Coetzee e a metalinguagem

23/02/2007

Acabo de ler o último livro do sul-africano J.M. Coetzee, Slow man, ainda sem tradução no Brasil (o próximo, Diary of a bad year, está prometido para outubro). O que achei dele não é simples de expressar. Se não posso dizer que gostei, é certo que o desagrado, no caso de um autor tão inteligente, costuma ser esteticamente mais prazeroso do que muitos prazeres fáceis. A história vinha bem: tem pegada o drama do fotógrafo Paul Rayment, um sujeito entre a meia-idade e a velhice que perde uma perna ao ser atropelado em sua bicicleta numa rua da cidade australiana de Adelaide – sim, no país de adoção de Coetzee. O livro é narrado naquela terceira pessoa marcante de “Desonra”, uma secura orgulhosa e exasperante como pano de fundo, pequenos rasgos de humanidade ofuscando o leitor aqui e ali.

Eis que de repente, sem aviso, entra em cena a velha Elizabeth Costello, escritora meio chatonilda que Coetzee transformou – não sem auto-ironia – em alter ego. E não é que dona Costello conhece como ninguém o livro que estamos lendo? Até frases de capítulos anteriores, que só o narrador e o leitor poderiam conhecer. Daí em diante a história da paixão de Rayment por sua bonita enfermeira croata vira um debate moral entre personagem e autor – papel que Elizabeth Costello sem dúvida desempenha, embora seu estatuto exato permaneça brumoso até o fim. Deus ex machina, pois é. E um estranho uso da metalinguagem em romance, de resto, realista.

Estranho, mas original. O que me fez pensar. A história que tem consciência de ser história tem sido descartada por alguns críticos e leitores – inclusive aqui, nos comentários deste blog – como um recurso exaurido, patético, truquezinho de autores sem imaginação. Que um certo pós-modernismo de anedota andou abusando do recurso metalingüístico, não se discute. Mas tentar negar a um autor o direito de criar dobras textuais em sua narrativa, dobras como as que já usava Cervantes no “Quixote”, é de um ridículo tão grande quanto proibir os poetas de rimar. Recursos gastos por escritores medíocres existem para que escritores de gênio os reabilitem. Desde que a literatura é literatura é assim.

Neste caso Coetzee não chega lá. Mas tenta, o que não é pouco.

12 Comments

  • Bernardo Brayner 23/02/2007 at 14:07

    “Recursos gastos por escritores medíocres existem para que escritores de gênio os reabilitem.”

    Muito bom isso, Sérgio. Deu vontade de ler Slow Man.

  • Paulo 23/02/2007 at 14:23

    Poxa, Bernardo, eu dei um CTRL + C aqui justamente nesta frase. Que coisa!

    Eu acho sempre que é preciso levar em consideração certa predisposição do leitor a certas firulas. Venho falando isso há tempos: há o frio ou o calor, a cadeira de couro ou de vime, a solidão ou a multidão no metrô, enfim, há inúmeras variáveis para um leitor e elas se misturam à leitura de um livro.

    Eu, por exemplo, não me arriscaria num romance de metalingüagem por ora. Nada contra, mas eu sei que não estou no clima para este tipo de livro. E tome Martim Amis na minha cabeça. Por sinal, anote aí: o House of Meetings é espetacular.

    O duro é que, quando a gente escreve sobre livros, exige-se que sejamos objetivos, o que quer que isso signifique. E o mais triste: não é dado a quem escreve sobre livros o direito de mudar de idéia.

    Seu comentário é honesto e, vindo de um admirador de Desonra, ainda mais admirável. Desconfio das pessoas que lêem um autor, qualquer um, com a é cega que caracteriza os fãs.

    Falei demais, pra variar.

