Começos (ainda) inesquecíveis: Dashiell Hammett

08/06/2008

Domingo é dia de relembrar o inesquecível. Este post foi publicado pela primeira vez em 23/6/2006.

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O maxilar de Spade era largo e ossudo, seu queixo era um V muito pronunciado, abaixo do V mais suave formado pela boca. As narinas se arqueavam para trás para formar um outro V, menor. Os olhos amarelo-cinzentos eram horizontais. O tema do V era retomado pelas sobrancelhas um tanto peludas que se erguiam a partir de duas rugas gêmeas acima do nariz adunco, e o cabelo castanho-claro tombava – de suas têmporas altas e retas – em uma ponta, por cima da testa. De modo bem ameno, ele parecia um satã louro.

Disse para Effie Perine:

– O que é, meu bem?

O início de “O falcão maltês” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 2001), obra-prima lançada em 1930 por Dashiell Hammett (1894-1961) e fortíssimo concorrente ao título de maior romance policial da história, marca o momento – não desprovido de choque – em que a descrição da literatura realista encontra o grafismo econômico dos gibis.

6 Comments

  • Isabel Pinheiro 08/06/2008 at 10:30

    Eu ainda não li O Falcão Maltês. E o duro é que, mesmo com essa descrição do Sam Spade, vai ser difícil acompanhar a história sem imaginar a cara do Humphrey Bogart em lugar desse “satã louro” em forma de V…

  • Sérgio Rodrigues 08/06/2008 at 11:43

    É verdade, Isabel. O Sam Spade virou o Bogart apesar da descrição. Repara que, segundo Hammett, ele deveria ter tido uma cara mais para Robert Mitchum – que, engraçado, acabou interpretando Philip Marlowe, o mais brilhante dos “filhos” de Spade.

  • shirlei horta 08/06/2008 at 14:10

    Desculpem, mas essa descrição aí é do Fernando Pessoa. Mais V que Fernando Pessoa não existe. E eu quero muito ler esse livro.

    Cá pra nós, hein: se metade desse povo que “ama escrever” (especialmente em blogs e sempre pedindo a sua opinião – the horror!) escrevesse pelo menos com esses “grafismos econômicos dos gibis” tava de bom tamanho, não tava?

  • Ronnie 08/06/2008 at 22:58

    Olha Sergio, voce ainda duvida que esse seja o melhor romance policial da historia? Eu nao. É agil, cheio de reviravolta, cínico, romantico, violento, cheio de suspense. E, o que é melhor, é muito muiiito bem escrito, não? O que se pode pedir mais de um bom livro de aventuras?

    Uma coisa meio nada a ver com o assunto que eu gostaria de comentar contigo: li um ligeiro depoimento apaixonado do Almodovar a respeito do romance 2666 do Bolanõ, escrito no blog dele (pedroalmodovar.es), num post intitulado ficción. Bonito. Se ainda não leu dá uma espiadela só. Um abraço!

  • Sérgio Rodrigues 08/06/2008 at 23:13

    Ronnie, obrigado pela dica, vou lá ver.

    Quanto à questão do superlativo, concordo com tudo o que você diz sobre “O falcão maltês”, mas sempre prefiro usar a fórmula “forte candidato a…”, “um dos…” ou coisa parecida. A razão não é vacilação crítica, pelo contrário. É que o melhor romance policial da história – ou o melhor qualquer coisa da história – não existe.

  • Marcelo 11/06/2008 at 00:47

    Esse começo pra mim é inesquecível:

    “ Se estou louco, tudo bem, pensou Moisés Herzog.
    Algumas pessoas acreditavam que estivesse maluco e por algum tempo ele mesmo duvidara que estivesse são. Mas agora, embora ainda agisse estranhamente, sentia-se confiante, alegre, lúcido e forte. Entrara numa fase mágica e estava escrevendo cartas para todas as pessoas do mundo. Andava tão excitado com aquelas cartas que, a partir do fim de junho, ia de um lugar para outro com uma pasta cheia de papéis. Tinha levado a pasta de Nova Iorque para Martha´s Vineyard, mas voltara de Vineyard imediatamente; dois dias mais tarde voara para Chicago e daí para uma vila no oeste de Massachusetts. Escondido no campo, escrevia sem parar, fanaticamente, para jornais, personalidades da vida pública, amigos, parentes, para os mortos, seus próprios mortos obscuros; e, finalmente, para os mortos famosos.”
    (Herzog, de Saul Bellow)

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