Começos inesquecíveis: Cristovão Tezza

24/05/2009

Tentei de novo falar com você esta madrugada, mas o quintal estava povoado de lobos ganindo contra minha sombra. As feras da tua família são estúpidas o tempo todo, numa insistência que me impressiona. Vou matar todos aqueles bichos, aquelas cadelas negras, apesar da admiração que nutro pelas bestas puras. É um cerco medieval, minha musa de castelo. E como de tudo faço literatura, graças à fidelidade com que desprezo a vida e conforme minha incapacidade aberrativa de viver, acabei achando bonito aquele espetáculo de urros e pulos, de dentes e unhas na escuridão da casa, tudo para preservar a imaculada jovialidade dos teus dezesseis anos. Reconheço: o teu pai, esse monstro de asas de morcego e orelhas de burro, é mesmo um homem sutil, joga com as minhas armas, e mal sabe.

E como, para completar, havia lua cheia – das derramadas – sentei no meio-fio e puxei dois charutos de maconha, com os cães latindo atrás de mim num furor melancólico.

Às vezes, os livros já soam seus primeiros acordes no volume máximo. Como “Trapo” (Record, 2007, 7.a edição), romance lançado em 1988 por Cristovão Tezza.

10 Comments

  • Bruno M. Oliveira 24/05/2009 at 14:38

    Já tinha ouvido falar bem desse romance do Tezza, escritor definitivamente “descoberto” após o sucesso de “O Filho Eterno”.

    Depois de conferir esse começo animador, pretendo pegá-lo para ler.

    Abraço a todos. Bom domingo.

  • KIM RIO APA 24/05/2009 at 20:26

    Pra nós da Familia Rio Apa, que vimos o Tezza embalando seus primeiros escritos, consertando relogio, jogando de ponta direita ( péssimo) e fazendo teatro popular, é uma certeza que se cumpre. Leiam o Ensaio da Paixão e Gran Circo das Américas. Kim Rio Apa

  • Cezar Santos 24/05/2009 at 20:57

    No Trapo já se prenunciavva o escritorzaço que viria…alias que já era realidade, porque esse livro também é muito bom, embora de excessiva tributação à literatura beat, notadamente a Bukowski…
    Tenho a edição primeira, da Brasiliense, quando descobri o cara. Tezza talvez seja o grande nome da literatura brasileira atual.

  • david leinad 25/05/2009 at 10:48

    eita!!!… que começo bom!!… quero mais…

  • W.M.Carvalho 25/05/2009 at 11:08

    Ótimo início!
    Li o “Trapo” mas nem me atentei a essa pérola.

    w.m.carvalho

  • Andre Araujo 25/05/2009 at 12:23

    Pode até parecer estranho, mas gostei mais do ritmo alucinante do Trapo do que d’O Filho Eterno… questão de opinião
    Legal que tem um pessoal que leva o Trapo tão a sério que tenta escrever igual ele, e essas p@#$*….

  • Mr. WRITER 25/05/2009 at 16:05

    Vale a conferida tão logo possível. Engraçado que sábado agora cmprei Filho Eterno em uma promição…

    Espero gostar de ambos, pois de começo o escritor vai muito bem.

  • Pablo 25/05/2009 at 19:50

    A propósito, segue o link para um texto quiçá tão convulso quanto:

    http://www.cristovaotezza.com.br/textos/palestras/p_territorioescritor.htm

  • Roberto Almeida 26/05/2009 at 10:19

    Abri uma vez esse livro, numa livraria qualquer, já faz um tempo…
    Mesmo depois de lida e relida a passagem parece não perder a força…coisa rara…

    Mesmo assim, de Trapo só conheço o começo. Que raiva dá, pensar nos livros que ainda não consegui ler por inteiro.

  • Fernando Torres 26/05/2009 at 17:28

    Tezza tem uma história. É bom lembrarmos disso, pois “Filho Eterno” tende a ofuscar outros títulos magníficos do autor.

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