    Aquele abraço,

  • Cezar Santos 23/02/2007 at 16:41

    É isso ai, Sérgio…
    Aqui mesmo, postei dias atrás consideração sobre isso, respondendo a alguém. NA litaratura, todos e quaisquer temas e recursos podem ser usados, por mais antigos e/ou batidos que sejam. A diferença está em QUEM os usa e na FORMA como são usados. Até citei o exemplo do Auster, cuja obra, praticametne TODA ELA, está eivada de metaliteratura, e no entanto é muito boa.
    Aguardo a chegada desse novo Coetzee ai…

  • Clarice 23/02/2007 at 16:55

    Fiquei com vontade de ler. COntar uma história princípio meio e fim; narrador omnisciente; narrador isso; narrador aquilo; fazer metáforas, metonímias; descrever uma paisagem; descrever um personagem enfim… tudo o que envolve a escritura é complicado e a frase que o Paulo grifou resume tudo.Não é ao acaso que escritores estão sempre insatisfeitos com suas criações bláblá blá…. já falamos sobre isto.
    Vamos ver se o Saint-Clair leu:o)

  • Clarice 23/02/2007 at 17:01

    Paulo não, foi o Bernardo, disculpi.
    Mas Paulo, a metalinguagem é um recurso não um fim em si. Nunca li um romance que só tivesse metalinguagem. Sei que você sabe mas é sempre bom lembrar. E acho um recurso muito difícil. Metáfora também acho dificílimo, mas muito difícil mesmo.
    E escreva o quanto quiser. Este quadradinho aqui é uma praga. A gente nunca tem a medida do quanto escreveu.

  • Alexandre Heredia 23/02/2007 at 17:33

    Há quem vaticine que todas as histórias já foram contadas, e que as novas obras não passam de releituras de padrões já estabelecidos.

    Pode ser, pode ser.

    Mas isso não impede que nós, escritores, tentem a todo custo deturpar esses parâmetros tão ansiosamente cimentados de modo a transformar uma história velha em um boa novidade, mesmo que o produto final saia apenas algo requentado, como uma pizza de microondas.

    É nestas tentativas que o artista galga a originalidade.

    Um dia alguém a alcança.

    Abração,
    Alexandre Heredia

  • Saint-Clair Stockler 23/02/2007 at 21:29

    Clarice, nunca li o Coetzee. Faute d’argent.

  • Jonas 23/02/2007 at 21:55

    É verdade isso da mudança de opinião, Paulo. Com esse sistema de pauta/gancho/efeméride/instantaneidade que marca o jornalismo atual, o resenhista acaba lendo o livro muito rapidamente e escrevendo a crítica ainda mais rápido. E a discussão daquela obra termina ali, no lançamento dela. Já debatemos isso aqui no Todoprosa.

    Isso aconteceu comigo com o Detetives Selvagens, do Bolaño. Me frustrei um pouco com a primeira leitura. Um tempo depois levei o livro numa viagem e comecei a relê-lo de uma maneira meio anárquica, misturando as dezenas de depoimentos. Acabei me apaixonando.

  • Jonas 23/02/2007 at 21:56

    Ah, e Sérgio, nem há o que discutir: a sua frase, grifada pelo Bernardo lá em cima, resume tudo e praticamente acaba com a discussão. Perfeita.

  • Abell Achtervolgd 23/02/2007 at 23:54

    Como é que é esse “Diary of a Bad Year”?

    (é que sabem como é né… eu ainda não tenho a competência, digamos assim, para ler um livro no original sabem…rs)

  • Mr. Ghost(WRITER) 24/02/2007 at 17:10

    É, acho que sua frase Sérgio, grifada pelo Bernardo no primeiro comentário da caixa fou um tiro de misericórdia na maldita discussão sobre metalinguagem…
    Já estava ficando muito chato ouvir: metalinguagem isso, metalinguagem aquilo ou aquilo outro… acho nas formas de expressão humana não tem isso de recurso batido, desgastado… pode estar assim em obras e autores específicos, mas na manifestação como um todo acredito que não… o autor dá vida nova ao que outros tantos desgastam e envelhecem, basta saber como… enquanto não se sabe, vai se tentando como o Sérgio falou…
    Abraços a todos…

  • Paulo 24/02/2007 at 17:45

    Esse quiproquó sobre os escritores e a metalinguagem me lembra um pouco o problema do cinema com flashback. Tem gente que odeia, acha batido, horroroso, infantil, e tem gente que adora, acha bem sacado e por aí vai. Mas tanto o flashback quanto a metalinguagem são recursos como qualquer outro: devem ser usados quando fazem a obra ficar melhor, e evitados quando a fazem ficar pior. Por que desenvolver além disso?

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