de Rodriguez eram tão argutos, além de sensatos – filosófica no primeiro caso, literariamente no outro – que obrigavam o leitor a concluir que nenhum dos dois existia de fato, como se “de fato” quisesse dizer alguma coisa àquela altura da marcha dos fatos….

O Plano Jovem Escritor Platinum Pro foi feito para você!
Sobrescritos / 07/03/2012

A editora Pickaxx oferece os melhores planos do mercado para todas as faixas de ambição literária! 1. Plano Amador Amantíssimo – Dando os primeiros passos? Você pode começar contratando o Plano Amador Amantíssimo, que por apenas 3 x R$ 100,00 garante a inclusão de seu poema, crônica ou conto na cultuada “Antologia Pickaxx – Vozes do Terceiro Milênio”. E você ainda recebe em casa 12 (doze) exemplares ricamente encadernados para presentear parentes, fazer amigos e impressionar pessoas! 2. Plano Escritor Pleno – Por apenas 10 x R$ 350,00, você publica um livro todinho seu com o prestigiado selo da editora Pickaxx! O Plano Escritor Pleno dá direito a 50 (cinquenta) exemplares para a realização de sua própria noite de autógrafos – garçom incluso, vinho e pastinhas à parte. Garante-se cobertura do lançamento em influente rede de blogs (mínimo de três citações). 3. Plano Jovem Escritor Platinum Pro – Já passou por tudo isso e não está satisfeito? A musa lhe cobra compromisso nada menos que total? Seu talento maior transborda para todos os lados da sua pessoa? Então o Plano Jovem Escritor Platinum Pro foi feito para você! Tiragem mínima de 3.000 (três mil) exemplares, contratos de tradução para o…

Aquele Diogo Tácito
Sobrescritos / 22/02/2012

Eu nunca disse, ele disse, que o escritor Diogo Tácito inventou o ebook. Eu não sou maluco. O que eu disse foi que o escritor Diogo Tácito se aproveitou da invenção do ebook – invenção feita por outrem, que aqui não vem ao caso – para me vilipendiar de forma torpe em meus direitos de autor. Sim, o que eu disse, ele disse, e configura nada menos que a pura verdade é que cada um dos quatro romances de sucesso que Diogo Tácito publicou nos últimos anos foi roubado de mim, surrupiado de meus arquivos inéditos por um escritor bloqueado que o desespero transformou em hacker diletante ou quem sabe por um hacker profissional a serviço de um escritor em crise. No entanto, estes crimes do farsante Diogo Tácito eu estou lamentavelmente impossibilitado de provar, ele disse, em virtude do já referido ineditismo de meus manuscritos e também do fato de, como todo artista que merece este nome, eu sempre haver trabalhado em radical solidão. Se os quatro primeiros livros de Diogo Tático estavam fora do meu alcance, porém – raciocinei – o quinto não estaria, pois me encontraria prevenido, meu manuscrito registrado nos órgãos competentes, carimbado, firma reconhecida e…

Wiki-fluxo de consciências
Sobrescritos / 08/02/2012

A manhã entrava pelos seus milhões de olhos arrastando feito um tsunami lembranças de noites passadas em claro desde a infância pleistoscênica da espécie, tudo atropelado aos borbotões para ir desaguar na privada com estrias de alfabetos esquecidos que ele contemplava agora bem de perto, cabeças inumeráveis enfiadas ali. Era como se quisesse desnascer útero adentro daquelas linhagens imemoriais de deusas gordas da fertilidade que contemplavam a cena espremidas holograficamente no banheirinho atrás da rodoviária, coristas glutonas da Broadway com seus sorrisos de domínio e castração. Ele sente que todo o álcool que aqueceu, desinfetou e depois escalavrou seu tubo digestivo e os de seus mais remotos antepassados e mais imprevisíveis descendentes quer agora retornar, fazer o caminho inverso, vazar para o cosmo num rio de plasma que logo tentará afogar o sol. Miríades de olhinhos piscam frenéticos, que agonia. O último suspiro escapa da alma do último personagem e se dissolve na indiferenciação de um universo hostil. Pronto, pronto. O autor está morto, a subjetividade está morta, apregoam, com pequenas variações, quatrocentos quatrilhões de cartazes numa passeata silenciosa contra um inimigo que já não está lá. No que você está pensando?, pergunta o algoritmo.

O grandioso projeto de Antenor, microcontista do Twitter
Sobrescritos / 16/01/2012

O microcontista Antenor já gostava de escrever contos curtos antes do Twitter. O que a rede social lhe proporcionou, além de um mural onde publicar sua obra até então inédita, foi um foco preciso. Isso foi mais importante até do que o próprio mural: a concentração que o limite de 140 caracteres lhe deu. De mistura com a concentração de Antenor veio a grande ambição de Antenor: ser o primeiro dos microcontistas “científicos”. Aplicar a exigente moldura dos 140 toques a todos os aspectos da técnica ficcional, mapeando exaustivamente recursos e efeitos. Esquadrinhar as sete províncias da prosa imaginativa, projeto rascunhado certa manhã por Walser numa cabeça de alfinete, e ir além. Construir personagens redondos com pinceladas retas, lançá-los em conflitos épicos, guardar espaço para o twist final. Tudo num registro que ponha em questão a própria ideia de registro, brincando com a linguagem. Eis a meta, de resto tão inatingível quanto a imortalidade do corpo. Contudo, não sendo possível conjugar perfeitamente foco e amplitude, é possível – tem de ser, é a aposta de Antenor – determinar onde e por quê. Onde começa o impossível e o que acontece com a história a partir daí: quando se fica com…

Nelson Rodrigues está vivo e tuitando
Sobrescritos / 04/01/2012

Imagine que Nelson Rodrigues não morreu. Às vésperas de completar cem anos, tem um blog chamado A vida como ela ainda é, que atualiza dia sim, dia não (a idade pesa), embora mantenha com as tecnologias digitais uma relação irônica e cheia de ambiguidade. Aproveita-se do que elas têm de prático, mas sente falta do teclado pesado da máquina de escrever. Só consegue continuar publicando porque já não precisa frequentar redações, resolve tudo do sofá de casa, mas morre de saudade do papo furado com os colegas da Geral e do Esporte. Acha que a humanidade se amarrou de bom grado ao pé da mesa e que o computador pessoal, o notebook, o smartphone, o tablet – que nomes absolutamente abomináveis! – não passam de versões metidas a besta da cuia de queijo Palmira. Nelson sabe que o mais descolado animador de rede social não conseguiria atravessar a rua sem ser atropelado pela carrocinha do Chicabon. A certeza de que os cretinos fundamentais venceram a guerra o atormenta um pouco. Não porque um dia tenha duvidado que esse fim seria inevitável, mas por ter sido incapaz de antever, distraído que andava com a cretinice vermelha dos bigodudos de capote, o…

Pequena antologia de um ano grande (3)
Sobrescritos / 30/12/2011

A colheita de Sobrescritos – aquele tipo de post, também chamado conto, que acontece aqui no blog quando o discurso jornalístico já não dá conta – foi farta como nunca em 2011: 24, dois por mês. Escolhi três para comemorar. Fechando a série, um texto de 27 de julho. Feliz ano novo! * EM TRINTA ANOS, SEREMOS TODOS AMIGOS Ao entrar no bar, Rodolfo tem certeza de que ninguém sabe que está entrando um escritor. Ou ex-escritor, se é que existe essa condição. Às vésperas de completar setenta anos, os últimos vinte passados em silêncio e fora de todos os catálogos editoriais, ele acha que não faz diferença. Numa mesa ao fundo, perto do banheiro, o também escritor ou ex-escritor Romualdo, de trajetória semelhante, está bebendo sozinho. Vê Rodolfo antes de ser visto por ele e, num velho reflexo, sente seu corpo se retesar na cadeira. Rodolfo e Romualdo, companheiros de geração, nunca conversaram, embora tenham se visto e laboriosamente se ignorado meia dúzia de vezes em eventos literários do passado. Todas as suas trocas de ideias opostas se deram por meio de resenhas ácidas, artigos venenosos e maledicências variadas. Sempre se consideraram inimigos. Rodolfo acaba de perder a mulher…

Pequena antologia de um ano grande (2)
Sobrescritos / 28/12/2011

A colheita de Sobrescritos – aquele tipo de post, também chamado conto, que acontece aqui no blog quando o discurso jornalístico já não dá conta – foi farta como nunca em 2011: 24, dois por mês. Escolhi três para comemorar. Este abriu o caminho, dia 14 de janeiro. * AQUELA TARDE EM LISBOA Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na…

Pequena antologia de um ano grande (1)
Sobrescritos / 26/12/2011

A colheita de Sobrescritos – aquele tipo de post, também chamado conto, que acontece aqui no blog quando o discurso jornalístico já não dá conta – foi farta como nunca em 2011: 24, dois por mês. Escolhi três para comemorar. Este aqui apareceu no dia 13 de maio. * O AMOR NOS TEMPOS DO CÓDICE Não fazia tanto tempo que costumavam chamá-la de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. Flipou, flopou, fliportou, festpoou, e por cinco ou seis anos, se não foi famosa, existiu inquestionavelmente, carta no baralho das antologias igrejísticas e nome no caderninho dos repórteres de metrópoles e grotões, a fazer aparições frequentes em telas e papéis a pretexto de polêmicas culturais aguadinhas que, sustentadas pelo acordo tácito de que o rei nu exibia vestes de alta costura, às vezes abriam caminho para a republicação daquela sua fotinho de dez anos atrás em que luz chapada, rímel e lábio inferior levemente mordido compensavam a escassa beleza de nariz adunco e pele áspera. Ele, sim, era bonito, talvez até lindo, mas era um menino, um fedelho de cabelo desgrenhado e barba por fazer, quando se aproximou dela no fim do coquetel com jeito de fã encabulado e a presenteou…

P.S. a ‘Você nasceu para escrever. E agora?’
Sobrescritos / 30/11/2011

O esquema escritor A e escritor B (aqui) é, obviamente, uma simplificação. Não duvido que haja infinitas formas, e não apenas duas, de uma pessoa vocacionada para escrever lidar com tal fato, fazê-lo caber em sua vida como um sofá de três lugares na sala. No entanto, quantas dessas formas não serão apenas variações em torno de A e B, sequências A-B? Vamos admitir a verdade: a maior parte dos escritores e candidatos a escritor passa de uma letra à outra, e volta, ou fica, e vai de novo – quando não desiste de vez, claro – ao longo da vida. A é autocobrança, compromisso com desempenho, longas horas empenhadas. B é amadorismo no bom e no mau sentido: o prazer lúdico que é íntimo demais para ter de prestar contas a críticos ou quem quer que seja, e também uma confiança um tanto cândida na mágica da inspiração. Em termos assumidamente tão esquemáticos, é possível que só exista uma alternativa a A e B. Estamos falando, claro, de C – o A que pagou sua dívida, isto é, sente honestamente que pagou sua dívida e aí para, feito um personagem de Vila-Matas, feito um Raduan Nassar. O C já…

Você nasceu para escrever. E agora?
Sobrescritos / 28/11/2011

Acabou que, tanto quebrou a cara por aí, você se viu forçado a reconhecer: não tem nada que saiba fazer melhor nesta vida do que escrever. Construir esculturas de palavras, pequenos objetos, biscoitos ou ensaios para uma futura pirâmide, não importa. De todo modo, escrever. Ficar horas à frente de uma tela em branco e sujar aquela planura, desenhar alguma coisa. Você talvez esteja, quem sabe, até contente com a descoberta disso que gosta de chamar para si mesmo de dom, o que de fato é. Há o que festejar, mas esta mensagem é para quem passou da fase de festa e começa a ficar, hmm, meio preocupado. Você sabe que uma decisão terá que ser tomada logo, uma decisão simples, sim ou não, A ou B. A: Sim, vou encarar isso como a razão de ser da minha vida e me dedicar a escrever tão bem quanto possa, enquanto tiver forças físicas e mentais para tanto. B: Não, obrigado. Fico no amadorismo, o que importa é me divertir, me expressar. Não reconheço valor na corrida insana de vocês, isso que chamam maiusculamente de Literatura. O significado de escrever para mim está acima (ou abaixo, se preferirem, não estou nem…

No gabinete de Sua Gloriosíssima
Sobrescritos / 14/11/2011

– O Poeta Municipal de primeira classe 738-B33 mandou um requerimento. – O que ele quer? – Ser promovido a Poeta Estadual de segunda classe. – Ah, de segunda direto? Terceira não serve? – É o que está no requerimento, senhor: “…vem solicitar de Vossa Gloriosíssima a promoção deste humilde artista a Poeta Estadual de segunda classe por notório saber, blábláblá”. Anexa um livrinho. – Não me digas que é o Descertezas… – Descertezas convexas, isso. – Rá, mas é cara de pau esse 738-B33! O que tens na mão, 156-T040, é um opúsculo fraquíssimo, quase todo plagiado, uma vergonha. – Aqui na orelha diz que é sampling. – Sampling, tá bom. Quer dizer que o 738-B33 acha que pode ser promovido a Estadual depois de lançar um troço desses? Precisa aprender uma lição, o mané. Vamos rebaixá-lo. – A Municipal de segunda? – Não, vamos rebaixá-lo de categoria. – O senhor diz tornar 738-B33 um… – Poeta Invisível, exato. – Hã, sem querer soar impertinente, senhor, julgo ser meu dever, no papel de Conselheiro Crítico de primeira classe, lembrar que a última vez que rebaixamos alguém a Poeta Invisível foi há mais de dez anos, e o episódio não…

