Começos (ainda) inesquecíveis: Will Self

10/08/2008

Nem só de clássicos vivem os começos inesquecíveis. Post publicado em 11/3/2007:

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Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina.

A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e flexível localizada no ponto onde terminam os tendões. É quase certo que Bull não a perceberia tão cedo, não tivesse ele como prioridade, logo ao despertar, o hábito de se inspecionar, explorando cuidadosamente todas as suas curvas e fendas.

Qualquer semelhança com Kafka não é coincidência. Nem plágio. Este é o início do primeiro capítulo, chamado justamente A metamorfose, da novela “Bull, uma farsa”, que compõe com “Cock, uma noveleta” o livro “Cock & Bull – Histórias para boi dormir”, do escritor inglês Will Self (Geração Editorial, tradução de Hamilton dos Santos, 2.a edição, 2002). Em “Cock”, em perfeita simetria, é a protagonista que um belo dia descobre entre as pernas um recém-brotado pau. Satirista feroz e, nos melhores momentos, brilhante em sua mistura de erudição, grosseria e delírio pop, Self é um autor bem estabelecido na literatura britânica, mas nunca deu certo no Brasil.

Não por falta de tentativas. Além deste livro, a Geração lançou o violentíssimo “Minha idéia de diversão”; a Objetiva, o divertido “Como vivem os mortos”; e a Alfaguara, ano passado, o engenhoso – mas um tanto esticado – “Grandes símios”. (Permanece inédito por aqui o livro de estréia de Self, The quantity theory of insanity, “A teoria quantitativa da insanidade”, de contos, que considero seu melhor trabalho.)

Apesar da insistência louvável dos editores, tudo indica que Will Self não bate muito bem com a sensibilidade literária nacional. Será que a sisudez que por aqui costumamos confundir com seriedade nos impede de apreciar o mais alucinado dos herdeiros de Jonathan Swift? Seja como for, é uma pena. Will Self merece uma chance dos leitores, embora não faça literatura para o paladar de qualquer um.

17 Comments

  • Paulo 10/08/2008 at 10:27

    Sérgio, acho que padecemos, leitores e escritores pátrios, de bom-mocismo. Medo de estremecer o estabelecido. De ferir suscetibilidades. Um Will Self por aqui? Nunquinha. Muito menos os desvarios de um Pynchon. Mas, of course, esse é apenas um pitaco de leitor. Um pitaco, visse? Da minha parte, darei uma chance ao Will. Palavra. Abs.

  • Shuiti 10/08/2008 at 12:53

    Pois bem, na opinião de quem lê pouco (dentro de uma média mundial), e que já escreveu um livro de poesias contemporâneas (lançado aqui mas jamais divulgado), vejo que somos ‘obrigados’ a consumir livros conforme a vontade das editoras. Não temos escolha, ou você lê coisas disponíveis de top sellers ou procura em livrarias especializadas a preços não muito convidativos…Por hora, encaro a vida na internet…leitura obrigatória mas as vezes com traduções não muito bem feitas…Cheers

  • Cezar Santos 10/08/2008 at 17:12

    Sérgio,
    Mas será que o Will realmente é tão desvalorizado assim pelo leitorado brasileiro?
    Será que o leitorado tupiniquim realmente está (é) tão depreparado assim para fruir a maravilha que é a literatura do inglesinho?
    Pelo que consta, ele foi incensado na Filp, e a mesa em que ele participou foi das mais concorridas, o que deve ser ou pode ser uma prova de que o cara goza de um certo prestígio por aqui, não?
    E se apenas o primeiro livro dele ainda não foi publicado por aqui (o melhor, como vc informa), então… Quantos outros bons escritores estrangeiros ainda não foram publicados aqui? Certamente, vc que conhece a literatura estrangeira, principalmente a dos EUA, sabe disso como poucos, né?
    Voltando ao livro do Will, esse ai eu li e achei legal. Acho divertido e curioso essa coisa do nonsense, do “irrealismo fantástico e irônico” dele. O dos mortos gostei menos, sempre achei que paródias devem ser mais curtas, menos digressivas. Ele estica demais o texto, acho que o contrato dele com a editora deve pressupor ganho maior por mais páginas…rsss…
    O “Minha idéia…” ainda não li, mas pretendo.
    Na minha opinião, Will Self não faz grande literatura, mas produz bom entretenimento literário, com sacadas interessantissimas. Ele faz a chamada literatura pop com bom nível, mas mesmo nessa raia, e até lá mesmo, na Inglatrerra, tem gente produzindo coisas melhores, concorda?

  • Alexandre 10/08/2008 at 17:27

    Grandes Símios é ótimo. Mas a nova geração está preocupada ou em ser porca e bobinha com histórias de sexo e drogas, tão mal escritas. Ou o hermético, literatura que parece aquele cubo de juntar quadradinhos de cores iguais, literatura chata que não revela quase nada além do exibicionismo levitente desses autores, que acredite não vão para lugar algum senão para dentro do emaranhadiço e do grupinho diminuto que os aplaudem. Grandes Símios!

  • Mr. WRITER 10/08/2008 at 18:09

    “Will Self merece uma chance dos leitores, embora não faça literatura para o paladar de qualquer um.”

    Eis o mistério… Aqui, ao que tudo indica, coisas com tendências irônicas, sarcasticas e de humor negro nunca são aceitas com facilidade.

