Começos (ainda) inesquecíveis: Sérgio Sant’Anna

16/08/2009

Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta.

Um rapaz de dezessete anos, viciado em drogas (já chegou a roubar e prostituir-se para comprá-las) e com pretensões rimbaudianas a poeta maldito, tem um ciúme doentio da mãe divorciada, principalmente de um caso que ele desconfia que ela mantém com um homem muito mais jovem. Uma noite, a vê chegar em casa parecendo ligeiramente alegre de bebida, e com ares de quem veio de um encontro amoroso, usando uma blusa decotada e saia justa. Enquanto ela se despe em seu quarto, ele ali entra, abruptamente, vestido apenas com uma bermuda, e observa o sutiã vermelho e a calcinha preta que ela usa.

– Isso é roupa de vagabunda.

– Não fala assim da sua mãe.

Ele puxa o corpo dela para si e o aperta:

– Quem sabe você faz comigo também?

E já que a seção entrou definitivamente na era do conto, aí vai o início do espantoso Um conto nefando?, um dos mais surpreendentes do excelente “O vôo da madrugada” (Companhia das Letras, 2003), de Sérgio Sant’Anna.

Publicado em 7/11/2007.

11 Comments

  • Tibor Moricz 16/08/2009 at 13:38

    Perturbador.

  • Diego Viana 16/08/2009 at 15:58

    Tem um cheiro inconfundível de Bataille nesse começo; imagine o resto…

  • ri ventura 16/08/2009 at 16:06

    calcinha preta?????

  • Breno Kümmel 17/08/2009 at 00:13

    Lembro da última vez que um monte de gente comentou falando que esse começo é uma merda, que “poeta maldito” é clichê (como se todos os contos não trabalhassem quase sempre com arquétipos) etc etc…

  • JH 17/08/2009 at 00:36

    Parece Nelson Rodrigues.

  • Rafael 17/08/2009 at 09:08

    Eu acho esse começo uma merda: mal escrito, vulgar e apelativo.

    Arquétipo agora virou desculpa para falta de imaginação?

  • C. S. Soares 17/08/2009 at 14:45

    Sérgio,

    Lembro-me da entrevista que fiz com Sant’Anna no início do ano passado para o Pontolit.

    O mote era a publicação do conto “Ele” exclusivamente na internet, pois, segundo Sérgio, o conto teve de ser retirado, como outros trabalhos, do volume “50 contos e 3 novelas de Sérgio Sant’Anna” (Companhia das Letras, 2007).

    Na entrevista (que poderá ser lida em http://ow.ly/kkDf ), o autor de “Conto (não conto)” nos brindou com sua argúcia, ao afirmar, por exemplo, que “ se conta o que não há para contar” e “… sempre detestei teorias do conto, como por exemplo do esnobe Henry James”, além de “tenho a maior preguiça desse deslumbramento com a Internet”.

    Além de literatura, também falamos do nosso cada vez mais “entristecido” Fluminense. E não nos esquecemos de Nelson Rodrigues.

    Forte abraço.

  • Saint-Clair Stockler 17/08/2009 at 19:51

    O Sérgio é um dos meus escritores preferidos. Me lembro dele, em 1997, quando deu uma Oficina Literária no Instituto de Letras da Uerj (e eu cheguei a assistir algumas aulas), perguntando onde estavam os escritores do morro, da favela. Que na literatura brasileira precisava haver esses representantes. Claro, de lá pra cá muita coisa mudou, mas a questão continua pertinente. A literatura brasileira é praticamente toda classe média ainda hoje…

  • PatDiniz 18/08/2009 at 00:15

    Oi Sérgio, você conhece o Book Seer (http://bookseer.com – em inglês)? No site, pode-se digitar um livro lido (e aprovado, claro) e o robôzinho do site indica vários outros livros “semelhantes.” Enfim, achei que vale a brincadeira… quem sabe as sugestões não são aproveitáveis?Abraços!

  • C. S. Soares 18/08/2009 at 10:20

    A dica de PatDiniz é boa, não a conhecia. É um projeto, como os próprios autores afirmam, simples. Eu acrescentaria simples e ingênuo, porque baseia-se na sugestão dos leitores que são obviamente subjetivas.

    Existem projetos mais perturbadores como o Booklamp, sobre o qual escrevi há poucos meses (http://ow.ly/kqpE), que demonstram que a tecnologia mudará para sempre nossa relação com os livros.

    Tentarei resumir: o Booklamp é um software de “text mining”, também indica livros, só que o faz analisando estatisticamente até os estilos dos autores. Isso mesmo, o booklamp “lê” os livros cadastrados em seu banco de dados, compara a estrutura de suas orações, parárgafos e indica por exemplo que os leitores de…

    Book Title:1984
    Author:George Orwell
    Genre:Fiction
    Book Length:100074 words
    Published:06/08/1949
    ISBN:0451524934

    Poderão se interessar em ler

    “Peolple in the Dark” by Aaron Stanton – 58,6% match

    “Specimens” by Fred Saberhagen – 17.3% match

    “Antarctica” by Kim Stanley Robinson – 58.6% match

    O projeto ainda está no início, mas as possibilidades são enormes.

  • Thiago Maia 18/08/2009 at 12:04

    OFF TOPIC:

    Alguém também não tinha notícia dessa biografia de Clarice Lispector, ou só eu mesmo?

    http://www.amazon.com/gp/product/ref=pe_37960_12813950_as_txt_6/?ASIN=019538556X

    Um abraço.

    PS: O autor é o tradutor, pro inglês, do delegado Espinosa.

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