Escrever um romance é…
Sobrescritos / 26/09/2011

Escrever um romance é como fazer uma cadeira. Você projeta, serra, prega, depois senta para experimentar e, se não desabar, é um romance. Aí lixa, pinta, enverniza o quanto quiser, ou não, deixa tudo tosco, não importa porque, se a cadeira não desabou, já é um romance. Não, escrever um romance não tem nada a ver com marcenaria, está mais para alquimia. Você mistura os líquidos e fica esperando a explosão, que, aliás, raramente vem. Depois bota numa garrafa e cola um rótulo com duas orelhas e diz: “Escrevi um romance”. Não é nada disso, caramba. Escrever um romance é só um gesto de suprema vaidade, um desafio lançado ao tempo por um mortal patético que não se conforma em desaparecer tão misteriosamente quanto apareceu e faz questão de deixar na parede da caverna uma mensagem para os arqueólogos de um futuro que nunca chegará. Engraçado, para mim é diferente. Escrever um romance é uma das três coisas que todo mundo precisa fazer na vida, junto com plantar uma árvore e ter um filho, simples assim. E agora parece que todo mundo está levando isso a sério mesmo, nem tanto a parte do filho, mas certamente a da árvore e…

Uma manhã na vida do poeta
Sobrescritos / 16/09/2011

O poeta faz a barba, contente. O espelho lhe devolve isso: o poeta faz a barba. E acordou contente. Se o poeta se enxergasse, se tivesse um espelho de mínima fidelidade diante de si, talvez não estivesse tão contente. O poeta é barrigudo, preguiçoso, solteirão, duro, meio dependente da mãe, bebe demais, fuma maconha demais, precisa tratar dos dentes. Além disso é dado a surtos de mau humor que, ao longo dos anos, já lhe custaram muitas e queridas amizades. Só que o poeta não enxerga nada disso. O que o seu espelho lhe devolve é um poeta. De barba feita. Desce para a rua e, na primeira esquina, o mendigo de todo dia lhe pede esmola. O poeta, como todo dia, finge que não ouve. Vê o primeiro carrinho de bebê a simbolizar a criação, tão harmônico com as manhãs. No sinal vermelho de pedestre aguarda civilizado, mas pensa: e se uma bomba de nêutrons explodisse agora, simbolizando a morte, o fim? Tenta compor versos por livre associação. Bomba de nêutrons meio da manhã. Seios de Neuza rebentar de frutas. Nem bênção memória de lesmas restantes. Distraído, quem será essa Neuza?, o poeta demora a perceber que o sinal…

Uma tarde na vida do crítico
Sobrescritos / 14/09/2011

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da Bergère, de onde tomou da xícara fumegante de Darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício. Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes. A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea. Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura…

Literatura: como proteger seu filho dessa droga
Sobrescritos / 17/08/2011

Prezada senhora, Obrigado por sua consulta. Nossa experiência de reabilitação de centenas de pacientes, quase todos afligidos por sintomas idênticos aos que a senhora descreve em seu e-mail, nos permite assegurar que seu filho estará inteiramente curado em apenas uma semana, caso a senhora opte por contratar nossos inovadores serviços. Na jornada rumo à meta de todos os pais dignos desse nome, uma vida saudável e produtiva para seus filhos, a senhora já deu o passo mais importante: identificar o problema no nascedouro e evitar a ilusão confortável de que tudo não passará de uma paixão adolescente fugaz. A espiral do vício, minha senhora, é implacável: dos suspiros pelos cantos, sempre cercada de livros, a vítima passa em 72,7% dos casos à fase que chamamos de “projeção ativa”, arriscando então seus próprios escritos, seduzida pela miragem de pertencer a esse mundo imaginário de beleza e sensibilidade que os ingênuos conhecem por literatura. Diversos métodos de reabilitação já foram propostos por nossos concorrentes. Nenhum deles tem a eficácia comprovada do nosso. A dureza radical do tratamento que desenvolvemos – e que leva alguns pais a recuarem, sentindo pena de seus pimpolhos, o que é um erro terrível – nada mais é…

Nareba quer ir a Frankfurt
Sobrescritos / 05/08/2011

A lenda da blogosfera literária nacional Lúcio Nareba está em liberdade desde o último indulto de Cosme e Damião, tendo cumprido, conforme a lei, um vigésimo da pena a que foi condenado pelo assassinato da editora Bia Escarpin (ao lado, no flagrante de Gilmar Fraga). A imprensa tradicional não deu destaque à libertação, mas os fãs têm sido fiéis ao velho mito e se cotizam para pagar os dois engradados diários de cerveja em que o fundador do radical narebismo se embebe, além dos cigarros que fuma sem parar pelos ouvidos e do Blackberry lilás em que cutuca nanocontos de três palavras o dia inteiro, produzindo um a cada quinze ou dezoito horas. E de repente isso já não basta. O homem Lúcio sente que alguma coisa nele, profunda e visceral, foi transformada pela cadeia. Começa a lhe parecer pouco desfrutar da glória de sempre, ainda que imensa, em seu próprio círculo literário. Nareba quer crescer como artista, ganhar o mundo. No começo fica meio confuso, mas, num esforço final notável, seus neurônios desenham a ideia mágica: Frankfurt 2013! É urgente que o traduzam para o alemão! Ora, ter uma ideia dessas deveria bastar por si só. Lúcio Nareba em…

Em trinta anos, seremos todos amigos
Sobrescritos / 27/07/2011

Ao entrar no bar, Rodolfo tem certeza de que ninguém sabe que está entrando um escritor. Ou ex-escritor, se é que existe essa condição. Às vésperas de completar setenta anos, os últimos vinte passados em silêncio e fora de todos os catálogos editoriais, ele acha que não faz diferença. Numa mesa ao fundo, perto do banheiro, o também escritor ou ex-escritor Romualdo, de trajetória semelhante, está bebendo sozinho. Vê Rodolfo antes de ser visto por ele e, num velho reflexo, sente seu corpo se retesar na cadeira. Rodolfo e Romualdo, companheiros de geração, nunca conversaram, embora tenham se visto e laboriosamente se ignorado meia dúzia de vezes em eventos literários do passado. Todas as suas trocas de ideias opostas se deram por meio de resenhas ácidas, artigos venenosos e maledicências variadas. Sempre se consideraram inimigos. Rodolfo acaba de perder a mulher para um câncer fulminante de fígado, mas Romualdo não tem como saber disso. O único filho de Romualdo morreu há três meses num acidente de trânsito, mas Rodolfo também ignora essa informação. Se um dia tiveram amigos comuns que pudessem ser condutores de tais notícias, hoje a maioria está dispersa ou morta. Rodolfo não consegue dormir mais de duas…

Decálogo do antologista
Sobrescritos / 18/07/2011

I. O que for antologizado pelo antologista será imediatamente antológico, seja analógico ou digital. II. Os antolhos do antolhogista serão critérios sagazes. III. Os autoelogios do autoelogista ficam abaixo da superfície da autoelogia, e não se fala mais nisso. IV. Se o antologista for uma anta, sua antalogia não será julgada por parâmetros zoológicos. V. Por proferir antes o julgamento da história, o anteslogista terá fama de xamã. VI. As antipatias do antipalogista serão todas, por definição, democráticas. VII. Se for um desempregado crônico, o à-toalogista poderá filar cigarros e requerer o Bolsa Família sem prejuízo de sua isenção crítica. VIII. Toda antologia será vista como axiomática, ainda que assintomática. IX. Só uma anti-antologia pode antagonizar uma antologia; todas as outras cartas serão incineradas. X. Ontologia? Não, não, no próximo corredor à direita.

Conselhos literários fundamentais (X)
Sobrescritos / 22/06/2011

Desista se for capaz. Pode ser que, após ponderar os conselhos anteriores e testá-los em exercícios práticos diários, angustiosos e inconclusivos, você encontre no fundo da última gaveta da alma uma migalha de sanidade e vislumbre, ainda que por meio segundo, a possibilidade de uma vida de plenitude imediata em que escrever não seja necessário, mais até do que isso, em que escrever seja tão inconveniente quanto a música de mau gosto que vaza pela parede do vizinho no meio da noite. Nesse caso, é altamente recomendável agarrar a miragem e trabalhar dia e noite para fazer da fresta um caminho, da centelha uma rota de fuga para um mundo de coisas que existem antes das palavras ou à margem delas: amores sem versos declaratórios de impossível originalidade, luares desprovidos de citações, equações sonoras de Thelonious Monk fruídas com a paz resignada dos que não buscam tradução para o intraduzível. Se for bem sucedido, você verá que esses e outros benefícios superam com folga aquilo que terá deixado para trás: a luta corporal contra o vento, as admirações minadas de ódio, as recompensas risíveis, a certeza do fracasso final e, acima de tudo, o doloroso e progressivo descolamento irônico entre…

Conselhos literários fundamentais (IX)
Sobrescritos / 08/06/2011

Pense nas palavras como amantes jogo-duro, seres neuróticos e esquivos que, para cada noite de prazer desbragado a apontar o infinito da posse plena, destinam ao insensato que com elas se envolve trezentas noites de gagueira e frio e fome não saciada, de cabelos puxados no meio do deserto no mais atroz desespero. Desconfie das palavras. Se declaram amor, exija mais, cobre provas, invente caprichos. Se lhe dão as costas, vá atrás. Sendo preciso chegar a tanto, implore, humilhe-se, mas guarde uma secreta porção de orgulho ferido: ela lhe será útil quando, após a próxima reconciliação, vocês brigarem de novo. Se desconfiar que as palavras lhe são infiéis, é porque são mesmo. Entregam-se a qualquer um que as saiba afagar, as vagabundas: o que são os clássicos da literatura universal senão os autos de seu ancestral pendor pela galinhagem? É só você que elas desprezam. Diante de suas cantadas subitamente ineptas, reviram os olhinhos, tingem os lábios de frio desdém. Revirar-lhes os olhinhos de prazer, morder seus lábios gulosos será então, para sempre, a ideia fixa do escritor, o padrão-ouro de sua vida. Coitado. Se tiver habilidade e sorte, conseguirá ter com as palavras uns poucos momentos memoráveis, o que…

Conselhos literários fundamentais (VIII)
Sobrescritos / 25/05/2011

Cultive um amuleto para os momentos de desespero. Pode ser Al Pacino perguntando a Diane Keaton em O poderoso chefão: “Quem está sendo ingênuo, Kay?” (Quem está sendo ridículo, cara?) Pode ser qualquer coisa, a memória do ar frio da madrugada entrando em seus pulmões numa manhã de pescaria na infância, um retrato da sua filha sorrindo com a boca sem dentes toda suja de feijão quando tinha um ano, uma estrofe de Bandeira, um labirinto de Escher, uma foto de Gautherot, qualquer objeto material ou imaterial que tenha algo de imantado e permanente e que, invocado como último recurso, agarrado na vertigem do sorvedouro como as sobrancelhas de Capitu eram agarradas por Bentinho em dias de ressaca, o impeça de cair no ralo que cedo ou tarde tenta nos tragar a todos, aquela contabilidade avara de elogios e críticas e gentilezas e esnobadas e alianças e hostilidades e rancores guardados na geladeira em tupperwares etiquetados, nomes e datas, vinganças agendadas, o ressentimento justificado, o ressentimento injustificado – o ressentimento, só. Quando a corredeira dos egos escoiceantes ameaçar transformá-lo num idiota, num paspalhão, agarre seu amuleto com todas as forças e saia em diagonal, dançando um maxixe com ar distraído,…

O amor nos tempos do códice
Sobrescritos / 13/05/2011

Não fazia tanto tempo que costumavam chamá-la de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. Flipou, flopou, fliportou, festpoou, e por cinco ou seis anos, se não foi famosa, existiu inquestionavelmente, carta no baralho das antologias igrejísticas e nome no caderninho dos repórteres de metrópoles e grotões, a fazer aparições frequentes em telas e papéis a pretexto de polêmicas culturais aguadinhas que, sustentadas pelo acordo tácito de que o rei nu exibia vestes de alta costura, às vezes abriam caminho para a republicação daquela sua fotinho de dez anos atrás em que luz chapada, rímel e lábio inferior levemente mordido compensavam a escassa beleza de nariz adunco e pele áspera. Ele, sim, era bonito, talvez até lindo, mas era um menino, um fedelho de cabelo desgrenhado e barba por fazer, quando se aproximou dela no fim do coquetel com jeito de fã encabulado e a presenteou com dois livrinhos que traziam na capa o logo de um desses selos editoriais inacreditáveis porque inexistentes, marca patética do amadorismo que agora brotava feito capim por todas as gretas do solo calcinado. Ela sorriu um sorriso de grande dama benevolente, ele se inflamou com o ímpeto kamikaze dos tímidos e, num sussurro ao pé…