    O povo parece ser avesso ao politicamente incorreto. Como disseram mais acima, padece-se de um “bom mocismo” em demasia por aqui.
    Tenho “Como vivem os mortos”, está encaixado na fila para ser lido até o fim ano, espero gostar do que Self escreve, pois de fama ele vai bem, sempre ouvi bons comentários sobre ele e daí resolvi checar com meus próprios olhos.

  • Maria Fernanda 10/08/2008 at 19:45

    Minha nossa!!!!!! Esses comentários todos mais parecem um festival de “quem fala mais um português quase arcaico”, um bando superegos medindo sua gramática!!!!!
    Pessoal, fala simplesmente se o autor é bom ou não!!!!
    Pelo que me parece é algo instigante.Ponto.

  • Mr. WRITER 10/08/2008 at 21:16

    Maria Fernanda,
    nada pessoal, mas não nivela a todos por você. Ponto.

  • implicante 10/08/2008 at 22:42

    taí. a primeira vez que ouvi falar do will self foi no ano passado, na flip. fiquei super curiosa e comprei “como vivem os mortos”. mas como estava bastante encantada com outros autores, fui deixando ele ali na estante, meio com medo de me decepcionar muito. mês passado passou o medo e, apesar da edição apresentar várias falhas de revisão e alguns, digamos, exotismos tradutórios, adorei o jeito dele. gostei da mistura e agora com essa postagem fiquei ainda mais curiosa para ler outros.. grazie!

  • tatoca 11/08/2008 at 09:28

    acho que o brasil ainda considera literatura só o que tiver bons-modos, nenhum palavrão, nada que cause disconforto. escritores como marcelo mirisola são considerados sub-literatura. uma pena. mas ainda acredito que isso vá mudar. espero que mude.
    um abraço,

  • joao gomes 11/08/2008 at 12:30

    …se o cara ja teve tres lancamentos por aqui, acho que ele ja deve gozar de boa colocacao na praca. Se se considerar que em media o brasileiro le dois livros por ano. Quando falei isso para um colega ele retrucou:
    “Acho que tem alguem lendo meus livros”.

  • Bruno 11/08/2008 at 12:38

    qualquer merda é incensada na flip. will self é um cara de excelentes premissas, mas que executa muito mal as obras (minto: muito não, mas ele normalmente extrapola o limite de paciência do leitor médio com uma verborragia quase rococó que acabam dando aos livros deles uma paginação exagerada). vide o intraduzível “book of dave”: uma excelente premissa (o diário de um taxista bronco e misógino é encontrado 500 anos no futuro e vira a bíblia do povo que mora no que sobrou de londres), mas com quinhentas páginas… difícil de aturar.

    não nos enganemos: no que pese o will self de fato saber escrever (conhece a língua muito bem) ele só é popular na inglaterra por ser uma figura polêmica, ex-viciado sem papas na língua (uma espécie de tudo que a fernanda young queria ser mas não tem culhão).

  • Reverendo FerAuZ 11/08/2008 at 13:54

    Se os leitores ingleses tivessem que trabalhar muito para pagar suas contas, trocentos impostos diretos e indiretos e ainda juntar uns trocos para emergencias de saude, eles tb não teriam time and money para apreciar a obra do senhor “Vontade Propria” tb.

    Fora alguns pseuco intelectuais de vida facil, que acham q os grandes sucessos do Velho Mundo e do Tio Sam devem ser adorados em todos os cantos do mundo…olhem ao seu redor e parem de fingir que vivem no hemisferio norte.

    Particularmente, achei interessante oq o Sergio falou sobre o autor (gostei até do trocadinho do nome Will Self). Mas qdo sobrar uma grana no meu bolso tenho outros livros para adiquirir primeiro.

  • Fabio Negro 12/08/2008 at 13:42

    O livro aí na sua estante não tá na segunda edição?
    Não é um “praticamente sucesso” esgotar a primeira tiragem?

  • Hefestus 13/08/2008 at 22:48

    Acho que as explicações acima, embora corretas, não esclarecem tudo, porque não se falou ainda que simplesmente Self e o próprio Swift fazem um humor que não encontra eco no grande público brasileiro. Não tem nada de bom mocismo, pelo contrário, não é que tem pouco palavrão, é que ainda é refinado demais, é muito Swift e pouco Toma Lá Dá Cá.
    Sim, sim, esse humor inglês é um pouco o do MAchado, também (O próprio Self – frase estranha – já se disse admirador dele), mas o Machado é hoje um autor mais falado pelo centenário do que propriamente lido, ele é empurrado goela abaixo nas escolas e depois esquecido pela maioria, a não ser aqueles que realmente desenvolvem uma relação pessoal com a literatura no futuro. E acho que nesse time, Will Self tem alguma acolhida. Seus livros são sempre comentados, ganham edição freqüente. Mas nesse pequeno universo nacional dos que realmente lêem mais do que dois livros por ano.

  • Lucio 19/08/2008 at 20:23

    Gosto muito de Will Self, que junto de Tibor Fischer e Magnus Mills são meus escritores atuais preferidos no quesito “humor negro”(!?). “Minha idéia de diversão” que o Sérgio se refere no texto, é meu preferido.

  • Arthur 04/09/2010 at 20:32

    Um comentário 2 anos atrasado, mas é que só agora tô descobrindo o blog. O começo citado lembrou um conto do Joca Reiners Terron, no Sonho Interrompido por Guilhotina. Tô sem o livro agora, pra dize qual conto era, mas se você tiver lido, dá pra sacar qual é.

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