Começos (ainda) inesquecíveis: Ernest Hemingway

12/10/2008

Post publicado em 1/10/2006:

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Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn.

Os jabs em seqüência com que Ernest Hemingway (1899-1961) abre seu primeiro romance, “O sol também se levanta” (Bertrand Brasil, 2001, tradução de Berenice Xavier), são mais do que o começo de um livro. Desferidos em 1926, quando o autor tinha 27 anos, marcam a fundação de um mito pessoal e outro coletivo, o da “geração perdida” de escritores americanos que viveram em Paris nos anos 20.

Mas isso é marketing literário, não literatura. Importa mais reconhecer que a prosa do homem, tão seca que faz o adjetivo “seca” soar úmido, continua poderosa. Lamento que esteja meio demodê apreciá-la, mas sei que essas coisas de prestígio literário são cíclicas. Acho difícil que qualquer escritor, mesmo um de estilo barroco, diluvial, chegue muito longe se não tiver em algum momento da vida trocado com Hemingway uns golpes desses de quebrar o nariz – como Robert Cohn quebrou o dele.

15 Comments

  • gthomas 12/10/2008 at 14:04

    Tente entender um pouco a vida e as coisas: entre no link do neto do proprio, o John Hemingway atraves do meu blog

    Eta gente que se mete a escrever sobre literatura

    Leia STRANGE TRIBE

    e depois me conte sobre Ernest, Gregory e John Hemingway

    LOVE
    Gerald Thomas

  • Sérgio Rodrigues 12/10/2008 at 15:41

    Ô Gerald Thomas, quem está “se metendo” a escrever sobre literatura aqui é você. Eu não preciso “me meter” porque escrevo mesmo – sobre literatura, não sobre o escritor ou o monstro por trás da caneta. Aliás, se quer um conselho sábio, dê um certo desconto às memórias de família do neto. Não sei se você sabe, mas famílias são coisas muito complicadas. Ou você acredita também naquela lenda do Hemingway exterminador de prisioneiros de guerra? Eta gente de teatro…

    Em tempo: “tente entender a vida e as coisas” é o conselho mais escroto que já li. Sensacional. Você ensaia para escrever isso ou sai assim de improviso?

  • Pedro 12/10/2008 at 16:27

    Geraldo Tomás,

    Tente pontuar corretamente o que voce escreve, pois, caso contrário, não se entende o que você quer dizer.

    Não é necessário entender a vida de Ernest para gostar de sua obra.

    Serjão,

    Não acho demodé apreciar a prosa do homem. Pelo contrário, meticulosamente falando, sua obra é viva, bela e atual.

    grande abraço.

  • Bruno M. Oliveira 12/10/2008 at 16:31

    Pára tudo! Quer dizer então que pelo fato de filhos, netos e quejandos afirmarem que o velho Ernest era, em última análise, um cara escroto, nós temos de queimar – e depois mijar em cima de ? – livros como “Adeus às Armas”, “O Velho e o Mar”, além da obra-prima citada pelo Sérgio (nem vou falar dos contos magistrais)?

    A mim me parece haver muita hipocrisia nisso. Então o sujeito tem de ter um atestado de santidade lavrado em cartório para ser reconhecido como grande artista?! Para mim isso cheira a carniça. E os abutres estão se servindo dela à vontade. Não creio que seja diferente da exploração que tablóides e revistas de fofoca exercem sobre as “celebridades” mundo afora.

    Temo que em breve a Academia Sueca invalide o prêmio concedido a Hemingway em 1954 por dois motivos. Primeiro, por ele ter sido um “cara escroto”. E segundo, por ele ser americano. Se bem que a anulação da láurea em nada diminuiria a importância da obra do velho Ernest.

  • Prof. Chatoff 12/10/2008 at 17:00

    – Sobre o geraaaaaaldo (quem via a Escolinha do Prof. Raimundo vai entender) e sua “argumentação”: Tosco. As usual.

    – Sobre o brog do geraaaaaaldo: Nem li.

    – Sobre o Ernesto: Não aprecio. Da mesma geração, Steinbeck era muito melhor.

    – Sobre o Todoprosa: Leio. Às vezes.

    Abraços fraternais.

  • Claudio Soares 12/10/2008 at 17:48

    “Acho difícil que qualquer escritor, mesmo um de estilo barroco, diluvial, chegue muito longe se não tiver em algum momento da vida trocado com Hemingway uns golpes desses de quebrar o nariz…”

    Uma violência metafórica, claro. Mas, acrescento uma curiosidade (ou um cruzado de esquerda, como queiram):

    Um livro de Machado de Assis, ele mesmo, o “pugilista das ironias”, catalogado na biblioteca de Ernest Hemingway (a de Finca Vigia, onde o americano escreveu os clássicos “The Old Man and the Sea” e “For Whom the Bell Tolls”):

    4087. Machado de Assis, Joaquim Maria. Don Casmurro. Rio de Janeiro: Jackson, 1955. FV (Ubiratan Machado, autor do imperdível “Dicionário Machado de Assis”, me assegurou que é uma edição em espanhol mesmo).

    Machado e Hemingway… que encontro interessante, não?

    O catálogo completo da biblioteca de Ernest Hemingway pode ser consultado no site da JFK Library.