Conselhos literários fundamentais (VII)
Sobrescritos / 06/05/2011

Não perca um minuto discutindo com quem prega a morte da narrativa. Evidentemente, o que esse cidadão está tentando fazer é criar uma – sim! – narrativa, aliás ingênua e batida, em que ele próprio é ao mesmo tempo o bandido que mata a velha dama aristocrática chamada Literatura e o mocinho que desvenda o crime, trazendo a boa nova de um futuro em que os narradores serão substituídos por… filósofos da linguagem? Se é verdade que vivemos um tempo de inflação narrativa em que a vida privada se vê transformada em “historinha” de forma instantânea nas redes sociais, a única resposta que a isso pode dar a literatura, arte narrativa por excelência, é narrar melhor. Narrar a narrativa, narrar o processo que fez tudo virar narrativa. Ou criar uma narrativa que dê um jeito de ser tão focada que brilhe em meio à pasta amorfa geral, atingindo o frescor pelo paradoxo da evocação de uma certa luz perdida. Por definição, nunca se pode dizer de onde virá o novo. Mesmo porque a tal inflação não começou há cinco anos, nem há trinta. O modernismo é, entre outras coisas, uma réplica artística à trivialização das histórias promovida por imprensa, rádio…

Conselhos literários fundamentais (VI)
Sobrescritos / 04/05/2011

Não tenha preguiça de reescrever. O escritor que não reescreve o que acabou de escrever, mesmo que por pura mania, mesmo que para deixar o texto indiscutivelmente pior, não merece ser chamado de escritor. Será, no máximo, um excretor a sujar de palavras fisiológicas em estado bruto um mundo que não precisa de sua contribuição para se assemelhar a um aterro sanitário de símbolos. Se escrever dez linhas, reescreva-as dez vezes em dez horas, e mais dez vezes a cada dez horas dos dez dias seguintes: corte, amplie, pregue, serre, lixe, solde, cole, mude tempos verbais e a ordem dos parágrafos, exercite a sinonímia e a intolerância. (Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever.) E caso ocorra a circunstância nada improvável de retornar nesse processo de edição a um texto muito semelhante ao original, ou mesmo idêntico a ele, saiba que a sensação de tempo perdido será uma ilusão e que o fruto da reescritura, como o Quixote de Pierre Menard, terá por trás das mesmas palavras uma densidade incomparavelmente superior. Claro que também é preciso reconhecer o momento de parar…

Conselhos literários fundamentais (V)
Sobrescritos / 20/04/2011

Não precisa ser a primeira preocupação do escritor ao se sentar diante do suporte físico ou etéreo em que gravará suas palavras, mas em algum momento do processo é recomendável que ele tenha em mente a questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio. A oposição estabelecida por Andrônico de Rodes, o primeiro editor de Aristóteles, e ampliada por diversos pensadores, dos quais Montaigne não será um dos menos ilustres, vive desde o Modernismo uma crise de cognição. Hoje, quando se refere à questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio, o crítico erudito tende a pensá-los como dois países autônomos. Talvez influenciado pela famosa oposição entre intelecto ativo e intelecto passivo proposta pelo Estagirita que Andrônico seguia, imagina cada um desses territórios entregue a seus próprios habitantes, com autores de livros para fagocitar atendendo à demanda de leitores fagocitadores, e produtores de carpaccio à dos apreciadores de fatias finas. Equilíbrio que não deixa de ser precário, como atestam as guerras diplomáticas entre as nações antípodas, mas é, de todo modo, reconfortante. Se retomarmos o fragmento…

Conselhos literários fundamentais (IV)
Sobrescritos / 11/04/2011

Busque no ritmo das pedrinhas portuguesas a exata ondulação de um capítulo. Abra o dicionário ao acaso para encontrar o adjetivo preciso. Conte o número de carros azuis que avista da janela no prazo de cinco horas para decidir quantas vezes um personagem deprimido tenta se matar antes de ter sucesso. Desventre croissants para estudar camadas de sentido. Aposte contra a máquina no futebol do Playstation o destino – ganhou, apogeu, Fitzgerald; perdeu, decadência, Faulkner – de um protagonista ególatra, seja ele astro do rock ou imperador da borracha na Manaus do século 19. Estude doutamente a borra do café, procure ancestrais desígnios pétreos nas dobras do lençol pós-insônia, contemple o ar invisível, sonde as próprias fezes. Faça cada dia de chuva puxar uma pétala do malmequer, e assim, passados sete meses, decida o desenlace romântico de herói e mocinha. Para questões de estilo, prefira roletas e dados. * Outros conselhos: I, II e III.

Flame war
Sobrescritos / 01/04/2011

Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar. E Adolfo Pinho Rosa escreveu: “Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê e a…

Conselhos literários fundamentais (III)
Sobrescritos / 16/03/2011

Esqueça o famoso conselho: um escritor não precisa escrever sobre o que “conhece bem”. Quase todo mundo, ao escrever sobre o que conhece bem, produz platitudes que o leitor também conhece bem, antes mesmo de ler. Invente, se der na veneta, um mundo pré-colombiano inteiro, mapas e tudo, com nórdicos e ibéricos que a história não registrou se imiscuindo entre os incas, onde uma princesa chamada Aya, cujo amor pelo louro Thür foi condenado por seu pai, o imperador Tapa-Quichuchu, entra nua e magnífica numa banheira de enguias elétricas enquanto na rua o povo comemora a chegada de um novo ciclo lunar fornicando desavergonhadamente pelos cantos, ao som de trompas de chifre e tambores de lhama. Então, no meio daquela zorra, pare um minuto e dê a alguém, um personagem qualquer, um traço seu: a dor de cabeça da noite passada, por exemplo. Um jeito de andar ou falar. Em histórias menos épicas, pode ser a preferência por uma marca de cerveja. Basta: essa gota de verdade pessoal, essa mísera pincelada no formidável painel, num fenômeno alquímico ainda pouco elucidado, torna de repente lancinante o suicídio da bela Aya, imprescindíveis as enguias, trompas, bacanal, América pré-colombiana de araque ou o…

Conselhos literários fundamentais (II)
Sobrescritos / 25/02/2011

Nunca aceite conselhos, com exceção deste: nunca aceite conselhos. A abertura da exceção destina-se a evitar um curto-circuito lógico que precipitaria o pensamento em abismos semelhantes ao do célebre “paradoxo do mentiroso” de Epimênides ou Eubulides, aquele que diz: “Estou mentindo agora”. Caso aceite este conselho, você vai descobrir que ter aberto tal exceção equivalerá a reconhecer – questão de honestidade intelectual – o princípio de que conselhos podem ser úteis e que, sendo assim, a determinação de nunca aceitá-los é uma estupidez. Um caminho que parece menos traumático é recusar o conselho de nunca aceitar conselhos e permanecer livre para aceitar os conselhos que quiser, repudiando os demais. No entanto, a arbitrariedade dessa discriminação, confundindo-lhe a alma, tenderá a encaminhá-lo para a aceitação do conselho bom ao lado do ruim, qualquer um, na verdade, menos este, o de nunca aceitar conselhos. Aceite todos, portanto, inclusive este, eis o que seria meu principal conselho, se eu não estivesse mentindo agora.

Conselhos literários fundamentais (I)
Sobrescritos / 04/02/2011

Odeie o conforto. Se estiver concentrado demais na história que está escrevendo, ligue a TV, entre num bate-papo virtual. Caso as palavras continuem a lhe jorrar dos dedos, ponha uma música, desligue o ar condicionado, abra a janela para o berreiro de freios, buzinas e motores. Sinta-se incomodado: retarde ao limite do desastre – ou mesmo, havendo disposição e necessidade para tanto, além dele – a hora de ir ao banheiro. Morra de sede, chegue a passar fome. Brigue com a sua mãe. Mande confeccionar para sua cadeira de escritório XTZO-3000 (com amortecedor inteligente) um magnífico assento de tachinhas medievais. Boicote-se: se escrever umas tantas páginas-telas que lhe agradem em particular, dê um jeito de perdê-las, negando-se como um tonto a salvar o arquivo ao fechá-lo. E então esprema a memória para reproduzi-las igualzinho, vírgula a vírgula, exceto por uma palavra que já não achará mais e cuja ausência, se tudo der certo, vai torturá-lo por horas e horas de trabalho ou trabalho nenhum, pois não se pode chamar de trabalho o tumulto de pensamento que o tomará então, o céu a estridular como se fosse partir ao meio e o computador berrando mais do que a cidade e a…

Literatura brasileira com merchandising (III)
Sobrescritos / 31/01/2011

“Só agora Amaro acredita que a primavera chegou: de sua janela vê Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos, mais floridos do que nunca, nutridos que foram desde o outono pelo adubo Duchão – pensou fertilização, pensou Duchão.” * “Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido.” * “Levantai-vos, heróis do Novo Mundo… Andrada! arranca este pendão dos ares! Colombo! que chás espetaculares!” * “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral, essa gente que ainda não descobriu os poderes vivificantes do Tônico Maçaranduba.” * Leia também: Literatura brasileira com merchandising Literatura brasileira com merchandising (II)

Aquela tarde em Lisboa
Sobrescritos / 14/01/2011

Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na página de poesia d’O Berro dos Grotões, onde era sempre o convidado principal. Foi quando apareceu o tal Medrado. Um forasteiro, cara do Sul – de origem incerta, portanto. Gerente comercial. Tinha um pente Flamengo no bolso e sabia assobiar inacreditavelmente alto com os dois indicadores nos cantos da boca. Viera trabalhar n’O…

Estudo em solferino
Sobrescritos / 03/12/2010

Se você acreditasse numa palavra do que está lendo, saberia que a escadaria era alta e larga, de mármore, e no centro dela descia lambida uma língua púrpura de veludo que vinha morrer aos pés de um cântaro de ouro velho, um tipo de cântaro de cintura alta que foi moda no Ancien Régime ou coisa assim, era o que estava escrito no verso do postal, mas cito de memória porque o postal se perdeu, Smirna o enfiou em sua famosa bolsa sem fundo e o levou, quando saiu da minha vida. Agora, por um instante, você talvez considere a possibilidade de acreditar no que está lendo, mas que nada, logo fica esperto: Smirna é um nome tão inverossímil, só faltam lúgubres bares búlgaros, encontros em vielas de Saigon, ou fazer dela uma puta de luxo especializada naquele último grito da perversão – a tonushka dentata. E no entanto, distante de todos esses lugares, atividades, a Smirna que eu conheci, que mergulhou em Fernando de Noronha, que fez concurso para a Receita Federal e não passou, essa Smirna levou para sempre o postal da escadaria de mármore lambida de um rútilo solferino que Smirna ou uma mulher muito parecida com…

História com beija-flor
Sobrescritos / 03/11/2010

O escritor moveu o dedo indicador e apagou o último arquivo com o último vestígio de sua extensa obra inédita. Levantou-se e andou até a janela. Nono andar. Abriu a janela e, uma perna depois da outra, sentou-se no parapeito de frente para a rua, sem olhar para baixo. Olhou, em vez disso, para a janela do vizinho da esquerda. Esta tinha uma floreira onde adejava um beija-flor minúsculo, de bico longo e curvo, pretinho com umas pinceladas branco-fosforescentes na cauda. Voltou ao computador e iniciou imediatamente uma nova obra. Foi salvo por aquele passarinho. Um beija-flor minúsculo, de bico longo e curvo, escreveu. Uma obra voltada para a beleza. Esta foi igualmente extensa e também ficou inédita até sua morte por peritonite, trinta e sete anos depois, e por toda a posteridade.

