Começos inesquecíveis: Edgar Allan Poe

05/04/2009

As faculdades do espírito, denominadas analíticas, são, em si mesmas, bem pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. O que delas sabemos, entre outras coisas, é que são sempre, para quem as possui em grau extraordinário, fonte do mais intenso prazer.

Assim, em tom ensaístico e prometendo prazeres que de fato entregaria, o escritor americano Edgar Allan Poe começava a apresentar ao público em 1841 o francês Auguste Dupin, protagonista do conto “Os crimes da Rua Morgue” (Nova Aguilar, “Ficção completa, poesia e ensaios”, tradução de Oscar Mendes). Detetive amador dotado de uma assombrosa capacidade de observação, análise e dedução, Dupin, que depois disso apareceu em mais dois contos apenas, é a matriz escancarada do inglês Sherlock Holmes, que nasceu quatro décadas depois e acabou muito mais famoso do que ele. Eis um começo menos inesquecível em si do que pelo que inaugurou: a literatura policial moderna.

10 Comments

  • Claudio Soares 05/04/2009 at 10:20

    Menos famoso que Homes, o método analítico de Poe, inaugurador da literatura policial [que especialistas atribuem ter surgido em seu artigo sobre “O Turco”, a máquina de jogar xadrez de Wolfgang von Kempelen], também inspirou a criação do professor Augustus S. F. X. Van Dusen, “The Thinking Machine”, personagem de Jacques Frutelle, jornalista e escritor americano, morto no naufrágio do RMS Titanic, que este mês completará 97 anos.

  • isaac 05/04/2009 at 20:02

    eu adoro poe, mas conan doyle é um saco.

  • Mr. WRITER 05/04/2009 at 21:01

    Tem muita gente boa que adorava Edgar Allan Poe.
    Borges era um deles.

  • Outro Paulo 05/04/2009 at 23:25

    Apenas complementando o Mr. Writer, lembro que, ao ser convidado pela Universidade de Belgrano para apresentar palestras sobre os cinco temas que mais o instigaram, Poe foi um dos escolhidos por Borges (os outros foram a imortalidade, o tempo, o livro e Emanuel Swedenborg).

    Para Borges, devemos colocar em perspectiva a noção de que os contos policiais de Poe são chatos ou simplistas – eu, em minha insignificância e pouco conhecimento literário, os acho monótonos – lembrando que só nos é possível achar isso porque crescemos imersos em histórias que desenvolveram esse gênero criado por Poe. Relevância histórica? Pode ser. Mas ainda acho chato.

  • Outro Paulo 05/04/2009 at 23:26

    Esclarecendo: acho os contos policiais de Poe à maioria de suas outras histórias.

    E concordo com quem disse que Doyle é um saco.

  • Outro Paulo 05/04/2009 at 23:27

    “acho os contos policiais de Poe ***inferiores*** à maioria de suas outras histórias”

  • Hiago Rodrigues Reis de Queirós 06/04/2009 at 00:55

    Poe é um professor e ponto. A Carta Roubada é um exagero de talento de repetição, que tem uma resolução simples e irônica.

    Ele se baseou em que para escrever esses contos? Em quem? Dizem que foi no folclore americano… folclore americano? o que é isso?

  • joao gomes 06/04/2009 at 12:11

    Poe é um MESTRE.

    Marketing fez Holmes permanecer. Apenas isso.

  • Felipe 07/04/2009 at 08:41

    Só pra ajudar: Thomas Mann apreciava Poe.

    (Quem leu Buddenbrooks sabe disso)

  • chato 08/04/2009 at 14:11

    Só pela “Filosofia da composição” (uma das mais claras e perfeitas descrições do fazer poético) e pelas “Histórias Extraordinárias” (alguns dos melhores contos de todos os tempos, que o digam Baudelaire e Guy de Maupassant) o Poe já mereceria estar no panteão dos grandes escritores universais. Mas tem ainda “O Corvo”, ensaios e romances. O cara era foda mesmo.

    Um dos melhores contos dele – e de todos os tempos – é “O demônio da perversidade”, que estranhamente é pouco citado. Começa com aquele tom ensaístico tão próprio do autor, e avança para uma estória, como sempre, bastante envolvente e bem contada. Quem antes havia definido esse estranho sentimento de atração que o precipício provoca?

    “Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vem a náusea e a vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos. Pouco a pouco, a nossa náusea, a nossa vertigem, o nosso horror confundem-se numa nuvem de sensações indefiníveis. Gradativamente, e de maneira mais imperceptível, essa nuvem toma forma, como a fumaça da garrafa donde surgiu o gênio nas Mil e uma Noites. Mas fora dessa nossa nuvem à borda do precipício, uma forma se torna palpável, bem mais terrível que qualquer gênio ou qualquer demônio de fábulas. Contudo não é senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos ossos com a feroz volúpia do seu horror. É, simplesmente, a idéia do que seriam nossas sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura.

    E esta queda, este aniquilamento vertiginoso, por isso mesmo que envolve essa mais espantosa e mais repugnante de todas as espantosas e repugnantes imagens de morte e de sofrimento que jamais se apresentaram à nossa imaginação, faz com que mais vivamente a desejemos. E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela.”

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