  • Sérgio Rodrigues 12/10/2008 at 19:14

    Bruno: muito bem observado. Gerald Thomas odeia Hemingway da mesma forma que a “Caras” ama qualquer um que faça novela da Globo. A obra que se exploda.

    Como disse (mais ou menos) alguém num comentário lá embaixo, defendendo (!) Alain de Botton: “São os novos paradigmas, rapaz, ninguém mais liga para essas coisas antigas que vc tá falando”.

    Claudio: obrigado pela informação e desculpe se sou indiscreto, mas você tem dado algumas bandeiras ultimamente. Seu próximo livro é sobre Machado, não é?

    Abraços.

  • Camila 12/10/2008 at 20:23

    Genteeeeee!
    Esqueçam o Geraaaaaaaaldo e suas baboseiras!
    Ele quer seus quize minutos de fama, nem que seja aqui mesmo, nos comentários do blog do Sérgio.
    Acho mesmo que ele quer ser capa de revista. E da CARAS….
    Falando em caras, certa vez publicaram um único exemplar de uma revista parodiando a CARAS, chamava-se BUNDAS. Essa tá mais a cara do Geraaaaldo.
    Sobre o blog do Geraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaldo nem li, nunca vou ler.
    Sobre o do Sérgio, é show, leio sempre!!!
    E sobre o chefe Hemingway (desculpem a falta de respeito com o escitor mas, é carinhoso o termo) ele está na minha lista de escritores para se ler durante a vida, assim como todos os da Geração Perdida.

    Bons ou não uma coisa eu acredito. Até hoje eles são lembrados, discutidos, lidos, e seja mais o que for. Por isso pouco importa o que falam por aí dos grandes escritores da literatura mundial, o que vale é lermos cada um deles, enchermos nossos miolos com essa boa literatura.
    Eu tentei ler Dostoiévski, achei um porre, denso, porém não acho que seja horrível ou de má qualidade.
    Vai chegar o dia em que terei o cérebro evoluído para tal leitura. Assim espero.
    O problema é na cabeça da gente. Vai você então escrever melhor que O Velho e o Mar ou algo do tempo em que você nem tinha nascido.
    Só não venha com Paulo Coelho. Ok Geraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaldo??

  • Fernando Torres 13/10/2008 at 09:36

    Camila: A revista Bundas teve muito mais que uma edição. O Ziraldo tentou reeditar o Pasquim na forma dessa revista. Por sinal, nos idos dos meus 16 anos era muito divertido.

    Gerald: Como disse o Lobão para o Caetano: Chega de verdades, viva algumas mentiras.

    Sérgio: Ainda sou mais o início das “Neves do Kilimanjaro” que, citando usando uma tradução da internet: “Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6.000 metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África. O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.”

  • Eric Novello 13/10/2008 at 10:16

    Engraçado isso de visitas ilustres que não ilustram nada.

  • Claudio Soares 13/10/2008 at 10:17

    Nem indiscrição sua, amigo Sérgio, nem superstição minha lembrando o “SD8”), já que comentei, inclusive em entrevistas recentes.

    Sim e não. Escrevo sobre a metáfora do xadrez na literatura. Trabalho de fôlego, já que além de Machado, me debruço sobre uma lista de 160 escritores-enxadristas (escolherei, não por acaso, 64).

    O Pontolit (que volta no final deste mês, agora como revista eletrônica, e aceitando colaboradores), a partir de seu número de estréia, trará uma espécie de diário de bordo dessa “aventura”.

    Vejamos um exemplo: Guimarães Rosa, o enxadrista Guimarães Rosa, publicou, ainda em seus tempos de faculdade de medicina (aos 22 anos), um conto interessantíssimo sobre o xadrez: “Chronos Kai Anagke”(que Paulo Rónai traduziu como “Tempo e Destino”, mas eu prefiro “Tempo e Fatalidade”).

    Este conto será o tema de estréia de uma coluna sobre xadrez e literatura no Pontolit, que trará um pouco da minha experiência diária de escrever “Sob o signo de Caíssa” (o título é provisório).

    Respondi sua pergunta?

  • Fabio Negro 13/10/2008 at 10:36

    Não quer aproveitar pra comentar o livro Adeus, Hemingway?

    Apesar de ser quase paródico, achei de uma densidade… estranha. Como se não devesse estar lá.

  • jaime 13/10/2008 at 12:05

    Fernando Torres, agradeço por colocar a abertura de “As Neves do Kilimanjaro”. Há muitos anos tinha lido e foi um prazer reencontrar o texto.

    Interessante também o “encontro” Machado & Hemingway, relatado pelo Claudio Soares. Tem um livro – “Hemingway em Cuba” – que conta detalhes da vida do Papa em Finca Vigia. É um belo livro.

  • El Torero 14/10/2008 at 18:52

    Meu nick veio deste livro e meu velho adora “O Velho eo Mar”.
    Dos que eu li dele, “Adeus às Armas” foi o único que não me ganhou, tenho o traduzido por Monteiro Lobato será isto? Há melhores traduções?

  • lúcio junior 08/01/2009 at 03:28

    Oi, Sérgio.

    Acho que o Gerald tava se referindo é a umas postagens do John lá na Espanha, comentando lugares e episódios que estão em The Sun Also Rises. Ler the SUn e ler o que John diz é muito interessante.

    Abraços do Lúcio Jr.

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