O relato de Stapfnunsk, um homem de bem
Sobrescritos / 06/10/2010

A testemunha Olaf Stapfnunsk, natural de Estocolmo, naturalizado brasileiro, com quarenta e oito anos, empresário, residente à rua… da cidade de …, compromissada na forma da lei, respondeu: – que por volta das oito horas da manhã de quinta-feira, 7 de outubro deste ano, chegou à academia de ginástica de sua propriedade, situada em…, e foi direto ao escritório, quando então deu pela ausência de Totó, seu funcionário, de nome completo Alceu Gouveia Nunes, que lá já devia estar; que tal fato o deixou irritado, motivo pelo qual chegou a proferir um palavrão em sueco, e que o dito palavrão era subba, reputado intraduzível pelo depoente; que a irritação com a ausência do funcionário Totó o fez passar a mão no telefone e dar início ao trabalho agendado para todas as manhãs daquele mês, qual seja, o telemarketing pela vizinhança; que tal ação de telemarketing consistia em oferecer ao cliente em potencial uma semana de academia grátis, trabalho do qual não gostava, ainda que já o tivesse executado em outras ocasiões, sendo Totó um empregado pouco confiável; que pela próxima hora, até as nove horas da manhã, falou com cinco clientes em potencial, dos quais dois se interessaram por sua…

Por Glorinha
Sobrescritos / 13/09/2010

Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico. O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco. Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas. Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez grande sucesso…

Dos elogios incondicionais
Sobrescritos / 16/08/2010

Valério Schlondorf está relendo pela quinta vez a resenha que acabou de escrever. A caneta esferográfica em sua mão direita aplica rabiscos ocasionais nas folhas de papel sobre a mesa. Como sempre faz na hora de revisar seus escritos, tratou de imprimir este primeiro: apesar de jovem o bastante para ser considerado um dos valores da “nova geração de escritores brasileiros”, o capixaba Schlondorf é suficientemente velho para achar mais fácil flagrar deslizes, rimas indesejáveis, ideias inconsistentes e frases truncadas quando lê no papel, como se a fluidez da tela do computador mascarasse defeitos. Defeitos que, diga-se de passagem, ele não encontrou no romance que acaba de criticar. Nem para remédio: a resenha é francamente elogiosa. Seu problema passa a ser então moderar os elogios para, num paradoxo apenas aparente, deixá-los mais potentes. Sabe que as pessoas desconfiam de loas demasiado rasgadas e não é para menos – no ambiente de compadrio, hipocrisia e pouco apreço ao profissionalismo crítico em que chafurdam as letras nacionais, faz muito bem o leitor em se precaver. Assim, em vez de “divisor de águas na literatura brasileira contemporânea”, opta pela sobriedade firme de “livro fundamental na literatura brasileira contemporânea”. No lugar de “gênio”, vai…

O Clube
Sobrescritos / 28/07/2010

Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas em meio a espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais a resenha de página inteira que, menos de um mês depois, o chamava de gênio e seu último livro, de obra-prima incontornável, e mais concreta ainda a assinatura de prestígio vertiginoso a encimá-la. A esta crítica seguiram-se outras de tom semelhante espalhadas pelo país, numa orquestração que só poderia ser compreendida como o trabalho de um grupo coeso, um verdadeiro Clube, de forma que, quando atendeu o telefone com o coração disparado certa madrugada e ouviu do outro lado da linha uma voz rouca a lhe perguntar sem preâmbulo se estava satisfeito, resolveu agir com naturalidade e dizer que sim, estava satisfeito. O que era verdade, pois nunca, em muitos anos de carreira literária, fora alvo de tanta atenção, e embora se…

R.I.P. (Dedicado a Lee Siegel)
Sobrescritos / 05/07/2010

– Tem certeza que está morto? – Absoluta. Infelizmente. – Mas não poderia estar, digamos, só em coma? Ou hibernando? Quem sabe prestes a renascer das próprias cinzas qual uma maravilhosa… – Impossível. Lamento. – Mas o senhor sabe que esse atestado de óbito já foi passado muitas vezes, não sabe? Há mais de um século que é assim. Toda vez que um criticozinho obscuro quer aparecer, a primeira coisa que lhe ocorre é… – Estou ciente disso. – E mesmo assim… – O que posso dizer? Desta vez é sério: o romance está definitivamente morto. Talvez os coveiros do passado tenham se precipitado, declarando morte onde havia apenas doença. Ou talvez estivessem certos o tempo todo, e o que temos visto desde então não passe de um estado de zumbi, o movimento que permanece no rabo amputado de uma lagartixa. Só o que posso lhe garantir, após o exame clínico que acabo de realizar do alto do meu pós-doutorado, é que agora já era mesmo. Babau. Finito. – Puxa, mas isso é tão triste. – Fale por você. – Logo agora que eu ia finalmente começar a ler o Quixote! – Veja bem, nada impede. Cada um desperdiça seu…

Delete
Sobrescritos / 10/02/2010

Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos. Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço. Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a cutucar ritmicamente o teclado negro, polegares batendo surdão a intervalos impenetráveis. Ele sabe que os intervalos impenetráveis podem ser condizentes com algum padrão oculto, mas sabe também que, mesmo arbitrariamente, apontar esse padrão só será possível mais tarde – tarde demais? – em retrospecto, sendo por ora mais sábio se embalar na impenetrabilidade do sussurro produzido pelos pequenos tambores de plástico. Em sincronia com os comandos que os emblemas de sua idade percutem no teclado negro coberto de símbolos brancos, símbolos negros surgem na tela branca. Ele pára e lê os seis parágrafos que escreveu, incluindo este. Hesita mais uma vez. Torce os músculos faciais de tal modo que fica parecendo um nó de madeira, uma orelha, à luz hepática da tela onde a metáfora do nó precede sua…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a TDN
Sobrescritos / 25/01/2010

A chamada Técnica do Deputado Nordestino (denominação em que há inegavelmente uma dose de preconceito, visto que políticos de qualquer latitude dela lançam mão), ou apenas TDN, é a maior aliada do escritor que precisa preencher determinado espaço com suas letrinhas em prazo curto – o que a torna especialmente valiosa para cronistas. Trata-se, em resumo, de uma longa reiteração, de um incansável repisar da mesma idéia, com variações vocabulares, sintáticas e imagísticas engenhosamente dispostas de modo a disfarçar o fato desolador de que o texto não vai a lugar nenhum, limitando-se a bater na mesma tecla e sovar uma única proposição até que ela amoleça, se liqüefaça, desmanche diante do leitor e possa ser sorvida com canudinho – mais ou menos, repare, como se faz aqui, agora. Sabe-se que o movimento é importante para o sucesso de um texto, que deve sair de um ponto A e chegar a um ponto B – ou G, ou X, conforme a capacidade do autor – por meio de um desdobramento dialético em que, não raro, cada passo corresponde a um parágrafo. Infelizmente, sabe-se também que isso dá um trabalho danado. O número de sinapses necessário para ligar esses pontos pode ser…

A epígrafe
Sobrescritos / 19/01/2010

Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como lhe parecia apropriado aos gênios irascíveis e rabiscando nanocontos em guardanapos com nódoas de azeite. Mas aquela carta de recusa… Prezado Nareba, Abri seu manuscrito com grande interesse e, já na primeira página, fui ao delírio com a epígrafe. Genial mesmo, parabéns. Infelizmente, não consegui passar da epígrafe, motivo pelo qual sou obrigada a recusar a publicação de “Sou phodão & outras modéstias”. Como sinal de boa vontade, uma crítica construtiva: a epígrafe é genial mas precisa ser aprimorada. Os versos “Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…” são do Castro Alves e não do Chacal. Isso posto, não desista jamais. Ou desista, phoda-se. Bia Escarpin Gratuito, não? Mais que gratuito, humilhante. Típico dessa alta burguesia editorial insensível e decadente que aí está. Mesmo assim, o plano de estrangular Bia Escarpin…

A bíblia da Bibliosmia
Sobrescritos / 10/12/2009

Acaba de sair, com patrocínio da Kleenex, o aguardado “Manual do cafungador de livros: teoria e prática da resistência bibliósmica” (Nova Cosac Naify, 556 páginas, R$ 2.899,00), suma teológica do movimento surgido espontaneamente nas primeiras décadas do século 21, quando multidões em todo o mundo elegeram seus aparelhos olfativos o último bastião de resistência ao então nascente livro digital. Lançado, claro, apenas em edição de papel, o livro traz um apêndice que ensina os cafungadores calouros a reconhecer os 102 aromas básicos entre os milhares catalogados pela Bibliosmia (almíscar, tanino, funghi, repolho, rolha seca, poeira do sótão, poeira do porão, urina de traça, sêmen de baleia etc.) e relacioná-los aos gêneros literários dos quais emanam. Requinte supremo: o capítulo dedicado a cada eflúvio pode ser, além de lido, cheirado. O que é talvez obrigatório, se procederem as informações de que os cafungadores lêem cada vez menos, chegando a apresentar alta incidência de analfabetismo e cegueira total ou parcial – em compensação, sua exuberância olfatométrica humilha até a dos enólogos. Cheiro de sucesso editorial no ar.

Gaúchos
Sobrescritos / 04/12/2009

Quando ele fez o velho sinal de pedir a conta rabiscando o ar, o garçom – um sujeito alto e branquelo, cabelos vermelhos cortados à máquina – se aproximou com um sorriso amplo e disse: – Como tu adivinhou que eu escrevo? E em vez da conta pôs em suas mãos um manuscrito pesado, com encadernação em espiral, chamado “Carnificina”. Antes de se retirar, acrescentou: – Sou um escritor gaúcho. Claro, ele pensou, nada mais apropriado. Você vai jantar numa churrascaria em São Paulo e o garçom é um escritor gaúcho. Estava decidido a não tomar o ansiolítico – não ainda. Atraiu outro garçom, desta vez tendo o cuidado de se expressar verbalmente: – A conta! Foi então que viu entrar na churrascaria aquele famoso escritor gaúcho de meia-idade, feio como poucos, acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Ouviu quando o casal da mesa ao seu lado comentou: – Viu quem chegou? E discerniu no sussuro dos dois os nomes estrangeirados do escritor de meia-idade e de uma jovem escritora gaúcha emergente cuja cara ele não conhecia, embora, por dever de ofício, já a tivesse lido – não era má. Sem se dar conta, acompanhou os recém-chegados com os…

Uma ilha, um livro
Sobrescritos / 24/11/2009

– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz. – Um só? – Um só. Qual você escolhe? Ele pensa um pouco. – Nenhum. – Como, nenhum? – Nenhum. Não vou ler, morto não lê. – Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro. – Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes. – Se mata… – Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte. Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete. Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único…

Diálogo entreouvido na fila do sopão
Sobrescritos / 11/11/2009

Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz? Vender? Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada. Sei. O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o anacoluto
Sobrescritos / 04/11/2009

O anacoluto, do grego anakólouthon, “o que não tem seqüência”, sem ele não vivemos. Quebra de estrutura, não exagera quem diz que o recurso está para a sintática como o non sequitur para a lógica. Eu, tanto faz que os conformistas do papai-e-mamãe gramatical riam de mim, apontando tropeços, gagueiras: o anacoluto para reproduzir na escrita o tumulto da vida não existe outro igual.

A mulher de Botero
Sobrescritos / 28/10/2009

João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras. Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez. Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero. Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o plausível
Sobrescritos / 22/10/2009

Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não soe falso, para que o leitor acredite naquilo, para que tudo fique, digamos, plausível. (Não sei se o autor da pergunta tinha lido algum dos autores à sua frente e o considerava especialmente plausível. Gosto de imaginar que estivesse externando uma angústia antiga, nascida talvez da insatisfação com seus próprios escritos – mas isso não vem ao caso.) Depois de alguns segundos de constrangimento, não suportando mais o silêncio, peguei o microfone e comecei a falar a primeira coisa que me veio à cabeça: algo sobre a importância de rasgar, reescrever, enxugar, experimentar outro caminho. Mas a verdade é que, como meus companheiros de mesa, passei longe de captar o alcance da pergunta. Via nela apenas o lado ingênuo, óbvio, infantil, diante do qual o primeiro impulso é sacudir os ombros: “Ora, escrever é isso aí mesmo, o que mais posso dizer?” Só agora, meses…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o fio
Sobrescritos / 21/10/2009

A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento. É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a barriga
Sobrescritos / 20/10/2009

O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva. Publicado em 30/3/2007. Aproveito para…

Oficina de ficção
Sobrescritos / 09/09/2009

Enquanto o livro não vem, e para não fugir do assunto de ontem, reedito um Sobrescrito publicado em fevereiro do ano passado: Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que…

O famoso Desafio Stuckert
Sobrescritos / 28/08/2009

Caso raro de filantropo cultural na história do país, Lírio Stuckert, o hoje sessentão herdeiro do império de mineração Stuckert, sobe ao palco com passos lentos, caminha até o microfone instalado sobre um púlpito de madeira de lei e, varrendo o auditório lotado com um olhar vago, pigarreia meia dúzia de vezes. Após trinta anos de expectativa, o famoso Desafio Stuckert está prestes a chegar ao fim. Como sabe qualquer um que não viva em Marte, Lírio Stuckert deixou para trás em 1979, ao completar 33 anos, uma juventude boêmia rascunhada no submundo internacional das artes moderninhas – entre São Paulo, Paris, Nova York e Tóquio – para dedicar os anos mais produtivos de sua vida e uma gorda fração de sua fortuna à procura do mais valioso e mitológico dos diamantes: o Escritor Genial Inédito, criminosamente ignorado pelas editoras e perdido nos confins deste Brasilzão. Ao longo de três décadas, a Fundação Stuckert recebeu 1.528.777 originais que, garante seu patrono, foram todos lidos com lupa, linha a linha, por uma equipe eclética de especialistas e não-especialistas, de pós-doutores a diletantes renomados. E agora, diante de representantes de toda a imprensa nacional, Lírio Stuckert está finalmente anunciando o resultado da…

O estranho caso do Wiki-Machado
Sobrescritos / 23/07/2009

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal? Hm. Hmm. Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado? Herança. Legado é sinônimo de herança. Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista. Acho que funciona: “… a herança da nossa miséria”. Apoiado, mas essa miséria também é de um negativismo que vou te contar… E logo na última frase do livro! Hmmm. Hmmmm. Uma péssima última impressão, eu acho. Entendi seu ponto. Talvez “a herança de nossas modestas aquisições” fique maneiro. Porque combina com o personagem, que é um cara assim meio fracassado, mas não puxa tanto pra baixo. E no fundo diz a mesma coisa. Beleza. O que mais? Olha, eu ainda não tinha falado nada, mas pra mim esse negócio de não ter filhos e anunciar isso cheio de orgulho é que é mó deprê. Muito leitor ou leitora que seja pai ou mãe vai se sentir agredido ou agredida. É. Que tal isso? “Não tive, infelizmente, a oportunidade de ter filhos…” Epa, mas aí seria uma agressão aos leitores e leitoras que optaram por não ter filhos! Tá, a gente…

