Começos inesquecíveis: Ernesto Sabato

23/11/2008

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne; suponho que o processo esteja na lembrança de todos e que não seja necessário dar maiores explicações sobre minha pessoa.

E assim, violentamente, entramos no túnel, ou melhor, em “O túnel” (Ballantine Books, edição bilíngüe, espanhol-inglês, 1988 – aqui em tradução da casa), romance lançado em 1948 pelo argentino Ernesto Sabato. Festejada por Albert Camus e geralmente classificada como “existencialista”, a narrativa seca e muitíssimo bem escrita do amor infeliz do misantropo Juan Pablo por María – “só existiu um ser que entendia minha pintura” – ainda conserva uma força sinistra. Luz no fim do túnel? Não tem nenhuma. A última frase, não menos inesquecível que a primeira, é prova disso:

E os muros deste inferno serão, assim, cada dia mais herméticos.

13 Comments

  • Thiago Maia 23/11/2008 at 11:02

    Sabato considera Nabokov extravagante, e eu os considero os mais injustiçados pelo ético Prêmio Nobel. Mais que Joyce (que não li…) e Proust. E muito mais que Borges.
    O túnel & Sobre Heróis e Tumbas (o único título de que me lembro ter escrevido aqui com todas as iniciais maiúsculas), sinceramente, impedem-me de passar por certa esquina em meu bairro sem sentir arrepio: não há nada lá que eu consiga citar como motivo disso, ou que eu conseguisse apontar a um de vocês que estivesse a meu lado, mas me arrepia.
    Li o SHT em 2003, sendo daquela coleção laranja-e-preto e maravilhosa da Planeta De Agostini vendida em banca, e ESTE livro, insisto, me causa alguma agoniazinha.

  • Isabel Pinheiro 23/11/2008 at 18:27

    Que interessante, Thiago. Mais interessante ainda se você não morar na Argentina. “O túnel” também me deixou com uma enorme agonia, mas não tão explícita. E agora você me fez ficar com vontade de ler “Sobre heróis e tumbas”. Um abraço

  • Mariana Sanchez 23/11/2008 at 19:49

    El Túnel é um dos romances latino-americanos mais incríveis de todos os tempos, ótima lembrança esta dos “começos inesquecíveis”, Sérgio. E bacana que tenha sido lançado reentemente no Brasil o livro de ensaios “A Resistência”, também do Sábato. Os brasileiros tinham que ler mais esse cara, sem dúvidas. Abraços!

  • Saint-Clair Stockler 23/11/2008 at 20:48

    Adoro o Sábato. Pena que os livros dele custem tão, mas tãaaao caro. Você tem algum dele sobrando, Sérgio, pra doar pra um pobre universitário abaixo da linha de pobreza? Principalmente os romances.

    Não só o Sérgio. Alguém? Pode ser em espanhol também… Ou francês. Só não pode ser em inglês, for now.

  • Adair 24/11/2008 at 10:20

    A expressão “luz no fim do túnel” sempre me intrigou. No fim de todo túnel sempre há luz. O interessante seria encontrar luz no meio do túnel.

  • Thiago Maia 24/11/2008 at 11:17

    Cara Isabel, o SHT é mais barrigudo que O túnel não só devido ao tamanho, e talvez por isso não seja a obra-prima do Sabato para muitos. Mas para mim é, e torço pra que você o leia logo. Quanto à tal esquina, eu moro no ABC e acredito que, então, a vista que tenho quando caminho é facilmente confundível com as vigentes em muitas outras regiões metropolitanas da América do Sul.

  • Mariana Sanchez 24/11/2008 at 11:33

    Saint-Clair, tenta comprar em sebos, acha fácil e bem mais barato.
    Suerte!

  • Daniel Brazil 24/11/2008 at 17:41

    Adair, visite uma mina de carvão (ou qualquer outra mina) e vai ver um túnel sem luz no final…

  • rômulo 25/11/2008 at 11:24

    Descobri E. Sábato na mesma coleção laranja e preta que o Thiago já citou, foi um encontro realmente extraordinário pra mim, já deve ter acontecido com algum de vocês de estar lendo um livro e o mesmo parecer ser a leitura certa naquele momento, como se o autor te conhecesse e tivesse escrevendo aquilo para você. Depois de “Sobre heróis e tumbas”, li “O túnel” e um livro de memórias, “Antes do fim”, sempre encontrei nos seus textos muito do “encontro” que tive ao ler seu primeiro livro, um autor que me acompanha sempre e que admiro.

  • El Torero 25/11/2008 at 15:52

    Coincidências…estou de mudança e reencontrei, quinta-feira um capitulo do Sobre Heróis e Tumbas em formato de bolso que já li e tresli, já havia procurado em sebos o romance completo e nunca achei. Sexta encomendei via estante virtual, 15 pilas vai me custar já com frete, domingo aparece um “começo…” do Sábato.

  • André Gonçalves 25/11/2008 at 15:55

    Um começo arrebatador.
    Sérgio, pode me dar um endereço para eu mandar algo para você?
    Abraço.

  • Chico 25/11/2008 at 16:03

    Para quem eh do Rio…de 27 a 30 de Novembro, a Primavera dos Livros, nos jardins do Museu da República.

    Para quem reclama de precos… a entrada eh franca , e os descontos de até 50%. Editoras aparentemente confirmadas Cosac Naify, 7Letras, Aeroplano, Editora 34…

    A proposito Castel lembra mesmo um pouco o Meursault.

    E a resenha sobre os livros da olimpiada, sem Caps Lock, como eh teu estilo, esta muito justa.

  • flavio 26/11/2008 at 14:56

    Por uma grande coincidência li este livro faz menos de um mês. A narração chega a ser um pouco irritante, algumas vezes. Mas o capítulo – já no finalzinho do livro – em que o protagonista explica o “túnel” do título é uma das melhores coisas que já li.

    um abraço

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