Cercas e Vásquez: história, histórias

05/07/2012

Cercas fala, Vásquez presta atenção: amigos, mas...

Na mesa “Ficção e história”, no fim da tarde de hoje, na Tenda dos Autores, o espanhol Javier Cercas e o colombiano Juan Gabriel Vásquez, dois escritores com muito em comum, travaram uma conversa cordial em que sobressaiu uma determinação de concórdia, evidentemente fundada numa camaradagem já estabelecida (“na Austrália, aquela vez, dissemos que…”, mandou Cercas a certa altura). Ainda assim, foi curioso observar como, sob a superfície, algumas tensões estéticas acabaram por transparecer entre dois cultores do romance histórico.

Vásquez, um sucesso de crítica desde sua estreia, com o romance “Os informantes”, é autor ainda de “História secreta de Costaguana” (ambos lançados no Brasil pela L&PM), e ganhou ano passado o prêmio Alfaguara com o ainda inédito por aqui El ruido de las cosas ao caer. Uma das vozes emergentes mais destacadas da literatura contemporânea em espanhol, afirmou, concordando com Milan Kundera, que “a única razão para escrever um romance é dizer algo que só um romance pode dizer. O romance como gênero não reproduz o mundo, deve recriar o mundo. O romancista pode distorcer os fatos conhecidos para chegar a uma outra verdade, uma verdade metafórica”, disse, lembrando que em “História secreta de Costaguana”, que recria a história colombiana do século 19 e transforma o escritor Joseph Conrad em personagem, os fatos históricos são muitas vezes distorcidos – como no caso do ex-presidente do país que, tendo morrido nos anos 1920, aparece no romance como falecido na primeira década do século 20. “Meu romance é um romance-romance”, afirmou.

Parecia uma alfinetada em Cercas, que, em seu último e premiado livro, “Anatomia de um instante”, mantém-se rigorosamente fiel à verdade documental de um episódio da história recente da Espanha, a tentativa de golpe militar ocorrida em 1981. Autor do fundamental “Soldados de Salamina”, uma mistura de fantasia e reconstituição histórica sobre a Guerra Civil Espanhola (que agora, relançado pela editora Globo, ganha uma nova chance de fazer no Brasil o sucesso que merece e nunca teve), afirmou: “Romancistas e historiadores, ambos buscamos a verdade. A questão é que buscamos verdades diferentes e opostas. A verdade da história é factual, concreta, preocupa-se em pesquisar o que ocorreu. A verdade da literatura é abstrata, moral, universal, e procura investigar o que ocorre aos homens em qualquer país, em qualquer lugar, em qualquer época. Há livros que procuram ambas as verdades simultaneamente, como ‘Anatomia de uma instante’, mas isso é muito raro. E não é melhor nem pior: é apenas um oxímoro”.

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