O Módulo Avançado
Sobrescritos / 24/06/2009

Parabéns, gafanhoto. Você passou por todas as fases básicas do curso com louvor, sem dúvida um dos melhores aspirantes que já tive o prazer de treinar. Obrigado, mestre. Principalmente na questão da voz narrativa, no domínio do discurso indireto livre, nos exercícios de stream of consciousness, embora, como eu já disse outras vezes, ainda precise melhorar nos diálogos e na caracterização dos personagens. Eu sei, mestre. Estou trabalhando nisso dia e noite. Vai com calma, o aperfeiçoamento vem com o tempo. Na boa, não tenho mais nada a ensinar a você no Módulo Básico. O que significa dizer que está na hora de entrarmos no Módulo Avançado. Jura, o misterioso Módulo Avançado? Já? Podemos começar hoje. Caramba, que sinistro! Desculpe se pareço nervoso, mestre. É que desde o início do curso o Módulo Avançado é uma tremenda caixa-preta, sempre me intrigou por que no currículo ele só aparece assim, M.A. Nem as matérias eu sei quais são. Porque só quem já tem alguma estrada pode acessar essa informação, rapaz. Por acaso deixam um médico residente fazer cirurgia cerebral? O risco de usar mal as ferramentas do Módulo Avançado é enorme. Entendo. E que ferramentas são essas? Um pacote gigantesco de…

Carta ao bisneto
Sobrescritos / 16/06/2009

Meu querido Zeca, Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar. Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos. Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil…

Quem quer ser um milionário?
Sobrescritos / 28/05/2009

Saudação, amigo de internet! Eu é Sr. Kumbundu Wahaha, um filho de extinto ilustre escritor Sr. Dr. Kuagananga Wahaha, maior de Nigéria. Meu pai tem sido assassinado em Dezembro passado ano, 2008, por fanáticos suportadores de ex-amigo então inimigo de letras, Sr. Tutu T. Pendengas, ilustre não este, bem bastardo como uma questão de fato. A razão que eu escreve, amigo de internet, meu extinto querido pai tem deixado soma de US$ 2.993.345.558,20 (dois bilhão, novecentos noventa três milhão, trezentos quarenta cinco mil, quinhentos cinquenta oito dólares norte-americanos, mais vinte centavos) em conta de ele, fortuna de direitos de cópia de melhor-vendido de ele, “Marfins sangrentos”, de Kuagananga Wahaha. Dinheiro que tem tido bancário bloqueio devido explosiva política situação em Nigéria. Ajuda nós! Caso recebemos número de conta de você em banco, senha, nome completo, eu faz hoje transferência bancária de US$ 2.993.345.558,20, via Switzerland, para amigo de internet! Depois Sr. devolve fortuna e conserva para próprio uso 20% do total valor, isto é, US$ 598.669.111,64 (quinhentos noventa oito milhão, seiscentos sessenta nove mil, cento onze dólares norte-americanos, mais sessenta quatro centavos) por modos de compensando incômodo. Eu, Sr. Kumbundu Wahaha, conta com amizade de Sr. amigo e completa discrição….

A pesquisadora
Sobrescritos / 20/05/2009

Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios,…

Xian Xu e os mongóis
Sobrescritos / 04/05/2009

Em 658, o pequeno reino de Lu Xian Xu, o Sábio, ao norte do Rio da Fertilidade, foi invadido pelos mongóis. Os mongóis eram terríveis. Depois de reduzirem a papa os campos de arroz do povo de Xian Xu, queimaram suas vilas, uma a uma, e chegaram por fim à cidade real. A bela Tsuido Hen consistia apenas no palácio do monarca cercado de ruas labirínticas, e os mongóis entraram pisoteando com seus cavalos peludos o labirinto, que era de papel e bambu, e foram direto ao palácio. Puseram-se então a destruí-lo, como haviam feito com colheita, crianças, adultos, cidades, esperança. Enquanto seu palácio ardia, Xian Xu, o Sábio, entrou nos aposentos de suas onze esposas e, anunciando a derrota, ordenou que o seguissem. Pegariam a passagem secreta – a última esperança. Arrastando aquela cauda de mulheres assustadas, Xian Xu venceu o corredor com passos apressados e abriu de par em par as portas do salão abobadado da Grande Biblioteca, um aposento de vitrais altos e piso de mármore onde se assentava o xadrez das prateleiras repletas de arcanos teológicos e criacionistas, poéticos e terapêuticos, morais, filosóficos, míticos e cômicos. O Sábio avistou então Suri Kuoda, o jovem bibliotecário, espanando…

Mala direta
Sobrescritos / 15/04/2009

Venho em nome de nossa empresa, a Write Right, oferecer nossos serviços diferenciados de soluções literárias com foco customizado nas necessidades de escritores situados em qualquer nicho mercadológico/estético/igrejístico. Dos minicontos aguadinhos aos grandes épicos pedregosos, da poesia formalista altamente ilegível às letras de música dããã de axé e pagode, nosso compromisso é agregar o máximo de valor às suas criações/diluições/cópias, provendo soluções formais imediatas de eficácia comprovada e gerando contatos de negócio (57 resenhistas na folha de pagamento!) que oportunizarão um aumento significativo de sua satisfação autoral e de seu prestígio social, sem perder de vista a maximização do market share de seu produto e a fidelização eterna de seus clientes/leitores/otários. Se você quer apenas escrever, não precisa da Write Right. Mas se quer ESCREVER SEU NOME NA HISTÓRIA, está esperando o quê, ô?

A espera
Sobrescritos / 07/04/2009

Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá…

Literatura brasileira com merchandising (II)
Sobrescritos / 11/03/2009

“Das mais surpreendentes é a vida de tal faca: faca, ou qualquer metáfora, pode ser cultivada. E mais surpreendente ainda é sua cultura: medra não do que come porém do que jejua. Podes abandoná-la, essa faca intestina: jamais a encontrarás melhor que Tramontina.” *** “Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!” *** “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustaram com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.” *** “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no…

Literatura brasileira com merchandising
Sobrescritos / 10/03/2009

“Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio, mas a impecável companhia aérea, além de não ter culpa pelo transtorno, ainda nos hospedou em um hotel de primeira qualidade no aeroporto aquela noite – grande Lufthansa.” *** “– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Ahã.” *** “Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu Viu outra lua no mar. O doutor que a atendeu Não tardou a receitar Óc’los da Ótica Fiel Pra vista dupla acabar.” *** “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.” Publicado em 26/6/2006. Republicado a pedidos.

O problema é o 'problema'
Sobrescritos / 03/03/2009

Qual é o maior problema da literatura brasileira? ( ) Os escritores não sabem escrever. ( ) Os leitores não sabem ler. ( ) Os críticos não sabem criticar. ( ) Os blogueiros se acham escritores. ( ) Os comentaristas de blog se acham críticos. ( ) Os críticos dos comentaristas de blog se acham. ( ) Os críticos dos comentaristas dos críticos dos comentaristas de blog… hã, onde estávamos mesmo? ( ) Ser brasileira demais. ( ) Não ser suficientemente brasileira. ( ) Não ser literatura. ( ) Literatura brasileira? Onde? ( ) Vai ler um livro e não me enche o saco. Publicado em 25/7/2007. Republicado a pedidos.

Quando Nabokov não veio
Sobrescritos / 06/02/2009

Quando Vladimir Nabokov não veio ao Brasil, em 1921, foi como entomologista convidado da expedição que a Universidade de Cambridge, onde ele estudava, organizou para subir o Xingu ciceroneada por um já alquebrado Cândido Rondon, empreendimento ambicioso que reunia mais de oitenta profissionais entre cientistas, cinegrafistas, artistas plásticos, nobres entediados, adidos militares discretos e espiões da indústria farmacêutica – e que também acabou não vindo. Foi assim que Nabokov não avistou à beira de um córrego um belo e até então desconhecido espécime crepuscular da família Nymphalidae, que desse modo, num bater de asas, perdeu para sempre a chance de inaugurar uma subespécie batizada Nabokovia. Foi também naquele ano que o jovem Vlad não sentiu a tentação de trocar a vida sombria de exilado russo na Europa pela de russo maluco nos trópicos, nem decidiu se recuperar dos rigores amazônicos que não lhe subtraíram sete quilos da carcaça no embalo de uma rede recifense na praia de Boa Viagem, onde, como é natural, tampouco conheceu biblicamente uma prostituta de doze anos chamada Dolores. Entre as mais notáveis conseqüências desses não-fatos pode-se salientar a circunstância incontornável de que Nabokov também não aprendeu a escrever em português com uma excelência de estilo…

O sáurio
Sobrescritos / 11/01/2009

As livrarias pequenas ou decadentes eram as melhores. Sentimentalismo? Picas: ausência de câmeras. Esgueirava-se entre as estantes feito réptil, puro sangue frio em movimento. Sim, um lagarto. Com olho de ave de rapina para que nada lhe escapasse: localização da obra em foco, vendedores mais próximos, possibilidade de flagra por meio de traiçoeiros espelhos ou jiraus. Suích, suích, lá ia ele dobrando esquinas acolchoadas de best-sellers, iguana com olho de gavião e mente hiperativa de escritor. A obra em foco era sempre, de algum modo, a mesma: o último sucesso de um de seus companheiros de geração. Pareciam inesgotáveis seus companheiros de geração. E os sucessos que produziam. Acompanhava os lançamentos, pupilas estreitas esquadrinhando os cada vez mais anêmicos cadernos literários dos jornais. Para isso pelo menos serviam os pasquins: montava ali, à mesa do café, o roteiro das próximas investidas. Às vezes acontecia de esbarrar com seu próprio livro perdido em algum pé de estante empoeirado, entre ácaros e oblívio. Raro, raríssimo. Mas sempre doía. Seu bebê incompreendido, seu prematuro grotesco. Era vexaminoso encontrá-lo nessas incursões, geralmente escondido atrás de tomos impossíveis, um guia de montanhismo lapão, a autobiografia da stripper que foi sucesso década e meia atrás. Preferia…

Cada geração com seu estilo
Sobrescritos / 10/01/2009

Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento. A platéia riu. A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer. O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone. Quem se recusou a crescer foi você, cara. Como disse? Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo…

Culposo?
Sobrescritos / 09/01/2009

O problema de Demóstenes Bastião era que ele escrevia em preto-e-branco. Não num preto-e-branco estiloso ou expressionista. Num preto-e-branco cinza, cinza-e-branco, cinza-e-cinza. Chiadeira das mais invernosas, sua prosa era mais cacete que a palavra “cacete” usada como adjetivo, mais morrinha que um daqueles lençóis de vapor que uma vez por década envelopam o mundo por semanas, meses, sem chover nem sair de cima, até os canários virarem limo e os orgasmos, perebas. Desprovida de quaisquer efeitos poéticos, dramáticos ou cômicos que soassem minimamente autênticos, a prosa de Demóstenes Bastião era sem lustro, sem lastro, sem risco, sem gosto, sem gusto. Nada iluminava, nada movia. Movia-se, só, e penosamente. Era como se desafiasse o leitor a cada advérbio preciosista, a cada contorno de frase corretíssimo e vão: se você não desistir, não espere que desista eu. Renitente, isso não dá para negar que a escrita de Demóstenes Bastião fosse. Feito um vírus combalido que, de uma hora para a outra, ao descuido mais bobo, pode ser mortal. E aqui não se trata de metáfora, infelizmente. Consta que houve mesmo seis ou sete casos funestos. Está certo que o sujeito acabar de ler um livro de Demóstenes Bastião e morrer ali mesmo,…

Contra e a favor de 'Pugnus', de Cecilio Giovenazzi
Sobrescritos / 08/01/2009

O lançamento do livro de memórias “Pugnus” faz do professor Cecilio Giovenazzi, 78 anos, renomado latinista da Unicamp, nada menos que “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, nas palavras do crítico Teodoro Spitz: Dono de uma memória digna de desafiar a do caipira de Borges, e com a vantagem de borrifar perfeitas citações em latim pelo caminho, esse escritor profundamente original nos brinda com relatos épicos de uma vida dedicada ao squirt-n-spurt. Tão ricos são os episódios em detalhe, circunstância, iluminação, grau de intumescimento, têm as cenas um tal rendilhado de sentimentos e sensações que fazem empalidecer, por infantil ou tosco, o mais impudente cronista de bacanal. Na multiplicidade de sessões febris ambientadas em banheiros, cozinhas, salas de estar, cabines telefônicas, elevadores, escadas de serviço, confessionários – ou mesmo, temerariamente, ao ar livre, em praças, parques, piscinas, terrenos baldios, ruas desertas de madrugada, no meio da multidão –, o que em todos esses cenários se conta é uma bela história de amor-próprio. Os jorros reflexivos de Giovenazzi atingem insuspeitada altitude filosófica. “Então me digam que metáfora do solitário, pungente, imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra, superar o velho manutigium?”, perora o autor. Um livro seminal. De Spitz…

O caso dos escritores Jerominho
Sobrescritos / 07/01/2009

O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink. Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto anunciado aos sussurros no submundo literário como espetacular, uma espécie de pedra filosofal dos escritores. A coisa cheirava a picaretagem de longe, só que, surpreendentemente, funcionou: até o escândalo estourar, todos os clientes de Jerônimo Mayrink eram vistos como autores sérios, entrevistados por jornais e TVs, fartamente lidos – isto é, lidos no clubinho dos leitores de ficção nacional, uma turma que poderia fazer assembléia numa Kombi, mas essa é outra história. Batizado de MUSA (Mayrink’s Ultimate Simulator of Authorship), o programa podia não ser barato, mas mostrou-se genial. Essa máquina de escrever ficção usa algoritmos para “alterar” a prosa de autores consagrados, embaralhar frases, trocar palavras-chave, fundir dois ou mais textos, enfim, promover uma remixagem geral. “É mais ou menos como preparar um carro…

Quinze anos
Sobrescritos / 06/01/2009

Começou a escrever porque tinha quinze anos, porque ninguém parecia querê-lo por perto e porque o que ele mais desejava na vida era reencenar para o mundo o velho número do patinho que se revela cisne no final. Cinqüenta e cinco anos depois, pegando com a faca uma pasta rosada extraordinariamente suspeita, espalhando-a numa torrada quadrada de pacote e jogando tudo na boca de poucos dentes verdadeiros remanescentes, o escritor se lembrou de sua juventude, do princípio daquela ciranda maluca de ler, escrever, ser lido, ler, escrever de novo… Vinham chamá-lo para cantar parabéns, uma das três coisas que mais abominava no mundo; as outras eram dentista e – o quê mesmo? Tentou não parecer um perfeito débil-mental enquanto entoavam aquelas palavras hediondas, às quais sua idade acrescentava agora o pecado do cinismo: muitos anos de vida, essa era muito boa. Aos quinze anos, não era ainda sequer um escritor: ridículo ter saudade daquilo. E, no entanto, havia alguma coisa ali, no fundo do papel em branco, na relação da palavra com a coisa ou dele mesmo com a coisa, sabia lá ele, mas alguma coisa havia ali, sim, de belo e bom que se perdera por inteiro e que,…

As razões
Sobrescritos / 05/01/2009

Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, e ele ficou em dúvida e ela, eu achei que você tinha perguntado por que eu escrevo e não como eu faço para escrever o que eu escrevo, aí ele ficou um tempo em silêncio e depois riu e disse tá certo, touché, então ela olhou para baixo e notou que ele estava se assanhando outra vez, ah, a juventude, tocou nele e disse, como se fosse um eco na caverna, touché, e pronto, começaram tudo de novo, e só bem mais tarde, de madrugada, o apartamento já quase sem provisões, quando estavam bebendo o vinho velho que ela tinha separado para cozinhar e sorvendo por um buraco na lata o leite condensado encontrado por milagre no fundo da despensa, aquela mistura sensacional de caldo ultradoce e vinho avinagrado, mas um bom vinho avinagrado, chileno, só então ela disse, com os olhos bem encaixados nos dele, eu escrevo porque isso faz homens bonitos e gostosos que nem você gostarem…

Virtual
Sobrescritos / 04/01/2009

O escritor imagina um personagem, também escritor, que à deriva diante de seu tablete de cristal líquido, em algum momento entre 1h15 e 4h30 de uma madrugada insone, descobre-se de repente num blog sem nome onde refulge um texto límpido e profundo como o mar em certos trechos mágicos do litoral, blocos de uma prosa poética que se encrespa, corcoveia, muda de forma enquanto o escritor, fazendo rolar a tela sob a ação de suas pálpebras estateladas, sente lhe subir uma excitação nada menos que sexual por ter desentocado tamanho tesouro, cuja obscuridade naquele endereço longo e cheio de barras só pode ser explicada pelo caos que a internet é, pandemônio capaz de abrigar lado a lado cordilheiras de bobagem e essa estranha jóia em que se fundem o sumo de vinte e cinco séculos e a última novidade petulante, veneno e antídoto, pedra e vento, como se não, de modo algum fosse apenas um sonho infantil o poder de destilar numa combinação de caracteres alfabéticos o ácido que dissolveria a desilusão do escritor, e por trás dela também a do escritor, desilusão com sua arte eunuca, seu talento nauseado, seus colegas oligofrênicos, angústia que explica a insônia desta noite…

Bog
Sobrescritos / 03/01/2009

The Bogus Writer inspeciona as fotos sobre sua mesa de trabalho, imagens de um preto-e-branco granulado e vagamente difuso, como se tivesse baixado uma neblina diante da lente do fotógrafo no momento em que ele, The Bogus Writer, posava contra o muro pichado do centro da cidade com seu ar de tédio, sua gola rulê, seu Gauloise camusiano. As imagens são bonitas, claro. Mas não seriam, o horror, o horror – bonitinhas? No relevo de sua testa alta, billboard semifamoso de uma inteligência superior, franzida neste momento em ondinhas ligeiramente trêmulas, percebe-se que Bog (para os íntimos) não está feliz. Uma dúvida o tortura: e se aquele visual pós-existencialista estiver ficando out-of-date? Solta um suspiro impaciente, atira as fotos sobre a mesa com violência e acende um Marlboro. Na megatela de sua imaginação prodigiosa se vê, imagem difusa, suspirando impaciente e atirando as fotos sobre a mesa com violência, para em seguida acender um – bom, um Gauloise, claro. Pequenas correções desse tipo são a alma do negócio. O cérebro de Bog trabalha atarefado e stacatto, como uma fábrica art déco num poema futurista. Uma nova sessão de fotos com Mika encareceria demais os custos de produção do livro? Atrasaria…

Uma ilha, um livro
Sobrescritos / 02/01/2009

De hoje até o dia 11, com renovação diária, o Todoprosa é dedicado a uma retrospectiva da seção “Sobrescritos” – rubrica sob a qual se agrupam desde a estréia do blog, no já distante ano de 2006, pequenos textos ficcionais, crônicas e rabiscos de gênero indefinido, unificados pelo fato de tratarem de escritores, leitores, de ler e de escrever. Talvez por serem menos perecíveis que o material publicado normalmente em blogs, ou quem sabe por outra razão insondável, os “Sobrescritos” costumam merecer dos leitores pedidos freqüentes de republicação, e alguns dos mais votados (como “A blogueira e o estruturalista” e o conto que lançou o inefável Lúcio Nareba, chamado “A epígrafe”) andaram ganhando uma segunda edição nos últimos meses. A atual retrospectiva se limita aos textos que nunca foram republicados aqui no blog (embora muitos tenham dado voltas por aí, principalmente na revista gaúcha “Norte”) e marca o começo do ano em que, tudo indica, os “Sobrescritos” vão finalmente virar livro de papel. Divirtam-se. – Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz. – Um só? – Um só. Qual você escolhe? Ele pensa um pouco. – Nenhum. –…

Post impróprio para menores (e maiores) de 12 anos
Sobrescritos / 18/12/2008

Enquanto isso, vão crescendo os sinais de desespero nas hostes estropiadas de uma certa “literatura do caralho”: Eu sou bom pra caralho, e se vocês não concordam, vão todos se fuder! Meus amigos também são bons pra caralho. E o Tezza é uma merda. O Tezza não é meu amigo, porra! Nunca respondeu meu email. E vão todos se fuder. Não concordam, seus ridículos, idiotas, débeis mentais? Então vão cagar pra dentro! Sentar numa touceira de pica! Agasalhar uma brachola bem gorda! Manja se fuder? Pois é. O Lula falou sifu, eu não, que eu não tenho essas etiquetinhas de burguês, porra! Eu incomodo mesmo e foda-se. Se fuder, valeu? Fu-der! Seus filhos bastardos de uma égua leprosa, pederastas escrotos, eu sou tão bom! Publicado ou não, lido ou não, solenemente ignorado ou não, publicamente humilhado ou não, eu sou bom, bom, bom, booooom! Entenderam ou querem que eu repita? Sou, porra. Meus amiguinhos também. O Tezza não. O Tezza é uma merda. Novela das oito perde, uma merda inacreditável. Se a gente tivesse neste país uma crítica de alto nível, com argumentos de verdade, não sobrava nada dele. Mas o nível de vocês é tão baixo, tão baixo! Eu…

Continho antigo
Sobrescritos / 10/12/2008

O vetusto e alquebrado escritor permanecia inédito, desprezado por casas editoriais grandes e pequenas, não obstante os tenazes esforços do espírito que lhe haviam consumido a saúde na lida com as exigências da criação, as quais, sendo artista consciente e de talento raro, equacionara de modo tão sutil e original que terminou por se distanciar irremediavelmente de seus contemporâneos. Na hipótese mais benevolente, seria compreendido pela geração de seus bisnetos. Bisnetos que, bem entendido, tinham na frase papel meramente retórico, pois entre os departamentos da vida que o artista mantivera lacrados para se entregar por inteiro à literatura, essa górgona voraz, avultava a paternidade. Tinha um sobrinho; isso tinha. Rapazola tresloucado, boêmio, compunha a figura de um perfeito doidivanas, mas um doidivanas de boa aparência e traquejo social incomum. Sapato bicolor e mecha rebelde desabada sobre os olhos, surgiu-lhe esse sobrinho certa noite, em sonhos, como peça-chave de um plano insensato. O escritor tentou escorraçar a extravagante idéia, decerto germinada no lado negro de sua alma ferida, mas o sonho se repetiu. Noite após noite o sonho se repetiu, até que o juízo combalido do homem lhe desse passagem e ele adentrasse, aos pinotes, a terra da vigília. Não devemos…

Delete
Sobrescritos / 02/12/2008

Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos. Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço. Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a cutucar ritmicamente o teclado negro, polegares batendo surdão a intervalos impenetráveis. Ele sabe que os intervalos impenetráveis podem ser condizentes com algum padrão oculto, mas sabe também que, mesmo arbitrariamente, apontar esse padrão só será possível mais tarde – tarde demais? – em retrospecto, sendo por ora mais sábio se embalar na impenetrabilidade do sussurro produzido pelos pequenos tambores de plástico. Em sincronia com os comandos que os emblemas de sua idade percutem no teclado negro coberto de símbolos brancos, símbolos negros surgem na tela branca. Ele pára e lê os seis parágrafos que escreveu, incluindo este. Hesita mais uma vez. Torce os músculos faciais de tal modo que fica parecendo um nó de madeira, uma orelha, à luz hepática da tela onde a metáfora do nó precede sua…

Debate literário
Sobrescritos / 17/11/2008

Quem não gosta de João Stepanides é um jumento. Quem leva Manoel Tibúrcio a sério é uma anta. Quem nunca leu Carmen Clara é uma ameba lobotomizada. Quem não gosta de Manoel Tibúrcio sabe menos que a idiota da Carmen Clara. Quem leva João Stepanides a sério não vale o que come. Tibúrcio leva Stepanides a sério, logo merece morte lenta e excruciante. Stepanides não tem o menor respeito por Tibúrcio, mas comeu Carmen Clara. (E quem não?) Nenhum dos animais acima mencionados chega aos pés de Bill Chakapov. Publicado em 5/12/2007. Republicado a pedidos.

A epígrafe
Sobrescritos / 22/10/2008

Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como lhe parecia apropriado aos gênios irascíveis e rabiscando nanocontos em guardanapos com nódoas de azeite. Mas aquela carta de recusa… Prezado Nareba, Abri seu manuscrito com grande interesse e, já na primeira página, fui ao delírio com a epígrafe. Genial mesmo, parabéns. Infelizmente, não consegui passar da epígrafe, motivo pelo qual sou obrigada a recusar a publicação de “Sou phodão & outras modéstias”. Como sinal de boa vontade, uma crítica construtiva: a epígrafe é genial mas precisa ser aprimorada. Os versos “Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…” são do Castro Alves e não do Chacal. Isso posto, não desista jamais. Ou desista, phoda-se. Bia Escarpin Gratuito, não? Mais que gratuito, humilhante. Típico dessa alta burguesia editorial insensível e decadente que aí está. Mesmo assim, o plano de estrangular Bia Escarpin…

A blogueira e o estruturalista
Sobrescritos / 13/10/2008

O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você. Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranqüila de viúvo sem ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser. Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estóico diante…

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o fio
Sobrescritos / 07/10/2008

A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento. É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas…

Diálogo entreouvido na fila do sopão
Sobrescritos / 26/09/2008

Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz? Vender? Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada. Sei. O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites…

Deixadinha
Sobrescritos / 18/08/2008

Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário. Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar. O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras. João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto. O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na…

O Consórcio
Sobrescritos / 06/08/2008

O que você tem lido ultimamente? Pouco. Tenho lido pouco. Entende o que eu quero dizer? Pra ser honesto, acho que não estou captando bem. Pois você acaba de me dizer que tem lido pouco. Você, o maior leitor que eu conheço. O cara que leu Proust inteiro, que leu Euclides, a única pessoa do Brasil que leu a Geração Noventa de cabo a rabo… E daí, meu caro? São fases. Que fases, que nada. É o Zeitgeist. No fundo, você sabe muito bem que ninguém lê mais quase nada e vai ler cada vez menos. É só cruzar essa queda na disposição para a leitura com a explosão do outro lado, a progressão geométrica das coisas que existem por aí implorando para ser lidas, e pronto. Pronto? Pronto. Babau. Colapso. Lamento dizer que você está apocalíptico demais pro meu gosto. E eu lamento dizer que você está tapado demais pro meu gosto. Presta atenção, rapaz. Tem cada vez mais gente escrevendo, certo? E cada vez menos gente lendo, certo? O que essas duas curvas te dizem sobre o futuro? Evidente que estamos vendo o fim de uma era, mas não é isso que me interessa. Me interessa o que…

Diálogo com pastinha de hadoque
Sobrescritos / 21/07/2008

Você gostou? Hein? Gostou do livro? O livro é legal. Legal o bastante para ganhar capa? Hahaha, calma, as coisas não funcionam desse jeito. Primeiro, não gostei tanto assim. E mesmo que tivesse gostado, a minha opinião é só a minha opinião. Não basta. Como não? Você não é o editor da revista? Escuta, querida. Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho? Não, eu… Eu só aceitei este almoço, no meio de uma semana complicadíssima para mim, porque a gente sempre teve uma boa relação profissional. Acho você uma menina bacana, competente. Mas não confunda as coisas. Desculpe. O livro que você está tentando me empurrar é ingrato. Melhor desistir. Poupe sua munição para quando valer a pena. Certo. É só que você disse que achou legal… Estava sendo educado. Na verdade eu nem li. Ah. Não precisei ler. Leram por mim. Alguém da sua equipe… Mais ou menos isso. Vamos pedir? Para mim, a truta com arroz de amêndoas. Você pode me dizer quem da sua equipe leu? Taí, eu vou na truta também. Hein? Quem da sua equipe não gostou, você pode me dizer? Aqui entre nós? Não. Entendo. Parece que não entende, não. Garçom! Olha,…

Uma orelha para Diana Wurz
Sobrescritos / 10/07/2008

Ela leu: Diana Wurz escreve sustos, mastigando reticências como sucrilhos. Afaga tormentos, faz cócegas nos cânones, soluça anacolutos com uma graça súbita de bailarina imaginária. Humana, eis a palavra. Humanérrima. Em seus contos-relicários de sondar desvãos, de acender o sol, de entesourar momentos, atinge uma materialidade porosa e cheia de reentrâncias, ainda que cuidadosamente depilada, que denuncia sua filiação àquela irmandade de autores esguios que não escrevem com a cabeça, mas com o corpo. No caso de Diana, estreante de rara maturidade, nem mesmo com o corpo inteiro: com partes do corpo, uma unha aqui, ali o mamilo direito, apêndice espremido numa entrelinha, pâncreas fechando a frase com seu inconfundível – molhado, fofo – muxoxo pancreático. À medida que, lenta e viscosamente, escorre o texto, vai se despedaçando a jovem escritora com tal bravura, e com seus nacos pavimentando a auto-estrada do autoconhecimento, que não resta dúvida: Diana Wurz dói. Lateja. Feito uma estrela, se estrelas doessem. Leu, releu, depois devolveu a folha em silêncio ao homem. Ele disse: E aí, cumpri minha parte a contento? Está bem legal. Você acha isso mesmo do livro? Ué, não escrevi? Ela sorriu: Está ótimo. Posso mandar para o editor? Pode, ela respondeu,…

A pesquisadora
Sobrescritos / 16/06/2008

Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios,…

Faustini
Sobrescritos / 03/06/2008

Qualquer um que acompanhe com um mínimo de atenção a literatura brasileira sabe que o escritor mato-grossense Manfredo Faustini se especializou em escrever sobre o Tinhoso nas mais variadas formas: mulheres, crianças, capitalistas, políticos, animais, espíritos, todas as suas engenhosas histórias giram em torno de personagens que se revelam diabólicos em algum momento. O sucesso de público e crítica veio depressa. Um dia um amigo lhe perguntou como era possível que, com todos os demônios, ele nunca tivesse escrito nada sobre o tema do escritor que vende a alma ao Rabudo em troca de glória. Faustini desconversou, contrariado. O amigo estranhou: achava a idéia soberba, tinha antecipado uma reação bem diferente. E Faustini deve ter ficado irritado mesmo, porque depois disso a amizade deles esfriou e não demorou a morrer.

A espera
Sobrescritos / 07/05/2008

Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá…

Cada geração com seu estilo
Sobrescritos / 23/04/2008

Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento. A platéia riu. A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer. O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone. Quem se recusou a crescer foi você, cara. Como disse? Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo…

O sáurio
Sobrescritos / 04/04/2008

As livrarias pequenas ou decadentes eram as melhores. Sentimentalismo? Picas: ausência de câmeras. Esgueirava-se entre as estantes feito réptil, puro sangue frio em movimento. Sim, um lagarto. Com olho de ave de rapina para que nada lhe escapasse: localização da obra em foco, vendedores mais próximos, possibilidade de flagra por meio de traiçoeiros espelhos ou jiraus. Suích, suích, lá ia ele dobrando esquinas acolchoadas de best-sellers, iguana com olho de gavião e mente hiperativa de escritor. A obra em foco era sempre, de algum modo, a mesma: o último sucesso de um de seus companheiros de geração. Pareciam inesgotáveis seus companheiros de geração. E os sucessos que produziam. Acompanhava os lançamentos, pupilas estreitas esquadrinhando os cada vez mais anêmicos cadernos literários dos jornais. Para isso pelo menos serviam os pasquins: montava ali, à mesa do café, o roteiro das próximas investidas. Às vezes acontecia de esbarrar com seu próprio livro escondido em algum pé de estante empoeirado, entre ácaros e oblívio. Raro, raríssimo. Mas sempre doía. Seu bebê incompreendido, seu prematuro grotesco. Era vexaminoso encontrá-lo nessas incursões, geralmente escondido atrás de tomos impossíveis, um guia de montanhismo lapão, a autobiografia da stripper que foi sucesso década e meia atrás. Preferia…

O caso dos escritores Jerominho
Sobrescritos / 05/03/2008

O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink. Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto anunciado aos sussurros no submundo literário como espetacular, uma espécie de pedra filosofal dos escritores. A coisa cheirava a picaretagem de longe, só que, surpreendentemente, funcionou: até o escândalo estourar, todos os clientes de Jerônimo Mayrink eram vistos como autores sérios, entrevistados por jornais e TVs, fartamente lidos – isto é, lidos no clubinho dos leitores de ficção nacional, uma turma que poderia fazer assembléia numa Kombi, mas essa é outra história. Batizado de MUSA (Mayrink’s Ultimate Simulator of Authorship), o programa podia não ser barato, mas mostrou-se genial. Essa máquina de escrever ficção usa algoritmos para “alterar” a prosa de autores consagrados, embaralhar frases, trocar palavras-chave, fundir dois ou mais textos, enfim, promover uma remixagem geral. “É mais ou menos como preparar um carro…

Quinze anos
Sobrescritos / 25/02/2008

Começou a escrever porque tinha quinze anos, porque ninguém parecia querê-lo por perto e porque o que ele mais desejava na vida era reencenar para o mundo o velho número do patinho que se revela cisne no final. Cinqüenta e cinco anos depois, pegando com a faca uma pasta rosada extraordinariamente suspeita, espalhando-a numa torrada quadrada de pacote e jogando tudo na boca de poucos dentes verdadeiros remanescentes, o escritor se lembrou de sua juventude, do princípio daquela ciranda maluca de ler, escrever, ser lido, ler, escrever de novo… Vinham chamá-lo para cantar parabéns, uma das três coisas que mais abominava no mundo; as outras eram dentista e – o quê mesmo? Tentou não parecer um perfeito débil-mental enquanto entoavam aquelas palavras hediondas, às quais sua idade acrescentava agora o pecado do cinismo: muitos anos de vida, essa era muito boa. Aos quinze anos, não era ainda sequer um escritor: ridículo ter saudade daquilo. E, no entanto, havia alguma coisa ali, no fundo do papel em branco, na relação da palavra com a coisa ou dele mesmo com a coisa, sabia lá ele, mas alguma coisa havia ali, sim, de belo e bom que se perdera por inteiro e que,…

Oficina de ficção
Sobrescritos / 13/02/2008

Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que estava projetando no corpo dela, sardento e quebradiço nos trechos que o decote e a saia deixavam entrever, a expectativa de uma…

Uma ilha, um livro
Sobrescritos / 23/01/2008

– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz. – Um só? – Um só. Qual você escolhe? Ele pensa um pouco. – Nenhum. – Como, nenhum? – Nenhum. Não vou ler, morto não lê. – Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro. – Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes. – Se mata… – Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte. Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete. Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único…

As razões
Sobrescritos / 07/01/2008

Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, e ele ficou em dúvida e ela, eu achei que você tinha perguntado por que eu escrevo e não como eu faço para escrever o que eu escrevo, aí ele ficou um tempo em silêncio e depois riu e disse tá certo, touché, então ela olhou para baixo e notou que ele estava se assanhando outra vez, ah, a juventude, tocou nele e disse, como se fosse um eco na caverna, touché, e pronto, começaram tudo de novo, e só bem mais tarde, de madrugada, o apartamento já quase sem provisões, quando estavam bebendo o vinho velho que ela tinha separado para cozinhar e sorvendo por um buraco na lata o leite condensado encontrado por milagre no fundo da despensa, aquela mistura sensacional de caldo ultradoce e vinho avinagrado, mas um bom vinho avinagrado, chileno, só então ela disse, com os olhos bem encaixados nos dele, eu escrevo porque isso faz homens bonitos e gostosos que nem você gostarem…

Debate literário
Sobrescritos / 05/12/2007

Quem não gosta de João Stepanides é um jumento. Quem leva Manoel Tibúrcio a sério é uma anta. Quem nunca leu Carmen Clara é uma ameba lobotomizada. Quem não gosta de Manoel Tibúrcio sabe menos que a idiota da Carmen Clara. Quem leva João Stepanides a sério não vale o que come. Tibúrcio leva Stepanides a sério, logo merece morte lenta e excruciante. Stepanides não tem o menor respeito por Tibúrcio, mas comeu Carmen Clara. (E quem não?) Nenhum dos animais acima mencionados chega aos pés de Bill Chakapov.

Contra e a favor de ‘Pugnus’, de Cecilio Giovenazzi
Sobrescritos / 23/11/2007

O lançamento do livro de memórias “Pugnus” faz do professor Cecilio Giovenazzi, 78 anos, renomado latinista da Unicamp, nada menos que “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, nas palavras do crítico Teodoro Spitz: Dono de uma memória digna de desafiar a do caipira de Borges, e com a vantagem de borrifar perfeitas citações em latim pelo caminho, esse escritor profundamente original nos brinda com relatos épicos de uma vida dedicada ao squirt-n-spurt. Tão ricos são os episódios em detalhe, circunstância, iluminação, grau de intumescimento, têm as cenas um tal rendilhado de sentimentos e sensações que fazem empalidecer, por infantil ou tosco, o mais impudente cronista de bacanal. Na multiplicidade de sessões febris ambientadas em banheiros, cozinhas, salas de estar, cabines telefônicas, elevadores, escadas de serviço, confessionários – ou mesmo, temerariamente, ao ar livre, em praças, parques, piscinas, terrenos baldios, ruas desertas de madrugada, no meio da multidão –, o que em todos esses cenários se conta é uma bela história de amor-próprio. Os jorros reflexivos de Giovenazzi atingem insuspeitada altitude filosófica. “Então me digam que metáfora do solitário, pungente, imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra, superar o velho manutigium?”, perora o autor. Um livro seminal. De Spitz…

Fragmento de um colunista lítero-social (reprise)
Sobrescritos / 30/10/2007

Atendendo a pedidos. …não sobe escada, mas lê. Ou nem lê, mas freqüenta noite de autógrafo. Ai!!! Ui!!! # O Coletivo Soco na Boca do Inferno abre esta noite seu flat a tout le pessoal da literaDura (natural & desviagrada, por supuesto) para lançar o primeiro zine brasileiro feito especialmente para iPod. Meninos (e meninas e tudo mais e coisa), eu ouvi! Tudo de bom diz pouco: poemas-que-rompem-com-tudo-o-que-está-aí na voz do cultuado Coral das Prostitutas Mirins, quer mais???? # A escritora performática Giga T., 1,97m, que se apresenta como “a primeira escritora inteiramente analfabeta do Brasil, mas que peitos”, lança amanhã na Livraria Fashion Week sua série de microcontos impressos em Garamond em camisinhas GG sabor tutti-frutti. Se eu vou? Read my lips!!! # Ah, o que eu não faço pelos meus darlinguíssimos leitores (e queridas leitoras e tudo mais e coisa)!!! A coluna teve que subornar três garotas de programa e um michê fortinho para ter acesso à primeira versão do novo romance do cultuado Rique Focker, cabeça do cultuado Movimento Trans-Agressivo com Bolinhas Roxas. Aconteceu então que, víxe, a coluna está totally overwhelmed até agora. Só posso adiantar que o livro, com o cultuado título de “Cataratas de…

A blogueira e o estruturalista
Sobrescritos / 20/08/2007

O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você. Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranqüila de viúvo sem ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser. Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estóico diante…

Literatura brasileira com merchandising (II)
Sobrescritos / 09/08/2007

“Das mais surpreendentes é a vida de tal faca: faca, ou qualquer metáfora, pode ser cultivada. E mais surpreendente ainda é sua cultura: medra não do que come porém do que jejua. Podes abandoná-la, essa faca intestina: jamais a encontrarás melhor que Tramontina.” *** “Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!” *** “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustaram com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.” *** “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no…

O problema é ‘o problema’
Sobrescritos / 25/07/2007

Qual é o maior problema da literatura brasileira? ( ) Os escritores não sabem escrever. ( ) Os leitores não sabem ler. ( ) Os críticos não sabem criticar. ( ) Os blogueiros se acham escritores. ( ) Os comentaristas de blog se acham críticos. ( ) Os críticos dos comentaristas de blog se acham. ( ) Os críticos dos comentaristas dos críticos dos comentaristas de blog… hã, onde estávamos mesmo? ( ) Ser brasileira demais. ( ) Não ser suficientemente brasileira. ( ) Não ser literatura. ( ) Literatura brasileira? Onde? ( ) Vai ler um livro e não me enche o saco.

Culposo?
Sobrescritos / 19/07/2007

O problema de Demóstenes Bastião era que ele escrevia em preto-e-branco. Não num preto-e-branco estiloso ou expressionista. Num preto-e-branco cinza, cinza-e-branco, cinza-e-cinza. Chiadeira das mais invernosas, sua prosa era mais cacete que a palavra “cacete” usada como adjetivo, mais morrinha que um daqueles lençóis de vapor que uma vez por década envelopam o mundo por semanas, meses, sem chover nem sair de cima, até os canários virarem limo e os orgasmos, perebas. Desprovida de quaisquer efeitos poéticos, dramáticos ou cômicos que soassem minimamente autênticos, a prosa de Demóstenes Bastião era sem lustro, sem lastro, sem risco, sem gosto, sem gusto. Nada iluminava, nada movia. Movia-se, só, e penosamente. Era como se desafiasse o leitor a cada advérbio preciosista, a cada contorno de frase corretíssimo e vão: se você não desistir, não espere que desista eu. Renitente, isso não dá para negar que a escrita de Demóstenes Bastião fosse. Feito um vírus combalido que, de uma hora para a outra, ao descuido mais bobo, pode ser mortal. E aqui não se trata de metáfora, infelizmente. Consta que houve mesmo seis ou sete casos funestos. Está certo que o sujeito acabar de ler um livro de Demóstenes Bastião e morrer ali mesmo,…

Bog
Sobrescritos / 27/05/2007

The Bogus Writer inspeciona as fotos sobre sua mesa de trabalho, imagens de um preto-e-branco granulado e vagamente difuso, como se tivesse baixado uma neblina diante da lente do fotógrafo no momento em que ele, The Bogus Writer, posava contra o muro pichado do centro da cidade com seu ar de tédio, sua gola rulê, seu Gauloise camusiano. As imagens são bonitas, claro. Mas não seriam, o horror, o horror – bonitinhas? No relevo de sua testa alta, billboard semifamoso de uma inteligência superior, franzida neste momento em ondinhas ligeiramente trêmulas, percebe-se que Bog (para os íntimos) não está feliz. Uma dúvida o tortura: e se aquele visual pós-existencialista estiver ficando out-of-date? Solta um suspiro impaciente, atira as fotos sobre a mesa com violência e acende um Marlboro. Na megatela de sua imaginação prodigiosa se vê, imagem difusa, suspirando impaciente e atirando as fotos sobre a mesa com violência, para em seguida acender um – bom, um Gauloise, claro. Pequenas correções desse tipo são a alma do negócio. O cérebro de Bog trabalha atarefado e stacatto, como uma fábrica art déco num poema futurista. Uma nova sessão de fotos com Mika encareceria demais os custos de produção do livro? Atrasaria…

Virtual
Sobrescritos / 25/04/2007

O escritor imagina um personagem, também escritor, que à deriva diante de seu tablete de cristal líquido, em algum momento entre 1h15 e 4h30 de uma madrugada insone, descobre-se de repente num blog sem nome onde refulge um texto límpido e profundo como o mar em certos trechos mágicos do litoral, blocos de uma prosa poética que se encrespa, corcoveia, muda de forma enquanto o escritor, fazendo rolar a tela sob a ação de suas pálpebras estateladas, sente lhe subir uma excitação nada menos que sexual por ter desentocado tamanho tesouro, cuja obscuridade naquele endereço longo e cheio de barras só pode ser explicada pelo caos que a internet é, pandemônio capaz de abrigar lado a lado cordilheiras de bobagem e essa estranha jóia em que se fundem o sumo de vinte e cinco séculos e a última novidade petulante, veneno e antídoto, pedra e vento, como se não, de modo algum fosse apenas um sonho infantil o poder de destilar numa combinação de caracteres alfabéticos o ácido que dissolveria a desilusão do escritor, e por trás dela também a do escritor, desilusão com sua arte eunuca, seu talento nauseado, seus colegas oligofrênicos, angústia que explica a insônia desta noite…

A volta de Nareba, perdão, Naarebah
Sobrescritos / 10/04/2007

Algo estranho está acontecendo com Lúcio Nareba na cadeia. Os últimos e-mails que me chegaram de seu moderno notebook (alugado do carcereiro) com conexão wi-fi (cortesia das autoridades penitenciárias) vinham assinados por “Luuk Naarebah”. Acostumado às ousadias formais do atormentado escritor, a princípio não dei muita importância à grafia esdrúxula. Nareba sempre se orgulhou de ser “tradicionalmente vanguardista”. Gaba-se de ter sido alimentado com sopa de letrinhas concretas na primeira infância. “Claro que eu jogava bola com os outros meninos, mas só porque isso me dava a oportunidade de estudar o violento esporte Breton”, ele me segredou certa vez. Já estava no fim da sua cota diária de dois engradados e meio de cerveja quando disse isso. Até hoje não sei se falava sério. “Minha babá se chamava Marinetti”, prosseguiu. “Minha primeira professorinha foi a Pagu. Perdi a virgindade com a Laurie Anderson. A Isadora Duncan deu pro meu bisavô.” E mais não disse, porque nesse momento a baba fechou um fio-terra entre seu queixo e a mesa do botequim e tudo ficou dadá. Recordando essas coisas, não achei que o “Luuk Naarebah” fosse motivo de alarme. O que me assustou foi descobrir, no pé da sua última mensagem, em…

A epígrafe
Sobrescritos / 16/03/2007

Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como lhe parecia apropriado aos gênios irascíveis e rabiscando nanocontos em guardanapos com nódoas de azeite. Mas aquela carta de recusa… Prezado Nareba, Abri seu manuscrito com grande interesse e, já na primeira página, fui ao delírio com a epígrafe. Genial mesmo, parabéns. Infelizmente, não consegui passar da epígrafe, motivo pelo qual sou obrigada a recusar a publicação de “Sou phodão & outras modéstias”. Como sinal de boa vontade, uma crítica construtiva: a epígrafe é genial mas precisa ser aprimorada. Os versos “Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…” são do Castro Alves e não do Chacal. Isso posto, não desista jamais. Ou desista, phoda-se. Bia Escarpin Gratuito, não? Mais do que gratuito, humilhante. Típico dessa alta burguesia editorial insensível e decadente que aí está. Mesmo assim, o plano de estrangular Bia…

Parece um parecer
Sobrescritos / 01/02/2007

O livro, sem chegar a ser inteiramente ruim, não deve ser publicado. Padece de uma indefinição estético-político-existencial que, no fim das contas, boicota aquelas boas páginas de prosa poética às quais a narrativa chega, aqui e ali, como se topasse com inesperados mirantes adoráveis numa caminhada por montanhas de mata fechada, entre nuvens de borrachudos. A autora é notória e ativamente homosssexual, como sabem os leitores de colunas sociais. Isso poderia ser meio caminho andado. Infelizmente, seu romance sobre um grupo de vendedoras da Avon nos anos 70 não tem pegada – nem pegação – suficiente para ser literatura gay. Tampouco tem sensibilidade suficiente para ser literatura feminina. Terá, então, ódio suficiente para ser literatura feminista? Também não. Difícil saber o que pretendia a autora. (Fazer literatura com L maiúsculo? Essa é muito boa.) Sua indefinição de gênero – em diversos sentidos – se estende também à forma literária. Melodrama? Farsa? Sátira social? Alegoria? Tragédia? Prosa experimental? Nenhuma das alternativas acima? Todas? Definitivamente, o que “Tantas lindas campainhas esgoeladas” tem de melhor é o título. Pode valer a pena encomendar à autora um novo livro para acompanhá-lo. O texto acima teria sido encontrado na lata de lixo de uma grande…

Continho antigo
Sobrescritos / 13/12/2006

O vetusto e alquebrado escritor permanecia inédito, desprezado por casas editoriais grandes e pequenas, não obstante os tenazes esforços do espírito que lhe haviam consumido a saúde na lida com as exigências da criação, as quais, sendo artista consciente e de talento raro, equacionara de modo tão sutil e original que terminou por se distanciar irremediavelmente de seus contemporâneos. Na hipótese mais benevolente, seria compreendido pela geração de seus bisnetos. Bisnetos que, bem entendido, tinham na frase papel meramente retórico, pois entre os departamentos da vida que o artista mantivera lacrados para se entregar por inteiro à literatura, essa górgona voraz, avultava a paternidade. Tinha um sobrinho; isso tinha. Rapazola tresloucado, boêmio, compunha a figura de um perfeito doidivanas, mas um doidivanas de boa aparência e traquejo social incomum. Sapato bicolor e mecha rebelde desabada sobre os olhos, surgiu-lhe esse sobrinho certa noite, em sonhos, como peça-chave de um plano insensato. O escritor tentou escorraçar a extravagante idéia, decerto germinada no lado negro de sua alma ferida, mas o sonho se repetiu. Noite após noite o sonho se repetiu, até que o juízo combalido do homem lhe desse passagem e ele adentrasse, aos pinotes, a terra da vigília. Não devemos…

Fragmento (fictício, mas…) de um colunista lítero-social
Sobrescritos / 19/07/2006

…não sobe escada, mas lê. Ou nem lê, mas freqüenta noite de autógrafo. Ai!!! Ui!!! # O Coletivo Soco na Boca do Inferno abre esta noite seu flat a tout le pessoal da literaDura (natural & desviagrada, por supuesto) para lançar o primeiro zine brasileiro feito especialmente para iPod. Meninos (e meninas e tudo mais e coisa), eu ouvi! Tudo de bom diz pouco: poemas-que-rompem-com-tudo-o-que-está-aí na voz do cultuado Coral das Prostitutas Mirins, quer mais???? # A escritora performática Giga T., 1,97m, que se apresenta como “a primeira escritora inteiramente analfabeta do Brasil, mas que peitos”, lança amanhã na Livraria Fashion Week sua série de microcontos impressos em Garamond em camisinhas GG sabor tutti-frutti. Se eu vou? Read my lips!!! # Ah, o que eu não faço pelos meus darlinguíssimos leitores (e queridas leitoras e tudo mais e coisa)!!! A coluna teve que subornar três garotas de programa e um michê fortinho para ter acesso à primeira versão do novo romance do cultuado Rique Focker, cabeça do cultuado Movimento Trans-Agressivo com Bolinhas Roxas. Aconteceu então que, víxe, a coluna está totally overwhelmed até agora. Só posso adiantar que o livro, com o cultuado título de “Cataratas de catarro”, é composto…

Literatura brasileira com merchandising
Sobrescritos / 26/06/2006

“Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio, mas a impecável companhia aérea, além de não ter culpa pelo transtorno, ainda nos hospedou em um hotel de primeira qualidade no aeroporto aquela noite – grande Lufthansa.” *** “– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Ahã.” *** “Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu Viu outra lua no mar. O doutor que a atendeu Não tardou a receitar Óc’los da Ótica Fiel Pra vista dupla acabar.” *** “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.”

Os melhores contos da semana passada
Sobrescritos / 08/06/2006

Depois dos melhores, dos menores, dos geracionais, dos transgressores, dos químicos, dos cruéis, dos escritos por mulheres, dos eróticos, dos menores eróticos, dos menores eróticos escritos por mulheres transgressoras, dos representantes da novíssima safra genial e dos que prenunciam a safra que virá depois da novíssima safra genial, pode-se imaginar que as editoras comecem a ficar sem assunto para novas coletâneas de contos. Antes que desanimem, o que poderia acarretar graves prejuízos à auto-estima literária nacional, aqui vão algumas modestas propostas: 1. “Terceira pessoa – Os melhores contos em que não aparece a palavra eu” – A ousadia do critério elimina a maioria dos escritores vivos. Por isso mesmo garante, paradoxalmente, uma abordagem mais pessoal do gênero. 2. “Contos de escritores promíscuos” – O fundamental é que os autores tenham tempo de se conhecer. Todos. Em esquema de duplas, mas também grupal. 3. “Os melhores contos de escritores baixinhos”, “Os melhores contos de escritores altos”, “Os melhores contos de escritores esqueléticos” e “Os melhores contos de escritores gordalhufos” – Coleção lúdica. A possibilidade de brincar com volumes de formatos e tamanhos diferentes deve garantir uma boa exposição em livrarias – o grande desafio editorial contemporâneo. 4. “Contos com diálogos indicados…

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